A TORÁ E OS RUDIMENTOS DO MUNDO
É importante entender que devemos separar a verdade da Torá do Eterno das interpretações humanas. Vamos comparar com clareza o que o sistema cristão tradicional ensina sobre Galatim (Gálatas) 4 e o que realmente o texto ensina à luz do contexto hebraico das Escrituras.
Como sempre ensino, existe uma forma de interpretar, não somente os textos de Paulo, mas as epístolas em geral. Claro que, cada autor tem particularidades que precisam ser exploradas, mas a forma judaica de pensar da época, e portanto, a interpretação é geral dentro do contexto original judaico. Para isso, precisamos aplicar alguns níveis do PaRDeS e seguir os métodos de interpretação que o povo do Eterno usa há muito tempo.
Existem 3 pontos importantes para analisar um escrito de Paulo, assim em primeiro lugar vamos ver esses três pontos para compreendermos melhor o texto.
Primeiro Ponto - Quem é o destinatário da Carta;
Segundo Ponto - Qual era o motivo do envio da carta ou do texto; e
Terceiro Ponto - Qual era o contexto histórico que envolvia a situação.
Primeiro devemos descobrir para quem é a carta, e nesse texto está bem clara. Ela é destinada aos nazarenos da comunidade da galácia, formada por judeus, prosélitos, remanescentes de Israel e ex-gentios em sua maioria.
Depois devemos entender o motivo do envio da carta, que segundo o texto é por causa de ensinos errados, desvio de conduta e perseguições que estavam ocorrendo na comunidade. O motivo central está declarado logo no início da carta (Galatim 1:6-7), onde Shaul diz:
“Estou admirado de que tão depressa estejais passando daquele que vos chamou na graça do Mashiach para outro evangelho, que na verdade não é outro; mas há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho do Mashiach.”
Ele escreveu para corrigir uma confusão: alguns estavam exigindo que os ex-gentios se submetessem a práticas legalistas, como por exemplo, fazer a brit milá antes de entenderem a Torá e suas práticas, como condição para serem considerados parte do povo do Eterno.
Shaul não rejeita os mandamentos, como alguns falsamente afirmam. Ele apenas defende que a justificação diante do Eterno vem pela obediência fiel e firme confiança, não por obras exteriores que não partem de um coração renovado. Como está escrito em Hoshea 6:6:
"Porque Eu quero misericórdia, e não sacrifício, e o conhecimento do Eterno mais do que os holocaustos."
Shaul, como um verdadeiro servo do Eterno, zelava para que os das nações não fossem sobrecarregados com fardos criados por homens, isto é, os excessos de halachá, mas aprendessem a andar na Torá conforme o Espírito de obediência que também esteve em Yeshua.
E terceiro, analisar o contexto histórico que envolvia a situação do texto da carta e devemos ter um vislumbre da forma de vida da cidade e da comunidade. Os da Galatia eram, em sua maioria, povos das nações (ex goim), que ouviram a palavra da obediência ao Eterno e aceitaram seguir os mandamentos ensinados por Yeshua e seus emissários. Eles não vieram de uma formação tradicional da casa de Yisrael, mas foram enxertados por meio da teshuvá (arrependimento), conforme o chamado de Yeshayahu (Isaías) 56:6-7, onde o Eterno diz que estrangeiros que se apegarem ao Seu pacto terão lugar em Sua Casa.
A carta foi escrita provavelmente por volta do ano 50 a 55, logo após a visita de Rav Shaul àquelas comunidades durante suas jornadas, como relatado em Maasim (Atos) capítulos 13 e 14. A urgência da carta indica que não se passou muito tempo entre a formação da comunidade e o desvio que ocorreu.
Outra coisa importante a ser observada é que nas suas cartas o Rabino Sha'ul (apóstolo Paulo) usa alguns pronomes para identificar com quem ele está falando. Assim, quando ele usa os pronomes "nós, nosso ou nossos", está falando dele e dos judeus. E quando usa "você, vocês, vosso ou vossos", está falando dos ex-gentios que agora fazem parte do povo do Eterno.
Tendo todas essas coisas em mente, vamos ao texto. Separado em blocos de versos para ficar mais fácil o entendimento.
1. Filhos sob tutela até o tempo determinado (versos 1-3)
“¹ Digo porém que, enquanto o herdeiro é menor de idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono de tudo. ² No entanto, ele está sujeito a guardiães e administradores até o tempo determinado por seu pai. ³ Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo. Gálatas 4:1-3”
Shaul ensina que os filhos, mesmo sendo herdeiros, vivem como servos até que chegue o tempo marcado pelo pai, o tempo do amadurecimento. E vemos no TaNaK ligação com essas palavras de Paulo. Assim como o povo foi "ensinado" por meio de figuras e sombras (como o Mishkan, os sacrifícios, etc.), agora eram chamados à maturidade de entendimento. “A Torá do Eterno é perfeita e restaura a alma...” (Tehilim 19:7), mas exige maturidade espiritual.
2. A vinda de Yeshua como libertação (versos 4-7)
“⁴ Mas, quando chegou a plenitude do tempo, o Eterno enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Torá, ⁵ a fim de redimir os que estavam sob a Torá, para que recebêssemos a adoção de filhos. ⁶ E, porque vocês são filhos, o Eterno enviou o Ruach de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai". ⁷ Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, o Eterno também o tornou herdeiro. Gálatas 4:4-7”
Shaul mostra que Yeshua, sendo obediente ao Eterno, veio cumprir e ensinar as instruções corretas, mostrando o caminho de libertação dos fardos criados por homens. No TaNaK encontramos a referência que mostra a ligação com as palavras do apóstolo: Yeshayahu 61:1 que diz: “O Espírito do Eterno está sobre mim... para proclamar liberdade aos cativos.” Ele veio como servo obediente (Yeshayahu 42:1), não para abolir a Torá, mas para viver conforme ela.
3. Advertência contra retorno à escravidão (versos 8-11)
“⁸ Antes, quando vocês não conheciam ao Eterno, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. ⁹ Mas agora, conhecendo a D’us, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? ¹⁰ Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! ¹¹ Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis. Gálatas 4:8-11”
Shaul alerta que voltar aos sistemas religiosos humanos e calendários de ritos inventados por homens é cair de novo na escravidão. Aqui não é uma menção as datas festivas da Torá, mas a práticas e rituais pagãos que os gálatas praticavam antes de fazerem teshuvah. E também dar ouvidos ao que os extremistas ou legalistas estavam exigindo deles. Em Yirmeyahu 2:13, o Eterno diz: “O Meu povo cometeu dois males: a Mim me deixaram, fonte de águas vivas, e cavaram para si cisternas rotas...”
4. Apelo pessoal de Shaul (versos 12-20)
“¹² Eu lhes suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês. Em nada vocês me ofenderam; ¹³ como sabem, foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez. ¹⁴ Embora a minha doença lhes tenha sido uma provação, vocês não me trataram com desprezo ou desdém; pelo contrário, receberam-me como se eu fosse um anjo de D’us, como o próprio Mashiach Yeshua. ¹⁵ Que aconteceu com a alegria de vocês? Tenho certeza que, se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para dá-los a mim. ¹⁶ Tornei-me inimigo de vocês por lhes dizer a verdade? ¹⁷ Os que fazem tanto esforço para agradá-los, não agem bem, mas querem isolá-los a fim de que vocês também mostrem zelo por eles. ¹⁸ É bom sempre ser zeloso pelo bem, e não apenas quando estou presente. ¹⁹ Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que o Mashiach seja formado em vocês. ²⁰ Eu gostaria de estar com vocês agora e mudar o meu tom de voz, pois estou perplexo quanto a vocês. Gálatas 4:12-20”
Shaul lembra da afeição e zelo que os gálatas tinham por ele, mostrando tristeza ao ver que foram enganados por falsos mestres. Assim como Moshê, que intercedia pelo povo mesmo quando este errava (Shemot 32:32), Shaul roga com ternura, como um pai que sofre por seus filhos.
5. Sara e Hagar como alegoria (versos 21-31)
“²¹ Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da lei: Acaso vocês não ouvem a Torá? ²² Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. ²³ O filho da escrava nasceu de modo natural, mas o filho da livre nasceu mediante promessa. ²⁴ Isso é usado aqui como uma ilustração; estas mulheres representam duas alianças. Uma aliança procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão: esta é Hagar. ²⁵ Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está escravizada com os seus filhos. ²⁶ Mas a Jerusalém do alto é livre, e essa é a nossa mãe. ²⁷ Pois está escrito: "Regozije-se, ó estéril, você que nunca teve um filho; grite de alegria, você que nunca esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido". ²⁸ Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque. ²⁹ Naquele tempo, o filho nascido de modo natural perseguia o filho nascido segundo o Ruach. O mesmo acontece agora. ³⁰ Mas o que diz a Escritura? "Mande embora a escrava e o seu filho, porque o filho da escrava jamais será herdeiro com o filho da livre". ³¹ Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre. Gálatas 4:21-31”
Shaul usa a figura de Hagar (escravidão) e Sara (liberdade) para mostrar que os da confiança obediente são filhos da promessa, livres, e não escravos das tradições humanas. Bereshit 21:10 diz: “Lança fora esta escrava e seu filho, porque o filho da escrava não herdará com o filho da livre.” Aqui, ele mostra que os que se apegam ao Eterno pela obediência verdadeira, como Yitzchak, são filhos da promessa.
Para mais detalhes verso a verso sobre este capítulo assista ao vídeo no link: https://youtube.com/live/EnyDrcOwFqI?feature=share
Rav Shaul exorta os gálatas a não retornarem à escravidão de ritos vazios e mandamentos de homens, isto é uma referência ao legalismo que estava sendo imposto. Ele lembra que os ex-gentios aproximados foram feitos filhos e herdeiros por meio da confiança obediente, como Yitzchak, e não como Ismael. Aqueles que seguem Yeshua com fidelidade à Torá são filhos da promessa, chamados à liberdade de servir ao Eterno com coração puro, fazendo teshuvah.
“Portanto, irmãos, somos filhos da livre, e não da escrava.” (Galatim 4:31) Como está escrito: “O justo viverá pela sua confiança.” (Chavakuk 2:4)
SOBRE A TORÁ E OS "RUDIMENTOS DO MUNDO"
Agora que entendemos um pouco o contexto do capítulo 4 da epístola aos Gálatas, vamos ao tema proposto, a Torá e os rudimentos do mundo. Observe o texto do verso 3:
³ Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo.
O texto em negrito em algumas versões traz “rudimentos do mundo.” Vamos ver o contexto original dessa fala de Rav Shaul, que é mal interpretada por muitos.
O ENSINO CRISTÃO COMUM
“Shaul está dizendo que a Torá (chamada de 'lei') era uma escravidão, e que agora os cristãos estão livres dela. Ele usa Hagar como símbolo da velha aliança (a Torá), e Sara como símbolo da nova aliança (a graça). Portanto, seguir a Torá é ser escravo.”
Isso é o que é normalmente ensinado e pregado. Mas agora vejamos a forma correta de entender essas palavras.
O ENSINO VERDADEIRO DAS ESCRITURAS
A Torá nunca foi escravidão. Shaul está falando de “princípios elementares do mundo” ou "rudimentos do mundo", não da Torá do Eterno. Os rudimentos são os sistemas religiosos humanos, rituais impostos pelos homens, seja de origem pagã ou de tradições criadas fora da Torá.
“Porque dois males cometeu o Meu povo: a Mim me deixaram, fonte de águas vivas, e cavaram para si cisternas rotas...” Yirmeyahu 2:13
Shaul, em momento algum, chama a Torá de escravidão. Ele mesmo disse em Romiyim (Romanos) 7:12:
“A Torá é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.”
Portanto, a escravidão que Shaul condena é o abandono do Eterno e o retorno aos sistemas humanos e suas práticas exteriores que não transformam o coração.
SOBRE A LIBERDADE E O “FILHO DA PROMESSA
O ENSINO CRISTÃO COMUM
“Todos que seguem os mandamentos do Antigo Testamento são como Ismael, filhos da escrava. Os cristãos são como Yitzchak, livres, porque vivem pela graça e não pelas obras.
Vejamos então o verdadeiro ensino.
O ENSINO DAS ESCRITURAS
Yitzchak era filho da promessa, nascido segundo a palavra do Eterno, e não conforme o esforço humano. A liberdade aqui não significa "não guardar os mandamentos", mas viver conforme a promessa, ou seja, pela obediência que nasce da confiança.
“Guardareis os Meus estatutos e os Meus juízos, os quais, observando-os o homem, viverá por eles.” – Vayicrá 18:5
Shaul argumenta contra aqueles que queriam obrigar os ex-gentios a adotar rituais exteriores sem primeiro terem um coração transformado. Ele usa Hagar para representar os que confiam nas obras da lei (legalismo) sem transformação interior e Sara para representar os que andam conforme o Eterno prometeu, pela renovação do coração (Yechezkel 36:26-27).
SOBRE OS TEMPOS E DIAS QUE ESTÃO GUARDANDO
O ENSINO CRISTÃO COMUM:
“Os gálatas estavam começando a guardar o Shabat e festas judaicas, e Shaul os repreende por isso.”
O ENSINO VERDADEIRO DAS ESCRITURAS
Shaul não repreende por guardarem os tempos do Eterno, pois ele mesmo os guardava (Atos 18:21, Atos 20:16). O que ele denuncia é a guarda de dias e tempos pagãos ou ritualísticos sem base na Torá e a práticas meramente legalistas. Muitos da Galatia vieram de cultos idolátricos e estavam caindo novamente em práticas antigas misturadas com ensinos distorcidos. Bem como alguns estavam sendo forçados a práticas extremamente legalistas judaicas.
“Não vos voltareis aos ídolos, nem fareis para vós deuses de fundição.” – Vayicrá 19:4
Guardar os tempos do Eterno nunca foi erro. O erro é substituir a confiança e obediência verdadeira por rituais e tradições vazias.
“O Eterno é o mesmo, ontem, hoje e para sempre.” (Malachi 3:6)
Shaul nunca ensinou contra a Torá. Ele ensinou contra os homens que distorciam a Torá. Devemos voltar ao Eterno com coração puro e firme confiança, obedecendo com alegria.
Espero que este estudo lhes ajude a compreender as palavras de Paulo.
Moshê Ben Yosef
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário