Estudos
da Torá
Parashá
nº 34
– Bamidbar
(No
deserto)
Bamidbar/Números
1:1-4:20
Haftará
(separação) Os
2:1-22.
Escritos
Nazarenos (Novo Testamento) Lc
2:1-7
e 1Co
12:12-31.
Bamidbar,
o Ômer e a arte de ser formado.
Existe
uma pergunta que toda
pessoa
que entra no caminho de teshuvah eventualmente
faz, quase sempre em voz baixa, quase sempre no meio da noite, quando
está sozinho:
“Por
que este silêncio? Por que este vazio? Por que, justamente agora que
fui liberto, tudo parece tão árido?”
A
resposta, surpreendentemente, não está nos livros de autoajuda nem
nas prateleiras de espiritualidade rápida. Está escrita nas
areias
do deserto.
Está soprada pelo vento quente entre as rochas do Sinai. Está no
coração de uma palavra hebraica simples e devastadoramente
profunda: Bamidbar
— no
deserto.
Te
convido a seguir por este estudo e manter sua atenção até o fim,
há alguns segredos a serem revelados e você é que irá se
beneficiar destas revelações. Não saia daí!
RESUMO
DA PARASHÁ DA SEMANA
Nesta
semana estudamos a parashá Bamidbar (במדבר),
a primeira porção do sefer Bamidbar. Esta porção inicia a
caminhada de Yisrael rumo à terra prometida, mas antes da jornada
começar, o Eterno organiza o Seu povo no deserto.
O
Eterno fala a Moshê no deserto de Sinai, a partir do Ohel Moed,
ordenando que seja feito o recenseamento de toda a congregação de
Yisrael. Cada tribo deveria ser contada segundo suas famílias e
casas paternas, registrando-se todos os homens de vinte anos para
cima, aptos para sair à guerra. Isso demonstra que Yisrael não era
apenas um grupo de ex-escravos libertos, mas um povo organizado,
separado e preparado para cumprir os propósitos do Eterno.
Cada
tribo recebe seu lugar específico no acampamento e na marcha pelo
deserto. O centro de toda a organização era o Mishkan. Ao redor
dele acampavam os levitas, encarregados do serviço e da guarda do
santuário, e ao redor dos levitas ficavam as demais tribos,
divididas em quatro grupos principais, posicionados ao norte, sul,
leste e oeste.
A
tribo de Levi não foi contada junto às demais, pois o Eterno a
separou para o serviço do Mishkan. Os levitas foram designados para
cuidar dos utensílios sagrados, desmontar e transportar o Mishkan
durante as jornadas e proteger a santidade do lugar da presença do
Eterno. Entre os levitas, cada família recebeu uma responsabilidade
específica: os filhos de Gershon cuidariam das cortinas e
coberturas; os filhos de Merari das estruturas, colunas e bases; e os
filhos de Kehat dos objetos mais sagrados, como a Aron HaBrit, a
Menorah e os utensílios do Mishkan.
Um
dos ensinamentos mais profundos desta parashá é justamente a
posição do Mishkan no centro do acampamento. Isso nos revela que o
Eterno deve ser o centro da vida de Seu povo. Toda a organização de
Yisrael girava ao redor da presença do Eterno. O povo marchava
quando a nuvem se movia e parava quando ela repousava. Assim,
aprendemos que não devemos viver segundo nossa própria vontade, mas
conforme a direção do Eterno.
Também
vemos nesta porção a importância da identidade e da função de
cada pessoa dentro do povo. Nenhuma tribo ocupava o lugar da outra, e
cada família tinha uma responsabilidade específica. Isso nos ensina
que o Eterno é Elohim de ordem, propósito e santidade.
Portanto,
Bamidbar não trata apenas de números e organização; trata da
presença do Eterno habitando no meio de Seu povo. O deserto se torna
um lugar de aprendizado, transformação e confiança. O Mishkan no
centro nos lembra continuamente que o Eterno deve ocupar o lugar
principal em nossa vida, acima de homens, tradições e interesses
pessoais.
ESTUDO
DO TEXTO DA PARASHÁ
O
Eterno falou a Mosheh no deserto do Sinai, na tenda do encontro, no
primeiro dia do segundo mês do segundo ano após a saída da terra
do Egito. Nm
1:1
O
deserto não é um acidente. Quando lemos que o Eterno escolheu levar
o povo ao deserto, podemos entender que o deserto, pois ali seria o
palco da revelação, somos tentados a imaginar que foi por falta de
opção, que Moisés e o povo simplesmente estavam por ali, e HaShem
aproveitou a oportunidade. Mas a teologia judaica jamais pensa assim.
O Eterno não imposta. Ele escolhe.
Há
algo profundamente transformador no fato de que o Eterno escolheu o
deserto como lugar de revelação. Bamidbar não começa em uma
cidade, nem em um palácio, nem em um centro de poder humano. Começa
no vazio. No silêncio. Na vastidão aparentemente estéril do
deserto. Isso não é um detalhe geográfico; é um princípio
espiritual que percorre toda a Escritura.
O
deserto, nas Escrituras, é o lugar onde o homem deixa de confiar nas
estruturas humanas e aprende a depender inteiramente do Eterno. No
deserto não há segurança natural, não há abundância produzida
pelas mãos do homem, não há distrações da civilização. Ali,
tudo depende do Eterno: a água, o alimento, a direção, a proteção
e até mesmo o próximo passo. Por
isso o sefer Bamidbar começa por essas palavras que lemos acima.
O
Midrash Sifrei sobre Bamidbar observa que a Torá foi dada em três
lugares "sem dono": no deserto, no fogo e na água. Nenhum
deles pertence a uma nação, a um povo, a uma jurisdição humana.
Esse
Midrash ensina que a Torá foi dada no deserto porque o deserto
pertence a todos; apesar
do Eterno ter escolhido o povo de Yisrael para entregá-la, ninguém
pode reivindicar posse exclusiva da Palavra do Eterno. O Rabino
Shimeon bar Yohai comenta que assim como esses lugares estão
disponíveis para qualquer pessoa que se aproxime, a Torá também
está aberta a qualquer alma, isto
é, a qualquer pessoa
que venha sem a arrogância da propriedade, sem a ilusão de que já
sabe o suficiente. Quem deseja recebê-la precisa aproximar-se com
humildade, como alguém que entra num território vazio de si mesmo.
Os
sábios de Yisrael frequentemente associaram o deserto à condição
necessária para receber sabedoria. O
Midrash Bamidbar
Rabbah ensina que somente aquele que se torna “como o deserto”,
humilde e disponível, pode verdadeiramente adquirir as palavras da
Torá. Esse
pensamento são um eco
do
que o salmista declarou:
“Ensina-me
a fazer a Tua vontade.”
(Tehilim 143:10)
O
deserto é exatamente o lugar onde o homem deixa de ensinar a si
mesmo e passa a ser ensinado pelo Eterno. Há, portanto, uma
pedagogia deliberada no deserto. O Eterno não envia Seu povo ao
deserto para puni-los, pelo menos não no sentido primário. Ele os
envia porque o deserto é a única sala de aula onde certas lições
podem ser aprendidas. As paredes do Egito eram cômodas
demais. As hortas de pepinos e as panelas de carne (Êx 16:3) eram
anestesiantes demais. Para que um povo aprenda a depender do
Eterno,
ele precisa primeiro ser colocado numa situação onde não pode
depender de mais nada. O profeta Hoshea/Oséias
entendeu isso com uma clareza quase dolorosa. Numa das passagens mais
íntimas de toda a profecia judaica,
o Eterno fala sobre Yisrael
como um amante fala de sua amada, e diz: "Portanto,
eis que eu a atrairei, e a levarei ao deserto, e falarei ao seu
coração."
(Oséias 2:16)
Perceba
o movimento: atrair, levar, falar ao coração. Não é punição. É
cortejo. Deus usa o deserto como um homem apaixonado usa um lugar
silencioso e afastado — para finalmente ter a atenção plena da
pessoa amada, longe do barulho, longe das distrações, longe de tudo
que compete com Sua voz. E
tudo isso se conecta profundamente com o que estamos fazendo, a
contagem do Ômer, conforme veremos no próximo tópico.
1
- A Escola que Começa em Pessach e Termina no Sinai
E
aqui voltamos
a
falar
do
calendário bíblico
mais uma vez, e de um dos
mais ricos e densos significados
que o povo de Yisrael
carrega: a Contagem do Ômer. Os
quarenta
e nove dias ou
sete
semanas completas, que
vai do início do
segundo dia de Pessach até a véspera de Shavuot. Do agitar do sheaf
(mólho)
da
cevada até o dom da Torá. Do momento da libertação até o momento
da revelação. E o que há entre esses dois polos? O deserto.
A
conexão não é poética, é histórica e litúrgica. A contagem do
Ômer é, em seu fundamento, uma rememoração da caminhada pelo
deserto. Cada dia contado é um passo dado. Cada semana encerrada é
uma etapa da jornada entre o Egito e o Sinai. O povo que saiu da casa
da escravidão não estava pronto para receber a Torá. Precisava
caminhar. Precisava ser contado. Precisava aprender seu próprio nome
antes de receber o Nome do
Eterno
gravado em tábuas de pedra.
Isso
diz algo fundamental sobre a natureza da fé vivida: a libertação
não é o destino, é o começo. Pessach é glorioso, com seus sinais
e maravilhas, com o sangue no umbral e o mar que se abre. Mas um
escravo liberto não é automaticamente um homem livre. A liberdade
interna, a cherrut - חירות
(liverdade,
libertação)
verdadeira, é forjada no deserto, dia após dia, escolha após
escolha.
O
Talmud Bavli, no
tratado
Yevamot, registra que nesse período de
contagem do ômer faleceram
24.000 alunos de Rabi Akiva — uma das maiores tragédias da
história rabínica. Os sábios ligam isso a uma falta de kavod, de
honra e respeito mútuo entre eles. A contagem do Ômer, então,
tornou-se não apenas uma contagem de dias, mas uma contagem de
caráter. Cada dia da semana corresponde a um dos sete midot
(medidas,
proporções, normas),
atributos de caráter: amor, disciplina, harmonia, resistência,
humildade, conexão, dignidade. O deserto ensina que não basta sair
do Egito, é preciso que o Egito saia de você.
Por
isso Bamidbar e o período do Ômer possuem ligação tão profunda:
ambos falam de preparação, refinamento e alinhamento. O deserto não
era punição; era treinamento. O Eterno estava formando uma nação
sacerdotal. O
que nos leva ao próximo tópico.
2
- O Homem que Vai ao Deserto
A
tradição nazarena vê em Yeshua de Natzerét
a figura do Israelita perfeito, aquele que recapitula em si mesmo
toda a jornada do povo. E é impossível não notar que, os
autores dos evangelhos relatam que antes
de qualquer palavra pública, antes de qualquer sinal ou ensinamento,
Yeshua foi levado ao deserto. Como
lemos: "Então
Yeshua foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo
adversário."
(Mateus 4:1)
Quarenta.
Para
Yeshua foram dias
e
esse foi o
mesmo número que Israel vagou no
deserto, mas em
anos. E as três tentações que Yeshua enfrenta nesses
dias são
exatamente as três nas quais Israel havia tropeçado: a tentação
do pão (a murmuração pelo maná), a tentação de testar a D’us
(as queixas no deserto), e a tentação do poder imediato (o bezerro
de ouro e os ídolos das nações). Yeshua responde a cada uma delas
com palavras do sefer
Devarim/Deuteronômio,
com as palavras que Mosheh
disse ao povo depois do deserto, depois dos quarenta anos de
formação.
O
deserto, para Yeshua, não foi fraqueza. Foi preparação. E a lição
que seu caminho nos deixa é esta: o Espírito leva ao deserto os que
o
Eterno
quer usar. O deserto não é abandono, é investimento.
O
Rav
Shaul (apóstolo Paulo),
formado nos pés de Gamaliel e depois radicalmente transformado em
seu próprio deserto na Arábia (Gálatas 1:17), entendeu isso quando
escreveu aos crentes em Roma com palavras que ressoam como o eco de
Hoshea/Oséias:
“E
não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações,
sabendo que a tribulação produz paciência, e a paciência,
experiência, e a experiência, esperança.”
(Romanos 5:3-4).
Em
grego, a palavra traduzida como "experiência" é dokimé,
o resultado de um processo de teste, como o ouro que passa pelo fogo.
O deserto é o forno de dokimé. Ninguém sai dele como entrou.
3
- A Voz que Ecoa no Silêncio
O
profeta Yeshayahu/Isaías,
escrevendo para um povo que estava prestes a ser levado ao exílio,
ao seu próprio deserto involuntário, anuncia com uma voz que
atravessa séculos:
"Eis que faço uma coisa nova; ela já está brotando, não a
percebeis vós? Eis que farei um caminho no deserto e rios no ermo."
(Isaías 43:19)
A
pergunta mais perturbadora do versículo não é sobre o caminho ou
os rios. É aquela que antecede tudo: "Não a percebeis vós?"
D’us está fazendo algo novo agora, neste momento, e o povo não
percebe porque está olhando para trás, lamentando o que foi. O
deserto exige uma reeducação do olhar. Enquanto você estiver de
costas para o horizonte, chorando a
margem do Nilo que ficou para trás, não verá a nascente que brota
na pedra à sua frente.
Yecheskel/Ezequiel
usa a mesma imagem quando fala da restauração de Yisrael:
ossos secos no deserto que recebem sopro e se levantam como um
exército (Ez 37). O deserto de ossos, imagem máxima de morte e
desolação, se torna o cenário do maior milagre de ressurreição
coletiva da profecia judaica.
E
vemos aqui a profecia sobre ressurreição em dois níveis, a
restauração do povo e a ressurreição futura.
O Eterno tem uma preferência estranha pelos lugares mais improváveis
para
ensinar.
4
- Ser Contado no Deserto
Há
um detalhe da parashá Bamidbar que não podemos deixar passar: o
Eterno
manda contar o povo no deserto. Não depois, nem
quando chegarem à terra. No deserto, no meio do caminho, no meio da
incerteza. Isso é
fantástico! Significa
que você não precisa ter chegado para ter valor. Você não precisa
ter vencido para ser visto. Você não precisa ter saído do deserto
para ser contado pelo Eterno. O Baal Shem Tov, famoso
rabino fundador
do movimento chassídico, ensinava que toda descida espiritual, todo
yeridá (descida),
tem como propósito uma ascensão maior. Não existe vale que HaShem
não use como trampolim. E
não
existe deserto que Ele não transforme em escola. O pior erro que uma
pessoa em teshuváh ou servo do Eterno
pode cometer é interpretar o deserto como sinal de rejeição,
quando na verdade é sinal de convite.
Rabi
Nakhman de Breslov, que viveu seus próprios desertos interiores de
dúvida e angústia, legou ao mundo uma das frases mais citadas do
pensamento judaico moderno: "É proibido desesperar." —
Assur lehityaesh. Não é fraqueza. É proibição. Porque desesperar
no deserto é negar que HaShem
ainda está falando.
5
- O Ômer que Ainda Estamos Contando
Enquanto
estas palavras são lidas, o povo judeu e nazareno ao redor do mundo
estão
em meio à contagem do Ômer. Cada noite, a bênção sobe: "Hoje
é o... dia do Ômer." Cada dia, um passo. Cada semana, uma
camada de caráter sendo trabalhada. Estamos, literalmente, no
deserto entre Pessach e Shavuot. Entre a libertação e a revelação.
E a pergunta que Bamidbar faz a cada um de nós é a mesma que o
Eterno fez a Israel há milênios: Você
confia que Eu sei o que estou fazendo com você aqui?
Porque
o deserto não termina com derrota. Termina com o
Sinai
e
a entrega da Torá.
Termina com a voz de D’us trovejando sobre a montanha e um povo
inteiro tremendo diante da Presença. Termina com a Torá gravada,
não em pedra, disse Jeremias (31:33), mas no coração. E esse
coração? Foi formado no deserto.
No
deserto, o
Eterno
fala.
No
deserto, o
Eterno
conta.
No
deserto, o
Eterno
transforma escravos em nação, e nação em sacerdotes.
Concluindo
nosso estudo, podemos
aprender que,
quando atravessamos períodos de silêncio, espera ou incerteza, não
devemos pensar que fomos abandonados. Frequentemente, estamos em
nosso próprio Bamidbar. E talvez a maior lição seja esta: o
deserto não é ausência do Eterno. É justamente o lugar onde Sua
presença se torna mais evidente. A nuvem estava no deserto. O maná
caiu no deserto. A água saiu da rocha no deserto. A Torá foi dada
no deserto. O Mishkan foi erguido no deserto.
O
deserto era árido, mas o Eterno estava no centro. Assim também
ocorre conosco. O homem que decide caminhar com o Eterno
inevitavelmente atravessará desertos. Mas são
nesses lugares que somos moldados, alinhados e preparados para
cumprir o propósito do Eterno. Como está escrito:
“Recordar-te-ás
de todo o caminho pelo qual o Eterno teu Elohim te guiou no deserto…”
(Devarim 8:2).
O
caminho pelo deserto nunca foi desperdício. Era formação. Era
preparação. Era aproximação.
Que
o Eterno lhes abençoe.
Moshê
Ben Yosef