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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Estudo da Parashá Chayei Sarah - Estás disposto a dizer: irei?

 

Estudos da Torá

Parashá nº 05 – Chayei Sarah (A vida de Sarah)

Bereshit/Gênesis 23:1-25:18

Haftará (separação) 1Rs 1:1-31 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 8:19-22; Lc 9:57-62


Estás disposto a dizer: irei?


Existe um detalhe na parashá Chayei Sarah que merece uma atenção especial, pois está ligado com nossa vida. Quando o servo de Avraham termina sua missão e apresenta à família de Rivkah o propósito de sua viagem, acontece algo muito significativo: a jovem recebe a oportunidade de decidir se está disposta a deixar sua casa, sua família e a terra onde cresceu para seguir em direção a uma realidade completamente nova. A resposta de Rivkah é curta, mas carrega um significado muito profundo. Ela simplesmente diz: irei.

E nesse aspecto dessa porção semanal encontramos uma grande reflexão para nossa vida e para nossa decisão de servir ao Eterno ou não. Venha comigo nesse estudo e vamos olhar para Rivkah e para nós mesmos.



ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Depois de todo o Relato de Elazar, o servo de Avraham, a família de Rivkah a pergunta qual era a decisão dela. A resposta da moça foi curta e decidida, mas carrega um significado muito profundo:

"Chamaram Rivkah e lhe perguntaram: Irás tu com este homem? Ela respondeu: Irei." (Bereshit 24:58)

No hebraico, a resposta é אֵלֵךְ (Elech), que significa "Irei". Não encontramos aqui um discurso longo, uma negociação ou uma lista de exigências de garantias sobre o futuro. Encontramos uma decisão. Rivkah não conhecia todos os detalhes da vida que teria pela frente. Não sabia exatamente como seria sua convivência com Yitzchak, quais desafios enfrentaria ou como seria viver naquela terra que ela ainda não conhecia. Mesmo assim, decidiu partir.

É justamente nesse ponto que podemos encontrar um ensinamento muito importante para nossa caminhada com o Eterno: há momentos em que a fidelidade exige que estejamos dispostos a deixar aquilo que conhecemos para caminhar em direção àquilo que o Eterno está colocando diante de nós.

Entretanto, precisamos compreender essa passagem com cuidado. Não se trata de defender uma obediência cega a qualquer pessoa que se autointitule falar em nome do Eterno. O texto apresenta uma decisão consciente, precedida por acontecimentos que permitiram reconhecer a direção da missão. Vamos aprofundar alguns aspectos dessa narrativa.

1. Rivkah já demonstrava quem era.

Para que possamos compreender a corajosa decisão de Rivkah, precisamos voltar um pouco no contexto da narrativa, porque sua disposição não começa no versículo 58. Ela já havia demonstrado características importantes antes mesmo de conhecer a missão do servo de Avraham.

Em Bereshit 24:17-20, o servo pede água, e Rivkah prontamente lhe oferece de beber. Porém, ela não se limita a atender ao pedido. Espontaneamente, também se dispõe a retirar água para todos os camelos. Observe a dimensão desse gesto. Não estamos falando de um pequeno favor. Um camelo sedento pode consumir uma quantidade considerável de água, e o texto apresenta Rivkah realizando várias viagens ao poço. O servo havia pedido um sinal, mas o que encontrou foi muito mais significativo: uma jovem cuja atitude demonstrava generosidade, iniciativa e disposição para servir.

Aqui encontramos um princípio importante: a disposição de uma pessoa para caminhar com o Eterno não se manifesta apenas naquilo que ela declara acreditar, mas também na maneira como trata as pessoas e responde às necessidades que estão diante dela.

Rivkah ainda não sabia que aquele encontro mudaria sua vida. Não sabia que estava diante do servo de Avraham, nem que sua atitude seria parte de um acontecimento fundamental para a continuidade da aliança. Simplesmente fez aquilo que considerava correto. Isso nos leva a uma reflexão importante, pois muitas pessoas desejam participar dos propósitos do Eterno, mas nem todas demonstram disposição para desenvolver as atitudes necessárias para essa caminhada. Querem conhecer as promessas, mas nem sempre desejam assumir as responsabilidades. Querem receber as bênçãos, mas não necessariamente estão dispostas a desenvolver generosidade, hospitalidade, humildade e compromisso. Rivkah nos apresenta uma ordem interessante: primeiro vemos suas atitudes, depois conhecemos sua decisão. A disposição interior já estava sendo revelada antes de ela pronunciar qualquer palavra.

2. A decisão de caminhar em direção ao desconhecido

Voltemos ao texto de Bereshit 24:57-58. A família de Rivkah havia recebido a explicação do servo e reconhecido que os acontecimentos estavam relacionados à direção do Eterno. Entretanto, quando chegou o momento de partir, seus familiares disseram: "Chamemos a jovem e perguntemos a ela."

Essa pequena informação é muito importante. A família não toma a decisão em seu lugar. Rivkah é chamada para responder pessoalmente.

A pergunta é: הֲתֵלְכִי עִם־הָאִישׁ הַזֶּה

Ha-telechi im ha'ish hazeh?

"Tu irás com este homem?"

A resposta: וַתֹּאמֶר אֵלֵךְ

Vatomer: Elech.

"E ela disse: Irei."

O comentário de Rashi sobre Bereshit 24:58 é particularmente interessante. Ele interpreta a resposta de Rivkah como uma demonstração de determinação: ela iria por sua própria vontade, mesmo que sua família não concordasse. Essa interpretação está relacionada ao Bereshit Rabbah 60:12, que também destaca a autonomia de Rivkah diante daquela decisão. Isso implica que seu caráter já demonstrava ser digno de uma matriarca. Mas isso não quer dizer que ela era perfeita.

É importante perceber que o texto não apresenta Rivkah como alguém arrastada para uma decisão alheia. Ela assume sua própria escolha. E aqui encontramos uma conexão muito bonita com Avraham. Em Bereshit 12:1, o Eterno chama Avraham: לֶךְ־לְךָ — Lech Lecha

"Vai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai."

Avraham precisava deixar o ambiente conhecido para caminhar em direção àquilo que o Eterno lhe mostraria. Agora, em Bereshit 24:58, encontramos Rivkah respondendo: אֵלֵךְ — Elech

"Irei."

As expressões não são idênticas gramaticalmente, mas compartilham a raiz hebraica הלך (halach), relacionada ao ato de caminhar ou ir. Há uma aproximação literária muito interessante: Avraham começa sua jornada deixando sua terra; Rivkah, uma geração depois, também aceita deixar sua terra para participar da continuidade daquela história. Uma leitura apresentada em estudos da tradição judaica observa justamente essa aproximação entre a iniciativa de Avraham e a decisão de Rivkah. Isso nos permite compreender algo profundo: a história da aliança não seria continuada somente por aqueles que receberam diretamente uma convocação, mas também por pessoas que, ao reconhecerem o caminho, decidiram assumir sua parte nele. E você, reconhece o caminho e já decidiu fazer parde dele?

3. A disposição de obedecer não significa conhecer antecipadamente todo o caminho

Aqui está um dos ensinamentos mais importantes dessa parashá. Rivkah não recebeu um mapa detalhado de seu futuro. Não sabia como seria sua vida conjugal, quais dificuldades encontraria ou quais responsabilidades assumiria. Ela sabia o suficiente para tomar uma decisão consciente. Sabia que havia uma missão, havia uma família ligada à promessa do Eterno e havia uma oportunidade de participar daquela continuidade. Isso nos permite estabelecer uma distinção entre duas atitudes:

  • A pessoa que somente aceita caminhar quando conhece todas as condições, garantias e resultados.

  • A pessoa que, depois de discernir que o caminho está de acordo com a vontade do Eterno, aceita assumir a responsabilidade de caminhar, mesmo sem conhecer todos os acontecimentos futuros.

A segunda atitude exige confiança. Entretanto, é necessário fazer uma ressalva: confiança no Eterno não significa aceitar indiscriminadamente qualquer orientação humana. O servo apresentou sua missão, relatou os acontecimentos, reconheceu a ação do Eterno e Rivkah teve oportunidade de responder. A narrativa bíblica não deve ser usada para justificar manipulação religiosa ou submissão cega a líderes.

A disposição de Rivkah foi uma decisão diante de uma situação que ela pôde avaliar. Esse princípio também pode ser observado em Devarim 30:19-20, quando Moshê apresenta ao povo a escolha entre a vida e a morte, a bênção e a maldição, convocando Israel a escolher a vida, amar o Eterno, ouvir sua voz e apegar-se a Ele. A Torá não apresenta a obediência como uma atitude meramente emocional. Ela envolve escolha, compromisso e permanência. Não basta admirar o caminho do Eterno; é necessário decidir caminhar nele. É preciso praticar os mandamentos, viver o que se aprende no dia a dia.

4. É preciso estar disposto a mudar

Existe outro aspecto que merece atenção nessa parashá. Rivkah não estava simplesmente mudando de endereço. Ela estava entrando em uma nova etapa de sua existência. Deixaria sua família, sua terra e os referenciais que conhecia para constituir uma nova família com Yitzchak. Essa mudança nos ajuda a compreender um princípio espiritual: aceitar a vontade do Eterno frequentemente exige rever hábitos, prioridades, relacionamentos e comportamentos que já fazem parte da nossa vida.

Em Bereshit 12:1, Avraham precisou sair de sua terra. Em Shemot 3:10, Moshê precisou aceitar a missão de retornar ao Egito. Em Yonah 1, encontramos o contraste de alguém que recebe uma missão, mas tenta fugir na direção contrária. Essas narrativas mostram diferentes respostas diante de uma direção divina. Avraham parte. Moshê apresenta suas dificuldades, mas acaba assumindo a missão. Yonah inicialmente resiste. Rivkah, por sua vez, responde: "Irei".

Isso não significa que todas as pessoas precisam abandonar sua família ou mudar de cidade para obedecer ao Eterno. O princípio é mais profundo que isso. Não podemos colocar nossas conveniências acima daquilo que sabemos ser correto diante do Criador. Às vezes, a mudança necessária não é geográfica, mas moral. Pode ser abandonar uma prática injusta, corrigir uma postura, deixar uma relação baseada em manipulação, reconhecer um erro ou renunciar a uma vantagem obtida por meios incompatíveis com a Torá. A pergunta que essa narrativa nos apresenta é: estamos realmente dispostos a mudar quando a vontade do Eterno confronta nossas preferências?

5. A disposição precisa permanecer depois da decisão

Existe um perigo na caminhada: confundir o entusiasmo de começar com a fidelidade necessária para continuar. Rivkah poderia ter dito que iria e, posteriormente, desistido diante das dificuldades da viagem. Entretanto, a narrativa prossegue mostrando que ela efetivamente parte. Bereshit 24:59-61 relata que Rivkah é enviada com sua ama, acompanhada por suas servas, e segue com o servo de Avraham. O versículo 61 apresenta uma expressão interessante: וַתֵּלַכְנָה אַחֲרֵי הָאִישׁ

Vatelechnah acharei ha'ish.

"E seguiram o homem."

Rivkah não ficou apenas na intenção. Sua decisão tornou-se movimento. Essa é uma diferença fundamental entre intenção e compromisso. Uma pessoa pode admirar a Torá, concordar com seus ensinamentos e até declarar que deseja viver conforme a vontade do Eterno. Entretanto, a verdadeira disposição é demonstrada quando essa pessoa transforma sua convicção em atitudes, ou seja, práticas verdadeiras.

Podemos relacionar isso com o ensinamento de Yeshua em Mattityahu (Mateus) 7:21: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." E também com Mattityahu 7:24, quando Yeshua compara aquele que ouve suas palavras e as praticas a um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Observe a proximidade do princípio: ouvir, reconhecer e praticar.

Na perspectiva nazarena, esse ensinamento não representa uma ruptura com a Torá, mas reafirma uma preocupação profundamente presente nas Escrituras, isto é, a obediência precisa ser demonstrada na vida cotidiana. A disposição de Rivkah nos ajuda a compreender que não basta dizer "eu irei". É necessário realmente partir, caminhar e permanecer fiel ao compromisso assumido.

6. A diferença entre receber uma bênção e participar de um propósito

Existe ainda uma dimensão muito importante em nosso estudo. Rivkah poderia ter permanecido em sua terra, constituído sua família e vivido uma existência comum. Mas, ao aceitar partir, passou a participar de uma história muito maior do que seus próprios interesses. Ela se tornaria esposa de Yitzchak e mãe de Yaakov e Esav. Por meio de Yaakov, a história das tribos de Yisrael teria continuidade. Isso nos leva a refletir sobre a maneira como muitas pessoas compreendem a relação com o Eterno. Algumas procuram o Criador exclusivamente por aquilo que desejam receber dele como, proteção, prosperidade, cura, segurança e realização pessoal. Entretanto, a relação com o Eterno não deve ser reduzida à expectativa de receber benefícios.

O chamado para viver conforme a vontade do Criador envolve responsabilidade. Rivkah não estava simplesmente recebendo uma oportunidade de casamento. Estava assumindo um lugar na continuidade da promessa feita a Avraham. Da mesma maneira, quando alguém decide orientar sua vida pela Torá, não está apenas adotando um conjunto de regras religiosas. Está assumindo uma maneira de viver, de tratar o próximo, de conduzir sua família, de fazer escolhas e de testemunhar a justiça do Eterno. Devarim 10:12-13 apresenta uma pergunta fundamental: "O que é que o Eterno, teu Elohim, pede de ti?" A resposta envolve temer o Eterno, andar em seus caminhos, amá-lo e servi-lo de todo o coração e de toda a alma, guardando seus mandamentos. Perceba que o texto utiliza a ideia de andar nos caminhos do Eterno. A obediência é uma caminhada, não apenas uma declaração.

7. Você está disposto a dizer "Elech" - irei?

Podemos agora trazer a narrativa de Rivkah para nossa realidade. Quantas pessoas conhecem os ensinamentos da Torá, mas continuam adiando mudanças que sabem ser necessárias? Quantas reconhecem que precisam corrigir determinadas atitudes, mas permanecem presas ao conforto dos velhos hábitos? Quantas desejam experimentar as promessas do Eterno, mas não estão dispostas a assumir as responsabilidades que acompanham uma vida de fidelidade? Rivkah nos ensina que existe um momento em que precisamos deixar de apenas ouvir sobre o caminho e começar a percorrê-lo.

Entretanto, precisamos observar que sua disposição não nasceu de uma decisão impulsiva. Ela já havia demonstrado generosidade, iniciativa e hospitalidade. Sua escolha final estava em harmonia com as características que já demonstrava. Isso nos permite compreender que a disposição de obedecer ao Eterno precisa ser cultivada diariamente. Não podemos esperar uma grande convocação para começar a desenvolver fidelidade. Precisamos demonstrá-la nas pequenas decisões, nas atitudes que ninguém vê, na maneira como tratamos as pessoas e na disposição de fazer o que é correto mesmo quando isso exige renúncia.

Concluindo nosso estudo, percebemos que a história de Rivkah nessa parashá nos apresenta uma verdade que muitas vezes esquecemos: o Eterno realiza seus propósitos, mas a narrativa bíblica também nos mostra pessoas que assumem responsabilidades e participam desses propósitos por meio de suas escolhas. Avraham precisou partir. Moshê precisou retornar ao Egito. Rivkah precisou deixar sua casa. Cada um enfrentou circunstâncias diferentes, mas todos nos ajudam a refletir sobre a importância de responder à direção do Eterno.

Rivkah não conhecia todos os detalhes do futuro, mas estava disposta a dar o próximo passo. Talvez seja justamente isso que precisamos aprender com ela. Não precisamos conhecer antecipadamente todos os acontecimentos da nossa vida para começar a obedecer ao Eterno. Precisamos conhecer seus caminhos, compreender suas instruções e desenvolver uma disposição sincera para praticá-las. A Torá não nos chama para uma vida de passividade, mas para uma caminhada de fidelidade, responsabilidade e compromisso.

O exemplo de Rivkah nos deixa uma pergunta que merece ser examinada individualmente: Se hoje você reconhecesse que precisa mudar sua direção para viver conforme a vontade do Eterno, estaria disposto a responder como Rivkah: Elech, eu irei? Porque uma coisa é admirar o caminho, outra é decidir percorrê-lo. E existe uma diferença ainda maior entre dizer que estamos dispostos e demonstrar essa disposição por meio das nossas atitudes. A promessa continua sendo anunciada, mas a caminhada exige pessoas que estejam dispostas a sair do lugar onde estão e viver aquilo que o Eterno ensina.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Vayerá - Quando o Eterno Abre os Olhos para a Fonte.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 04 – Vayerá (E apareceu)

Bereshit/Gênesis 18:1-22:24

Haftará (separação) 2Rs 4:1-37 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Lc 17:26-37; Rm 9:6-9


Quando o Eterno Abre os Olhos para a Fonte.


A Parashá Vayerá nos apresenta um assunto interessante ao qual devemos aprofundar nessa reflexão, porque ela permite compreender uma bela conexão entre a experiência de Hagar no deserto, a água como apontamento de vida e a Torá como instrução do Eterno para a humanidade.

Essa é uma interpretação simbólica que desenvolveremos relacionando a narrativa com outras passagens das Escrituras, nas quais a água, a fonte e o poço aparecem associados à vida, à sabedoria e à instrução divina.

Hagar estava no deserto, mas o Eterno não havia abandonado nem a ela nem a seu filho. A água necessária à vida já fazia parte da providência divina, mas Hagar precisou ter seus olhos abertos para reconhecê-la. Essa parashá nos permite refletir sobre pessoas que, mesmo não pertencendo biologicamente à linhagem de Avraham, também podem reconhecer a instrução do Criador e caminhar segundo a Sua vontade. Vem comigo até o final e entenda o que o Eterno registrou em sua palavra.



ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Em Bereshit 21:14-19, Hagar e Yishmael são enviados ao deserto de Beer Sheva. Quando a água acaba, Hagar coloca o menino debaixo de um arbusto, afasta-se para não presenciar sua morte e chora. É nesse cenário de desespero que o Eterno ouve a voz do rapaz, um mensageiro divino chama Hagar e lhe transmite uma promessa: Yishmael também se tornará uma grande nação. O versículo 19 merece nossa atenção especial:

“E abriu-lhe Elohim os olhos, e ela viu um poço de água; e foi, encheu o odre de água e deu de beber ao rapaz.”

Observe que a narrativa não diz que o Eterno criou um poço naquele instante, mas que abriu os olhos de Hagar, e ela viu um poço. Isso não prova que a fonte já estivesse visível anteriormente, pois o texto não esclarece esse detalhe. Entretanto, a escolha dessa formulação permite uma reflexão profunda: a intervenção divina não se manifesta somente pela criação de algo novo, mas também pela abertura dos nossos olhos para aquilo que antes não conseguíamos perceber.

O desespero havia limitado o horizonte de Hagar. Ela enxergava a morte como desfecho inevitável, enquanto o Eterno lhe revelava a possibilidade de continuidade. A água, nesse contexto, é primeiro uma necessidade física concreta, não uma metáfora abstrata. Sem ela, mãe e filho não sobreviveriam. A providência divina alcança a realidade material da existência humana. É aqui que podemos estabelecer a primeira conexão com a Torá. A instrução do Eterno também nos ensina a discernir caminhos de vida em meio às circunstâncias que parecem não oferecer saída. Muitas vezes, a pessoa não precisa apenas receber uma resposta, mas aprender a enxergar a realidade a partir de uma perspectiva orientada pela palavra divina, a Torá.

Isso não significa que toda dificuldade será resolvida por um milagre visível, nem que o sofrimento decorra necessariamente de uma falha espiritual. Significa que a confiança no Eterno pode nos ajudar a reconhecer possibilidades, assumir responsabilidades e continuar caminhando quando o desespero parece ter encerrado todas as alternativas. Há ainda um detalhe importante: o Eterno ouve a voz do rapaz antes de Hagar encontrar a água. A narrativa apresenta Yishmael como alguém cuja vida importa diante do Criador, independentemente da posição que ocupa na linhagem escolhida para a aliança com Yitzchak. A pergunta que emerge é: se o Eterno ouve Yishmael no deserto e lhe assegura um futuro, será que a misericórdia divina está limitada à descendência biológica de Avraham? A própria narrativa nos conduz a uma resposta negativa.

1. A água como símbolo da Torá: uma conexão presente na tradição judaica

A relação que encontramos entre a água e a Torá não é uma ideia sem fundamento nas fontes judaicas. Pelo contrário, encontramos essa relação de maneira explícita nos profetas e na tradição rabínica. Em Yeshayahu (Isaías) 55:1, lemos o convite:

“Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas.”

O contexto é importante. O profeta não está simplesmente convidando pessoas a beber água física, não é sobre o líquido. Ele convoca os sedentos a buscar aquilo que o Eterno oferece gratuitamente, chamando o povo ao retorno, à escuta e à renovação da aliança. Nos versículos 2 e 3, a ênfase recai sobre ouvir atentamente, receber o que verdadeiramente alimenta e inclinar os ouvidos para viver. A água, portanto, integra uma imagem profética de restauração e vida por meio da palavra do Eterno.

A tradição rabínica torna essa relação ainda mais explícita. No Talmud, tratado Ta'anit 7a, os ensinamentos da Torá são comparados à água, tomando como ponto de partida justamente o convite de Isaías 55:1. Rabi Chanina bar Idi explica que, assim como a água flui dos lugares elevados para os mais baixos, a Torá, que veio do Eterno, permanece na pessoa que cultiva a humildade. A comparação não trata apenas do conhecimento adquirido, mas também da disposição interior necessária para recebê-lo. Isso acrescenta uma dimensão importante à nossa leitura sobre Hagar. O problema humano nem sempre é a ausência de algo necessário, mas a incapacidade de reconhecer o que pode sustentar a vida. Para receber a instrução do Eterno, precisamos abandonar a pretensão de sermos autossuficientes, reconhecer nossa necessidade e nos dispor a aprender.

