Páginas

Boas Vindas

Seja Bem Vindo e Aproveite ao Máximo!
Curta, Divulgue, Compartilhe e se desejar comente.
Que o Eterno o abençoe!!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Estudo da Parashá Nitsavim-Vayelech - Retorne ao Eterno: O Caminho da Restauração, da Teshuvá e da Vida

 


Estudos da Torá

Parashá nº 51Nitsavim (Encontram-se)

Devarim/Deuteronômio 29:9-30:20

Haftará (separação) Is 61:10-63:9.

Escritos Nazarenos Rm 9:30-10:13; Hb 12:14-15.

Parashá nº 52Vayelech (Ele foi)

Devarim/Deuteronômio 31:1-30

Haftará (separação) Os 14:1-10, Mq 7:18-20 e Jl 2:15-27.

Escritos Nazarenos Hb 13:5-8.


Retorne ao Eterno: O Caminho da Restauração, da Teshuvá

e da Vida



A parashá Nitsavim nos coloca diante de uma das declarações mais profundas de Moshê: o caminho de retorno ao Eterno não está distante do ser humano. A palavra está perto, na boca e no coração, para ser praticada. Essa afirmação ganha ainda mais força quando lemos Hoshea 14:1–10, onde o profeta chama Yisra'el diretamente:

“Retorna, Yisra'el, até HaShem, teu Elohim, porque tropeçaste na tua iniquidade.”

As duas porções nos apresentam uma verdade essencial: o afastamento do Eterno não precisa ser o destino final de uma pessoa ou de um povo. Existe um caminho de retorno. Mas esse retorno não pode ser apenas uma emoção, uma declaração ou um momento de arrependimento. Nas Escrituras, retornar ao Eterno envolve reconhecer o caminho errado, abandonar a iniquidade, voltar a ouvir sua voz e viver de acordo com seus mandamentos. Por isso, o tema desta reflexão é simples e direto: Retorne ao Eterno. Assim, sugiro que você fique comigo até o final.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O retorno começa quando reconhecemos que nos afastamos. Existe algo muito humano no que encontramos em Nitsavim. Muitas vezes sabemos que precisamos mudar, sabemos que determinado caminho não está correto, mas adiamos a mudança.

Devarim 30 mostra que Moshê não apresenta o retorno ao Eterno como algo impossível ou inacessível:

“Pois isto está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para o cumprires.”

Antes disso, Moshê havia anunciado que, quando o povo retornasse ao Eterno e ouvisse sua voz, HaShem teria compaixão e reuniria novamente seu povo. Portanto, o contexto é fundamental: Devarim 30 fala de retorno, mudança e restauração.

Hoshea utiliza uma linguagem igualmente direta. Ele não diz simplesmente para Yisra'el sentir tristeza por seus erros. Ele diz:

“Retorna, Yisra'el, até HaShem, teu Elohim.”

E depois ensina o que deveria ser levado ao Eterno:

“Levai convosco palavras e retornai a HaShem.”

Isso nos ensina algo importante para nossa vida: reconhecer o erro é o começo, mas retornar significa mudar a direção. Literalmente, é fazer teshuvá. E levando em conta que estamos no shabat anterior à Yom Teruá, um momento muito propício para retornar ao Eterno, pois estamos em período de juízo. Nesse período o Eterno está preparando nosso próximo ano. Então façamos teshuvá.


1. O retorno ao Eterno está perto de nós

Apoiando-se na leitura clássica de Cohêlet 7:29, compreende-se que "...o Criador fez o ser humano reto, porém eles buscaram muitas astúcias". Existe em cada pessoa uma inclinação natural voltada para sua origem divina. O que desvia o ser humano não é a falta de capacidade inata, mas sim o acúmulo de influências e distrações do cotidiano.

Para ilustrar a acessibilidade da teshuvá, podemos utilizar a analogia do sono. O sono é um hábito fisiológico diário que restaura as forças do corpo de forma natural; ninguém o encara como um feito heroico ou uma conquista extraordinária. Da mesma forma, a teshuvá deve ser compreendida como uma atividade de manutenção regular e saudável da vida espiritual, e não como um evento raro reservado exclusivamente para grandes crises existenciais ou litúrgicas.

Devarim 30:11–14 apresenta uma imagem muito poderosa. Moshê afirma que o mandamento não está nos céus, nem além do mar. Não é algo que dependa de alguém subir ou atravessar grandes distâncias para trazê-lo. A palavra está perto. Está na boca e no coração, para ser praticada.

Isso desmonta uma desculpa muito comum: “Eu não consigo”, “é difícil demais”, “um dia eu vou mudar”, “preciso primeiro resolver muitas coisas”. Moshê coloca a questão de maneira diferente. O Eterno não colocou seu caminho em um lugar inacessível. E existe uma sequência muito importante no próprio capítulo:

“Quando voltares para HaShem, teu Elohim, e ouvires a sua voz conforme tudo o que hoje te ordeno...” (Devarim 30:8)

Depois:

“Porque ouvirás a voz de HaShem, teu Elohim, para guardares os seus mandamentos…” (Devarim 30:10)

E então:

“Pois isto está muito perto de ti...” (Devarim 30:14)

Percebemos que o retorno não é apresentado como uma experiência abstrata. Ele está ligado a ouvir, guardar e praticar. É aqui que a mensagem de Nitsavim se torna extremamente atual. Talvez alguém esteja esperando uma grande manifestação para começar a obedecer. Talvez esteja esperando o momento perfeito para mudar. Mas Moshê diz: a palavra está perto de você.

A questão não é a distância do caminho. A questão é se estamos dispostos a caminhar nele. Hoshea confirma essa ideia. O profeta não diz a Yisra'el: “Procurem um caminho desconhecido.” Ele diz: “Retorna, Yisra'el, até HaShem.” Retornar significa que o caminho já é conhecido. O problema não é descobrir quem é HaShem, mas voltar-se novamente para Ele.


2. Teshuvá não é apenas reconhecer o erro, é abandonar o caminho errado.

O comentário dessa parashá, no livro “Nos caminhos da Eternidade” destaca três elementos: abandonar o pecado, arrepender-se do passado e confessar a transgressão.

O significado prático de voltar para Deus afasta-se de sentimentos abstratos e de remorsos puramente passivos. Ele se manifesta em ações diárias e concretas:

- Mudar de direção (Abandono Real): Sentir remorso sem mudar de rumo não constitui o retorno. Se alguém percebe que caminha na direção errada, mas continua avançando por ela, não houve teshuvá. A prática exige o abandono real do pecado e dos pensamentos nocivos.

- Deixar os falsos apoios: Hoshea 14:4 detalha que o povo deve confessar que não confiará na Assíria, nem em cavalos (força militar), nem chamará as obras de suas mãos de "nossos deuses". Na vida moderna, isso equivale a retirar nossa segurança existencial de elementos materiais, status ou realizações próprias, recolocando nossa confiança inteiramente no Criador.

- Trazer palavras sinceras: O profeta insta o povo a "levar consigo palavras". Trata-se da necessidade da expressão verbal sincera do erro, que serve de fundamento para o viduy (confissão).

Podemos encontrar o fundamento disso diretamente nas Escrituras. O profeta Yeshayahu declara:

“Abandone o perverso o seu caminho, e o homem de iniquidade os seus pensamentos; e retorne a HaShem, que terá compaixão dele.” (Yeshayahu 55:7)

Observe a força dessas palavras: abandonar o caminho errado e retornar a HaShem. Isso significa que o retorno não consiste simplesmente em dizer “eu errei”. Se uma pessoa reconhece que está caminhando para o norte, mas continua andando para o norte, ela não mudou de direção. Da mesma forma, reconhecer uma transgressão sem abandonar o caminho que conduz à transgressão não representa uma mudança completa.

É por isso que Hoshea é tão direto. Depois de chamar Yisra'el ao retorno, ele apresenta palavras que deveriam ser levadas ao Eterno:

“Perdoa toda iniquidade e recebe o que é bom.” (Hoshea 14:3)

E o povo deveria abandonar sua confiança em poderes humanos:

“Não nos salvará Ashur; não montaremos em cavalos; e nunca mais diremos à obra das nossas mãos: nossos elohim.” (Hoshea 14:4)

Aqui encontramos um princípio muito profundo. Retornar ao Eterno também significa abandonar aquilo em que colocávamos nossa confiança no lugar dEle. O retorno exige mudança. Yisra'el precisava abandonar seus caminhos, abandonar seus falsos apoios e voltar a HaShem. E essa mensagem também aparece em Devarim 30. Depois de falar sobre o retorno, Moshê coloca diante do povo uma escolha: “A vida e o bem, a morte e o mal.” E então faz seu chamado: “Escolhe, pois, a vida.”

A teshuvá, portanto, não é simplesmente olhar para trás e lamentar. É olhar para o caminho em que estamos, reconhecer quando ele está errado e escolher novamente o caminho da vida.


3. O retorno produz restauração e aproximação do Eterno

Talvez essa seja a parte mais bonita de Nitsavim e Hoshea. O Eterno não chama Yisra'el ao retorno simplesmente para condená-lo pelo passado. O chamado ao retorno abre diante do povo uma possibilidade de restauração. Devarim 30 declara:

“Então HaShem, teu Elohim, te fará voltar do teu cativeiro, e terá compaixão de ti.”


E acrescenta:

“HaShem, teu Elohim, circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amares HaShem, teu Elohim, com todo o teu coração e com toda a tua alma.” (Devarim 30:3,6)


Aqui vemos que a restauração começa com o próprio retorno a HaShem e conduz a uma vida de amor e obediência. Hoshea 14 apresenta a mesma esperança de maneira muito bonita. Depois do chamado: “Retorna, Yisra'el, até HaShem…” o Eterno responde:

“Eu curarei a sua apostasia; Eu os amarei livremente.” (Hoshea 14:5)

E então aparecem imagens de crescimento: “Serei como o orvalho para Yisra'el; ele florescerá como o lírio…” Aquele que estava afastado volta a florescer. Aquele que havia perdido sua direção volta a produzir fruto. Isso mostra que o objetivo do retorno não é simplesmente apagar o passado. É voltar a viver corretamente diante do Eterno. Hoshea termina apresentando dois caminhos:

“Porque os caminhos de HaShem são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles tropeçarão.” (Hoshea 14:10)


Para pintar o cenário de restauração após o retorno, o texto bíblico faz uso de ricas metáforas agrícolas e naturais de florescimento:

- O orvalho divino: O Eterno promete ser como o orvalho para Yisrael.

- Florescimento do lírio: Símbolo de beleza e renovação espiritual.

- Raízes firmes: Símbolo de estabilidade e solidez espiritual.

- Fragrância de oliveiras: Uma vida que volta a exalar vitalidade e a produzir frutos espirituais saudáveis na presença do Criador.

Esse processo marca a transição espiritual de um estado de מובדל - "Muvdal", que em hebraico significa separado de D’us pelas iniquidades, para um estado de מוּדְבָּק – "Mudbak", que significa próximo, colado e intimamente conectado ao Eterno. O arrependimento reconstrói a ponte destruída pelo erro, restabelecendo a intimidade perdida.

Essa conclusão é fundamental. O retorno precisa continuar sendo uma caminhada. Não basta retornar hoje e abandonar amanhã. Não basta reconhecer o erro e depois voltar ao mesmo caminho. O propósito é permanecer nos caminhos de HaShem.

Concluindo nosso estudo, vimos que Nitsavim e Hoshea 14 nos colocam diante de uma decisão. O Eterno chama: Retorne.

Não é um chamado distante. Não é algo reservado para algumas pessoas. Não depende de atravessar os mares ou subir aos céus. Como diz o texto da parashá: A palavra está perto, na boca e no coração. Mas existe uma finalidade: “Para que a cumpras.”

O retorno verdadeiro começa quando reconhecemos nosso afastamento, mas continua quando abandonamos o caminho errado e voltamos a ouvir a voz de HaShem. Por isso, a mensagem de Nitsavim não deve produzir apenas reflexão. Ela deve produzir decisão. Mosheh diz:

“Chamo hoje os céus e a terra como testemunhas contra vós: pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e tua descendência, amando HaShem, teu Elohim, ouvindo a sua voz e apegando-te a Ele.” (Devarim 30:19–20)

E Hoshea nos mostra como esse retorno começa:

“Retorna, Yisra'el, até HaShem, teu Elohim.”

Essa é a grande mensagem para nós. Não importa apenas onde estivemos ontem. Importa para onde estamos caminhando hoje. Se nos afastamos, retornemos. Se tropeçamos, levantemo-nos. Se abandonamos um mandamento, voltemos a obedecer. Se colocamos nossa confiança em algo que não seja HaShem, abandonemos esse apoio e voltemos nosso coração para Ele.

O caminho está perto. A escolha está diante de cada um de nós. Retorne ao Eterno, escolha a vida. Ame HaShem, ouça sua voz e apegue-se a Ele.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Ki Tavô - Lembre de onde você veio.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 50Ki Tavô (Quando vier)

Devarim/Deuteronômio 26:1-29:8

Haftará (separação) Is 60:1-22.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 13:1-23; Atos 28:17-31.


Lembre de onde você veio.


Lembre de onde você veio. Essa frase resume, com uma simplicidade quase perigosa, o cerne da parashá Ki Tavô. E digo "perigosa", porque é fácil ouvir isso como um convite à nostalgia, um "não esqueça de onde você saiu" de forma sentimental. Mas na Torá essa memória tem uma função muito mais dura e mais prática: ela é o que sustenta a obediência. Quem esquece de onde veio, esquece por que obedece.

Essa porção nos conduz a uma pergunta que parece simples, mas alcança profundamente o coração: você se lembra de onde veio? Quando Yisrael entrasse na terra que o Eterno havia prometido, não deveria permitir que a prosperidade apagasse sua memória. Ao levar as primícias diante do Eterno, cada israelita deveria declarar sua história: de onde seus pais vieram, como desceram ao Egito, como foram afligidos, como clamaram ao Eterno e como Ele os resgatou com mão forte.

Lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. Por isso quero te convidar a mergulhar comigo nesse estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A Torá não trata "lembrar" como um mero sentimento. A palavra Zachor (זכור), que em hebraico significa “lembra-te” ou “lembrar” é sempre um mandamento que produz ação, como vemos nos seguintes exemplos: lembra-te do dia que saíste do Egito (16:3), lembra-te do que Amaleq te fez (25:17), lembra-te dos dias antigos (32:7). E o oposto, "pen tishkach", que significa “para que não te esqueças”, aparece como a grande advertência em Devarim 8:11-18. Ali Moshê descreve exatamente o que vai acontecer: o povo vai prosperar na terra, vai construir casas boas, ver seus rebanhos e sua prata se multiplicarem, e nesse conforto vai dizer no coração "minha força e o poder da minha mão me trouxeram esta riqueza". O esquecimento não vem como rebelião barulhenta. Vem como prosperidade silenciosa.

Por isso, no início dessa parashá, lemos a orientação de quando o povo chegasse a terra, eles deveriam levar as primícias das colheitas da terra e entregá-las ao sacerdote como sinal de gratidão, e ao entregar eles deveria declarar uma bênção especial, que lembraria a história do povo:

Meu pai era um arameu errante, e desceu ao Egito em número pequeno…” Devarim 26:5

A primeira coisa que encontramos, portanto, é memória ou lembrança. Yisrael deveria lembrar de onde veio para reconhecer quem o havia trazido até ali. E se somos servos do Eterno, essa mensagem também nos confronta. Porque, quando começamos a experimentar crescimento, conhecimento, provisão ou reconhecimento, existe sempre o perigo de esquecermos o caminho pelo qual o Eterno nos conduziu.

Lembre de onde você veio. Não importa se você veio do sistema religioso, se foi pastor, como eu fui. Se era um obreiro ou membro de banco. Se era de qualquer outra religião. Não importa se veio do judaísmo ortodoxo e agora reconhece Yeshua como mashiach em detrimento de todos que não aceitam isso. Lembre-se de quem o Eterno era quando você ainda não compreendia muitas coisas. Ele tinha planos e permitiu que eu e você passássemos por onde passamos, assim como permitiu tantas coisas que aconteceram com Yisrael. Lembre-se das vezes em que Ele abriu caminhos, corrigiu seus passos, sustentou você e colocou Sua Palavra diante dos seus olhos. Afinal, você não chegou onde está aleatoriamente. Entretanto, lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. É por isso que Ki Tavô abre exatamente com algo próximo a "lembre de onde você veio", inserido aqui em forma de uma prática. O agricultor que traz os bikkurim precisa recitar, em voz alta, diante do sacerdote: "um arameu errante era meu pai..." (26:5). Ele conta a descida ao Egito, a escravidão, o clamor, a redenção, mesmo que ele mesmo nunca tenha pisado lá. A Torá o obriga a lembrar antes de agradecer, e a agradecer antes de comer do próprio fruto. A sequência é rígida: lembrar, reconhecer, agradecer, agir. Nenhuma dessas etapas substitui a outra. E isso nos encaminha para o primeiro tópico desse estudo.


1. Não esqueça quem o Eterno é

Como vimos na introdução, ao apresentar as primícias, Yisrael não dizia simplesmente: “Eu tenho uma boa colheita”. Eles começavam contando uma história. Havia um passado de peregrinação, o Egito, a aflição, o clamor e houve o resgate. Somente depois vinha a declaração:

E o Eterno nos tirou do Egito com mão forte… Devarim 26:8

A pessoa estava diante do sacerdote com o fruto da terra, mas sua memória estava no Egito. Por quê? Porque o Eterno queria que Yisrael entendesse que aquilo que possuía naquele momento não era fruto apenas de sua própria capacidade. Era necessário olhar para a colheita e lembrar do deserto, para a liberdade e lembrar da servidão, para a abundância e lembrar da necessidade e olhar para a terra e lembrar daquele que havia prometido.

Esse princípio aparece também em Devarim 8:2:

E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Eterno, teu Elohim, te conduziu estes quarenta anos no deserto...

O caminho deveria ser lembrado. Até mesmo os períodos difíceis deveriam ser lembrados. Porque aquilo que vivemos no caminho também pode nos ensinar quem é o Eterno. Talvez uma das maiores tentações da vida seja querer lembrar somente de onde estamos e esquecer de onde viemos. Mas Ki Tavô nos chama: Lembre de onde você veio. Não para permanecer no passado, mas para reconhecer a mão do Eterno no caminho.

Quem esquece de onde veio pode começar a atribuir a si mesmo aquilo que recebeu. Depois de advertir Yisrael a lembrar do caminho, Moshê apresenta uma advertência: Guarda-te, para que não te esqueças do Eterno, teu Elohim… Devarim 8:11

E pouco depois: Não digas no teu coração: A minha força e o poder da minha mão me adquiriram esta riqueza. Devarim 8:17

Aqui encontramos algo muito sério, pois o esquecimento não é apresentado apenas como uma falha de memória. Ele pode mudar a maneira como enxergamos nossa própria vida. Quando esquecemos de onde viemos, podemos começar a pensar: Eu cheguei aqui sozinho; Eu consegui porque sou forte; Eu sei porque sou inteligente; ou Eu tenho porque trabalhei mais do que todos. Mas Moshê responde: Antes te lembrarás do Eterno, teu Elohim, porque é Ele que te dá força… Devarim 8:18.

A memória, portanto, protege o coração contra a soberba.

Por isso, lembrar de onde viemos é também uma forma de permanecer humildes diante do Eterno. Quanto mais crescemos em conhecimento, mais precisamos lembrar que a Palavra não nos foi dada para nos tornar superiores aos outros, mas para nos ensinar a andar diante do Eterno. Portanto, veremos no próximo tópico o que lembrar deve produzir.


2. Lembrar produz gratidão

As primícias também nos ensinam que a memória deve produzir gratidão. Depois de recordar a história do povo, o israelita declara: E agora, eis que trouxe as primícias do fruto da terra que tu, ó Eterno, me deste. Devarim 26:10.

Observe a expressão: “que tu me deste.” A pessoa trabalhou, plantou, esperou, colheu, mas reconheceu: Foi o Eterno quem me deu.

Essa é a diferença entre simplesmente possuir algo e reconhecer a fonte daquilo que recebemos. David expressa algo semelhante: Que darei ao Eterno por todos os seus benefícios para comigo? Tehillim 116:12. O Salmo 103 segue essa mesma lógica: bendize, ó minha alma, ao Eterno, e não te esqueças de nenhum de Seus benefícios, e o Salmo 78 mostra o outro lado da moeda: gerações inteiras que se corromperam porque "esqueceram Suas obras". Lembrar de onde veio não é opcional na teologia bíblica. É a condição para continuar andando direito.

A gratidão verdadeira não é apenas verbal, ela pergunta: O que farei com aquilo que recebi? Se o Eterno me deu conhecimento, como usarei esse conhecimento? Me deu recursos, como tratarei o necessitado? Uma família, como tratarei aqueles que estão dentro dela? Se me deu entendimento das Escrituras, como colocarei essa compreensão em prática? Ensinou-me um mandamento, vou apenas falar sobre ele ou vou obedecê-lo? Assim, a gratidão conduz naturalmente à obediência.

Não basta conhecer as palavras: é necessário guardá-las. Esse é um dos grandes temas de Ki Tavô. Yisrael deveria escrever as palavras da Torá nas pedras. Escreverás sobre elas todas as palavras desta Torá. Devarim 27:8.

As palavras deveriam estar diante dos olhos. Mas o propósito não era simplesmente possuir um memorial escrito. Em Devarim 27:9–10, Moshê declara:

...Hoje te tornaste povo do Eterno, teu Elohim. Portanto, obedecerás à voz do Eterno, teu Elohim, e cumprirás os seus mandamentos...

Perceba a ligação:

- palavras escritas → ouvir → obedecer → viver a aliança.

Isso continua sendo um grande desafio para todos nós. Podemos conhecer muito sobre as Escrituras e ainda assim não obedecer, estudar durante anos e continuar repetindo comportamentos que o Eterno já nos mostrou que precisam mudar. Podemos saber citar um mandamento e não praticá-lo, falar sobre amor ao Eterno e, ao mesmo tempo, ignorar aquilo que Ele ordenou.

Por isso, Yeshua ensinou: Se me amais, guardareis os meus mandamentos. Yochanan 14:15.

E novamente: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. Yochanan 14:21.

O amor, segundo essas palavras, não permanece apenas no sentimento. O amor se manifesta na obediência.


3. Yeshua não separou amor de obediência

Quando observamos os ensinos de Yeshua, como os que citei anteriormente, encontramos a mesma direção presente em Devarim. Ele não ensinou que conhecer as palavras era suficiente. Em Mattityahu 7:24, declarou: Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente...

Existem duas ações: ouvir e praticar. Não apenas ouvir. Não apenas estudar. Não apenas ensinar. Deve ter também a ação de praticar.

Yeshua também afirmou: Não penseis que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Mattityahu 5:17. Portanto, seus ensinos devem nos conduzir a uma vida coerente com as palavras do Eterno. E os talmidim continuaram anunciando essa mesma verdade. Yochanan escreveu: Nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. 1 Yochanan 2:3. E: Porque este é o amor ao Eterno: que guardemos os seus mandamentos.1 Yochanan 5:3.

Assim, encontramos uma linha contínua:

- Devarim → Yeshua → talmidim.

Todos traçam a mesma linha de ensino: conhecer, lembrar, amar, guardar e praticar.


4. Os sábios e a importância de recordar

Entre os sábios de Yisrael existe uma forte valorização da memória como elemento essencial para preservar a identidade e a transmissão das palavras recebidas. Isso aparece de maneira particularmente marcante na Mishná, Pirkei Avot 1:4, quando é enfatizada a importância de aprender, receber e transmitir.

Também encontramos em Avot 3:21 a conhecida afirmação de que, quando não há conhecimento da Torá, não há verdadeiro caminho; e quando não há prática, o conhecimento não permanece suficiente.

Embora essas palavras sejam posteriores ao TaNaK, elas tocam uma questão já presente em Devarim: o conhecimento precisa produzir uma vida coerente. Entretanto, devemos manter uma ordem correta: primeiro a Palavra do Eterno; depois toda reflexão humana deve ser examinada à luz dela.

Como diz o próprio Moshe: Não acrescentareis à palavra que vos ordeno, nem diminuireis dela. Devarim 4:2

Portanto, qualquer ensinamento dos sábios pode servir como reflexão, mas não pode ocupar o lugar da Palavra do Eterno.


5. Como lembrar de onde viemos na vida diária?

A pergunta agora deixa de ser apenas bíblica e passa a ser prática. Como viver isso amanhã de manhã?

- Ao acordar, lembre-se: Antes de começar o dia, reconheça que sua vida não pertence a você de maneira absoluta.

- Ao trabalhar, lembre-se: Seu trabalho também deve ser conduzido por honestidade e justiça.

- Ao lidar com dinheiro, lembre: O desejo de possuir não pode governar seu coração.

- Ao falar com sua família, lembre: As pessoas próximas também são parte do lugar onde sua obediência será demonstrada.

- Quando alguém lhe fizer mal, lembre: O Eterno também observa como você responde à injustiça.

- Quando encontrar alguém necessitado, lembre: Ki Tavô não separa adoração de responsabilidade para com o próximo.

- Quando chegar o Shabat, lembre: O tempo pertence ao Eterno.

- Quando tiver uma oportunidade de transgredir sem que ninguém saiba, lembre: o Eterno sabe.

E quando perceber que falhou, não esconda seu erro atrás de palavras. Se corrija. Devarim 30 apresenta justamente o caminho do retorno ao Eterno e à obediência.

O coração que lembra continua humilde e ensinável. Talvez essa seja uma das aplicações mais importantes. Quem lembra de onde veio não precisa provar que já chegou, nem precisa fingir que sabe tudo. Não despreza quem ainda está aprendendo e nem precisa transformar conhecimento em orgulho. Pelo contrário, a memória produz humildade. O homem que se lembra de que um dia não sabia entende que ainda pode aprender. Aquele que se lembra de que já caiu compreende a necessidade de permanecer vigilante. E quem se lembra de que foi corrigido aprende a receber correção. Quem se lembra de que foi resgatado aprende a agradecer. E aquele que se lembra de onde veio permanece disposto a obedecer.

Devarim 30 apresenta uma promessa extraordinária. Mesmo depois de Yisrael experimentar as consequências da infidelidade, Moshê declara: E te converterás ao Eterno, teu Elohim, e obedecerás à sua voz… Devarim 30:8

O retorno não termina simplesmente com uma mudança de direção emocional, ele produz obediência à voz do Eterno. Isso também nos ajuda a compreender o papel dos ensinos de Yeshua. Se seus ensinos nos fazem lembrar do Eterno, reconhecer nossos caminhos errados, retornar a Ele e guardar Seus mandamentos, então estamos compreendendo corretamente a direção de suas palavras. O propósito não é criar pessoas que apenas falam sobre o Eterno. É formar pessoas que vivem diante do Eterno.

Concluindo nosso estudo, aprendemos que a parashá Ki Tavô nos coloca diante das pedras, das primícias, da terra, das bênçãos, das consequências da desobediência e da renovação da aliança. Mas por trás de tudo existe uma mensagem importante: não se esqueça.

Não se esqueça de onde você veio, de quem o Eterno é, do que Ele fez, dos caminhos pelos quais Ele conduziu você, das palavras que Ele colocou diante de você. E, principalmente, não permita que a memória se torne apenas uma história bonita.

Transforme a memória em gratidão, a gratidão em amor, o amor em obediência. Porque aquele que realmente se lembra não apenas diz: “O Eterno me trouxe até aqui.” Ele também pergunta: “Eterno, como queres que eu viva agora?” Essa talvez seja a grande mensagem de Ki Tavô para nossa caminhada: Lembre de onde você veio, para não esquecer a quem você pertence. E, ao lembrar a quem você pertence, guarde Seus mandamentos e pratique Suas palavras. Pois, como está escrito: “E agora, Israel, que é o que o Eterno, teu Elohim, pede de ti? Senão que temas o Eterno, teu Elohim, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Eterno, teu Elohim, de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Eterno…” Devarim 10:12–13

Lembre de onde você veio, quem o Eterno é, e o que Ele fez. E viva hoje em obediência à Sua Palavra.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef