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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Estudo da Parashá Especial de Pessach - Pessach a Porta

 


Estudos da Torá

Parashá Especial – Pessach (Passagem)

Shemot 12

Bamidbar 28:16-25

Haftará (separação) Js 5:2-6:1; 6:27

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 14:6; 1Co 5:7-8


Pessach: A Porta


Há momentos na vida em que tudo depende de uma decisão: entrar ou ficar do lado de fora. Pessach é exatamente isso, uma porta aberta pelo Eterno. Não é apenas uma lembrança da saída de Mitsrayim. É um chamado contínuo: Quem entra pela porta do Eterno vive. Quem ignora, permanece em escravidão.

Ao longo das Escrituras, vemos um padrão que se repete: uma porta; um caminho e uma escolha. E é nesse contexto que palavras como as de Yeshua e Rav Sha’ul ganham peso, não como ideias novas, mas como continuidade do que sempre esteve escrito.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

O Eterno fala a Mosheh e Aharon na terra de Mitsrayim e estabelece um novo começo para Yisrael, dizendo em Shemot 12:2“: Este mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano.”

Então o Eterno ordena que cada família de Yisrael separasse um cordeiro sem defeito, no décimo dia do mês, e o guardasse até o décimo quarto dia. Nesse dia, ao entardecer, todo o povo deve imolar o cordeiro e tomar do seu sangue, colocando-o nos umbrais e na verga das portas das casas onde o comerem.

O cordeiro deveria ser assado ao fogo e comido naquela noite com matsot e ervas amargas, sem que nada fique para o dia seguinte. Devem comê-lo apressadamente, pois é a Pessach do Eterno.

Em Shemot 12:13 diz: “E o sangue vos será por sinal nas casas onde estiverdes; vendo Eu o sangue, passarei por cima de vós...”

Naquela noite, o Eterno passa pela terra de Mitsrayim e fere todos os primogênitos, desde o homem até o animal. Porém, nas casas onde há o sinal do sangue, não há destruição.

Levanta-se grande clamor em Mitsrayim, e Faraó chama Mosheh e Aharon e ordena que o povo saia imediatamente. Assim, os filhos de Yisrael partem apressadamente, levando suas massas antes que fermentassem, e por isso fazem pães matsot. Shemot 12:39 diz: “...cozeram bolos de massa que não se levedou, porque não teve tempo de levedar...”

O povo de Yisrael habita em Mitsrayim por muitos anos, e ao final desse tempo, o Eterno os faz sair com mão forte. Então Ele estabelece que esse dia deve ser guardado por todas as gerações como memorial, e ordena a celebração de Pessach e da Festa dos Hamatzot, com a retirada completa do fermento das casas por sete dias.

Após isso, em Shemot 13, o Eterno ordena: Shemot 13:2: “Santifica-me todo primogênito...”

Os primogênitos passam a ser consagrados ao Eterno, como lembrança de que Ele poupou os primogênitos de Yisrael na noite da saída.

Mosheh então instrui o povo a guardar esse memorial todos os anos, lembrando-se do que o Eterno fez ao tirá-los de Mitsrayim. Shemot 13:8: “E naquele dia farás saber a teu filho, dizendo: Isto é pelo que o Eterno me fez, quando saí de Mitsrayim.”

A Festa dos Hamatzot deve ser guardada como sinal constante, e essa lembrança deve estar presente na vida do povo, como um memorial contínuo do poder e da redenção do Eterno. Shemot 13:9: “E te será por sinal sobre tua mão e por memorial entre teus olhos...”

O Eterno não conduz o povo pelo caminho mais curto, para que não voltem atrás ao ver guerra, mas os guia pelo deserto em direção ao Yam Suf. Mosheh leva consigo os ossos de Yosef, conforme o juramento feito.

E o Eterno vai adiante deles: Shemot 13:21 - “E o Eterno ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar...”

Assim começa a jornada de Yisrael, não apenas uma saída física, mas um caminho guiado pelo próprio Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Desde o início da Parashá, o Eterno não apenas liberta, Ele ensina como sair. A libertação não foi automática. Cada casa precisava: escolher o cordeiro, prepará-lo conforme instrução e Marcar a porta.

Para compreendermos bem o contexto profético aqui nesse contexto vejamos alguns significados originais:

A palavra porta (em hebraico דֶּלֶת — delet) representa: acesso, transição, decisão.

Já Pessach (פסח) vem da raiz que significa: passar por cima, poupar, preservar da destruição.

E o “caminho” (דֶּרֶךְ — derech) nas Escrituras é: modo de viver, conduta, direção da vida.

Assim, Pessach não é só um evento. É a abertura de uma porta que conduz a um caminho. Dessa forma vamos ao primeiro ponto, o contexto do nosso estudo.


1. Pessach como porta de saída

As moedim de Pessach e Hamatzot são celebrações fundamentais estabelecidas pelo Eterno para recordar a libertação de Mitsrayim. Naquela época o povo estava preso, escravizado, sofrendo muito nas mãos do Faraó e dos egípcios. Mas ali, o Eterno não apenas quebrou correntes, Ele estabeleceu um padrão, um princípio estabelecido. Observe o texto em Shemot 12:22-24 diz:


Molhem um feixe de hissopo no sangue que estiver na bacia e passem o sangue na viga superior e nas laterais das portas. Nenhum de vocês poderá sair de casa até o amanhecer. Quando o Eterno passar pela terra para matar os egípcios, verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta; e não permitirá que o destruidor entre na casa de vocês para matá-los. Guardem isso como lei, vocês e seus descendentes, para sempre.


Pessach nos ensina sobre a importância da emunah (fé, confiança), da redenção e da responsabilidade de transmitir nossa herança para as futuras gerações. É um tempo de renovação e reconhecimento da libertação que o Eterno concede a Seu povo. Vemos nos versos acima que o sangue do cordeiro teve que ser colocado nas vigas superiores e nas laterais das portas. E ninguém podia sair de casa.

A porta marcada separava vida e morte, obediência e desobediência, dentro e fora. Ou seja, mostrava a escolha. As pessoas tinham que escolher obedecer e marcar a porta ou não. Tinham que escolher ficar dentro de casa e ser protegido ou sair e correr o risco. O Eterno deu a escolha obedecer e passar da porta marcada para dentro ou passar da porta para fora.

A redenção começa com um ato simples, mas profundo: ficar do lado certo da porta. E após isso? Começa o caminho. Para os que ficaram do lado certo da porta a liberdade chegou. Entraram no caminho em direção ao Eterno e sua palavra.


2. O Ensino Ampliado

Os profetas reforçaram, em seu tempo, que o Eterno sempre busca conduzir o povo de volta ao caminho observe por exemplo Yirmeyahu 6:16:


Eis o que o Eterno diz: Parem de nas encruzilhadas e observem; perguntem acerca dos caminhos antigos: Qual é o bom caminho? Sigam-no, e vocês acharão descanso para a alma. Mas eles dizem: Nós não iremos por ele.


Outro texto está em Yeshayahu 26:19:


Os teus mortos viverão, os cadáveres ressuscitarão; despertem e cantem vocês que habitam no pó; pois teu orvalho é como o orvalho da manhã, e a terra trará as pessoas à vida.


A vida sempre está ligada ao retorno ao caminho do Eterno, tanto de forma profética como literal. Os textos que lemos acima nos mostram exatamente isso. O primeiro em Yirmeyahu 6:16 mostra que a intenção do Eterno é que seu povo se volte para seu caminho. Isso é bem interessante, guarde esse termo “caminho” que o Eterno quer que as pessoas sigam. Depois lemos em Yeshayahu 26:19 que os mortos viverão e cadáveres ressuscitarão, pois a terra trará espíritos à vida. São intenções e promessas do Eterno para seu povo, a Casa de Yisrael, a casa de Yehudah e aos que se achegam.

Agora observe algo interessante nas palavras de Yeshua mencionada por Matitiahu 11:28-30:


Venham a mim, todos os que passam por lutas e estão sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para vossas almas. Pois meu jugo é suave e minha carga é leve.


Yeshua neste ensino está mostrando que seu ensino de Torá pode libertar das cargas, como o povo estava no Egito, pois ele traria descanso para as almas. Ele está mostrando as características do que fez o cordeiro de Pessach, e mostraremos mais à frente. Porém, de onde ele tira essa fala? Se você voltar um pouco acima, no verso de Yirmeyahu 6:16, perceberá que lá o Eterno usando o profeta fala: “...e vocês acharão descanso para a alma… a mesma forma que Yeshua usou. E isso mostra com clareza que Yeshua não falava dele mesmo, pois como Mashiach era profeta e, portanto, usado como instrumento do Eterno. O verbo falava pela boca de Yeshua também. Suas palavras não eram invenção e nem estavam desligadas do TaNaK.

Encontramos outra palavra de Yeshua ligada a esse assunto, Yochanan o shaliach em seu relato das palavras de Yeshua mostra algo importante, observe:


Então Yeshua lhes disse de novo: Sim, afirmo que eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não lhes deram ouvidos. Eu sou a Porta; se alguém entrar por mim, estará seguro; entrará e sairá, e encontrará pastagem.” Jo 10:7-9


Yochanan também registra uma outra fala de Yeshua no capítulo 14:6, que está intimamente ligada com nosso assunto, veja:

Eu sou o caminho, a verdade e a vida...”


Uma tradução mais fiel deste texto seria: “Eu sou o caminho que leva à verdade e à vida.” Mas será que ele fala isso desconectado do Eterno e de sua Palavra, o TanaK? É muito claro que não, e sempre temos visto que Yeshua sempre se refere ao TaNaK. Se buscarmos entender corretamente seus ensinos no contexto original, compreenderemos:

  • Caminho → Torá (Tehillim 119:1)

  • Verdade → Torá (Tehillim 119:142)

  • Vida → vem do Eterno (Devarim 30:20)

Então Yeshua não está criando algo novo, ele está mostrando que como mashiach ensinando a Torá:

- vive o caminho.

- ensina o caminho.

- chama outros para entrar por essa “porta”, que leva ao caminho.

Matitiahu também relata um ensino de Yeshua sobre a porta que está relacionado ao nosso assunto, observe:


Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. Mt 7:13-14

o Shaliach Sha’ul diz em sua epístola aos Corítios, em Qorintiyim Alef 5:6-8:


Sua vanglória não é boa. Vocês não conhecem o ditado: é necessário apenas uma pitada de hametz para fermentar toda a massa? Livrem-se do velho hametz, para poderem ser uma nova massa, porque na verdade vocês estão sem fermento. Pois nosso cordeiro de Pessach, o mashiach, foi sacrificado. Dessa forma, celebremos o seder sem qualquer vestígio de hametz da impiedade e do mal, mas com a matzah da pureza e da verdade.


Algumas pessoas, por falta de uma interpretação correta, no contexto original, afirmam que aqui é uma demonstração de que Sha’ul não estava falando corretamente, pois diz que o mashiach foi o cordeiro de pessach, e em algumas traduções diz: “...o mashiach, nosso pessach…”. Contudo, se eu parar e entender essa fala de Sha’ul dessa forma é literal e o mashiach foi sacrificado sendo um cordeiro, então preciso também entender literalmente, que da mesma forma, ele estava dizendo que os crentes em Corinto eram uma massa de pão quando ele diz: “...vocês estão sem fermento…”. Isso é a simples interpretação judaica chamada Kal V’homer, ou seja, leve e pesado, que diz: se uma coisa é verdade no nível menor será verdade no maior e vice e versa. Assim, se Sha’ul não estava dizendo que as pessoas de Corinto eram uma massa de pão, então também não estava dizendo que o mashiach era o cordeiro de pessach. Ele estava seguindo o padrão do TaNaK.

Aqui está a chave:

    • Pessach → libertação

    • Matsá → pureza

    • Vida → sem fermento (sem corrupção)

Sha’ul usa Pessach como linguagem viva para dizer: “Vivam como quem já atravessou a porta.” Isso é muito importante! O princípio estabelecido em Pessach foi ampliado pelos profetas, por Yeshua e seus talmidim. Está tudo muito claro quando se estuda corretamente e com boa vontade. Agora, vamos para o último ponto deste estudo compreender o Pessach na prática hoje.


3. Como viver Pessach na prática

Tudo que vimos até aqui é muito bem ligado pelas Escrituras e pelos escritos nazarenos, mas estamos falando de algo que não se enquadra mais na atualidade. O Pessach e as demais festas foram estabelecidos para uma época que tinha o Mishkan e o Beit Hamikdash posteriormente, mas hoje não temos mais. Como entender Pessach na atualidade?

Sim, realmente, desde o ano 70 d.EC, quando Roma destruiu o templo e os judeus foram espalhados pelo mundo antigo, até hoje não se tem mais o templo. No entanto, isso só prova que os korbanot estabelecidos nunca foram o fim em si mesmos. Como já dissemos em parashiot anteriores, o Eterno estabeleceu princípios através dos mandamentos dos korbanot. E talvez você pergunte: Quando não há o Beit HaMikdash, o que resta?

O Eterno já havia declarado pelos profetas que haveria tempos sem altar visível, veja em Hoshea 3:4:


Pois o povo de Yisrael permanecerá recluso por um longo tempo sem rei, príncipe, sacrifício, coluna, roupa ritual ou deuses domésticos.”


E ainda assim, o povo não seria abandonado leia o verso seguinte:


Mais tarde, o povo de Yisrael se arrependerá e buscará o Eterno, seu Elohim, e David, seu rei; eles virão tremendo até o Eterno e sua bondade no acharit-hayamim (fim dos dias ou últimos dias). Hoshea 3:5


Interessante aqui é a clara demonstração dos níveis de uma profecia. Quando essas palavras foram faladas pelo profeta, a Casa de Yisrael ainda não tinha sido deportada pelos assírios. E nem a Casa de Yehudah pelos babilônios. Então no devido tempo histórico ambos foram deportados e com o tempo a Casa de Yehudah retornou, mas não a Casa de Yisrael, ou seja, a profecia ainda não tinha se cumprido totalmente. Mais tarde, Yehudah foi expulsa de sua terra pelos romanos, e hoje muitos já voltaram à terra mas ainda há muitos yhudim pelo mundo e os remanescentes da Casa de Yisrael ainda estão sendo despertados. A profecia em sua completude ainda irá se cumprir.

Ele mesmo nos mostra o caminho: Hoshea 14:2-3 - “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao Eterno... e ofereceremos os novilhos dos nossos lábios.”

Observe não há novilhos físicos mas há palavras, confissão e retorno. O que fazemos neste tempo sem templo é descrito em Tehillim 51:16-17 “Porque não Te comprazes em sacrifício...Os sacrifícios para o Eterno são um coração quebrantado…”. E também: Tehillim 34:18 “Perto está o Eterno dos quebrantados de coração…”. O princípio nunca mudou, mesmo quando havia o templo, isto já era verdade, como lemos em Shmuel Alef 15:22: “Eis que obedecer é melhor do que sacrificar...” e Micha 6:6-8: “...foi-te declarado o que é bom: fazer justiça, amar misericórdia e andar humildemente com o Eterno.”

As festas hoje são memoriais, pois não temos o templo para oferecer os sacrifícios. Assim, embora hoje não haja Beit HaMikdash, mas ainda há porta. E a pergunta permanece: Onde você está, dentro ou fora? Viver Pessach hoje é:

  • Fazer teshuvah (Hoshea 14:2)

    Abandonar o fermento (pecado)

    Escolher o caminho do Eterno diariamente

Em Yeshayahu 1:16-17 lemos:


Lavem-se! Afastem seu mau procedimento da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Procurem a justiça, aliviem os oprimidos, defendam os órfãos, pleiteiem pela viúva.


Hoje buscamos perdão e purificação conforme estamos vendo pelas Escrituras, pois mostram o caminho claro:

- Teshuvah (retorno verdadeiro).

- Confissão sincera.

- Abandono da transgressão.

- Obediência aos mandamentos.

E o próprio Eterno mostra em Yeshayahu 1:18: “Venham, então diz o Eterno, conversemos sobre isso. Ainda que seus pecados sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eles se tornarão como lã.

A porta continua aberta. Mas não se entra apenas com palavras, entra-se com decisão. E qual o papel do mashiach nesse tempo? Através de seus ensinos ele chama ao arrependimento, ensina a obedecer e guia o povo de volta ao Eterno, que perdoa o povo e os recebe como seus servos. Não há sacrifícios físicos mas há coração quebrantado e retorno verdadeiro. E isso o Eterno aceita.

Concluindo nosso estudo, vimos que Pessach não é apenas passado. É uma realidade que se repete em cada geração. O Eterno ainda marca portas, chama para sair e aponta o caminho. Faz isso através de sua palavra ensinada pelo mashiach. E o homem ainda precisa escolher.

O cordeiro aponta para obediência, entrega, confiança no Eterno. O caminho continua sendo o mesmo que lemos lá Devarim 30:19: “Escolhe, pois, a vida para que vivas…”. A porta está diante de ti. A questão não é se ela existe. A questão é: Você vai entrar?

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef



quinta-feira, 17 de abril de 2025

Estudo da Parashá Especial de Pêssach - A Jornada da Alma na Contagem do Ômer

 


Estudos da Torá

Parashá EspecialPessach (Passagem)

Vayikra/Levítico 23:1-44

Haftará (separação) Is 10:32-12:6 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 26:1-28:20.


Tema: A Jornada da Alma na Contagem do Ômer


Nessa semana, com muita alegria e temor reverente diante do Eterno estudamos textos que tratam de Pessach e Hamatzot. Mais do que uma análise de mandamentos ou estudo sobre uma festa, este é um convite à introspecção, à purificação e ao preparo verdadeiro de nossas vidas diante daquele que nos tirou da escravidão para sermos Seus.

A contagem do Ômer, muitas vezes vista apenas como um dever técnico ou ritualístico, é, na verdade, uma poderosa jornada de transformação, marcada pela obediência e pela expectativa da revelação, além de ter apontamentos proféticos para o futuro no Reino de D’us. Durante esses 49 dias entre Pêssach e Shavuot, não apenas contamos o tempo, nós somos contados por Ele. Cada dia é uma oportunidade para sair do Egito interior, renovar nosso entendimento, e nos preparar para ouvir, mais uma vez, a voz do Eterno.

Neste estudo, mergulhamos nas Escrituras, desde a Torá até os escritos dos profetas e dos emissários de Yeshua, para revelar que a contagem do Ômer é um chamado vivo e urgente: abandonar as impurezas e nos apresentar como vasos limpos para receber Suas palavras.

Que este estudo sirvam como uma pequena luz para nossos pés nestes dias de contagem, e que despertem em cada um de nós o desejo de santidade, temor, e firme confiança no Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Desde o dia seguinte ao shabat, isto é, desde o dia em que levarem o feixe para ser movido, contem sete semanas completas, até o dia seguinte à sétima semana, contem cinquenta dias, e então apresentem uma nova oferta de grãos a Adonai. Lv 23:15 e 16.


A libertação de Mitsrayim foi apenas o primeiro passo, tanto literalmente para os filhos de Yisrael, quanto profeticamente para todos que seguem aos mandamentos do Eterno. Não bastava deixar a terra da escravidão; era necessário deixar também os costumes, as crenças e os caminhos corrompidos que foram absorvidos em gerações de opressão. A contagem do Ômer, como está estabelecida em Vayicrá 23:15-16, que lemos acima, não é apenas um mandamento de contar dias, é uma convocação divina para que cada alma em Yisrael e no mundo, caminhe rumo ao propósito pelo qual foi liberta: ouvir a voz do Eterno no Sinai e viver por Seus mandamentos.

Ao sair de Mitsrayim, o povo não foi imediatamente conduzido à terra prometida. Pelo contrário, foram levados ao deserto, onde não havia segurança humana, alimento humano, nem apoio das nações. Foi ali, em meio à aridez, que o Eterno sustentou Seu povo com maná, água da rocha, e Sua presença constante. A cada dia, o povo era testado: confiariam no Eterno ou tentariam voltar para as cebolas do Egito? Assim também é conosco.

Alguém pode perguntar: Por que precisamos fazer a contagem do Ômer? A Morá Rivka do Perfil do Instagram “editora_oneg_tora” em um vídeo sobre a contagem do Ômer diz que há um vínculo que temos entre Pessach e Shavuot, que é a entrega da Torá. Ela diz que o nosso povo tinha que ser libertado do Egito, que era o extremo da escravidão. Depois, então, receber a Torá no Monte Sinai para se libertar da escravidão espiritual. A escravidão do Yetzer Hará, a escravidão das nossas más inclinações. A nossa má inclinação estava nas mãos do Yetzer Hará. A liberdade de Pessach, por si só, não é o suficiente. Segundo a citada professora, não adianta você se libertar da escravidão do Egito para cair na escravidão das nossas próprias más qualidades. Então, não adianta sair do Egito e levar o Egito junto consigo, não é um bom negócio.

Ainda segundo ela, o Corban do Ômer, era uma oferenda de cevada e era feito em Pessach. É a época da saída do nosso povo do Egito. Naquela época, a cevada era usada como ração animal. A Ração animal, nos lembra do que? Nos lembra de que a saída do Egito ainda não nos dá a garantia de deixarmos de nos comportar como animais. Em Shavuot era feito o Corban dos dois pães de trigo, que é o alimento humano básico e essencial para nossa vida. Nos ensinando o que? Que agora que recebemos a Torá, já temos as ferramentas necessárias para nos comportarmos como gente, como seres humanos.

Desde o momento que recebemos a Torá, só depende de nós próprios. As ferramentas já estão nas nossas mãos. A Torá já nos foi entregue. O significado simbólico dessas duas oferendas, primeiro a cevada e depois o trigo, vem nos mostrar a ligação entre o nível que nos encontrarmos na saída do Egito e o nível ao qual chegamos por meio da benevolência de HaKadosh Baruch Hu de ter nos dado a Torá. Então, quando saímos do Egito, éramos escravos em fuga. Estávamos fugindo com medo e todos estávamos em uma situação na qual os fins justificavam os meios. Achávamos que qualquer coisa que fizéssemos seria permitido, contando que conseguíssemos alcançar o que desejávamos alcançar. Quando recebemos a Torá no Monte Sinai, nos tornamos gente, nos tornamos seres humanos. Deixamos de ser os animais em fuga que tínhamos sido antes. Nos tornamos conscientes de que o fim não justifica os meios. Recebemos as ferramentas necessárias para podermos chegar aos mesmos objetivos que queríamos chegar antes, mas dessa vez sem latir, sem morder ou dar coices em tudo e em todos que aparentemente estão nos impedindo de chegarmos ao nosso objetivo final.

Finalizando este comentário, a Morá Rivka diz que os 49 dias da contagem do Ômer, são uma viagem pelo grande deserto. São o caminho das nossas buscas, dos nossos consertos internos, de matar o ego, matar o Yetzer Hará. Os caminhos que vivenciamos quando passamos do primeiro estágio de libertação até adquirir a liberdade verdadeira com a Torá. Esse caminho, então, essa jornada é necessária, pois seria impossível alcançar o Monte Sinai diretamente após sair do Egito. Sair do Egito e já receber a Torá, é impossível. Uma transformação espiritual desse tamanho não acontece da noite para o dia. Por isso, entre Pessach e Shavuot fazemos a contagem do Ômer. Apesar da interessante a visão, cabe sempre lembrar que a Palavra do Eterno está acima das interpretações dos homens, estas servem apenas para ilustrar o ensino.

Dessa forma, vamos prosseguir nosso estudo buscando nos aprofundar um pouco mais sobre essa jornada da nossa alma ou vida na contagem do Ômer, que é, na verdade, um chamado diário para a introspecção e transformação. Cada dia entre a libertação e a entrega da Torá representa uma escolha entre o velho homem e o novo caminho. Como disse o profeta Yehezkel:


Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e criai em vós um coração novo e um espírito novo; pois por que morreríeis, ó casa de Yisrael? Yehezkel 18:31


Neste tempo, somos convidados a limpar o coração, a abandonar os ídolos, a purificar nossas palavras, intenções e ações. A instrução do Eterno nunca foi apenas letra, ela é prática, ela é vida. A palavra do Eterno quebra a nossa dureza do erro e do legalismo e nos leva a viver a prática do que é ensinado. Por isso, está escrito:


Não é a minha palavra como fogo, diz o Eterno, e como um martelo que despedaça a rocha? Yirmeyahu 23:29


Quando nos aproximamos da Palavra com sinceridade, ela nos molda, nos quebra e nos refaz, como barro nas mãos do oleiro. E nesses dias de contagem do Ômer são dias que nos reunimos com a família diariamente e refletimos unidos nos mandamentos, e tenha certeza, todos os dias temos um aprendizado novo e uma prática para exercitar.

Yeshua, o mashiach enviado pelo Eterno, compreendia profundamente essa jornada. Ele ensinava justamente a não se viver de forma legalista ou hipócrita, uma vida de mentiras:


Fariseu cego! Purificai primeiro o interior do copo, para que também o exterior fique limpo. Mattityahu 23:26


A limpeza começa por dentro. Yeshua não chamou o povo a uma nova religião, mas à mesma verdade que os profetas sempre clamaram: teshuvá, isto é, o retorno ao Eterno, pela obediência e confiança firmada em Seus mandamentos.

Shaul, o shaliach, ao falar aos irmãos em Corinto, fez um paralelo com Pêssach e a contagem do Ômer ao dizer:


Purificai-vos do velho fermento, para que sejais nova massa... pois Mashiach, nosso cordeiro de Pêssach, foi entregue. Celebremos, portanto, não com o fermento da maldade e da malícia, mas com os pães ázimos da sinceridade e da verdade. 1 Coríntios 5:7-8


Aqui, vemos a mesma mensagem dos profetas: não basta sair do Egito exterior; é preciso remover o Egito interior.


1. Apontamento Profético na Contagem do Ômer

A contagem começa logo após a libertação de Mitsrayim e termina com o recebimento da Torá em Har Sinai. Isso nos ensina que libertação sem instrução é incompleta. Ser tirado da escravidão é o primeiro passo, mas o propósito final é sermos um povo separado, obediente e consagrado ao Eterno. Isso só é possível através dos mandamentos que o Eterno nos entrega através de seu ungido. Aos israelitas no Egito foi através de Moshê, que pelo verbo do Eterno disse que o Eterno mandaria outro como ele. E isso se cumpriu, pois hoje, através de Yeshua o ungido profetizado, recebemos os mandamentos da Torah e nos aproximamos do Eterno, que passa a ser nosso Elohim. Assim como está escrito:


Eu sou o Eterno, vosso Elohim, que vos tirei da terra do Egito para ser o vosso Elohim. Vayicrá 22:33


O propósito da libertação era tornar o povo um reino de sacerdotes e uma nação santa, como diz:


Agora, pois, se ouvirdes atentamente a Minha voz e guardardes o Meu pacto, sereis Minha propriedade peculiar dentre todos os povos... e vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Shemot 19:5-6


A contagem do Ômer é o tempo entre a libertação e a consagração, um tempo de transição profética onde o povo aprende a deixar o Egito para trás não apenas fisicamente, mas espiritualmente, ou seja, obedecendo.


2. Como a Contagem do Ômer Pode Ser Vivida com Base no Tanakh

Durante esses 49 dias, podemos buscar o arrependimento e a purificação baseando-nos nas Escrituras. Relacionaremos abaixo como podemos fazer isso.

a) Purificação do coração

Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos Meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem... Yesha'yahu (Isaías) 1:16-17

A contagem nos convida a limpar o coração de tudo que nos prende ao velho homem, às práticas de Mitsrayim.

b) Busca pelo entendimento

Felizes os que guardam os Seus testemunhos, os que O buscam com todo o coração. Tehilim (Salmos) 119:2

Cada dia da contagem pode ser um tempo de meditação na Torá, no Tehilim, nos Neviim — buscando entender melhor os caminhos do Eterno.

c) Restauração da confiança firme no Eterno

Confia no Eterno de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Mishlei (Provérbios) 3:5

Assim como os filhos de Yisrael dependeram do Eterno para lhes dar o maná durante esses dias no deserto, nós também devemos depender do Eterno, renovando nossa confiança firme a cada manhã.

d) Expectativa pela Palavra

Preparai o caminho do Eterno, endireitai no deserto uma estrada para nosso Elohim. Yesha'yahu 40:3

Este é o espírito da contagem: preparar o caminho, alinhar nossos passos, limpar as impurezas, para que estejamos prontos para ouvir a voz do Eterno, como em Har Sinai. O Propósito é nos preparar para ser instrumento do Eterno para acordar outros remanescentes, preparando o caminho, assim como Yochanan o fez.

Estamos percebendo que a contagem do Ômer não é apenas matemática. É uma jornada de transformação, do Egito para o Monte Sinai, da opressão à obediência, da impureza à santidade. É tempo de olhar para dentro e remover o que não pertence ao Eterno, porque Ele está nos preparando para o encontro com Sua voz.


3. Os dias do Ômer e as Sefirot

Os sábios do povo de Yisrael fazem uma interpretação mais profunda da contagem do Ômer dentro da estrutura das sefirot, conforme ensina a tradição da Kabalá. Apesar de não ser algo claro na Torah, sete das dez sefirot da árvore da vida, estão ligadas à cada uma das semanas de contagem do Ômer. São elas Chesed (misericórdia), Guevurá (disciplina), Tiferet (beleza), Netzach (perseverança), Hod (reverência), Yesod (fundamento) e Malchut (reino). Em cada semana relaciona-se cada uma dessas sefirot com as demais, dia a dia, e tira-se aprendizado delas através das Escrituras.

Mas é preciso entender que O Eterno não nos ordenou contar o Ômer segundo atributos místicos. Ele nos ordenou contar os dias, sete semanas completas, até o dia da entrega da Torá, como expressão de obediência e preparação. As sefirot são apenas instrumentos de reflexão acerca da palavra do Eterno e sua ação em nossas vidas, quando realmente permitimos e vivemos em obediência.

A árvore da vida é a palavra do Eterno, a Torah, e as sefirot são o reflexo das emanações da vontade do Eterno manifestas em sua palavra para cada um de nós.


Ela é árvore de vida para os que a alcançam, e felizes são os que a retêm. Mishlei 3:18


A contagem do Ômer é um mandamento no qual a pessoa que obedece de coração verdadeiramente em teshuvah, demonstra aplicação e vontade de se aperfeiçoar e ter uma mudança de vida, tornando-a justa.


4. Gematria e a Contagem do Ômer

A gematria é uma forma de interpretação baseada nos valores numéricos das letras hebraicas, e através delas descobrimos revelação de códigos escondidos nas Escrituras.

1. O número 49 — sete semanas (7 x 7):

O número 7 nas Escrituras é símbolo de plenitude, santificação e ciclo completo. Vemos isso na criação (Bereshit 2:2-3), no Shabat, nos ciclos de sete anos (Shemitá), e no Yovel (Jubileu), que acontece após 7 x 7 anos + 1.

A contagem do Ômer, portanto, com 49 dias (7 semanas completas), aponta para um processo completo de purificação antes de estar apto a receber a instrução do Eterno em Shavuot. Não é uma numerologia mística, mas um padrão de preparação, crescimento e maturidade espiritual.


Contareis para vós desde o dia seguinte ao Shabat... sete semanas completas serão. Vayicrá 23:15


Nos pictogramas o 7, a letra Zayin, representa ferramenta de corte ou arma, indicando que esse período está cortando nossa ligação com o Egito, as coisas do mundo e a Ytzer Hará e nos municiando com armas espirituais, ou seja, os mandamentos entregue após 7 semanas, em shavuot.


2. A palavra "Omer" (עמר)

A gematria da palavra Omer (עמר) é:

  • ע = 70

  • מ = 40

  • ר = 200

    Total = 310

Esse número, 310, está relacionado, segundo alguns estudiosos, a Mishlei/Pv 8:21, onde diz:


Para fazer herdar bens permanentes aos que me amam, e encher os seus tesouros.


Concluindo nosso estudo, percebemos que, se o povo levou sete semanas para sair da mentalidade de escravos e receber a Torá como homens livres, nós também devemos usar esse tempo como uma escada de elevação com os seguintes degraus: arrependimento sincero, purificação do coração, abandono das transgressões e uma renovada expectativa pela voz do Eterno. Apesar de todos os ensinos interpretativos que trouxe com gematria e comentários de sábios, entendamos que a Torá é suficiente, e a prática da contagem do Ômer é uma caminhada de arrependimento, confiança firme e purificação, rumo à obediência plena ao Eterno. Ao final da contagem, o povo se viu diante do Monte Sinai, com relâmpagos, trovões e a voz do Eterno ecoando trazendo as instruções e orientações para uma vida santa. A pergunta é: nós também estamos nos preparando para esse encontro?


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef