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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Ki Tavô - Lembre de onde você veio.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 50Ki Tavô (Quando vier)

Devarim/Deuteronômio 26:1-29:8

Haftará (separação) Is 60:1-22.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 13:1-23; Atos 28:17-31.


Lembre de onde você veio.


Lembre de onde você veio. Essa frase resume, com uma simplicidade quase perigosa, o cerne da parashá Ki Tavô. E digo "perigosa", porque é fácil ouvir isso como um convite à nostalgia, um "não esqueça de onde você saiu" de forma sentimental. Mas na Torá essa memória tem uma função muito mais dura e mais prática: ela é o que sustenta a obediência. Quem esquece de onde veio, esquece por que obedece.

Essa porção nos conduz a uma pergunta que parece simples, mas alcança profundamente o coração: você se lembra de onde veio? Quando Yisrael entrasse na terra que o Eterno havia prometido, não deveria permitir que a prosperidade apagasse sua memória. Ao levar as primícias diante do Eterno, cada israelita deveria declarar sua história: de onde seus pais vieram, como desceram ao Egito, como foram afligidos, como clamaram ao Eterno e como Ele os resgatou com mão forte.

Lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. Por isso quero te convidar a mergulhar comigo nesse estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A Torá não trata "lembrar" como um mero sentimento. A palavra Zachor (זכור), que em hebraico significa “lembra-te” ou “lembrar” é sempre um mandamento que produz ação, como vemos nos seguintes exemplos: lembra-te do dia que saíste do Egito (16:3), lembra-te do que Amaleq te fez (25:17), lembra-te dos dias antigos (32:7). E o oposto, "pen tishkach", que significa “para que não te esqueças”, aparece como a grande advertência em Devarim 8:11-18. Ali Moshê descreve exatamente o que vai acontecer: o povo vai prosperar na terra, vai construir casas boas, ver seus rebanhos e sua prata se multiplicarem, e nesse conforto vai dizer no coração "minha força e o poder da minha mão me trouxeram esta riqueza". O esquecimento não vem como rebelião barulhenta. Vem como prosperidade silenciosa.

Por isso, no início dessa parashá, lemos a orientação de quando o povo chegasse a terra, eles deveriam levar as primícias das colheitas da terra e entregá-las ao sacerdote como sinal de gratidão, e ao entregar eles deveria declarar uma bênção especial, que lembraria a história do povo:

Meu pai era um arameu errante, e desceu ao Egito em número pequeno…” Devarim 26:5

A primeira coisa que encontramos, portanto, é memória ou lembrança. Yisrael deveria lembrar de onde veio para reconhecer quem o havia trazido até ali. E se somos servos do Eterno, essa mensagem também nos confronta. Porque, quando começamos a experimentar crescimento, conhecimento, provisão ou reconhecimento, existe sempre o perigo de esquecermos o caminho pelo qual o Eterno nos conduziu.

Lembre de onde você veio. Não importa se você veio do sistema religioso, se foi pastor, como eu fui. Se era um obreiro ou membro de banco. Se era de qualquer outra religião. Não importa se veio do judaísmo ortodoxo e agora reconhece Yeshua como mashiach em detrimento de todos que não aceitam isso. Lembre-se de quem o Eterno era quando você ainda não compreendia muitas coisas. Ele tinha planos e permitiu que eu e você passássemos por onde passamos, assim como permitiu tantas coisas que aconteceram com Yisrael. Lembre-se das vezes em que Ele abriu caminhos, corrigiu seus passos, sustentou você e colocou Sua Palavra diante dos seus olhos. Afinal, você não chegou onde está aleatoriamente. Entretanto, lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. É por isso que Ki Tavô abre exatamente com algo próximo a "lembre de onde você veio", inserido aqui em forma de uma prática. O agricultor que traz os bikkurim precisa recitar, em voz alta, diante do sacerdote: "um arameu errante era meu pai..." (26:5). Ele conta a descida ao Egito, a escravidão, o clamor, a redenção, mesmo que ele mesmo nunca tenha pisado lá. A Torá o obriga a lembrar antes de agradecer, e a agradecer antes de comer do próprio fruto. A sequência é rígida: lembrar, reconhecer, agradecer, agir. Nenhuma dessas etapas substitui a outra. E isso nos encaminha para o primeiro tópico desse estudo.


1. Não esqueça quem o Eterno é

Como vimos na introdução, ao apresentar as primícias, Yisrael não dizia simplesmente: “Eu tenho uma boa colheita”. Eles começavam contando uma história. Havia um passado de peregrinação, o Egito, a aflição, o clamor e houve o resgate. Somente depois vinha a declaração:

E o Eterno nos tirou do Egito com mão forte… Devarim 26:8

A pessoa estava diante do sacerdote com o fruto da terra, mas sua memória estava no Egito. Por quê? Porque o Eterno queria que Yisrael entendesse que aquilo que possuía naquele momento não era fruto apenas de sua própria capacidade. Era necessário olhar para a colheita e lembrar do deserto, para a liberdade e lembrar da servidão, para a abundância e lembrar da necessidade e olhar para a terra e lembrar daquele que havia prometido.

Esse princípio aparece também em Devarim 8:2:

E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Eterno, teu Elohim, te conduziu estes quarenta anos no deserto...

O caminho deveria ser lembrado. Até mesmo os períodos difíceis deveriam ser lembrados. Porque aquilo que vivemos no caminho também pode nos ensinar quem é o Eterno. Talvez uma das maiores tentações da vida seja querer lembrar somente de onde estamos e esquecer de onde viemos. Mas Ki Tavô nos chama: Lembre de onde você veio. Não para permanecer no passado, mas para reconhecer a mão do Eterno no caminho.

Quem esquece de onde veio pode começar a atribuir a si mesmo aquilo que recebeu. Depois de advertir Yisrael a lembrar do caminho, Moshê apresenta uma advertência: Guarda-te, para que não te esqueças do Eterno, teu Elohim… Devarim 8:11

E pouco depois: Não digas no teu coração: A minha força e o poder da minha mão me adquiriram esta riqueza. Devarim 8:17

Aqui encontramos algo muito sério, pois o esquecimento não é apresentado apenas como uma falha de memória. Ele pode mudar a maneira como enxergamos nossa própria vida. Quando esquecemos de onde viemos, podemos começar a pensar: Eu cheguei aqui sozinho; Eu consegui porque sou forte; Eu sei porque sou inteligente; ou Eu tenho porque trabalhei mais do que todos. Mas Moshê responde: Antes te lembrarás do Eterno, teu Elohim, porque é Ele que te dá força… Devarim 8:18.

A memória, portanto, protege o coração contra a soberba.

Por isso, lembrar de onde viemos é também uma forma de permanecer humildes diante do Eterno. Quanto mais crescemos em conhecimento, mais precisamos lembrar que a Palavra não nos foi dada para nos tornar superiores aos outros, mas para nos ensinar a andar diante do Eterno. Portanto, veremos no próximo tópico o que lembrar deve produzir.


2. Lembrar produz gratidão

As primícias também nos ensinam que a memória deve produzir gratidão. Depois de recordar a história do povo, o israelita declara: E agora, eis que trouxe as primícias do fruto da terra que tu, ó Eterno, me deste. Devarim 26:10.

Observe a expressão: “que tu me deste.” A pessoa trabalhou, plantou, esperou, colheu, mas reconheceu: Foi o Eterno quem me deu.

Essa é a diferença entre simplesmente possuir algo e reconhecer a fonte daquilo que recebemos. David expressa algo semelhante: Que darei ao Eterno por todos os seus benefícios para comigo? Tehillim 116:12. O Salmo 103 segue essa mesma lógica: bendize, ó minha alma, ao Eterno, e não te esqueças de nenhum de Seus benefícios, e o Salmo 78 mostra o outro lado da moeda: gerações inteiras que se corromperam porque "esqueceram Suas obras". Lembrar de onde veio não é opcional na teologia bíblica. É a condição para continuar andando direito.

A gratidão verdadeira não é apenas verbal, ela pergunta: O que farei com aquilo que recebi? Se o Eterno me deu conhecimento, como usarei esse conhecimento? Me deu recursos, como tratarei o necessitado? Uma família, como tratarei aqueles que estão dentro dela? Se me deu entendimento das Escrituras, como colocarei essa compreensão em prática? Ensinou-me um mandamento, vou apenas falar sobre ele ou vou obedecê-lo? Assim, a gratidão conduz naturalmente à obediência.

Não basta conhecer as palavras: é necessário guardá-las. Esse é um dos grandes temas de Ki Tavô. Yisrael deveria escrever as palavras da Torá nas pedras. Escreverás sobre elas todas as palavras desta Torá. Devarim 27:8.

As palavras deveriam estar diante dos olhos. Mas o propósito não era simplesmente possuir um memorial escrito. Em Devarim 27:9–10, Moshê declara:

...Hoje te tornaste povo do Eterno, teu Elohim. Portanto, obedecerás à voz do Eterno, teu Elohim, e cumprirás os seus mandamentos...

Perceba a ligação:

- palavras escritas → ouvir → obedecer → viver a aliança.

Isso continua sendo um grande desafio para todos nós. Podemos conhecer muito sobre as Escrituras e ainda assim não obedecer, estudar durante anos e continuar repetindo comportamentos que o Eterno já nos mostrou que precisam mudar. Podemos saber citar um mandamento e não praticá-lo, falar sobre amor ao Eterno e, ao mesmo tempo, ignorar aquilo que Ele ordenou.

Por isso, Yeshua ensinou: Se me amais, guardareis os meus mandamentos. Yochanan 14:15.

E novamente: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. Yochanan 14:21.

O amor, segundo essas palavras, não permanece apenas no sentimento. O amor se manifesta na obediência.


3. Yeshua não separou amor de obediência

Quando observamos os ensinos de Yeshua, como os que citei anteriormente, encontramos a mesma direção presente em Devarim. Ele não ensinou que conhecer as palavras era suficiente. Em Mattityahu 7:24, declarou: Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente...

Existem duas ações: ouvir e praticar. Não apenas ouvir. Não apenas estudar. Não apenas ensinar. Deve ter também a ação de praticar.

Yeshua também afirmou: Não penseis que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Mattityahu 5:17. Portanto, seus ensinos devem nos conduzir a uma vida coerente com as palavras do Eterno. E os talmidim continuaram anunciando essa mesma verdade. Yochanan escreveu: Nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. 1 Yochanan 2:3. E: Porque este é o amor ao Eterno: que guardemos os seus mandamentos.1 Yochanan 5:3.

Assim, encontramos uma linha contínua:

- Devarim → Yeshua → talmidim.

Todos traçam a mesma linha de ensino: conhecer, lembrar, amar, guardar e praticar.


4. Os sábios e a importância de recordar

Entre os sábios de Yisrael existe uma forte valorização da memória como elemento essencial para preservar a identidade e a transmissão das palavras recebidas. Isso aparece de maneira particularmente marcante na Mishná, Pirkei Avot 1:4, quando é enfatizada a importância de aprender, receber e transmitir.

Também encontramos em Avot 3:21 a conhecida afirmação de que, quando não há conhecimento da Torá, não há verdadeiro caminho; e quando não há prática, o conhecimento não permanece suficiente.

Embora essas palavras sejam posteriores ao TaNaK, elas tocam uma questão já presente em Devarim: o conhecimento precisa produzir uma vida coerente. Entretanto, devemos manter uma ordem correta: primeiro a Palavra do Eterno; depois toda reflexão humana deve ser examinada à luz dela.

Como diz o próprio Moshe: Não acrescentareis à palavra que vos ordeno, nem diminuireis dela. Devarim 4:2

Portanto, qualquer ensinamento dos sábios pode servir como reflexão, mas não pode ocupar o lugar da Palavra do Eterno.


5. Como lembrar de onde viemos na vida diária?

A pergunta agora deixa de ser apenas bíblica e passa a ser prática. Como viver isso amanhã de manhã?

- Ao acordar, lembre-se: Antes de começar o dia, reconheça que sua vida não pertence a você de maneira absoluta.

- Ao trabalhar, lembre-se: Seu trabalho também deve ser conduzido por honestidade e justiça.

- Ao lidar com dinheiro, lembre: O desejo de possuir não pode governar seu coração.

- Ao falar com sua família, lembre: As pessoas próximas também são parte do lugar onde sua obediência será demonstrada.

- Quando alguém lhe fizer mal, lembre: O Eterno também observa como você responde à injustiça.

- Quando encontrar alguém necessitado, lembre: Ki Tavô não separa adoração de responsabilidade para com o próximo.

- Quando chegar o Shabat, lembre: O tempo pertence ao Eterno.

- Quando tiver uma oportunidade de transgredir sem que ninguém saiba, lembre: o Eterno sabe.

E quando perceber que falhou, não esconda seu erro atrás de palavras. Se corrija. Devarim 30 apresenta justamente o caminho do retorno ao Eterno e à obediência.

O coração que lembra continua humilde e ensinável. Talvez essa seja uma das aplicações mais importantes. Quem lembra de onde veio não precisa provar que já chegou, nem precisa fingir que sabe tudo. Não despreza quem ainda está aprendendo e nem precisa transformar conhecimento em orgulho. Pelo contrário, a memória produz humildade. O homem que se lembra de que um dia não sabia entende que ainda pode aprender. Aquele que se lembra de que já caiu compreende a necessidade de permanecer vigilante. E quem se lembra de que foi corrigido aprende a receber correção. Quem se lembra de que foi resgatado aprende a agradecer. E aquele que se lembra de onde veio permanece disposto a obedecer.

Devarim 30 apresenta uma promessa extraordinária. Mesmo depois de Yisrael experimentar as consequências da infidelidade, Moshê declara: E te converterás ao Eterno, teu Elohim, e obedecerás à sua voz… Devarim 30:8

O retorno não termina simplesmente com uma mudança de direção emocional, ele produz obediência à voz do Eterno. Isso também nos ajuda a compreender o papel dos ensinos de Yeshua. Se seus ensinos nos fazem lembrar do Eterno, reconhecer nossos caminhos errados, retornar a Ele e guardar Seus mandamentos, então estamos compreendendo corretamente a direção de suas palavras. O propósito não é criar pessoas que apenas falam sobre o Eterno. É formar pessoas que vivem diante do Eterno.

Concluindo nosso estudo, aprendemos que a parashá Ki Tavô nos coloca diante das pedras, das primícias, da terra, das bênçãos, das consequências da desobediência e da renovação da aliança. Mas por trás de tudo existe uma mensagem importante: não se esqueça.

Não se esqueça de onde você veio, de quem o Eterno é, do que Ele fez, dos caminhos pelos quais Ele conduziu você, das palavras que Ele colocou diante de você. E, principalmente, não permita que a memória se torne apenas uma história bonita.

Transforme a memória em gratidão, a gratidão em amor, o amor em obediência. Porque aquele que realmente se lembra não apenas diz: “O Eterno me trouxe até aqui.” Ele também pergunta: “Eterno, como queres que eu viva agora?” Essa talvez seja a grande mensagem de Ki Tavô para nossa caminhada: Lembre de onde você veio, para não esquecer a quem você pertence. E, ao lembrar a quem você pertence, guarde Seus mandamentos e pratique Suas palavras. Pois, como está escrito: “E agora, Israel, que é o que o Eterno, teu Elohim, pede de ti? Senão que temas o Eterno, teu Elohim, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Eterno, teu Elohim, de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Eterno…” Devarim 10:12–13

Lembre de onde você veio, quem o Eterno é, e o que Ele fez. E viva hoje em obediência à Sua Palavra.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Ki Tetse - Limpeza e Organização: O Eterno anda na sua casa.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 49Ki Tetse (Quando você sair)

Devarim/Deuteronômio 21:10-25:19

Haftará (separação) Is 54:1-10.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mc 10:2-12; 12:18-27;


Limpeza e Organização: O Eterno anda na sua casa.


Imagine entrar em uma casa onde não há limpeza. Há sujeira por todo lado, objetos acumulados, coisas quebradas que nunca são consertadas e entulhos que foi se acumulando aos poucos. Talvez ninguém perceba imediatamente, talvez até nos acostumemos com aquela situação. Mas existe algo interessante: aquilo que vemos ao nosso redor quase sempre revela alguma coisa sobre a maneira como estamos cuidando daquilo que recebemos.

Agora imagine que o Eterno lhe dissesse: “Eu ando no meio da sua casa.” Essa frase muda tudo. O Eterno não se preocupa somente com aquilo que fazemos diante de uma assembleia. Ele também se importa com aquilo que fazemos quando ninguém está olhando. Ele se importa com a maneira como tratamos nossa casa. Com a maneira como cuidamos das nossas coisas. Com a sujeira que permitimos acumular. Com a desordem que poderia ser evitada. Com a responsabilidade que transferimos para outra pessoa. E, acima de tudo, com aquilo que existe dentro de nós.

O Eterno anda no meio do acampamento. E se Ele anda no nosso acampamento, então nossas pequenas tarefas também podem se tornar uma expressão de amor, responsabilidade e temor. Hoje vamos olhar para aquilo que normalmente consideramos pequeno e descobrir que, nas Escrituras, as pequenas coisas também revelam o coração. Por isso, não saia daí para não perder nada desse estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Há algo muito significativo em uma parte dessa parashá. Em Devarim 23:12–14, no meio de uma porção cheia de assuntos que consideramos grandes como guerra, casamento, justiça, pobreza, herança e relações sociais, o Eterno ensina algo aparentemente pequeno: onde o homem deveria fazer suas necessidades e como deveria deixar o local depois de usá-lo.

O texto diz que deveria haver um lugar fora do acampamento, que cada homem deveria levar consigo uma ferramenta para cavar e que, depois de fazer suas necessidades, deveria cobri-las. A razão apresentada pelo próprio texto é ainda mais importante: “porque o Eterno, teu Elohim, anda no meio do teu acampamento” (Devarim 23:14). O cuidado com aquilo que normalmente escondemos dos olhos dos outros fazia parte da maneira como Yisrael deveria viver diante do Eterno.

Isso nos ensina algo muito humano: há coisas que ninguém vê, mas que o Eterno vê. E justamente por isso, não devemos cuidar apenas daquilo que aparece para os outros. O acampamento precisava estar limpo mesmo quando ninguém estivesse olhando. A casa também precisa ser cuidada quando não haverá visitas. Nossas coisas precisam ser organizadas mesmo quando ninguém irá elogiá-las. Nossa vida precisa ser colocada em ordem mesmo quando não existe plateia.


1 - O Eterno se importa com os detalhes

O texto original fala especificamente do acampamento de guerra, em Devarim 23:10 o verso começa dizendo que: "...quando saíres ao acampamento contra teus inimigos...", não da casa em geral. É uma lei de pureza do campo de batalha, ligada à presença de Elohim indo com o exército. A transição para "sua casa" é um drash, uma aplicação homilética válida, mas não é o pshat, isto é, o sentido literal do texto.

Às vezes imaginamos que o Eterno só se preocupa com aquilo que consideramos grandioso. Pensamos em oração, culto, estudo das Escrituras, grandes decisões, grandes acontecimentos. Mas Devarim 23 nos lembra de algo muito diferente. O Eterno se preocupa até com aquilo que fazemos depois de usar o banheiro. Isso é extraordinariamente simples e, ao mesmo tempo, profundo. Yisrael estava no deserto, vivendo em um acampamento. Milhares de pessoas compartilhavam aquele espaço. Se cada um fizesse suas necessidades onde quisesse, rapidamente o ambiente se tornaria insalubre. Por isso o Eterno estabelece uma instrução prática: tenha um lugar, leve uma ferramenta, cave, cubra e mantenha o acampamento em condições adequadas. Não é apenas uma questão de aparência. É responsabilidade. E podemos transportar esse princípio para a vida cotidiana sem transformar o texto em uma alegoria que ele, originalmente, não pretendia ser. O mandamento fala literalmente sobre o acampamento, mas o princípio de responsabilidade que ele revela pode nos ensinar muito sobre nossa maneira de viver.

Quem cuida das pequenas coisas demonstra quem é. É muito fácil querer cuidar de grandes coisas enquanto negligenciamos as pequenas. Queremos uma grande missão, mas não conseguimos manter nossa própria casa em ordem. Queremos ensinar outras pessoas, mas não conseguimos cuidar das coisas que o Eterno colocou sob nossa responsabilidade. Queremos falar sobre santidade, mas deixamos desordem, desperdício e negligência acumularem-se ao nosso redor. A Escritura nos chama para algo mais simples: comece pelo que está diante de você.


2 - Nossa casa também revela nossa responsabilidade

Contemplando o TaNaK, vemos Mishlei 31 apresentando uma mulher que não é admirada simplesmente por sua aparência, mas por sua capacidade de cuidar daquilo que está sob sua responsabilidade. Esse texto está inserido na Ode à mulher virtuosa, que declaramos para as esposas todo shabat. O texto diz:

Cuida do bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça.” Mishlei 31:27

Esse verso é muito prático. Ele fala de uma pessoa que observa a casa, percebe o que precisa ser feito e não espera que tudo se resolva sozinho.

Pouco antes, a mesma mulher é apresentada levantando-se cedo, providenciando alimento para sua casa, trabalhando com as próprias mãos, examinando uma propriedade, plantando uma vinha e administrando aquilo que possui (Mishlei 31:13–19). Ela não é apresentada como alguém obcecado por aparência, mas como alguém responsável. Isso muda nossa maneira de enxergar a organização da casa. Cuidar da casa não é simplesmente deixar tudo bonito para receber visitas. É cuidar daquilo que o Eterno colocou em nossas mãos, lavar aquilo o que está sujo, consertar aquilo que está quebrado, guardar o que precisa ser guardado, jogar fora aquilo que não serve mais e saber onde estão nossas coisas. Não podemos permitir que a desordem se transforme em um modo permanente de viver. E isso vale tanto para homens quanto para mulheres. A responsabilidade pelo ambiente em que vivemos não deve ser colocada sobre uma única pessoa. Uma casa é compartilhada por pessoas, e cada uma deve aprender a cuidar do que usa.

- Cuidar das coisas também é uma forma de gratidão

Existe outro princípio importante nas Escrituras: não devemos tratar com desprezo aquilo que recebemos, conforme vimos na semana passada. Devarim 22:1–3 ordena que, quando alguém encontrar o boi, a ovelha ou qualquer coisa perdida de seu irmão, não deve simplesmente ignorar. Deve guardar e devolver. Isso exige cuidado. Se algo não nos pertence, cuidamos porque pertence ao nosso próximo. Se algo nos pertence, devemos igualmente aprender a administrá-lo.

Há uma diferença entre possuir coisas e ser possuído pelas coisas. O Eterno nunca condenou o fato de uma pessoa possuir bens. Avraham tinha rebanhos e riquezas; Yitschak prosperou; Yaakov possuía muitos bens; Yosef administrou enormes recursos no Egito. O problema não está simplesmente nas coisas. O problema começa quando as coisas passam a governar o coração. Por isso, Devarim 8:17–18 adverte Yisrael para que, ao prosperar, não diga: “A minha força e o poder da minha mão me adquiriram estas riquezas.” O homem deveria lembrar-se de quem lhe dava capacidade para produzir.

Quando entendemos isso, cuidar de nossas coisas deixa de ser mera preocupação material. Passa a ser boa administração. Se o Eterno colocou uma casa em nossas mãos, cuidemos dela. Se colocou ferramentas, cuidemos delas. Se colocou roupas, alimentos, móveis, livros ou recursos financeiros em nossas mãos, não sejamos desperdiçadores. Não precisamos transformar uma casa simples em uma vitrine. Uma casa pode ser humilde e muito bem cuidada. Pode haver móveis antigos, objetos simples e pouca riqueza, mas, ainda assim, existir ordem, limpeza e respeito.

- A Escritura não despreza o trabalho doméstico

Isso aparece com muita força em Mishlei 31. A mulher virtuosa descrita ali compra, vende, trabalha, prepara alimento, produz roupas, administra propriedades e cuida de sua casa. Seu valor não está em ostentar riqueza, mas em sua diligência. E há um verso muito bonito:

Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida.”Mishlei 31:12

A casa deveria ser um lugar onde as pessoas fazem bem umas às outras. Isso significa que limpeza e organização também precisam ser acompanhadas de consideração. Uma casa perfeitamente organizada pode ser um lugar terrível se todos vivem brigando. E uma casa muito simples pode ser um lugar maravilhoso se existe respeito, cuidado e amor. Portanto, não devemos transformar a mensagem de Devarim 23 em uma obsessão por limpeza. O objetivo não é ter uma casa perfeita. É ter uma casa responsável.

Há pessoas que vivem angustiadas porque nunca conseguem manter tudo impecável. Há crianças, idosos, trabalho, doença, imprevistos, dificuldades financeiras. A Escritura não está exigindo uma casa de revista. Ela nos ensina responsabilidade. Faça o que puder. Não deixe deliberadamente aquilo que pode ser cuidado. Não transforme negligência em estilo de vida. E não despreze aquilo que o Eterno colocou em suas mãos.


3 - Os sábios também perceberam que a limpeza comunica caráter

Os sábios de Yisrael trataram a limpeza e o cuidado pessoal como aspectos importantes da conduta de alguém que representa a Torah. Não por acaso criaram diversas halachot.

Em Shabbat 114a, Rabbi Yishmael ensina, a partir da troca de vestimentas dos kohanim, que a Torah ensina que as roupas usadas para determinada tarefa não deveriam necessariamente ser usadas para outra tarefa mais honrosa. A ideia apresentada é muito simples: quando uma roupa ficou suja em determinado trabalho, é apropriado trocar antes de realizar outra atividade. Na mesma passagem, Rabbi Yochanan afirma que um talmid chacham deveria cuidar de sua aparência e de suas roupas. A preocupação não era luxo. O problema era permitir que a aparência desleixada trouxesse desprezo sobre aquele que estudava Torah. A passagem chega a dizer que um sábio deveria ser reconhecido também pelo cuidado com sua roupa.

Isso é muito interessante porque mostra que os sábios não enxergavam uma oposição entre conhecimento das Escrituras e cuidado com coisas aparentemente pequenas. Estudar muito e cuidar pouco daquilo que está ao nosso redor não é sinal de grandeza. A Mishná e a Gemara estão cheias de discussões complexas, mas os sábios também falavam de roupas, sapatos, banho, alimentação, higiene e organização. A vida real não acontece apenas quando estamos estudando um texto. Ela acontece quando levantamos da cadeira, vamos para a cozinha, trabalhamos, cuidamos dos filhos, limpamos a casa e colocamos as coisas de volta no lugar.

Mas existe um perigo no outro extremo. É justamente aqui que as palavras de Yeshua são muito importantes.

Yeshua conhecia a preocupação dos fariseus com purezas externas e utilizou a imagem de um recipiente para mostrar que não adianta limpar somente aquilo que aparece. Ele disse:

Primeiro limpa o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.” Mattityahu 23:26

O ensinamento nesse verso é poderoso. O mashiach deixa claro que o Eterno realmente se importa com o exterior. E Devarim 23 prova isso. O acampamento deveria ser limpo. Mas o Eterno também se importa com o que está dentro. Podemos ter a casa impecável e o coração cheio de rancor. Podemos organizar perfeitamente os armários e não conseguir organizar nossos relacionamentos, ter roupas limpas e palavras sujas, lavar pratos enquanto alimentamos conflitos dentro da família, cuidar da aparência enquanto escondemos injustiça. Portanto, vemos que Yeshua não anulou o cuidado exterior. Ele mostrou que o exterior sozinho não é suficiente. A limpeza verdadeira precisa começar no interior e alcançar o exterior.

Uma casa limpa não precisa ser uma casa cara. É importante que isso seja dito, porque vivemos em uma época em que organização e limpeza muitas vezes foram transformadas em mercadoria. Não precisamos comprar tudo novo, não precisamos ter móveis caros, não precisamos possuir dezenas de recipientes organizadores nem copiar casas de revistas. O princípio bíblico é muito mais acessível do que se pensa. Uma pessoa pobre pode ter uma casa limpa e uma pessoa rica pode ter uma casa desorganizada. A diferença não está necessariamente na quantidade de recursos, mas na maneira como tratamos aquilo que temos.

Mishlei 21:20 diz que há tesouro desejável e azeite na habitação do sábio, enquanto o insensato os devora. A questão é apenas uma boa administração. Quem cuida conserva, mas quem desperdiça precisa constantemente substituir. Quem organiza encontra, mas quem acumula sem critério perde espaço, tempo e tranquilidade. E aqui podemos perceber uma aplicação muito prática de Luka 16:10: Yeshua ensina que aquele que é fiel no pouco também será fiel no muito. A maneira como tratamos uma pequena coisa revela muito sobre nós.

E com isso aprendemos que a nossa casa é uma escola de caráter. Talvez essa seja uma das aplicações mais importantes nesse contexto. As crianças aprendem muito mais observando do que ouvindo. Se dizemos: “Não deixe lixo no chão”, mas jogamos nossas próprias coisas em qualquer lugar, elas aprendem mais com nosso comportamento do que com nossas palavras. Quando ensinamos gratidão, mas desperdiçamos comida, existirá uma contradição e ela perceberá. Ao falarmos sobre cuidado, mas quebrarmos objetos e simplesmente os substituímos, ensinamos outra coisa. Se ensinamos responsabilidade, mas sempre deixamos para outra pessoa aquilo que nós mesmos poderíamos fazer, nossos filhos percebem.

A casa é uma pequena escola, ali aprendemos paciência, responsabilidade, aprendemos a compartilhar, a guardar, a limpar. Ali aprendemos a reparar, a pedir perdão, a respeitar o trabalho do outro. E, principalmente, aprendemos que ninguém deveria considerar qualquer tarefa digna demais para suas mãos.


4 - A casa de um homem também fala sobre sua capacidade de cuidar

Os escritos dos talmidim trazem um princípio muito direto. Shaul escreve que aquele que não sabe cuidar de sua própria casa terá dificuldade para cuidar de uma responsabilidade maior (1 Timotheo 3:5). Isso não significa que uma casa precise ser perfeita. Significa que a maneira como administramos nossa própria vida importa. Antes de querer administrar grandes coisas, precisamos aprender a cuidar das pequenas. Antes de querer ensinar outros sobre responsabilidade, precisamos aprender responsabilidade. E antes de querer corrigir a desordem dos outros, precisamos olhar para aquilo que está debaixo de nosso próprio teto. E isso vale para todos nós.

Até mesmo o rei Hizkiyahu nos dá uma advertência. Há um episódio muito interessante na vida desse monarca. Quando os mensageiros da Babilônia foram visitá-lo, Hizkiyahu mostrou-lhes seus tesouros, sua prata, seu ouro, suas especiarias, seu azeite, suas armas e tudo o que havia em sua casa e em seu domínio. Yeshayahu então veio repreendê-lo e anunciou que chegaria o dia em que aquilo que estava em sua casa seria levado para Babilônia. O problema não era possuir tesouros. O problema estava naquilo que aquela exposição revelava sobre sua confiança e sua relação com os recursos que possuía. Isso nos ensina que devemos cuidar das nossas coisas, mas não transformar nossas coisas em nossa identidade.

Podemos ter uma casa bonita sem fazer dela um ídolo, ter um carro bom sem fazer dele nossa glória, possuir ferramentas, livros, roupas, dinheiro e outros bens sem permitir que eles dominem nossa vida. As coisas devem estar em nossas mãos, não nossos corações nas coisas. A parashá diz: “O Eterno anda no meio do teu acampamento.” E voltamos ao ponto de partida.

Devarim 23 não termina dizendo simplesmente: “Cubra suas fezes porque isso é mais higiênico”. O Eterno dá uma razão muito mais profunda:

Porque o Eterno, teu Elohim, anda no meio do teu acampamento.” Devarim 23:14.

Yisrael deveria lembrar que sua vida acontecia diante do Eterno. Isso transforma o modo como enxergamos até as tarefas mais insignificantes como limpar um chão, um banheiro ou lavar louças. Quando ninguém está olhando, ainda assim cuidamos. Quando ninguém vai elogiar, ainda assim fazemos. Mesmo se ninguém souber quem limpou, ainda assim limpamos. Mesmo que ninguém perceba que colocamos algo de volta no lugar, ainda assim colocamos. Não fazemos isso para parecer melhores diante das pessoas. Fazemos porque o Eterno vê. E talvez essa seja a beleza escondida em um mandamento tão simples.

Concluindo nosso estudo, aprendemos com essa parashá que o Eterno não está distante das pequenas coisas da nossa existência. Ele está interessado na maneira como vivemos todos os nossos dias. Ele se importou com o acampamento dos israelitas, se importa com a nossa casa, com a maneira como tratamos aquilo que recebemos, com o nosso próximo, com as nossas palavras. HaShem se importa com aquilo que ninguém vê. E, justamente por isso, nossa casa pode se tornar um lugar de ensino. Não uma casa perfeita, uma casa de aparência, mas uma casa onde as pessoas aprendem que cuidar é uma forma de amar.

Quando recolhemos algo do chão, lavamos um prato, consertamos uma porta, guardamos uma ferramenta, não desperdiçamos comida, cuidamos de uma roupa, ensinamos uma criança a limpar o que sujou, estamos praticando algo muito maior do que organização. Estamos ensinando responsabilidade, gratidão, domínio próprio e consideração pelo próximo. E estamos lembrando, nas pequenas coisas, aquilo que Yisrael deveria lembrar no acampamento: o Eterno anda no meio da nossa vida.

Por isso, que nosso acampamento esteja limpo, que nossa casa seja bem cuidada, que nossas coisas sejam administradas com sabedoria e, acima de tudo, que aquilo que está dentro de nós também seja colocado em ordem. Afinal, não basta limpar o lugar onde vivemos; precisamos permitir que nossas atitudes, nossas palavras e nossos relacionamentos também reflitam o temor do Eterno. Pois quem ama o Eterno cuida daquilo que recebeu de suas mãos, inclusive das coisas pequenas.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef