Estudos da Torá
Parashá nº 26 – Shemini (Oitavo)
Vayicrá/Levítico 9:1-11:47
Haftará (separação) 2Sm 6:1-19
Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mc 7:1-23; Gl 2:11-16.
O Eterno é importante para você?
Vivemos dias em que muitos dizem amar o Eterno, muitos falam sobre Ele, muitos até se aproximam dEle. Mas a parashá Shemini nos confronta com uma pergunta profunda, desconfortável e absolutamente necessária: O Eterno é realmente importante para você?
Não estou falando do que dizemos. Nem das palavras que usamos. Nem mesmo da aparência de devoção. Estou falando daquilo que sustenta nossas decisões, nossas prioridades e nossas ações no dia a dia.
Essa não é uma pergunta para ser respondida com palavras, mas com vida. Pois há uma grande diferença entre se aproximar do Eterno e santificá-Lo ao se aproximar. Nas parashiot anteriores aprendemos a nos aproximarmos do Eterno. Nesta o Eterno nos revela que nossa aproximação deve santificá-Lo e isso não pode ser de qualquer jeito. E é exatamente isso que aprendemos com Aharon, com seus filhos, e com o fogo que tanto revela quanto consome, mostrados nessa porção.
Venha comigo até o final e descubra informações importantes que te ajudarão a ampliar seu relacionamento com o Eterno e mostrarão se HaShem é importante para você.
RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA
A porção em Vayicrá capítulos 9–11 começa com grande expectativa. É o oitavo dia, o dia em que Aharon e seus filhos iniciam seu serviço como kohanim. Após dias de preparação, finalmente o povo testemunha algo extraordinário: quando os sacrifícios são feitos conforme as instruções, a kavod do Eterno se manifesta, e fogo sai de diante dEle para consumir a oferta sobre o altar. O povo vê, se alegra e se prostra. Aqui aprendemos algo essencial: quando há obediência, a presença do Eterno se revela.
Mas, a alegria é interrompida por algo terrível. Nadav e Avihu, filhos de Aharon, se aproximam trazendo “fogo estranho”, algo que o Eterno não ordenou. E então, do mesmo lugar de onde saiu fogo para aceitar a oferta, sai fogo para consumi-los. O mesmo Eterno, a mesma presença que trouxe aceitação e alegria, agora trouxe julgamento e punição.
E então vem um dos momentos mais profundos de toda a Torá: Aharon se cala diante do que o Eterno proclamou. Esse silêncio fala mais do que muitas palavras. Ele não questiona, não murmura. Ele reconhece que o Eterno é justo. Como está escrito: “Serei santificado naqueles que se aproximam de Mim.” (Vayicrá 10:3)
Depois disso, o Eterno estabelece instruções importantes para os kohanim: discernir entre o santo e o comum, entre o puro e o impuro. E então, no capítulo 11, Ele amplia esse princípio para todo o povo, ensinando quais animais são alimentos e próprios para consumo e quais não são.
E o Eterno declara: “Sede santos, porque Eu sou santo.” (Vayicrá 11:44). Veja, não é apenas um chamado aos kohanim, mas a todo Yisrael. A santidade não é opcional, é a identidade do povo que pertence ao Eterno.
Assim, a parashá Shemini nos deixa três marcas profundas:
A obediência traz a manifestação da kavod do Eterno
A desobediência, mesmo de quem está próximo, traz juízo
A santidade deve permear toda a vida, até os detalhes mais simples
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
A parashá começa com alegria, expectativa e manifestação da kavod (glória) do Eterno. Tudo foi feito conforme Suas instruções e por isso Sua presença se revelou. Porém, o contraste é imediato: os mesmos que estavam próximos, Nadav e Avihu, erram não por rejeitar o Eterno, mas por não obedecer exatamente ao que Ele ordenou. Eles não seguiram o princípio estabelecido, olharam para a aparência. Há interessantes discussões rabínicas sobre essa situação que mostram claramente a importância que se deve dar ao Eterno e aos seus mandamentos na prática.
Assim, esse contraste entre a alegria da presença do Eterno com a tristeza gerada pela falta de zelo na presença, nos conduz ao tema central: Não basta se aproximar do Eterno, é necessário santificá-Lo ao nos aproximarmos. Nossa vida como servos deve elevar mais a santidade de HaShem diante das pessoas. Afinal, sabemos que o Eterno é santo e não precisa do homem para isso.
Resta-nos portanto, responder sinceramente uma pergunta: O Eterno é importante para você? Porque a forma como nos aproximamos responde essa pergunta.
1 – Santificar o Eterno ao se aproximar
“Serei santificado nos que se aproximam de Mim e serei glorificado na presença de todo o povo”. Vayirá 10:3
Vemos nessas palavras o peso da responsabilidade de se achegar ao Eterno. Não pode ser de qualquer jeito. Então vamos refletir um pouco na palavra usada para “aproximar-se” (קָרַב – karav) é a mesma raiz da palavra “oferta” (קרבן - korban). Ou seja, aproximar-se do Eterno não é algo comum, é um ato de entrega, de alinhamento, de submissão.
Outra palavra usada no verso acima para “santificado” vem da raiz hebraica קָדַשׁ (kadosh), que significa: separar, distinguir, tratar como diferente, consagrar como exclusivo. Podemos então perceber que “Santidade” (kedushá) não é apenas pureza moral. É separação absoluta do comum.
Assim, devemos compreender que santificar o Eterno significa:
Reconhecer que Ele não é comum;
Não tratá-Lo como qualquer coisa;
Não servi-Lo segundo nossos padrões humanos.
Nadav e Avihu falharam exatamente aqui: “trouxeram fogo estranho perante o Eterno, o que Ele não lhes ordenara.” Vayicrá 10:1. Eles não rejeitaram o Eterno. Eles apenas fizeram algo no serviço, que HaShem não pediu. E isso foi suficiente.
O TaNaK dá testemunho, mostrando a verdade de que o Eterno não aceita aproximação leviana. Encontramos esse assunto em Shmuel Beit/2Sm 6:6-7, quando Uzah toca na arca para “ajudar” e morre. Sugiro dar uma lida nesse relato. Aprendemos nesse contexto que boa intenção não substitui obediência. O Eterno não precisa da criatividade humana para ser servido. E foi exatamente isso que levou à morte de Uzah.
Outro importante texto, já mencionado em estudos passados é:
“E eis que obedecer é melhor do que sacrificar, e atender melhor é do que a gordura de carneiros.” Shmuel Alef 15:22.
O Rei Shaul desejou “fazer algo para o Eterno”, porém, desobedecendo às instruções dadas por Ele. Quis fazer do seu próprio jeito e isso levou à um resultado triste: rejeição por parte do Eterno.
Há também um texto do Rei Shlomoh que posso mencionar aqui: “Guarda o teu pé quando entrares na casa do Eterno…” Qohelet/Ec 5:1. Aproximar-se do Eterno exige cuidado, consciência, temor e submissão.
Os sábios do povo de Yisrael também tremeram diante deste assunto, o Midrash Vayicra Rabá 12:2 mostra Moshê falando a Aharon que pensava que o Eterno seria santificado por ele ou por Aharon, mas foram seus filhos. Demonstrando que os rabinos entenderam que quanto mais próximo, mais exigido é da pessoa. No Talmud tratado Eruvin 63a é ensinado que Nadav e Avihu erraram ao decidir por si mesmos, tomaram iniciativa espiritual sem instrução. O que, segundo os rabinos, mostra que servir ao Eterno não é por meio de improvisos. E ainda Rashi, comentando esse verso diz que, o silêncio de Aharon foi aceitação da justiça do Eterno, e por isso ele foi honrado. Segundo o rabino, o verdadeiro temor não questiona a santidade do Eterno.
Com tudo isso, fica claro que HaShem não diz apenas que será glorificado, Ele diz que será santificado naqueles que se aproximam. Portanto, significa que:
- Quem se aproxima dEle carrega responsabilidade maior.
- A proximidade exige pureza, obediência e temor.
Nadav e Avihu não estavam longe, estavam perto demais, entretanto, sem temor suficiente.
2 – Yeshua e os Talmidim o mesmo Princípio
Yeshua a quem consideramos o Mashiach por diversas razões, nunca ensinou um caminho diferente da Torá. Pelo contrário, ele sempre confirmou as instruções do Eterno como válidas para seu povo e para quem deseja servir à HaShem, com mais profundidade. Matityahu em seu relato da vida e das palavras de Yeshua, no capítulo 7:21, mostram o mestre dizendo: “Nem todo o que me diz: ‘Adon, Adon’, entrará no reino, mas aquele que faz a vontade de meu Pai…”. Muitos fazem coisas “em nome” do Eterno ou dizendo que é para Ele, mas não fazem a vontade dEle.
Outro relato das palavras do Mashiach, foi quando ele disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.”, relatado por Yochanan 14:15. Quais eram os mandamentos dele? Os que o Eterno havia dado, a Torá. E aprendemos que o amor não é emoção, é obediência.
Os talmidim também ensinaram esse princípio da Torá. O escritor da carta aos Ivrim (Hebreus) disse: “Sirvamos ao Eterno de modo agradável, com reverência e temor; porque o nosso Elohim é fogo consumidor.” Ivrim 12:28-29. O mesmo fogo que desceu em Vayicra 9 para aceitar o sacrifício, desceu em Vayicrá 10 para julgar e consumir Nadav e Avihu. O Eterno não mudou.
O ponto central é que não é do nosso jeito. Como já disse no início, o grande erro dos filhos de Aharon foi este: Serviram ao Eterno do jeito deles. Talvez com emoção, com entusiasmo e querendo algo novo, mas o texto é claro: ...o que Ele não lhes ordenara. Não é necessário rejeitar o Eterno para errar, basta não obedecer exatamente ao que Ele disse.
Dizer que o Eterno é importante é fácil. Muitos dizem isso. Mas a parashá Shemini está nos ensinando que a verdadeira resposta não está no que falamos, e no que demonstramos, mas em como nos aproximamos dEle. Nadav e Avihu também se aproximaram. Eles não estavam longe. Eles estavam dentro do serviço, vestidos como kohanim, participando daquilo que o Eterno havia estabelecido. E ainda assim erraram. E por quê? Porque se aproximaram sem santificá-Lo. Então como fazer isso? A resposta a esta pergunta vem no próximo tópico.
3 – Santificando o Eterno hoje
Quando o Eterno diz: “Serei santificado naqueles que se aproximam de Mim” Ele está declarando que Sua santidade deve ser reconhecida, respeitada e refletida por aqueles que chegam perto dEle. Santificar o Eterno não é apenas falar que Ele é santo. É tratá-Lo como santo. Isso envolve:
Não agir de forma comum diante dEle
Não trazer aquilo que Ele não pediu
Não substituir Suas instruções por nossas ideias
Santificar o Eterno é não reduzir o Santo ao nível do homem. Quando o Eterno não é tão importante assim, não ocupa o lugar devido no coração, e surgem sinais claros: a pessoa faz do seu jeito, busca emoção em vez de obediência, quer experiências, mas não transformação e valoriza manifestações, mas não mandamentos e princípios. E então ocorre o mesmo erro de Nadav e Avihu, ou seja, aproximação sem santificação.
Hoje, muitos se aproximam do Eterno com emoções, com ideias próprias, com práticas não ordenadas ou com muita aparência. Mas a pergunta permanece: Estamos santificando o Eterno ao nos aproximar? Se o Eterno é importante para você, isso deve se manifestar de forma clara:
- Você busca conhecer Suas instruções. Leva as Palavras do Eterno a sério. Não seleciona o que deseja obedecer.
- Você rejeita fazer do seu jeito. Não improvisa no serviço, criando fogo próprio, nem adapta conforme sua vontade. Não inventa formas de se aproximar, que o Eterno não ensinou.
- Você vive os mandamentos no cotidiano. Busca cumprir na sua vida diária os mandamentos e seus princípios, conforme são aplicáveis a você.
- Você teme desobedecer mais do que deseja sentir algo. Tem temor verdadeiro, por isso não trata o Eterno como comum e não banaliza o que é santo.
Santidade prática é no que você fala, no que você consome, em como você vive, em como você decide. Não é sobre momentos, é sobre a sua vida inteira.
Quanto mais alguém se aproxima do Eterno, maior é a responsabilidade. Foi assim com os filhos de Aharon, com Uzah, com os líderes nos dias dos profetas e continua sendo assim. Como está escrito: “Sirvamos ao Eterno com temor… pois Ele é fogo consumidor” Ivrim 12:28-29.
Concluindo nosso estudo e refletindo em tudo que foi dito, percebemos que há uma resposta que o Eterno espera de cada um de nós. Devemos voltar à pergunta: O Eterno é importante para você? Se a resposta for sim, então isso será visível:
Na forma como você vive;
Na forma como você decide;
Na forma como você se aproxima.
Porque quem considera o Eterno importante: santifica o Nome dEle com sua vida; obedece mesmo quando não entende; teme desagradar mais do que deseja agradar a si mesmo. Aharon entendeu isso. E por esse motivo se calou. Ele reconheceu que o Eterno é santo, e que não se pode tratar o Santo de forma comum.
Lembre-se, não é sobre o que sentimos, não é sobre o que pensamos, nem sobre o que queremos oferecer. É sobre o que o Eterno ordenou, seus mandamentos e princípios.
Que o Eterno lhes abençoe.
Moshê Ben Yosef
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