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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Re'e - A Torá não é maldita

 



Estudos da Torá

Parashá nº 47Re’e (Veja)

Devarim/Deuteronômio 11:26-16:17

Haftará (separação) Is 54:11-55:5.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) 1Co 5:9-13; 1Jo 4:1-6.


A Torá não é maldita


Nesta porção há um assunto que pode ser um dos eixos mais fortes da parashá Re’ê, porque a própria parashá desmonta uma ideia muito ensinada pela teologia do sistema religioso cristão, de que a Torá seja uma “lei de Moshê” no sentido de algo criado pelo próprio Moshê. Bem como, de que com a vinda de Yeshua a “Lei maldita” perderia sua validade. O texto apresenta repetidamente os mandamentos como palavra, estatutos e juízos do próprio Eterno, transmitidos por meio de Moshê. E isso muda completamente a leitura da relação entre “Torá”, “maldição” e os ensinos de Yeshua.

Há também uma distinção importante: a Torá não é a maldição, pois a maldição é a consequência da ruptura da aliança. Re’ê é particularmente clara nesse aspecto. O Eterno coloca diante de Yisrael a bênção e a maldição, e a diferença está na resposta do povo à palavra do Eterno.

Neste estudo você entenderá que, para ver corretamente que a Torá não representa maldição ou algo passado, precisa entender e saber escolher qual caminho você tem escolhido para trilhar. Siga neste estudo até o final.


RESUMO DA PARASHÁ

A parashá Re'ê abre com uma escolha que Moshê coloca diante do povo: bênção e maldição, colocadas diante deles. Se seguirem os mandamentos de HaShem, veriam a bênção, mas se desviarem para outros deuses, veriam a maldição. Essa dualidade dá o tom pra praticamente toda a parashá, que trata muito de fidelidade, idolatria e da centralização do culto.

Um dos temas centrais é justamente essa centralização: o texto insiste várias vezes que os sacrifícios e ofertas devem ser trazidos "ao lugar que HaShem escolher", em contraste com os altares locais dos povos cananeus, que deveriam ser destruídos. É a preparação para o que depois se tornaria o culto centralizado em Jerusalém.

A parashá também traz instruções bem duras sobre ceder à idolatria, incluindo o caso do falso profeta e até do parente próximo que tenta convencer alguém a servir outros deuses. Tudo isso reforça a ideia de que a fidelidade ao pacto não é negociável, nem quando vem de dentro da própria família ou comunidade. Tem ainda uma passagem retomando as leis de kashrut, listando animais puros e impuros, praticamente repetindo o que já aparece em Vayikrá, mas agora no contexto da entrada na terra.

Outro assunto importante tratado é sobre a vida econômica e social do povo: a shemitá, o ano sabático em que as dívidas são perdoadas, a libertação de escravos hebreus no sétimo ano, e a instrução repetida de abrir a mão para o pobre e o necessitado, sem endurecer o coração. Por fim, a parashá fecha com os três regalim, as festas de peregrinação: Pêssach, Shavuot e Sucot, quando todo homem devia se apresentar "diante de HaShem" no lugar escolhido, cada um trazendo conforme a bênção que recebeu.

No geral, podemos ler Re'ê como um chamado à escolha ativa e contínua. A benção não é garantida por default, é algo que se sustenta na prática concreta: onde se adora, como se trata o pobre, como se lida com a tentação idolátrica dentro da própria casa, em fim, como ser um servo melhor.



ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Existe uma ideia que se tornou bastante comum em determinados ambientes religiosos: a de que a “Lei de Moshê” seria uma realidade antiga, pesada e associada à maldição, enquanto os ensinamentos de Yeshua representariam uma nova realidade de vida, liberdade e graça. À primeira vista, essa construção pode parecer convincente, especialmente quando alguns textos são retirados de seu contexto original. Mas quando voltamos à própria Torá e permitimos que ela explique a si mesma, a conclusão começa a mudar e o entendimento correto surge.

O erro geralmente começa numa interpretação isolada de Gálatas 3:13, onde Shaul (Paulo) diz que Yeshua se tornou "maldição por nós", citando Devarim 21:23 (o pendurado no madeiro). Só que aí muita gente comete um salto de leitura: transforma essa frase específica, sobre um caso pontual de execução, numa afirmação genérica de que "a Torá é maldição" e que Yeshua veio para libertar as pessoas dela. Essa é uma leitura descontextualizada, tanto do texto original em Devarim quanto da própria argumentação de Shaul, que em nenhum outro lugar chama a Torá de má ou amaldiçoada.

A Parashá Re’ê oferece uma oportunidade extraordinária para corrigirmos essa falsa compreensão divulgada tão erroneamente pelo sistema cristão. O problema começa, muitas vezes, com a própria expressão “Lei de Moshê”. Ela pode levar alguém a imaginar que Moshê seja o autor daquilo que recebeu o seu nome. E para muitos isso é verdade. Veja o comentário em um de meus vídeos, de alguém que fatalmente tem o entendimento errado sobre a “Lei”:

E mais uma vez o MESTRE contra Lei de Moisés na Lei prévia que aquela mulher tinha que ser morta apedrejada mas ele não deixou. Deve ser difícil para vocês verem o Mestre desfazer as leis de maldição e morte a falsa santidade da Torah que ninguém consegue cumprir...”

O fato é que o próprio texto da Torá não apresenta Moshê como um legislador independente, isto é, aquele que criou e promulgou as leis, estatutos e juízos da Torá. Moshê era o mediador, o transmissor, o guia e o mestre ou professor de Yisrael. A autoridade daquilo que ele ensina não nasceu dele. Ela vinha do Eterno que o chamou e o fortificou para aquela missão. Isso fica evidente logo no início de Devarim 12. Depois de apresentar a escolha entre bênção e maldição, Moshê declara:

Estes são os estatutos e os juízos que tereis de ter cuidado em cumprir na terra que o Eterno, Elohim de vossos pais, vos deu...”

O sujeito da autoridade é o Eterno. Moshê apenas transmite o que o Eterno ordena, simples assim. Essa distinção é fundamental. Assim, podemos chamar “Torá de Moshê” porque foi por intermédio de Moshê que ela foi ensinada e entregue a Yisrael, assim como podemos falar em “ensinamentos de Moshê”, sem concluir que Moshê seja a origem última daquilo que ensinou. O termo “Torá de Moshê” é portanto, um adjetivo para a Torá, que é do Eterno, o Criador do universo. O próprio texto bíblico preserva essa relação entre o mensageiro e Aquele que o enviou. Por isso, antes de perguntarmos se a Torá é “antiga” ou “nova”, “pesada” ou “leve”, precisamos fazer uma pergunta primordial: de quem é a Torá? A resposta que encontramos na parashá Re’ê é inequívoca: ela pertence ao Eterno. E se a Torá vem do Eterno, não podemos simplesmente classificá-la como maldição e tudo que advém disso, é pura má interpretação. Vamos seguir em frente, pois pretendo mostrar isso claramente.



1 - A Bênção e a Maldição: Uma escolha

Essa parashá ajuda a corrigir o erro de interpretação de muitos. A parashá Re’e inicia com uma frase que costuma passar despercebida. Devarim 11:26-28, o texto diz: "Reeh anochi noten lifneichem hayom beracha uklala" - "Vê, eu ponho diante de vós hoje a bênção e a maldição". Repare em quem é o sujeito dessa frase. Quem coloca a bênção e a maldição diante do povo não é Moshê, é HaShem, falando através de Moshê. A bênção está condicionada à obediência aos mandamentos, e a maldição, ao desvio deles. A Torá em si não é a maldição, ela é o critério pelo qual a bênção ou a maldição se manifestam. Confundir o padrão com a consequência de desviar dele é um erro categórico.

O próprio nome da parashá já estabelece uma dinâmica interessante: Re’ê, “Vê”. Moshê não está apenas transmitindo informações religiosas. Ele está colocando diante de Yisrael uma realidade que precisa ser discernida e escolhida.

Vê, hoje ponho diante de vós a bênção e a maldição.”

Observe a estrutura, a Torá não é apresentada como a maldição. A bênção está associada à escuta e à obediência ao Eterno. A maldição está associada ao afastamento, à desobediência e à idolatria. Isso é muito diferente de afirmar que “a Lei é maldição”.

A maldição não nasce da existência da Torá. Ela aparece quando Yisrael rompe aquilo que a Torá estabelece como caminho da aliança. É semelhante a uma estrada bem sinalizada. Uma placa dizendo “não ultrapasse este limite” não é a causa do acidente quando alguém decide ignorá-la. A sinalização existe justamente para preservar a vida. O problema está na transgressão, não na orientação.

Re’ê apresenta a Torá como orientação para uma vida de aliança. O povo entraria numa terra cercada por culturas, divindades, altares e práticas religiosas diferentes. Portanto, não bastava dizer a Yisrael: “Acreditem em D’us”. Era necessário ensinar como viver como povo pertencente a Deus. Por isso vêm as instruções sobre os altares idólatras, os lugares altos, os alimentos, os dízimos, os pobres, a Shemitá, os servos, as festas e o lugar escolhido para o culto. Tudo isso faz parte de uma mesma visão. A fidelidade ao Eterno precisa aparecer na vida concreta: onde você adora, como você administra aquilo que recebeu, como trata o pobre, como lida com a riqueza, como reage à idolatria, como celebra, como educa sua família, como trata o estrangeiro, a viúva e o órfão.

A Torá não está tentando transformar Yisrael em um povo religioso apenas dentro de um espaço sagrado. Ela está formando um povo cuja relação com o Eterno deveria reorganizar toda a existência. É por isso que a ideia de que a Torá seria simplesmente uma “maldição” não consegue fazer justiça ao texto de Re’ê. A Torá apresenta o caminho, a bênção acompanha a fidelidade, a maldição acompanha a ruptura e essa distinção é essencial.



2 - A “Lei de Moshê” e a maldição

Existe aqui uma questão de linguagem que precisa ser cuidadosamente compreendida. Conforme já mencionei, quando encontramos expressões como “Lei de Moshê”, isso não significa necessariamente que Moshê seja o autor ou a fonte da legislação. A expressão identifica a Torá pela sua mediação histórica. Moshê recebeu, ensinou e transmitiu. O próprio Devarim é construído em torno dessa função. Moshê fala, mas constantemente aponta para o Eterno, veja:

- “Assim diz o Eterno.”

- “Estes são os estatutos...”

- “O Eterno vos ordenou.”

- “Guardareis os mandamentos do Eterno.”

Portanto, chamar de “Torá de Moshê” é, nesse sentido, semelhante a reconhecer a função de Moshê como aquele por meio de quem a Torá foi ensinada a Yisrael. Isso também ajuda a compreender algo importante sobre Yeshua. Ele não aparece no primeiro século como alguém que chega dizendo: “Moshê ensinou uma coisa, mas agora eu vou trazer a religião verdadeira.” Esse tipo de leitura cria uma oposição que não corresponde à própria maneira como Yeshua se apresenta nos relatos dos evangelhos.

Em Mattityahu 5, Yeshua declara explicitamente que não veio abolir a Torá e os Profetas. Pelo contrário, ele rejeita a ideia de que sua missão consistisse em anulá-los e, em seguida, afirma a permanência da autoridade da Torá. Isso é particularmente importante porque Yeshua não apenas diz que não veio abolir; ele também passa a interpretar e aprofundar os mandamentos.

- Ele fala sobre assassinato e ira.

- Adultério e desejo.

- Juramento e integridade.

- Amor ao próximo.

- Inimizade e amor aos inimigos.

Assim, Yeshua não apresenta uma Torá “ruim” que precisa ser substituída por uma Torá “boa”. Ele conduz seus ouvintes para uma compreensão mais profunda daquilo que significa viver diante do Eterno. A questão não é simplesmente cumprir uma regra exteriormente. É permitir que o mandamento alcance o coração. Isso está profundamente relacionado com a própria tradição profética de Yisrael.

Os profetas já haviam denunciado uma religiosidade que cumpria gestos externos enquanto o coração permanecia distante. Portanto, quando Yeshua aprofunda o mandamento, ele não precisa estar destruindo a Torá. Ele pode estar justamente levando o discípulo para a intenção ética e espiritual que está por trás dela.



3 - Yeshua também é transmissor

Talvez uma das maiores dificuldades de algumas leituras seja imaginar que, para Yeshua ter autoridade, Moshê precisaria perder a autoridade dele. Mas essa não é uma necessidade lógica. Yeshua pode ensinar com autoridade sem transformar Moshê em seu adversário. Na realidade, Yeshua constantemente argumenta dentro das Escrituras de Yisrael. Ele cita a Torá, os Profetas e os Escritos. Seu universo intelectual é o universo judaico do primeiro século. Quando perguntado sobre o maior mandamento, por exemplo, Yeshua não inventa um novo princípio. Ele recorre à própria Torá: amar o Eterno de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo. Isso é extraordinariamente significativo.

Se a Torá fosse essencialmente uma maldição, seria estranho que o próprio Yeshua fundamentasse sua ética precisamente em seus mandamentos. O que Yeshua faz é mostrar a centralidade desses princípios. A fidelidade não deve ser apenas mecânica, pois vira legalismo. O mandamento precisa alcançar a pessoa. É possível cumprir uma norma externamente e, ao mesmo tempo, violar sua intenção interior. Yeshua confronta justamente essa possibilidade. Por isso, podemos dizer que Yeshua amplia, aprofunda e interioriza o ensino, sem precisar estabelecer uma oposição artificial entre ele e Moshê.

E aqui é importante fazer uma ressalva: dizer que Yeshua “ampliou” a Torá não significa afirmar automaticamente que todas as leis da Torá devem ser aplicadas hoje exatamente da mesma maneira, independentemente do contexto. Questões relacionadas ao sacerdócio, ao Templo, aos sacrifícios e à vida nacional de Israel exigem uma análise própria. O ponto aqui é outro: não devemos partir da premissa de que a Torá era má e que Yeshua veio substituí-la por algo bom. Essa premissa é justamente aquilo que Re’ê nos ajuda a questionar.

Existe ainda outra questão importante. Uma mesma instrução pode produzir resultados diferentes dependendo da resposta de quem a recebe. A Torá diz a Yisrael que não deve seguir os deuses das nações. Isso é maldição? Não. A instrução é proteção. A Torá diz para não endurecer o coração diante do pobre. Isso é maldição? Não. É justiça. A Torá determina que Yisrael se lembre do Eterno e reconheça que sua prosperidade não vem exclusivamente de sua própria capacidade. Isso é maldição? Não. É uma correção contra a arrogância. A Torá ordena que o povo destrua os lugares de idolatria. Isso é maldição? Não. É uma defesa da exclusividade da aliança.

O problema surge quando o ser humano se rebela contra aquilo que deveria conduzi-lo à vida. É por isso que Re’ê precisa ser lida em conjunto com a grande declaração de Devarim: “Vê, hoje ponho diante de vós a bênção e a maldição.” A palavra de Deus é colocada diante do ser humano como uma escolha. E essa escolha permanece extremamente atual. Podemos conhecer a Torá e ainda assim construir nossos próprios “lugares altos”. Podemos falar de D’us e confiar em homens. Podemos cantar sobre fé e colocar nossa segurança no dinheiro. Podemos defender a tradição e abandonar a justiça. Podemos conhecer mandamentos e não amar o próximo. O problema nunca foi simplesmente possuir a Torá, é o coração que decide não ouvi-la.



4 – A Torá no TaNaK, uma mesma lógica.

Quando falamos em Torá, devemos ver que os profetas e escritos refletem os mandamentos de HaShem. Isso nos leva novamente a Tehilim 121 que diz:


Elevo os meus olhos para os montes. De onde virá o meu socorro?”



A pergunta do salmista dialoga muito bem com o universo de Re’ê. Na época, os montes podiam ser lugares de culto, representavam segurança e expectativa religiosa. Mas o salmista não termina olhando para o monte. Ele olha para além dele e diz:

Meu socorro vem do Eterno, que fez os céus e a terra.”

Essa é uma afirmação profundamente coerente com a lógica de Re’ê. E vemos como que uma instrução: Não confie no lugar, confie naquele que criou o lugar. Não confie no símbolo, confie naquele que o símbolo deveria representar. Não confie no altar, confie no Deus diante de quem o altar existe. E, finalmente, não transforme a própria religião em um substituto de D’us.

Essa é uma advertência que também pode ser aplicada à maneira como interpretamos a Torá. Ela não foi dada para ocupar o lugar do Eterno, pois é a instrução do Eterno. Assim, quando transformamos a Torá em objeto de disputa, orgulho ou superioridade, podemos acabar fazendo justamente aquilo que ela nos ensina a evitar: transformar uma coisa criada para nos conduzir a D’us, em um objeto de confiança em si mesmo. A Torá não é o nosso deus, o Eterno é D’us, a Torá é Sua instrução.

Os profetas de Yisrael ajudam a esclarecer ainda mais essa questão. Quando Yisrael se afasta do Eterno, os profetas não costumam dizer: “O problema é que vocês obedeceram demais à Torá.” O problema é justamente o contrário. Yisrael abandonou a aliança. Yirmeyahu denunciou a infidelidade espiritual. Hoshea denunciou a idolatria. Yeshayahu denunciou a injustiça. Mikhah perguntou o que o Eterno requer do ser humano e coloca justiça, misericórdia e humildade no centro da vida diante de D’us. O profeta não estava lutando contra a Torá. Ele estava lutando contra um povo que utiliza a religião para esconder a desobediência. Essa é uma distinção importantíssima. A crítica profética não é “Torá demais”, mas ausência de fidelidade. Sacrifício sem arrependimento, culto sem justiça, palavras sem transformação. É justamente nesse ponto que Yeshua se encontra com os profetas. Quando ele confronta uma religiosidade exterior, não está necessariamente atacando a Torá. Ele está denunciando a distância entre o mandamento e o coração.

Talvez essa seja a frase central deste estudo: A Torá não é a maldição, pois a maldição é o resultado da ruptura da aliança. Re’ê deixa isso diante de nossos olhos. A bênção está relacionada à escuta. A maldição está relacionada ao afastamento. Portanto, não devemos inverter a lógica do texto. É perigoso dizer:

“Torá = maldição.”

Quando o texto diz:

“Obediência = bênção.”

“Desobediência = maldição.”

A diferença parece pequena, mas muda completamente a teologia. Se a Torá fosse a própria maldição, o problema estaria naquilo que D’us entregou. Mas se a maldição é consequência da desobediência, então o problema está na resposta humana àquilo que o Eterno entregou como instrução. Isso preserva a bondade da instrução divina. E aqui encontramos um ponto interessante na própria experiência de Yisrael: o povo não precisava inventar um caminho espiritual novo. Precisava aprender a caminhar fielmente no caminho que o Eterno já havia estabelecido.



5 - E onde entra Yeshua nessa história?

Yeshua entra não como alguém que veio salvar Yisrael de uma Torá defeituosa, mas como mestre judeu que chama as pessoas de volta à fidelidade, ao arrependimento, à justiça e à verdadeira intenção dos mandamentos. Sua crítica não pode ser reduzida a “a Torá era ruim, agora temos a graça”. Essa fórmula é simples demais para explicar o universo judaico dos seus ensinamentos.

Em Mattityahu 5, a afirmação é particularmente difícil de ignorar: Yeshua diz que não veio abolir a Torá ou os Profetas e acrescenta que aquele que pratica e ensina os mandamentos é considerado grande no Reino dos Céus. Portanto, se queremos compreender Yeshua dentro de seu próprio ambiente, precisamos abandonar a falsa oposição: Moshê contra Yeshua.

A questão não precisa ser “qual dos dois devo escolher?” Podemos compreender a relação de maneira muito mais coerente: Moshê transmite a Torá recebida do Eterno. Yeshua ensina dentro desse universo da aliança e chama seus discípulos a uma compreensão mais profunda e integral da vontade do Eterno. Isso não transforma Moshê em rival de Yeshua. E também não transforma Yeshua em inimigo da Torá.

No final, voltamos ao ponto de onde começamos. Re’e – “Vê.” Essa palavra é um convite para abrir os olhos. A pergunta não é simplesmente: “Você conhece a Torá?” A pergunta é: O que você está fazendo com aquilo que conhece? Porque Re’ê não permite uma espiritualidade puramente intelectual. Conhecer e não praticar não resolve. Saber onde está o caminho e escolher outro não muda o destino. Saber que a idolatria destrói e continuar construindo altares internos também não resolve. A Torá foi dada para formar uma vida. Por isso, a pergunta que Re’ê coloca diante de nós continua sendo extremamente atual: Em quem você confia? Onde está o seu socorro? Quem governa suas escolhas? O que determina sua ética? O que você faz quando ninguém está olhando? O que acontece quando a fidelidade ao Eterno entra em conflito com seus interesses pessoais? É aí que descobrimos se a Torá realmente está sendo recebida como palavra do Eterno ou se tornou apenas um conjunto de conceitos religiosos.

Concluindo nosso estudo, podemos perceber a grande contribuição da parashá Re’ê para essa discussão. Ela nos impede de inverter os papéis. Vimos que Moshê não é a fonte da Torá, é seu transmissor. A Torá não é uma invenção humana, é apresentada como instrução do Eterno. Vimos que a maldição não é a Torá, ela está associada à desobediência e à ruptura da aliança. E Yeshua não precisa destruir a Torá para anunciar o Reino. Ele a aprofundou, a interiorizou e chamou seus discípulos a uma justiça que não se limita à aparência externa.

Por isso, talvez seja necessário abandonar uma pergunta que já nasce contaminada por uma falsa oposição: “Você prefere a Torá de Moshê ou a vida ensinada por Yeshua?” A pergunta mais adequada é outra: “Você compreende a Torá como aquilo que ela realmente é e entende Yeshua dentro do contexto daquilo que ele realmente ensinou?” Porque talvez o problema nunca tenha sido a Torá. Talvez o problema tenha sido a maneira como aprendemos a enxergá-la. Re’ê nos chama a abrir os olhos.

A Torá não é maldita. Maldito é o caminho que abandona o Eterno. A Torá aponta para o caminho da aliança. Os profetas chamam de volta para esse caminho. Yeshua chama seus talmidim para uma fidelidade mais profunda a esse caminho. E o discípulo precisa decidir o que fará com essa palavra, e isso inclui eu e você. Não devemos olhar para o monte, precisamos saber de onde vem o socorro. Não basta falar sobre D’us. É preciso confiar nele. Não basta conhecer o mandamento. É preciso permitir que ele transforme a vida. E talvez seja justamente aí que Re’ê se torna uma pergunta dirigida a cada um de nós: Você realmente vê? E, depois de ver, qual caminho escolherá?

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef