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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Vayerá - Quando o Eterno Abre os Olhos para a Fonte.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 04 – Vayerá (E apareceu)

Bereshit/Gênesis 18:1-22:24

Haftará (separação) 2Rs 4:1-37 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Lc 17:26-37; Rm 9:6-9


Quando o Eterno Abre os Olhos para a Fonte.


A Parashá Vayerá nos apresenta um assunto interessante ao qual devemos aprofundar nessa reflexão, porque ela permite compreender uma bela conexão entre a experiência de Hagar no deserto, a água como apontamento de vida e a Torá como instrução do Eterno para a humanidade.

Essa é uma interpretação simbólica que desenvolveremos relacionando a narrativa com outras passagens das Escrituras, nas quais a água, a fonte e o poço aparecem associados à vida, à sabedoria e à instrução divina.

Hagar estava no deserto, mas o Eterno não havia abandonado nem a ela nem a seu filho. A água necessária à vida já fazia parte da providência divina, mas Hagar precisou ter seus olhos abertos para reconhecê-la. Essa parashá nos permite refletir sobre pessoas que, mesmo não pertencendo biologicamente à linhagem de Avraham, também podem reconhecer a instrução do Criador e caminhar segundo a Sua vontade. Vem comigo até o final e entenda o que o Eterno registrou em sua palavra.



ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Em Bereshit 21:14-19, Hagar e Yishmael são enviados ao deserto de Beer Sheva. Quando a água acaba, Hagar coloca o menino debaixo de um arbusto, afasta-se para não presenciar sua morte e chora. É nesse cenário de desespero que o Eterno ouve a voz do rapaz, um mensageiro divino chama Hagar e lhe transmite uma promessa: Yishmael também se tornará uma grande nação. O versículo 19 merece nossa atenção especial:

“E abriu-lhe Elohim os olhos, e ela viu um poço de água; e foi, encheu o odre de água e deu de beber ao rapaz.”

Observe que a narrativa não diz que o Eterno criou um poço naquele instante, mas que abriu os olhos de Hagar, e ela viu um poço. Isso não prova que a fonte já estivesse visível anteriormente, pois o texto não esclarece esse detalhe. Entretanto, a escolha dessa formulação permite uma reflexão profunda: a intervenção divina não se manifesta somente pela criação de algo novo, mas também pela abertura dos nossos olhos para aquilo que antes não conseguíamos perceber.

O desespero havia limitado o horizonte de Hagar. Ela enxergava a morte como desfecho inevitável, enquanto o Eterno lhe revelava a possibilidade de continuidade. A água, nesse contexto, é primeiro uma necessidade física concreta, não uma metáfora abstrata. Sem ela, mãe e filho não sobreviveriam. A providência divina alcança a realidade material da existência humana. É aqui que podemos estabelecer a primeira conexão com a Torá. A instrução do Eterno também nos ensina a discernir caminhos de vida em meio às circunstâncias que parecem não oferecer saída. Muitas vezes, a pessoa não precisa apenas receber uma resposta, mas aprender a enxergar a realidade a partir de uma perspectiva orientada pela palavra divina, a Torá.

Isso não significa que toda dificuldade será resolvida por um milagre visível, nem que o sofrimento decorra necessariamente de uma falha espiritual. Significa que a confiança no Eterno pode nos ajudar a reconhecer possibilidades, assumir responsabilidades e continuar caminhando quando o desespero parece ter encerrado todas as alternativas. Há ainda um detalhe importante: o Eterno ouve a voz do rapaz antes de Hagar encontrar a água. A narrativa apresenta Yishmael como alguém cuja vida importa diante do Criador, independentemente da posição que ocupa na linhagem escolhida para a aliança com Yitzchak. A pergunta que emerge é: se o Eterno ouve Yishmael no deserto e lhe assegura um futuro, será que a misericórdia divina está limitada à descendência biológica de Avraham? A própria narrativa nos conduz a uma resposta negativa.

1. A água como símbolo da Torá: uma conexão presente na tradição judaica

A relação que encontramos entre a água e a Torá não é uma ideia sem fundamento nas fontes judaicas. Pelo contrário, encontramos essa relação de maneira explícita nos profetas e na tradição rabínica. Em Yeshayahu (Isaías) 55:1, lemos o convite:

“Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas.”

O contexto é importante. O profeta não está simplesmente convidando pessoas a beber água física, não é sobre o líquido. Ele convoca os sedentos a buscar aquilo que o Eterno oferece gratuitamente, chamando o povo ao retorno, à escuta e à renovação da aliança. Nos versículos 2 e 3, a ênfase recai sobre ouvir atentamente, receber o que verdadeiramente alimenta e inclinar os ouvidos para viver. A água, portanto, integra uma imagem profética de restauração e vida por meio da palavra do Eterno.

A tradição rabínica torna essa relação ainda mais explícita. No Talmud, tratado Ta'anit 7a, os ensinamentos da Torá são comparados à água, tomando como ponto de partida justamente o convite de Isaías 55:1. Rabi Chanina bar Idi explica que, assim como a água flui dos lugares elevados para os mais baixos, a Torá, que veio do Eterno, permanece na pessoa que cultiva a humildade. A comparação não trata apenas do conhecimento adquirido, mas também da disposição interior necessária para recebê-lo. Isso acrescenta uma dimensão importante à nossa leitura sobre Hagar. O problema humano nem sempre é a ausência de algo necessário, mas a incapacidade de reconhecer o que pode sustentar a vida. Para receber a instrução do Eterno, precisamos abandonar a pretensão de sermos autossuficientes, reconhecer nossa necessidade e nos dispor a aprender.

Podemos, então, formular a aplicação simbólica desta maneira: assim como a água sustenta o corpo no deserto, a Torá orienta a pessoa em meio às incertezas da existência. A água sacia a sede física; a instrução divina orienta o ser humano para uma vida de justiça, fidelidade e responsabilidade. Entretanto, há uma diferença que precisamos preservar: em Bereshit 21, a água salva a vida física de Hagar e Yishmael. A identificação do poço com a Torá é uma leitura temática construída a partir de outras passagens, e não o significado declarado pelo narrador. É justamente essa conexão entre textos e seus contextos originais que permitem aprofundar a reflexão sem confundir interpretação com afirmação literal.

Aqui chegamos a um ponto fundamental dessa reflexão que estamos fazendo. Se a água representa, simbolicamente, a instrução do Eterno, podemos perguntar: quem tem acesso a essa fonte? A própria Torá apresenta princípios que ultrapassam a descendência biológica. E eu não estou de forma alguma desprezando ou assumindo o lugar do povo de Yisrael. Por isso vemos que em Shemot (Êxodo) 12:48-49, ao tratar do estrangeiro que deseja participar de Pessach, estabelece-se que ele deve passar pelo procedimento previsto para ingressar nessa participação e, em seguida, declara-se que haverá uma mesma instrução para o natural da terra e para o estrangeiro que habita entre o povo. Devarim (Deuteronômio) 29:9-14 também apresenta a aliança como uma assembleia que inclui homens, mulheres, crianças e o estrangeiro que está no acampamento. A relação com o Eterno não é descrita apenas como uma questão de sangue, mas também de compromisso com a aliança. É necessário fazer uma distinção: esses textos não dizem que todas as funções e obrigações de Yisrael são idênticas para todas as pessoas em qualquer circunstância. A própria Torá estabelece condições específicas para determinados mandamentos. Contudo, mostram que a presença de alguém de origem estrangeira não é, por si só, um impedimento absoluto para sua aproximação do Eterno. Às vezes vemos na internet pessoas afirmarem que gentios não podem viver a Torá, mas a própria palavra mostra que sim, pode obedecer e se tornar parte do povo do Eterno.

Yeshayahu 56:3-7 aprofunda essa perspectiva ao falar do estrangeiro que se une ao Eterno, ama Seu nome e se compromete com Sua aliança. O profeta anuncia que esses estrangeiros também poderão ser acolhidos na casa de oração do Eterno. A ênfase recai sobre a fidelidade demonstrada, e não sobre uma genealogia que a pessoa não pode alterar. Isso nos permite desenvolver a seguinte ideia: a descendência pode definir uma linhagem familiar, mas não torna o Eterno indiferente à justiça, à fidelidade e à resposta de uma pessoa ao Seu chamado.

Yishmael é filho biológico de Avraham, mas não é o herdeiro da aliança específica que prosseguirá por Yitzchak. Mesmo assim, o Eterno ouve seu clamor, preserva sua vida e promete fazer dele uma grande nação. Isso não significa que Yishmael tenha recebido exatamente o mesmo papel de Yitzchak na narrativa da aliança; significa que a eleição de uma linhagem não anula a providência divina sobre as demais. E há uma beleza adicional nessa passagem: antes de Hagar encontrar o poço, o Eterno já havia declarado que faria de seu filho uma grande nação. A água não compra a bênção, nem é uma recompensa pela adesão de Yishmael à Torá. Ela é um meio de preservação da vida concedido pela providência divina. Nossa aplicação espiritual deve partir dessa ordem: primeiro, o Eterno vê, ouve e preserva; depois, nós refletimos sobre como responder à Sua vontade.

2. O Eterno é a fonte, e a Torá nos ensina a encontrar o caminho da vida

Existe outra passagem que aprofunda nossa compreensão do poço: Yirmeyahu (Jeremias) 2:13. Onde o profeta denuncia o povo porque abandonou o Eterno, a fonte de águas vivas, e cavou para si cisternas rachadas, incapazes de reter água. O problema de Yisrael não era simplesmente estar com sede, mas abandonar a fonte verdadeira e buscar substitutos incapazes de sustentar a vida. Jeremias 17:13 retoma a imagem do Eterno como fonte de águas vivas. O próprio Criador é a origem da vida; a Torá, como Sua instrução, ensina o ser humano a caminhar de acordo com a vontade dessa fonte. Isso nos ajuda a estabelecer uma distinção teológica importante:

  • O Eterno é a fonte da vida.

  • A Torá é Sua instrução para ensinar o caminho da vida.

  • A água é uma imagem que as Escrituras utilizam para comunicar vida, restauração e, em determinados contextos, a própria instrução divina.

Em Devarim 30:11-20, Moshê explica que o mandamento não é inacessível nem está distante do povo. A palavra está próxima, na boca e no coração, para ser praticada. Logo depois, a Torá apresenta a escolha entre a vida e a morte e convoca Yisrael a escolher a vida, amando o Eterno, ouvindo Sua voz e apegando-se a Ele. Essa instrução não é apenas para o povo de Yisrael, os descendentes de Avraham, mas para todos que desejam servir ao Eterno. Observe como essa passagem se encaixa em nossa reflexão sobre Hagar. Ela estava em um ambiente no qual a vida parecia impossível, mas o Eterno lhe mostrou um caminho para continuar. Em nossa aplicação, o poço pode representar o encontro com a instrução que nos permite sair da desorientação e caminhar com propósito. Contudo, não devemos concluir que basta conhecer mandamentos para garantir prosperidade material ou ausência de sofrimento. A própria Torá apresenta pessoas fiéis que enfrentam dificuldades. O ponto é que a instrução divina orienta nossa maneira de viver, de decidir e de responder às circunstâncias, sem transformar a obediência em uma fórmula automática de sucesso.

3. A misericórdia do Eterno alcança além da linhagem da promessa

Voltemos ao texto de Bereshit 21:17-20, texto da parashá dessa semana. O mensageiro anuncia a Hagar: o Eterno ouviu a voz do rapaz onde ele está. Em seguida, ordena que ela se levante, tome o menino pela mão e não tema, porque ele se tornará uma grande nação. Depois, o texto afirma que Elohim estava com o rapaz, que cresceu e habitou no deserto. Essa sequência é essencial para entendermos o episódio. A narrativa não exige que Yishmael se torne herdeiro da aliança de Yitzchak para que o Eterno ouça seu clamor. A promessa feita a Yitzchak e a preservação de Yishmael coexistem dentro do mesmo relato. A tradição judaica também explora a expressão ba'asher hu sham, “onde ele está” ou “na condição em que se encontra”. Em Rosh Hashaná 16b, ao discutir o julgamento divino, aparece o princípio de que a pessoa é julgada segundo suas ações naquele momento, e não exclusivamente pelo que poderá vir a ser no futuro. Esse princípio é aplicado à história de Yishmael: o Eterno responde ao rapaz na situação presente, apesar do que seus descendentes poderiam vir a fazer.

Essa leitura não significa que o comportamento futuro seja irrelevante, mas que não devemos tratar alguém como irremediavelmente condenado por uma possibilidade futura ou por sua origem familiar. Podemos extrair três ensinamentos:

- Primeiro, a eleição não é autorização para desprezar outras pessoas. O fato de a aliança patriarcal prosseguir por Yitzchak não torna Yishmael invisível diante do Eterno.

- Segundo, a misericórdia divina não elimina a responsabilidade humana. A preservação de Yishmael não significa que todas as suas futuras escolhas seriam aprovadas, mas que ele também recebeu vida, futuro e descendência.

- Terceiro, o acesso à instrução do Criador não deve ser confundido com a herança genealógica. A Torá foi confiada a Yisrael, mas os profetas também apresentam estrangeiros que se aproximam do Eterno, amam Seu nome e se apegam à Sua aliança.

Podemos reparar no relato do que aconteceu com Hagar e Yishmael perto do poço e refletir sobre aqueles que se encontram fora da linhagem biológica de Yisrael, mas desejam conhecer o Criador e orientar sua vida por Sua palavra. Não precisamos afirmar que todos ocupam a mesma posição na aliança para reconhecer que a justiça, a misericórdia e a instrução divina não são assuntos irrelevantes para as nações.

4. A conexão com os ensinamentos de Yeshua

Ao passarmos para os escritos nazarenos, encontramos imagens de água viva que dialogam diretamente com a linguagem da Torá e dos profetas. Em Yochanan (João) 4, Yeshua conversa com uma mulher samaritana junto ao poço de Yaakov. O cenário é especialmente interessante porque envolve uma mulher de um povo cuja relação religiosa com os judeus era marcada por divergências históricas. A conversa começa com uma necessidade concreta, a água, e se desenvolve em direção à adoração, à identidade e à relação com o Eterno. Yeshua fala de uma água que se torna, naquele que a recebe, uma fonte que jorra para a vida eterna. Mais adiante, em Yochanan 7:37-39, a imagem da água viva é associada explicitamente ao Ruach do Eterno (Espírito, mover, poder).

É importante observar que, nesses textos, a água não é identificada simplesmente como a Torá. João 7:39 interpreta a imagem em referência ao Espírito ou ao Mover do Eterno. O Ruach é o poder do Eterno que move as pessoas a buscarem ligação com seu caráter, e este é a Torá. Veja como é mais profundo que simplesmente dizer que é a água. Entretanto, existe uma relação temática legítima entre essas passagens e a tradição judaica que compara a Torá à água. Tanto a imagem da água nos profetas quanto os ensinamentos de Yeshua apontam para a necessidade humana de receber do Eterno aquilo que não pode produzir por conta própria. A conexão não consiste em afirmar que todas essas passagens dizem exatamente a mesma coisa, mas em reconhecer que compartilham um campo simbólico judaico no qual a sede humana, a água e a vida se relacionam com a ação do Eterno.

Há ainda uma ligação importante com essa reflexão a respeito das nações. Em Ma'assei HaShelichim (Atos dos Emissários) 10, Kefa (Pedro) aprende, por meio da experiência com Cornélio, que não deve considerar impuro aquele que o Eterno acolhe. O episódio não apaga a identidade de Yisrael nem resolve automaticamente todas as questões sobre a relação dos gentios com a Torá, mas mostra que a comunidade nazarena precisou refletir sobre o alcance da ação divina entre aqueles que não pertenciam biologicamente a Yisrael. Atos 15 também registra o debate sobre como os gentios que aderiam à fé em Yeshua deveriam ser recebidos e quais exigências lhes seriam impostas. A interpretação desses decretos continua sendo objeto de discussão religiosa e acadêmica, inclusive quanto à relação entre as nações, a Torá e as normas para estrangeiros.

Assim, uma leitura nazarena cuidadosa pode afirmar que a aproximação do Eterno não deve ser reduzida à genealogia, sem concluir que todas as distinções da aliança desapareceram ou que cada mandamento se aplica a todas as pessoas de maneira idêntica.

Agora podemos reunir as conexões feitas em uma reflexão única. Hagar não recebeu a promessa de que Yishmael seria herdeiro da aliança específica de Yitzchak. Ela recebeu algo que, naquele momento, era igualmente decisivo: a certeza de que o Eterno havia ouvido o clamor do filho e não permitiria que aquela crise fosse o fim de sua história. O poço aparece como instrumento de preservação. A água permite que o rapaz sobreviva, cresça e construa seu futuro. A partir daí, podemos desenvolver uma aplicação espiritual: assim como a água é indispensável para a vida no deserto, a instrução do Eterno é essencial para orientar a caminhada humana. Mas há uma lição ainda mais profunda na atitude de Hagar. Depois de ouvir a promessa, ela precisa levantar-se, aproximar-se da fonte, encher o odre e dar de beber ao filho. A providência não elimina sua participação. Ela precisa agir a partir daquilo que lhe foi revelado.

É semelhante ao que Devarim 30 ensina: a palavra está próxima, mas deve ser colocada em prática. Conhecer a instrução não é o mesmo que vivê-la. A água precisa ser recebida; a Torá precisa ser praticada. Por isso, a aplicação não deve ser que o poço seja literalmente a Torá ou que Hagar tenha recebido uma promessa condicionada à obediência aos mandamentos. A aplicação é que o Eterno oferece vida, e Sua instrução ensina o ser humano a caminhar de maneira coerente com essa vida. A descendência de Avraham possui um papel singular na história da aliança, mas a narrativa de Hagar impede que transformemos essa eleição em uma doutrina de indiferença divina em relação às demais pessoas, como vemos pela internet afora. O Eterno ouve quem clama, preserva vidas e, por meio de Sua palavra, chama os seres humanos a uma existência orientada pela justiça e pela fidelidade.

Concluindo nosso estudo, a história de Hagar nos ensina que o deserto não é necessariamente o lugar onde o Eterno está ausente. Às vezes, é o lugar onde nossas certezas desaparecem e somos obrigados a reconhecer nossa dependência da providência divina. Quando Hagar já não conseguia enxergar um futuro para o filho, o Eterno abriu seus olhos para a água e renovou diante dela a promessa. A fonte tornou-se o sinal concreto de que a história ainda não havia terminado.

À luz da Torá e dos profetas, podemos reconhecer na água uma imagem da instrução divina, da sabedoria e da vida que procede do Eterno. À luz dos escritos nazarenos, encontramos a imagem da água viva relacionada à vida oferecida por Yeshua e à ação do Espírito através do ensino da Torá. Essas conexões não anulam as diferenças entre os textos; elas nos permitem compreender a riqueza de uma linguagem bíblica que utiliza a sede e a água para falar da necessidade humana de se aproximar do Criador. E aqui está a principal lição para nós, pois não devemos confundir pertencer biologicamente a uma linhagem com viver de maneira fiel ao Eterno, nem confundir estar fora dessa linhagem com estar excluído de Sua misericórdia.

A eleição de Yisrael permanece parte essencial da narrativa bíblica, mas os profetas também anunciam que estrangeiros podem se unir ao Eterno e se apegar à Sua aliança. O poço de Hagar não prova, por si só, que Yishmael recebeu a Torá ou que sua bênção dependia de cumpri-la. Ele revela algo anterior a qualquer conclusão desse tipo: o Eterno ouviu o clamor de uma mãe egípcia e preservou o futuro de seu filho. Talvez a pergunta que devamos levar desta parashá seja esta: quando chegamos ao nosso próprio deserto, estamos tão concentrados naquilo que perdemos que deixamos de perceber a fonte que o Eterno nos chama a procurar? E, quando encontramos essa fonte, estamos dispostos não apenas a beber, mas também a permitir que a instrução do Criador transforme a maneira como vivemos?


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Lech Lechá - O chamado não termina na partida.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 03 – Lech Lechá (Sai por ti)

Bereshit/Gênesis 12:1-17:27

Haftará (separação) Is 40:27-41:16 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Atos 7:1-8; Rm 3:19-5:6


O chamado não termina na partida.


Você já percebeu que, muitas vezes, é mais fácil tomar a decisão de começar uma caminhada do que permanecer fiel depois que os desafios aparecem? No início, temos disposição, entusiasmo e a expectativa de que tudo dará certo. Mas o que acontece quando o caminho se torna diferente daquilo que imaginávamos? Como reagimos quando a promessa parece demorar, quando nossas escolhas produzem conflitos ou quando precisamos reconhecer que, apesar de termos respondido ao chamado do Eterno, ainda carregamos medos e fragilidades?

A parashá Lech Lechá nos coloca diante dessas perguntas por meio da trajetória de Avram, chamado pelo Eterno para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, caminhando em direção a uma terra que lhe seria mostrada. Avram parte, mas sua história não termina naquele primeiro passo. Pelo contrário, é depois da partida que ele começa a enfrentar situações que revelarão a profundidade de sua confiança, os limites de suas decisões e a responsabilidade que acompanha a promessa recebida.

Nesta reflexão, vamos compreender por que o chamado do Eterno não deve ser medido apenas pela disposição de começar, mas também pela maneira como caminhamos depois de responder. Veremos que a fidelidade não significa ausência de medo, que a aliança não nos isenta dos conflitos e que receber uma promessa não nos autoriza a agir de qualquer maneira para alcançar aquilo que desejamos.

A pergunta que conduzirá nosso estudo é esta: estamos apenas dispostos a partir ou também estamos dispostos a ser transformados durante a caminhada?

Acompanhe esta reflexão até o final, porque talvez o maior desafio não seja deixar para trás aquilo que conhecemos, mas aprender a viver de maneira coerente com o chamado que recebemos do Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A expressão hebraica לֶךְ־לְךָ (Lech Lechá), encontrada em Bereshit 12:1, inaugura uma nova etapa na história de Avram. O Eterno lhe diz:


Vayomer HaShem el-Avram lech lechá mearetsekha umimoladetekha umibeyt avykha el haarets asher areeka.

“Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” Bereshit 12:1

A ordem apresenta um movimento de saída. Avram deveria deixar referências que faziam parte de sua identidade familiar e social e caminhar em direção a um destino que ainda seria revelado. Nos versículos seguintes, o Eterno apresenta as promessas que acompanham esse chamado: fazer dele uma grande nação, abençoá-lo, engrandecer seu nome e fazer com que, por meio dele, todas as famílias da terra fossem abençoadas (Bereshit 12:2-3).

O versículo 4 registra a resposta: Avram partiu conforme a palavra do Eterno. Contudo, precisamos observar algo essencial: a Torá não encerra a história nesse momento. A partida é o início de uma narrativa que continuará apresentando dificuldades, conflitos, decisões equivocadas, atos de generosidade, períodos de espera e reafirmações da aliança.

Essa estrutura narrativa nos ajuda a compreender o título deste estudo. O chamado não termina na partida porque a resposta inicial precisa ganhar forma na maneira como vivemos. Avram não recebeu todas as informações sobre o futuro, mas precisou agir com base na palavra que havia recebido. Depois disso, cada circunstância se tornou parte de sua caminhada.

Em Bereshit 12:10, por exemplo, a fome atinge a terra e Avram desce ao Egito. Em Bereshit 13:8-9, ele procura resolver o conflito com Lot, oferecendo-lhe a possibilidade de escolher primeiro a região onde desejava permanecer. Em Bereshit 15:2-6, questiona como a promessa de descendência se cumprirá e recebe uma nova reafirmação da palavra do Eterno. Finalmente, em Bereshit 17:1-11, a aliança é reafirmada e a circuncisão é instituída como seu sinal.

Essas passagens mostram que a caminhada de Avram não é feita de um único ato de confiança, mas de uma sucessão de circunstâncias nas quais ele precisa responder ao Eterno. O próprio texto bíblico preserva a complexidade dessa experiência. Avram demonstra confiança, mas também sente medo. Procura a paz, mas enfrenta conflitos. Recebe uma promessa, mas precisa esperar. É chamado para uma missão, mas continua responsável pelas consequências de suas escolhas. Tudo isso também ocorre com cada um de nós e precisamos analisar olhando para Avram, justamente as nossas atitudes.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se Avram teve coragem de partir. Precisamos compreender como a promessa recebida se relaciona com suas decisões posteriores e o que essa relação nos ensina sobre a fidelidade ao Eterno. É a partir dessa perspectiva que desenvolveremos três aspectos fundamentais da parashá: a fidelidade que se revela durante a caminhada, a responsabilidade de quem vive sob uma aliança e a confiança necessária para continuar quando a promessa ainda não se concretizou.


1. A fidelidade não é demonstrada apenas quando começamos, mas na maneira como caminhamos

O primeiro aspecto de Lech Lechá é a relação entre o chamado e a resposta humana. Em Bereshit 12:4, lemos que Avram partiu conforme o Eterno lhe havia ordenado. Sua resposta não ficou restrita à intenção, à emoção ou à declaração de que acreditava na promessa. Ele tomou uma decisão e se colocou em movimento. Entretanto, seria um erro concluir que, depois dessa partida, Avram passou a agir sempre da maneira correta. A própria Torá apresenta situações que exigem uma avaliação mais cuidadosa de suas atitudes.

Em Bereshit 12:10-20, diante da fome que atinge Canaã, Avram desce ao Egito. Temendo ser morto por causa de Sarai, pede que ela se apresente como sua irmã. A decisão revela seu medo e coloca Sarai em uma situação de perigo, até que o Eterno intervém. Esse episódio não deve ser ignorado para preservar uma imagem idealizada do patriarca. A Torá não precisa apresentar Avram como um homem incapaz de errar para demonstrar a importância de seu chamado. Sua história possui profundidade justamente porque a promessa divina e as fragilidades humanas aparecem na mesma narrativa.

O fato de Avram ter sido chamado não torna todas as suas decisões automaticamente corretas. A confiança que demonstrou ao partir não elimina a responsabilidade de examinar como agiu quando enfrentou o perigo. Aqui encontramos uma distinção fundamental: ter fé no Eterno não significa que toda decisão tomada por alguém que crê seja necessariamente fiel à vontade do Eterno.

Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está seguindo um caminho correto e, ainda assim, permitir que o medo, a ansiedade ou o desejo de controlar os resultados influenciem suas decisões. Por isso, a caminhada exige discernimento. Não basta recordar uma experiência espiritual do passado; é necessário avaliar continuamente se a maneira de agir corresponde aos princípios que se afirma seguir.

A parashá também mostra o lado construtivo dessa aprendizagem. Em Bereshit 13:8-9, quando surge o conflito entre os pastores de Avram e os de Lot, Avram toma a iniciativa de impedir que a contenda se aprofunde. Ele reconhece que ambos são parentes e oferece a Lot a oportunidade de escolher primeiro a região onde deseja estabelecer-se. Avram não precisa transformar a disputa em uma demonstração de superioridade. Ele poderia reivindicar prioridade, mas prefere buscar uma solução que preserve a relação familiar. Mais tarde, quando Lot é capturado, Avram parte para resgatá-lo (Bereshit 14:14-16). A separação geográfica não apaga sua responsabilidade para com o sobrinho.

Esses episódios, quando considerados em conjunto, apresentam uma dimensão concreta da fidelidade: ela aparece na maneira como lidamos com as pessoas, administramos os conflitos e respondemos às circunstâncias. É possível declarar confiança no Eterno e, ao mesmo tempo, tratar injustamente alguém que discorda de nós. É possível falar sobre aliança e não cumprir as responsabilidades que assumimos. Também é possível usar a ideia de chamado para justificar atitudes autoritárias, como se uma convicção espiritual colocasse nossas decisões acima de qualquer avaliação.

Lech Lechá nos convida a examinar essa contradição. A relação com o Eterno não deve ser utilizada para encobrir nossas fragilidades, mas precisa nos levar a reconhecê-las e a assumir responsabilidade por nossas ações. Na vida atual, isso significa compreender que a fidelidade não se manifesta somente quando fazemos uma grande escolha, mudamos de direção ou iniciamos um novo projeto. Ela também se revela quando precisamos agir com honestidade, quando escolhemos não alimentar uma contenda, quando reconhecemos que erramos e quando nos recusamos a prejudicar alguém para preservar nossos próprios interesses.

A pergunta que fica é: se o chamado do Eterno orienta nossa vida, essa orientação pode ser percebida na maneira como tratamos as pessoas que convivem conosco?



2. A aliança não nos isenta dos conflitos; ela nos ensina a agir com responsabilidade.

O segundo aspecto da parashá está relacionado à natureza da aliança. Avram recebe promessas extraordinárias, mas sua trajetória não se transforma em uma vida sem dificuldades. A fome, os conflitos familiares, as guerras e a demora da descendência continuam fazendo parte de sua experiência. Isso nos ajuda a compreender que a promessa não deve ser interpretada como uma autorização para ignorar a realidade ou como uma garantia de que todas as circunstâncias serão favoráveis.

Em Bereshit 12:2-3, o Eterno declara que Avram será abençoado e que, por meio dele, todas as famílias da terra serão abençoadas. A promessa possui uma dimensão que ultrapassa a prosperidade pessoal do patriarca. Avram não é chamado apenas para receber; sua história está vinculada a algo que alcançará outras pessoas e gerações. Ser uma bênção, nesse contexto, não significa que Avram será responsável por controlar o destino de todos os povos. Significa que a promessa recebida está relacionada a um propósito maior do que seus interesses particulares. Essa dimensão torna-se especialmente clara no conflito com Lot. Avram não precisa vencer todas as disputas para assegurar que o Eterno cumprirá sua palavra. Ele pode buscar a paz, permitir que Lot escolha primeiro e continuar sua jornada.

É importante perceber que a atitude de Avram não significa que ele tenha renunciado à promessa. Tampouco significa que toda concessão seja necessariamente justa ou que evitar conflitos exija aceitar qualquer forma de abuso. O texto apresenta uma situação específica em que Avram procura impedir que uma divergência material se transforme em uma contenda entre parentes. A confiança na promessa permite que ele não transforme cada disputa em uma batalha por reconhecimento.

Mais adiante, em Bereshit 14, Avram resgata Lot e encontra Malki-Tzedek, rei de Shalem e sacerdote do Deus Altíssimo. Depois de receber sua bênção, Avram recusa os bens oferecidos pelo rei de Sodoma, declarando que não deseja que esse rei diga que o enriqueceu (Bereshit 14:22-23). A narrativa mostra que Avram não está preocupado apenas em conquistar ou acumular. Ele também considera de onde vêm seus recursos e quais implicações estão envolvidas em aceitar determinada vantagem. Sua atitude revela que o resultado de uma ação não é o único critério para avaliá-la; os meios utilizados e as relações estabelecidas também importam.

Entretanto, a parashá apresenta outra dimensão da responsabilidade em Bereshit 16. A demora da descendência leva Sarai e Avram a tomar decisões envolvendo Hagar, e a situação resulta em sofrimento e conflito. Hagar, que ocupa uma posição social vulnerável, foge para o deserto. Ali, o mensageiro do Eterno a encontra e reconhece sua aflição. Esse episódio merece atenção porque a narrativa não se limita ao sofrimento de Avram e Sarai diante da ausência de um filho. Ela também apresenta o sofrimento de Hagar, uma mulher envolvida nas decisões de pessoas com maior autoridade sobre sua vida. A promessa feita a Avram não torna irrelevante a experiência daqueles que convivem com ele. Hagar é vista e ouvida, e Ishmael também recebe promessas de descendência e de futuro. Isso nos ajuda a evitar uma leitura segundo a qual estar associado a uma promessa divina significa que todos os nossos interesses devem prevalecer sobre os interesses dos outros. A aliança não pode ser usada para apagar a dignidade de quem se encontra em uma posição vulnerável.

A história de Avram também demonstra que decisões tomadas para resolver um problema podem criar outros problemas. Por isso, não basta perguntar se uma atitude parece útil para alcançar determinado objetivo. Precisamos perguntar quem será afetado, quais consequências podem surgir e se estamos agindo de maneira coerente com os princípios da Torá. A promessa não elimina a responsabilidade moral; ela torna ainda mais importante a maneira como conduzimos nossas decisões. Essa compreensão tem consequências práticas. Na família, no trabalho, na comunidade e nas relações de liderança, não podemos justificar atitudes injustas apenas porque acreditamos estar defendendo uma causa importante. Um propósito que consideramos correto não transforma automaticamente todos os meios em aceitáveis.

A vida da aliança exige que nossa confiança no Eterno seja acompanhada de justiça, discernimento e consideração pelas pessoas que serão afetadas por nossas escolhas. O chamado, portanto, não nos coloca acima dos outros. Ele nos chama a viver de maneira responsável diante do Eterno e do próximo.



3. A confiança é provada quando a promessa ainda não se concretizou

O terceiro aspecto de Lech Lechá está relacionado à espera. Em Bereshit 15, Avram já deixou sua terra, percorreu Canaã, enfrentou dificuldades e recebeu promessas. Contudo, permanece diante de uma questão fundamental: ele ainda não tem o filho que dará continuidade à sua descendência. Em Bereshit 15:2-3, Avram apresenta sua preocupação ao Eterno. Sua pergunta não é uma negação automática da promessa, mas uma expressão da tensão entre aquilo que lhe foi anunciado e aquilo que consegue observar na própria vida.

A resposta do Eterno vem por meio de uma imagem: Avram é conduzido para fora e convidado a olhar para o céu e contar as estrelas, se puder. Sua descendência seria assim (Bereshit 15:5). O versículo seguinte declara:

“E creu ele no Eterno, e imputou-lhe isto por justiça.” Bereshit 15:6

Esse versículo é central para compreender a emuná de Avram. Ele confia no Eterno enquanto a promessa ainda não se concretizou. Sua confiança não depende de já possuir todas as evidências que deseja, nem significa que tenha deixado de perceber a dificuldade da situação. A narrativa nos ensina que a espera faz parte da caminhada. Há uma diferença entre confiar na palavra recebida e acreditar que temos o poder de determinar quando e como ela deve se cumprir.

Avram não controla o futuro da promessa. Ele pode agir diante das circunstâncias, mas não pode produzir por sua própria força tudo aquilo que o Eterno anunciou. Essa tensão torna-se ainda mais evidente em Bereshit 16, quando Sarai oferece Hagar a Avram. A família procura uma solução para a ausência de descendência, mas a decisão gera conflitos e sofrimento. O texto da Torá não precisa ser reduzido à afirmação de que os dois simplesmente perderam a paciência. Ele apresenta uma situação humana complexa, na qual a espera, as estruturas familiares e as relações de poder se entrelaçam. O episódio, contudo, nos permite refletir sobre um perigo recorrente: quando não conseguimos controlar o tempo de uma promessa, podemos tentar controlar os meios e os resultados, tomando decisões cujas consequências não avaliamos adequadamente.

É necessário fazer uma distinção. A Torá não declara nesse episódio, de forma explícita, que toda a situação envolvendo Hagar decorreu de uma intenção consciente de Avram e Sarai de desobedecer ao Eterno. Essa é uma interpretação que exige cautela. O que o texto efetivamente apresenta é uma decisão familiar que resulta em conflito e sofrimento, seguida pela intervenção do mensageiro do Eterno na vida de Hagar. O princípio que podemos extrair não é que toda ação humana durante a espera seja necessariamente errada, mas que a ansiedade pelo resultado pode nos levar a decisões cujas consequências ultrapassam nossas intenções. A confiança não exige passividade, mas também não autoriza a manipulação das circunstâncias a qualquer custo. Precisamos continuar agindo, tomando decisões e assumindo responsabilidades, sem transformar nossos desejos em justificativa para prejudicar outras pessoas.

Em Bereshit 17, quando Avram tem 99 anos, o Eterno reafirma a aliança e anuncia que Sarah dará à luz Yitzchak. O sinal da aliança é estabelecido, e Avraham responde à ordem recebida. A narrativa mostra que a promessa se desenvolve ao longo do tempo e que a relação de aliança envolve uma resposta concreta. A mudança de nome de Avram para Avraham e de Sarai para Sarah também marca uma nova etapa da narrativa. Contudo, não devemos interpretar essa mudança como se os personagens tivessem se tornado imediatamente incapazes de falhar. A história continuará mostrando suas experiências e responsabilidades. O que muda é a maneira como a promessa e a aliança são reafirmadas dentro da trajetória que o Eterno está conduzindo.

Na atualidade, essa reflexão é especialmente importante. Muitas vezes, confundimos confiança com a expectativa de que nossos planos se concretizem no prazo que consideramos adequado. Quando isso não acontece, podemos concluir que falhamos, que fomos esquecidos ou que precisamos forçar uma solução. Lech Lechá nos convida a uma postura diferente. A confiança no Eterno não significa que teremos respostas imediatas para todas as perguntas. Significa que a ausência de respostas completas não nos dispensa de agir com responsabilidade no presente. Podemos esperar sem abandonar nossos deveres. Podemos questionar sem transformar toda dificuldade em motivo para desistir. Podemos rever nossas decisões sem concluir que a caminhada perdeu todo o sentido.

A pergunta que a parashá nos deixa é profunda: quando não conseguimos enxergar o cumprimento da promessa, continuamos orientando nossas escolhas pela justiça, pela fidelidade e pela responsabilidade, ou permitimos que a ansiedade determine o caminho?

Concluindo nosso estudo, vemos que Lech Lechá começa com uma ordem para partir, mas sua mensagem não se limita ao movimento inicial de Avram. Ao longo da parashá, vemos um homem que precisa lidar com o medo, resolver conflitos, proteger pessoas, enfrentar a espera e responder às exigências da aliança. Sua história nos ensina que o chamado do Eterno não significa uma vida sem dificuldades e tampouco transforma quem o recebe em alguém incapaz de errar. Avram é chamado, mas continua responsável por suas decisões. Recebe promessas, mas precisa aprender a caminhar sem controlar todas as circunstâncias. É escolhido para uma missão, mas sua história permanece relacionada ao destino e à dignidade de outras pessoas.

Por isso, viver o chamado do Eterno hoje exige mais do que recordar uma experiência espiritual ou afirmar que temos fé. Exige que nossa confiança se torne visível na maneira como conduzimos a vida.

Podemos começar examinando nossas decisões. Quando o medo aparece, precisamos avaliar se estamos agindo com prudência ou se estamos colocando outras pessoas em risco para proteger nossos próprios interesses. Quando surge um conflito, precisamos discernir se estamos buscando uma solução justa ou apenas tentando provar que temos razão. Quando a espera se prolonga, precisamos cuidar para que a ansiedade não nos leve a escolhas que produzam sofrimento. Também precisamos compreender que a bênção não deve terminar em nós. A promessa feita a Avram aponta para algo que ultrapassa sua própria casa: todas as famílias da terra seriam abençoadas por meio dele. Essa dimensão nos convida a pensar em como nossas escolhas podem contribuir para o bem das pessoas ao nosso redor, sem transformar a fé em instrumento de superioridade ou domínio.

Na perspectiva judaica e nazarena que orienta este estudo, a relação com o Eterno não deve ser separada da responsabilidade ética. A oração não substitui a justiça, o conhecimento das Escrituras não substitui a prática e a declaração de confiança não elimina a necessidade de examinar nossas atitudes. Isso não significa que nossas obras produzam automaticamente o cumprimento de uma promessa divina. Significa que somos responsáveis pela maneira como vivemos enquanto caminhamos, independentemente de conseguirmos controlar os resultados. O exemplo de Avram também nos ensina que reconhecer uma fragilidade não precisa significar abandonar o caminho. Sua história registra momentos de confiança e momentos difíceis, e é justamente por isso que precisamos lê-la com seriedade, sem esconder os episódios que desafiam nossa compreensão.

Viver o chamado do Eterno hoje significa continuar aprendendo, assumir as consequências de nossas decisões, tratar as pessoas com justiça e não permitir que a busca por resultados nos faça esquecer os princípios que deveriam orientar nossa vida. Talvez não precisemos deixar uma terra física como Avram fez, mas podemos precisar rever hábitos, deixar uma expressão religiosa cheia de vícios, abandonar atitudes injustas, corrigir relações e abrir mão da necessidade de controlar tudo. Essas mudanças não devem ser inventadas arbitrariamente como se cada dificuldade fosse uma ordem divina específica. Elas precisam ser discernidas à luz da Torá, das responsabilidades que temos e das consequências de nossas escolhas.

Ao final, a grande pergunta de Lech Lechá não é apenas se temos coragem para partir. É se estamos dispostos a continuar caminhando com fidelidade quando o caminho se torna difícil, quando nossas fragilidades aparecem e quando a promessa ainda não se concretizou. O chamado começa quando respondemos, mas sua profundidade se revela na maneira como vivemos depois dessa resposta.

Que a trajetória de Avram nos ajude a compreender que caminhar com o Eterno não significa possuir todas as respostas, e sim assumir a responsabilidade de viver de acordo com Sua palavra, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. Porque o chamado não termina na partida. Ele continua nas decisões que tomamos, nas pessoas que escolhemos respeitar, nos conflitos que procuramos resolver com justiça e na fidelidade que demonstramos ao longo da jornada. E talvez seja essa a reflexão mais importante que podemos levar desta parashá: não basta perguntar para onde o Eterno nos chama a ir; precisamos também perguntar quem estamos nos tornando enquanto caminhamos com Ele.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Noach - Quando a união pode gerar separação.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 02 – Noach (Noach)

Bereshit/Gênesis 6:9-11:32

Haftará (separação) Is 54:1-55:5 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Lc 17:26-37; 1Pe 3:18-22


Quando a união pode gerar separação.


Você já parou para pensar que nem toda união é sinal de justiça e que nem todo projeto coletivo representa algo bom diante do Eterno? É possível que pessoas se unam, compartilhem os mesmos objetivos, trabalhem com eficiência e construam algo grandioso, mas, ainda assim, estejam caminhando na direção errada.

A narrativa da Torre de Babel na Parashá Noach nos apresenta exatamente esse desafio. Em Bereshit 11, encontramos uma humanidade que fala a mesma língua, possui capacidade de organização e decide construir uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus. O objetivo declarado é fazer um nome para si e impedir que seus habitantes sejam espalhados pela terra. Entretanto, aquilo que parecia ser um grande projeto de unidade termina em confusão e dispersão.

Por que o Eterno interrompeu essa construção? Será que o problema estava na união das pessoas, na altura da torre ou na intenção que orientava aquele empreendimento? E o que essa narrativa tem a nos ensinar sobre o conhecimento, a religião, a busca por reconhecimento e a maneira como nos organizamos em sociedade?

Mais do que compreender por que a geração de Babel foi dispersa, precisamos perguntar a nós mesmos: estamos construindo algo que serve aos propósitos do Eterno ou apenas tentando tornar nossos próprios projetos inabaláveis? Não deixe de acompanhar este estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O relato de Babel começa com uma declaração que, isoladamente, poderia parecer positiva:

“E era toda a terra de uma mesma língua e de mesmas palavras” (Bereshit 11:1).

A humanidade compartilhava uma única língua e conseguia se comunicar. Em seguida, os habitantes encontraram uma planície na terra de Shinar, estabeleceram-se ali e começaram a fabricar tijolos. Então disseram uns aos outros:

“Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus; façamos um nome para nós, para que não sejamos dispersados sobre a face de toda a terra” (Bereshit 11:4).

Observe que o texto apresenta três elementos importantes: a capacidade de trabalhar em conjunto, o desejo de fazer um nome para si e a intenção de impedir a dispersão. A Torá não declara que construir cidades seja errado, que a cooperação humana seja condenável ou que toda obra monumental represente rebeldia. O problema precisa ser examinado a partir do propósito declarado pelos próprios construtores e da resposta do Eterno ao empreendimento.

Em Bereshit 9:1, depois do dilúvio, o Eterno havia abençoado Noach e seus filhos, ordenando-lhes que fossem fecundos, se multiplicassem e enchessem a terra. Em Babel, porém, os habitantes declaram que desejam evitar justamente a dispersão pela terra. Eles queriam permanecer ali, no mesmo lugar. Existe, portanto, uma tensão narrativa entre a responsabilidade recebida e o projeto que a humanidade decide estabelecer. Essa tensão se torna ainda mais significativa quando observamos a expressão “façamos um nome para nós”. A busca por reconhecimento parece acompanhar o desejo de construir uma estrutura que garanta permanência, segurança e identidade àquela coletividade.

Em Bereshit 11:5-8, o Eterno intervém, confunde a linguagem dos construtores e os dispersa. O empreendimento é interrompido, e o lugar recebe o nome de Bavel, relacionado no próprio relato ao verbo hebraico balal, confundir.

O que podemos aprender com isso? No capítulo 11 do livro Sha'arei Torah: Portões da Torah – Bereshit 1, de Bruno Summa, que comenta esta porção da Torá, encontramos uma abordagem que vai além da explicação tradicional sobre o orgulho humano, acrescenta uma dimensão mística à interpretação. O autor relaciona a linguagem, o conhecimento espiritual, a intenção dos construtores e a possibilidade de uma futura reparação. Em sua leitura, a questão não se limita à união humana: envolve também a finalidade para a qual as capacidades e os conhecimentos são utilizados.

Precisamos no entanto, saber distinguir, o que a Torá declara diretamente daquilo que os comentaristas desenvolvem por meio de interpretações rabínicas e místicas. Essa distinção não impede o aprofundamento; ao contrário, permite que compreendamos melhor tanto o texto bíblico quanto a tradição interpretativa. A partir disso, vamos desenvolver o estudo através de quatro princípios fundamentais para a compreensão do assunto desse estudo e sua aplicação à nossa vida.



1. A UNIDADE PRECISA DE DIREÇÃO MORAL

“E era toda a terra de uma mesma língua e de mesmas palavras” (Bereshit 11:1).

A primeira característica da geração de Babel é a unidade linguística. Todos conseguem se comunicar, compreender as propostas apresentadas e participar de um empreendimento comum. Essa capacidade permite que a sociedade organize o trabalho e alcance objetivos que seriam difíceis de realizar individualmente. Entretanto, a narrativa nos mostra que a capacidade de agir em conjunto não determina, por si só, a justiça de uma ação.

Uma comunidade pode ser organizada, disciplinada e eficiente, mas utilizar essas qualidades para objetivos inadequados. Um grupo pode compartilhar uma crença, uma identidade ou uma visão de mundo e, ainda assim, tomar decisões que desrespeitam a vontade do Eterno estabelecida na Torá, podendo assim, prejudicar outras pessoas. O problema de Babel não pode ser reduzido à existência de uma língua comum. O próprio versículo 6 reconhece que aquela humanidade era um só povo e possuía uma só língua, mas a sequência do relato associa essa unidade a um projeto que acaba sendo interrompido. A pergunta fundamental não é apenas se estamos unidos, mas para que estamos unidos.

No primeiro tópico de seu capítulo, Bruno Summa relaciona a expressão safah achat, “uma só língua”, à tradição judaica que identifica o hebraico com Lashon HaKodesh, a língua santa. O autor também recorre a tradições místicas do Zohar sobre conhecimentos antigos relacionados aos mistérios da língua hebraica. Entretanto, apesar do texto bíblico não ser explícito a respeito disso, a reflexão que emerge dessas leituras é relevante, pois podemos ver que o conhecimento espiritual precisa estar acompanhado de responsabilidade moral.

O fato é que, conhecer palavras hebraicas, estudar a Torá, compreender comentários rabínicos ou dominar conceitos teológicos não significa, automaticamente, que alguém esteja vivendo de maneira justa. O conhecimento pode contribuir para a transformação da pessoa, mas também pode ser utilizado para alimentar a vaidade, controlar outras pessoas ou construir uma imagem de superioridade. A questão não está apenas no que sabemos, mas naquilo que fazemos com o que sabemos. A geração de Babel queria construir uma cidade e uma torre, fazer um nome para si e evitar a dispersão. O projeto possuía uma finalidade coletiva, mas essa finalidade não foi aprovada pelo Eterno.

Isso nos ensina a não confundir consenso com justiça. Uma decisão não se torna correta apenas porque muitas pessoas concordam com ela. Uma prática religiosa não se torna fiel à Torá apenas porque uma comunidade inteira a repete. Um projeto não se torna justo simplesmente porque todos trabalham para realizá-lo. Precisamos examinar os frutos, as intenções e a compatibilidade das nossas ações com os mandamentos do Eterno. A Torá estabelece parâmetros para a justiça, a honestidade, o cuidado com o próximo e a responsabilidade coletiva. Portanto, a unidade que buscamos deve ser avaliada à luz desses princípios, e não apenas pela força do grupo ou pela grandeza de suas realizações.

2. O CONHECIMENTO AUMENTA NOSSA RESPONSABILIDADE

“Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus; façamos um nome para nós” (Bereshit 11:4).

A geração de Babel possuía conhecimento técnico suficiente para fabricar tijolos, preparar materiais e organizar a construção de uma cidade. O texto descreve a fabricação de tijolos queimados e o uso de betume como argamassa, demonstrando a capacidade de planejamento e execução dos construtores. A Torá não condena essas habilidades. O conhecimento técnico pode servir à preservação da vida, à construção de moradias e ao desenvolvimento de uma sociedade organizada. O que merece atenção é a maneira como os construtores decidem utilizar suas capacidades e o propósito declarado para o empreendimento.

A expressão “façamos um nome para nós” revela o desejo de estabelecer uma identidade coletiva duradoura. Eles querem construir algo que lhes proporcione reconhecimento e impeça a dispersão. Queriam ir contra as instruções do Criador. Entenda que o texto não precisa ser interpretado como uma condenação de toda forma de ambição ou de toda busca por reconhecimento. A questão é quando a realização humana passa a ocupar o lugar de finalidade absoluta, sem consideração pelos limites e responsabilidades estabelecidos pelo Eterno.

No segundo tópico, “Venha, façamos um nome”, Summa aprofunda a narrativa a partir da ideia de que os habitantes de Babel teriam procurado utilizar conhecimentos espirituais para atingir objetivos próprios. Essa interpretação acrescenta uma dimensão à leitura do orgulho humano: o problema não seria somente desejar reconhecimento, mas procurar utilizar o conhecimento como instrumento de poder e autonomia.

O conhecimento, nessa perspectiva, não é moralmente neutro no sentido de dispensar uma avaliação sobre seu uso. A capacidade de realizar algo precisa ser acompanhada da responsabilidade de perguntar se aquilo deve ser realizado e quais serão suas consequências. Essa reflexão é particularmente importante quando tratamos do conhecimento da Torá.

Uma pessoa pode conhecer muitos mandamentos e ser capaz de explicar seus significados, mas continuar tratando o próximo com arrogância. Pode dominar a linguagem religiosa e utilizá-la para constranger, manipular ou desqualificar outras pessoas. Pode defender publicamente a obediência enquanto se recusa a corrigir a própria conduta. Nessas situações, o conhecimento não está cumprindo sua finalidade de orientar a vida para a justiça. A Torá não foi entregue para alimentar a vaidade intelectual. Ela deve orientar as escolhas, corrigir comportamentos e ensinar o ser humano a viver de maneira responsável diante do Eterno e do próximo.

Deve haver uma diferença entre somente conhecer e conhecer e praticar. Em Devarim 10:12-13, Moshê pergunta a Yisrael o que o Eterno requer de seu povo e apresenta a resposta: temer o Eterno, andar em Seus caminhos, amá-Lo e servi-Lo, guardando Seus mandamentos. O texto relaciona o conhecimento da vontade divina a uma maneira concreta de viver. Não basta reconhecer que os mandamentos existem; é necessário orientar as ações de acordo com eles. Isso nos ajuda a compreender o contraste entre a geração de Babel e Noach. Noach recebe uma instrução e a executa, conforme Bereshit 6:22. Os construtores, por sua vez, apresentam seus próprios objetivos e organizam suas capacidades para realizá-los. O contraste não está entre conhecimento e ignorância, mas entre a capacidade humana submetida à responsabilidade e a capacidade humana orientada pela própria pretensão.





3. A BUSCA POR SEGURANÇA PODE SE TRANSFORMAR EM RESISTÊNCIA À VONTADE DO ETERNO

“Façamos um nome para nós, para que não sejamos dispersados sobre a face de toda a terra” (Bereshit 11:4).

A segunda parte da declaração dos construtores revela algo ainda mais profundo: o desejo de evitar a dispersão. Depois do dilúvio, o Eterno havia abençoado Noach e seus filhos e lhes ordenado que se multiplicassem e enchessem a terra (Bereshit 9:1). Entretanto, em Babel, os habitantes expressam a intenção de construir uma cidade para não serem espalhados. A narrativa apresenta uma tensão entre a orientação divina e a intenção humana. Em vez de aceitar a responsabilidade de se espalhar pela terra, os construtores procuram estabelecer uma estrutura que lhes permita permanecer unidos em um mesmo lugar. É importante não exagerar a conclusão. O texto não afirma que toda cidade seja contrária à vontade do Eterno, nem que toda forma de organização social seja uma rebeldia. O problema está no propósito declarado e na maneira como o empreendimento se relaciona com a ordem apresentada anteriormente.

Buscar segurança não é errado. É legítimo construir uma casa, organizar uma família, desenvolver uma comunidade e planejar o futuro. O problema surge quando a segurança deixa de ser um recurso necessário à vida e se transforma em um absoluto que não admite limites. Os construtores de Babel desejavam assegurar sua permanência e construir um nome para si. Seu projeto procurava oferecer uma solução coletiva para o medo da dispersão.

Podemos refletir sobre quantas vezes fazemos algo semelhante. Tentamos controlar todas as circunstâncias, garantir que nada mude e construir estruturas que nos protejam de qualquer incerteza. Em algumas situações, chegamos a defender nossos planos mesmo quando percebemos que eles estão produzindo injustiça. O desejo de segurança pode se transformar em resistência quando nos recusamos a reconhecer que a vida humana exige responsabilidade, flexibilidade e submissão à vontade do Eterno. A questão não é abandonar o planejamento, mas reconhecer que nossos planos não estão acima dos mandamentos.

Essa reflexão também alcança a maneira como organizamos nossa vida religiosa. Uma comunidade pode desenvolver tradições, estruturas de liderança e formas de organização que, inicialmente, existem para favorecer o estudo e a prática da Torá. Entretanto, essas mesmas estruturas podem se transformar em instrumentos de autopreservação. Quando a reputação de uma liderança se torna mais importante do que a verdade, quando a manutenção de uma instituição vale mais do que a justiça e quando o pertencimento a um grupo é utilizado para impedir qualquer correção, a estrutura deixa de servir à finalidade para a qual deveria existir. O perigo não está em possuir uma organização, mas em transformar sua preservação no objetivo principal.



4. A RUPTURA NÃO PRECISA SER O FIM DA HISTÓRIA: O CONCEITO DE REPARAÇÃO

“Assim, o Eterno os dispersou dali sobre a face de toda a terra, e cessaram de construir a cidade” (Bereshit 11:8).

A intervenção divina interrompe a construção e dispersa os habitantes de Babel. A narrativa enfatiza a confusão das línguas e a dispersão, encerrando o projeto que pretendia preservar a humanidade reunida em um único lugar.

No terceiro tópico do capítulo 11 de Sha'arei Torah, Bruno Summa desenvolve uma leitura intitulada “O conserto”. O autor relaciona a narrativa de Babel a interpretações rabínicas sobre a palavra hebraica migdal, “torre”, e a passagens associadas ao rei David e à esperança messiânica. A partir de comentários de Rabbi Isaiah Horowitz e do Shney Luchot Habrit, Summa propõe uma relação entre a ruptura de Babel e uma futura reparação, associada à missão do Mashiach, filho de David.

Precisamos reconhecer que essa conexão é uma interpretação mística e messiânica construída a partir de diferentes textos. Bereshit 11 não menciona diretamente o Mashiach nem descreve a dispersão como uma etapa explicitamente destinada a preparar uma restauração messiânica, mas não significa que não esteja nos planos do Eterno. O autor chega a essa conclusão mediante as fontes interpretativas que utiliza.

A ideia de reparação, expressa pelo termo hebraico tikkun, está relacionada a corrigir, restaurar ou colocar algo em ordem. Aplicada à reflexão sobre Babel, ela permite considerar que a história da humanidade não precisa terminar na fragmentação. A narrativa mostra que um projeto coletivo pode ser interrompido quando se afasta da direção adequada. Contudo, a interrupção de um projeto não significa que toda possibilidade de transformação tenha sido eliminada.

A dispersão de Babel é seguida pela genealogia de Shem e pela apresentação da família de Terach, preparando a narrativa de Avraham, que começa em Bereshit 12. Essa transição é significativa. Em Babel, os habitantes dizem: “Façamos um nome para nós” (Bereshit 11:4). Mais adiante, o Eterno promete a Avraham: “Engrandecerei o teu nome” (Bereshit 12:2). O contraste merece atenção. Em Babel, o nome é buscado por iniciativa de uma coletividade que deseja assegurar sua própria permanência. Na narrativa de Avraham, o nome é apresentado dentro de uma promessa divina, acompanhada de um chamado e de responsabilidades, ou seja, a vontade do Eterno.

A esperança de restauração também nos permite refletir sobre a diferença entre unidade e uniformidade. A uniformidade exige que todos sejam iguais em sua expressão, identidade ou organização. A unidade pode existir entre pessoas diferentes que compartilham um propósito justo e respeitam suas responsabilidades. A narrativa de Babel apresenta a humanidade reunida em torno de um único projeto. A interpretação profética messiânica de Summa acrescenta a esperança de uma futura restauração das nações sob o reinado do Mashiach, filho de David.

Uma comunidade não precisa controlar todos os seus integrantes para viver em unidade. Uma família não precisa eliminar toda diferença de opinião para permanecer unida. Uma comunidade de estudo não precisa transformar seus costumes em instrumentos de dominação para preservar sua identidade. A unidade verdadeira precisa de justiça, responsabilidade e disposição para corrigir o que está errado. A reparação começa no presente.

Concluindo nosso estudo, a parashá Noach nos apresenta uma humanidade que sobrevive ao dilúvio, recebe uma aliança e, pouco depois, enfrenta novamente o desafio de orientar corretamente suas escolhas. A narrativa de Babel mostra que um novo começo não garante, por si só, uma transformação moral. A humanidade continua precisando aprender a utilizar suas capacidades de maneira responsável.

Com tudo que dissemos até aqui percebemos que o relato da Torá pode ser estudado a partir de diferentes dimensões: a linguagem, o conhecimento, a unidade, a busca por reconhecimento e a necessidade de reparação. Essas perspectivas nos conduzem a uma pergunta essencial: como podemos viver corretamente em nossa geração?

A resposta começa pelo reconhecimento de que a Torá não foi entregue apenas para ser estudada como um conjunto de informações. Ela deve orientar a maneira como tratamos as pessoas, utilizamos o conhecimento, organizamos nossas comunidades e tomamos decisões. O primeiro passo é examinar nossas motivações. O segundo passo é transformar o conhecimento em prática. O terceiro passo é aprender a reconhecer os limites. E o quarto passo é praticar a teshuvá.

Não precisamos construir torres para provar nosso valor, nem utilizar o conhecimento para demonstrar superioridade. Precisamos aprender a construir uma vida marcada pela justiça, pela humildade, pela responsabilidade e pela fidelidade aos mandamentos. Que nossas palavras, nossos conhecimentos e nossos projetos sejam orientados pela justiça, e que nossa união seja construída não sobre a exaltação humana, mas sobre a responsabilidade de viver segundo a Torá.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef