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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Estudo da Parashá Mishpatim - Você sabe que é escravo?

 



Estudos da Torá

Parashá nº 18 – Mishpatim (Regras)

Shemot/Êxodo 21:1-24:18

Haftará (separação) Jr 33:25,26; 34:8-22 e

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 5:38-42; Hb 9:15-22


Você sabe que é escravo?


Quando ouvimos a palavra “escravo”, imediatamente pensamos em correntes, opressão, injustiça histórica e dor. A mente moderna rejeita com razão qualquer forma de exploração humana. No entanto, ao estudarmos a parashá Mishpatim, somos confrontados com uma pergunta desconfortável e profunda: E se a questão não for se somos escravos, mas de quem somos escravos?

A Torá fala de servidão. Os profetas falaram de servidão. Yeshua e os emissários também falaram de servidão. Talvez o problema não esteja na palavra, mas na nossa compreensão dela e o que ela carrega. Este estudo é um convite à reflexão, pois precisamos compreender o conceito original de servo e escravo nas Escrituras e perceber como esse tema atravessa a dimensão social do contexto literal e alcança a realidade interior de cada ser humano em um contexto profético. Siga neste estudo até o fim para compreender o assunto.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Mishpatim nos conduz do estremecer do Sinai para a construção prática de uma sociedade justa. Depois da revelação dos Asseret HaDibrot (os dez ditos), o Eterno começa a detalhar como aqueles princípios elevados devem ser vividos no cotidiano. Se na parashá Yitrô ouvimos a voz poderosa do Eterno, em Mishpatim aprendemos como essa voz ecoa nos tribunais, nos campos, nas casas e nas relações humanas.

A parashá inicia estabelecendo diretrizes sobre a servidão hebraica, mostrando que mesmo em situações de dívida e dependência há limites, dignidade e tempo determinado. Em seguida, aborda responsabilidade por danos, agressões, prejuízos materiais e restituições. E devemos notar um princípio claro aqui, isto é, cada ato tem consequência, e quem causa dano deve reparar. A justiça do Eterno não é movida por vingança, mas por responsabilidade.

O texto enfatiza a proteção dos mais vulneráveis, que são o estrangeiro, a viúva e o órfão. O Eterno relembra Yisrael de sua própria história no Mitsrayim para que a memória da opressão gere compaixão. Também proíbe suborno, distorção de julgamento e falso testemunho, ensinando que a corrupção começa quando a verdade é negociada.

Mishpatim ainda reafirma o Shabat como descanso para todos, inclusive servos e animais, e apresenta as três festas de peregrinação, sendo elas: Chag HaMatzot (festa dos pães ázimos), Chag HaKatzir (festa do início da Colheita ou Shavuot) e Chag HaAsif (festa da Colheita final ou Sucot). Assim, a justiça social e o serviço ao Eterno caminham juntos, não há separação entre devoção e ética.

Nos capítulos finais, Moshe escreve as palavras da aliança e o povo responde com uma declaração profunda de compromisso, eles disseram: “Naasê veNishmá” que significa faremos e ouviremos. Essa expressão revela que a obediência precede a compreensão plena. É uma confiança firme baseada na decisão de cumprir os mandamentos do Eterno.

A parashá Mishpatim nos ensina que a presença do Eterno não se revela apenas em manifestações grandiosas, mas na integridade e obediência diária. Uma sociedade permanece viva quando pratica juízo e justiça. Como está escrito em Devarim 16:20: Procurem a justiça, apenas a justiça, para que vivam e herdem a terra que o Eterno, seu Elohim, dá a vocês. Esta é a essência da parashá, transformar revelação em responsabilidade e fé declarada em vida reta diante do Eterno e dos homens.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Essa semana chegamos a Shemot 21, e muitos leitores modernos se inquietam. Esse texto começa tratando da servidão. E em uma época em que a escravidão já foi abolida há muito nas sociedades modernas, alguém pode perguntar: Como a Torá pode falar disso? Não seria isso injusto? Mas é preciso entender o contexto e, principalmente, a direção da justiça do Eterno dentro da história humana.

O texto inicia dizendo:

Se você adquirir um escravo hebreu, ele deve trabalhar durante seis anos, mas no sétimo, ele será libertado sem pagar nada. Shemot 21:2

Logo após a revelação das Asseret HaDibrot, o Eterno começa falando sobre servidão. Não sobre sacrifícios, não sobre festas, mas sobre como tratar um servo. Isso nos ensina algo importante, a justiça começa nas relações de poder. E para entender o contexto histórico observe o que Bruno Summa, no livro Sha’arei Torah, comentando essa parashá, mostra que as leis sobre a escravidão na Torá, apresentadas no início dessa porção, possuem uma profundidade que vai além da interpretação literal, servindo como uma base fundamental para a vida em sociedade e para o desenvolvimento espiritual humano. O autor afirma que a Torá não visava abolir a escravidão de forma utópica, mas sim estabelecer uma justiça concreta para as classes mais baixas da sociedade da época. E, diferente da escravidão histórica baseada na força ou coerção, que aliás, a Torá proíbe veementemente, o texto desse autor especifica apenas três situações legais onde um indivíduo poderia se tornar escravo naquela sociedade e época: Por roubo, por pobreza extrema e por ser um escravo canaanita. Vejamos um a uma dessas situações.

A primeira situação é por roubo, pois quando alguém cometia um roubo e não possuía meios para restituir o valor (que deveria chegar a cinco vezes o valor roubado), ele devia servir à vítima por seis anos. No sétimo ano, ele era liberto e seu pecado era considerado apagado perante Hashem. O objetivo pedagógico da Torá ao enviar um ladrão para a casa de um senhor, em vez de uma prisão, parecia querer evitar que ele se associasse a outros criminosos e tivesse seu espírito corrompido pela ociosidade e violência. Em vez disso, ele recebia um lar, trabalho e um novo meio de sustento para quando fosse liberto.

A segunda era por pobreza extrema, pois um homem totalmente destituído de meios financeiros poderia "vender" seus serviços a um senhor por seis anos para garantir teto, comida e segurança para si e sua família. O texto sugere que essa condição não difere drasticamente do emprego moderno, onde o funcionário é, de certa forma, "escravo" do salário para sua subsistência.

E o terceiro, o escravo cananeu, era referente a pessoas pertencentes aos povos daquelas terras, que eram vencidos em batalhas, etc. Esses praticamente não existem mais. Dessa forma começaremos a entender o tema desse estudo.


1 – A Torá não criou a escravidão

No mundo antigo, a servidão era uma estrutura econômica comum entre todas as nações, era uma realidade universal. Povos conquistados eram escravizados brutalmente. Um devedor insolvente, isto é, a pessoa com uma dívida maior que tudo que possui somado, um derrotado em guerra ou alguém em extrema pobreza tornava-se servo sem direitos, muitas vezes por toda a vida. Dívidas levavam pessoas à perda total da liberdade. Quando a Torá entra nesse cenário, ela não cria a escravidão, ela a limita, regula e humaniza uma realidade já existente.

Em Shemot 21, já vemos algo revolucionário para o mundo antigo:

- A servidão hebraica tinha prazo;

- Não era vitalícia;

- Não era absoluta;

- Não era desumanizada.

A servidão hebraica estava ligada principalmente a dívida ou extrema pobreza. Era uma forma de reorganização econômica, não de desumanização racial. O Eterno estabelece limites claros para proteger a dignidade do servo, conforme vemos em Vayicrá 25:43:

Não dominarás sobre ele com rigor, mas temerás o teu Elohim.

A base não deve ser o poder sobre as pessoas, mas sim o temor ao Eterno. Isso fica ainda mais claro quando o Eterno lembra o povo que eles mesmos foram escravos no Egito, para que a experiência com a opressão que sofreram pudesse gerar sensibilidade, leia Shemot 22:20. Assim, vemos que a Torá não legitima a opressão, ela cria freios. Nenhum homem é dono absoluto de outro homem, pois todos pertencem ao Eterno, e isso destrói a ideia de escravidão absoluta.


2 – A Servidão Espiritual: O pecado como senhor

Depois de termos compreendido um pouco do contexto histórico e literal. Podemos então aprofundar um pouco mais. O termo utilizado pela Torá para o escravo, EVED YIVRI (escravo hebreu), é a chave para compreender o processo de expiação. A palavra YIVRI possui raízes linguísticas que revelam o segredo místico desse mandamento. No hebraico bíblico, a palavra utilizada “eved”, pode ser traduzida tanto como “servo” quanto como “escravo”. O termo não carrega automaticamente a ideia moderna de desumanização racial, significa alguém que está sob autoridade, que pertence a outro, ou que serve a alguém. Moshe é chamado na Torá eved HaShem. David, no TaNaK, é chamado eved HaShem. Portanto, a palavra em si não é negativa. Tudo depende de quem é o senhor.

O termo YIVRI ainda possui outros dois significados importantes que vem da sua raiz. O primeiro é AVAR, que significa transgressão. Segundo Bruno Summa, quando um homem comete um erro (como um roubo ou negligência financeira por preguiça), ele já é considerado um "escravo" nas esferas espirituais por conta de sua transgressão. E o segundo significado é o OVER, que significa temporário. Ao referir-se ao escravo como YIVRI, a Torá estabelece que essa condição é temporária.

Por isso, ao olharmos profeticamente para a escravidão, no sentido que a Torá apresenta, segundo esse autor, a escravidão funciona como um processo expiatório para quem não consegue atingir a Teshuvah (arrependimento) por conta própria. Hashem, em sua misericórdia, permite que a pessoa limpe seus pecados através de um período de trabalho físico e limitações financeiras (um processo doloroso, mas purificador), em vez de permitir que esses pecados cobrem um preço espiritual mais alto, como a destruição da alma. Profeticamente ou misticamente, as leis de escravidão descrevem a jornada da vida humana. O período de seis anos representa o tempo de vida dado ao homem, que é frequentemente associado a 60 ou 70 anos, para utilizar o corpo físico como ferramenta para realizar as Mitzvot (mandamentos) e elevar a alma, ou seja, a vida.

A dimensão social nos conduz à dimensão interior. Yeshua declarou em Yochanan 8:34: “Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que pratica o pecado é servo do pecado.”

Aqui a palavra servo assume profundidade espiritual. O pecado não é apenas um ato isolado, ele se torna senhor. Ele exige repetição. Ele cria dependência. Shlomo já havia escrito em Mishlei 5:22: “As suas próprias iniquidades prenderão o ímpio, e com as cordas do seu pecado será detido.”

O pecado cria cordas invisíveis. Shaul amplia essa compreensão em Romanos 6:16: “Não sabeis que daquele a quem vos apresentais como servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, seja do pecado para morte, ou da obediência para justiça?”

Assim como existia um sistema econômico antigo que podia aprisionar alguém por dívida, hoje há sistemas que aprisionam. Todo homem serve a algo. Se não serve ao Eterno, servirá:

  • ao orgulho

  • aos vícios

  • à ambição desmedida

  • ao dinheiro

  • ao prazer

  • à idolatria moderna

  • à aprovação humana

A ilusão moderna é acreditar em autonomia absoluta. Mas as Escrituras revelam que sempre haverá um senhor. A mentalidade moderna associa liberdade à ausência de autoridade. Mas a Torá ensina algo diferente, pois liberdade é estar sob o governo correto, conforme lemos em Tehilim 119:45: “Andarei em liberdade, pois busquei os Teus preceitos.”


3 - Servir ao Eterno: A Servidão Que Liberta

Se o pecado escraviza, servir ao Eterno transforma, como vemos em Tehilim 119:45: “Andarei em liberdade, pois busquei os Teus preceitos.”

A obediência à Torá não é prisão, é alinhamento com a ordem do Criador. Shaul escreveu em Romanos 6:22: “Agora, libertos do pecado e feitos servos do Eterno, tendes o vosso fruto para santidade, e por fim a vida.”

Observe o paradoxo, libertos do pecado, tornamo-nos servos do Eterno. Mas essa servidão é diferente:

  • Não é forçada.

  • Não é opressiva.

  • Não é destrutiva.

Ela restaura a identidade. Mesmo no mundo moderno, percebemos isso. Hoje não existe escravidão legal em muitas sociedades, mas a estrutura de serviço permanece. Uma pessoa trabalha para um empregador. Ela serve sob regras, horários e metas. Recebe salário em vez de quitar suas dívidas. Isso é uma forma voluntária de serviço. A diferença é que:

  • Não há posse da pessoa.

  • Há remuneração.

  • Há liberdade de saída.

Mas ainda existe autoridade e submissão funcional. Isso nos ajuda a entender que “servir” não é necessariamente opressão, pois depende da natureza da relação. Servir não é sinônimo de humilhação, é relação de autoridade. A pergunta é: quem governa sua vida?

Concluindo este estudo, vemos que a parashá Mishpatim fala sobre servos porque o Eterno quer revelar algo maior, isto é, o ser humano sempre estará sob domínio de algo ou alguém. Você pode estar sob o domínio do pecado, do sistema, da própria inclinação ou sob o domínio do Eterno. A escolha não é servir ou não servir, ela é entre quem será o seu Senhor. A servidão ao pecado leva à prisão interior. A servidão ao Eterno leva à verdadeira liberdade. A Torá não glorifica a escravidão. Ela revela que a verdadeira liberdade começa quando reconhecemos a quem pertencemos. Hoje, a pergunta permanece: Você sabe que é escravo? E o mais importante: De quem?

Que possamos escolher ser eved HaShem, não por coerção, mas por reconhecimento de Sua justiça e bondade.

Que o Eterno lhes abençoe.


Moshê Ben Yosef


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Líve do Último Episódio de Comentando Yeshua Ben Yosef.

 Assista pelo link abaixo.

Último episódio de comentando Yeshua Ben Yosef.

Não perca!!

https://www.youtube.com/live/FNZOS_ipb8o?si=JHFfWIEuU_cz0eWb

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Estudo da Parashá Yitro - Servir ao Eterno com verdade, não com religiosidade.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 17 – Yitro (Yitro)

Shemot/Êxodo 18:1-20:23

Haftará (separação) Is 6:1-7:6; 9:5-6 e

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 5:21-30; Rm 2:17-29


Servir ao Eterno com verdade, não com religiosidade.


Ao longo das gerações, muitos desejaram servir ao Eterno, mas nem sempre O serviram da forma que Ele mesmo estabeleceu em sua Torá. Com o tempo, o serviço simples e obediente foi sendo revestido por estruturas humanas, regras acumuladas, sistemas rígidos e discursos que aparentam santidade, mas que afastam o coração daquilo que o Eterno realmente definiu. A parashá Yitro nos confronta diretamente com essa realidade, pois nela o Eterno Se revela com poder, mas ensina que a aproximação correta não acontece por meio de artifícios humanos, sofisticação, controle ou exaltação religiosa, e sim por simplicidade, reverência e obediência. Este estudo convida o leitor a distinguir entre servir ao Eterno com verdade e apenas praticar religiosidade. Fique até o final deste estudo para compreender mais um pouco sobre servir ao Eterno.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Yitro relata um momento decisivo na caminhada de Bnei Yisrael após a saída do Egito. Yitro, sacerdote de Midian e sogro de Moshe, ouve tudo o que o Eterno fez por Yisrael e reconhece que o Eterno é maior do que todos os poderosos da terra, bendizendo o Seu Nome. Ao observar Moshe julgando o povo sozinho, desde a manhã até a noite, Yitro discerne que esse peso não poderia ser sustentado por um único homem. Ele aconselha Moshe a estabelecer líderes capazes, tementes ao Eterno e amantes da verdade, para julgar o povo em níveis menores, deixando os casos mais difíceis para si. Moshe ouve o conselho, mostrando que a liderança segundo o Eterno não se baseia em poder absoluto, mas em humildade e discernimento.

Em seguida, Bnei Yisrael chega ao deserto do Sinai e acampa diante do monte. O Eterno chama Moshe e declara Seu propósito, que é fazer de Yisrael um tesouro especial entre todos os povos, um reino de sacerdotes e uma nação santa, se ouvirem a Sua voz e guardarem Sua aliança. O povo responde juntos que “Tudo o que o Eterno falou, faremos.” O Eterno então ordena que o povo se prepare, se santifique e estabeleça limites ao redor do monte, pois Sua manifestação seria intensa e temível.

No terceiro dia, o Monte Sinai se enche de trovões, relâmpagos, nuvem espessa e o som crescente do shofar. O monte fuma, porque o Eterno desce sobre ele em fogo, e todo o povo treme. É nesse cenário que o Eterno proclama as Asseret HaDibrot, estabelecendo as bases do relacionamento entre Ele e o homem, e entre o homem e o seu próximo: reconhecer o Eterno como único, rejeitar ídolos, honrar Seu Nome, guardar o Shabat, honrar pai e mãe, preservar a vida, a fidelidade, a justiça e o domínio do coração.

Diante da intensidade da revelação, o povo teme e pede que Moshe fale com eles em lugar do Eterno. Moshe os exorta a não temer, explicando que aquela manifestação veio para que o temor do Eterno estivesse diante deles, a fim de que não se desviassem. Moshe então se aproxima da nuvem espessa onde o Eterno está, assumindo o papel de transmissor das palavras divinas ao povo.

A parashá se encerra com instruções claras sobre como o povo deve se aproximar do Eterno, enfatizando que o culto não deve ser baseado em artifícios humanos, sofisticação ou exaltação do homem, mas em simplicidade, reverência e obediência aos mandamentos. A porção nos ensina que liderança exige humildade e organização; o Sinai nos ensina que o Eterno é próximo, mas também temível; e as Asseret HaDibrot revelam que o verdadeiro relacionamento com o Eterno se manifesta em uma vida de obediência prática.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Yitro começa com um olhar sábio e externo. Yitro o sogro de Moshe o observa em suas atividades na liderança do povo, e percebe que o excesso de peso sobre um único homem não produz vida, mas desgaste. Ele aconselha a Moshe revelando um princípio fundamental, ou seja, o serviço ao Eterno não é sustentado por centralização, exaltação humana ou peso excessivo, mas por responsabilidade compartilhada, organização saudável e sabedoria. Conforme lemos em Shemot 18:17-23. (Leia o texto)

Logo depois, Bnei Yisrael chega ao Sinai. O Eterno se revela ao terceiro dia com trovões, relâmpagos, nuvem espessa e o som do shofar, conforme lemos em Shemot 19:16–19. Porém, após essa manifestação extraordinária, o Eterno surpreende ao instruir o povo sobre como se aproximar dEle, pois demonstra que é pela simplicidade. Eles estavam acostumados com muitos rituais nos cultos pagãos. HaShem não ordena altares sofisticados, nem construções que engrandeçam o homem. Pelo contrário, estabelece limites claros para que o povo não tente controlar, reproduzir ou “domesticar” a revelação. Assim, desde o início, o Eterno deixa claro nesta parashá, que o verdadeiro serviço não deve ser baseado em artifícios humanos, mas em submissão e obediência aos mandamentos de HaShem.


1. Obediência simples e coração inteiro

Servir ao Eterno com verdade significa viver de acordo com os mandamentos de HaShem, sem acrescentar exigências humanas que Ele nunca ordenou e substituam Sua vontade. No Sinai, o Eterno deixa claro que Sua presença não deve ser acessada por meios criados pelo homem. Está escrito em Shemot 20 que o altar não deveria ser elevado nem adornado, para que o homem não fosse exaltado. Logo após a entrega das Asseret HaDibrot, o Eterno declara:


Não fareis outros elohim comigo… Um altar de terra farás para Mim… E se fizeres um altar de pedras, não o edificarás de pedras lavradas; porque, se levantares o teu instrumento sobre ele, profana-lo-ás... Shemot 20:22–25

Aqui, o Eterno ensina que quanto mais o homem tenta embelezar o culto, mais ele corre o risco de profaná-lo. O foco não é a forma, mas a obediência. Isso revela que o Eterno rejeita qualquer serviço que coloque o foco na habilidade, autoridade ou criatividade humana. E fica claro, que as criações de leis e dogmas são opostas à obediência verdadeira.

Os profetas reafirmam esse princípio. Shemuel declara que obedecer é melhor do que qualquer oferta, veja:


Tem, porventura, o Eterno tanto prazer em ofertas e sacrifícios como em que se obedeça à Sua voz? Eis que obedecer é melhor do que sacrificar. Shemuel Alef 15:22


Hoshea transmite a palavra do Eterno dizendo que Ele deseja misericórdia e conhecimento, e não rituais vazios, conforme lemos abaixo:


Pois misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento do Eterno, mais do que holocaustos. Hoshea 6:6


Mikha resume o serviço verdadeiro como justiça, misericórdia e humildade, de acordo com o texto:


Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Eterno pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Elohim? Mikha 6:8


Em todos esses textos, a mensagem é a mesma, ou seja, o Eterno não se impressiona com formas externas ou legalistas, mas com um coração submisso. Em resumo, o Eterno rejeita a substituição da obediência por práticas religiosas externas.


2. Religiosidade, legalismo e dogmas: quando o homem substitui o mandamento.

Antes de continuar, vejamos alguns conceitos importantes que ajudarão na compreensão do assunto. Em primeiro lugar observe o termo “religiosidade”, que é a prática externa de devoção baseada em rituais, costumes, repetições e comportamentos padronizados, que não nascem da obediência direta aos mandamentos do Eterno. Ela se concentra mais na forma do que no conteúdo, mais na aparência do que no coração. A religiosidade pode existir mesmo sem transformação interior. É possível cumprir práticas religiosas, falar palavras corretas e manter uma imagem de santidade, enquanto o coração permanece distante do Eterno, como advertido em Yeshayahu 29:13. Em essência, a religiosidade substitui relacionamento e obediência por hábito e sistema. Ela nasce quando o homem transforma o serviço ao Eterno em um sistema controlável, previsível e mensurável, cria regras não ordenadas, práticas repetidas sem entendimento e padrões que passam a definir quem é aceito ou rejeitado. Infelizmente ainda temos visto muito isso atualmente de ambos os lados. Tanto do lado judaico ortodoxo, onde alguns se prestam ao papel de ficarem atacando as pessoas que desejam se achegar ao Eterno e ao povo por meio da Torá. Como também do lado cristão, que por rejeitarem a Torá achando que ela foi anulada pela tal graça, acusam os que procuram cumprir os mandamentos de desviados e legalistas, o que nos leva ao próximo termo.

O “legalismo” é a distorção da obediência, onde regras humanas passam a ser tratadas como critério de justiça diante do Eterno. Ele ocorre quando o foco deixa de ser cumprir os mandamentos de HaShem e passa a ser cumprir normas, interpretações e exigências criadas por homens, muitas vezes com rigidez e punição. O legalismo mede a fidelidade pela aparência externa e não pelo coração obediente. Ele gera peso, culpa e comparação entre pessoas, e frequentemente produz orgulho espiritual em quem acha que está certo. Foi esse problema que Yeshua confrontou ao dizer que os homens invalidavam os mandamentos do Eterno por causa de suas tradições, conforme Mattityahu 15:6. O legalismo surge quando essas regras humanas passam a ter o mesmo peso, ou mais, do que os mandamentos do Eterno, gerando culpa, medo e orgulho.

Outro termo importante nesse estudo é o Dogma, que é uma afirmação ou conjunto de ideias humanas, baseadas em filosofia, que são elevadas à condição de verdade absoluta, sem possibilidade de questionamento, mesmo quando não estão claramente fundamentadas nas Escrituras. Dogmas criam fronteiras rígidas, isto é, quem concorda “pertence”, quem questiona é rejeitado. Eles dão segurança institucional, mas frequentemente sufocam a responsabilidade individual diante do Eterno. Quando um dogma contradiz ou substitui os mandamentos do Eterno, ele se torna um obstáculo ao serviço verdadeiro, pois transfere a autoridade :da Palavra para o sistema humano. Os dogmas são conclusões humanas elevadas à condição de verdade absoluta, mesmo quando não estão fundamentadas nas palavras do Eterno. Eles criam uma aparência de santidade, mas produzem distanciamento, pois ensinam o homem a confiar em sistemas em vez de confiar no Eterno.

E por último, o termo “halachá”, que significa “caminho” ou “modo de andar” e se refere ao conjunto de interpretações e aplicações práticas desenvolvidas por sábios ao longo do tempo sobre como viver os mandamentos no dia a dia. Em sua origem, a halachá buscava orientar a vida prática. O problema surge quando ela é colocada acima das Escrituras, tratada como obrigatória para todos, ou quando suas cercas e detalhes passam a ter mais peso do que os próprios mandamentos do Eterno. Quando isso acontece, a halachá deixa de ser orientação e passa a ser substituição da vontade revelada do Eterno por instruções humanas, algo que os profetas e os Escritos Nazarenos constantemente advertiram. Atualmente, o excesso de halachá é um grande impeditivo para as pessoas que desejam se aproximar de Yisrael e do Eterno.

Os profetas denunciaram duramente esse desvio. Yeshayahu declara que o povo honrava o Eterno com os lábios, mas O temia com mandamentos ensinados por homens, conforme lemos em Yeshayahu 29:13.


Este povo se aproxima de Mim com a sua boca e Me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de Mim; e o seu temor para Comigo consiste em mandamentos ensinados por homens. Yeshayahu 29:13


O problema não era a falta de atividade religiosa, mas o excesso dela sem obediência verdadeira. O cerne do problema são os mandamentos humanos ensinados como se fossem mandamentos do Eterno. Isso gera aparência de santidade, mas não produz obediência verdadeira.

O fato é que apesar do que dizem alguns, o Eterno nunca pediu sistemas religiosos complexos. Ele pediu obediência, justiça, misericórdia e humildade. Tudo o que ultrapassa isso e passa a substituir os mandamentos deve ser examinado com cuidado.


3. Confirmação nos Escritos Nazarenos: retorno ao caminho simples

Nos dias de Yeshua, esse mesmo desvio, este cenário estava presente. Ele não confrontava os mandamentos do Eterno, mas tudo o que os homens acrescentaram a eles, as cercas excessivas, pois muitos haviam transformado os mandamentos em um fardo pesado, acrescentando camadas de instruções humanas que o Eterno nunca ordenou. Yeshua cita diretamente o profeta Yeshayahu e diz:


Bem profetizou Yeshayahu a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim; em vão, porém, Me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Mattityahu 15:7–9

E ainda declara:


Assim invalidais o mandamento do Eterno por causa da vossa tradição. Mattityahu 15:6


Yeshua chama o povo de volta à essência do Sinai, ou seja, amar o Eterno e viver em obediência. Ele ensina que o verdadeiro serviço começa no interior e se manifesta em atitudes justas, simples e coerentes. O shaliach Yaakov, o apóstolo Tiago, escreveu aos dispersos:


Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Yaakov 1:22


O que Yeshua e os talmidim ensinaram não aponta para a criação de um novo sistema religioso, como o cristianismo, mas para um retorno ao caminho antigo revelado no Sinai, como o Eterno sempre quis.

Concluindo nosso estudo, servir ao Eterno com verdade é caminhar no que Ele ordenou, sem acrescentar, sem retirar e sem substituir mandamentos por tradições e sem transformar o serviço em um sistema religioso. E como vimos a religiosidade oferece segurança aparente, mas rouba a responsabilidade pessoal. O legalismo cria controle, mas não transforma o coração. Os dogmas oferecem identidade, mas afastam da simplicidade da obediência. Desde o Sinai até os profetas, e dos profetas até os dias de Yeshua, a mensagem permanece imutável, isto é, o Eterno deseja um povo que O sirva com reverência, simplicidade e fidelidade aos Seus mandamentos. Não somos chamados a entrar, nos converter ou construir sistemas religiosos, mas a viver uma vida alinhada à vontade do Eterno em cada detalhe do cotidiano. Não importa o que digam aqueles que estão em um sistema religioso, o que importa é viver a vontade do Eterno como Ele espera de nós.

Que cada um de nós examine seu caminho, abandone o que é apenas aparência e retorne ao que é verdadeiro.

Que o Eterno lhes abençoe.


Moshê Ben Yosef