Estudos da Torá
Parashá nº 32 e 33 – Behar-Bechukotai
(No Monte-Conforme meus regulamentos)
Vayicrá/Levítico 25:1-27:34
Haftará (separação) Jr 32:6-27 e 16:19-17:14.
Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Lc 4:16-21 e Jo 14:15-21.
Shabat: O Sinal de Expansão do Calendário Divino.
Há uma profundidade extraordinária nos ciclos estabelecidos pelo Eterno em Sua Torá. Nada foi ordenado aleatoriamente. O Shabat semanal, o Shemitá, o Yovel, a contagem de sete semanas até Shavuot. Todos esses ciclos revelam um mesmo padrão profético: o Eterno conduz a história da criação rumo ao descanso, à restauração e à plenitude do Seu Reino até a manifestação do Olam Habah.
Esses ciclos apresentam uma conexão que é a espinha dorsal do pensamento bíblico: o ritmo do sete não é apenas uma regra agrícola, mas a partitura de toda a história da redenção. Para aprofundarmos essa visão sob a ótica nazarena, precisamos entender que o tempo, para o Criador, não é linear, mas espiral e rítmico.
Se prepare para uma jornada reflexiva nas Escrituras a respeito do ritmo sagrado da criação que vai desde o shabat até o Olam Habah. Uma meditação nazarena sobre o calendário profético de HaShem. Não deixe de acompanhar este estudo até o final.
RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA
As porções de Behar e Bechukotai encerram o livro de Vayicrá (Levítico) conectando a santidade do Tabernáculo à santidade da terra e do tempo. Em Behar, o foco central é o conceito de Shabat aplicado ao solo. Assim como descansamos no sétimo dia, a terra deve descansar no sétimo ano, o Shemitáh. Isso nos ensina que a terra pertence ao Criador, não a nós. O ciclo se expande até o Yovel, o quinquagésimo ano, onde a liberdade é proclamada, as dívidas são perdoadas e as propriedades retornam aos seus donos originais. Sob uma perspectiva nazarena, vemos aqui a fundação do que Yeshua proclamou na sinagoga em Nazaré como o "Ano Aceitável do Senhor", uma restauração espiritual e social que aponta para a redenção final.
A transição para Bechukotai traz as consequências práticas dessa caminhada. O texto apresenta as bênçãos para a obediência e as advertências severas para a negligência das mitsvot. Não se trata de um D’us arbitrário, mas de uma relação de causa e efeito baseada na Aliança. Se andarmos nos Seus estatutos, a chuva virá no tempo certo e a paz habitará a terra. Se houver rebeldia, o exílio e a desolação tornam-se ferramentas de correção.
O encerramento de Levítico reforça que a nossa jornada espiritual não é apenas interna, mas manifesta na forma como lidamos com o dinheiro, com o próximo e com os recursos naturais. No contexto de Atos, vemos a comunidade primitiva vivendo o espírito de Behar ao compartilhar bens, garantindo que não houvesse necessitados entre eles. Bechukotai nos lembra que a fidelidade à Torá, vivificada pelo Espírito, é o que sustenta nossa permanência na presença divina. Terminamos o livro com a força do "Chazak, chazak, v’nitchazek" — sejamos fortes e fortaleçamos uns aos outros.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
Na semana passada estudamos sobre a diferença entre os calendários bíblico e o gregoriano e a importância do Shabat. Esta semana vamos continuar falando da importância do Shabat, mas agora aprofundaremos mais no ponto de vista profético.
Tudo começa com o Shabat. No sétimo dia da criação, HaShem não apenas descansou, Ele consagrou o descanso, santificou o tempo e imprimiu no tecido do universo um padrão que se repetiria em escala crescente ao longo de toda a história redentora. O Shabat não é uma instituição humana nem uma convenção cultural, é uma estrutura ontológica, gravada na própria criação antes mesmo que houvesse um Israel, uma Torá escrita ou um Templo.
Desde Bereshit, o número sete aparece como marca da completude divina. O mundo foi criado em seis dias, e no sétimo o Eterno cessou Sua obra. Esse descanso não aconteceu porque HaShem se cansou, mas porque o sétimo dia foi separado como sinal eterno de harmonia entre o Criador e Sua criação.
“E abençoou o Eterno o sétimo dia e o santificou” (Bereshit 2:3)
O Shabat semanal, portanto, não é apenas um mandamento para interromper o trabalho. Ele é um anúncio profético. A cada sete dias, o homem é lembrado de que a criação caminha em direção a um grande descanso futuro.
À partir do primeiro tópico, passaremos a observar o shabat como semente de todo o tempo determinado pelo Eterno até o Olam Habah e veremos que tudo está demonstrado nas Escrituras Sagradas, codificados nos tempos determinados e mandamentos.
1 - O Shabat como Semente de Todo o Calendário Divino
Como vimos acima, tudo começa com o Shabat, e a Torá deixa isso bem claro em Vayicrá.
O Eterno disse a Moshe: Fale ao povo de Yisrael: Os tempos designados pelo Eterno, que vocês devem anunciar como convocação sagrada, são os meus tempos designados. Trabalhem durante seis dias; mas o sétimo dia é um shabat de descanso absoluto, uma convocação sagrada; não realizem nenhum tipo de trabalho; é um shabat para o Eterno, mesmo em seus lares. Vayicrá 23:1-3
A mesma estrutura do Shabat semanal reaparece no Shemitá. Assim como o homem trabalha seis dias e descansa no sétimo, também a terra trabalha seis anos e repousa no sétimo. A terra possui seu próprio Shabat. Isso é profundamente revelador, porque mostra que toda a criação participa da aliança do Eterno. A terra não é apenas cenário da história humana; ela também aguarda redenção.
O profetas compreenderam isso claramente. Yimeyahu e Divrei HaYamim explicam que o exílio babilônico ocorreu porque Yisrael negligenciou os Shabatot da terra:
Até que a terra se agradasse dos seus Shabatot. (Divrei HaYamim Beit 36:21)
Isso é impressionante! A terra cobra seus descansos porque o Eterno estabeleceu um ritmo sagrado para toda a criação. Quando o homem rompe esse ritmo por ganância, orgulho e falsa sensação de domínio, toda a ordem é afetada. O autor Bruno Summa fala algo interessante sobre isso, em seu comentário dessa parashá, observe abaixo a transcrição do texto:
Vamos olhar para o Shemittah de uma forma lógica. Se analisarmos o motivo pelo qual Hashem determinou que o Shemittah fosse observado no sétimo ano, e em nenhum outro, encontraremos algo que está escondido de perante nossos olhos. O “sétimo ano” e termos associados, sempre foram um grande mistério que foge da nossa compreensão. Existem inúmeros comentários de nossos sábios sobre o Shemittah, contudo, a vasta maioria não aborda a razão do sétimo ano, o que é muito curioso. Contudo, isso não significa que não podemos nos aprofundar nesse detalhe específico do Shemittah. Sobre o sete, o Midrash ensina:
Todos os “sete” são amados. Acima, o sétimo céu é o mais amado. Na geração de Adam, a sétima é mais amada, Chanoch. Na geração de Israel, a sétima é mais amada, Moises. Entre os sete filhos de Yishai, o sétimo foi o mais amado, David. E da mesma forma, entre os anos, o sétimo ano é o mais amado, o Shemittah. E ainda da mesma forma, entre os dias, o sétimo dia é o mais amado, o Shabbat. Entre os anos de Shemittah, o sétimo é mais amado, pois antecede o jubileu. Vayikra Rabbah 29:11
O Midrash discute a importância do número 7 e diz que tudo associado a ele é mais “amado”. Chanoch, o homem que andou com Elohim, pertenceu à sétima geração após Adam. Moises pertenceu à sétima geração à partir de Abraham. David era o sétimo filho de Yishai e assim por diante. Esse ensino do Midrash é questionável, pois se caso Moises não tivesse pertencido à sétima geração, teria sido ele menos amado por Hashem? Ou se David fosse o sexto filho de Yishai, teria sido ele menos amado por Hashem? Moises, David, Chanoch e tudo mencionado pelo Midrash não foram mais amados porque estavam associados ao 7, mas sim pela grandeza espiritual que desenvolveram e pelo amor aos céus que possuíam. Contudo, em relação ao Shabbat e ao Shemittah, o mesmo não pode ser atestado, pois ambos foram escolhas diretas de Hashem. Assim como Ele decidiu criar o mundo em 7 dias, Ele escolheu o 7 para Lhe representar. Além do mais, por que Moises pertenceu à sétima geração? E por que David foi o sétimo filho? Será que isso foi “acidente”? Isso apenas nos mostra que estamos longe de uma completa compreensão do amor que Hashem tem pelo número 7 e o por que esse número oculta tantos mistérios espirituais. O fato do Shemittah estar associado a esse número apenas aumenta sua proeminência.
Summa, Bruno. SHA'AREI TORAH: Portões da Torah - VAYIKRA 6 (pp. 87-88). Edição do Kindle.
Na continuação do comentário, em outro parágrafo o mesmo autor ainda explica o que já mencionei acima a respeito do Shemitah e a relação com o exílio, observe a transcrição:
O primeiro exílio de Israel, o exílio babilônico, durou setenta anos, um ano para cada Shemittah que Israel profanou, dado que nossos sábios ensinam que Israel jamais observou o Shemittah em sua totalidade. Havia muita idolatria na terra de Israel e foi ela o estopim para o exílio, mas a duração do exílio foi julgada e determinada com base no Shemittah. Ou seja, o número 7, por um lado, representa o julgamento irrestrito divino. Em outra situação, quando Israel saiu do Egito, eles apenas receberam a total liberdade espiritual quando aceitaram a Torah no quadragésimo nono dia (7x7=49), em outras palavras, Israel, mesmo sem merecer, foi liberto da escravidão no pé do Monte Sinai, uma liberdade dada graças à pura misericórdia divina. Portanto, o número 7 representa a misericórdia divina, o atributo completamente oposto ao julgamento irrestrito. Ou seja, o número 7 representa dois opostos, ou melhor dizendo, atrai dois opostos. O número 7 junta o julgamento irrestrito à misericórdia divina, tornando o julgamento irrestrito em um julgamento doce. E como diferenciamos um do outro?...
Summa, Bruno. SHA'AREI TORAH: Portões da Torah - VAYIKRA 6 (p. 89). Edição do Kindle.
O Shemitá ensina algo que o homem moderno detesta ouvir: nós não controlamos a provisão. O agricultor hebreu precisava parar completamente suas atividades agrícolas durante um ano inteiro e confiar que o Eterno sustentaria sua casa. Era um exercício radical de humildade e confiança.
Mas o Shemitá aponta para algo ainda maior. Após sete ciclos de sete anos chegava o Yovel. Aqui o padrão profético se expande. O shofar era tocado em Yom HaKippurim e anunciava liberdade em toda a terra. Dívidas eram canceladas. Escravos eram libertos. Propriedades retornavam aos seus donos originais. Observe a beleza disso: o Eterno não permitia que a história humana se tornasse permanentemente dominada pela opressão. O Yovel interrompia o acúmulo desenfreado de poder e riqueza. Era uma restauração periódica da ordem original.
Os antigos sábios de Yisrael viam nisso uma imagem do mundo vindouro, transmitindo uma tradição de profunda beleza. Alguns comentaristas relacionavam os seis mil anos da história humana aos seis dias da criação, seguidos pelo sétimo milênio, um grande Shabat universal. Eles mostram que "o mundo existirá por seis mil anos e no sétimo será destruído (ou descansará)", observe:
"Seis mil anos existe o mundo, e por um [milênio] ele será destruído... seis mil anos — dois mil de tohu (caos), dois mil de Torá e dois mil de dias do Mashiach." (Talmud, Sanhedrin 97a).
Essa visão é a base do que chamamos de Quiliasmo ou o Reino Milenar. Essa compreensão aparece em diversas tradições antigas de Yisrael e ecoa no entendimento dos talmidim.
Esta tradição, não é uma especulação tardia, é a leitura do calendário cósmico através da lente do Shabat semanal. Assim como a semana culmina no sétimo dia de descanso sagrado, a história culmina no sétimo milênio de redenção e shalom. O Shabat semanal é, portanto, a semente profética de toda a escatologia bíblica. O padrão é consistente:
seis dias → Shabat;
seis anos → Shemitá;
sete Shemitot → Yovel;
sete semanas após Pessach → Shavuot;
seis milênios → reinado milenar;
depois disso → Olam HaBa.
Nada disso é desconectado. O Eterno está ensinando que a história inteira possui direção profética. Se o Shabat semanal é o descanso da alma e o Shemitá é o descanso da terra, o Sétimo Milênio é o descanso das nações sob o cetro do Messias. O profeta Yeshayahu (Isaías) visualiza esse "Grande Shemitá" quando diz que "a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar" (Isaías 11:9). É o período em que a "espada se transformará em relhas de arado", uma referência direta à cessação do esforço humano pela força, permitindo que a terra produza sob a bênção divina, tal como no ano sabático.
Em dias de Contagem do Omer, como estamos, vemos que essa contagem determinada pelo Eterno reforça ainda mais esse princípio. Depois de Pessach, contam-se sete semanas completas até Shavuot. Pessach marca libertação; Shavuot marca encontro e aliança. Entre ambos existe uma jornada de transformação. O povo sai da escravidão, mas precisa caminhar até aprender a viver sob o governo do Eterno. Da mesma forma, o mundo atual vive em um longo processo de preparação para o grande descanso futuro.
2 - Do Shabat Semanal ao Shemitá: A Escala se Expande
Já comecei a falar sobre isso nos parágrafos finais acima, mas perceba que a primeira expansão do padrão sabático é o Shemitá, o ano sabático da terra (Levítico 25:1–7). A cada seis anos de trabalho, o sétimo ano pertence a HaShem. A terra descansa, as dívidas são canceladas (Deuteronômio 15:1–2) e o povo é lembrado de que não é dono da criação, mas administrador fiel de um mundo que pertence ao Criador.
O que o Shabat faz ao dia, o Shemitá faz ao ano. A mesma lógica é aplicada profeticamente: seis períodos de atividade humana, seguidos de um período de cessação e dependência radical de HaShem. E o que acontece durante o Shemitá? As colheitas espontâneas pertencem a todos, ricos e pobres comem da mesma mesa da providência divina. É uma imagem do Éden restaurado, onde a terra dá seus frutos sem o suor coercitivo da escassez.
Os profetas captaram esta dimensão. Isaías vislumbra um tempo em que "o deserto se alegrará e a terra árida florescerá como a rosa" (Yeshayahu 35:1), onde a própria criação participará do descanso escatológico. Ezequiel descreve rios que jorram do Templo restaurado tornando fértil até o Mar Morto (Yechezkel 47:1–12), uma imagem do Shemitá cósmico em que a terra finalmente descansa sob o governo justo do Eterno, através de seu ungido.
Yeshua conhecia profundamente essa interpretação. Quando ensina seus talmidim a orar "Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu" ( Matityahu 6:10), ele está orando pela chegada do grande Shemitá, o tempo em que a terra viverá sob o ritmo de HaShem, não sob o ritmo da exploração humana. Ele também falou: “Vinde a mim todos os cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Matityahu 11:28) Ele não está falando apenas de alívio emocional. O termo “descanso” carrega toda a linguagem do Shabat e da redenção final. Yeshua anuncia a chegada do Reino e aponta para o verdadeiro descanso prometido desde Bereshit. Isso se conecta diretamente com Yeshayahu 61:
“O Ruach do Eterno está sobre mim… para proclamar liberdade aos cativos… e anunciar o ano aceitável do Eterno.”
Essa linguagem é claramente linguagem de Yovel. Quando Yeshua lê essa passagem na sinagoga em Natzeret, conforme lemos em Lc 4:18-19, ele está declarando que os sinais proféticos do Yovel começavam a se manifestar. Não apenas libertação econômica, política ou social, mas restauração da condição humana diante do Eterno.
Para um judeu do primeiro século, "o ano aceitável" era o código profético para o Yovel. Yeshua não estava apenas curando indivíduos; ele estava iniciando a mecânica espiritual do Jubileu. No Yovel, a propriedade retornava ao dono original. Espiritualmente, a humanidade, vendida á desobediência e à morte, retorna ao seu Dono original, o Criador, o doador da vida. Os talmidim (discípulos) de Yeshua entenderam isso profundamente. Em Atos, a prática de vender propriedades e distribuir o valor não era apenas caridade, era a vivência antecipada do Jubileu, onde a acumulação de terra e bens perdia o sentido diante da iminência do Reino.
Shaul também desenvolve essa visão em suas cartas. Em Romiyim 8 (Romanos), ele escreve que toda a criação geme aguardando libertação. Isso ecoa diretamente o conceito do Shemitá e do Yovel. A própria criação aguarda seu descanso sabático definitivo.
Os sábios antigos diziam que o Shabat é “uma amostra do Olam HaBah”. Isso é profundamente verdadeiro. Cada Shabat semanal é um ensaio profético do Reino futuro. Cada Shemitá é um anúncio de que o sistema humano baseado em exploração e acúmulo não permanecerá para sempre. E o Yovel é uma sombra do momento em que toda a criação retornará ao seu verdadeiro Dono.
3 - Do Shemitá ao Yovel: Sete Vezes Sete - A Plenitude da Plenitude
Se o Shemitá é a expansão do Shabat ao nível do ano, o Yovel (Jubileu) é a expansão ao nível da geração. Após sete ciclos de sete anos, quarenta e nove anos, chegava o quinquagésimo ano, o Yovel: o grande reset da sociedade israelita. Terras voltavam às famílias originais, escravos hebreus eram libertados, dívidas canceladas. Era a declaração solene de que nenhuma situação de opressão ou pobreza é permanente — que HaShem reserva o direito de reescrever a história.
O número cinquenta é carregado de significado. O Shavuot, a festa das semanas, é celebrado cinquenta dias após o Pessach, após sete semanas completas (Levítico 23:15–16). Este paralelo não é acidental: assim como se conta sete semanas do Pessach ao Shavuot, contam-se sete semanas de anos do início da contagem ao Yovel. A estrutura é idêntica, sete multiplicado por sete mais um, o dia ou ano que transcende a contagem, que salta para além do ciclo natural e inaugura algo radicalmente novo.
O Shavuot foi o dia em que a Torá foi dada no Sinai, e, segundo Atos 2, foi também o dia em que o Ruach HaKodesh foi derramado sobre os talmidim. O próprio derramamento do Espírito é enquadrado na interpretação bíblica do Jubileu: é a libertação definitiva, o retorno à herança perdida, o cancelamento da escravidão ao pecado. Paulo entende o Espírito exatamente assim: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2 Coríntios 3:17), isso é linguagem de Yovel. Fantástico, Baruch HaShem!
Yeshua em Natzerét (Lucas 4:16–21) fez algo extraordinário: recebeu o rolo aberto em Isaías 61, leitura da haftará daquela semana, e leu: "O Espírito do Eterno está sobre mim... para proclamar o ano aceitável do Senhor". A palavra hebraica subjacente é shanah (ano), mas o conceito é o Yovel. Yeshua não proclamou apenas um programa social; ele declarou o início do Grande Jubileu escatológico, em que todas as categorias do Yovel levítico se cumprem em escala cósmica: cativos libertados, cegos que veem, oprimidos libertos. E encerrou a leitura sem terminar a frase de Isaías, omitindo deliberadamente, "e o dia da vingança do nosso D’us", indicando que o Jubileu da misericórdia precede, ou seja, vem antes do julgamento. Há dois atos nesta peça. No próximo tópico veremos o padrão nos milênios.
4 - O Padrão dos Milênios: A Grande Semana da História
Agora chegamos ao coração da visão profética nazarena. Se o Shabat é o padrão do dia, o Shemitá é o padrão do ano, e o Yovel é o padrão da geração, qual é o padrão da história inteira?
A resposta ecoa diretamente do TaNaK: "Para o Eterno, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (Salmo 90:4). O Salmista não está simplesmente dizendo que HaShem é eterno, ele está inserindo essa afirmação num contexto profético explícito, ele está dizendo: leia a história como HaShem lê, em milênios, como dias.
O esquema que emerge é deslumbrante:
O Reinado Milenar (Apocalipse 20:1–6) é, dentro desta interpretação das Escrituras, o grande Shemitá, o sétimo milênio em que a criação "descansa" sob o governo direto do Mashiach, o Filho de Davi. O profeta Zacarias vislumbra esse tempo: "HaShem será rei sobre toda a terra; naquele dia HaShem será um e seu nome será um" (Zacarias 14:9). Yeshayahu pinta o quadro com cores vívidas: o lobo habitará com o cordeiro, a criança brincará sobre a toca da cobra, "porque a terra se encherá do conhecimento de HaShem como as águas cobrem o mar" ( Yeshayahu 11:6–9), imagem perfeita do Shemitá universal, em que a criação inteira vive do conhecimento direto do Criador, sem a mediação da violência e da escassez.
O apóstolo Yochanan em Apocalipse não está escrevendo ficção apocalíptica, estava recebendo do Eterno o calendário da Torá em escala cósmica. Os mil anos de Apocalipse 20 são o Shabat da história, o cumprimento do que cada Shabat semanal, cada Shemitá e cada Yovel apontavam profeticamente.
5 - Além do Milênio: O Olam Habah e o Shabat Eterno
Mas o padrão não termina no sétimo milênio. Assim como após o Yovel (o quinquagésimo ano) a vida continua, só que transformada, após o sétimo milênio vem o Olam Habah, o Mundo Vindouro: não o fim da existência, mas o início de uma existência de ordem completamente diferente.
O Talmud Yerushalmi (Megillah 1:70d) e o Zohar ensinam que o Olam Habah transcende as categorias do tempo e do espaço como os conhecemos. É o "oitavo dia", e aqui o simbolismo é extraordinário: o número oito na tradição hebraica é o número que transcende o ciclo de sete, o número da ressurreição e da nova criação. A circuncisão é no oitavo dia. O Shemini Atzeret, a festa do oitavo dia de Sucot, que encerra o ciclo das festas de outono. Tudo aponta para além do sete: para a eternidade que transcende o ciclo histórico.
Paulo explica isso em 1 Coríntios 15:24–28, descrevendo o estágio final: "Então virá o fim, quando [o Mashiach] entregar o reino ao Pai... para que o Eterno seja tudo em todos." O Reinado Milenar (o sétimo milênio, o grande Shabat) não é o destino final, é a antecâmara do Olam Habah, em que a própria distinção entre sagrado e secular se dissolve porque tudo será sagrado, assim como no Yovel a distinção entre propriedade privada e herança comunal se dissolve na restituição universal.
O livro de Hebreus tece tudo isso de forma magistral: "Resta, portanto, um descanso sabático para o povo de HaShem. Pois aquele que entrou no seu descanso também descansou das suas obras, como o Eterno das suas" (Hebreus 4:9–10). O autor não está apenas falando de descanso espiritual individual, está apontando para o grande Shabat escatológico ao qual toda a história se dirige.
Concluindo nosso estudo, vemos que a mensagem das porções Behar e Bechukotai, pela ótica profética, lida através da lente nazarena, é de uma profundidade imensurável: HaShem não governa a história de forma aleatória, Ele governa em ritmo, em padrão, em simetria total. O mesmo padrão que ordena o dia ordena a semana, que ordena o ano, que ordena a geração, que ordena os milênios, que ordena a eternidade.
Para o discípulo de Yeshua, isso não é uma especulação acadêmica, é uma certeza e um convite à esperança fundamentada e à fidelidade prática. Cada Shabat que guardamos é uma declaração profética: "Acreditamos que a história tem um sétimo dia." Cada ato de perdão de dívidas, cada libertação de oprimidos, cada restituição de dignidade aos pobres é um ato de Jubileu antecipado, um sinal do Reino que vem.
O Mashiach já proclamou o Jubileu. O Ruach, o mover do Eterno, já foi derramado como penhor do Shavuot eterno. E aguardamos, com fé ativa e esperança viva, o grande Shabat, o sétimo milênio, e depois dele, o Olam Habah, onde HaShem será kol b'kol leolam vaed — tudo em todos para sempre.
Que o Eterno lhes abençoe.
"Chazak, chazak, v’nitchazek"
Moshê Ben Yosef
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