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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Estudo da Parashá Ekev - O Perigo da Prosperidade: Quando a bênção vira armadilha

 


Estudos da Torá

Parashá nº 46Ekev (Continuarem)

Devarim/Deuteronômio 7:12-11:25

Haftará (separação) Is 49:14-51:3.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 4:1-11; Tg 5:7-11.


O Perigo da Prosperidade: Quando a bênção vira armadilha


A parashá Ekev apresenta um alerta muito profundo ao alertar que o maior teste nem sempre é a escassez, pois muitas vezes é a abundância. Durante quarenta anos no deserto, Yisrael dependia diariamente do Eterno. O maná caía dos shamayim, a água brotava da rocha, as roupas não envelheciam e as sandálias não se gastavam. Naquele contexto, ninguém podia atribuir a sobrevivência ao próprio esforço. Entretanto, ao entrarem na terra prometida, cercados por fartura, colheitas abundantes e cidades já edificadas, surgiria um novo perigo: esquecer quem era a verdadeira fonte de todas aquelas bênçãos.

Moshê compreendia que a prosperidade poderia produzir uma ilusão muito mais sutil do que a pobreza. A necessidade costuma levar o homem a clamar ao Eterno, a abundância, porém, frequentemente o convence de que já não precisa dEle. Neste estudo veremos como é importante entender que em todo tempo devemos reconhecer nossa necessidade do Eterno. Siga firme comigo até o final.


RESUMO DA PARASHÁ

A parashá Ekev dá continuidade ao segundo discurso de Moshê às vésperas da entrada de Yisrael na terra prometida. O nome Ekev, que pode ser entendido como "como consequência" ou "porque" ou ainda “continuarem”, introduz uma das principais mensagens da porção: a obediência aos mandamentos do Eterno produz bênçãos, enquanto o esquecimento de Suas instruções conduz à ruína.

Moshê começa lembrando ao povo que, se ouvirem e guardarem os mandamentos, o Eterno permanecerá fiel à aliança estabelecida com Avraham, Yitzchaq e Yaakov. Como consequência da obediência, Yisrael experimentaria prosperidade, saúde, fertilidade e vitória sobre seus inimigos. Contudo, essa promessa não significava ausência de desafios. As nações que habitavam a terra eram numerosas e poderosas, mas o povo não deveria temê-las, pois o mesmo Eterno que derrotou o Mitzrayim continuaria lutando por eles. A conquista da terra aconteceria gradualmente, conforme a sabedoria e o propósito do Eterno.

Em seguida, Moshê relembra os quarenta anos no deserto e mostra que aquele período não foi um castigo sem propósito, mas um tempo de formação e refinamento. O Eterno humilhou, provou e sustentou Yisrael para ensinar que "o homem não vive somente do pão, mas de tudo o que procede da boca do Eterno" (Devarim 8:3). O maná, a preservação das roupas e das sandálias e o cuidado diário revelavam que a verdadeira segurança não estava nos recursos materiais, mas na dependência constante de HaShem.

Ao aproximar-se da terra fértil, Moshê faz uma das advertências mais importantes da parashá: o perigo da prosperidade. Depois de desfrutarem de boas colheitas, cidades construídas e abundância, o povo poderia imaginar que suas próprias forças haviam conquistado tudo aquilo. Por isso ele os exorta a jamais esquecer que é o Eterno quem concede força para adquirir riquezas e cumprir a aliança. O orgulho e a autossuficiência seriam tão perigosos quanto a idolatria, pois ambos afastariam o coração do Criador.

Para combater qualquer sentimento de mérito próprio, Moshê recorda episódios da rebeldia de Yisrael, especialmente o pecado do bezerro de fundição. Ele relembra como intercedeu durante quarenta dias e quarenta noites para que o povo não fosse destruído, demonstrando que a permanência de Yisrael não era resultado de sua justiça, mas da misericórdia do Eterno e de Sua fidelidade às promessas feitas aos patriarcas.

Depois de narrar a renovação da aliança com as segundas tábuas, Moshê resume aquilo que o Eterno requer de Seu povo: temê-Lo, andar em todos os Seus caminhos, amá-Lo, servi-Lo com todo o coração e guardar os Seus mandamentos para o seu próprio bem (Devarim 10:12–13). Ele enfatiza que o Eterno é justo, não faz acepção de pessoas e ama o estrangeiro, sustentando o órfão e a viúva. Por isso, Yisrael também deveria demonstrar esse mesmo caráter em sua maneira de viver.

Nos capítulos finais da porção, Moshê compara a terra prometida ao Mitzrayim. Diferentemente da terra da escravidão, irrigada pelo esforço humano, a terra de Yisrael dependeria das chuvas enviadas pelo Eterno. Essa característica ensinava uma lição permanente: a prosperidade do povo estaria diretamente ligada à sua obediência. Se guardassem os mandamentos, receberiam chuva no tempo certo e desfrutariam da abundância; se se desviassem para a idolatria, a terra sofreria seca e esterilidade.

A parashá termina conclamando o povo a colocar as palavras do Eterno no coração, ensiná-las diligentemente aos filhos, falar delas em casa e durante o caminho, escrevê-las nos umbrais das portas e tê-las continuamente diante dos olhos. Assim, a permanência na terra e as vitórias sobre os inimigos dependeriam da fidelidade à aliança.

A mensagem central de Ekev é que o Eterno deseja formar um povo que não apenas desfrute de Suas bênçãos, mas que viva em constante lembrança de quem Ele é e do que fez. O maior perigo não era a força das nações cananeias, mas o esquecimento. A memória do deserto, do Mitzrayim e da provisão diária deveria produzir humildade, gratidão e obediência. Assim, a verdadeira prosperidade não seria medida pela abundância de bens, mas por um coração que permanece fiel aos mandamentos do Eterno em todas as circunstâncias.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Esta porção traz uma das advertências mais penetrantes de todo o Devarim. Moshê já não fala com um povo faminto no deserto, mas com um povo prestes a entrar numa terra descrita como boa, com trigo, cevada, videiras, figueiras, romãs, azeite e mel (Devarim 8:8). E é justamente diante dessa promessa de fartura que ele introduz um dos temas mais recorrentes de toda a Escritura: o risco espiritual da prosperidade. Você poderá observar que não se trata de proibir a prosperidade ou a riqueza, mas de ter a mente e o coração no lugar certo, reconhecendo que é o doador de tudo.

Este estudo percorre esse tema desde o texto de Ekev, passando pelo restante da Torá, pelos Profetas e pelos Ketuvim, até chegar aos ensinos de Yeshua e dos apóstolos.


1 - A advertência principal

O texto é direto sobre o mecanismo que está em jogo:


"Guarda-te, para que não te esqueças do Eterno, teu Elohim, deixando de obedecer às suas mitsvot, às regras e aos regulamentos que hoje entrego. Para que não suceda que, depois de teres comido e te fartares, e edificares boas casas, e nelas habitares, e aumentarem o gado, os rebanhos, a prata, o ouro e tudo mais que possuem, se tornem orgulhosos, e te esqueças do Eterno teu Elohim que os tirou da terra do Egito, onde viviam como escravos; que os guiou através do deserto vasto e temível, com serpentes venenosas, escorpiões e secas, com o solo ressecado; que tirou água da pedra para vocês; que os alimentou no deserto com o maná, algo desconhecido por seus antepassados; enquanto ele os humilhada e testava com o objetivo de, ao final, fazer o bem a vocês. E digas no teu coração: A minha força e a fortaleza da minha mão me adquiriu esta riqueza. Antes, lembra-te do Eterno teu Elohim, porque ele é o que te dá força para adquirires riquezas, para confirmar o seu concerto, que jurou a teus pais, como se vê neste dia." (Devarim 8:11-18)


Moshê descreve uma sequência bem interessante:

- primeiro vem a fartura;

- depois a satisfação;

- em seguida o crescimento do patrimônio;

- logo aparece o orgulho;

- por fim surge o esquecimento do Eterno.

O pecado não começa quando a pessoa possui riquezas. A sequência no contexto é precisa: comer, fartar-se, construir, habitar, e só então o coração se exaltar. O pecado começa quando a pessoa passa a acreditar que as riquezas nasceram dela mesma. A prosperidade não corrompe de forma instantânea, ela opera devagar, através da repetição do conforto, até que a memória de quem forneceu tudo aquilo comece a se apagar. O que toma o lugar dessa memória não é o ateísmo declarado, mas uma narrativa de autossuficiência: "minha força e a fortaleza da minha mão". Isso é extraordinário, pois o texto não condena possuir riquezas, o problema é atribuir o mérito delas ao próprio braço. Devemos entender que até a capacidade de trabalhar é um presente do Eterno. A inteligência, a saúde, as oportunidades, os talentos, o tempo e a própria vida procedem do Eterno. Por isso, Moshê não condena a riqueza, ele expõe a tendência humana de reescrever a própria história assim que ela chega.

Repare porém, que este texto não é o único a tratar desse assunto da Torá, veremos a seguir outros textos que torna isso ainda mais claro.


2 - O mesmo tema em outras partes da Torá.

Esse alerta não é exclusivo da parashá Ekev. Na porção anterior, Va'etchanan, o mesmo Moshê já havia descrito a terra como um lugar de casas que o povo não construiu, poços que não cavou e vinhas que não plantou (Devarim 6:10-12), o cenário perfeito para o esquecimento se instalar. E mais adiante, no Cântico de Ha'azinu, a mesma ideia reaparece em linguagem poética:


"Engrossou-se Jesurum, e deu coices... e deixou a Deus que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação." (Devarim 32:15)


A imagem de um animal bem alimentado que se volta contra quem o sustenta é, essencialmente, a mesma advertência de Ekev traduzida em metáfora. O fato de o tema aparecer três vezes dentro do próprio Devarim sugere que Moshê o considerava um dos maiores riscos existenciais para a nação que estava prestes a nascer como povo estabelecido numa terra própria.

Percebe-se um padrão, pois quanto mais confortável a vida se torna, maior é a tendência de esquecer o Autor da provisão. A prosperidade produz uma falsa sensação de independência. O homem começa a pensar:

    • eu consegui;

    • eu mereço;

    • eu sou capaz;

    • eu construí tudo isso.

É exatamente esse pensamento que a Torá combate em suas instruções. O Eterno estabelece uma orientação contra a autossuficiência.


3 - A confirmação dos Profetas e dos Ketuvim

Gerações depois, os profetas olham para a trajetória de Israel e reconhecem exatamente o padrão que Moshê havia previsto.


"Depois que se alimentaram, se fartaram; quando se fartaram, se ensoberbeceu o seu coração; por isso se esqueceram de mim." (Hoshea 13:6)


O profeta Hoshea praticamente cita o mecanismo de Devarim 8 como diagnóstico histórico já cumprido. E este é um diagnóstico impressionante, pois a sequência é exatamente a mesma de Ekev e de outras partes da Torá: pastagem, fartura, orgulho e esquecimento.

Amós, por sua vez, aborda o mesmo problema, mas por um ângulo social, observe o texto:

Ai dos que vivem bem em Tziyon e dos que se sentem seguros nas colinas de Shomron, homens renomados das principais nações, a quem se chegou o restante de Yisrael. (Amos 6:1)

Ele denuncia os que vivem despreocupados em meio ao luxo, usando termos como "em repouso em Sião" (Amós 6:1-6 leia o texto), enquanto ao redor deles a injustiça se acumula. Nesse caso, o esquecimento de Deus não aparece como uma crise privada de fé, mas como uma insensibilidade coletiva diante do sofrimento alheio.

Há também um contraponto valioso em Yirmiyahu, que descreve onde deveria estar o verdadeiro motivo de orgulho:

"Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico nas suas riquezas; mas o que se gloria, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR." (Yirmiyahu 9:23-24)

Yirmeyahu denuncia um povo que continuava oferecendo sacrifícios enquanto seu coração estava distante. Eles confiavam mais na estabilidade econômica do que no Eterno. O resultado foi a destruição da terra.

Ao explicar o pecado de Sedom, o profeta Yechezkel escreve algo que surpreende muitos leitores.

"Eis que esta foi a iniquidade de tua irmã Sedom: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade..." (Yechezkel 16:49)

De acordo com o profeta a prosperidade produziu orgulho, o orgulho destruiu a compaixão e a abundância tornou o coração insensível.



E nos Ketuvim, a oração de Agur em Mishlei 30:8-9 mostra que essa preocupação já fazia parte da sabedoria consciente de Yisrael, longe de ser apenas um tema profético isolado:

"Não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão que me é necessário. Para que não suceda que, estando eu farto, te negue, e diga: Quem é o SENHOR? E se eu for pobre, posso furtar e assim profanar o nome do meu Elohim." (Mishlei 30:8-9)


4 - Yeshua retoma e amplia o alerta

Séculos mais tarde, Yeshua ensina dentro dessa mesma tradição profética. O mestre nunca condenou possuir bens, mas um coração escravizado por eles. Na parábola do semeador ele afirma:


As preocupações desta era e o engano das riquezas sufocam a palavra. (Mattityahu 13:3-9)


Observe a expressão usada por Yeshua, “Engano das riquezas”, pois o engano consiste em fazer o homem acreditar que o dinheiro produz segurança permanente, mas apenas o Eterno sustenta a vida.


Em Mattityahu 6:24, ele declara:


"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará o primeiro e amará o segundo, ou desprezará o segundo e será leal ao primeiro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro." (Mattityahu 6:24)


Mamom, termo aramaico para riqueza ou dinheiro, é tratado quase como um segundo senhor, uma força rival que disputa a lealdade que pertence a Hashem, exatamente a mesma disputa que Ekev já havia antecipado em linguagem diferente.

Outro exemplo é o homem rico que ampliou seus celeiros na parábola do rico insensato em Lucas 12:16-21. Esse relato funciona quase como uma narração ilustrativa de Devarim 8: um homem tem uma colheita tão farta que decide construir celeiros maiores, planeja anos de conforto, e em nenhum momento de seu raciocínio interno há espaço para Deus, nem mesmo para agradecer. Ele dizia repetidamente: "meus celeiros", "meus bens", "minha colheita". Nenhuma vez agradece ao Eterno ou reconhece a origem da bênção. Naquela mesma noite sua vida lhe foi requerida. O problema não era possuir celeiros era possuir um coração que já não dependia do Eterno. Essa é a lógica de "minha força e minha mão" encenada em forma de parábola.

O episódio do jovem rico (Marcos 10:17-27 e Mattityahu 19:16-26), com a imagem do camelo e o fundo da agulha, segue a mesma direção: o problema não é a posse em si, é o apego que compete com o lugar que só pertence a Deus. A questão nunca foi financeira.

Sempre foi espiritual, isto é, relacionada ao coração, à fidelidade e à obediência.


5 - Os apóstolos aplicam o princípio à comunidade.

O apóstolo Shaul/Paulo retoma esse assunto ao instruir Timóteo sobre como orientar os membros mais prósperos da comunidade:


"Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo, que abundantemente nos dá tudo para desfrutarmos." (1 Timóteo 6:17)


A instrução de Paulo é quase uma reformulação apostólica do texto de Devarim 8:17-18, aplicada a um contexto comunitário diferente, mas reconhecendo o mesmo risco espiritual da ênfase na prosperidade. Ele está ensinando que a riqueza é incerta, somente o Eterno permanece.

Yaakov/Tiago, por sua vez, é ainda mais incisivo em sua carta. Ele condena os ricos que acumularam riqueza às custas da injustiça (Yaakov 5:1-6), explorando trabalhadores e repreende quem planeja negócios "para hoje ou amanhã" sem nenhuma menção à vontade de Deus (Yaakov 4:13-16). A riqueza havia se tornado um ídolo, não porque fosse pecado produzir, mas porque substituiu a justiça. Em ambos os casos, a estrutura é a mesma que já víamos em Ekev: um planejamento humano que se esquece de quem realmente sustenta tudo.

E ainda vemos Kefa/Pedro recordando que fomos resgatados da "vã maneira de viver" em Kefa Alef/1Pe 1:18. O discípulo de Yeshua não mede sua vida pelo que possui, mas pela fidelidade ao Eterno.



6 - A idolatria da autossuficiência

A parashá Ekev ensina algo profundo, pois a idolatria não começa apenas diante de uma imagem ela começa quando o coração troca sua confiança. No deserto, Yisrael dependia do maná e na terra, dependeria das colheitas. O desafio era não substituir o Doador pelos dons. É possível abandonar os ídolos de pedra e construir um ídolo invisível chamado "eu mesmo".

Quando alguém acredita que sua inteligência, sua empresa, seu trabalho ou seu patrimônio garantem seu futuro, está repetindo exatamente o erro que Moshê advertiu: "Minha força e o poder da minha mão fizeram tudo isso." Por isso Moshê insiste: "Lembrarás de HaShem." Lembrar não significa apenas recordar mentalmente, significa reconhecer diariamente que tudo pertence ao Eterno.

Concluindo nosso estudo, vemos que da Torá aos Profetas, dos Ketuvim a Yeshua, dos evangelhos aos escritos apostólicos, o alvo dessas advertências nunca é a riqueza em si mesma. O alvo é o esquecimento que ela tende a provocar, e a narrativa de autossuficiência que costuma nascer dele. Ekev estabelece o diagnóstico original, em Devarim 8:17:

"a minha força e a fortaleza da minha mão me adquiriu este poder."

Todo o restante das Escrituras, de Hoshea a Yaakov, parece funcionar como um comentário contínuo sobre esse mesmo versículo, cada geração reconhecendo, à sua maneira, o mesmo padrão no coração humano, que foi alertado pelo Eterno como um perigo.

A prosperidade é uma bênção quando conduz à gratidão, à generosidade e à obediência. Porém, torna-se uma armadilha quando alimenta o orgulho e a autossuficiência. A mensagem de Ekev ecoa por toda a Torá, é reafirmada pelos Profetas e aprofundada por Yeshua e pelos shaliachim: o verdadeiro perigo não está na riqueza, mas no coração que deixa de depender do Eterno.

O antídoto contra esse perigo é o mesmo apresentado por Moshê: lembrar. Lembrar de onde o Eterno nos tirou, de como nos sustentou no deserto e de que até a força para trabalhar vem dEle. Quando essa memória permanece viva, a prosperidade deixa de ser motivo de exaltação pessoal e torna-se uma oportunidade de glorificar o Eterno por meio da obediência, da justiça e da generosidade.

Assim, a pergunta que a parashá Ekev faz a cada geração continua atual: quando a abundância chegar, em quem estará a nossa confiança: na obra das nossas mãos ou nAquele que nos deu as mãos para trabalhar?


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estudo da Parashá Vaetchanan - As Dez Palavras: Os Alicerces da Aliança

 



Estudos da Torá

Parashá nº 45Vaetchanan (Supliquei)

Devarim/Deuteronômio 3:23-7:11

Haftará (separação) Is 40:1-26.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 4:1-11; At 13:13-43.


As Dez Palavras: Os Alicerces da Aliança


Poucos textos das Escrituras são tão conhecidos quanto os chamados Dez Mandamentos. Eles estão gravados na memória de milhões de pessoas e são frequentemente apresentados como um conjunto de dez regras fundamentais para uma vida moral. No entanto, essa compreensão, embora importante, está longe de revelar toda a profundidade do que o Eterno entregou no Horev.

As Escrituras não os chamam de "dez mandamentos", mas de Aseret HaDibrot — As Dez Palavras, mas como elas se relacionam com os 613 mandamentos? Elas são mais importantes? Os demais mandamentos são apenas detalhes? E como compreender a afirmação de Yeshua de que toda a Torá repousa sobre dois grandes mandamentos: amar o Eterno e amar o próximo?

Neste estudo, veremos que a Torá possui uma extraordinária unidade. Assim como uma construção sólida começa com fundamentos invisíveis, passa pelos alicerces e se eleva por meio de colunas que sustentam toda a estrutura, também a Palavra do Eterno apresenta uma ordem perfeita.

Compreender essa estrutura transforma completamente a maneira como lemos a Torá. Os mandamentos deixam de parecer uma coleção de regras independentes e passam a revelar um único projeto divino, harmonioso e coerente, cujo propósito é formar um povo que reflita o caráter do Eterno em todas as áreas da existência.

Ao longo deste estudo, veremos que nenhuma parte da Torá está desconectada das demais. Cada mandamento nasce de um princípio maior, cada princípio aponta para um fundamento mais profundo, e todos convergem para o mesmo propósito: ensinar o ser humano a amar o Eterno acima de todas as coisas e a amar o próximo como a si mesmo. Quando essa estrutura é compreendida, percebemos que a obediência deixa de ser um peso e passa a ser a expressão natural de um coração que deseja viver na presença de HaShem. Assim, fica até o final deste estudo para compreender mais do assunto.


RESUMO DA PARASHÁ

A Parashá Va'etḥanan traz o coração do último grande discurso de Moshe à nova geração de Yisra'el, às vésperas da entrada na terra prometida. A porção começa com Moshe relatando sua súplica para atravessar o Jordão, um pedido que foi recusado pelo Eterno. Mesmo assim, ele aceita a decisão com submissão, fortalece Yehoshua para assumir a liderança e continua dedicando seus últimos dias a ensinar o povo.

Moshe relembra momentos marcantes da caminhada, como a revelação no Horev, onde toda a nação ouviu a voz de D’us saindo do fogo sem contemplar nenhuma imagem física, o que fundamenta a severa proibição contra a idolatria. Ele também antecipa as consequências da desobediência e o exílio, mas traz uma promessa consoladora: mesmo longe da terra, se o povo buscar o Eterno de todo o coração, encontrará misericórdia, pois a aliança com os patriarcas permanece firme. É no centro desta leitura que se encontra o Shema ("Ouve, Yisra'el: HaShem é nosso Elohim; HaShem é um"), que convoca o povo a amar ao Eterno com todas as forças e a tornar a Sua Palavra o centro da vida familiar e da rotina diária. Por fim, Moshe faz um alerta crucial contra a autossuficiência que a prosperidade futura poderia trazer, lembrando que a escolha de Yisra'el não aconteceu por mérito próprio, mas por causa do amor e da fidelidade do Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Quando estudamos a Parashá Va'etḥanan, a segunda porção do livro de Devarim, encontramos novamente a proclamação das Aseret HaDibrot ou Aseret HaDevarim (עשרת הדברים), literalmente "As Dez Palavras". Apesar de muitas pessoas conhecerem como “dez mandamentos”, curiosamente, as Escrituras nunca as chamam dessa forma, mas de “dez palavras” ou “dez pronunciamentos” conforme lemos em Devarim 4:13 e 10:4. Essa diferença é significativa. "Davar" significa palavra, não ordem. Essa diferença não é só semântica. Uma palavra gera outras palavras, se desdobra, cresce. Um mandamento isolado só se cumpre ou não. A tradição rabínica sempre tratou as Dez Palavras como sementes, não como uma lista fechada, e isso já casa bem com a imagem que usarei como exemplo. O Eterno não entregou apenas dez regras isoladas; Ele apresentou dez declarações fundamentais que resumem e sustentam toda a Sua instrução.

Dentro da tradição hebraica, as Dez Palavras ocupam um lugar singular. Elas não substituem os demais mandamentos nem representam uma lista reduzida da Torá. Ao contrário, funcionam como os grandes princípios da aliança, dos quais fluem todas as demais instruções que o Eterno revelou a Yisra'el. Assim como há dois dos quais, conforme veremos, derivam estes dez.


1 - A Torá é uma unidade

Um erro comum que as pessoas cometem é imaginar que existam dois grupos de mandamentos: de um lado os Dez Mandamentos e, de outro, os 613 mandamentos. No entanto, as Escrituras Sagradas não apresentam essa divisão.

Os 613 mandamentos formam um único corpo de instruções, e as Dez Palavras são o seu resumo estrutural. É como observar uma árvore: não existem dois sistemas diferentes, o que existe é um único organismo. As raízes alimentam o tronco, e este sustenta os galhos, e eles produzem folhas, flores e frutos. Assim também acontece com a Torá.

Podemos ainda usar um outro exemplo, e particularmente gosto muito desse: a estrutura de uma casa começa de baixo, pelas sapatas. À partir delas vem os alicerces e daí as colunas. Acompanhe comigo o raciocínio.

Quando um intérprete da Torá perguntou a Yeshua qual era o maior mandamento, sua resposta não trouxe algo novo. Ele simplesmente uniu duas passagens da própria Torá. O mestre dá uma resposta dupla. A primeira encontra-se em Devarim 6:5: "Amarás HaShem teu Elohim de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força." E a segunda está em Vayicrá 19:18: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Esses dois mandamentos são os fundamentos de toda a vida da aliança. Rabi Akiva o chamou de klal gadol baTorah, o grande princípio da Torá (essa formulação está na Sifra sobre Vayikrá 19:18). Hillel, numa história bem conhecida do Talmud (Shabat 31a), resumiu a Torá inteira para um pretendente à conversão dizendo: "o que é odioso para ti, não faças ao teu próximo. Isso é toda a Torá, o resto é comentário."

Utilizando a linguagem da construção civil, podemos compará-los às sapatas de um edifício. As sapatas ficam ocultas sob a terra, elas não aparecem, mas tem uma importância singular na estrutura, pois sustentam toda a construção. Sem elas, nenhum edifício permanece de pé. Da mesma forma, todo mandamento da Torá nasce desses dois grandes fundamentos:

    • Amor ao Eterno.

    • Amor ao próximo.

Não existe obediência verdadeira a nenhum mandamento sem esses dois fundamentos. Eles são princípios dos quais as dez palavras estão embasadas.

Partindo dos fundamentos, as duas sapatas, derivam as Dez Palavras, que em nossa ilustração são os alicerces. E aqui há um fato interessante que vou compartilhar com você. Repare que em Shemot 31:18 lemos: E deu a Moshê (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Elohim. Também em Shemot 32:15: E virou-se Moshê e desceu do monte com as duas tábuas do testemunho na mão, tábuas escritas de ambos os lados; de um e de outro lado estavam escritas. E nessa parashá em Devarim 4:13 lemos: Então vos anunciou ele a sua aliança que vos ordenou cumprir, as dez palavras, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Por isso, os antigos sábios de Yisrael, frequentemente observaram que as palavras escritas nas tábuas podem ter sido divididas em duas partes.

Na primeira tábua tratava, principalmente, sobre o relacionamento entre o homem e o Eterno, como os pronunciamentos.

    • Não ter outros deuses.

    • Não fazer imagens.

    • Não tomar o Nome do Eterno em vão.

    • Guardar o Shabat.

Na segunda tábua tratava do relacionamento entre as pessoas, ou seja, o ser humano com seus semelhantes.

    • Honrar pai e mãe.

    • Não assassinar.

    • Não adulterar.

    • Não furtar.

    • Não levantar falso testemunho.

    • Não cobiçar.

Essa divisão não pode ser considerada acidental, pois revela que amar o Eterno produz fidelidade ao Criador, enquanto amar o próximo produz justiça entre as pessoas. As Dez Palavras, portanto, são como o projeto estrutural da casa, por isso a comparação com os alicerces.

Depois dos alicerces, na verdade, subindo à partir deles, surgem as colunas, o que fará com que a estrutura tenha forma. Cada um dos 613 mandamentos desenvolve algum princípio contido nas Dez Palavras. Por exemplo: O mandamento que diz: "Não furtarás". Não se limita apenas ao ato de roubar algo de outra pessoa. Dele derivam dezenas de outras instruções, que falam sobre:

    • honestidade comercial;

    • pesos e medidas justas;

    • devolução de objetos perdidos;

    • pagamento do salário;

    • respeito aos limites da propriedade;

    • proibição da fraude.

Tudo isso nasce de um único princípio. E o mesmo ocorre com o "Não assassinarás". Ele se expande para proteger:

    • a vida humana;

    • o estrangeiro;

    • o pobre;

    • o julgamento justo;

    • o cuidado com quem está em perigo;

    • a responsabilidade por danos.

O mesmo acontece com todas as demais. Assim, uma única Palavra ou pronunciamento do Eterno torna-se em inúmeras instruções e aplicações práticas, que são os mandamentos, em hebraico mitsvot. As Dez Palavras não são independentes dos 613 mandamentos; elas florescem neles.

A tradição rabínica já discute isso há muito tempo. No Talmud, em Makot 23b, Rabi Simlai ensina que foram dadas 613 mitzvot a Moshe: 248 positivas, correspondendo (segundo a anatomia rabínica da época) ao número de partes do corpo, e 365 negativas, correspondendo aos dias do ano solar. E depois o mesmo texto talmúdico mostra o caminho inverso, profetas reduzindo esse total a poucos princípios: Davi a onze, Isaías a seis, Miquéias a três, Isaías de novo a dois (justiça e retidão), Amós a um ("buscai-me e vivei"), Habacuque a um ("o justo viverá pela sua fé"). Ou seja, a própria tradição já utilizava essa ideia de compressão e expansão entre o todo e o essencial, embora o caminho ali seja do 613 para poucos, e não o contrário. A ideia de correlacionar cada uma das 613 especificamente a um dos Dez Mandamentos existe em piyutim conhecidos como Azharot, atribuídos a autores como Saadia Gaon, entre outros.

Agora, para finalizar este tópico, podemos observar a casa inteira. Podemos visualizar a Torá como uma grande construção. As duas sapatas são Amar HaShem e Amar o próximo. Os alicerces são As Dez Palavras. E as colunas são os 613 mandamentos. Que formam a casa pronta. E isso conduz ao tópico seguinte.


2 - Uma vida santa, justa e agradável ao Eterno.

Ainda olhando para o exemplo da estrutura da casa, se retirarmos qualquer parte dessa estrutura podemos comprometer toda a construção. Se alguém afirma amar o Eterno, mas despreza o próximo, a sapata está quebrada ou malfeita. Se uma pessoa afirma amar, mas ignora as Dez Palavras, os alicerces desaparecem. Ou se conhece os princípios, mas rejeita sua aplicação prática, as colunas deixam de sustentar a casa. Tudo permanece interligado.

Quando Yeshua declarou que toda a Torá depende desses dois grandes mandamentos conforme Matityahu 22:37-40, ele não estava reduzindo a Torá a apenas dois mandamentos. Ele estava justamente mostrando que há mais profundidade. A expressão utilizada indica que toda a Torá está pendurada, sustentada ou apoiada sobre eles. É a mesma relação entre raiz e árvore. Ninguém vê a raiz quando olha para uma árvore, mas sem ela não existiriam tronco, galhos nem frutos. Assim também, quem ama verdadeiramente o Eterno desejará guardar Seus mandamentos. E quem ama verdadeiramente o próximo viverá de maneira justa, misericordiosa e íntegra. O amor não substitui a obediência, pelo contrário, ele lhe dá verdadeiro sentido, ou seja, vida.

Concluindo o estudo, vimos que a Parashá Vaetcḥanan nos lembra que as Aseret HaDibrot não são apenas dez mandamentos isolados, mas a estrutura fundamental sobre a qual repousa toda a Torá. O amor ao Eterno e o amor ao próximo são o fundamento invisível da vida da aliança. Sobre eles repousam as Dez Palavras, que estabelecem os grandes princípios da vontade do Eterno. Desses princípios desenvolvem-se todos os 613 mandamentos, que orientam cada detalhe da vida do povo da aliança.

Assim como uma casa precisa de fundação, alicerces e colunas para permanecer firme, a vida daquele que deseja andar diante do Eterno precisa de amor, princípios e obediência. Quando essa estrutura permanece íntegra, a Torá deixa de ser apenas um conjunto de instruções e torna-se um caminho de vida. O amor conduz à obediência, a obediência molda o caráter, e o caráter revela ao mundo a justiça e a bondade do Eterno. É dessa forma que Yisra'el foi chamado a viver: edificando toda a sua existência sobre os fundamentos eternos da Palavra de HaShem.

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef