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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Estudo da Parashá Bereshit - O mito do pecado original à luz da Torá, dos profetas e dos sábios

 


Estudos da Torá

Parashá nº 01 – Bereshit (Em um Princípio)

Bereshit/Gênesis 1:1-6:8

Haftará (separação) Is 42:5-43:10 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mc 1:1-12; Jo 1:1-18


O mito do pecado original à luz da Torá, dos profetas e dos sábios


Retornamos ao início e começamos a estudar a parashá Bereshit, no livro de Bereshit. E então vemos a Torá mostrando a criação do universo e do homem. E nada mais natural do que começar pelo começo da história do homem: Adam, Chavah, o Gan Eden e a pergunta que atravessa os séculos. Mas quando vamos estudar sobre a queda ou pecado do homem nos deparamos com uma alegação muito séria: o pecado original. Então surgem algumas perguntas: O que, de fato, herdamos deles? Alguém já te disse que você nasceu manchado por um erro que você nunca cometeu? Que antes do primeiro suspiro, antes de qualquer escolha sua, você já estava condenado por causa de Adam?

Hoje vamos olhar para isso com a Torá aberta. E eu quero te mostrar que a Torá, os Profetas, os sábios e até o próprio Yeshua tratam essa questão de um jeito bem diferente do que muita gente aprendeu. Minha analise nesse estudo cabe em uma frase: Adam e Chavah transgrediram, e as consequências foram reais e alcançam a todos nós. Mas consequência não é culpa, e herdar um mundo difícil não é herdar uma alma condenada. Fica comigo até o final, porque a conclusão muda a maneira como você enxerga os seus próprios erros.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Bereshit, que abrange desde Gênesis 1:1 até 6:8, abre com a narrativa da criação do mundo em seis dias: no primeiro, fez-se a luz e separou-se o dia da noite; no segundo, formou-se o firmamento que divide as águas; no terceiro, apareceram a terra seca, os mares e toda a vegetação; no quarto, foram colocados no céu o sol, a lua e as estrelas, para marcar os tempos, as festas e as estações; no quinto, surgiram os seres que habitam as águas e os ares; e no sexto, foram criados os animais terrestres e, por fim, o ser humano, feito à imagem e semelhança do Eterno, com a missão de cuidar e governar toda a criação. Ao sétimo dia, Deus cessou Sua obra, abençoou e santificou o Shabat como dia de descanso — ensinam os sábios que esses seis dias também representam seis milênios da história, preparando o caminho para o sétimo, que é o Mundo Vindouro. Em seguida, o Eterno plantou o Jardim do Éden e colocou ali o homem, para cultivá-lo e guardá-lo, dando-lhe um único mandamento: não comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, pois no dia em que dela comesse, certamente morreria. Formou então a mulher, para que fossem ambos uma só carne; contudo, instigados pela serpente, desobedeceram ao comando divino, e ao conhecerem a desobediência, foram afastados do Éden — mesmo aí, já surgiu a primeira promessa messiânica, de que a semente da mulher viria a esmagar a cabeça da serpente. Nasceram então Caim e Abel, e ao trazerem suas ofertas ao Eterno, a de Abel foi aceita e a de Caim não; consumido pelo ciúme, Caim tornou-se o primeiro a derramar sangue humano, matando seu irmão, e foi amaldiçoado a vagar pela terra, embora o Eterno o protegesse com um sinal. A narrativa segue pelas dez gerações que sucederam a Adão, incluindo nomes como Enoque, que andou com D’us e foi tomado por Ele, até que a corrupção se espalhou sobre toda a terra, enchendo-a de violência; o Eterno então decidiu trazer o dilúvio sobre a humanidade, mas Noach, homem reto e íntegro, encontrou graça aos Seus olhos.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Ao ler o que está escrito nos capítulos 1 a 3 de Bereshit/Gênesis vemos que o Eterno, depois de criar todas as coisas e o homem, dá uma instrução específica. Adam e Chavah a descumprem. E vêm as consequências, que o texto lista com precisão.

  • A serpente é amaldiçoada.

  • A mulher passa a ter dor no parto.

  • O homem passa a trabalhar a adamah (terra) com esforço, e a terra é amaldiçoada por causa dele.

  • Ambos retornarão ao pó, ou seja, a mortalidade entra no quadro.

  • Ambos são expulsos do Gan Eden.

Agora o mais importante: observe o que não está escrito. Não há uma frase dizendo que todos os descendentes serão culpados. Não há uma maldição sobre a alma humana. E a palavra chet, pecado, nem aparece nos capítulos 2 e 3. Ela surge pela primeira vez em Bereshit 4:7, na conversa do Eterno com Kayin. E olha o que vem junto com ela: a afirmação de que o ser humano pode dominá-la. Guarda isso, porque voltaremos nesse assunto.

Repare também em Bereshit 3:21. Antes de expulsar o casal, o Eterno os veste, para saber mais sobre isso, busque o estudo dessa parashá do ano passado. Não é a cena de um juiz que descarta a humanidade, é a de um Pai que aplica a consequência e continua cuidando.


1. Cada um responde por si

“Os pais não serão mortos por causa dos filhos, nem os filhos por causa dos pais; cada um será morto pelo seu próprio pecado.” Devarim 24:16


“Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram.” Yechezkel 18:2


“A alma que pecar, essa morrerá. O filho não carregará a iniquidade do pai, nem o pai carregará a iniquidade do filho.” Yechezkel 18:4 e 18:20


A Torá estabelece um princípio jurídico claro: ninguém é morto pelo pecado de outro. Isso é instrução, não metáfora. Nos profetas, em Yechezkel 18 vemos o povo no exílio babilônico repetindo um provérbio: “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram”. Na prática, era dizer: “estamos sofrendo por culpa dos nossos pais”. E o Eterno responde com um juramento, no versículo 3, dizendo que esse provérbio não será mais usado em Israel. Depois vem a regra: todas as almas pertencem ao Eterno, e a alma que pecar é que morrerá. O filho não carrega a iniquidade do pai.

Se o Eterno recusa que o filho carregue a culpa do pai que ele conheceu, seria coerente que carregasse a de um ancestral distante, de milhares de anos atrás? Esse é um raciocínio de principal para secundário ou de pesado para leve, ou ainda, de leve para pesado, que os sábios chamam de kal vachomer. É um argumento por princípio, e não uma exegese direta de Adam.

No entanto, pode ser que alguém questione o seguinte: “Mas professor, e Shemot 20:5 e 34:7, onde o Eterno visita a iniquidade dos pais sobre os filhos?”

E essa é uma boa pergunta, e devemos enfrentá-la com coragem e interpretação original das Escrituras. A leitura tradicional entende que o texto fala de filhos que continuam nos caminhos dos pais, tanto que 20:5 diz “aos que Me odeiam”. E o verbo é “visitar” (poked), e não “imputar”. Consequências históricas e sociais dos atos dos pais são reais. Culpa moral transferida é outra coisa.

Quanto à harmonização que fiz com Shemot 20:5, está de acordo com a interpretação que encontramos no Talmud tratados Berachot 7a e Makkot 24a. Esses tratados dois do Talmud Bavili são frequentemente citados no debate teológico porque trazem discussões fundamentais sobre a responsabilidade individual do ser humano, contradizendo assim, diretamente o conceito cristão do pecado original. Na interpretação judaica, não existe a ideia de que a humanidade herda a "culpa" ou o estado de pecado de Adam. Cada alma, ou melhor dizendo pessoa, nasce pura, e o livre-arbítrio ou suas escolhas determinam suas ações. Observe a seguir os extratos das referências citadas:

a) Berachot 7a: A contradição resolvida sobre a culpa dos pais

Nesta página, a Guemará aborda uma aparente contradição entre dois versículos bíblicos sobre como D’us lida com os erros das gerações passadas:

    • Êxodo 34:7: Diz que Deus "visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até a terceira e quarta geração".

    • Deuteronômio 24:16: Diz que "os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado".

Para resolver o impasse, o Talmud conclui:

"Não é difícil: Aqui [em Êxodo] é quando os filhos continuam a segurar as ações de seus pais em suas mãos (ou seja, quando repetem os pecados dos pais); ali [em Deuteronômio] é quando eles não continuam a segurar as ações de seus pais em suas mãos."

Este trecho estabelece que o Eterno nunca pune um filho pelo erro de seu pai ou antepassado, a menos que o próprio filho decida ativamente imitar o erro do pai. Portanto, a humanidade não pode nascer espiritualmente condenada ou culpada pelo erro cometido por Adam no Éden.

b) Makkot 24a: A revogação do decreto por Ezequiel

Este tratado discute como diferentes profetas resumiram as 613 leis (mitzvot) da Torá em princípios fundamentais. No final da página 24a, o Talmud aborda especificamente quatro decretos severos impostos pelo Eterno através de Moshê, que tiveram seus entendimentos posteriormente ampliados pelos profetas:

O texto explica que Moshê havia dito em Êxodo que D’us visitaria a iniquidade dos pais sobre os filhos. No entanto, o profeta Ezequiel veio e ampliou essa premissa teológica:

"Veio Ezequiel e revogou isto, como está escrito: 'A alma que pecar, essa morrerá' (Ezequiel 18:4)."

Makkot 24a reforça o princípio absoluto da justiça e mérito estritamente individuais. Ao enfatizar a revogação de qualquer punição geracional e selar a teologia judaica com o livro de Ezequiel, o Talmud barra a possibilidade de que o erro de um homem (Adam) contamine o status espiritual ou cause a "queda" espiritual de toda a sua descendência biológica. O que no indica claramente a capacidade humana de escolher, dada pelo Criador, e isso nos leva ao próximo tópico.


2. A capacidade de Escolher

“Se fizeres o bem, não haverá elevação? E se não fizeres o bem, o pecado jaz à porta, e o desejo dele é para ti, mas tu podes dominá-lo.” Bereshit 4:7

“Somente isto achei: que Elohim fez o homem reto, mas eles buscaram muitos caminhos.” Kohelet 7:29

“Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.” Devarim 30:19

A doutrina do pecado original afirma duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: existe culpa imputada. A segunda: existe incapacidade de escolher o bem. O TaNaK responde às duas afirmações, em passagens diferentes.

A primeira está em Devarim 24:16 e Yechezkel 18, que acabamos de ver. A segunda está em Bereshit 4:7, o Eterno diz a Kayin que o pecado está à porta, mas que ele pode dominá-lo. Isso é dito a um filho de Adam, logo na primeira geração depois da expulsão. Se a natureza humana estivesse quebrada de fábrica, a instrução do próprio Criador não faria sentido. Em Devarim 30, Moshê afirma que o mandamento não é difícil demais nem distante, mas “está muito perto de ti”, e conclui: “escolhe a vida”. Você não ordena que escolha quem não consegue escolher. E Kohelet 7:29 resume: Elohim fez o homem yashar, reto. O desvio vem das buscas e decisões posteriores ao nascimento.

E aí alguém pergunta: mas todo mundo peca, não é? É verdade, e a Escritura concorda com isso. Em Melachim Alef 8:46, Shlomo diz que não há homem que não peque, e Kohelet 7:20 diz que não existe justo na terra que faça só o bem e nunca erre. Só que a universalidade do pecado não é culpa herdada. Que todos erramos é um fato. Por que erramos? A tradição responde: porque somos livres, temos o yetzer hará, e escolhemos mal em algum momento. Cada um pelo seu próprio caminho. E ainda, Bereshit 6:9 diz que Noach era justo e íntegro e andava com Elohim. Ele nasceu muitas gerações depois de Adam. É um exemplo de que o ser humano posterior ainda podia andar com o Eterno.

E tem um fato que vale destacar sobre Noach: Em Bereshit 6:9, Rashi registra, duas leituras sobre a colocação “em suas gerações”: uma elogia Noach, outra diz que ele só se destacava em comparação com a sua geração. A tradução de “chishvonot” em Kohelet 7:29 também varia (caminhos, cálculos, planos). Mas além de tudo, o importante é que ninguém está preso à uma condenação hereditária.



3. Segundo os sábios o que herdamos de Adam

Agora vamos ouvir Chazal. Caso não saiba o que isso significa observe: Chazal (em hebraico: חָזָ״ל) não é uma palavra única, mas sim um acrônimo para a expressão Chachamenu Zichronam Levrachah (חַכָמֵינוּ זִכְרוֹנָם לִבְרָכָה), que significa "Nossos Sábios, de abençoada memória". E aqui descobrimos que os sábios nunca ignoraram o impacto da queda. O que eles distinguem é o que herdamos.

a) Mortalidade, sim, culpa, não. No Talmud (Shabbat 55a-b), debate-se a relação entre pecado e morte, e registra-se a tradição de que quatro justos morreram apenas “pelo conselho da serpente”, ou seja, por causa da mortalidade introduzida no mundo, sem pecado pessoal.

b) A alma é pura. Todo dia, na oração da manhã, o judeu diz: “Meu D’us, a alma que me deste é pura” (Elohai neshamá she'natata bi tehorá hi, Berachot 60b). Quem reza isso todos os dias não acredita que nasce condenado.

c) O yetzer hará é parte do “muito bom”. O Midrash (Bereshit Rabbah 9) chega a ler o “muito bom” de Bereshit 1:31 como incluindo o yetzer hará, porque sem essa força ninguém construiria casa, casaria ou geraria filhos. A inclinação não é um defeito, é uma energia que precisa de direção.

d) A teshuvá foi criada antes do mundo (Pesachim 54a, Nedarim 39b). O retorno estava embutido na criação. O erro de Adam e Chavah não pegou o Eterno de surpresa nem exigiu um plano de emergência.

e) Adam fez teshuvá. O Talmud (Eruvin 18b) conta que Adam jejuou e se separou de sua esposa por 130 anos. O primeiro homem é tratado como alguém que se arrepende, e não como o criador de uma sentença universal.

f) O livre-arbítrio é de todo ser humano. Rambam, em Hilchot Teshuvá, capítulo 5, afirma que a permissão de escolher é dada a cada pessoa.

Há uma linha do Midrash, muito desenvolvida pelo Chassidismo, que lê o episódio da queda como erro de impaciência: o casal teria comido antes do tempo, sem esperar o Shabat. É uma leitura que transforma a história numa lição de crescimento. O mesmo Midrash diz que a serpente foi usada por um arcanjo chamado Samael, movido por inveja.



4. Encarando versos aparentemente contraditórios

Um estudo honesto enfrenta o que complica a tese. Vamos aos versículos que costumam ser citados a favor do pecado original.

- Bereshit 8:21: “a inclinação do coração do homem é má desde a sua juventude”. Os estudiosos cristãos interpretam esse verso como uma indicação do pecado original. Já os comentaristas e intérpretes judeus leem isso como descrição do yetzer ou inclinação, e não como culpa. E repare no que o Eterno faz a seguir: promete não amaldiçoar mais a terra por causa do homem. Ele responde à fragilidade com misericórdia, e não com condenação.

- Tehilim 51:7: “em iniquidade fui formado”. Este verso é muito usado pela teologia da doutrina do pecado original, como um indicativo da condição caída do homem. No entanto, esse verso, é uma confissão pessoal de David, em tom poético, depois do seu pecado com Bat-Sheva. Transformar poesia confessional em doutrina universal é um erro de gênero literário.

- Iyov 14:4 e 15:14: “Quem pode retirar o que é puro de algo impuro? Ninguém!” e “O que é o ser humano, para que seja inocente, alguém nascido de mulher, para que possa ser reto?”. À primeira vista, esses versos isolados parecem comprovar a doutrina, mas não podemos interpretar versos isolados. Estas são falas de personagens do livro, especialmente dos amigos de Iyov, que o próprio livro acaba corrigindo. Citar uma fala como se fosse a voz do Eterno é um erro de método.

- Hoshea 6:7: “Mas eles transgrediram a aliança, como Adam...”. O hebraico é ambíguo: pode ser “como Adam”, “como homens” ou até um local chamado Adam. Não é uma base firme para doutrina.

Vejamos um argumento prático. No sistema de sacrifícios, as ofertas pelo pecado (chatat) eram trazidas por pessoas concretas, por atos concretos. Em Yom Kippur, o Templo tratava dos pecados do povo naquele ano. Se existisse uma culpa ancestral de Adam sobre cada recém-nascido, esperaríamos um ritual ou um dia para tratá-la. Não há. O bebê judeu não é levado ao Templo para ser purificado de um pecado herdado. E alguém pode objetar: “Mas em Vayikra 12 ensina que a mulher deveria levar uma oferta de chatat depois do parto!” E isso é verdade. Mas a oferta é da mãe, e não do bebê. A tradição discute o motivo, e uma das explicações talmúdicas está ligada à experiência da própria mulher no parto.

5. Nos tempos de Yeshua

“Rabi, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Yeshua: Nem ele pecou, nem seus pais.” Yochanan 9:2-3

Agora vamos olhar pelo ângulo da época do judaísmo do Segundo Templo, onde viveram Yeshua e os talmidim. Em Yochanan 9, os talmidim perguntam: “quem pecou, este homem ou seus pais?” A pergunta reflete uma ideia popular de culpa transferida. E a resposta de Yeshua é: nem um nem outro. É uma resposta na mesma direção de Yechezkel 18. Yeshua também coloca a criança como modelo de entrada no Reino (Mattityahu 18:3 e 19:14) e chama à teshuvá pessoas concretas, por atos concretos. Em nenhum momento ele ensina que a criança nasce culpada.

E Paulo? Romanos 5:12 é o versículo-base de Padre Agostinho. Mas Agostinho leu a versão latina, que muitos entendem como “nele todos pecaram”. Muitos estudiosos entendem que o grego diz que a morte passou a todos “porque todos pecaram”, o que indica responsabilidade pessoal e individual. Em 1 Corintios 15:22, Shaul fala de morte “em Adam”. O foco é a morte, e não a culpa herdada. E em Romanos 2:6 e 14:12, Rav Shaul afirma que cada um dará conta de si.

Temos ainda outros textos judaicos da época: em 2 Baruch 54:19 lê-se que Adam não é a causa senão para si mesmo, e que cada um de nós se tornou o seu próprio Adam. Esse livro também é conhecido como Apocalipse Sírio de Baruque. É um texto pseudepígrafo judaico escrito no final do século I d.C., logo após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém em 70 d.C, e não faz parte do cânone bíblico judaico, protestante ou católico tradicional. Ele é considerado canônico apenas na Igreja Ortodoxa Síria, e é encontrado em algumas edições da antiga tradução siríaca da Bíblia chamada Peshitta. Não confundir este livro de Baruch com o da Bíblia Católica.

Em Ben Sira 15:14 a 17, o homem é deixado na mão de sua inclinação, com a possibilidade de guardar os mandamentos. Mas vale ser honesto: havia vozes mais sombrias, como Ben Sira 25:24 e 4 Esdras 7:118. O judaísmo antigo não era uniforme. O 4 Esdras (frequentemente chamado de Apocalipse Judaico de Esdras) é um antigo livro apócrifo ou pseudepígrafo escrito por volta do final do século I d.C. (por volta de 100 d.C.), logo após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.

Uma curiosidade: a tradição cristã oriental, a ortodoxa, até hoje mantém a herança da mortalidade, mas rejeita a culpa herdada.

Concluindo então nosso estudo, vimos que o conceito de “pecado original”, entendido como uma culpa moral hereditária que faz cada ser humano nascer culpado pelo pecado de Adam, não é apresentado dessa maneira em Bereshit.

A Torá apresenta outra realidade, como vimos até aqui Adam recebeu uma instrução e transgrediu, por isso sofreu as consequências. E por causa dessas consequências a humanidade passou a viver em uma condição diferente daquela existente no Gan Eden. Mas cada descendente continua sendo responsável diante do Eterno por suas próprias escolhas.

Devarim declara: “Escolhe, pois, a vida.” Yechezkel declara: “A alma que pecar, essa morrerá.” Essas palavras nos levam de volta ao fundamento das Escrituras: o Eterno é justo, não faz acepção de pessoas e julga cada homem segundo seu próprio caminho. Não precisamos carregar uma culpa que não cometemos. Precisamos, porém, assumir a responsabilidade pelo que fazemos. É justamente por isso que a história de Adam permanece tão importante. Ela não nos ensina que o homem nasceu sem possibilidade de escolha; ela nos mostra, desde o princípio, que o Eterno dá instrução, o homem escolhe, e suas escolhas produzem consequências.

Finalizamos então este estudo, com base nas referências apresentadas, trazendo três afirmações claras: Houve consequências herdadas; não houve culpa herdada e não houve perda da capacidade de escolha. Adam e Chavah não “estragaram” a espécie. Eles inauguraram a condição em que vivemos: livres, mortais, divididos por dentro e chamados a escolher. E o mais interessante de tudo isso é que o mashiach Yeshua escolheu obedecer ao Eterno em tudo, para nos dar o exemplo de como podemos voltar a ter, no futuro, as características perdidas pela queda de Adam e Chavah. O olam habah nos espera, sigamos firmes em teshuvah.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef


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