Estudos
da Torá
Parashá
nº 15 – Bo (Vá)
Shemot/Êxodo
10:1-13:16
Haftará
(separação) Jr 46:13-28 e
Escritos
Nazarenos (Novo Testamento) Mt 20:1-16; Lc 2:22-24 e Atos 13:16,17
Chamados
ao Amanhecer e ao Entardecer.
Há
relatos
nas Escrituras que nunca envelhecem. Eles
atravessam gerações porque falam diretamente ao coração humano
através de assuntos como
poder, opressão, justiça, inveja, misericórdia e propósito. A
parashá
Bo,
a haftará
em Yirmeyahu, que
estamos estudando essa semana, e
a parábola
dos trabalhadores da vinha,
ensinada por Yeshua,
pertencem a esse grupo. À primeira vista, parecem textos distintos,
separados por séculos e contextos diferentes. Mas, quando colocados
lado a lado, e
estudados da maneira correta, revelam
uma única mensagem, isto
é, o
Eterno liberta, chama para o serviço e exige um coração alinhado
com Sua justiça, não com o orgulho humano.
Através
deste
estudo convido
você
a caminhar desde a saída de Mitsrayim até a vinha do dono justo,
entendendo que o mesmo Eterno que julgou Faraó continua ensinando
como viver em Sua aliança hoje. O
Eterno chama ao amanhecer e ao entardecer, traz libertação, justiça
e misericórdia na Parashá Bo.
Fique
até o final para não perder nada.
RESUMO
DA PARASHÁ DA SEMANA
Nesta
semana lemos a parashá
Bo,
que descreve os atos finais do Eterno para libertar os filhos de
Yisrael da servidão em Mitsrayim
e estabelecer um memorial eterno dessa libertação.
O
Eterno envia as
três últimas pragas
sobre Mitsrayim: Arbeh
(gafanhotos), que consomem tudo o que restou da terra; Choshech
(escuridão densa), que cobre Mitsrayim por três dias, enquanto os
filhos de Yisrael têm luz em suas habitações; e, por fim, o
anúncio da morte
dos primogênitos.
O
coração de Faraó permanece endurecido. Mesmo quando admite
momentaneamente o erro, ele tenta negociar a obediência, permitindo
apenas uma libertação parcial. Mosheh rejeita qualquer concessão,
pois o serviço ao Eterno exige entrega
completa.
Antes
da última praga, o Eterno estabelece Pesach.
Cada casa de Yisrael deveria
separar um cordeiro sem defeito, abatê-lo no décimo quarto dia do
mês de Aviv,
colocar o sangue nos umbrais e na verga da porta, e comer a carne
assada com matzot
e ervas amargas, prontos para partir. O sangue é o sinal de
obediência que distingue as casas de Yisrael em meio ao juízo.
À
meia-noite, o Eterno fere todos os primogênitos de Mitsrayim, do
palácio à prisão. Há grande clamor na terra, e Faraó finalmente
ordena que Yisrael saia imediatamente. O povo parte apressadamente,
levando matzot, pois não houve tempo para a massa fermentar, e sai
com bens concedidos pelos mitsrim.
Cerca
de seiscentos
mil homens,
além de mulheres e crianças, deixam Mitsrayim. Assim se cumpre a
palavra dita a Avraham,
de que seus descendentes seriam libertos após longo tempo de
aflição.
A
parashá Bo ensina que a libertação vem pela obediência
aos mandamentos do Eterno,
que não há redenção parcial, e que Yisrael foi tirado da servidão
para servir somente a Ele. A saída de Mitsrayim não é apenas um
fato histórico, mas um memorial vivo para todas as gerações, pois
“...Com
mão forte o Eterno nos tirou de Mitsrayim, da casa da servidão.”
ESTUDO
DO TEXTO DA PARASHÁ
A
parashá Bo se inicia com palavras firmes do Eterno a Mosheh:
“Vá
à presença de Faraó, porque Eu endureci o seu coração.”
Shemot 10:1
O
cenário é de confronto direto entre duas
forças:
–
de um lado, Mitsrayim, com seu poder, economia e opressão;
–
do outro, o Eterno, chamando Seu povo para sair e servi-lo.
Desde
o início da porção, fica claro que a libertação não é apenas
sair fisicamente de um lugar, mas romper com um sistema que se opõe
à vontade do Eterno. Eles
deveriam mudar sua kavanah e mentalidade para serem verdadeiramente
livres. Esse
mesmo tema reaparece na haftará, quando Yirmeyahu anuncia o juízo
definitivo contra Mitsrayim, e ecoa nos ensinos de Yeshua que
falou
sobre quem é chamado primeiro, quem chega depois e como o Eterno
distribui Sua recompensa, na
parábola dos trabalhadores da vinha.
No
Chumash Plaut, há um comentário introdutório da parashá Bo, onde
o autor afirma que Moshê confrontou repetidamente o Faraó com a
alegação de que é D’us, e não o Faraó, quem possui
Yisrael. No entanto, o governante do Egito insistiu em manter o
controle do povo escravizado, apesar dos custos crescentes para a
nação, por uma série de sete catástrofes até aquele momento.
Infelizmente há pessoas que não entendem os sinais, situações que
ocorrem a sua volta e que muitas vezes são instrumentos do Eterno
para nos colocar no caminho certo, e no caso do Faraó, para
julgá-lo, por suas atitudes imprudentes. Vejamos nos tópicos a
seguir um pouco mais de como o Eterno chama e desperta seu povo.
1.
Mitsrayim: o sistema que escraviza e será julgado
Sempre
falo que no estudo das Escrituras é preciso se ater a forma judaica
de interpretar os textos, entender as palavras chaves, as
representações e etc. Na
parashá Bo, Mitsrayim representa mais do que uma terra, ela é
chamada de “Casa da servidão”, conforme
lemos em Shemot
20:2.
Faraó
simboliza um poder que resiste à palavra do Eterno até o fim. Mesmo
diante de sinais claros, ele tenta negociar, ceder parcialmente,
manter controle. Porém,
a
libertação só acontece quando o Eterno executa Seu juízo e
isso ocorre sempre no tempo certo, determinado por HaShem. Quando
isso ocorre o Eterno liberta seu povo.
A
haftará em Yirmeyahu 46:13–28 mostra que esse julgamento não
ficou restrito ao passado, ela
traz uma profecia clara e direta contra Mitsrayim, anunciando sua
queda definitiva diante do juízo do Eterno. Esse texto dialoga
profundamente com a parashá que estamos estudando, pois revela que o
poder que oprimiu Yisrael no passado não permanece para sempre
diante da soberania do Eterno. Séculos
depois dos
eventos relatados na parashá,
o Eterno declara que Mitsrayim cairá novamente, agora pelas mãos de
Bavel, que
naquele momento era instrumento de julgamento de HaShem.
O texto é direto, mostra
que
força
militar, sabedoria humana e ídolos não sustentam um sistema que se
levanta contra o Eterno, mesmo
que supostamente afirme servir ao Eterno, como foi o caso do reino do
sul, que
buscou se aliar ao Egito.
O
profeta Yirmeyahu anuncia a palavra do Eterno contra Mitsrayim no
tempo da invasão de Nevuchadnetsar, rei de Bavel. Mitsrayim, que se
via
como forte, organizada e protegida por seus exércitos, é descrita
como incapaz de resistir ao decreto do Eterno.
A
haftará nos mostra Mitsrayim confiando em sua força militar, em
seus guerreiros, em seus ídolos, e em sua própria sabedoria.
Contudo, todas essas coisas falham, e o Eterno declara que os
valentes tropeçam, os mercenários fogem, o orgulho do Egito é
humilhado e seus deuses são julgados.
Ao
mesmo tempo, o profeta traz consolo a Yisrael, à
casa de Yehudá, mesmo julgando e punindo-os lhes diz:
Não
tenha medo, ó Yaakov, meu servo, porque Eu estou com você! Diz o
Eterno. Eu darei um a rodas as nações a cujas terras o levei; mas
não darei um fim a você.
Ainda
que Eu não permita que fique impune, Eu o castigarei com justiça.
Yirmeyahu 46:28
O
perdão divino atenua, mas não anula o castigo, pois a justiça
divina deve ser cumprida, diz o comentário de rodapé do Chumash
Plaut. E neste texto que acabamos de ler, está
um princípio essencial, o Eterno julga os sistemas opressores, e
até mesmo os seus escolhidos, se errarem, mas
preserva Seu povo para cumprir Seu propósito e
para trazê-los de volta ao caminho da teshuvah.
O
Egito é comparado a uma bela novilha, mas o destruidor vem do norte.
Nenhum plano humano consegue impedir o juízo do Eterno. A terra que
antes oprimia agora se torna objeto de terror. HaShem, através do
profeta, declara que Yisrael, no caso Judá, será disciplinado com
justiça, mas não destruído. Há juízo para as nações
opressoras, mas preservação e esperança para o povo do Eterno.
O
pensamento rabínico antigo observa que Mitsrayim é lembrada
repetidamente nas Escrituras não apenas como um lugar, mas como um
modelo de arrogância humana que precisa ser confrontado geração
após geração.
Olhando
para essa porção e sua haftará, vemos o reforço de um tema
essencial mencionado pelos profetas, ou seja, não buscar segurança
nos sistemas que o Eterno já julgou. Assim como em Bo o Eterno tira
Yisrael de Mitsrayim, em Yirmeyahu Ele mostra que o Egito e outros
como Bavel, não é refúgio, mas armadilha. A
parashá Bo nos mostra o nascimento da libertação e a haftará
mostra que essa libertação continua válida ao longo da história.
O
Egito cai, os sistemas opressores passam, mas o Eterno permanece fiel
à sua palavra. O chamado é o mesmo em todas as gerações, isto é,
não confiar no Egito, não temer Bavel e permanecer firme nos
caminhos do Eterno. Vejamos no tópico seguinte que o Eterno continua
chamando para a libertação e para servir, e utiliza o mashiach e
seus ensinos.
2.
A vinha, a aliança e o chamado para servir
Ao
estudar as Escrituras, ou seja, a Torá e a haftará, notamos que há
uma evolução da revelação das Palavras do Eterno. Os princípios
da Torá são mantidos e ampliados
pelos profetas, mas se olharmos para os escritos nazarenos, vemos que
Yeshua também repetiu os mesmos ensinos. E fez isso de forma
prática, clara e
ainda mais ampla,
assim,
podemos perceber uma relação direta e profunda entre a parashá Bo
e a parábola contado por Yeshua em Matituahu 20:1-16, quando lidas à
luz das Escrituras e do propósito do Eterno revelado desde o início.
Mais
uma vez, para entender bem o que uma parábola quer dizer, é preciso
analisar pelo contexto original, utilizando de métodos judaicos de
interpretação. E
sendo assim, vamos separar os elementos da parábola:
-
o dono da vinha;
-
a vinha;
-
o contrato de trabalho;
-
os trabalhadores contratados primeiro;
-
os trabalhadores da última hora.
Quando
Yeshua conta a parábola dos trabalhadores da vinha, Ele estava
falando
a um povo que conhece bem a história do Êxodo. A
parábola começa com um dono de vinha que chama, desde cedo,
trabalhadores em diferentes horas do dia. Isso não é novo nas
Escrituras, a
vinha não é uma imagem nova, pois
o profeta Yeshayahu já havia falado sobre isso, observe:
Porque
a vinha do Eterno
dos
Exércitos é
a casa de Yisrael, e
os homens de Yehudah são a planta das suas delícias; e esperou que
exercesse juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor.
Yeshayahu 5:7
Também
encontramos referência em Tehilim:
Trouxeste
uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste. Tehilim
80:8
Dessa
forma, quando Yeshua falou de uma vinha, ele estava falando do
projeto do Eterno na terra, iniciado com o povo de Yisrael. A vinha é
o povo de Yisrael.
Os
primeiros trabalhadores, chamados ao amanhecer, representam Yisrael,
retirado de Mitsrayim e colocado em aliança no Sinai. Eles receberam
o “contrato”: a Torá, os mandamentos, a responsabilidade de
viver como povo separado.
Os
últimos trabalhadores, chamados na
última
hora do dia,
sem
negociação prévia e confiando apenas na justiça do dono da vinha,
eles representam
as pessoas das nações, que se achegam mais tarde ao mesmo propósito
do Eterno. E
apesar de não terem a promessa do contrato formal, como os primeiros
chamados, o contrato vale para estes também, desde
que entrem no campo e se juntem aos demais trabalhadores.
O
ponto central da parábola não é a quantidade de trabalho, mas o
caráter do dono da vinha.
Isso
se conecta diretamente com a
parashá Bo.
Yisrael não saiu de Mitsrayim por mérito próprio, mas porque o
Eterno havia
feito uma aliança com os patriarcas e decidiu
libertá-los.
Da mesma forma, ninguém entra na vinha por justiça própria. O
Eterno liberta do sistema pecaminoso, depois dá o contrato, a Torá,
e então se passa a viver em justiça.
Os
trabalhadores da última hora não substituem Yisrael, mas são
ajuntados à mesma vinha, ou seja, são ajuntados à Yisrael, como
Rav Shaul disse, são enxertados.
O
ensino rabínico reconhece que o mérito maior não está em ter sido
chamado primeiro, mas em permanecer fiel até o fim.
Mas,
assim como vemos hoje, os primeiros trabalhadores murmuraram,
reclamaram que os últimos estavam recebendo a mesma coisa que eles.
No entanto, Yeshua alerta que aqueles que foram chamados primeiro não
devem se escandalizar quando o Eterno demonstra misericórdia aos que
chegam depois, como
vemos em Mt 20:15.
3.
Murmuração, justiça e transformação do coração
Na
parábola, os primeiros trabalhadores murmuram. Esse detalhe não é
acidental. Ele ecoa o comportamento de Yisrael logo após sair de
Mitsrayim:
E
murmurou toda a congregação.
Shemot 16:2
Yeshua
não está acusando Yisrael, mas advertindo, pois
o chamado antigo não autoriza arrogância. Isso
acontece atualmente também, muitos judeus rejeitas os nazarenos,
seguidores do mashiach. Porém o princípio é claro, quem
conhece mais, responde por mais.
O
Eterno não é injusto por ser misericordioso com quem chega depois.
Ele permanece fiel ao que prometeu. A verdadeira questão é o
coração de quem já está na vinha. O pensamento rabínico ensina
que o Eterno mede o homem não pelo tempo de serviço, mas pela
intenção do coração e pela obediência constante.
Fica
claro um ensino prático, uma regra do Reino do Eterno, isto é,
ordem não é hierarquia. Observe o que Yeshua disse em Mt 20:16:
Assim,
os últimos serão os primeiros, e os primeiros, últimos.
Isso
não anula Yisrael, pelo contrário corrige o orgulho de alguns. O
profeta Amós falou algo ligado a isso, observe:
De
todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto
eu vos punirei por todas as vossas iniquidades. Amós
3:2.
Quem
é chamado primeiro é mais responsável, não mais privilegiado. Por
isso, podemos compreender que a parashá Bo marca o início do
chamado, a haftará e a parábola contada por Yeshua mostram a
ampliação do chamado, isso porque a vinha é a mesma, o dono é o
mesmo e o propósito também é o mesmo. De acordo com Ml 3:6, o
Eterno não muda. Assim, podemos claramente entender, que o Eterno
tirou Yisrael de Mitsrayim para servir. Depois, chamou também a casa
de Yisrael que se perdeu e pessoas das nações, para andar no mesmo
caminho, não sem Torá, mas sendo ensinadas nela.
Concluindo
o estudo, a
parashá Bo, a haftará de Yirmeyahu e a parábola dos trabalhadores
da vinha revelam uma única linha contínua, isto
é,
o Eterno liberta para servir, julga sistemas opressores e chama Seu
povo a viver sem orgulho. Mitsrayim cai. Bavel cai. A vinha
permanece. Mas
a
pergunta que fica não é: quando fomos chamados? Mas sim: como
estamos servindo?
Quem
saiu de Mitsrayim não pode desejar voltar. Quem entrou na vinha não
pode desprezar quem chegou depois. O chamado do Eterno continua
ecoando em todas as gerações, e
diz: andar
em Seus caminhos, guardar Seus mandamentos e refletir Sua justiça e
misericórdia.
Não
é por tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a
possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o Eterno teu
Elohim as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra
que o Eterno jurou a teus pais, Avraham, Yitschak e Yaakov.
Devarim 9:5
Que
cada um
de nós
examine o próprio coração, abandone toda forma de Mitsrayim e
sirva ao Dono da vinha com humildade e fidelidade, aproveitando
a liberdade que HaShem nos deu.
Que
o Eterno lhes abençoe.
Moshê
Ben Yosef