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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Ki Tetse - Limpeza e Organização: O Eterno anda na sua casa.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 49Ki Tetse (Quando você sair)

Devarim/Deuteronômio 21:10-25:19

Haftará (separação) Is 54:1-10.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mc 10:2-12; 12:18-27;


Limpeza e Organização: O Eterno anda na sua casa.


Imagine entrar em uma casa onde não há limpeza. Há sujeira por todo lado, objetos acumulados, coisas quebradas que nunca são consertadas e entulhos que foi se acumulando aos poucos. Talvez ninguém perceba imediatamente, talvez até nos acostumemos com aquela situação. Mas existe algo interessante: aquilo que vemos ao nosso redor quase sempre revela alguma coisa sobre a maneira como estamos cuidando daquilo que recebemos.

Agora imagine que o Eterno lhe dissesse: “Eu ando no meio da sua casa.” Essa frase muda tudo. O Eterno não se preocupa somente com aquilo que fazemos diante de uma assembleia. Ele também se importa com aquilo que fazemos quando ninguém está olhando. Ele se importa com a maneira como tratamos nossa casa. Com a maneira como cuidamos das nossas coisas. Com a sujeira que permitimos acumular. Com a desordem que poderia ser evitada. Com a responsabilidade que transferimos para outra pessoa. E, acima de tudo, com aquilo que existe dentro de nós.

O Eterno anda no meio do acampamento. E se Ele anda no nosso acampamento, então nossas pequenas tarefas também podem se tornar uma expressão de amor, responsabilidade e temor. Hoje vamos olhar para aquilo que normalmente consideramos pequeno e descobrir que, nas Escrituras, as pequenas coisas também revelam o coração. Por isso, não saia daí para não perder nada desse estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Há algo muito significativo em uma parte dessa parashá. Em Devarim 23:12–14, no meio de uma porção cheia de assuntos que consideramos grandes como guerra, casamento, justiça, pobreza, herança e relações sociais, o Eterno ensina algo aparentemente pequeno: onde o homem deveria fazer suas necessidades e como deveria deixar o local depois de usá-lo.

O texto diz que deveria haver um lugar fora do acampamento, que cada homem deveria levar consigo uma ferramenta para cavar e que, depois de fazer suas necessidades, deveria cobri-las. A razão apresentada pelo próprio texto é ainda mais importante: “porque o Eterno, teu Elohim, anda no meio do teu acampamento” (Devarim 23:14). O cuidado com aquilo que normalmente escondemos dos olhos dos outros fazia parte da maneira como Yisrael deveria viver diante do Eterno.

Isso nos ensina algo muito humano: há coisas que ninguém vê, mas que o Eterno vê. E justamente por isso, não devemos cuidar apenas daquilo que aparece para os outros. O acampamento precisava estar limpo mesmo quando ninguém estivesse olhando. A casa também precisa ser cuidada quando não haverá visitas. Nossas coisas precisam ser organizadas mesmo quando ninguém irá elogiá-las. Nossa vida precisa ser colocada em ordem mesmo quando não existe plateia.


1 - O Eterno se importa com os detalhes

O texto original fala especificamente do acampamento de guerra, em Devarim 23:10 o verso começa dizendo que: "...quando saíres ao acampamento contra teus inimigos...", não da casa em geral. É uma lei de pureza do campo de batalha, ligada à presença de Elohim indo com o exército. A transição para "sua casa" é um drash, uma aplicação homilética válida, mas não é o pshat, isto é, o sentido literal do texto.

Às vezes imaginamos que o Eterno só se preocupa com aquilo que consideramos grandioso. Pensamos em oração, culto, estudo das Escrituras, grandes decisões, grandes acontecimentos. Mas Devarim 23 nos lembra de algo muito diferente. O Eterno se preocupa até com aquilo que fazemos depois de usar o banheiro. Isso é extraordinariamente simples e, ao mesmo tempo, profundo. Yisrael estava no deserto, vivendo em um acampamento. Milhares de pessoas compartilhavam aquele espaço. Se cada um fizesse suas necessidades onde quisesse, rapidamente o ambiente se tornaria insalubre. Por isso o Eterno estabelece uma instrução prática: tenha um lugar, leve uma ferramenta, cave, cubra e mantenha o acampamento em condições adequadas. Não é apenas uma questão de aparência. É responsabilidade. E podemos transportar esse princípio para a vida cotidiana sem transformar o texto em uma alegoria que ele, originalmente, não pretendia ser. O mandamento fala literalmente sobre o acampamento, mas o princípio de responsabilidade que ele revela pode nos ensinar muito sobre nossa maneira de viver.

Quem cuida das pequenas coisas demonstra quem é. É muito fácil querer cuidar de grandes coisas enquanto negligenciamos as pequenas. Queremos uma grande missão, mas não conseguimos manter nossa própria casa em ordem. Queremos ensinar outras pessoas, mas não conseguimos cuidar das coisas que o Eterno colocou sob nossa responsabilidade. Queremos falar sobre santidade, mas deixamos desordem, desperdício e negligência acumularem-se ao nosso redor. A Escritura nos chama para algo mais simples: comece pelo que está diante de você.


2 - Nossa casa também revela nossa responsabilidade

Contemplando o TaNaK, vemos Mishlei 31 apresentando uma mulher que não é admirada simplesmente por sua aparência, mas por sua capacidade de cuidar daquilo que está sob sua responsabilidade. Esse texto está inserido na Ode à mulher virtuosa, que declaramos para as esposas todo shabat. O texto diz:

Cuida do bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça.” Mishlei 31:27

Esse verso é muito prático. Ele fala de uma pessoa que observa a casa, percebe o que precisa ser feito e não espera que tudo se resolva sozinho.

Pouco antes, a mesma mulher é apresentada levantando-se cedo, providenciando alimento para sua casa, trabalhando com as próprias mãos, examinando uma propriedade, plantando uma vinha e administrando aquilo que possui (Mishlei 31:13–19). Ela não é apresentada como alguém obcecado por aparência, mas como alguém responsável. Isso muda nossa maneira de enxergar a organização da casa. Cuidar da casa não é simplesmente deixar tudo bonito para receber visitas. É cuidar daquilo que o Eterno colocou em nossas mãos, lavar aquilo o que está sujo, consertar aquilo que está quebrado, guardar o que precisa ser guardado, jogar fora aquilo que não serve mais e saber onde estão nossas coisas. Não podemos permitir que a desordem se transforme em um modo permanente de viver. E isso vale tanto para homens quanto para mulheres. A responsabilidade pelo ambiente em que vivemos não deve ser colocada sobre uma única pessoa. Uma casa é compartilhada por pessoas, e cada uma deve aprender a cuidar do que usa.

- Cuidar das coisas também é uma forma de gratidão

Existe outro princípio importante nas Escrituras: não devemos tratar com desprezo aquilo que recebemos, conforme vimos na semana passada. Devarim 22:1–3 ordena que, quando alguém encontrar o boi, a ovelha ou qualquer coisa perdida de seu irmão, não deve simplesmente ignorar. Deve guardar e devolver. Isso exige cuidado. Se algo não nos pertence, cuidamos porque pertence ao nosso próximo. Se algo nos pertence, devemos igualmente aprender a administrá-lo.

Há uma diferença entre possuir coisas e ser possuído pelas coisas. O Eterno nunca condenou o fato de uma pessoa possuir bens. Avraham tinha rebanhos e riquezas; Yitschak prosperou; Yaakov possuía muitos bens; Yosef administrou enormes recursos no Egito. O problema não está simplesmente nas coisas. O problema começa quando as coisas passam a governar o coração. Por isso, Devarim 8:17–18 adverte Yisrael para que, ao prosperar, não diga: “A minha força e o poder da minha mão me adquiriram estas riquezas.” O homem deveria lembrar-se de quem lhe dava capacidade para produzir.

Quando entendemos isso, cuidar de nossas coisas deixa de ser mera preocupação material. Passa a ser boa administração. Se o Eterno colocou uma casa em nossas mãos, cuidemos dela. Se colocou ferramentas, cuidemos delas. Se colocou roupas, alimentos, móveis, livros ou recursos financeiros em nossas mãos, não sejamos desperdiçadores. Não precisamos transformar uma casa simples em uma vitrine. Uma casa pode ser humilde e muito bem cuidada. Pode haver móveis antigos, objetos simples e pouca riqueza, mas, ainda assim, existir ordem, limpeza e respeito.

- A Escritura não despreza o trabalho doméstico

Isso aparece com muita força em Mishlei 31. A mulher virtuosa descrita ali compra, vende, trabalha, prepara alimento, produz roupas, administra propriedades e cuida de sua casa. Seu valor não está em ostentar riqueza, mas em sua diligência. E há um verso muito bonito:

Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida.”Mishlei 31:12

A casa deveria ser um lugar onde as pessoas fazem bem umas às outras. Isso significa que limpeza e organização também precisam ser acompanhadas de consideração. Uma casa perfeitamente organizada pode ser um lugar terrível se todos vivem brigando. E uma casa muito simples pode ser um lugar maravilhoso se existe respeito, cuidado e amor. Portanto, não devemos transformar a mensagem de Devarim 23 em uma obsessão por limpeza. O objetivo não é ter uma casa perfeita. É ter uma casa responsável.

Há pessoas que vivem angustiadas porque nunca conseguem manter tudo impecável. Há crianças, idosos, trabalho, doença, imprevistos, dificuldades financeiras. A Escritura não está exigindo uma casa de revista. Ela nos ensina responsabilidade. Faça o que puder. Não deixe deliberadamente aquilo que pode ser cuidado. Não transforme negligência em estilo de vida. E não despreze aquilo que o Eterno colocou em suas mãos.


3 - Os sábios também perceberam que a limpeza comunica caráter

Os sábios de Yisrael trataram a limpeza e o cuidado pessoal como aspectos importantes da conduta de alguém que representa a Torah. Não por acaso criaram diversas halachot.

Em Shabbat 114a, Rabbi Yishmael ensina, a partir da troca de vestimentas dos kohanim, que a Torah ensina que as roupas usadas para determinada tarefa não deveriam necessariamente ser usadas para outra tarefa mais honrosa. A ideia apresentada é muito simples: quando uma roupa ficou suja em determinado trabalho, é apropriado trocar antes de realizar outra atividade. Na mesma passagem, Rabbi Yochanan afirma que um talmid chacham deveria cuidar de sua aparência e de suas roupas. A preocupação não era luxo. O problema era permitir que a aparência desleixada trouxesse desprezo sobre aquele que estudava Torah. A passagem chega a dizer que um sábio deveria ser reconhecido também pelo cuidado com sua roupa.

Isso é muito interessante porque mostra que os sábios não enxergavam uma oposição entre conhecimento das Escrituras e cuidado com coisas aparentemente pequenas. Estudar muito e cuidar pouco daquilo que está ao nosso redor não é sinal de grandeza. A Mishná e a Gemara estão cheias de discussões complexas, mas os sábios também falavam de roupas, sapatos, banho, alimentação, higiene e organização. A vida real não acontece apenas quando estamos estudando um texto. Ela acontece quando levantamos da cadeira, vamos para a cozinha, trabalhamos, cuidamos dos filhos, limpamos a casa e colocamos as coisas de volta no lugar.

Mas existe um perigo no outro extremo. É justamente aqui que as palavras de Yeshua são muito importantes.

Yeshua conhecia a preocupação dos fariseus com purezas externas e utilizou a imagem de um recipiente para mostrar que não adianta limpar somente aquilo que aparece. Ele disse:

Primeiro limpa o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.” Mattityahu 23:26

O ensinamento nesse verso é poderoso. O mashiach deixa claro que o Eterno realmente se importa com o exterior. E Devarim 23 prova isso. O acampamento deveria ser limpo. Mas o Eterno também se importa com o que está dentro. Podemos ter a casa impecável e o coração cheio de rancor. Podemos organizar perfeitamente os armários e não conseguir organizar nossos relacionamentos, ter roupas limpas e palavras sujas, lavar pratos enquanto alimentamos conflitos dentro da família, cuidar da aparência enquanto escondemos injustiça. Portanto, vemos que Yeshua não anulou o cuidado exterior. Ele mostrou que o exterior sozinho não é suficiente. A limpeza verdadeira precisa começar no interior e alcançar o exterior.

Uma casa limpa não precisa ser uma casa cara. É importante que isso seja dito, porque vivemos em uma época em que organização e limpeza muitas vezes foram transformadas em mercadoria. Não precisamos comprar tudo novo, não precisamos ter móveis caros, não precisamos possuir dezenas de recipientes organizadores nem copiar casas de revistas. O princípio bíblico é muito mais acessível do que se pensa. Uma pessoa pobre pode ter uma casa limpa e uma pessoa rica pode ter uma casa desorganizada. A diferença não está necessariamente na quantidade de recursos, mas na maneira como tratamos aquilo que temos.

Mishlei 21:20 diz que há tesouro desejável e azeite na habitação do sábio, enquanto o insensato os devora. A questão é apenas uma boa administração. Quem cuida conserva, mas quem desperdiça precisa constantemente substituir. Quem organiza encontra, mas quem acumula sem critério perde espaço, tempo e tranquilidade. E aqui podemos perceber uma aplicação muito prática de Luka 16:10: Yeshua ensina que aquele que é fiel no pouco também será fiel no muito. A maneira como tratamos uma pequena coisa revela muito sobre nós.

E com isso aprendemos que a nossa casa é uma escola de caráter. Talvez essa seja uma das aplicações mais importantes nesse contexto. As crianças aprendem muito mais observando do que ouvindo. Se dizemos: “Não deixe lixo no chão”, mas jogamos nossas próprias coisas em qualquer lugar, elas aprendem mais com nosso comportamento do que com nossas palavras. Quando ensinamos gratidão, mas desperdiçamos comida, existirá uma contradição e ela perceberá. Ao falarmos sobre cuidado, mas quebrarmos objetos e simplesmente os substituímos, ensinamos outra coisa. Se ensinamos responsabilidade, mas sempre deixamos para outra pessoa aquilo que nós mesmos poderíamos fazer, nossos filhos percebem.

A casa é uma pequena escola, ali aprendemos paciência, responsabilidade, aprendemos a compartilhar, a guardar, a limpar. Ali aprendemos a reparar, a pedir perdão, a respeitar o trabalho do outro. E, principalmente, aprendemos que ninguém deveria considerar qualquer tarefa digna demais para suas mãos.


4 - A casa de um homem também fala sobre sua capacidade de cuidar

Os escritos dos talmidim trazem um princípio muito direto. Shaul escreve que aquele que não sabe cuidar de sua própria casa terá dificuldade para cuidar de uma responsabilidade maior (1 Timotheo 3:5). Isso não significa que uma casa precise ser perfeita. Significa que a maneira como administramos nossa própria vida importa. Antes de querer administrar grandes coisas, precisamos aprender a cuidar das pequenas. Antes de querer ensinar outros sobre responsabilidade, precisamos aprender responsabilidade. E antes de querer corrigir a desordem dos outros, precisamos olhar para aquilo que está debaixo de nosso próprio teto. E isso vale para todos nós.

Até mesmo o rei Hizkiyahu nos dá uma advertência. Há um episódio muito interessante na vida desse monarca. Quando os mensageiros da Babilônia foram visitá-lo, Hizkiyahu mostrou-lhes seus tesouros, sua prata, seu ouro, suas especiarias, seu azeite, suas armas e tudo o que havia em sua casa e em seu domínio. Yeshayahu então veio repreendê-lo e anunciou que chegaria o dia em que aquilo que estava em sua casa seria levado para Babilônia. O problema não era possuir tesouros. O problema estava naquilo que aquela exposição revelava sobre sua confiança e sua relação com os recursos que possuía. Isso nos ensina que devemos cuidar das nossas coisas, mas não transformar nossas coisas em nossa identidade.

Podemos ter uma casa bonita sem fazer dela um ídolo, ter um carro bom sem fazer dele nossa glória, possuir ferramentas, livros, roupas, dinheiro e outros bens sem permitir que eles dominem nossa vida. As coisas devem estar em nossas mãos, não nossos corações nas coisas. A parashá diz: “O Eterno anda no meio do teu acampamento.” E voltamos ao ponto de partida.

Devarim 23 não termina dizendo simplesmente: “Cubra suas fezes porque isso é mais higiênico”. O Eterno dá uma razão muito mais profunda:

Porque o Eterno, teu Elohim, anda no meio do teu acampamento.” Devarim 23:14.

Yisrael deveria lembrar que sua vida acontecia diante do Eterno. Isso transforma o modo como enxergamos até as tarefas mais insignificantes como limpar um chão, um banheiro ou lavar louças. Quando ninguém está olhando, ainda assim cuidamos. Quando ninguém vai elogiar, ainda assim fazemos. Mesmo se ninguém souber quem limpou, ainda assim limpamos. Mesmo que ninguém perceba que colocamos algo de volta no lugar, ainda assim colocamos. Não fazemos isso para parecer melhores diante das pessoas. Fazemos porque o Eterno vê. E talvez essa seja a beleza escondida em um mandamento tão simples.

Concluindo nosso estudo, aprendemos com essa parashá que o Eterno não está distante das pequenas coisas da nossa existência. Ele está interessado na maneira como vivemos todos os nossos dias. Ele se importou com o acampamento dos israelitas, se importa com a nossa casa, com a maneira como tratamos aquilo que recebemos, com o nosso próximo, com as nossas palavras. HaShem se importa com aquilo que ninguém vê. E, justamente por isso, nossa casa pode se tornar um lugar de ensino. Não uma casa perfeita, uma casa de aparência, mas uma casa onde as pessoas aprendem que cuidar é uma forma de amar.

Quando recolhemos algo do chão, lavamos um prato, consertamos uma porta, guardamos uma ferramenta, não desperdiçamos comida, cuidamos de uma roupa, ensinamos uma criança a limpar o que sujou, estamos praticando algo muito maior do que organização. Estamos ensinando responsabilidade, gratidão, domínio próprio e consideração pelo próximo. E estamos lembrando, nas pequenas coisas, aquilo que Yisrael deveria lembrar no acampamento: o Eterno anda no meio da nossa vida.

Por isso, que nosso acampamento esteja limpo, que nossa casa seja bem cuidada, que nossas coisas sejam administradas com sabedoria e, acima de tudo, que aquilo que está dentro de nós também seja colocado em ordem. Afinal, não basta limpar o lugar onde vivemos; precisamos permitir que nossas atitudes, nossas palavras e nossos relacionamentos também reflitam o temor do Eterno. Pois quem ama o Eterno cuida daquilo que recebeu de suas mãos, inclusive das coisas pequenas.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef



quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Shoftim - O Homem que segura o machado

 


Estudos da Torá

Parashá nº 48Shoftim (Juízes)

Devarim/Deuteronômio 16:18-21:9

Haftará (separação) Is 51:12-52:12.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 5:38-42; At 3:13-26.


O HOMEM QUE SEGURA O MACHADO


Existem mandamentos que parecem pequenos quando os encontramos pela primeira vez nas Escrituras. Passamos por eles rapidamente porque imaginamos que já compreendemos seu significado. Nessa porção semanal encontramos um desses textos. Nos vemos diante de um exército, de uma cidade sitiada, de árvores cortadas para trincheiras, de uma guerra e de uma ordem militar. De repente, Moshê interrompe o cenário de batalha para falar de árvores.

É justamente aí que o texto começa a ficar extraordinário. Enquanto os homens olham para a cidade que precisam conquistar, o Eterno manda que olhem também para aquilo que não está lutando contra eles. Enquanto o exército pensa em destruir, o Eterno estabelece um limite para a destruição. Enquanto o homem vê madeira, o Eterno chama sua atenção para o alimento produzido. Enquanto o presente exige uma decisão imediata, a árvore representa algo que continuará produzindo depois que aquela guerra terminar, isto é, devemos olhar para o futuro.

Talvez a pergunta mais importante desse mandamento não seja simplesmente: “Posso cortar esta árvore?”, mas: “Que tipo de homem estou me tornando quando destruo aquilo que poderia continuar produzindo vida?”

É sobre isso que quero refletir com você. O mandamento da preservação das árvores frutíferas em campo de batalha nos conduz a uma compreensão muito mais profunda da responsabilidade humana. Ele nos ensina sobre utilização sem desperdício, domínio sem abuso, propriedade sem arrogância, consumo sem destruição e poder acompanhado de limites. Os sábios de Yisrael perceberam essa dimensão e desenvolveram, a partir desse texto, o princípio conhecido como bal tashchit, isto é, “não destruas”.

Quando aproximamos esse princípio da Torá, dos Neviyim, dos escritos dos sábios, dos ensinos de Yeshua e dos testemunhos dos seus talmidim, encontramos uma mensagem muito atual: o homem não recebeu autorização para destruir tudo aquilo que está ao alcance de suas mãos. Ele recebeu responsabilidade para cultivar, guardar, utilizar e preservar. Por isso, fique comigo até o fim para não perder nada.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Shoftim apresenta uma estrutura para a vida de Yisrael na terra que o Eterno estava entregando ao povo. Moshê fala sobre juízes, justiça, testemunhas, reis, levitas, profetas, cidades de refúgio, guerras e responsabilidade comunitária.

Existe uma unidade profunda nesses assuntos, mesmo que muitos acabem nem percebendo. A preocupação da Torá não é simplesmente organizar uma nação eficiente. O objetivo é formar um povo que aprenda a viver de acordo com os caminhos do Eterno, em detalhes pequenos. Por isso, até mesmo a guerra possui limites estabelecidos por HaShem. O guerreiro não deixa de ser responsável diante do Eterno simplesmente porque está diante de um inimigo.

É nesse contexto de guerra que encontramos Devarim 20:19–20, veja o texto:

Quando sitiares uma cidade por muitos dias, pelejando contra ela para tomá-la, não destruirás as suas árvores, lançando contra elas o machado; porque delas comerás, e não as cortarás; porventura a árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti? Somente as árvores que souberes não serem árvores de alimento, essas poderás destruir e cortar, para edificares baluartes contra a cidade que guerreia contra ti, até que caia.”

O contexto, como sempre demonstro, é extremamente importante. O Eterno não está ensinando isso em um pomar tranquilo. Está ensinando no contexto de uma guerra. E justamente nesse cenário extremo surge uma das grandes lições da Torá sobre os limites do poder humano. Observe a lógica: A cidade está guerreando contra Yisrael, a árvore não está. A cidade pode ser sitiada. A árvore produz alimento, ela não deve ser destruída simplesmente porque está dentro do território inimigo. O homem precisa aprender a distinguir entre aquilo que realmente constitui uma ameaça e aquilo que simplesmente está diante dele. Isso nos leva a uma verdade que atravessa toda a Torá: domínio não significa destruição. Não é porque você pode fazer algo, que deve fazer.

Desde Bereshit encontramos essa responsabilidade. Em Bereshit 2:15 está escrito:

E tomou o Eterno Elohim o homem e o colocou no jardim de Eden para o cultivar e o guardar.”

O homem recebe duas responsabilidades: trabalhar e guardar. Não existe somente utilização, existe também preservação. Em Bereshit 1:29, o Eterno apresenta as plantas e as árvores que produzem fruto como alimento:

E disse Elohim: Eis que vos tenho dado toda planta que produz semente, que está sobre toda a face da terra, e toda árvore em que há fruto de árvore que produz semente; isso vos será para alimento.”

A relação entre o homem e as árvores, portanto, não começa em Devarim 20, ela já aparece na criação. O homem recebe alimento, recebe um jardim, recebe responsabilidade. E, posteriormente, recebe mandamentos que delimitam sua maneira de utilizar aquilo que recebeu.

É por isso que Devarim 20:19 é tão significativo. A árvore frutífera não é apenas um objeto disponível ao homem. Ela é parte de uma cadeia de provisão que o homem recebeu do Eterno e da qual ele também se tornou responsável.


1. O MACHADO DIANTE DA ÁRVORE

Existe uma expressão hebraica que se tornou fundamental na tradição dos sábios: bal tashchit, “não destruas”. A expressão não aparece dessa forma como uma fórmula isolada no versículo, mas deriva do verbo utilizado em Devarim 20:19: lo tashchit, “não destruirás”. O verbo שחת - shachat carrega a ideia de arruinar, corromper, destruir. Isso é importante porque a Torá não está simplesmente dizendo: “não corte”. Ela está dizendo: não destrua. E existe uma diferença entre cortar e destruir.

Uma árvore pode ser cortada porque está doente, porque representa perigo, porque sua madeira possui uma utilização legítima ou porque existe uma necessidade real. O problema apresentado pelo texto é a destruição sem finalidade adequada. A Torá inclusive estabelece uma exceção:

Somente as árvores que souberes não serem árvores de alimento, essas poderás destruir e cortar, para edificares baluartes contra a cidade que guerreia contra ti, até que caia.” Devarim 20:20.

Isso demonstra que a Torá não ensina uma preservação absoluta e irracional de toda árvore em qualquer circunstância. Existe finalidade, necessidade e proporcionalidade. O princípio é outro: Não destrua aquilo que produz benefício simplesmente porque você pode destruí-lo. Essa distinção é essencial. Uma pessoa pode possuir uma propriedade e ainda assim ter responsabilidade sobre aquilo que faz com ela. Pode possuir alimento e não ter justificativa para desperdiçá-lo. Pode possuir recursos e não ter autorização moral para destruí-los inutilmente. A Torá coloca um limite sobre a mentalidade de consumo absoluto. O raciocínio humano muitas vezes diz: “É meu, portanto faço o que quiser.” A Torá pergunta: “De onde você recebeu isso?” Essa pergunta muda tudo.

A árvore é uma demonstração disso. O homem não criou a capacidade de uma árvore produzir alimento. Ele pode cultivá-la, cuidar dela, podá-la, colher seus frutos e utilizar sua madeira quando houver razão. Mas a capacidade de produzir vida não começou nele, ele recebeu, e aquilo que recebemos do Eterno deve ser administrado com responsabilidade. Isso também explica por que Vayicrá 19:23–25 estabelece um período de espera para que Yisrael desfrutasse dos frutos das árvores recém-plantadas:

Quando entrares na terra e plantardes toda árvore de alimento, considerareis o seu fruto como incircunciso; por três anos será como incircunciso para vós; não será comido. Porém, no quarto ano, todo o seu fruto será santo, para louvor ao Eterno. E no quinto ano comereis o seu fruto, para que vos aumente a sua produção. Eu sou o Eterno, vosso Elohim.”

Existe aqui nesse contexto uma educação para a paciência. O homem planta hoje, mas não necessariamente colhe hoje. Isso é extremamente contrário à mentalidade imediatista. Essa instrução sobre a árvore ensina ao homem que algumas coisas precisam de tempo. Ela ensina que aquilo que plantamos poderá beneficiar alguém que ainda não chegou ou que nem nasceu ainda. Ela também ensina que o presente possui responsabilidade para com o futuro.

Essa mesma lógica aparece em Shemot 23:10–11, quando a terra recebe um período de descanso:

Seis anos semearás a tua terra e recolherás a sua produção; mas no sétimo a deixarás descansar e ficar sem cultivo, para que comam os necessitados do teu povo, e o restante comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com a tua oliveira.”

Mais uma vez, a Torá coloca limites sobre a exploração. O homem trabalha a terra, mas não a possui como se tivesse domínio absoluto sobre ela , ele utiliza, cultiva, colhe mas também deve saber parar. Essa é uma das grandes diferenças entre domínio e abuso. O domínio recebido pelo homem em Bereshit não pode ser interpretado como autorização para destruição ilimitada. O mesmo Eterno que entrega ao homem a possibilidade de utilizar a criação também ordena que ele a guarde, que cuide dela com zelo. E talvez seja por isso que a pergunta de Devarim seja tão poderosa: “Porventura a árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti?” Há uma ironia divina nessa pergunta. O soldado está cercando uma cidade como se tudo ao redor fosse seu inimigo. O Eterno o faz parar e pensar: “A árvore está lutando contra você?” Não. Então por que destruí-la? Essa pergunta continua viva. Quantas coisas destruímos simplesmente porque estavam ao alcance do nosso poder? Quantas vezes confundimos autoridade com autorização? Quantas vezes desperdiçamos aquilo que poderia servir a outra pessoa? O mandamento da árvore começa no campo de batalha, mas termina dentro do coração humano.


2. DA ÁRVORE AO CARÁTER

O Tanakh continua utilizando árvores como símbolos de vida, restauração, estabilidade e fruto. Em Yeshayahu 55:12–13, o profeta descreve a restauração utilizando a própria criação como testemunha:

Porque saireis com alegria e sereis conduzidos em paz; os montes e as colinas romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá o cipreste, e em lugar da urtiga crescerá a murta; e isso será para o Eterno por nome, e por sinal eterno, que não será cortado.”

A imagem é belíssima: a restauração não é descrita como uma vitória que deixa tudo destruído. A criação participa da alegria. Em Yechezkel 17:24, o Eterno utiliza as árvores para ensinar sobre sua soberania:

E saberão todas as árvores do campo que Eu, o Eterno, abati a árvore alta e exaltei a árvore baixa; sequei a árvore verde e fiz florescer a árvore seca. Eu, o Eterno, falei e fiz.”

As árvores aparecem como parte da linguagem pela qual o Eterno ensina o homem. Isso é importante porque demonstra que a árvore não é apresentada nas Escrituras simplesmente como matéria-prima. Ela também participa da linguagem pela qual o Eterno comunica verdades sobre o homem, sobre as nações, sobre humildade, crescimento e restauração.

- A visão dos sábios

Os sábios de Yisrael perceberam que Devarim 20:19 continha um princípio que ultrapassava a situação específica de uma guerra.

Em Bava Kamma 91b, encontramos uma discussão sobre a destruição de árvores frutíferas. Ravina estabelece uma importante distinção: quando existe uma finalidade útil maior, o corte pode ser permitido; quando a destruição é gratuita, o princípio de bal tashchit entra em questão.

O mesmo trecho registra a declaração de Rabbi Hanina acerca de seu filho Shivhat, associando sua morte ao corte prematuro de uma figueira. O relato pertence à linguagem narrativa e moral dos sábios e deve ser recebido como tal, não como uma fórmula mecânica segundo a qual toda morte é consequência direta de uma árvore cortada. O ponto central da passagem é a gravidade atribuída à destruição inútil.

A discussão talmúdica também mostra algo muito importante: bal tashchit não significa “nunca corte nada”; significa “não destrua sem razão legítima”. Essa distinção é confirmada pelo Sefer HaChinuch, mitsvá 529 dizendo “para não destruir árvores frutíferas”, que apresenta como propósito do mandamento a formação do caráter. Em tradução de estudo, o autor explica que o mandamento pretende ensinar a pessoa a amar aquilo que é bom e útil, aproximar-se disso e afastar-se da destruição. Ele chega a descrever o homem justo como alguém que não deseja perder nem mesmo algo tão pequeno quanto um grão de mostarda e que se entristece diante da destruição que poderia evitar. Essa é uma observação extraordinária, pois o Sefer HaChinuch não está mais preocupado somente com a árvore, ele está preocupado com o homem que olha para a árvore. A destruição externa revela algo sobre o interior. Se uma pessoa desenvolve prazer em quebrar, desperdiçar, destruir e arruinar, isso também forma seu caráter. Por outro lado, quem aprende a preservar, reparar, aproveitar, compartilhar e cuidar desenvolve uma disposição diferente. Assim, o princípio deixa de ser apenas: “Não desperdice.” E passa a ser: “Não permita que a destruição se torne parte de quem você é.”

Rambam também amplia o princípio em Mishneh Torah, Hilchot Melachim 6:8–10. Ele afirma que a proibição não se restringe às árvores: quem destrói objetos, rasga roupas, derruba uma construção, interrompe uma fonte ou destrói alimento de maneira destrutiva também entra na esfera de bal tashchit. Isso mostra a evolução do princípio rabínico: da árvore para a cultura do desperdício. E aqui encontramos uma aplicação profundamente humana. Quando alguém quebra algo por raiva, joga comida fora porque não se importa, estraga deliberadamente um objeto ou destrói uma propriedade simplesmente para causar prejuízo, o problema não é apenas econômico, é também moral, pois é uma questão de caráter.

- Yeshua e a cultura de não desperdiçar

Quando chegamos aos ensinos de Yeshua, encontramos uma afirmação extremamente próxima desse princípio. Depois de alimentar uma multidão, Yeshua ordena aos seus talmidim:

Quando estavam satisfeitos, disse aos seus talmidim: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.” Yochanan 6:12

Observe a beleza do princípio. A comida poderia ter sido deixada no chão, havia abundância, e foi multiplicada por milagre. Mas abundância não é autorização para desperdício. Repare no que o mestre fala: “Para que nada se perca.” Isso está em profunda harmonia com o princípio desenvolvido pelos sábios: aquilo que ainda possui utilidade não deve ser tratado como lixo simplesmente porque existe em abundância. Yeshua também utilizava árvores e frutos como linguagem para ensinar sobre homens e seus resultados. Em Mattityahu 7:17–20, ele afirma:

Assim, toda árvore boa produz frutos bons, mas a árvore má produz frutos maus. A árvore boa não pode produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os reconhecereis.”

Aqui a árvore deixa de ser somente objeto do mandamento e se transforma em espelho do próprio homem. E a pergunta passa a ser: Que fruto estou produzindo? Essa conexão é particularmente apropriada para a parashá Shoftim, porque Devarim 20 ensina o homem a não destruir uma árvore que produz alimento, enquanto Yeshua ensina o homem a examinar o fruto que sua própria vida produz. Uma árvore recebe tempo, cuidado e condições para produzir. O homem também. E aqui surge uma advertência importante: não basta preservar árvores se destruímos pessoas com nossas palavras, nossa arrogância, nossa violência, nossa ganância ou nossa falta de misericórdia. O princípio de preservar precisa alcançar nosso relacionamento com o próximo.

Yeshua apresenta ainda uma parábola particularmente interessante em Luka 13:6–9:

Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi procurar fruto nela, mas não encontrou. Então disse ao trabalhador da vinha: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não encontro. Corta-a; por que ocupa ainda a terra? Mas ele respondeu: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu cave ao redor dela e coloque adubo. Se der fruto, bem; mas, se não, depois a cortarás.”

Essa passagem não deve ser artificialmente transformada em uma explicação direta de Devarim 20, pois o contexto ou assunto imediato aqui é outro. Porém, a imagem da árvore permite uma aplicação extremamente significativa. Perceba que antes de cortar, há trabalho de cuidado e manutenção. Antes de eliminar, há cuidado. Antes de declarar que algo não serve, há a tentativa de fazê-lo produzir. Isso nos ensina uma postura que também deve alcançar pessoas. Quantas vezes desistimos rapidamente de alguém? Quantas vezes declaramos alguém inútil porque ainda não vimos fruto? Quantas vezes queremos cortar aquilo que simplesmente precisa de cuidado? A mitsvá da árvore pode nos ensinar a esperar, a cultivar, que o fruto exige tempo, que preservar não significa abandonar a exigência de fruto. A preservação bíblica não é permissividade. É responsabilidade.


3. DA TORÁ PARA A VIDA

Agora que vimos tanta instrução e comentários sobre o assunto precisamos trazer o mandamento para a prática, para nossa vida diária. É fácil estudar sobre uma árvore em Devarim 20 e terminar o estudo admirando a sabedoria do texto. Mais difícil é perguntar: “Onde está o meu machado?” Porque todos nós seguramos algum tipo de machado. Às vezes ele está em nossas mãos literalmente, mas muitas vezes está em nossos hábitos. Está na maneira como compramos, na maneira como consumimos, como tratamos alimentos, na maneira como tratamos objetos, está na maneira como falamos com nossos familiares, como tratamos pessoas que já não nos são úteis, como usamos nosso tempo e como lidamos com aquilo que recebemos do Eterno.

O princípio de bal tashchit nos convida a desenvolver uma cultura de responsabilidade. Não desperdiçar alimento, por exemplo. O primeiro exercício é simples. Comer aquilo que colocamos no prato. E por isso devemos colocar o alimento no prato com parcimônia. Planejar compras. Guardar corretamente aquilo que sobrou. Compartilhar aquilo que não será utilizado. E ensinar as crianças a compreenderem que alimento não nasce dentro de uma embalagem. Existe terra, água, trabalho e tempo. Existe uma árvore, uma plantação ou um animal. Existe uma cadeia inteira de vida e trabalho antes que aquilo chegue às nossas mãos. Portanto, desperdiçar alimento é esquecer essa história.

- Não destruir objetos por impulso

Uma pessoa que quebra um objeto por raiva pode dizer: “É meu.” Mas bal tashchit pergunta: “Era necessário destruí-lo?” Se ainda existe possibilidade de consertar, reutilizar ou entregar a alguém, por que destruir? Isso não significa transformar objetos em ídolos. Significa reconhecer utilidade. O homem não deve se tornar escravo das coisas, mas também não deve se tornar destruidor delas.

- Preservar recursos

Água, madeira, alimentos, energia, terra e outros recursos devem ser utilizados com responsabilidade. O princípio não exige que o homem deixe de utilizar a criação. Pelo contrário, a própria Torá autoriza o cultivo, a colheita, a construção e a utilização. O princípio é: utilize sem desperdiçar. Plantar pensando em quem virá depois. Talvez uma das maiores lições da árvore seja esta: nem tudo precisa produzir para mim. Uma pessoa planta uma árvore sabendo que alguém poderá comer seus frutos daqui a dez, vinte ou trinta anos. Essa é uma forma de generosidade silenciosa. Você trabalha hoje para alguém que talvez nunca conheça. Esse princípio também pode ser aplicado à educação dos filhos, ao ensino das Escrituras, à construção de uma comunidade e à transmissão dos mandamentos.

Nós também plantamos árvores que não veremos amadurecer. Um professor ensina uma criança hoje e talvez somente décadas depois veja o fruto. Um pai ensina seu filho hoje e talvez somente muitos anos depois perceba a dimensão daquilo que plantou. Um homem pode escrever um estudo hoje para que alguém, anos depois, encontre nele uma direção. Isso é uma árvore. E talvez seja por isso que a árvore seja uma imagem tão poderosa para a vida humana. Por isso devemos ter cuidado com o que fazemos aos outros, pois podemos cortar uma árvore que seria frutífera, mas deixou de produzir por conta de nossas palavras.

- Preservar pessoas

Aqui chegamos a uma aplicação ainda mais profunda. Devarim 20 pergunta: “A árvore é homem?” A resposta literal é não. Mas existe uma consequência ética: Se o Eterno ensina o homem a não destruir inutilmente aquilo que não é seu inimigo, quanto mais devemos aprender a não destruir pessoas que foram criadas pelo Eterno. Devemos entender que: Há palavras que derrubam, há humilhações que mutilam, há acusações injustas que destroem famílias, fofocas que cortam relacionamentos como um machado, há orgulho que destrói comunidades e há líderes que utilizam pessoas e depois as descartam. E isso também precisa ser confrontado. Não basta dizer: “Eu não derrubo árvores.” Precisamos perguntar: “Eu preservo vidas?”

A árvore pode sobreviver a uma poda. Há podas que são para aumentar o vigor da árvore, mas existem aquelas que são destrutivas. Uma pessoa pode carregar durante décadas uma palavra destrutiva que ouviu na infância. Por isso, a aplicação do mandamento precisa alcançar nossa boca. Antes de destruir, pergunte-se: É necessário? Antes de descartar, pergunte: Existe algo que possa ser restaurado? Antes de desperdiçar, pergunte: Alguém poderia utilizar isso? Antes de condenar alguém, pergunte: Já fiz tudo o que poderia fazer para ajudá-lo a produzir fruto? Essa é uma maneira madura de viver os mandamentos.

- A árvore como escola de humildade

Existe ainda uma última dimensão que considero essencial. O homem moderno pode imaginar que possui tudo porque consegue controlar muitas coisas. Constrói prédios, domina máquinas, produz alimentos em grande escala, modifica sementes, corta florestas, constrói cidades, controla rios, etc. Mas então uma árvore permanece diante dele. Ela lembra: Você não criou a vida que existe dentro desta semente. Você pode plantar, pode irrigar, podar, pode cuidar, mas existe algo que você não controla. O homem participa do processo, mas não é o autor absoluto dele. E isso deve produzir humildade.

Em Tehillim 104:24, David HaMelech declara:

Quão numerosas são as tuas obras, Eterno! Fizeste todas elas com sabedoria; a terra está cheia das tuas possessões.”

A criação nos ensina sobre a grandiosidade do Eterno. Não precisamos transformar a árvore em objeto de culto. Precisamos aprender com ela. Uma árvore não exige, não reivindica. Ela simplesmente cresce, recebe luz, água e nutrientes, produz folhas, flores e frutos e, com o tempo, alimenta outros. Talvez por isso uma árvore seja uma das melhores imagens para ensinar o homem a servir. Ela recebe para produzir. E esse é um princípio que deveria alcançar nossa vida. Recebemos do Eterno para repartir. Recebemos conhecimento para ensinar, alimento para compartilhar, recursos para administrar, tempo para servir, força para proteger, autoridade para fazer justiça e recebemos vida para produzir fruto.

Concluindo nosso estudo, vimos na parashá Shoftim que Devarim 20:19–20 começa com uma situação de guerra, mas termina confrontando uma questão que permanece absolutamente humana. O que fazemos quando temos poder para destruir? O Eterno coloca um machado na mão do homem e, antes que ele o levante contra a árvore, faz uma pergunta: “A árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti?” Essa pergunta quebra uma mentalidade. Ela ensina que nem tudo que está ao nosso alcance deve ser destruído, ensina que necessidade não é a mesma coisa que conveniência, que propriedade não elimina responsabilidade, que abundância não justifica desperdício, que poder precisa de limite e que o presente possui deveres para com o futuro.

Os sábios desenvolveram esse princípio sob a expressão bal tashchit, mostrando que a preocupação da Torá com a árvore poderia educar o homem a rejeitar uma cultura de destruição inútil. Yeshua, por sua vez, ensinou seus talmidim a recolher os pedaços que sobraram para que nada se perdesse. Utilizou árvores e frutos para ensinar sobre o caráter humano e contou a parábola da figueira que recebeu mais tempo, trabalho e cuidado antes de ser cortada.

Tudo isso nos conduz para uma conclusão simples, mas profunda: O mandamento não é somente sobre árvores. É sobre o homem. A árvore é apenas o lugar onde o Eterno nos ensina a olhar para dentro. Nos fazendo refletir que tipo de consumidores somos? Que tipo de proprietário somos? Que tipo de líder somos? Que tipo de pai somos? Que tipo de mestre? Que tipo de servo?

Quando algo deixa de ser útil para mim, eu simplesmente descarto? Quando alguém falha, eu imediatamente corto? Quando tenho abundância, desperdiço? Quando tenho poder, destruo? Ou aprendi a cultivar, preservar, restaurar e produzir? Talvez o grande ensinamento de bal tashchit seja este: Não permita que aquilo que você recebeu do Eterno se transforme em instrumento de destruição em suas mãos.

Seja uma pessoa que preserva. Preserve alimento, recursos, aquilo que ainda pode ser utilizado. Preserve relacionamentos, a dignidade do próximo, o conhecimento, a terra, aquilo que pode produzir fruto. E, acima de tudo, examine a própria vida. Porque no final das contas, existe uma árvore que precisa ser examinada: a árvore da nossa própria vida. Que fruto estamos produzindo? O Eterno nos deu vida para que ela produza. E uma vida que recebeu muito, mas não produz para ninguém, precisa ser cultivada novamente.

Por isso, quando estivermos diante do machado, antes de levantá-lo, que aprendamos a fazer a pergunta da Torá: “Preciso realmente destruir?” Talvez essa simples pergunta seja suficiente para transformar nossa maneira de consumir, trabalhar, liderar, ensinar, criar filhos, tratar pessoas e viver diante do Eterno. Porque maturidade não é ter poder para destruir. Maturidade é, mesmo tendo poder para destruir, escolher preservar. E talvez seja essa a grande lição de uma árvore no meio da guerra: mesmo quando o mundo ao nosso redor nos ensina a destruir, o Eterno ainda nos ensina a cultivar.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef