Estudos da Torá
Parashá Especial – Pessach (Passagem)
Shemot 12
Bamidbar 28:16-25
Haftará (separação) Js 5:2-6:1; 6:27
Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 14:6; 1Co 5:7-8
Pessach: A Porta
Há momentos na vida em que tudo depende de uma decisão: entrar ou ficar do lado de fora. Pessach é exatamente isso, uma porta aberta pelo Eterno. Não é apenas uma lembrança da saída de Mitsrayim. É um chamado contínuo: Quem entra pela porta do Eterno vive. Quem ignora, permanece em escravidão.
Ao longo das Escrituras, vemos um padrão que se repete: uma porta; um caminho e uma escolha. E é nesse contexto que palavras como as de Yeshua e Rav Sha’ul ganham peso, não como ideias novas, mas como continuidade do que sempre esteve escrito.
RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA
O Eterno fala a Mosheh e Aharon na terra de Mitsrayim e estabelece um novo começo para Yisrael, dizendo em Shemot 12:2“: Este mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.”
Então o Eterno ordena que cada família de Yisrael separasse um cordeiro sem defeito, no décimo dia do mês, e o guardasse até o décimo quarto dia. Nesse dia, ao entardecer, todo o povo deve imolar o cordeiro e tomar do seu sangue, colocando-o nos umbrais e na verga das portas das casas onde o comerem.
O cordeiro deveria ser assado ao fogo e comido naquela noite com matsot e ervas amargas, sem que nada fique para o dia seguinte. Devem comê-lo apressadamente, pois é a Pessach do Eterno.
Em Shemot 12:13 diz: “E o sangue vos será por sinal nas casas onde estiverdes; vendo Eu o sangue, passarei por cima de vós...”
Naquela noite, o Eterno passa pela terra de Mitsrayim e fere todos os primogênitos, desde o homem até o animal. Porém, nas casas onde há o sinal do sangue, não há destruição.
Levanta-se grande clamor em Mitsrayim, e Faraó chama Mosheh e Aharon e ordena que o povo saia imediatamente. Assim, os filhos de Yisrael partem apressadamente, levando suas massas antes que fermentassem, e por isso fazem pães matsot. Shemot 12:39 diz: “...cozeram bolos de massa que não se levedou, porque não teve tempo de levedar...”
O povo de Yisrael habita em Mitsrayim por muitos anos, e ao final desse tempo, o Eterno os faz sair com mão forte. Então Ele estabelece que esse dia deve ser guardado por todas as gerações como memorial, e ordena a celebração de Pessach e da Festa dos Hamatzot, com a retirada completa do fermento das casas por sete dias.
Após isso, em Shemot 13, o Eterno ordena: Shemot 13:2: “Santifica-me todo primogênito...”
Os primogênitos passam a ser consagrados ao Eterno, como lembrança de que Ele poupou os primogênitos de Yisrael na noite da saída.
Mosheh então instrui o povo a guardar esse memorial todos os anos, lembrando-se do que o Eterno fez ao tirá-los de Mitsrayim. Shemot 13:8: “E naquele dia farás saber a teu filho, dizendo: Isto é pelo que o Eterno me fez, quando saí de Mitsrayim.”
A Festa dos Hamatzot deve ser guardada como sinal constante, e essa lembrança deve estar presente na vida do povo, como um memorial contínuo do poder e da redenção do Eterno. Shemot 13:9: “E te será por sinal sobre tua mão e por memorial entre teus olhos...”
O Eterno não conduz o povo pelo caminho mais curto, para que não voltem atrás ao ver guerra, mas os guia pelo deserto em direção ao Yam Suf. Mosheh leva consigo os ossos de Yosef, conforme o juramento feito.
E o Eterno vai adiante deles: Shemot 13:21 - “E o Eterno ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar...”
Assim começa a jornada de Yisrael, não apenas uma saída física, mas um caminho guiado pelo próprio Eterno.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
Desde o início da Parashá, o Eterno não apenas liberta, Ele ensina como sair. A libertação não foi automática. Cada casa precisava: escolher o cordeiro, prepará-lo conforme instrução e Marcar a porta.
Para compreendermos bem o contexto profético aqui nesse contexto vejamos alguns significados originais:
A palavra porta (em hebraico דֶּלֶת — delet) representa: acesso, transição, decisão.
Já Pessach (פסח) vem da raiz que significa: passar por cima, poupar, preservar da destruição.
E o “caminho” (דֶּרֶךְ — derech) nas Escrituras é: modo de viver, conduta, direção da vida.
Assim, Pessach não é só um evento. É a abertura de uma porta que conduz a um caminho. Dessa forma vamos ao primeiro ponto, o contexto do nosso estudo.
1. Pessach como porta de saída
As moedim de Pessach e Hamatzot são celebrações fundamentais estabelecidas pelo Eterno para recordar a libertação de Mitsrayim. Naquela época o povo estava preso, escravizado, sofrendo muito nas mãos do Faraó e dos egípcios. Mas ali, o Eterno não apenas quebrou correntes, Ele estabeleceu um padrão, um princípio estabelecido. Observe o texto em Shemot 12:22-24 diz:
“Molhem um feixe de hissopo no sangue que estiver na bacia e passem o sangue na viga superior e nas laterais das portas. Nenhum de vocês poderá sair de casa até o amanhecer. Quando o Eterno passar pela terra para matar os egípcios, verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta; e não permitirá que o destruidor entre na casa de vocês para matá-los. Guardem isso como lei, vocês e seus descendentes, para sempre.”
Pessach nos ensina sobre a importância da emunah (fé, confiança), da redenção e da responsabilidade de transmitir nossa herança para as futuras gerações. É um tempo de renovação e reconhecimento da libertação que o Eterno concede a Seu povo. Vemos nos versos acima que o sangue do cordeiro teve que ser colocado nas vigas superiores e nas laterais das portas. E ninguém podia sair de casa.
A porta marcada separava vida e morte, obediência e desobediência, dentro e fora. Ou seja, mostrava a escolha. As pessoas tinham que escolher obedecer e marcar a porta ou não. Tinham que escolher ficar dentro de casa e ser protegido ou sair e correr o risco. O Eterno deu a escolha obedecer e passar da porta marcada para dentro ou passar da porta para fora.
A redenção começa com um ato simples, mas profundo: ficar do lado certo da porta. E após isso? Começa o caminho. Para os que ficaram do lado certo da porta a liberdade chegou. Entraram no caminho em direção ao Eterno e sua palavra.
2. O Ensino Ampliado
Os profetas reforçaram, em seu tempo, que o Eterno sempre busca conduzir o povo de volta ao caminho observe por exemplo Yirmeyahu 6:16:
“Eis o que o Eterno diz: Parem de nas encruzilhadas e observem; perguntem acerca dos caminhos antigos: Qual é o bom caminho? Sigam-no, e vocês acharão descanso para a alma. Mas eles dizem: Nós não iremos por ele.”
Outro texto está em Yeshayahu 26:19:
“Os teus mortos viverão, os cadáveres ressuscitarão; despertem e cantem vocês que habitam no pó; pois teu orvalho é como o orvalho da manhã, e a terra trará as pessoas à vida.”
A vida sempre está ligada ao retorno ao caminho do Eterno, tanto de forma profética como literal. Os textos que lemos acima nos mostram exatamente isso. O primeiro em Yirmeyahu 6:16 mostra que a intenção do Eterno é que seu povo se volte para seu caminho. Isso é bem interessante, guarde esse termo “caminho” que o Eterno quer que as pessoas sigam. Depois lemos em Yeshayahu 26:19 que os mortos viverão e cadáveres ressuscitarão, pois a terra trará espíritos à vida. São intenções e promessas do Eterno para seu povo, a Casa de Yisrael, a casa de Yehudah e aos que se achegam.
Agora observe algo interessante nas palavras de Yeshua mencionada por Matitiahu 11:28-30:
“Venham a mim, todos os que passam por lutas e estão sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para vossas almas. Pois meu jugo é suave e minha carga é leve.
Yeshua neste ensino está mostrando que seu ensino de Torá pode libertar das cargas, como o povo estava no Egito, pois ele traria descanso para as almas. Ele está mostrando as características do que fez o cordeiro de Pessach, e mostraremos mais à frente. Porém, de onde ele tira essa fala? Se você voltar um pouco acima, no verso de Yirmeyahu 6:16, perceberá que lá o Eterno usando o profeta fala: “...e vocês acharão descanso para a alma…” a mesma forma que Yeshua usou. E isso mostra com clareza que Yeshua não falava dele mesmo, pois como Mashiach era profeta e, portanto, usado como instrumento do Eterno. O verbo falava pela boca de Yeshua também. Suas palavras não eram invenção e nem estavam desligadas do TaNaK.
Encontramos outra palavra de Yeshua ligada a esse assunto, Yochanan o shaliach em seu relato das palavras de Yeshua mostra algo importante, observe:
“Então Yeshua lhes disse de novo: Sim, afirmo que eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não lhes deram ouvidos. Eu sou a Porta; se alguém entrar por mim, estará seguro; entrará e sairá, e encontrará pastagem.” Jo 10:7-9
Yochanan também registra uma outra fala de Yeshua no capítulo 14:6, que está intimamente ligada com nosso assunto, veja:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida...”
Uma tradução mais fiel deste texto seria: “Eu sou o caminho que leva à verdade e à vida.” Mas será que ele fala isso desconectado do Eterno e de sua Palavra, o TanaK? É muito claro que não, e sempre temos visto que Yeshua sempre se refere ao TaNaK. Se buscarmos entender corretamente seus ensinos no contexto original, compreenderemos:
Caminho → Torá (Tehillim 119:1)
Verdade → Torá (Tehillim 119:142)
Vida → vem do Eterno (Devarim 30:20)
Então Yeshua não está criando algo novo, ele está mostrando que como mashiach ensinando a Torá:
- vive o caminho.
- ensina o caminho.
- chama outros para entrar por essa “porta”, que leva ao caminho.
Matitiahu também relata um ensino de Yeshua sobre a porta que está relacionado ao nosso assunto, observe:
Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. Mt 7:13-14
Já o Shaliach Sha’ul diz em sua epístola aos Corítios, em Qorintiyim Alef 5:6-8:
“Sua vanglória não é boa. Vocês não conhecem o ditado: é necessário apenas uma pitada de hametz para fermentar toda a massa? Livrem-se do velho hametz, para poderem ser uma nova massa, porque na verdade vocês estão sem fermento. Pois nosso cordeiro de Pessach, o mashiach, foi sacrificado. Dessa forma, celebremos o seder sem qualquer vestígio de hametz da impiedade e do mal, mas com a matzah da pureza e da verdade.
Algumas pessoas, por falta de uma interpretação correta, no contexto original, afirmam que aqui é uma demonstração de que Sha’ul não estava falando corretamente, pois diz que o mashiach foi o cordeiro de pessach, e em algumas traduções diz: “...o mashiach, nosso pessach…”. Contudo, se eu parar e entender essa fala de Sha’ul dessa forma é literal e o mashiach foi sacrificado sendo um cordeiro, então preciso também entender literalmente, que da mesma forma, ele estava dizendo que os crentes em Corinto eram uma massa de pão quando ele diz: “...vocês estão sem fermento…”. Isso é a simples interpretação judaica chamada Kal V’homer, ou seja, leve e pesado, que diz: se uma coisa é verdade no nível menor será verdade no maior e vice e versa. Assim, se Sha’ul não estava dizendo que as pessoas de Corinto eram uma massa de pão, então também não estava dizendo que o mashiach era o cordeiro de pessach. Ele estava seguindo o padrão do TaNaK.
Aqui está a chave:
Pessach → libertação
Matsá → pureza
Vida → sem fermento (sem corrupção)
Sha’ul usa Pessach como linguagem viva para dizer: “Vivam como quem já atravessou a porta.” Isso é muito importante! O princípio estabelecido em Pessach foi ampliado pelos profetas, por Yeshua e seus talmidim. Está tudo muito claro quando se estuda corretamente e com boa vontade. Agora, vamos para o último ponto deste estudo compreender o Pessach na prática hoje.
3. Como viver Pessach na prática
Tudo que vimos até aqui é muito bem ligado pelas Escrituras e pelos escritos nazarenos, mas estamos falando de algo que não se enquadra mais na atualidade. O Pessach e as demais festas foram estabelecidos para uma época que tinha o Mishkan e o Beit Hamikdash posteriormente, mas hoje não temos mais. Como entender Pessach na atualidade?
Sim, realmente, desde o ano 70 d.EC, quando Roma destruiu o templo e os judeus foram espalhados pelo mundo antigo, até hoje não se tem mais o templo. No entanto, isso só prova que os korbanot estabelecidos nunca foram o fim em si mesmos. Como já dissemos em parashiot anteriores, o Eterno estabeleceu princípios através dos mandamentos dos korbanot. E talvez você pergunte: Quando não há o Beit HaMikdash, o que resta?
O Eterno já havia declarado pelos profetas que haveria tempos sem altar visível, veja em Hoshea 3:4:
“Pois o povo de Yisrael permanecerá recluso por um longo tempo sem rei, príncipe, sacrifício, coluna, roupa ritual ou deuses domésticos.”
E ainda assim, o povo não seria abandonado leia o verso seguinte:
“Mais tarde, o povo de Yisrael se arrependerá e buscará o Eterno, seu Elohim, e David, seu rei; eles virão tremendo até o Eterno e sua bondade no acharit-hayamim (fim dos dias ou últimos dias). Hoshea 3:5
Interessante aqui é a clara demonstração dos níveis de uma profecia. Quando essas palavras foram faladas pelo profeta, a Casa de Yisrael ainda não tinha sido deportada pelos assírios. E nem a Casa de Yehudah pelos babilônios. Então no devido tempo histórico ambos foram deportados e com o tempo a Casa de Yehudah retornou, mas não a Casa de Yisrael, ou seja, a profecia ainda não tinha se cumprido totalmente. Mais tarde, Yehudah foi expulsa de sua terra pelos romanos, e hoje muitos já voltaram à terra mas ainda há muitos yhudim pelo mundo e os remanescentes da Casa de Yisrael ainda estão sendo despertados. A profecia em sua completude ainda irá se cumprir.
Ele mesmo nos mostra o caminho: Hoshea 14:2-3 - “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao Eterno... e ofereceremos os novilhos dos nossos lábios.”
Observe não há novilhos físicos mas há palavras, confissão e retorno. O que fazemos neste tempo sem templo é descrito em Tehillim 51:16-17 “Porque não Te comprazes em sacrifício...Os sacrifícios para o Eterno são um coração quebrantado…”. E também: Tehillim 34:18 “Perto está o Eterno dos quebrantados de coração…”. O princípio nunca mudou, mesmo quando havia o templo, isto já era verdade, como lemos em Shmuel Alef 15:22: “Eis que obedecer é melhor do que sacrificar...” e Micha 6:6-8: “...foi-te declarado o que é bom: fazer justiça, amar misericórdia e andar humildemente com o Eterno.”
As festas hoje são memoriais, pois não temos o templo para oferecer os sacrifícios. Assim, embora hoje não haja Beit HaMikdash, mas ainda há porta. E a pergunta permanece: Onde você está, dentro ou fora? Viver Pessach hoje é:
Fazer teshuvah (Hoshea 14:2)
Abandonar o fermento (pecado)
Escolher o caminho do Eterno diariamente
Em Yeshayahu 1:16-17 lemos:
“Lavem-se! Afastem seu mau procedimento da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Procurem a justiça, aliviem os oprimidos, defendam os órfãos, pleiteiem pela viúva.”
Hoje buscamos perdão e purificação conforme estamos vendo pelas Escrituras, pois mostram o caminho claro:
- Teshuvah (retorno verdadeiro).
- Confissão sincera.
- Abandono da transgressão.
- Obediência aos mandamentos.
E o próprio Eterno mostra em Yeshayahu 1:18: “Venham, então diz o Eterno, conversemos sobre isso. Ainda que seus pecados sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eles se tornarão como lã.
A porta continua aberta. Mas não se entra apenas com palavras, entra-se com decisão. E qual o papel do mashiach nesse tempo? Através de seus ensinos ele chama ao arrependimento, ensina a obedecer e guia o povo de volta ao Eterno, que perdoa o povo e os recebe como seus servos. Não há sacrifícios físicos mas há coração quebrantado e retorno verdadeiro. E isso o Eterno aceita.
Concluindo nosso estudo, vimos que Pessach não é apenas passado. É uma realidade que se repete em cada geração. O Eterno ainda marca portas, chama para sair e aponta o caminho. Faz isso através de sua palavra ensinada pelo mashiach. E o homem ainda precisa escolher.
O cordeiro aponta para obediência, entrega, confiança no Eterno. O caminho continua sendo o mesmo que lemos lá Devarim 30:19: “Escolhe, pois, a vida para que vivas…”. A porta está diante de ti. A questão não é se ela existe. A questão é: Você vai entrar?
Que o Eterno lhes abençoe.
Moshê Ben Yosef
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