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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Estudo da Parashá Nassô - Uma mensagem escondida nas ofertas.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 35Nassô (Faça)

Bamidbar/Números 4:21-7:89

Haftará (separação) Jz 13:2-25.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 7:53-8:11; At 21:17-32.


Uma mensagem escondida nas ofertas.


Há textos nas Escrituras que, sinceramente, parecem desafiar nossa paciência. Enquanto lemos a Parashá Nassô, chegamos ao capítulo 7 de Bamidbar e algo curioso acontece: os líderes das tribos começam a trazer suas ofertas para a dedicação do Mishkan. Até aqui tudo parece normal. Porém, a Torá faz algo inesperado. Ela repete, e repete novamente e mais uma vez. Doze vezes, os mesmos objetos, os mesmos pesos, os mesmos animais, a mesma estrutura de oferta. Humanamente, nossa primeira reação poderia ser: “Por que não resumir?” Afinal, bastaria escrever: “Todos trouxeram a mesma oferta”. Mas a Torá não economiza palavras quando deseja ensinar algo profundo.

E talvez aqui esteja uma das mensagens mais humanas de toda a Parashá Nassô: o Eterno não vê pessoas como números, Ele vê pessoas como indivíduos, quem tem seus pensamentos, intenções e atitudes próprias.

Quantas vezes alguém já sentiu que sua contribuição é pequena? Quantas vezes alguém pensou: “Ninguém percebe o que faço”? Mas, ao abrirmos a Torá nesta semana, descobrimos uma verdade transformadora: o Eterno não apenas conta os passos do Seu povo, Ele observa, com carinho, a motivação de cada coração que se aproxima d’Ele. Este estudo é um convite para olharmos além do texto escrito e encontrarmos o convite divino para uma vida de propósito, onde cada gesto, por mais comum que pareça, pode se tornar um ato sagrado. Nassô parece responder: "Eu vejo." Hoje caminharemos por essa porção para descobrir como o Eterno ensina sobre identidade, propósito, serviço e valor individual. Venha comigo até o final deste pequeno estudo e descobrirá esse segredo.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Nassô é a maior porção da Torá em número de versículos e continua a organização do povo de Yisrael no deserto. Ela inicia com a contagem das famílias de Gershon e Merari, filhos de Levi, que receberam funções específicas relacionadas ao transporte do Mishkan. Os filhos de Gershon cuidariam das cortinas e coberturas, enquanto Merari seria responsável pelas estruturas, colunas e bases.

Depois disso, o Eterno apresenta instruções relacionadas à pureza do acampamento, mostrando que Sua presença exigia separação e santidade. A porção prossegue tratando sobre restituição e reparação de danos, ensinando que arrependimento verdadeiro requer ações concretas.

Em seguida surge a instrução sobre a mulher suspeita de adultério (sotah), seguida pelo voto de Nazir, um período voluntário de separação e dedicação especial ao Eterno. Logo após aparece a Birkat Kohanim, a bênção sacerdotal.

Por fim, os líderes das tribos apresentam suas ofertas para a dedicação do Mishkan. E é exatamente aqui, que para mim, surgiu um dos detalhes mais intrigantes da porção neste ano, o que nos levou ao tema do nosso estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Desde o início da parashá Nassô existe um tema invisível costurando toda a narrativa: ordem com propósito. Cada família recebeu uma tarefa, cada pessoa recebeu uma responsabilidade, cada grupo tinha sua posição no acampamento. O Eterno poderia simplesmente dizer: "Todos trabalhem." No entanto, Ele não fez isso, mas Ele distribuiu funções específicas. Porque o Reino do Eterno não funciona através do caos.

Em Bamidbar 4:49 está escrito: “Segundo a ordem de HaShem, por intermédio de Moshê, foram contados, cada um segundo o seu serviço e segundo o seu encargo.” Observe algo extraordinário: o Eterno não chamou todos para a mesma função. Kehat carregava a Arca, Gershon carregava cortinas e Merari carregava colunas e bases. Humanamente falando, talvez alguém de Merari pudesse pensar: "Gostaria de carregar a Arca." Mas sem as bases que Merari carregava, não haveria Mishkan em pé. E então chegamos às ofertas dos líderes. Doze líderes, doze ofertas aparentemente iguais, mas o Eterno se recusa a resumir. Por quê?

Ao pesquisar sobre isso, descobri que os sábios de Yisrael também ficaram intrigados com essa questão durante séculos.


1. Quando a Torá desacelera nossa leitura

Em Bamidbar 7:12–83, cada um dos líderes das tribos apresentam exatamente a mesma oferta, composta de:

- Prato de prata.

- Bacia de prata.

- Concha de ouro.

- Animais.

- Oferta pelo pecado.

- Oferta de paz.

Humanamente falando, parece estranho, pois não há variação alguma. O texto descreve a oferta do líder de Yehudah e depois repete praticamente a mesma descrição para Yissachar, Zevulun, Reuven, Shim'on e assim sucessivamente. Tudo igual, mas a Torá registra cada uma individualmente.

Se as ofertas eram exatamente iguais, por que simplesmente não escrever: “os demais fizeram o mesmo”? Os sábios de Yisrael refletiram profundamente sobre isso. No Midrash (Bamidbar Rabbah 13), encontramos a ideia de que cada líder possuía intenções e compreensões distintas ao apresentar sua oferta. Exteriormente eram iguais, mas interiormente eram diferentes e isso muda completamente a leitura. Porque nós enxergamos ações, já o Eterno vê os corações. Em Shmuel Alef 16:7 está escrito: “Porque HaShem não vê como vê o homem. O homem vê o que está diante dos olhos, porém HaShem vê o coração.”

A repetição deixa de ser repetição e cada descrição torna-se uma história individual. O príncipe de Judá tinha um foco, o de Issachar, outro. Ao registrar cada nome, o Eterno nos ensina que o Criador do Universo vê a singularidade em meio à uniformidade. Você não é apenas mais um; o seu serviço, mesmo que seja parecido com o do seu irmão, tem uma cor, uma história e uma intenção que só você pode oferecer.

Os sábios também observaram algo curioso: o primeiro líder a ofertar foi Nachshon ben Aminadav, da tribo de Yehudah. Por que Yehudah primeiro? Uma explicação aponta para o episódio do mar de juncos em Shemot 14. A tradição hebraica preserva a ideia de que, enquanto o povo hesitava diante do Yam Suf, Nachshon avançou em direção às águas antes da abertura do mar. A lição aqui é poderosa: a liderança no Reino do Eterno não começa com posição; começa com iniciativa e confiança.

Quem entra primeiro nas águas demonstra confiança antes de ver o milagre. Isso ecoa algo que encontramos nos escritos nazarenos quando Kefa saiu do barco em direção a Yeshua sobre as águas. Primeiro vem o passo; depois vem aquilo que o Eterno faz.


2. O que os profetas, os sábios, Yeshua e os talmidim ensinam

Os profetas repetidamente enfatizaram que o Eterno deseja mais que atos externos. Em Mikhah 6:8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que HaShem pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com teu Elohim?”

Yeshua ensinou algo semelhante ao observar pessoas entregando ofertas, em Marcos 12:41–44 está escrito: “E vendo uma viúva pobre lançar duas pequenas moedas, disse: Em verdade vos digo que esta viúva pobre lançou mais do que todos.” Externamente ela entregou menos, mas interiormente entregou mais. O valor nunca esteve na quantidade estava no coração.

Os talmidim também enfatizaram isso. Na Primeira Carta aos Coríntios 12:12–18, Shaul compara o povo a um corpo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros…” O olho possui função diferente da mão, a mão possui função diferente do pé, mas nenhum deles é dispensável. Isso reverbera exatamente a mensagem da parashá Nassô. Nem todos carregam a Arca, nem todos carregam cortinas mas todos sustentam o Mishkan.


3. Nassô e nossa vida hoje

Contextualizando o assunto, vivemos em uma época de comparação constante. As pessoas comparam trabalho, conhecimento, ministérios, seguidores e resultados, mas Nassô parece nos lembrar: "Pare de olhar para a oferta do outro." Talvez alguém carregue algo que parece mais importante, talvez alguém apareça mais ou talvez alguém seja mais reconhecido, no entanto, diante do Eterno a pergunta não é: "O que você carregou?" A pergunta é: "Você foi fiel ao que Eu coloquei em suas mãos?" Viver os mandamentos hoje significa compreender isso, significa servir sem necessidade de aplausos, fazer o bem sem precisar ser visto, obedecer mesmo quando ninguém percebe. Porque o Eterno percebe tudo. Em Kohelet 12:13 lemos: “Teme ao Eterno e guarda os Seus mandamentos, porque isto é o dever de todo homem.”

Ao concluir nosso estudo, podemos refletir que talvez a maior mensagem escondida em Nassô seja esta: O Eterno não registra apenas tarefas Ele registra nomes. Frequentemente olhamos para nós mesmos e pensamos: "Sou pequeno", "Meu serviço é pequeno", "Minha contribuição não faz diferença". No entanto, a Torá dedica dezenas de versículos para repetir aquilo que poderia resumir. Porque diante do Eterno ninguém é apenas mais um. Ele conhece quem carrega a Arca, conhece quem monta colunas, conhece quem carrega cortinas, conhece quem entrega pequenas ofertas e conhece quem faz algo em silêncio.

Talvez hoje seja um bom momento para parar de medir nosso valor pelo tamanho da nossa função, ou talvez, seja hora de perguntar: Tenho sido fiel àquilo que o Eterno colocou em minhas mãos? Porque a parashá Nassô nos ensina algo profundamente humano: O Eterno não procura pessoas extraordinárias procura pessoas fiéis independente da situação, se alguém repara ou o tamanho do que faz.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


terça-feira, 19 de maio de 2026

ESTUDO ESPECIAL DE SHAVUOT - Sinai e Tsiyon: dois montes e um propósito

 


ESTUDO ESPECIAL DE SHAVUOT

Shemot/Ex 19:1–20:23

Vayicra/Lv 23:9-22

Bamidbar/Nm 28:26-31

Haftará Ez 1:1-28, 3:12; Rt 1:1-4:22


Sinai e Tsiyon: dois montes e um propósito


Existem lugares que se tornam muito maiores do que sua geografia. Existem montanhas que deixam de ser apenas rocha, terra e altitude para se tornarem marcos eternos na memória de um povo. Alguns lugares são atravessados; outros atravessam gerações.

Har Sinai (Monte Sinai) e Har Tsiyon (Monte Sião) são dois desses lugares. À primeira vista, parecem montes completamente diferentes. Sinai está no deserto: seco, silencioso, distante da vida urbana. Tsiyon está ligado a Yerushalayim: cidade, encontro, governo e esperança. Um parece isolamento; o outro, reunião. Um nasce no deserto; o outro floresce em meio ao povo. Mas quando olhamos mais atentamente, percebemos algo extraordinário: as Escrituras não apresentam Sinai e Tsiyon como rivais. Não são dois caminhos diferentes, duas alianças opostas ou dois projetos do Eterno competindo entre si. São dois momentos do mesmo propósito.

Sinai foi o lugar onde Yisrael ouviu a voz do Eterno e recebeu os mandamentos, já Tsiyon se torna o lugar de onde essa voz ecoa para o mundo. Sinai foi o início da caminhada e Tsiyon aponta para o destino da caminhada.

Shavuot nos convida a olhar para esses dois montes e perguntar algo muito pessoal: Estamos apenas diante do monte ou estamos permitindo que aquilo que recebemos transforme nossa vida?

Talvez haja uma pergunta ainda mais profunda: “Em qual monte estamos?” Ou talvez: Por que o Eterno nos chamou até ele?” Não saia desse estudo, permaneça até o fim e entenderá.



Estudo da Porção Especial

Muitos conhecem Shavuot apenas como “Festa das Semanas” ou “Pentecostes”, vindo do grego “cinquenta”, mas a palavra possui riqueza maior. Ela vem de Sheva (שבע) que significa “sete”. Também está ligada à raiz Shavua (שבוע) que significa “semana”. Mas a mesma raiz está relacionada ao conceito de juramento ou aliança. Assim, Shavuot não representa apenas contagem de dias. Representa maturação, um processo completo. Representa a jornada entre libertação e compromisso, pois Yisrael saiu de Mitsrayim em Pessach, mas ainda precisava aprender por que havia sido libertado. Libertação sem propósito produz apenas novos tipos de escravidão. E teremos um aprofundamento nesse assunto na continuação deste estudo.

A história começa de maneira aparentemente simples: um povo recém-liberto caminha pelo deserto. Eles não possuíam exército treinado, não possuíam terra, nem estrutura política e nem estabilidade. Possuíam apenas uma promessa e essa os conduziu ao pé de uma montanha, o Har Sinai.

A palavra Sinai (סיני) gerou muitas discussões quanto à sua origem, mas muitos antigos comentaristas a relacionam ao conceito de seneh, uma palavra hebraica para arbusto espinhoso, no caso, tipo a sarça que Moshê viu ardendo com fogo sem ser consumida em Shemot 3. Outros estudiosos associaram Sinai à ideia de humildade, por ser um monte aparentemente menor entre montanhas maiores. Porém, independentemente da origem exata do termo, o simbolismo é poderoso.

O Eterno escolhe aquilo que parece pequeno para manifestar algo grande. O deserto (Midbar – מדבר) também carrega um significado fascinante. A raiz dessa palavra está ligada a davar (דבר), que significa “palavra”. Curiosamente, o lugar sem ruído humano torna-se o lugar onde a Palavra é ouvida. O deserto não era ausência, mas preparação, um lugar onde distrações desapareciam, onde Yisrael aprenderia que para viver não dependia apenas de pão. Como está escrito:

E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que procede da boca do Eterno viverá o homem.” Devarim 8:3

Mas Sinai nunca foi o destino final, era o começo, pois as Escrituras começam a apontar para outro monte, Tsiyon (ציון). Cuja origem da palavra possui interpretações diferentes, mas está ligada à ideia de marco, sinal ou monumento. Tsiyon torna-se um símbolo do lugar da presença do Eterno, do reinado e da restauração. Enquanto Sinai representa receber a voz do Eterno, Tsiyon representa levar essa voz ao mundo.

E talvez seja aqui que uma pergunta começa a ganhar força: Se Sinai foi onde recebemos a Palavra, por que ela precisava sair de Tsiyon? Porque o propósito nunca foi apenas chegar ao monte ou ficar nele, sempre foi se tornar o povo que sai dele para levar o que recebeu nele, isto é, a Palavra.



1. Dois Montes, uma mesma jornada

Quando estudamos as Escrituras cuidadosamente, podemos perceber que o Eterno frequentemente trabalha por processos. Primeiro traz a libertação, depois transformação, e então, entrega a missão. Veja, Yisrael saiu de Mitsrayim rapidamente, mas Mitsrayim demorou muito mais para sair de Yisrael. Por isso, o Eterno não levou o povo diretamente à terra prometida. Ele os levou ao deserto, seria como uma sala de aula. E o Sinai seria a primeira grande lição.

Tsiyon seria a continuidade dessa história. E a jornada entre os dois montes revela algo fundamental: o Eterno não chamou Yisrael apenas para ser um povo livre, mas para ser um povo que refletisse Seu caráter. E qual é o caráter do Eterno? Sua Torá. No próximo tópico veremos como os profetas, os sábios de Yisrael, Yeshua e os talmidim enxergaram essa ligação entre Sinai e Tsiyon.



2. A ligação entre Sinai e Tsiyon

Ao chegamos a este ponto do estudo, algumas perguntas surgem naturalmente: se o Sinai foi o lugar da revelação do Eterno, por que as Escrituras olham ou apontam para Tsiyon? Por que os profetas falam tanto sobre ele? Por que Yeshua sobe tantas vezes a Yerushalayim? E por que os talmidim permanecem ali esperando algo que havia sido prometido? E a comparação que o Apóstolo Paulo fez, é realmente negativa?

A resposta a essas perguntas é profunda, porque o propósito do Eterno nunca foi apenas entregar palavras escritas em pedras; o propósito era formar um povo que carregasse essas palavras em sua vida diariamente. O Sinai foi o lugar do início e no decorrer da história foi revelado pelo Eterno que Tsiyon se tornou o símbolo da continuidade, do avanço.

Os profetas perceberam isso claramente, tanto que Yeshayahu declarou:

E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Eterno no cume dos montes, e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Eterno, à casa do Elohim de Yaakov, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Tsiyon sairá a instrução, e a palavra do Eterno de Yerushalayim.” Yeshayahu 2:2–3

Observe algo importante neste texto de Yeshayahu, ele não diz que de Tsiyon sairia uma nova instrução. O texto fala da instrução - Torah (תורה). A palavra Torah vem da raiz yarah (ירה), que significa “apontar uma direção”, “instruir”, “indicar o caminho”. A ideia não é um código jurídico frio; é orientação dada por um Pai ao Seu povo.

O Sinai foi o lugar onde a direção foi entregue e Tsiyon tornou-se o lugar de onde essa direção alcançaria as pessoas das nações através daqueles que receberam antes. O profeta Mikhah repete praticamente as mesmas palavras:

Mas, nos últimos dias, acontecerá que o monte da casa do Eterno será estabelecido no cume dos montes, e se elevará sobre os outeiros, e povos afluirão a ele. E muitas nações irão e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Eterno e à casa do Elohim de Yaakov, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Tsiyon sairá a instrução, e a palavra do Eterno de Yerushalayim.” Mikhah 4:1–2

Os profetas enxergaram Tsiyon como expansão daquilo que começou no Sinai. E os sábios de Yisrael também desenvolveram reflexões interessantes sobre isso. Um conhecido pensamento rabínico constante no Midrash Bamidbar Rabah e no Talmude Tratado Sotah, afirma que o Eterno escolheu o Sinai, um monte aparentemente pequeno, para ensinar humildade. A ideia descrita nesses comentários rabínicos é que a revelação não acontece onde existe exaltação humana, mas onde existe disposição para ouvir e praticar.

Outro ensinamento rabínico registrado no Tratado Pesachim 68b:9, chama Shavuot de Atzeret (עצרת). Essa palavra vem da raiz atzar (עצר), relacionada a “reter”, “concluir”, “encerrar” ou “assembleia final”. O entendimento é que Shavuot seria o fechamento de um processo iniciado em Pessach, pois este não termina na saída de Mitsrayim, mas encontra seu propósito no Sinai. A libertação encontra seu significado na aliança, isto é, ser liberto e não entrar em aliança é se manter escravo.

Yeshua também se move dentro dessa mesma estrutura de pensamento, ele não se apresenta como alguém desconectado do Sinai, ou seja, dos mandamentos. Pelo contrário, quando é questionado sobre o maior mandamento, responde o Shemah:

Amarás o Eterno teu Elohim de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Torah e os Profetas.” Mattityahu 22:37–40

Para saber mais sobre isso assista no canal Sou Peregrino na Terra no YouTube, duas Playlist, a de Mateus e a de El Judaísmo de Yeshua. Observe pelo texto de Mateus que Yeshua não fala sobre abandonar o Sinai, que é a indicação dos mandamentos. Ele leva o Sinai ao seu propósito mais profundo. Não reduz a instrução, mas revela sua essência.

Existe ainda uma palavra hebraica que pode nos ajudar a compreender isso: Devekut (דבקות). Ela vem da raiz davaq (דבק), que significa “apegar-se”, “unir-se”, “aderir”. Na Torá encontramos:

Ao Eterno vosso Elohim seguireis, a ele temereis, os seus mandamentos guardareis, a sua voz ouvireis, a ele servireis e a ele vos achegareis.” Devarim 13:4

A ideia não é proximidade física, é apego de vida, é caminhar de maneira alinhada ao caráter do Eterno. O Sinai chamou o povo para ouvir e Tsiyon chama o povo para permanecer unido a Ele no propósito de ensinar suas palavras.

Os talmidim parecerão compreender também essa ligação entre os dois montes e o propósito do Eterno. Depois da ressurreição de Yeshua, eles não saem imediatamente para todas as nações. Eles permanecem em Yerushalayim. Yeshua havia dito:

E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Yerushalayim, até que do alto sejais revestidos de poder.” Luqas 24:49

E então, justamente durante a celebração de Shavuot, cinquenta dias após aquele Pessach, encontramos:

Cumprindo-se o dia de Shavuot, estavam todos reunidos no mesmo lugar.” Maasim 2:1

Isso não parece acidental parece? No Sinai, Yisrael estava reunido diante do monte, em Yerushalayim, durante Shavuot, os discípulos estavam reunidos igualmente, mas no monte. No Sinai houve voz. Em Yerushalayim houve proclamação. No Sinai Yisrael foi chamado. Em Yerushalayim Yisrael fala às nações através dos talmidim do Mashiach Yeshua. Observe a lista de povos presentes:

Partos, medos, elamitas, e os que habitavam a Mesopotâmia, Yehudah, Capadócia, Ponto e Ásia…” Maasim 2:9

A cena parece ecoar Yeshayahu: “...concorrerão a ele todas as nações…” Yeshayahu 2:2. O Sinai não terminou, ele começou algo e Tsiyon ampliou o que havia iniciado. Shavuot parece funcionar como a ponte entre os dois montes. Vimos toda essa relação e está bem claro até aqui. Mas algumas pessoas afirmam que o apóstolo Paulo não entendia assim. Será? No próximo tópico veremos.



3. O Apóstolo Paulo era contrário a esse entendimento?

Chegamos agora a uma das passagens mais discutidas dos Escritos Nazarenos e que guarda muita relação com o que estamos estudando aqui.

Digam-me, vocês que desejam se sujeitar ao sistema resultante da perversão da Torá em legalismo: acaso não ouvem o que a própria Torá diz: Ela afirma que Avraham teve dois filhos, um com uma escrava e um com uma mulher livre. O filho da escrava nasceu da capacidade limitada dos seres humanos, mas o filho da mulher livre nasceu do poder miraculoso de HaShem, no cumprimento de sua promessa. Então extraímos um midrash destas coisas: as duas mulheres são duas alianças. Uma é do Sinai e gera filhos para a escravidão – esta é Hagar. Hagar é o monte Sinai na Arábia; ela corresponde à atual Yerushalayim, porque serve como escrava com seus filhos. Mas a Yerushalayim do alto é livre, e ela é nossa mãe; porque o TaNaK diz: Alegre-se a estéril! Clame e grite, você que não está em trabalho de parto! Porque a mulher abandonada terá mais filhos do que a acompanhada pelo marido. Vocês, irmãos, à semelhança de Yitzchak, são os filhos referidos na promessa divina. Entretanto, como outrora, o nascido da limitada capacidade humana persegue o nascido do poder sobrenatural do Espírito. Mas o que diz o TaNaK? Livre-se da escrava e de seu filho, porque de forma alguma o filho da escrava herdará com o filho da mulher livre! Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre. Gálatas 4:21–31

Muitas vezes esse texto foi interpretado como se Rav Shaul, o apóstolo Paulo, estivesse criando uma oposição:

Sinai versus promessa

Torah versus liberdade

Antigo versus Novo

Mas será que era isso que ele estava fazendo? A pergunta precisa ser feita olhando para o contexto original. Em primeiro lugar, devemos lembrar que não existe Antigo e Novo Testamento, isso é invenção do sistema religioso. Depois, as comunidades nazarenas da Galácia estavam enfrentando uma crise, que pode ser observada nos primeiros versos dessa epístola. Não era uma discussão sobre abandonar idolatria, nem sobre negar o Eterno. Era uma discussão sobre identidade. Quem fazia parte do povo do Eterno? Como alguém entra na aliança? Shaul faz uma comparação muito específica. E faz utilizando Hagar e Sarah como uma figura ou alegoria, um ensino, um midrash, como ele mesmo diz no verso 24 acima, para explicar dois modos de relacionamento com a aliança.

Nestes versos Shaul não está dizendo que o Sinai é mau. Ele está usando Sinai como imagem de algo específico: uma relação com o Eterno baseada apenas em sistemas humanos, status e confiança na própria capacidade. Seu argumento parece ser: É possível estar perto da revelação e ainda permanecer preso. É possível estar diante do monte e não compreender o propósito do monte. A pergunta não é apenas: “Você recebeu a instrução?” A pergunta é: “O que a instrução produziu em você?”

O ponto principal de Shaul nesse trecho da carta não é atacar Har Sinai ou dizer que o Sinai foi substituído. Isso entraria em conflito com muitas declarações das Escrituras como:

A instrução do Eterno é perfeita.” (Tehilim 19:7)

Não acrescentareis nem diminuireis.” (Devarim 4:2)

Então o que Shaul está tratando? Leia o texto novamente! Ele está discutindo a tentativa de obter justiça diante do Eterno por meios humanos, algo semelhante ao nascimento de Yishmael, que ocorreu por iniciativa humana, em contraste com a promessa do Eterno representada por Yitschak.

É importante destacar um detalhe: ele não menciona Har Tsiyon diretamente em seu texto; ele fala de Har Sinai e de Yerushalayim. No entanto, a relação com Tsiyon surge porque Tsiyon e Yerushalayim frequentemente aparecem ligados nas Escrituras. Isso ocorre porque no centro de Yerushalayim está o monte Tsiyon, onde antes ficava o Beit Hamikdas – Casa da Santidade – Templo Sagrado.

A ligação com nosso tema torna-se impressionante: no Sinai o povo recebeu a aliança; recebeu as palavras do Eterno e recebeu responsabilidade. Os profetas disseram: Porque de Tsiyon sairá a instrução… (Yeshayahu 2:3). Em Gálatas Paulo pergunta: Como vocês estão vivendo essa aliança? Vocês estão vivendo a promessa ou apenas carregando a memória do monte? Os legalistas dentro da comunidade nazarena estavam exigindo algo dos gentios que estavam se aproximando, que não estava dentro dos padrões do Eterno.

O ensino de Shaul não é uma oposição entre Sinai e Tsiyon, era algo mais próximo de esforço humano ou legalismo versus promessa do Eterno. Ou escravidão versus liberdade na obediência ao Eterno. Isso se conecta a Shavuot de forma interessante. Pois em Shavuot, Yisrael chega ao Sinai para ouvir: “Tudo o que o Eterno falou faremos.” (Shemot 19:8). Mas Shaul alerta que alguém pode receber palavras santas e ainda transformar a caminhada em peso humano, confiança em mérito próprio ou dependência de homens. Os profetas já falavam de uma transformação futura:

Porei minha instrução dentro deles e a escreverei em seus corações.” (Yirmeyahu 31:33). Assim, a entre os dois montes pode ser vista desta maneira:

Sinai — recebimento da aliança

Tsiyon — expansão da instrução para as pessoas das nações

Galatim — viver a aliança pela promessa do Eterno, não pela confiança humana. O assunto de Shaul não é rejeitar Sinai ou mandamentos; é advertir sobre uma relação equivocada com aquilo que foi dado em Sinai.

Concluindo nosso estudo, retornamos à pergunta que nos acompanhou desde o início: Por que existem dois montes e um propósito? Porque o objetivo nunca foi o monte. O objetivo sempre foi o povo.

O Eterno não libertou Yisrael apenas para tirá-lo de uma terra de servidão, Ele o fez para ensinar Yisrael a viver conforme sua vontade. E talvez seja exatamente aqui que encontramos a maior beleza de Shavuot. Muitos a conhecem apenas como a festa das semanas ou como a lembrança da entrega da Torah. Mas existe algo maior acontecendo, pois Shavuot fala de maturidade, fala da jornada entre sair e tornar-se. Não é apenas uma contagem matemática, mas uma transformação progressiva.

Pessach tira Yisrael de Mitsrayim. Shavuot procura tirar Mitsrayim de Yisrael e de todos que se achegam. E foi isso que Rav Shaul estava tentando mostrar aos seus leitores da Galácia. Ele não estava destruindo Sinai. Ele estava perguntando a um grupo de pessoas que conheciam o significado de suas palavras: "Vocês compreenderam o propósito de Sinai?" Porque existe uma diferença enorme entre carregar palavras e permitir que as palavras carreguem nossa vida. Existe uma diferença entre ouvir a voz do Eterno e caminhar segundo essa voz. Existe uma diferença entre estar diante do monte e permitir que o monte continue existindo dentro de nós.

Vivemos numa época de muito conhecimento e pouca transformação. Temos acesso a livros, estudos, vídeos, comentários e discussões quase ilimitadas. Sabemos explicar palavras hebraicas. Sabemos discutir textos difíceis. Sabemos comparar interpretações. Mas existe uma pergunta que continua ecoando desde Har Sinai. E a pergunta não é: "Quanto você conhece?" A pergunta é: "O quanto do que você conhece se tornou vida?" Ou seja, de tudo que você aprendeu, o que está em prática na sua vida, e quantas pessoas aprenderam com você?

Que o Eterno lhe abençoe.



Moshê Ben Yosef