Podemos, então, formular a aplicação simbólica desta maneira: assim como a água sustenta o corpo no deserto, a Torá orienta a pessoa em meio às incertezas da existência. A água sacia a sede física; a instrução divina orienta o ser humano para uma vida de justiça, fidelidade e responsabilidade. Entretanto, há uma diferença que precisamos preservar: em Bereshit 21, a água salva a vida física de Hagar e Yishmael. A identificação do poço com a Torá é uma leitura temática construída a partir de outras passagens, e não o significado declarado pelo narrador. É justamente essa conexão entre textos e seus contextos originais que permitem aprofundar a reflexão sem confundir interpretação com afirmação literal.

Aqui chegamos a um ponto fundamental dessa reflexão que estamos fazendo. Se a água representa, simbolicamente, a instrução do Eterno, podemos perguntar: quem tem acesso a essa fonte? A própria Torá apresenta princípios que ultrapassam a descendência biológica. E eu não estou de forma alguma desprezando ou assumindo o lugar do povo de Yisrael. Por isso vemos que em Shemot (Êxodo) 12:48-49, ao tratar do estrangeiro que deseja participar de Pessach, estabelece-se que ele deve passar pelo procedimento previsto para ingressar nessa participação e, em seguida, declara-se que haverá uma mesma instrução para o natural da terra e para o estrangeiro que habita entre o povo. Devarim (Deuteronômio) 29:9-14 também apresenta a aliança como uma assembleia que inclui homens, mulheres, crianças e o estrangeiro que está no acampamento. A relação com o Eterno não é descrita apenas como uma questão de sangue, mas também de compromisso com a aliança. É necessário fazer uma distinção: esses textos não dizem que todas as funções e obrigações de Yisrael são idênticas para todas as pessoas em qualquer circunstância. A própria Torá estabelece condições específicas para determinados mandamentos. Contudo, mostram que a presença de alguém de origem estrangeira não é, por si só, um impedimento absoluto para sua aproximação do Eterno. Às vezes vemos na internet pessoas afirmarem que gentios não podem viver a Torá, mas a própria palavra mostra que sim, pode obedecer e se tornar parte do povo do Eterno.

Yeshayahu 56:3-7 aprofunda essa perspectiva ao falar do estrangeiro que se une ao Eterno, ama Seu nome e se compromete com Sua aliança. O profeta anuncia que esses estrangeiros também poderão ser acolhidos na casa de oração do Eterno. A ênfase recai sobre a fidelidade demonstrada, e não sobre uma genealogia que a pessoa não pode alterar. Isso nos permite desenvolver a seguinte ideia: a descendência pode definir uma linhagem familiar, mas não torna o Eterno indiferente à justiça, à fidelidade e à resposta de uma pessoa ao Seu chamado.

Yishmael é filho biológico de Avraham, mas não é o herdeiro da aliança específica que prosseguirá por Yitzchak. Mesmo assim, o Eterno ouve seu clamor, preserva sua vida e promete fazer dele uma grande nação. Isso não significa que Yishmael tenha recebido exatamente o mesmo papel de Yitzchak na narrativa da aliança; significa que a eleição de uma linhagem não anula a providência divina sobre as demais. E há uma beleza adicional nessa passagem: antes de Hagar encontrar o poço, o Eterno já havia declarado que faria de seu filho uma grande nação. A água não compra a bênção, nem é uma recompensa pela adesão de Yishmael à Torá. Ela é um meio de preservação da vida concedido pela providência divina. Nossa aplicação espiritual deve partir dessa ordem: primeiro, o Eterno vê, ouve e preserva; depois, nós refletimos sobre como responder à Sua vontade.

2. O Eterno é a fonte, e a Torá nos ensina a encontrar o caminho da vida

Existe outra passagem que aprofunda nossa compreensão do poço: Yirmeyahu (Jeremias) 2:13. Onde o profeta denuncia o povo porque abandonou o Eterno, a fonte de águas vivas, e cavou para si cisternas rachadas, incapazes de reter água. O problema de Yisrael não era simplesmente estar com sede, mas abandonar a fonte verdadeira e buscar substitutos incapazes de sustentar a vida. Jeremias 17:13 retoma a imagem do Eterno como fonte de águas vivas. O próprio Criador é a origem da vida; a Torá, como Sua instrução, ensina o ser humano a caminhar de acordo com a vontade dessa fonte. Isso nos ajuda a estabelecer uma distinção teológica importante:

  • O Eterno é a fonte da vida.

  • A Torá é Sua instrução para ensinar o caminho da vida.

  • A água é uma imagem que as Escrituras utilizam para comunicar vida, restauração e, em determinados contextos, a própria instrução divina.

Em Devarim 30:11-20, Moshê explica que o mandamento não é inacessível nem está distante do povo. A palavra está próxima, na boca e no coração, para ser praticada. Logo depois, a Torá apresenta a escolha entre a vida e a morte e convoca Yisrael a escolher a vida, amando o Eterno, ouvindo Sua voz e apegando-se a Ele. Essa instrução não é apenas para o povo de Yisrael, os descendentes de Avraham, mas para todos que desejam servir ao Eterno. Observe como essa passagem se encaixa em nossa reflexão sobre Hagar. Ela estava em um ambiente no qual a vida parecia impossível, mas o Eterno lhe mostrou um caminho para continuar. Em nossa aplicação, o poço pode representar o encontro com a instrução que nos permite sair da desorientação e caminhar com propósito. Contudo, não devemos concluir que basta conhecer mandamentos para garantir prosperidade material ou ausência de sofrimento. A própria Torá apresenta pessoas fiéis que enfrentam dificuldades. O ponto é que a instrução divina orienta nossa maneira de viver, de decidir e de responder às circunstâncias, sem transformar a obediência em uma fórmula automática de sucesso.

3. A misericórdia do Eterno alcança além da linhagem da promessa

Voltemos ao texto de Bereshit 21:17-20, texto da parashá dessa semana. O mensageiro anuncia a Hagar: o Eterno ouviu a voz do rapaz onde ele está. Em seguida, ordena que ela se levante, tome o menino pela mão e não tema, porque ele se tornará uma grande nação. Depois, o texto afirma que Elohim estava com o rapaz, que cresceu e habitou no deserto. Essa sequência é essencial para entendermos o episódio. A narrativa não exige que Yishmael se torne herdeiro da aliança de Yitzchak para que o Eterno ouça seu clamor. A promessa feita a Yitzchak e a preservação de Yishmael coexistem dentro do mesmo relato. A tradição judaica também explora a expressão ba'asher hu sham, “onde ele está” ou “na condição em que se encontra”. Em Rosh Hashaná 16b, ao discutir o julgamento divino, aparece o princípio de que a pessoa é julgada segundo suas ações naquele momento, e não exclusivamente pelo que poderá vir a ser no futuro. Esse princípio é aplicado à história de Yishmael: o Eterno responde ao rapaz na situação presente, apesar do que seus descendentes poderiam vir a fazer.

Essa leitura não significa que o comportamento futuro seja irrelevante, mas que não devemos tratar alguém como irremediavelmente condenado por uma possibilidade futura ou por sua origem familiar. Podemos extrair três ensinamentos:

- Primeiro, a eleição não é autorização para desprezar outras pessoas. O fato de a aliança patriarcal prosseguir por Yitzchak não torna Yishmael invisível diante do Eterno.

- Segundo, a misericórdia divina não elimina a responsabilidade humana. A preservação de Yishmael não significa que todas as suas futuras escolhas seriam aprovadas, mas que ele também recebeu vida, futuro e descendência.

- Terceiro, o acesso à instrução do Criador não deve ser confundido com a herança genealógica. A Torá foi confiada a Yisrael, mas os profetas também apresentam estrangeiros que se aproximam do Eterno, amam Seu nome e se apegam à Sua aliança.

Podemos reparar no relato do que aconteceu com Hagar e Yishmael perto do poço e refletir sobre aqueles que se encontram fora da linhagem biológica de Yisrael, mas desejam conhecer o Criador e orientar sua vida por Sua palavra. Não precisamos afirmar que todos ocupam a mesma posição na aliança para reconhecer que a justiça, a misericórdia e a instrução divina não são assuntos irrelevantes para as nações.

4. A conexão com os ensinamentos de Yeshua

Ao passarmos para os escritos nazarenos, encontramos imagens de água viva que dialogam diretamente com a linguagem da Torá e dos profetas. Em Yochanan (João) 4, Yeshua conversa com uma mulher samaritana junto ao poço de Yaakov. O cenário é especialmente interessante porque envolve uma mulher de um povo cuja relação religiosa com os judeus era marcada por divergências históricas. A conversa começa com uma necessidade concreta, a água, e se desenvolve em direção à adoração, à identidade e à relação com o Eterno. Yeshua fala de uma água que se torna, naquele que a recebe, uma fonte que jorra para a vida eterna. Mais adiante, em Yochanan 7:37-39, a imagem da água viva é associada explicitamente ao Ruach do Eterno (Espírito, mover, poder).

É importante observar que, nesses textos, a água não é identificada simplesmente como a Torá. João 7:39 interpreta a imagem em referência ao Espírito ou ao Mover do Eterno. O Ruach é o poder do Eterno que move as pessoas a buscarem ligação com seu caráter, e este é a Torá. Veja como é mais profundo que simplesmente dizer que é a água. Entretanto, existe uma relação temática legítima entre essas passagens e a tradição judaica que compara a Torá à água. Tanto a imagem da água nos profetas quanto os ensinamentos de Yeshua apontam para a necessidade humana de receber do Eterno aquilo que não pode produzir por conta própria. A conexão não consiste em afirmar que todas essas passagens dizem exatamente a mesma coisa, mas em reconhecer que compartilham um campo simbólico judaico no qual a sede humana, a água e a vida se relacionam com a ação do Eterno.

Há ainda uma ligação importante com essa reflexão a respeito das nações. Em Ma'assei HaShelichim (Atos dos Emissários) 10, Kefa (Pedro) aprende, por meio da experiência com Cornélio, que não deve considerar impuro aquele que o Eterno acolhe. O episódio não apaga a identidade de Yisrael nem resolve automaticamente todas as questões sobre a relação dos gentios com a Torá, mas mostra que a comunidade nazarena precisou refletir sobre o alcance da ação divina entre aqueles que não pertenciam biologicamente a Yisrael. Atos 15 também registra o debate sobre como os gentios que aderiam à fé em Yeshua deveriam ser recebidos e quais exigências lhes seriam impostas. A interpretação desses decretos continua sendo objeto de discussão religiosa e acadêmica, inclusive quanto à relação entre as nações, a Torá e as normas para estrangeiros.

Assim, uma leitura nazarena cuidadosa pode afirmar que a aproximação do Eterno não deve ser reduzida à genealogia, sem concluir que todas as distinções da aliança desapareceram ou que cada mandamento se aplica a todas as pessoas de maneira idêntica.

Agora podemos reunir as conexões feitas em uma reflexão única. Hagar não recebeu a promessa de que Yishmael seria herdeiro da aliança específica de Yitzchak. Ela recebeu algo que, naquele momento, era igualmente decisivo: a certeza de que o Eterno havia ouvido o clamor do filho e não permitiria que aquela crise fosse o fim de sua história. O poço aparece como instrumento de preservação. A água permite que o rapaz sobreviva, cresça e construa seu futuro. A partir daí, podemos desenvolver uma aplicação espiritual: assim como a água é indispensável para a vida no deserto, a instrução do Eterno é essencial para orientar a caminhada humana. Mas há uma lição ainda mais profunda na atitude de Hagar. Depois de ouvir a promessa, ela precisa levantar-se, aproximar-se da fonte, encher o odre e dar de beber ao filho. A providência não elimina sua participação. Ela precisa agir a partir daquilo que lhe foi revelado.

É semelhante ao que Devarim 30 ensina: a palavra está próxima, mas deve ser colocada em prática. Conhecer a instrução não é o mesmo que vivê-la. A água precisa ser recebida; a Torá precisa ser praticada. Por isso, a aplicação não deve ser que o poço seja literalmente a Torá ou que Hagar tenha recebido uma promessa condicionada à obediência aos mandamentos. A aplicação é que o Eterno oferece vida, e Sua instrução ensina o ser humano a caminhar de maneira coerente com essa vida. A descendência de Avraham possui um papel singular na história da aliança, mas a narrativa de Hagar impede que transformemos essa eleição em uma doutrina de indiferença divina em relação às demais pessoas, como vemos pela internet afora. O Eterno ouve quem clama, preserva vidas e, por meio de Sua palavra, chama os seres humanos a uma existência orientada pela justiça e pela fidelidade.

Concluindo nosso estudo, a história de Hagar nos ensina que o deserto não é necessariamente o lugar onde o Eterno está ausente. Às vezes, é o lugar onde nossas certezas desaparecem e somos obrigados a reconhecer nossa dependência da providência divina. Quando Hagar já não conseguia enxergar um futuro para o filho, o Eterno abriu seus olhos para a água e renovou diante dela a promessa. A fonte tornou-se o sinal concreto de que a história ainda não havia terminado.

À luz da Torá e dos profetas, podemos reconhecer na água uma imagem da instrução divina, da sabedoria e da vida que procede do Eterno. À luz dos escritos nazarenos, encontramos a imagem da água viva relacionada à vida oferecida por Yeshua e à ação do Espírito através do ensino da Torá. Essas conexões não anulam as diferenças entre os textos; elas nos permitem compreender a riqueza de uma linguagem bíblica que utiliza a sede e a água para falar da necessidade humana de se aproximar do Criador. E aqui está a principal lição para nós, pois não devemos confundir pertencer biologicamente a uma linhagem com viver de maneira fiel ao Eterno, nem confundir estar fora dessa linhagem com estar excluído de Sua misericórdia.

A eleição de Yisrael permanece parte essencial da narrativa bíblica, mas os profetas também anunciam que estrangeiros podem se unir ao Eterno e se apegar à Sua aliança. O poço de Hagar não prova, por si só, que Yishmael recebeu a Torá ou que sua bênção dependia de cumpri-la. Ele revela algo anterior a qualquer conclusão desse tipo: o Eterno ouviu o clamor de uma mãe egípcia e preservou o futuro de seu filho. Talvez a pergunta que devamos levar desta parashá seja esta: quando chegamos ao nosso próprio deserto, estamos tão concentrados naquilo que perdemos que deixamos de perceber a fonte que o Eterno nos chama a procurar? E, quando encontramos essa fonte, estamos dispostos não apenas a beber, mas também a permitir que a instrução do Criador transforme a maneira como vivemos?


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Lech Lechá - O chamado não termina na partida.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 03 – Lech Lechá (Sai por ti)

Bereshit/Gênesis 12:1-17:27

Haftará (separação) Is 40:27-41:16 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Atos 7:1-8; Rm 3:19-5:6


O chamado não termina na partida.


Você já percebeu que, muitas vezes, é mais fácil tomar a decisão de começar uma caminhada do que permanecer fiel depois que os desafios aparecem? No início, temos disposição, entusiasmo e a expectativa de que tudo dará certo. Mas o que acontece quando o caminho se torna diferente daquilo que imaginávamos? Como reagimos quando a promessa parece demorar, quando nossas escolhas produzem conflitos ou quando precisamos reconhecer que, apesar de termos respondido ao chamado do Eterno, ainda carregamos medos e fragilidades?

A parashá Lech Lechá nos coloca diante dessas perguntas por meio da trajetória de Avram, chamado pelo Eterno para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, caminhando em direção a uma terra que lhe seria mostrada. Avram parte, mas sua história não termina naquele primeiro passo. Pelo contrário, é depois da partida que ele começa a enfrentar situações que revelarão a profundidade de sua confiança, os limites de suas decisões e a responsabilidade que acompanha a promessa recebida.

Nesta reflexão, vamos compreender por que o chamado do Eterno não deve ser medido apenas pela disposição de começar, mas também pela maneira como caminhamos depois de responder. Veremos que a fidelidade não significa ausência de medo, que a aliança não nos isenta dos conflitos e que receber uma promessa não nos autoriza a agir de qualquer maneira para alcançar aquilo que desejamos.

A pergunta que conduzirá nosso estudo é esta: estamos apenas dispostos a partir ou também estamos dispostos a ser transformados durante a caminhada?

Acompanhe esta reflexão até o final, porque talvez o maior desafio não seja deixar para trás aquilo que conhecemos, mas aprender a viver de maneira coerente com o chamado que recebemos do Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A expressão hebraica לֶךְ־לְךָ (Lech Lechá), encontrada em Bereshit 12:1, inaugura uma nova etapa na história de Avram. O Eterno lhe diz:


Vayomer HaShem el-Avram lech lechá mearetsekha umimoladetekha umibeyt avykha el haarets asher areeka.

“Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” Bereshit 12:1

A ordem apresenta um movimento de saída. Avram deveria deixar referências que faziam parte de sua identidade familiar e social e caminhar em direção a um destino que ainda seria revelado. Nos versículos seguintes, o Eterno apresenta as promessas que acompanham esse chamado: fazer dele uma grande nação, abençoá-lo, engrandecer seu nome e fazer com que, por meio dele, todas as famílias da terra fossem abençoadas (Bereshit 12:2-3).

O versículo 4 registra a resposta: Avram partiu conforme a palavra do Eterno. Contudo, precisamos observar algo essencial: a Torá não encerra a história nesse momento. A partida é o início de uma narrativa que continuará apresentando dificuldades, conflitos, decisões equivocadas, atos de generosidade, períodos de espera e reafirmações da aliança.

Essa estrutura narrativa nos ajuda a compreender o título deste estudo. O chamado não termina na partida porque a resposta inicial precisa ganhar forma na maneira como vivemos. Avram não recebeu todas as informações sobre o futuro, mas precisou agir com base na palavra que havia recebido. Depois disso, cada circunstância se tornou parte de sua caminhada.

Em Bereshit 12:10, por exemplo, a fome atinge a terra e Avram desce ao Egito. Em Bereshit 13:8-9, ele procura resolver o conflito com Lot, oferecendo-lhe a possibilidade de escolher primeiro a região onde desejava permanecer. Em Bereshit 15:2-6, questiona como a promessa de descendência se cumprirá e recebe uma nova reafirmação da palavra do Eterno. Finalmente, em Bereshit 17:1-11, a aliança é reafirmada e a circuncisão é instituída como seu sinal.

Essas passagens mostram que a caminhada de Avram não é feita de um único ato de confiança, mas de uma sucessão de circunstâncias nas quais ele precisa responder ao Eterno. O próprio texto bíblico preserva a complexidade dessa experiência. Avram demonstra confiança, mas também sente medo. Procura a paz, mas enfrenta conflitos. Recebe uma promessa, mas precisa esperar. É chamado para uma missão, mas continua responsável pelas consequências de suas escolhas. Tudo isso também ocorre com cada um de nós e precisamos analisar olhando para Avram, justamente as nossas atitudes.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se Avram teve coragem de partir. Precisamos compreender como a promessa recebida se relaciona com suas decisões posteriores e o que essa relação nos ensina sobre a fidelidade ao Eterno. É a partir dessa perspectiva que desenvolveremos três aspectos fundamentais da parashá: a fidelidade que se revela durante a caminhada, a responsabilidade de quem vive sob uma aliança e a confiança necessária para continuar quando a promessa ainda não se concretizou.


1. A fidelidade não é demonstrada apenas quando começamos, mas na maneira como caminhamos

O primeiro aspecto de Lech Lechá é a relação entre o chamado e a resposta humana. Em Bereshit 12:4, lemos que Avram partiu conforme o Eterno lhe havia ordenado. Sua resposta não ficou restrita à intenção, à emoção ou à declaração de que acreditava na promessa. Ele tomou uma decisão e se colocou em movimento. Entretanto, seria um erro concluir que, depois dessa partida, Avram passou a agir sempre da maneira correta. A própria Torá apresenta situações que exigem uma avaliação mais cuidadosa de suas atitudes.

Em Bereshit 12:10-20, diante da fome que atinge Canaã, Avram desce ao Egito. Temendo ser morto por causa de Sarai, pede que ela se apresente como sua irmã. A decisão revela seu medo e coloca Sarai em uma situação de perigo, até que o Eterno intervém. Esse episódio não deve ser ignorado para preservar uma imagem idealizada do patriarca. A Torá não precisa apresentar Avram como um homem incapaz de errar para demonstrar a importância de seu chamado. Sua história possui profundidade justamente porque a promessa divina e as fragilidades humanas aparecem na mesma narrativa.

O fato de Avram ter sido chamado não torna todas as suas decisões automaticamente corretas. A confiança que demonstrou ao partir não elimina a responsabilidade de examinar como agiu quando enfrentou o perigo. Aqui encontramos uma distinção fundamental: ter fé no Eterno não significa que toda decisão tomada por alguém que crê seja necessariamente fiel à vontade do Eterno.

Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está seguindo um caminho correto e, ainda assim, permitir que o medo, a ansiedade ou o desejo de controlar os resultados influenciem suas decisões. Por isso, a caminhada exige discernimento. Não basta recordar uma experiência espiritual do passado; é necessário avaliar continuamente se a maneira de agir corresponde aos princípios que se afirma seguir.

A parashá também mostra o lado construtivo dessa aprendizagem. Em Bereshit 13:8-9, quando surge o conflito entre os pastores de Avram e os de Lot, Avram toma a iniciativa de impedir que a contenda se aprofunde. Ele reconhece que ambos são parentes e oferece a Lot a oportunidade de escolher primeiro a região onde deseja estabelecer-se. Avram não precisa transformar a disputa em uma demonstração de superioridade. Ele poderia reivindicar prioridade, mas prefere buscar uma solução que preserve a relação familiar. Mais tarde, quando Lot é capturado, Avram parte para resgatá-lo (Bereshit 14:14-16). A separação geográfica não apaga sua responsabilidade para com o sobrinho.

Esses episódios, quando considerados em conjunto, apresentam uma dimensão concreta da fidelidade: ela aparece na maneira como lidamos com as pessoas, administramos os conflitos e respondemos às circunstâncias. É possível declarar confiança no Eterno e, ao mesmo tempo, tratar injustamente alguém que discorda de nós. É possível falar sobre aliança e não cumprir as responsabilidades que assumimos. Também é possível usar a ideia de chamado para justificar atitudes autoritárias, como se uma convicção espiritual colocasse nossas decisões acima de qualquer avaliação.

Lech Lechá nos convida a examinar essa contradição. A relação com o Eterno não deve ser utilizada para encobrir nossas fragilidades, mas precisa nos levar a reconhecê-las e a assumir responsabilidade por nossas ações. Na vida atual, isso significa compreender que a fidelidade não se manifesta somente quando fazemos uma grande escolha, mudamos de direção ou iniciamos um novo projeto. Ela também se revela quando precisamos agir com honestidade, quando escolhemos não alimentar uma contenda, quando reconhecemos que erramos e quando nos recusamos a prejudicar alguém para preservar nossos próprios interesses.

A pergunta que fica é: se o chamado do Eterno orienta nossa vida, essa orientação pode ser percebida na maneira como tratamos as pessoas que convivem conosco?



2. A aliança não nos isenta dos conflitos; ela nos ensina a agir com responsabilidade.

O segundo aspecto da parashá está relacionado à natureza da aliança. Avram recebe promessas extraordinárias, mas sua trajetória não se transforma em uma vida sem dificuldades. A fome, os conflitos familiares, as guerras e a demora da descendência continuam fazendo parte de sua experiência. Isso nos ajuda a compreender que a promessa não deve ser interpretada como uma autorização para ignorar a realidade ou como uma garantia de que todas as circunstâncias serão favoráveis.

Em Bereshit 12:2-3, o Eterno declara que Avram será abençoado e que, por meio dele, todas as famílias da terra serão abençoadas. A promessa possui uma dimensão que ultrapassa a prosperidade pessoal do patriarca. Avram não é chamado apenas para receber; sua história está vinculada a algo que alcançará outras pessoas e gerações. Ser uma bênção, nesse contexto, não significa que Avram será responsável por controlar o destino de todos os povos. Significa que a promessa recebida está relacionada a um propósito maior do que seus interesses particulares. Essa dimensão torna-se especialmente clara no conflito com Lot. Avram não precisa vencer todas as disputas para assegurar que o Eterno cumprirá sua palavra. Ele pode buscar a paz, permitir que Lot escolha primeiro e continuar sua jornada.

É importante perceber que a atitude de Avram não significa que ele tenha renunciado à promessa. Tampouco significa que toda concessão seja necessariamente justa ou que evitar conflitos exija aceitar qualquer forma de abuso. O texto apresenta uma situação específica em que Avram procura impedir que uma divergência material se transforme em uma contenda entre parentes. A confiança na promessa permite que ele não transforme cada disputa em uma batalha por reconhecimento.

Mais adiante, em Bereshit 14, Avram resgata Lot e encontra Malki-Tzedek, rei de Shalem e sacerdote do Deus Altíssimo. Depois de receber sua bênção, Avram recusa os bens oferecidos pelo rei de Sodoma, declarando que não deseja que esse rei diga que o enriqueceu (Bereshit 14:22-23). A narrativa mostra que Avram não está preocupado apenas em conquistar ou acumular. Ele também considera de onde vêm seus recursos e quais implicações estão envolvidas em aceitar determinada vantagem. Sua atitude revela que o resultado de uma ação não é o único critério para avaliá-la; os meios utilizados e as relações estabelecidas também importam.

Entretanto, a parashá apresenta outra dimensão da responsabilidade em Bereshit 16. A demora da descendência leva Sarai e Avram a tomar decisões envolvendo Hagar, e a situação resulta em sofrimento e conflito. Hagar, que ocupa uma posição social vulnerável, foge para o deserto. Ali, o mensageiro do Eterno a encontra e reconhece sua aflição. Esse episódio merece atenção porque a narrativa não se limita ao sofrimento de Avram e Sarai diante da ausência de um filho. Ela também apresenta o sofrimento de Hagar, uma mulher envolvida nas decisões de pessoas com maior autoridade sobre sua vida. A promessa feita a Avram não torna irrelevante a experiência daqueles que convivem com ele. Hagar é vista e ouvida, e Ishmael também recebe promessas de descendência e de futuro. Isso nos ajuda a evitar uma leitura segundo a qual estar associado a uma promessa divina significa que todos os nossos interesses devem prevalecer sobre os interesses dos outros. A aliança não pode ser usada para apagar a dignidade de quem se encontra em uma posição vulnerável.

A história de Avram também demonstra que decisões tomadas para resolver um problema podem criar outros problemas. Por isso, não basta perguntar se uma atitude parece útil para alcançar determinado objetivo. Precisamos perguntar quem será afetado, quais consequências podem surgir e se estamos agindo de maneira coerente com os princípios da Torá. A promessa não elimina a responsabilidade moral; ela torna ainda mais importante a maneira como conduzimos nossas decisões. Essa compreensão tem consequências práticas. Na família, no trabalho, na comunidade e nas relações de liderança, não podemos justificar atitudes injustas apenas porque acreditamos estar defendendo uma causa importante. Um propósito que consideramos correto não transforma automaticamente todos os meios em aceitáveis.

A vida da aliança exige que nossa confiança no Eterno seja acompanhada de justiça, discernimento e consideração pelas pessoas que serão afetadas por nossas escolhas. O chamado, portanto, não nos coloca acima dos outros. Ele nos chama a viver de maneira responsável diante do Eterno e do próximo.



3. A confiança é provada quando a promessa ainda não se concretizou

O terceiro aspecto de Lech Lechá está relacionado à espera. Em Bereshit 15, Avram já deixou sua terra, percorreu Canaã, enfrentou dificuldades e recebeu promessas. Contudo, permanece diante de uma questão fundamental: ele ainda não tem o filho que dará continuidade à sua descendência. Em Bereshit 15:2-3, Avram apresenta sua preocupação ao Eterno. Sua pergunta não é uma negação automática da promessa, mas uma expressão da tensão entre aquilo que lhe foi anunciado e aquilo que consegue observar na própria vida.

A resposta do Eterno vem por meio de uma imagem: Avram é conduzido para fora e convidado a olhar para o céu e contar as estrelas, se puder. Sua descendência seria assim (Bereshit 15:5). O versículo seguinte declara:

“E creu ele no Eterno, e imputou-lhe isto por justiça.” Bereshit 15:6

Esse versículo é central para compreender a emuná de Avram. Ele confia no Eterno enquanto a promessa ainda não se concretizou. Sua confiança não depende de já possuir todas as evidências que deseja, nem significa que tenha deixado de perceber a dificuldade da situação. A narrativa nos ensina que a espera faz parte da caminhada. Há uma diferença entre confiar na palavra recebida e acreditar que temos o poder de determinar quando e como ela deve se cumprir.

Avram não controla o futuro da promessa. Ele pode agir diante das circunstâncias, mas não pode produzir por sua própria força tudo aquilo que o Eterno anunciou. Essa tensão torna-se ainda mais evidente em Bereshit 16, quando Sarai oferece Hagar a Avram. A família procura uma solução para a ausência de descendência, mas a decisão gera conflitos e sofrimento. O texto da Torá não precisa ser reduzido à afirmação de que os dois simplesmente perderam a paciência. Ele apresenta uma situação humana complexa, na qual a espera, as estruturas familiares e as relações de poder se entrelaçam. O episódio, contudo, nos permite refletir sobre um perigo recorrente: quando não conseguimos controlar o tempo de uma promessa, podemos tentar controlar os meios e os resultados, tomando decisões cujas consequências não avaliamos adequadamente.

É necessário fazer uma distinção. A Torá não declara nesse episódio, de forma explícita, que toda a situação envolvendo Hagar decorreu de uma intenção consciente de Avram e Sarai de desobedecer ao Eterno. Essa é uma interpretação que exige cautela. O que o texto efetivamente apresenta é uma decisão familiar que resulta em conflito e sofrimento, seguida pela intervenção do mensageiro do Eterno na vida de Hagar. O princípio que podemos extrair não é que toda ação humana durante a espera seja necessariamente errada, mas que a ansiedade pelo resultado pode nos levar a decisões cujas consequências ultrapassam nossas intenções. A confiança não exige passividade, mas também não autoriza a manipulação das circunstâncias a qualquer custo. Precisamos continuar agindo, tomando decisões e assumindo responsabilidades, sem transformar nossos desejos em justificativa para prejudicar outras pessoas.

Em Bereshit 17, quando Avram tem 99 anos, o Eterno reafirma a aliança e anuncia que Sarah dará à luz Yitzchak. O sinal da aliança é estabelecido, e Avraham responde à ordem recebida. A narrativa mostra que a promessa se desenvolve ao longo do tempo e que a relação de aliança envolve uma resposta concreta. A mudança de nome de Avram para Avraham e de Sarai para Sarah também marca uma nova etapa da narrativa. Contudo, não devemos interpretar essa mudança como se os personagens tivessem se tornado imediatamente incapazes de falhar. A história continuará mostrando suas experiências e responsabilidades. O que muda é a maneira como a promessa e a aliança são reafirmadas dentro da trajetória que o Eterno está conduzindo.

Na atualidade, essa reflexão é especialmente importante. Muitas vezes, confundimos confiança com a expectativa de que nossos planos se concretizem no prazo que consideramos adequado. Quando isso não acontece, podemos concluir que falhamos, que fomos esquecidos ou que precisamos forçar uma solução. Lech Lechá nos convida a uma postura diferente. A confiança no Eterno não significa que teremos respostas imediatas para todas as perguntas. Significa que a ausência de respostas completas não nos dispensa de agir com responsabilidade no presente. Podemos esperar sem abandonar nossos deveres. Podemos questionar sem transformar toda dificuldade em motivo para desistir. Podemos rever nossas decisões sem concluir que a caminhada perdeu todo o sentido.

A pergunta que a parashá nos deixa é profunda: quando não conseguimos enxergar o cumprimento da promessa, continuamos orientando nossas escolhas pela justiça, pela fidelidade e pela responsabilidade, ou permitimos que a ansiedade determine o caminho?

Concluindo nosso estudo, vemos que Lech Lechá começa com uma ordem para partir, mas sua mensagem não se limita ao movimento inicial de Avram. Ao longo da parashá, vemos um homem que precisa lidar com o medo, resolver conflitos, proteger pessoas, enfrentar a espera e responder às exigências da aliança. Sua história nos ensina que o chamado do Eterno não significa uma vida sem dificuldades e tampouco transforma quem o recebe em alguém incapaz de errar. Avram é chamado, mas continua responsável por suas decisões. Recebe promessas, mas precisa aprender a caminhar sem controlar todas as circunstâncias. É escolhido para uma missão, mas sua história permanece relacionada ao destino e à dignidade de outras pessoas.

Por isso, viver o chamado do Eterno hoje exige mais do que recordar uma experiência espiritual ou afirmar que temos fé. Exige que nossa confiança se torne visível na maneira como conduzimos a vida.

Podemos começar examinando nossas decisões. Quando o medo aparece, precisamos avaliar se estamos agindo com prudência ou se estamos colocando outras pessoas em risco para proteger nossos próprios interesses. Quando surge um conflito, precisamos discernir se estamos buscando uma solução justa ou apenas tentando provar que temos razão. Quando a espera se prolonga, precisamos cuidar para que a ansiedade não nos leve a escolhas que produzam sofrimento. Também precisamos compreender que a bênção não deve terminar em nós. A promessa feita a Avram aponta para algo que ultrapassa sua própria casa: todas as famílias da terra seriam abençoadas por meio dele. Essa dimensão nos convida a pensar em como nossas escolhas podem contribuir para o bem das pessoas ao nosso redor, sem transformar a fé em instrumento de superioridade ou domínio.

Na perspectiva judaica e nazarena que orienta este estudo, a relação com o Eterno não deve ser separada da responsabilidade ética. A oração não substitui a justiça, o conhecimento das Escrituras não substitui a prática e a declaração de confiança não elimina a necessidade de examinar nossas atitudes. Isso não significa que nossas obras produzam automaticamente o cumprimento de uma promessa divina. Significa que somos responsáveis pela maneira como vivemos enquanto caminhamos, independentemente de conseguirmos controlar os resultados. O exemplo de Avram também nos ensina que reconhecer uma fragilidade não precisa significar abandonar o caminho. Sua história registra momentos de confiança e momentos difíceis, e é justamente por isso que precisamos lê-la com seriedade, sem esconder os episódios que desafiam nossa compreensão.

Viver o chamado do Eterno hoje significa continuar aprendendo, assumir as consequências de nossas decisões, tratar as pessoas com justiça e não permitir que a busca por resultados nos faça esquecer os princípios que deveriam orientar nossa vida. Talvez não precisemos deixar uma terra física como Avram fez, mas podemos precisar rever hábitos, deixar uma expressão religiosa cheia de vícios, abandonar atitudes injustas, corrigir relações e abrir mão da necessidade de controlar tudo. Essas mudanças não devem ser inventadas arbitrariamente como se cada dificuldade fosse uma ordem divina específica. Elas precisam ser discernidas à luz da Torá, das responsabilidades que temos e das consequências de nossas escolhas.

Ao final, a grande pergunta de Lech Lechá não é apenas se temos coragem para partir. É se estamos dispostos a continuar caminhando com fidelidade quando o caminho se torna difícil, quando nossas fragilidades aparecem e quando a promessa ainda não se concretizou. O chamado começa quando respondemos, mas sua profundidade se revela na maneira como vivemos depois dessa resposta.

Que a trajetória de Avram nos ajude a compreender que caminhar com o Eterno não significa possuir todas as respostas, e sim assumir a responsabilidade de viver de acordo com Sua palavra, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. Porque o chamado não termina na partida. Ele continua nas decisões que tomamos, nas pessoas que escolhemos respeitar, nos conflitos que procuramos resolver com justiça e na fidelidade que demonstramos ao longo da jornada. E talvez seja essa a reflexão mais importante que podemos levar desta parashá: não basta perguntar para onde o Eterno nos chama a ir; precisamos também perguntar quem estamos nos tornando enquanto caminhamos com Ele.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef