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sexta-feira, 26 de junho de 2026

PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?

 


PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?



Devido à interpretações erradas muitos leitores da bíblia tem um entendimento errado do que o apóstolo Paulo, o rav Shaul, fala na epístola aos Colossenses 2:9. Infelizmente há muita interpretação errada das palavras de Paulo, devido à ausência de compreensão do contexto original.

Então, será que Colossenses 2:9 realmente ensina que Yeshua é o próprio D’us encarnado ou está utilizando uma linguagem conhecida do judaísmo do Segundo Templo para falar da presença e autoridade divinas que habitam nele?

Muitos leem o texto do apóstolo a partir de uma teologia posterior, sem considerar o contexto do século I. Essa é uma discussão antiga e importante.

Primeiro, vejamos o texto:

"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Colossenses 2:9)
Qual o contexto desse verso? Para quem Shaul está escrevendo e qual o contexto daquela comunidade? Qual o motivo da carta? Quando respondemos a essas perguntas entenderemos o contexto original. Quando isso fica claro, Colossenses 2:9 deixa de parecer um versículo isolado indicando divindade e passa a fazer parte de um raciocínio muito maior e correto, de acordo com a mentalidade paulina da época.

1. A cidade de Colossos

Colossos ficava na região da Frígia, na Ásia Menor (atual Turquia). Era uma cidade situada próxima de Laodiceia e Hierápolis (Shaul menciona ambas em Colossenses 4:13.).

No passado Colossos havia sido uma cidade importante, mas no século I já não possuía o prestígio comercial de antes. A população era bastante mista havia gregos, frígios, romanos e judeus da diáspora. Sabemos por fontes históricas que havia uma comunidade judaica significativa naquela região desde os tempos dos selêucidas. Portanto, a congregação provavelmente era composta por judeus que criam no testemunho de Yeshua como Mashiach e por gentios atraídos ao D’us de Yisrael através do testemunho de Yeshua e dos Shaliachim(apóstolos). Exatamente como ocorreu em muitas outras comunidades fundadas durante o ministério apostólico.

2. Shaul provavelmente nunca visitou Colossos

Há um detalhe importante, pois possivelmente o Rav Shaul nunca tenha visitado esta cidade. Em Colossenses 2:1 ele escreve: "...e por todos quantos não me viram pessoalmente." Isso sugere que a comunidade foi fundada por outro colaborador, que de acordo com muitos estudiosos o principal candidato é Epafras, conforme lemos em Colossenses 1:7: "Como aprendestes de Epafras." Epafras parece ter sido discípulo de Shaul e fundador da comunidade. Portanto, Shaul escreve àquela congregação porque recebeu notícias preocupantes por meio de seu discípulo.

3. Qual era o problema?

Aqui chegamos ao ponto central, o contexto do assunto da carta e consequentemente, o motivo da fala no seu texto. Existe um grande debate acadêmico sobre a natureza exata da heresia combatida na carta. Mas alguns elementos são claros, vejamos:

- Filosofia

Em Colossenses 2:8 lemos: Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio de filosofias.

A palavra "filosofia" aqui não significa necessariamente Platão ou Aristóteles, mas refere-se a um sistema religioso ou espiritual que competia com o ensino original apostólico.

- Culto aos anjos

Em Colossenses 2:18 encontramos: ...culto dos anjos...

Isso é extremamente importante, pois parece que certos grupos ensinavam que o acesso a D’us exigia mediação angelical.

- Ascetismo

Ainda em Colossenses 2:21 lemos: Não toques, não proves, não manuseies.

Haviam práticas rígidas de negação do corpo.

- Experiências místicas

Colossenses 2:18 registra: baseando-se em visões.

Algumas pessoas reivindicavam experiências espirituais superiores.

Muitos estudiosos acreditam que o problema não era paganismo puro, mas também não era judaísmo puro. Parece que estavam inserindo uma mistura, algo parecido com um misticismo judaico primitivo, especulações angelológicas, elementos ascéticos e influências helenistas. Em outras palavras, era uma espiritualidade que dizia "Yeshua é importante, mas não basta." Não estavam apenas reduzindo a importância do ensino de Yeshua, estavam inserindo outros elementos, contrários ao TaNaK, que nem Yeshua e nem os talmidim nunca ensinaram. E é justamente contra isso que Shaul escreve.

Entendendo todas essas coisas, e com o objetivo de nos aprofundarmos um pouco no assunto do verso em estudo, é preciso abandonar, por alguns instantes, tanto as lentes do cristianismo tradicional como as do antitrinitarismo moderno e tentar entrar na mente de um judeu do século I. A pergunta correta não é: "O que os teólogos do século IV entenderam?" Nem: "O que os antitrinitários modernos entendem?". A pergunta é: O que um discípulo de Yeshua, judeu do primeiro século teria entendido ao ouvir que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade"?

Voltemos ao texto, mas observemos os versos anteriores, desde o início do capítulo.

Porque desejo dar informações sobre quão duramente trabalho por vocês, pelos de Laodiceia e por todos que não me conhecem pessoalmente. Meu propósito é encorajá-los, uni-los em amor, para que tenham todas as riquezas derivadas da segurança e conheçam integralmente a verdade secreta de Deus, isto é, o Messias. Todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos nele. Digo isso para que ninguém os engane com argumentos plausíveis, mas ilusórios. Porque apesar de estar longe de vocês fisicamente, estou presente em espírito, alegrando-me em ver a firmeza disciplinada e resoluta de sua confiança no Messias. Portanto, como vocês receberam o Messias Yeshua, o Senhor, continuem a viver unidos a ele. Permaneçam profundamente enraizados nele; continuem a ser edificados nele e confirmados na confiança, como foram ensinados, para que transbordem em ações de graças. Cuidem para que ninguém os cative por meio de filosofias e enganos vãos, seguindo tradições humanas que concordam com os espíritos elementares do mundo, mas não concordam com o Messias. Porque nele habita, corporalmente, a plenitude do que Deus é. E, por sua união com ele, vocês foram plenificados — ele é o cabeça de todo governo e autoridade. Colossenses 2:1-10

A palavra grega traduzida para plenitude é pleroma (πλήρωμα), que significa "plenitude", "totalidade", "aquilo que enche".

4. O que significava "pleroma" no século I?

Muitos leitores começam ler em Colossenses 2:9, mas Paulo começou o argumento muito antes. O texto não pode ser analisado fora de seu contexto. A preocupação da carta não é provar que Yeshua é Deus, porque essa nunca foi a visão dos talmidim. A preocupação é combater um ensino que diminuía sua posição, conforme vimos acima.

Parece que alguns grupos ensinavam que o homem precisava subir uma espécie de escada espiritual através de seres intermediários. Paulo responde: Vocês já possuem tudo no Messias. E por quê? Porque ele era D’us? Não, porque o ensino que ele deixou acerca da Palavra do Eterno, a Torá, era suficiente. Por isso Shaul diz que o mashiach é suficiente. Por isso ele usa repetidamente a palavra pleroma (plenitude).

Hoje muitos pensam que "plenitude da divindade" significa: "100% D’us." ou “uma emanação”. Mas essa não era necessariamente a maneira hebraica de pensar. No Tanakh encontramos a ideia de plenitude relacionada à presença divina. Veja os seguintes textos:

- Em Yeshayahu 6:3: Toda a terra está cheia da sua glória.

A terra não se torna D’u, mas é preenchida pela manifestação divina.

- Em Êxodo 40:34: A glória do Senhor encheu o tabernáculo.

A plenitude divina habita no tabernáculo, mas ninguém conclui que o tabernáculo seja D’us.

- Em 1 Reis 8:10-11: A glória do Senhor encheu a casa.

Novamente, presença plena, não identidade ontológica.

Portanto, para um judeu do século I, "plenitude" normalmente evocava a ideia de habitação da presença divina. No judaísmo do período do Segundo Templo, "plenitude" frequentemente se referia à presença, sabedoria, glória ou manifestação de D’us.

Por exemplo:

  • A glória de D’us enchia o Tabernáculo (Êxodo 40:34).

    A glória de D’us enchia o Templo (1 Reis 8:10-11).

    A Sabedoria divina era descrita como habitando entre os homens (Eclesiástico 24).

Em nenhum desses casos a presença divina transformava o objeto ou local em D’us.

O pensamento hebraico distingue entre:

  • - Deus (HaShem)

    - Sua glória (Kavod)

    - Sua presença (Shechiná)

    -Sua palavra (Davar)

    - Sua sabedoria (Chochmá)

Todas são manifestações reais do Eterno sem que deixem de existir distinções entre o Criador e sua criação.

5. O verbo "habitar"

O apóstolo Paulo escreve: “Nele habita corporalmente.” O verbo grego é: κατοικέω (katoikeō), que significa residir permanentemente, estabelecer morada ou fixar habitação.

Este verbo aparece frequentemente na Septuaginta para falar da habitação da presença divina. Isso aproxima muito o texto da linguagem da época do Templo. Em outras palavras: “Yeshua está sendo apresentado como o lugar definitivo da habitação de D’us.” Essa ideia aparece também em Yochanan/João.

João 1:14 diz: O Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós. O verbo usado lembra diretamente o Mishkan, e a idéia aqui é impressionante, pois o que antes acontecia no Tabernáculo agora acontece em uma pessoa. O Templo não virava o próprio Eterno, mas ele comportava a presença. Assim, o Templo não desaparece da teologia apostólica. Ele é reinterpretado à luz do Messias. Por isso Yeshua diz: Destruí este templo e em três dias o levantarei. Yochanan explica que o mestre falava de seu corpo.

Novamente, a plenitude de D’us está presente no Messias e transborda para os discípulos.

6. O conceito judaico da Shechiná

Embora a palavra Shechiná não apareça no Tanakh, por tratar-se de um termo rabínico cunhado na tradição judaica posterior, durante o período do Talmude e dos Targuns, ela se tornou comum no judaísmo para descrever a presença manifesta de D’us.

Os sábios falavam da Shechiná no Tabernáculo, no Templo, entre os justos e em Yisrael. A Shechiná não era outro deus, nem era uma pessoa separada, era a manifestação da presença divina.

Quando Paulo diz que toda a plenitude habita em Yeshua corporalmente, um judeu poderia muito bem entender que toda a Shechiná de D’us está presente nele. E isso não significa que ele era o Eterno ou uma emanação do Eterno, mas que o Eterno estava nele.

7. O contexto da Sabedoria (Chochmá)

Existe algo ainda mais interessante que muitos interpretam errado. Durante o período do Segundo Templo, muitos judeus falavam da Sabedoria divina quase como uma personagem. Por exemplo: Em Provérbios 8. Sabedoria de Salomão.

Também Eclesiastes 24, a Sabedoria estava com D’us, participava da criação, habitava entre os homens, mas continuava sendo uma expressão do próprio D’us. Não era um segundo deus ou uma emanação. Era na verdade uma representação.

Muitos estudiosos entendem que Paulo utiliza essa tradição para falar do Messias. Por isso Colossenses 1 afirma: Tudo foi criado por meio dele. A linguagem lembra muito a Sabedoria personificada, mas não significa que Yeshua estava criando o universo ou existisse antes de nascer.

8. O significado de "theotēs"

Ainda nesse mesmo verso, encontramos um detalhe técnico importante, pois em Colossenses 2:9 aparece também o termo θεότης (theotēs), geralmente traduzido por divindade ou natureza divina. Mas existe outra palavra grega semelhante, o termo θειότης (theiotēs), e em Romanos 1:20 encontramos esta segunda palavra. Paulo escolheu propositalmente theotēs em Colossenses. Isso mostra que ele deseja enfatizar algo extremamente forte. Mas ainda resta a pergunta: O que significa possuir plenamente a divindade? A resposta não é automaticamente: Ser o próprio D’us, pois no pensamento judaico, alguém pode ser investido da autoridade, glória e presença divina sem ser o próprio Eterno.

E aqui entramos numa das chaves mais importantes para a compreensão do contexto. No judaísmo existe o conceito de: Shaliach (שליח), que significa o enviado. Veja, os rabinos ensinavam que o enviado de uma pessoa é como a própria pessoa. O emissário falava em nome de quem o enviou, agia com sua autoridade e representava sua vontade. Isso ajuda a compreender muitas falas de Yeshua como por exemplo: “...Quem me vê, vê o Pai...”, “...Quem me recebe, recebe aquele que me enviou…”. No pensamento judaico, representação perfeita não significa identidade absoluta.

Há outro paralelo frequentemente ignorado, em Shemot/Êxodo 7:1 O Eterno diz a Moshê:

Eu te constituí como Elohim para Faraó. Moshê virou D’us? Claro que não. Ele recebeu autoridade divina para representar o Eterno. Agora imagine isso levado ao nível máximo. O Messias seria o representante supremo de D’us, a imagem perfeita, o reflexo sem distorção. Enfim, o portador pleno da presença divina, não o Eterno.

9. O que Paulo provavelmente quer afirmar?

Dessa forma, juntando todo o contexto que podemos refletir aqui: Templo, Shechiná, Sabedoria, Shaliach e Autoridade messiânica. Rav Shaul parece estar dizendo: Tudo aquilo que D’us é em sua presença, glória, autoridade, sabedoria e propósito habita plenamente no Messias. Por isso não há necessidade de buscar anjos, mediadores adicionais, poderes cósmicos ou experiências místicas paralelas, pois tudo está concentrado nele, ou melhor, nos ensinos dele.

Vale à pena ainda mencionar um paralelo interessante. Em Números 25, Pinchás age com o zelo do próprio Eterno. O texto chega a dizer: Ele teve o meu zelo. Pinchás não se torna o Eterno, mas manifesta perfeitamente a vontade divina naquele momento. Como um representante não uma emanação. Por isso recebe a aliança de paz. Por isso, da mesma forma, o Messias representa a expressão máxima da vontade divina. A diferença é que Pinchás manifesta parcialmente o caráter de D’us em um episódio específico. E Yeshua manifesta plenamente o caráter de D’us durante toda sua vida de justiça. Por isso, Rav Shaul pode dizer que toda a plenitude habita nele.

Portanto, quando Colossenses 2:9 é lido dentro do universo judaico do século I, a primeira imagem que surge não é a de uma discussão filosófica sobre essência ou natureza divina, mas a do Templo, da Shechiná, da Sabedoria de D’us e do enviado perfeito do Eterno. O texto certamente exalta Yeshua a um nível extraordinário, mas não o divinisa ou afirma que ele é o Eterno. O que é inegável é que Paulo apresenta Yeshua como aquele em quem D’us habita de forma única e plena, cumprindo e superando tudo aquilo que o Mishkan, o Templo, Moshé, a Sabedoria e até Pinchás haviam apenas prefigurado. Essa leitura se harmoniza profundamente com o ambiente judaico do primeiro século e com os padrões de pensamento encontrados no Tanakh e na literatura judaica do Segundo Templo.



Por: Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Estudo da Parashá Hukat - Balak - O zelo, a aliança de shalom e o coração do Mashiach

 


Estudos da Torá

Parashá nº 39 e 40Hukat - Balak

(Regulamentos - Balak)

Bamidbar/Números 19:1-25:9

Haftará (separação) Jz 11:1-33 e Mq 5:6-6:8.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 3:9-21 e 2Pe 2:1-22.


O zelo, a aliança de shalom e o coração do Mashiach


Esta semana estudamos as parashiot Hukat e Balak, dois textos que juntos formam um dos episódios mais dramáticos de toda a caminhada de Yisrael pelo deserto. E pretendo focar especificamente no que acontece no final da parashá Balak, porque ali está um nó teológico que vai muito além do episódio em si.

Se você prestou atenção no início da parashá Balak, sabe que Balak ben Tzipor, rei de Moab, entrou em pânico quando viu o que Yisrael tinha feito aos amorreus. Em vez de partir para a guerra, ele contratou um profeta, Bileam ben Beor, para amaldiçoar Yisrael. Três vezes Balak posicionou Bileam. Três vezes saíram bênçãos. O plano de maldição fracassou completamente. Mas o inimigo encontrou outro caminho. E esse segundo caminho quase destruiu Israel por dentro. Permaneça até o fim desde estudo e descobrirá uma conexão entre Pinchás e o coração do mashiach.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O final da porção Balak começa com uma cena de sedução. Mulheres de Moab e Midiã atraem israelitas para festas, e essas festas envolvem adoração a Baal Peor e comidas sacrificadas. O texto é direto: o povo comeu, prostituiu-se com as mulheres e se curvou aos deuses delas. Uma praga começa então no meio do povo de Yisrael. O Eterno ordena que os líderes que caíram nesse ato de idolatria fossem executados.

É nesse clima de crise, com o povo chorando à porta da Tenda do Encontro, que acontece o episódio que dá nome à próxima parashá.


E eis que um homem dos filhos de Yisrael veio e trouxe a seus irmãos uma midianita, aos olhos de Moshé e aos olhos de toda a congregação dos filhos de Yisrael, enquanto eles choravam à porta da Tenda do Encontro. Pinchas ben Elazar, filho do sacerdote Aharon, viu isso, levantou-se do meio da congregação, tomou uma lança na mão e foi após o homem de Yisrael até o interior de sua tenda, e atravessou os dois, o homem de Yisrael e a mulher, pelo ventre dela. E a praga cessou. Bamidbar 25:6-8


O nome do homem de Yisrael era Zimri ben Salu, príncipe da tribo de Shimon. A mulher era Cozbi bat Tzur, filha de um líder midianita. O ato deles não foi discreto. Foi ostensivo, deliberado, quase uma provocação política feita na frente de Moshé e de toda a congregação. Pinchas age com zelo e a praga cessa. O texto registra que 24.000 pessoas já tinham morrido por causa da praga que havia se irrompido no meio do povo.

A recompensa de Pinchas vem na próxima parashá, que leva seu nome. O Eterno fala a Moshé em Bamidbar 25:11-13:


Pinchas ben Elazar, filho do sacerdote Aharon, desviou o meu furor de sobre os filhos de Yisrael, ao ser zeloso com o meu zelo no meio deles, e eu não consumi os filhos de Yisrael no meu zelo. Por isso dize: eis que eu lhe dou a minha aliança de paz (Brit Shalom) e ela será para ele e para a sua descendência depois dele uma aliança de sacerdócio eterno, porquanto foi zeloso pelo seu D’us e fez expiação pelos filhos de Yisrael.


Observe aqui uma inversão profunda, pois um ato de violência gerou salvação e paz. Afinal, quando Pinchás eliminou o casal infame, muitas vidas foram salvas da praga e para el próprio o Eterno abençoou com “brit shalom”. Evidentemente que não é como uma glorificação da violência, mas como contenção de uma ruptura que estava destruindo o povo por dentro. O ponto central não é a violência em si. O ponto central é o zelo pela santidade do Eterno e pela preservação da aliança. O zeloso Pinchás que detém a ira recebe aliança de paz.

Quando observamos as duas parashiot juntas, percebemos que existe um fio condutor, um tema profundo por trás: Em Hukat o povo é disciplinado pelas serpentes ardentes por causa da murmuração. Em Balak o povo é disciplinado pela praga por causa da idolatria. No entanto, em ambos os casos havia pecado, juízo, havia um meio providenciado pelo Eterno para interromper a destruição e o povo é chamado ao arrependimento. Em Hukat, o sinal foi a serpente de bronze e em Balak, o sinal foi o ato de zelo de Pinchás. Ambos os relatos mostram que a vida é restaurada quando o povo abandona a rebelião e retorna ao Eterno.

Há aqui uma aparente contradição: Um ato severo produz uma aliança de paz, mas as Escrituras mostram que a verdadeira paz não existe sem a remoção daquilo que destrói a comunhão com o Eterno. O que nos leva ao primeiro tópico e a haftará ou separação dos profetas, referente a esta parashá.


1 – O Remanescente: Orvalho e Leão

A separação dos profetas chamada de haftará, associada à parashá Balak, vem do profeta Mikhah, e a conexão não é acidental. Observe o que Mikhah diz diretamente:


Povo meu, lembra-te do que planejou Balak, rei de Moab, e o que lhe respondeu Bileam ben Beor, e do que aconteceu, entre Shitim e Gilgal, para que você entenda os atos de salvação realizados pelo Eterno. Mikhah/Mq 6:5


O profeta, séculos depois, relembra o episódio de Balak como prova da fidelidade divina. O Eterno que através do zelo de Pichás, impediu a maldição é o mesmo que agora entra em litígio com o povo, porque o povo esqueceu quem os defendeu.

Nos versículos 6 a 8, Miquéias fala de um remanescente de Yaakov no meio das nações. Aqui tem uma imagem dupla fascinante: Primeiro, o remanescente é como orvalho do Eterno, como chuva sobre a erva, que não depende dos homens nem aguarda aprovação humana. É presença soberana e silenciosa, que nutre sem pedir licença. Ao mesmo tempo, esse mesmo remanescente é como leão entre os animais da floresta, poder que ninguém contém, que avança e não há quem o liberte. O orvalho que nutre e o leão que protege no mesmo sujeito. Aqui fala da casa de Yisrael espalhada entre as nações, mas também fala de outra coisa. Guarda essa imagem, vamos precisar dela quando chegarmos ao mashiach.

Mikhah 6 muda o tom, o Eterno chama as montanhas como testemunhas e abre como um processo judicial contra o povo. É o gênero literário comum nos livros proféticos, a palavra ריב – riv, que literalmente significa disputa, contenda ou litígio, onde HaShem age como parte ofendida num tribunal cósmico.

A pergunta do Eterno é desarmante: 'O que fiz a você? Em que te cansei?' E ele recita os atos de salvação: a saída do Egito, Moshé, Miriam e Aharon, e o episódio de Balak e Bileam. A resposta do povo é a pergunta ritual errada: 'Com o que virei perante o Eterno? Com holocaustos? Com rios de azeite? Com o primogênito?' E então vem um dos versículos mais potentes de todo o Tanakh: Mikhah 6:8 Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Eterno requer de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?


Percebam as palavras que o Eterno usa através do profeta: Mishpat. Chesed. Hatznea lechet im Elohecha. Justiça. Amor leal. Caminhar humilde com seu D’us. O clímax da haftará não é ritual, é ético e relacional. E isso vai conectar diretamente com o que Yeshua vai dizer séculos depois.


2 – A profecia Messiânica

O Texto imediatamente anterior à Haftará, em Mikhah 5:1-5 nos revela uma profecia. É uma das profecias messiânicas mais explícitas de todo o Tanakh:

E tu, Beit Lechem, Efrata, pequena para ser entre os milhares de Yehudah, de ti me sairá para mim o que há de ser Governante em Yisrael; cujas origens estão no passado distante, nos tempos antigos. Por isso, ele desistirá (de Yisrael) até que a mulher em trabalho de parto dê à luz. Então o restante de seus parentes voltará ao povo de Yisrael. Ele permanecerá e alimentará seu rebanho com a força do Eterno, com a majestade do nome do Eterno, seu Elohim; e eles permanecerão juntos, pois ele crescerá até os confins da terra; e este será paz. Mikhah 5:1-4 (ou 2-5 dependendo da versão)


Note que o Eterno, pela boca do profeta usa: 'Vezeh hayah shalom', “e este será a paz”. O mashiach que vem de Beit Lechem é descrito com a mesma palavra que HaShem usou para recompensar Pinchas: shalom. Isso não é coincidência! Mikhah 5 e 6 formam uma unidade contextual. O mashiach que vem de Beit Lechem lidera um remanescente que é orvalho e leão entre as nações, e o critério pelo qual seu povo vive é mishpat, chesed e hatznea lechet – justiça, misericórdia e humildade diante do Eterno.

Existe uma relação profética muito interessante. Observe que Pinchás aparece como alguém que tem zelo pelo Nome do Eterno, intercede em favor do povo, interrompe um juízo e recebe uma aliança perpétua. Esses elementos reaparecem nas profecias sobre o futuro rei descendente de David, o Mashiach. Por exemplo, em Yeshayahu 9:6-7, o governo do Mashiach é estabelecido através do:

"zelo de HaShem Tzevaot". Também em Yeshayahu 11, o descendente de Yishai julga com justiça e remove a maldade da terra. Assim como Pinchás removeu aquilo que contaminava o povo.

Pinchas é como Tipo e Sombra do caráter zeloso do Mashiach, ele agiu com zelo para deter a ira divina sobre o povo. O resultado não é glória guerreira, é Brit Shalom, aliança de paz. Séculos depois, o mashiach de Beit Lechem é descrito por Mikhah exatamente como 'ele será a paz'. Yeshua, nesse fio tipológico, aprofunda o padrão de forma radical: não mata para deter a praga, mas vive em justiça de tal forma a ponto de morrer para deter a morte. O zeloso que detém a ira divina, aqui, é o próprio representante do Eterno, o mashiach, chamado de Filho de Elohim.

A Brit Shalom de Pinchas funciona como sombra, um apontamento profético, um prenúncio real, histórico, que direciona para algo maior. A aliança de paz definitiva é a que o mashiach sela com sua própria vida justa de obediência dedicada ao Eterno até ser morto.

E tem mais. Mikhah 6:8, mishpat, chesed, hatznea lechet, reflete diretamente no ensino de Yeshua. Em Mateus 23:23, quando ele repreende alguns fariseus que dizimavam religiosamente o que era menor e esqueciam o que era maior, ele diz:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e deixastes o mais importante da Torá: o juízo, a misericórdia e fidelidade. Estas coisas são necessárias dar atenção, sem negligenciar as outras. Mateus 23:23


Mishpat, chesed, hatznea lechet — justiça, misericórdia, fidelidade. Yeshua está citando ou fazendo um midrash de Mikhah, com plena consciência. Ele não está abolindo a Torah, está apontando para o coração dela. O mesmo coração que Mikhah identificou como o que o Eterno requer.


3 – A relação com Yeshua

Se entendermos Yeshua como o Mashiach prometido, o paralelo não está em uma função de substituir ou ser o Eterno, mas em sua missão de restaurar o povo à fidelidade ao Eterno. Yeshua não veio para abolir os mandamentos, ele veio para chamar Yisrael ao arrependimento.

Assim como Pinchás enfrentou a corrupção dentro do acampamento, Yeshua confrontou a hipocrisia, a injustiça e a desobediência. Assim como Pinchás teve zelo pela santidade do povo, Yeshua demonstrou zelo pela Casa do Eterno. O paralelo principal não é o de um salvador divino, mas o de um servo fiel que conduz o povo de volta ao Eterno.

Infelizmente, por falta de interesse e interpretação correta, os anti mashiach na ânsia de negar a Yeshua, costumam afirmar que o Eterno não aceita sacrifício humano, comparando a morte de Yeshua com sacrifício. No entanto, eles desprezam o entendimento de que não foi a morte dele o sacrifício, mas sua vida justa que foi o verdadeiro sacrifício. Vejamos isso em relação com o que ocorreu com Pinchás.

Essa é uma reflexão importante e, para tratá-la com fidelidade às Escrituras, precisamos antes separar conceitos que muitas vezes são misturados.

O Eterno realmente rejeita sacrifícios humanos. O Tanakh é explícito ao condenar o oferecimento de seres humanos como sacrifício. Como vemos em Devarim 12:31, o Eterno reprova as nações que queimavam seus filhos e filhas em altares pagãos. Da mesma forma, em Yirmeyahu 7:31, Ele declara que tal prática jamais entrou em Seu coração. Portanto, qualquer compreensão que apresente o Eterno exigindo ou desejando um sacrifício humano literal entra em conflito com o próprio Tanakh.

Resta-nos então uma pergunta: O que produz expiação segundo as Escrituras? Talvez você vá responder de bate pronto: sacrifício de sangue, pois a bíblia diz que “sem sangue não há expiação de pecados”, conforme diz o autor da epístola aos hebreus 9:22. Entretanto, isso é uma interpretação muito errônea do que o contexto desse verso quer apresentar.

Quando analisamos o Tanakh, pois é lá que estão os mandamentos, percebemos que a expiação não está limitada ao sangue dos korbanot do Mishkan ou do Beit HaMikdash. é mais amplo do que muitas vezes se imagina. O sistema dos korbanot era uma das formas pelas quais o Eterno tratava a questão do pecado, mas não a única. As Escrituras mostram diversos meios pelos quais o homem pode obter perdão, reconciliação ou remoção das consequências de suas transgressões. Encontramos na verdade, expiação realizada por diversos meios como:

    • Arrependimento (teshuváh).

O arrependimento sincero ocupa posição central nas Escrituras. Veja o texto: Yechezkel 18:21-22

"Mas, se o perverso se converter de todos os seus pecados que cometeu, guardar todos os Meus estatutos e proceder com juízo e justiça, certamente viverá; não morrerá. De todas as suas transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele."

Observe que o texto não menciona korban, pois o foco está na mudança de vida.

"Deixe o perverso o seu caminho, e o homem mau os seus pensamentos; converta-se a HaShem, que se compadecerá dele." Yeshayahu 55:7

    • Oração (Tefilah).

A oração aparece repetidamente como meio de obter misericórdia. Na dedicação do Beit HaMikdash, Shelomo pede: "E eles se converterem a Ti de todo o coração... e orarem a Ti... então ouve nos shamayim e perdoa ao Teu povo." Melachim Alef 8:46-50

Aqui o perdão está ligado à oração acompanhada de arrependimento.

Em Yonah 3:5-10 os habitantes de Nineveh clamam ao Eterno. Não há korban mencionado. O resultado:

"E Elohim viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho."

    • Justiça (tzedakáh).

As Escrituras associam atos de justiça à remoção da culpa. Em Mishlei 16:6: "Pela bondade e pela verdade se expia a iniquidade."

A palavra utilizada aqui é precisamente relacionada à ideia de expiação. Em Daniel 4:27 Daniel aconselha Nevuchadnetzar: "Redime os teus pecados pela justiça e as tuas iniquidades mostrando misericórdia aos pobres."

A justiça é apresentada como resposta ao pecado.

    • Misericórdia (chessed).

A misericórdia é vista como instrumento de reconciliação, como vemos em Hoshea 6:6: "Porque desejo misericórdia e não sacrifício."

O profeta não elimina os korbanot, mas mostra que o Eterno valoriza ainda mais a misericórdia. Em Mishlei 21:3 lemos: "Praticar justiça e juízo é mais aceitável a HaShem do que sacrifício."


    • Sofrimento suportado por causa da fidelidade ao Eterno.

Este é um tema muito presente nos Tehilim e nos Profetas. Em Tehilim 44:22: "Por amor de Ti somos entregues à morte continuamente."

Os justos sofrem não por culpa própria, mas por permanecerem fiéis. Yeshayahu 53:11 independentemente das discussões sobre a identidade do servo, o texto estabelece um princípio: "Pelo seu conhecimento o Meu servo justo justificará a muitos."

A justiça do servo beneficia outros, conforme Zecharyah 13:7-9. O remanescente passa pelo fogo da aflição e emerge purificado. O sofrimento aparece como processo de refinamento.


    • Atos de zelo pela aliança.

Este é o caso clássico de Pinchás em Bamidbar 25:11-13:

"Pinchás... desviou a Minha ira dos filhos de Yisrael."

E mais adiante: "Fez expiação pelos filhos de Yisrael."

É um dos textos mais importantes para este tema, pois não houve altar, não houve oferta animal, não houve derramamento ritual de sangue. O que produziu a expiação foi o zelo pela santidade do Eterno. Apesar de ter havido derramamento do sangue dos dois transgressores.


    • Confissão de Pecados

Muitas vezes a confissão aparece junto com a teshuváh. Em Tehilim 32:5 lemos: "Confessei-Te o meu pecado... e Tu perdoaste a culpa do meu pecado." E em Mishlei 28:13: "O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia."

Outro exemplo encontramos em Mishlei 16:6: "Pela bondade e pela verdade se expia a iniquidade."

Aqui não há derramamento de sangue nem sacrifício animal. A expiação está associada à fidelidade e à prática da justiça. Quando reunimos esses textos, percebemos um padrão: O Eterno não está preso a um único mecanismo para conceder perdão e reconciliação.

É justamente nesse contexto que o exemplo de Pinchás ganha tanta força. O texto declara explicitamente que ele fez expiação por Yisrael sem oferecer um korban. Sua fidelidade e zelo tornaram-se instrumento pelo qual o Eterno removeu a praga.

Da mesma forma, quando se fala da missão do Mashiach, é importante observar que as Escrituras frequentemente enfatizam a justiça, a obediência e a fidelidade do servo do Eterno como elementos centrais de sua missão. O padrão estabelecido no Tanakh mostra que o Eterno pode usar a vida justa de Seus servos como instrumento para trazer reconciliação, restauração e retorno do povo à aliança.

Quando olhamos para Yeshua sob essa perspectiva, encontramos um padrão semelhante. A questão central não é sua morte isoladamente considerada. A questão é sua vida inteira. Desde o início até o fim, ele permaneceu obediente ao Eterno, ele foi tentado, foi perseguido, rejeitado e acusado injustamente, mesmo assim, permaneceu fiel.

Sua vida tornou-se uma demonstração perfeita do que significa amar o Eterno de todo o coração. Nesse sentido, a força de sua missão não está meramente no momento de sua morte, mas em toda a trajetória de justiça que a precedeu. Assim como a expiação associada a Pinchás não pode ser reduzida ao instante em que ele empunhou a lança, a missão de Yeshua não pode ser reduzida ao momento de sua execução. O ato final apenas coroou uma vida inteira de fidelidade.

Entretanto, é preciso cuidado para não criar uma oposição absoluta entre "vida" e "morte". Nas Escrituras, muitas vezes a fidelidade é demonstrada justamente pela disposição de permanecer leal ao Eterno mesmo quando isso custa a própria vida.

Foi assim com muitos profetas, com inúmeros justos de Yisrael e foi assim com Yeshua. Portanto, pode-se argumentar que o valor de sua missão não estava em uma suposta exigência divina de um sacrifício humano, mas em uma vida perfeitamente fiel que permaneceu obediente ao Eterno até as últimas consequências.

Nesse entendimento, o foco continua sendo o Eterno, que salva, perdoa e restaura, enquanto o Mashiach atua como Seu servo fiel, instrumento de reconciliação e modelo de obediência. A ligação com Pinchás ajuda a enxergar isso com clareza: a expiação é associada ao zelo, à fidelidade e à obediência à aliança. O que o Eterno honra não é a morte em si, mas a vida justa que demonstra amor por Ele e por Seus mandamentos.

Concluindo o estudo, Balak tentou destruir Israel por fora, via maldição, mas fracassou. Então tenta por dentro, via sedução cultural e idolatria e quase consegue, porém Pinchas agiu com zelo e a praga cessou. Ele recebe Brit Shalom, aliança de paz, e sacerdócio eterno. Séculos depois, Miquéias evoca Balak e Bileam como prova da fidelidade divina, anuncia um mashiach que virá de Beit Lechem e será a paz em pessoa, e declara que o que o Eterno requer não é ritual, mas mishpat, chesed e humildade.

Yeshua nasce em Beit Lechem, ensina mishpat e chesed, e morre como aquele que detém a ira, não matando, mas vivendo conforme ensinou até ser morto. Ele é a paz que Pinchas prefigurou e Miquéias profetizou.

Resta-nos as seguintes perguntas para reflexão: O que está ameaçando entrar no acampamento hoje? E qual é o nosso chamado diante disso?

Pinchas não esperou instrução de Moshé, ele viu a ruptura, agiu com clareza e pagou o preço de ser mal compreendido. O texto não glorifica a violência, glorifica o zelo pela santidade do povo no momento mais crítico. O remanescente que Miquéias descreve, orvalho e leão, é formado por pessoas que sabem quem são e por quê estão aqui. Que nutrem sem precisar de aprovação e que protegem sem hesitar quando a aliança está em risco. Esse é o chamado que essas parashiot fazem para nós hoje.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef