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sábado, 2 de março de 2024

Estudo da Parashá Ki Tissa - Não perca o propósito, acerte o alvo.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 21 – Ki Tissá (Quando fizeres)

Shemôt/Êxodo Ex 30:11 – 34:35,

Haftará (Separação) 1Rs 18:1-39, e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) At 7:35-8:1 e 2Co 3:1-18


Tema: Não perca o propósito, acerte o alvo.


No estudo dessa semana veremos o que podemos aprender com a parashá a respeito de propósito, de acertar o alvo e sobre transformar maldições em bênçãos. E aprenderemos que precisamos ter em mente que o propósito de nossas vidas não pode ser perdido de vista e seguindo assim, devemos buscar sempre acertar o alvo a fim de transformar maldições em bênçãos.

RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA


A parashá começa com a ordem de D'us a Moshê para fazer um recenseamento, coletando uma contribuição igual de uma moeda de meio-shêkel de cada adulto do sexo masculino entre as idades de 20 a 60 anos, e estes valores iriam para o Mishkan (Tabernáculo).

O Eterno descreve a Moshê o kiyor de cobre (lavatório e base) na qual os Cohanim santificarão suas mãos e pés antes de servirem no Mishkan. É também discutido o azeite para unção que seria usado para santificar os vários utensílios para uso normal. Segue-se a receita para o ketoret, insenso aromático a ser queimado duas vezes ao dia. D'us designa Betsalel, da tribo de Yehudá, e Oholiyav, da tribo de Dan, para supervisionar a construção do Mishkan, que estava para ser iniciada. A mitsvá do Shabat é então repetida para advertir a nação de que mesmo a construção do Mishkan não suplanta a observância do dia semanal de descanso, o shabat.

A Torá retorna à narrativa da Revelação no Monte Sinai, e descreve o terrível pecado do bezerro de ouro. D'us aceita as preces de Moshê para que os filhos de Yisrael sejam poupados da aniquilação por sua grave transgressão, e Moshê desce da montanha com as duas Tábuas das Hasserát Hadevarim (Dez Palavras), conhecido como os Dez Mandamentos.

Ao testemunhar uma parcela da população dançando ao redor do Bezerro de Ouro, Moshê quebra as Tábuas e queima o ídolo, iniciando o processo de arrependimento, teshuvah do povo. Como resultado da queda do povo de seu patamar espiritual elevado, D'us anuncia que Sua presença não pode residir entre eles.

Moshê é forçado a mudar temporariamente a tenda para fora do acampamento, para que D'us continue a se comunicar com ele. Moshê novamente sobe à montanha para rezar a D'us para que perdoe o povo de Yisrael, e lhes devolva o status de povo escolhido. Moshê finalmente retorna com o segundo conjunto de tábuas e um pacto renovado com D'us; sua face aparece resplandecente como resultado da revelação Divina.

ESTUDO DO CONTEXTO LITERAL, PRÁTICO E PROFÉTICO


Iniciando o estudo dos contextos da parashá, vamos seguir por três tópicos para melhor compreender.


Não perca o Propósito


O Eterno disse a Moshê: Fale ao povo de Yisrael: Guardem meus shabatot; pois este é um sinal entre mim e vocês por todas as suas gerações; para que saibam que eu sou o Eterno que os separo para mim. Shemot/Ex 31:12-13


O Eterno criou, separou, escolheu Yisrael como seu povo para um propósito. E como vimos nos versos acima obedecer a HaShem é um sinal de que se é separado como servo do criador, e esse é o propósito, conforme podemos ver na parashá Nitzavim, veja o texto:


Convoco céu e terra para testemunharem contra vocês hoje, que eu apresentei a vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Portanto, escolham a vida, para que vivam, vocês e seus descendentes, amando ao Eterno, seu Elohim, prestando atenção ao que ele diz e apegando-se a ele, pois esse é o propósito da sua vida! Disso depende quanto tempo vocês viverão na terra que o Eterno jurou dar a seus antepassados Avraham, Yitz’chak e Yaakov. Devarim/Dt 30:19-20


Com isso em mente, podemos refletir sobre o nosso propósito, em uma mensagem extraída do site Chabad.

Ao examinar esta Porção da Torá, é interessante notar que a mitsvá de construir o Mishkan veio após a Revelação do Monte Sinai. O ponto focal do Mishkan era a Arca Sagrada, que continha as duas Tábuas. Não faria mais sentido primeiro preparar o local para colocar as Tábuas e então recebê-las? Por que o Mishkan não foi construído primeiro? Desta dúvida aparentemente simples, emerge uma poderosa lição de vida. Segundo a mensagem do mencionado site, quando vamos à loja de presentes judaicos mais próxima, frequentemente passamos muito tempo examinando o belo trabalho nos estojos das mezuzot, mas gastamos o mesmo tempo inspecionando a qualidade do rolo que vem dentro do estojo? Muitas vezes nos preocupamos com o propósito secundário, esquecendo totalmente o objetivo principal. Gastamos tempo e dinheiro adquirindo um talit muito fino e uma bolsa de tefilin, mas não mostramos o mesmo entusiasmo pelo conteúdo que ali está.

Ao colocar a construção do Mishkan após a revelação no Monte Sinai, a Torá está nos lembrando a não perder de vista este propósito. As Tábuas e os Dez Mandamentos nelas gravados são o mais importante: a Arca Sagrada que os contém é secundária. Mais tempo deveria ser gasto aprendendo e honrando a Torá que aprimorando a Arca que a contém. Será a cobertura da chalá ou a chalá nosso maior foco de atenção, a bela sinagoga como santuário ou as preces que lá são ditas? Não devemos jamais deixar de lado nossa prioridade de cumprir as mitsvot de D'us ao máximo de nossas capacidades.

Assim, devemos entender que o propósito ao qual devemos ter sempre em vista é obedecer aos mandamentos do Eterno. Seguir os exemplos dados pelo messias Yeshua na nossa caminhada diária sem perder o foco jamais, ou seja, não perdendo o propósito.


Acerte o alvo

Para muitas pessoas errar o alvo é pecar. Como desejamos entender como podemos acertar o alvo, vejamos então o contexto original do que é pecado, para então compreendermos o foco principal, que é obedecer, ou seja, acertar o alvo. Nesta parashá vemos o povo de Yisrael cometendo uma grave transgressão, um pecado.

No meu blog, “Souperegrinonaterra.blogspot.com”, você encontra um estudo sobre o assunto, que trarei alguns pontos aqui para completar nosso entendimento.

Nesse pequeno estudo quero te mostrar o que é pecado de acordo com a visão bíblica e no contexto original. Claro que aqui não esgotaremos o assunto, mas será apresentado para você noções importantes para que venha ao entendimento sobre o pecado.

Na teologia a matéria que estuda o pecado chama-se "hamartiologia". Este termo vem da junção de duas palavras gregas: "hamartia", que significa "transgressão", "pecado" ou "errar o alvo" e "logia" que significa "estudo" ou "doutrina". Então "hamartiologia", de acordo com a teologia, é a doutrina que estuda o pecado e suas consequências. 


O pecado no cristianismo

Quando se estuda esse tema, na maioria dos livros teológicos cristãos e bíblias de estudo, como a "Bíblia do Pregador Pentecostal" da SBB, eles nos dão a seguinte informação:

"No Antigo Testamento (AT), o pecado é visto como uma transgressão direta à "Lei de Deus", caraterizado por um erro moral do homem que o torna culpado diante de D’us. Já no Novo Testamento (NT), o pecado é um mal impregnado na própria natureza pecaminosa do homem que o mantém cativo até que ele encontre a libertação em JC." Página 2013.

Essa forma de expressar deixa parecer que o pecado é diferente no AT e no NT. Eles dão a entender que somente no AT o pecado é uma transgressão à Lei de Deus, e que no NT ele é algo mais sério, mais profundo.

Contudo, será que é isso o que a Bíblia nos ensina a esse respeito? Ou isso é mera especulação teológica/filosófica?

Perceba que o tipo de pensamento sobre o pecado que é ensinado em todo o mundo cristão, vem de filosofias e pensamentos de homens que são considerados grandes homens na história do cristianismo, e eu não estou aqui para desmerecer a nenhum deles, mas para que possamos aprender a olhar para a bíblia, principalmente a Torah e os profetas, e não para a teologia. Claro que se eles criaram essas idéias foi com a permissão do Eterno, mas isso não quer dizer que seja a verdade.

Então vou te mostrar mais algumas referências cristãs sobre o pecado e seus enganos, antes de passarmos para o significado hebraico e verdadeiro.

Segundo McGrath, um renomado teólogo, sobre a natureza do pecado, Agostinho afirmava que toda a humanidade é afetada pelo pecado em consequência da queda. Ele diz que a mente humana tornou-se obscurecida e enfraquecida pelo pecado. Ele fez com que se tornasse impossível para o pecador pensar com clareza e, especialmente, compreender verdades e idéias espirituais elevadas. Também que a vontade humana foi enfraquecida pelo pecado. E principalmente, para Agostinho, o homem não tem controle sobre sua natureza pecaminosa.

O dicionário bíblico Wycliffe diz o seguinte: A maioria das definições de pecado é excessivamente restritiva. Por exemplo, uma definição usual, a de que o pecado é o egoísmo, significaria que um pai que rouba comida para uma criança faminta não estaria cometendo pecado. O pecado é iniquidade diz 1Jo 3:4, mas normalmente isto é interpretado em sentido muito limitado. A lei contra a qual se estima o pecado não é simplesmente a lei mosaica, mas sim toda e qualquer revelação de Deus durante todos os tempos. Isto inclui os mandamentos específicos da bíblia (tanto os positivos quanto os negativos) os princípios bíblicos de conduta (por exemplo 1Co 10:31) e leis que não se mencionam especificamente na bíblia sagrada, mas que podem ser consideradas diretrizes dadas pelos líderes indicados por Deus (por exemplo Hb 13:17 e Ef 6:1).


As palavras originais para pecado

Vamos agora entrar nas palavras originais a fim de buscarmos compreensão do assunto abordado.

Primeiramente devemos entender que a palavra "pecado" em português vem do latim "peccatum" e aparece pela primeira vez em Gn 4:7, na tradução chamada "Vulgata Latina de Jerônimo". Seu significado é "desejo", "concupiscência".

Conforme já mencionamos no início desse estudo, no grego é "hamartia", significando "transgressão", "pecado". Porém, no chamado NT ainda aparecem mais 12 palavras básicas para descrever pecado, conforme podemos ver no dicionário Wycliffe.  Essas palavras também podem trazer outras variações que levam o entendimento para mau, iniquidade, impiedade, culpa, prostituição, entre outros.

No hebraico também há tantos termos que denotam o pecado e o mau, e trataremos de pelo menos três, para que possamos ter um entendimento mais claro a respeito do pecado. De acordo com o entendimento da Toráh e do povo do Eterno, pecar contra D'us significa ignorar ou transgredir a vontade divina, violando um ou mais mandamentos da Toráh referente a nosso relacionamento com o Rei do Universo.

Segundo o site "Shemah Yisrael", na Toráh, diferentes palavras hebraicas são usadas para descrever diferentes tipos de pecado. E aqui é o momento de te fazer uma pergunta: Todo pecado é igual? Afinal, muitos dizem por aí que não existe pecadinho ou pecadão. Todo pecado é considerado pelo Eterno de forma igual, diante das Escrituras? Onde está a verdade? Os termos que aparecem na Toráh para os diferentes tipo de pecado são:

חטא - cheth - 18 - e suas variações, que significa pecado, delito mas também uma das variações, o "chatá", significa errar o caminho, errar o alvo. Esses termos são usados quando o pecado é cometido por erro ou por descuido, e há os que dizem que este termo também se refere à quebra do relacionamento com o Eterno diretamente.

עוון - avon - 132 - que significa pecado, delito, iniquidade, culpa, é utilizada quando o pecado é fruto de desejo ou paixão, e também se refere ao relacionamento com o próprio homem com seu semelhante. Também tem conotação com desonestidade, ou afastar-se intencionalmente do caminho da justiça de D'us. E caso se pergunte se é daqui que a empresa de cosméticos tira seu nome, sim, é, devido ao significado que a palavra trás sobre desejo e paixão.

פּשׁע - pesha - 450 - que significa pecado, delito, rebelião ou prevaricação, é utilizada para designar um ato de rebelião contra o criador, afastamento de D'us, desvio consciente. Esse termo não é usado apenas para designar uma falha, mas designa quando alguém vai além dos limites fixados por D'us, quando rebela-se contra sua autoridade.

Extraído de parte de um midrash vemos que a Toráh concorda que o pecado seja um ato prejudicial. Concorda também que é uma ruptura do fluxo de vida do Criador para a criação. De fato, a Torá é a fonte tanto da perspectiva da Sabedoria como da Profecia sobre o pecado. Mas a Toráh também vai além de ambos, ao reconhecer que a alma do homem, voluntária e conscientemente, jamais faria algo tão tolo.

O pecado, diz a Toráh, é um ato de insensatez. A alma "perde a cabeça", e num momento de irracionalidade e confusão cognitiva faz algo contrário a seu verdadeiro desejo. Então o pecado pode ser transcendido, quando a alma reconhece e identifica a tolice de sua transgressão, e reafirma sua verdadeira vontade. Então o verdadeiro "eu" da pessoa transparece, revelando que o pecado foi de fato cometido apenas pelo "eu" mais externo e maleável da alma, ou seja, a yetser hará, ao passo que seu "eu" interior jamais esteve envolvido.

E o que diz D'us? D'us, é claro, criou as leis da natureza (tanto físicas como espirituais) e a Sabedoria que reconhece como elas funcionam. D'us é a fonte da vida, e é Ele quem decreta que a vida deveria fluir para a alma humana através de um canal construído (ou rompido) pelas ações do homem. E D'us nos deu a Toráh e suas fórmulas para a sanidade espiritual, auto-conhecimento e transcendência. Portanto, D'us é a fonte das primeiras três perspectivas sobre o pecado.

Mas há uma quarta perspectiva que vem unicamente de D'us: o pecado como uma oportunidade para o "retorno" (teshuvá).

Teshuvá é um processo que, em sua forma máxima, nos possibilita não apenas transcender nossas falhas como também redimi-las: literalmente, voltar no tempo e redefinir a natureza essencial de um ato passado, transformando-o de mau em bom. E é justamente o ponto em que devemos perceber ou seja, acertar o alvo. E acertar o alvo é claramente cumprir os mandamentos de HaShem! Claro que isso é apenas uma forma ilustrada de falar, pois obedecer ao Eterno é o nosso principal objetivo, o propósito. E tudo que falamos até agora, nos leva ao último ponto.


Transformando maldições em bênçãos

Como vimos no último parágrafo, a teshuvah é a forma de transformar o mau feito em arrependimento e mudança de atitude, gerando assim bênção, que são decorrentes da obediência. O autor Bruno Summa em um de seus comentários dessa parashá fala exatamente sobre essa transformação. Ele começa esse comentário pelo seguinte texto:


À ti, meu mestre, pertence a caridade, mas à nós, a vergonha. Dn 9:7


O autor diz que apenas nos basta colocarmos na balança tudo que HaShem faz para nós para que vejamos o quão indignos somos de Seu amor e de Sua bondade. Nesse texto, vemos Daniel dizendo que a caridade de HaShem à Sua criação é tão grande que, por mais que façamos em Seu nome, no final do dia, apenas nos restará o sentimento da vergonha. E mostra que jamais seremos capazes de recompensar 1% de tudo que HaShem nos dá diariamente, inclusive àqueles que nem de longe merecem algum ato de bondade divina. À HaShem pertence a caridade, e graças a isso Ele nos criou, nos sustenta e nos mantém mesmo sabendo que nós O decepcionamos diariamente, e é por isso tudo que apenas nos resta a vergonha. O citado autor ainda diz que, o sentimento de vergonha por nosso pecados perante a bondade do Eterno não trata de arrependimento, não trata de humildade e não trata de Tshuvah, mas trata de reconhecimento de nossas incapacidades, de nossa carência de HaShem e de quão grande e bom Ele é. Desenvolver essa percepção e o sentimento de vergonha dentro de nós possui um poder que poucos conhecem, um poder que não é encontrado em nenhum outro tipo de conscientização sobre nossa realidade, seja ela física ou espiritual.

Esse comentário ainda diz que há um verso na Torah que fala sobre isso, sobre a vergonha, sobre o reconhecimento e sobre a bondade de HaShem, porém, não de forma clara, veja abaixo:


Olhe para baixo (HASHKIFAH) de Sua santa habitação, dos céus, e abençoe Seu povo Yisrael e o solo que nos deste, uma terra que emana leite e mel, conforme prometestes aos nossos pais. Dt 25:15


Esse versículo fala sobre a súplica de Moshê por bênçãos, sobre a bondade do Eterno em nos dá-las e sobre a vergonha, e essas três coisas se encontram na forma como Moshê se dirige a HaShem. Em sua súplica Moshê não pede segundo seus méritos, mas segundo a promessa feita aos patriarcas, ou seja, segundo as misericórdias do Eterno. Moshê não pediu bênçãos pelo que havia feito, mas pediu bênçãos pela bondade que HaShem teve ao prometê-las. Esse é um detalhe oculto e sensível que há nas palavras da Torah.

E de acordo com o autor, há um outro detalhe nesse versículo, pois ele começa com a palavra הַשְׁקִיפָה֩ HASHKIFAH – olhe para baixo – é uma palavra utilizada também para expressar a ação de “olhar” em outros versículos no TaNaK. Confira as referências abaixo:

- Gn 19:28,

- Ex 14:24,

- Jz 5:28,

- II Rs 9:32,

- Pv 7:6-7.

Os cinco textos acima possuem palavras com a mesma raiz de הַשְׁקִיפָה֩ HASHKIFAH, eles falam sobre desgraças e maldições, destruição de Gomorra, pânico no exército egípcio, tristeza da mãe de Sisera, solidão e falta de bom senso. Esses cinco textos nos levam a entender que por trás dessa palavra se esconde o julgamento que se opõe à bondade de HaShem. E aqui está uma dificuldade. Se HASHKIFAH alude à maldições, como pôde essa palavra iniciar o versículo que fala sobre as bênçãos que provém da bondade de HaShem conforme vemos no livro de Devarim?

Em todos os seis versos onde esse termo aparece, o único que fala sobre a vergonha, que é o reconhecimento da grandeza de HaShem e da incapacidade humana, é justamente o do Livro de Deuteronômio, é apenas nesse versículo que HASHKIFAH deixa de ser uma maldição e se torna bênçãos. E o que entendemos? Segundo Bruno Summa, o sentimento de vergonha, que a compreensão de que não somos dignos de nada, que o entendimento que dependemos de HaShem para tudo, inclusive respirar, quando desenvolvido dentro de nossas consciências e ele começar a influenciar nossas vidas e nossos serviços divinos, todas as maldições que foram lançadas sobre nós se tornarão bênçãos. Em cinco versos o termo aparece como maldições, mas no único que a palavra aparece justaposto à ideia de vergonha, vemos bênçãos, vemos leite emanando e vemos a doçura do mel.

Tudo isso, nos mostra que não somos dignos ou merecedores de nada, apenas a vergonha de tudo que o Eterno faz por nós. E ter consciência disso nos leva a crescer na obediência a cada dia, nos levando a manter os olhos no propósito, a acertar o alvo. E tudo que antes era maldição, desobediência e falta de reconhecimento do que o Eterno é, se transforma em bênçãos, tão ricas e doces como o leite e o mel.


Que HaShem lhes abençoe!


Pr/Rav. Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Estudo da Parashá Tetsave - 2023-2024 - Seja luz do mundo!


 

Estudos da Torá

Parashá nº 20 – Tetsavê (Ordena!)

Shemôt/Êxodo Ex 27:20-30:10,

Haftará (Separação) Ez 43:10-27, e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Hb 13:10-16 e Fp 4:10-20


Tema: Seja luz do mundo!


No estudo dessa semana veremos um pouco sobre os apontamentos que podem ser encontrados na Torah sobre o óleo ou azeite de oliva para o remanescente que vive segundo os mandamentos do Eterno, bem como sua ligação com a menorah e com os ensinos do messias.

RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA


Através de um resumo dessa parashá podemos perceber que seguindo-se aos mandamentos detalhados da porção da última semana a respeito da construção do Mishkan, a parasha Tetsavê começa com a mitsvá diária dada a Aharon e seus filhos de abastecer a menorá no Mishkan com puro azeite de oliva.

D'us descreve a Moshê as vestes especiais que devem ser usadas pelos Cohanim durante o serviço, tecidas e adornadas com materiais doados pelo povo. Os Cohanim comuns envergavam quatro vestimentas especiais, ao passo que quatro vestes adicionais deveriam ser vestidas exclusivamente pelo Cohen Gadol.

A porção da Torá então transfere sua atenção aos mandamentos de D'us referentes ao melu'im, inauguração ritual para o Mishkan recentemente construído, a ser realizada exclusivamente por Moshê por sete dias.

A porção Tetsavê também inclui as instruções detalhadas de D’us para a iniciação de sete dias de Aharon e seus quatro filhos, Nadav, Avihu, Elazar e Itamar no sacerdócio, e pela construção do Altar de Ouro sobre o qual o ketoret (incenso) era queimado. Todas estas ordens são na verdade realizadas na porção conclusiva de Shemot, a Parashat Pekudê.

ESTUDO DO CONTEXTO LITERAL, PRÁTICO E PROFÉTICO


Na Parashá passada, de acordo com o site Shema Ysrael lemos que o Eterno deu a Moshê instruções detalhadas sobre como construir o santuário e coletar com os israelitas os materiais para construí-lo.

E esta Parashá começa com o mandamento para os filhos de Yisrael trazerem o puro azeite de oliva para a menorah que ficava no Mishkan (Santuário), a fim de que as lâmpadas na tenda da reunião queimem continuamente, conforme podemos ler no texto abaixo:


Tu pois ordenarás aos filhos de Israel que te tragam azeite puro de oliveiras, batido para a menorah; para fazer arder as lâmpadas continuamente. Êx 27:20


A importância da menorah


Precisamos compreender que o Eterno através da Torah quer nos ensinar que cada ato feito pelas pessoas justas naquela época está refletido nesta ordem! Muito além daquela época, o mesmo pode ser dito para nossos dias. De acordo com o site já mencionado, vemos aqui os dois lados da questão: do lado do Eterno a bondade e o carinho no trato com seus filhos, e de outro lado a responsabilidade de quem tem autoridade, pois ser-lhe-á cobrado no futuro como essa pessoa exerceu aquilo que lhe foi confiado pelo Eterno.


Mantenha sempre em ordem as lâmpadas da menorah de ouro puro perante o Eterno. Levítico 24:4


A ordem do Eterno no verso da parashá e no que acabamos de ver, nos mostram a obrigatoriedade e a necessidade de haver o azeite puro para alimentar a menorah, e para os que se dedicam no estudo, mostra também seu apontamento profético. Note que sem o azeite a menorah não dá luz, e consequentemente não ilumina! O Eterno aqui nos ensina que a menorah com azeite é indispensável em nossa caminhada com Ele! Alguns tem a menorah, porém sem azeite; outros tem o azeite, porém não tem a menorah! Temos aqui demonstrada a interdependência daquilo que recebemos de HaShem. Ou seja, precisamos do Espírito mas também da sua unção! Não adianta querermos ter somente o poder do Eterno sem atuarmos em comunhão e sob a sua direção. Isso seria algo extremamente danoso para o Corpo do Messias. Mas é isso que geralmente estamos vendo no meio daqueles que professam ser servos de D-us. Falta-nos a instrução a fim de entendermos quais são os processos usados pelo Eterno a fim de caminharmos com Ele! E para adquirir essa instrução, somente através da observância da Torah com práticas, uma vez que ela é a instrução, orientação e ensino do Eterno.

Para alguns falta o entendimento de que o Eterno estabeleceu sua vontade por meio de sua Torah, que continua em pleno vigor e foi ensinada pelo messias Yeshua. Para outros que até tem a Torah, mas lhes falta o entendimento de que o messias já veio e cumpriu parte das profecias, ou seja, compreender e aceitar que Yeshua é o messias e ensinou a Torah e como cumpri-la de forma limpa, sem halachot ou dogmas que gerem peso sobre seu povo.

O óleo também foi usado na cerimônia de ordenação dos sacerdotes. Conforme outro estudo dessa parashá no mencionado site, não foram só as cabeças dos sacerdotes ungidos com ele, mas eles também apresentaram ao Eterno uma oferenda movida dos pães ázimos, preparados com óleo. Para a oferta da manhã, os sacerdotes ofereciam um cordeiro de um ano com a melhor farinha, óleo de olivas prensadas e vinho.


Apontamentos do Óleo para a vida do povo

O óleo representa a unção, que em hebraico tem a mesma raiz de Mashiach, (Messias), que significa, o ungido. Como lemos a seguir:


Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntos se mancomunam contra o Eterno e contra o seu ungido (M’shichoh). Sl 2:2


A unção tem estreita ligação com o fluxo do azeite puro, que representa duas coisas:

1) a árvore verde de oliva, que representa paz, ou em hebraico shalom; e

2) o óleo de oliva puro que é extraído das azeitonas trituradas para remover os sucos amargos.

Podemos também aprender com a colheita da oliva.

A produção de azeite em Yisrael é um processo interessante que tem trazido a vida a muitos e também lições sobre seu potencial latente. Os trabalhadores vêm e espalham grandes folhas debaixo das árvores e em seguida, usando varas, batem nos ramos até que caiam as azeitonas. Então reúnem aquelas folhas com as olivas recolhendo-as, e a transformam em puro azeite.

Assim como as olivas são espancadas para fora das oliveiras, e depois são reunidas para depois serem espremidas ou trituradas para obter o óleo, da mesma forma, somos nós, através de diversas provações e dificuldades em nossas vidas.


Denominou-te o Eterno oliveira verde, formosa por seus deliciosos frutos. Jr 11:16.   


Assim como é preciso uma batida grande para tirar as azeitonas dos ramos, às vezes, parece que estamos levando uma surra na vida, também. Para fazer as azeitonas palatáveis e obter o puro azeite de oliva, o amargo suco é retirado depois de espremido em uma prensa de azeite. Desde que as olivas verdes produzem um óleo mais amargo, eles permanecem sob a pedra do moinho por 30 ou 40 minutos, ou em algum momento numa rocha pesada, para extrair a amargura e melhorar o sabor.

Então, assim também se faz, naquelas sucos amargos, ou pessoas que precisam ser pressionadas e espremidas para os colocar em ordem, a fim de que possamos ser usados pelo Eterno. E assim como levou o melhor e mais puro azeite para acender as lâmpadas no Mishkan, temos também o óleo puro da unção para queimar brilhantemente para o Senhor.

Segundo o Shema Ysrael, apesar da surra, a prensagem e moagem que experimentamos, devemos ser pacientes e não desistir da esperança. A epístola de Tiago diz que é preciso permitir ter paciência para fazer o seu trabalho quando somos testados, para que nós sejamos completos e inteiros, sem nada mal em nossas vidas (Tg 1:2-4). Só então, nós acabaremos com suficiente azeite puro para manter nossas lâmpadas acesas até o raiar do dia.


Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Pv 4:18


Como seguidores, devemos nos preparar para que tenhamos óleo suficiente em nossas lâmpadas para durar até o retorno de Yeshua. Podemos nos lembrar de uma história que se passou com o povo de Yisrael, que envolve o azeite, que gerou a tradição da Festa de Chanuká, pois em meio á uma grande aflição e de vitória sobre um inimigo poderoso, houve um milagre que fez o óleo durar tempo suficiente para a produção de mais. E assim, também ocorre com cada um de nós.

Nos momentos difíceis, mesmo que nós tenhamos apenas um pouco de azeite, ou seja, um pouco de unção, apenas o suficiente para luz, HaShem pode fazer um milagre e o óleo de nossa lâmpada poderá durar até que Ele faça com que Mashiach venha para nós. Como lemos na parábola das cinco virgens prudentes contada por Yeshua em Mateus 25:1-13, precisamos de sabedoria para nos preparar para o tempo que temos de esperar, especialmente se o Noivo parece demorar.


Yeshua disse, “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. Mt 24:13


Ainda podemos aprender mais sobre o óleo da oliva.

O Azeite usado para a menorah era extraído da primeira prensa, a primícia do óleo da oliva. Aprendemos uma grande lição do fato de que utilizava-se apenas as primeiras gotas de óleo para o acendimento da menorah, enquanto que, para oferendas, o óleo da segunda prensagem também era permitido.

Um judeu observante da Torah, em geral, procura garantir que o alimento que sua família consome seja kasher. Mas este mesmo indivíduo, está bem menos preocupado com o “alimento para o intelecto” que entra em sua casa sob a forma de literatura ou mídia.

De acordo com o mencionado site, do ponto de vista da Torah, o “óleo para a menorah”, que representa o intelecto, deve ser o mais puro possível. O azeite para a menorah é superior ao óleo da oferenda (simbolizando nutrição). A Torah insiste que nossas mentes devem ser nutridas apenas com informações que sejam as mais puras e refinadas.

Reflitamos na seguinte questão: Por que D’us escolheu o óleo de oliva para o acendimento das luzes do santuário, em vez de qualquer outro tipo de óleo?

A resposta é que o povo de Yisrael é comparado à oliva, por alguns motivos:

- A oliva emana seu precioso líquido apenas depois de ter sido processada através de prensagem e batidas. Similarmente, como resultado de terem sido banidos de um lugar para outro pelos outros povos e terem sido perseguidos, o povo de Yisrael purifica seus corações e retornam a D’us, através da teshuvah. A essência interior de um judeu precisa ser pura. É só sua má inclinação que o impede de servir a D’us. Uma vez que a camada exterior é removida por pressão externa, sua natureza de santidade se reafirma, assim como o primeiro óleo da oliva.

- Todos os líquidos, quando misturados, mesclam-se numa mistura homogênea. O óleo de oliva é uma exceção; não se mistura, mantendo-se separado. Assim também, o povo de Yisrael é a única nação na história que não foi engolida pelos povos mas, guardou, e continuará guardando para sempre, sua identidade distinta. Ainda que a Casa de Yisrael tenha sido espalhada pelo e tenha sido assimilado, sempre há os remanescentes que continuam com as características do povo. A Casa de Judá se manteve firme em algumas características, mas ainda assim também se afastaram por causa do grande números de halachot que criaram, mas sua essência mantém. E o povo de Yisrael, conforme já dissemos é a junção das duas Casas, sendo formados por judeus, remanescentes que estavam nas nações e ex-gentios.


A luz da Torah

Segundo o site Chabad, Rabi Moshê Feinstein comentando sobre a ordem de ter azeite para a menorah, explica que esta é uma tradição bem conhecida, que a menorah representa nossa mais preciosa fonte de sabedoria e direcionamento, a Torá. Assim como a menorá era uma constante e infalível fonte de luz nos mais recônditos do santuário o palácio terreno de D'us, assim também a Torá deve servir como uma tocha corajosa a nos guiar através dos abismos de nossa existência. É por essa razão que a mitsvá do acendimento da Menorá foi separado dos outros comandos sacerdotais, para nos ensinar que as lições que são inerentes e simbolizadas por ela dizem respeito a todo aquele que está em teshuvah, ou seja, voltado para o Eterno e suas leis. A Menorá nos ensina muitos métodos importantes de aprender a preciosa Torá de D'us, bem como divulgar sua sabedoria a outras pessoas.

Por exemplo, a Torá nos exorta que o azeite usado deve vir de azeitonas que foram "katit", explicado pelo Rashi que devem ser prensadas à mão, em vez de uma prensa mecânica. Este detalhe aparentemente menor nos ensina que para adquirir verdadeiramente o aprendizado da Torá, a pessoa deve utilizar todas suas energias e potencial, e empenhar-se realmente na firme busca do dom da sabedoria concedido por D'us ao povo de Yisrael.

Não há atalhos ou seminários relâmpago para atingir-se um verdadeiro entendimento da Torá. Também, assim como uma vela é acesa mantendo-se a chama no pavio por tempo suficiente para que o fogo pegue e queime por si mesmo, assim também um professor deve imbuir seus alunos com sabedoria até que eles sejam capazes de apreender a informação e desejar ainda mais conhecimento por sua própria iniciativa, o supremo objetivo do professor. E cada um de nós que estamos em teshuvah, aprendendo, praticando e vivendo a Torá somos em algum momento professor ou tutor de alguém. Por isso devemos estar sempre prontos e pra isso é necessário dedicação ao estudo da Torá, pois para sermos luz devemos ter luz em nós mesmos. Uma frase no site Chabad me chamou atenção por estar ligado com nosso tema, veja: “A Torá é eterna e lá está para que a estudemos a qualquer tempo - e agora é o tempo de abri-la e vermos os tesouros que ela contém.” Eu pessoalmente lhes digo, há tesouros escondidos nela! E muitos, pois já há quase dez anos de teshuvah, e ano a ano tenho aprendido muito e sempre me surpreendo ao iniciar novamente.


O ensino de Yeshua sobre a luz


No estudo d
a parashá Behaalotechá de 2022, expliquei sobre o significado dessa palavra, que literalmente quer dizer quando fizeres subir, fazendo referência às chamas de fogo do candelabro que faziam subir, ou que ardiam. Também se entende que, quando iam acender a menorah, subia-se em uma plataforma com escadas para facilitar o acendimento das lâmpadas, por isso, o termo quando subires.

Aharon acende a menorah conforme a ordem de Adonai. Podemos perceber que o conjunto que proporciona luz está aceso de acordo com a ordem daquele que é o Eterno, que deseja ser a luz para todos os homens através de seu Mashiach. Observe que a palavra “ordenar” em hebraico é “TSAWA” significando ordenar, incumbir. A raiz dessa palavra designa a instrução de um pai para seu filho, de um fazendeiro a seus lavradores, de um rei a seus servos, ou seja, de alguém que tem autoridade sobre outro. O acendimento da Menorah era uma incumbência que fora dada pelo Eterno aos levitas, pois a eles seria dado o privilégio de trazerem a luz ao Mishkan, iluminando assim a Palavra do Eterno. E do mesmo modo que aos levitas foram designadas esta incumbência, a nós hoje como sacerdotes do Eterno em Yeshua, devemos também trazer luz à Palavra do Eterno, para que as pessoas possam vir ao conhecimento dessa Palavra que é a luz a todos os homens, conforme lemos em:


Sl 119:105 - A tua palavra é lâmpada para os meus passos e luz que clareia o meu caminho.


Mt 5:14-16 - Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.


Voltando ao termo Behaalotechá, mesmo não sendo a parashá dessa semana, mas a palavra tem muito em comum com o que estamos estudando. O Eterno usou esse termo, que não é muito usual no contexto de acender a menorah, dizendo: “Behaalotechá – quando você fizer subir” em vez de “behadlicchá – ao acender”. Dentre outras implicações, este termo denota: “Você será elevado” cumprindo a mitsvá (mandamento), os servos do Eterno tornam-se espiritualmente elevados. Mas e o porquê disso?


Segundo a tradição, Moshê não conseguia compreender porque D’us desejava que uma menorah fosse acesa no Santuário, pois toda vez que ele entrava, encontrava o Mishkan brilhando com o esplendor da Shechiná (Presença) do Eterno. Então, como poderiam as luzes da pobre menorah terrestre serem comparadas ao esplendor que a Shechiná irradiava? Por esse motivo o Eterno disse a Moshê a palavra “Behaalotecha”, ou seja, você se tornará espiritualmente elevado acendendo a menorah. Ou seja, a menorah não era para o Mishkan, mas para o próprio homem.

Assim, nunca pense que o Eterno precisa de nossa luz! Pelo contrário, nós precisamos da luz dele. Dessa forma, para demonstrar isso, o Todo Poderoso, ordenou que os três braços de cada lado fosse inclinado para o centro e não para fora. Demonstrando assim, que nós dependemos dele, mas também como falamos, que nós precisamos trazer luz sobre a Torah do Eterno para que os outros a vejam.


Que HaShem lhes abençoe!


Pr/Rav. Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)