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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estudo da Parashá Shoftim - O Homem que segura o machado

 


Estudos da Torá

Parashá nº 48Shoftim (Juízes)

Devarim/Deuteronômio 16:18-21:9

Haftará (separação) Is 51:12-52:12.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 5:38-42; At 3:13-26.


O HOMEM QUE SEGURA O MACHADO


Existem mandamentos que parecem pequenos quando os encontramos pela primeira vez nas Escrituras. Passamos por eles rapidamente porque imaginamos que já compreendemos seu significado. Nessa porção semanal encontramos um desses textos. Nos vemos diante de um exército, de uma cidade sitiada, de árvores cortadas para trincheiras, de uma guerra e de uma ordem militar. De repente, Moshê interrompe o cenário de batalha para falar de árvores.

É justamente aí que o texto começa a ficar extraordinário. Enquanto os homens olham para a cidade que precisam conquistar, o Eterno manda que olhem também para aquilo que não está lutando contra eles. Enquanto o exército pensa em destruir, o Eterno estabelece um limite para a destruição. Enquanto o homem vê madeira, o Eterno chama sua atenção para o alimento produzido. Enquanto o presente exige uma decisão imediata, a árvore representa algo que continuará produzindo depois que aquela guerra terminar, isto é, devemos olhar para o futuro.

Talvez a pergunta mais importante desse mandamento não seja simplesmente: “Posso cortar esta árvore?”, mas: “Que tipo de homem estou me tornando quando destruo aquilo que poderia continuar produzindo vida?”

É sobre isso que quero refletir com você. O mandamento da preservação das árvores frutíferas em campo de batalha nos conduz a uma compreensão muito mais profunda da responsabilidade humana. Ele nos ensina sobre utilização sem desperdício, domínio sem abuso, propriedade sem arrogância, consumo sem destruição e poder acompanhado de limites. Os sábios de Yisrael perceberam essa dimensão e desenvolveram, a partir desse texto, o princípio conhecido como bal tashchit, isto é, “não destruas”.

Quando aproximamos esse princípio da Torá, dos Neviyim, dos escritos dos sábios, dos ensinos de Yeshua e dos testemunhos dos seus talmidim, encontramos uma mensagem muito atual: o homem não recebeu autorização para destruir tudo aquilo que está ao alcance de suas mãos. Ele recebeu responsabilidade para cultivar, guardar, utilizar e preservar. Por isso, fique comigo até o fim para não perder nada.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Shoftim apresenta uma estrutura para a vida de Yisrael na terra que o Eterno estava entregando ao povo. Moshê fala sobre juízes, justiça, testemunhas, reis, levitas, profetas, cidades de refúgio, guerras e responsabilidade comunitária.

Existe uma unidade profunda nesses assuntos, mesmo que muitos acabem nem percebendo. A preocupação da Torá não é simplesmente organizar uma nação eficiente. O objetivo é formar um povo que aprenda a viver de acordo com os caminhos do Eterno, em detalhes pequenos. Por isso, até mesmo a guerra possui limites estabelecidos por HaShem. O guerreiro não deixa de ser responsável diante do Eterno simplesmente porque está diante de um inimigo.

É nesse contexto de guerra que encontramos Devarim 20:19–20, veja o texto:

Quando sitiares uma cidade por muitos dias, pelejando contra ela para tomá-la, não destruirás as suas árvores, lançando contra elas o machado; porque delas comerás, e não as cortarás; porventura a árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti? Somente as árvores que souberes não serem árvores de alimento, essas poderás destruir e cortar, para edificares baluartes contra a cidade que guerreia contra ti, até que caia.”

O contexto, como sempre demonstro, é extremamente importante. O Eterno não está ensinando isso em um pomar tranquilo. Está ensinando no contexto de uma guerra. E justamente nesse cenário extremo surge uma das grandes lições da Torá sobre os limites do poder humano. Observe a lógica: A cidade está guerreando contra Yisrael, a árvore não está. A cidade pode ser sitiada. A árvore produz alimento, ela não deve ser destruída simplesmente porque está dentro do território inimigo. O homem precisa aprender a distinguir entre aquilo que realmente constitui uma ameaça e aquilo que simplesmente está diante dele. Isso nos leva a uma verdade que atravessa toda a Torá: domínio não significa destruição. Não é porque você pode fazer algo, que deve fazer.

Desde Bereshit encontramos essa responsabilidade. Em Bereshit 2:15 está escrito:

E tomou o Eterno Elohim o homem e o colocou no jardim de Eden para o cultivar e o guardar.”

O homem recebe duas responsabilidades: trabalhar e guardar. Não existe somente utilização, existe também preservação. Em Bereshit 1:29, o Eterno apresenta as plantas e as árvores que produzem fruto como alimento:

E disse Elohim: Eis que vos tenho dado toda planta que produz semente, que está sobre toda a face da terra, e toda árvore em que há fruto de árvore que produz semente; isso vos será para alimento.”

A relação entre o homem e as árvores, portanto, não começa em Devarim 20, ela já aparece na criação. O homem recebe alimento, recebe um jardim, recebe responsabilidade. E, posteriormente, recebe mandamentos que delimitam sua maneira de utilizar aquilo que recebeu.

É por isso que Devarim 20:19 é tão significativo. A árvore frutífera não é apenas um objeto disponível ao homem. Ela é parte de uma cadeia de provisão que o homem recebeu do Eterno e da qual ele também se tornou responsável.


1. O MACHADO DIANTE DA ÁRVORE

Existe uma expressão hebraica que se tornou fundamental na tradição dos sábios: bal tashchit, “não destruas”. A expressão não aparece dessa forma como uma fórmula isolada no versículo, mas deriva do verbo utilizado em Devarim 20:19: lo tashchit, “não destruirás”. O verbo שחת - shachat carrega a ideia de arruinar, corromper, destruir. Isso é importante porque a Torá não está simplesmente dizendo: “não corte”. Ela está dizendo: não destrua. E existe uma diferença entre cortar e destruir.

Uma árvore pode ser cortada porque está doente, porque representa perigo, porque sua madeira possui uma utilização legítima ou porque existe uma necessidade real. O problema apresentado pelo texto é a destruição sem finalidade adequada. A Torá inclusive estabelece uma exceção:

Somente as árvores que souberes não serem árvores de alimento, essas poderás destruir e cortar, para edificares baluartes contra a cidade que guerreia contra ti, até que caia.” Devarim 20:20.

Isso demonstra que a Torá não ensina uma preservação absoluta e irracional de toda árvore em qualquer circunstância. Existe finalidade, necessidade e proporcionalidade. O princípio é outro: Não destrua aquilo que produz benefício simplesmente porque você pode destruí-lo. Essa distinção é essencial. Uma pessoa pode possuir uma propriedade e ainda assim ter responsabilidade sobre aquilo que faz com ela. Pode possuir alimento e não ter justificativa para desperdiçá-lo. Pode possuir recursos e não ter autorização moral para destruí-los inutilmente. A Torá coloca um limite sobre a mentalidade de consumo absoluto. O raciocínio humano muitas vezes diz: “É meu, portanto faço o que quiser.” A Torá pergunta: “De onde você recebeu isso?” Essa pergunta muda tudo.

A árvore é uma demonstração disso. O homem não criou a capacidade de uma árvore produzir alimento. Ele pode cultivá-la, cuidar dela, podá-la, colher seus frutos e utilizar sua madeira quando houver razão. Mas a capacidade de produzir vida não começou nele, ele recebeu, e aquilo que recebemos do Eterno deve ser administrado com responsabilidade. Isso também explica por que Vayicrá 19:23–25 estabelece um período de espera para que Yisrael desfrutasse dos frutos das árvores recém-plantadas:

Quando entrares na terra e plantardes toda árvore de alimento, considerareis o seu fruto como incircunciso; por três anos será como incircunciso para vós; não será comido. Porém, no quarto ano, todo o seu fruto será santo, para louvor ao Eterno. E no quinto ano comereis o seu fruto, para que vos aumente a sua produção. Eu sou o Eterno, vosso Elohim.”

Existe aqui nesse contexto uma educação para a paciência. O homem planta hoje, mas não necessariamente colhe hoje. Isso é extremamente contrário à mentalidade imediatista. Essa instrução sobre a árvore ensina ao homem que algumas coisas precisam de tempo. Ela ensina que aquilo que plantamos poderá beneficiar alguém que ainda não chegou ou que nem nasceu ainda. Ela também ensina que o presente possui responsabilidade para com o futuro.

Essa mesma lógica aparece em Shemot 23:10–11, quando a terra recebe um período de descanso:

Seis anos semearás a tua terra e recolherás a sua produção; mas no sétimo a deixarás descansar e ficar sem cultivo, para que comam os necessitados do teu povo, e o restante comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com a tua oliveira.”

Mais uma vez, a Torá coloca limites sobre a exploração. O homem trabalha a terra, mas não a possui como se tivesse domínio absoluto sobre ela , ele utiliza, cultiva, colhe mas também deve saber parar. Essa é uma das grandes diferenças entre domínio e abuso. O domínio recebido pelo homem em Bereshit não pode ser interpretado como autorização para destruição ilimitada. O mesmo Eterno que entrega ao homem a possibilidade de utilizar a criação também ordena que ele a guarde, que cuide dela com zelo. E talvez seja por isso que a pergunta de Devarim seja tão poderosa: “Porventura a árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti?” Há uma ironia divina nessa pergunta. O soldado está cercando uma cidade como se tudo ao redor fosse seu inimigo. O Eterno o faz parar e pensar: “A árvore está lutando contra você?” Não. Então por que destruí-la? Essa pergunta continua viva. Quantas coisas destruímos simplesmente porque estavam ao alcance do nosso poder? Quantas vezes confundimos autoridade com autorização? Quantas vezes desperdiçamos aquilo que poderia servir a outra pessoa? O mandamento da árvore começa no campo de batalha, mas termina dentro do coração humano.


2. DA ÁRVORE AO CARÁTER

O Tanakh continua utilizando árvores como símbolos de vida, restauração, estabilidade e fruto. Em Yeshayahu 55:12–13, o profeta descreve a restauração utilizando a própria criação como testemunha:

Porque saireis com alegria e sereis conduzidos em paz; os montes e as colinas romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá o cipreste, e em lugar da urtiga crescerá a murta; e isso será para o Eterno por nome, e por sinal eterno, que não será cortado.”

A imagem é belíssima: a restauração não é descrita como uma vitória que deixa tudo destruído. A criação participa da alegria. Em Yechezkel 17:24, o Eterno utiliza as árvores para ensinar sobre sua soberania:

E saberão todas as árvores do campo que Eu, o Eterno, abati a árvore alta e exaltei a árvore baixa; sequei a árvore verde e fiz florescer a árvore seca. Eu, o Eterno, falei e fiz.”

As árvores aparecem como parte da linguagem pela qual o Eterno ensina o homem. Isso é importante porque demonstra que a árvore não é apresentada nas Escrituras simplesmente como matéria-prima. Ela também participa da linguagem pela qual o Eterno comunica verdades sobre o homem, sobre as nações, sobre humildade, crescimento e restauração.

- A visão dos sábios

Os sábios de Yisrael perceberam que Devarim 20:19 continha um princípio que ultrapassava a situação específica de uma guerra.

Em Bava Kamma 91b, encontramos uma discussão sobre a destruição de árvores frutíferas. Ravina estabelece uma importante distinção: quando existe uma finalidade útil maior, o corte pode ser permitido; quando a destruição é gratuita, o princípio de bal tashchit entra em questão.

O mesmo trecho registra a declaração de Rabbi Hanina acerca de seu filho Shivhat, associando sua morte ao corte prematuro de uma figueira. O relato pertence à linguagem narrativa e moral dos sábios e deve ser recebido como tal, não como uma fórmula mecânica segundo a qual toda morte é consequência direta de uma árvore cortada. O ponto central da passagem é a gravidade atribuída à destruição inútil.

A discussão talmúdica também mostra algo muito importante: bal tashchit não significa “nunca corte nada”; significa “não destrua sem razão legítima”. Essa distinção é confirmada pelo Sefer HaChinuch, mitsvá 529 dizendo “para não destruir árvores frutíferas”, que apresenta como propósito do mandamento a formação do caráter. Em tradução de estudo, o autor explica que o mandamento pretende ensinar a pessoa a amar aquilo que é bom e útil, aproximar-se disso e afastar-se da destruição. Ele chega a descrever o homem justo como alguém que não deseja perder nem mesmo algo tão pequeno quanto um grão de mostarda e que se entristece diante da destruição que poderia evitar. Essa é uma observação extraordinária, pois o Sefer HaChinuch não está mais preocupado somente com a árvore, ele está preocupado com o homem que olha para a árvore. A destruição externa revela algo sobre o interior. Se uma pessoa desenvolve prazer em quebrar, desperdiçar, destruir e arruinar, isso também forma seu caráter. Por outro lado, quem aprende a preservar, reparar, aproveitar, compartilhar e cuidar desenvolve uma disposição diferente. Assim, o princípio deixa de ser apenas: “Não desperdice.” E passa a ser: “Não permita que a destruição se torne parte de quem você é.”

Rambam também amplia o princípio em Mishneh Torah, Hilchot Melachim 6:8–10. Ele afirma que a proibição não se restringe às árvores: quem destrói objetos, rasga roupas, derruba uma construção, interrompe uma fonte ou destrói alimento de maneira destrutiva também entra na esfera de bal tashchit. Isso mostra a evolução do princípio rabínico: da árvore para a cultura do desperdício. E aqui encontramos uma aplicação profundamente humana. Quando alguém quebra algo por raiva, joga comida fora porque não se importa, estraga deliberadamente um objeto ou destrói uma propriedade simplesmente para causar prejuízo, o problema não é apenas econômico, é também moral, pois é uma questão de caráter.

- Yeshua e a cultura de não desperdiçar

Quando chegamos aos ensinos de Yeshua, encontramos uma afirmação extremamente próxima desse princípio. Depois de alimentar uma multidão, Yeshua ordena aos seus talmidim:

Quando estavam satisfeitos, disse aos seus talmidim: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.” Yochanan 6:12

Observe a beleza do princípio. A comida poderia ter sido deixada no chão, havia abundância, e foi multiplicada por milagre. Mas abundância não é autorização para desperdício. Repare no que o mestre fala: “Para que nada se perca.” Isso está em profunda harmonia com o princípio desenvolvido pelos sábios: aquilo que ainda possui utilidade não deve ser tratado como lixo simplesmente porque existe em abundância. Yeshua também utilizava árvores e frutos como linguagem para ensinar sobre homens e seus resultados. Em Mattityahu 7:17–20, ele afirma:

Assim, toda árvore boa produz frutos bons, mas a árvore má produz frutos maus. A árvore boa não pode produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os reconhecereis.”

Aqui a árvore deixa de ser somente objeto do mandamento e se transforma em espelho do próprio homem. E a pergunta passa a ser: Que fruto estou produzindo? Essa conexão é particularmente apropriada para a parashá Shoftim, porque Devarim 20 ensina o homem a não destruir uma árvore que produz alimento, enquanto Yeshua ensina o homem a examinar o fruto que sua própria vida produz. Uma árvore recebe tempo, cuidado e condições para produzir. O homem também. E aqui surge uma advertência importante: não basta preservar árvores se destruímos pessoas com nossas palavras, nossa arrogância, nossa violência, nossa ganância ou nossa falta de misericórdia. O princípio de preservar precisa alcançar nosso relacionamento com o próximo.

Yeshua apresenta ainda uma parábola particularmente interessante em Luka 13:6–9:

Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi procurar fruto nela, mas não encontrou. Então disse ao trabalhador da vinha: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não encontro. Corta-a; por que ocupa ainda a terra? Mas ele respondeu: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu cave ao redor dela e coloque adubo. Se der fruto, bem; mas, se não, depois a cortarás.”

Essa passagem não deve ser artificialmente transformada em uma explicação direta de Devarim 20, pois o contexto ou assunto imediato aqui é outro. Porém, a imagem da árvore permite uma aplicação extremamente significativa. Perceba que antes de cortar, há trabalho de cuidado e manutenção. Antes de eliminar, há cuidado. Antes de declarar que algo não serve, há a tentativa de fazê-lo produzir. Isso nos ensina uma postura que também deve alcançar pessoas. Quantas vezes desistimos rapidamente de alguém? Quantas vezes declaramos alguém inútil porque ainda não vimos fruto? Quantas vezes queremos cortar aquilo que simplesmente precisa de cuidado? A mitsvá da árvore pode nos ensinar a esperar, a cultivar, que o fruto exige tempo, que preservar não significa abandonar a exigência de fruto. A preservação bíblica não é permissividade. É responsabilidade.


3. DA TORÁ PARA A VIDA

Agora que vimos tanta instrução e comentários sobre o assunto precisamos trazer o mandamento para a prática, para nossa vida diária. É fácil estudar sobre uma árvore em Devarim 20 e terminar o estudo admirando a sabedoria do texto. Mais difícil é perguntar: “Onde está o meu machado?” Porque todos nós seguramos algum tipo de machado. Às vezes ele está em nossas mãos literalmente, mas muitas vezes está em nossos hábitos. Está na maneira como compramos, na maneira como consumimos, como tratamos alimentos, na maneira como tratamos objetos, está na maneira como falamos com nossos familiares, como tratamos pessoas que já não nos são úteis, como usamos nosso tempo e como lidamos com aquilo que recebemos do Eterno.

O princípio de bal tashchit nos convida a desenvolver uma cultura de responsabilidade. Não desperdiçar alimento, por exemplo. O primeiro exercício é simples. Comer aquilo que colocamos no prato. E por isso devemos colocar o alimento no prato com parcimônia. Planejar compras. Guardar corretamente aquilo que sobrou. Compartilhar aquilo que não será utilizado. E ensinar as crianças a compreenderem que alimento não nasce dentro de uma embalagem. Existe terra, água, trabalho e tempo. Existe uma árvore, uma plantação ou um animal. Existe uma cadeia inteira de vida e trabalho antes que aquilo chegue às nossas mãos. Portanto, desperdiçar alimento é esquecer essa história.

- Não destruir objetos por impulso

Uma pessoa que quebra um objeto por raiva pode dizer: “É meu.” Mas bal tashchit pergunta: “Era necessário destruí-lo?” Se ainda existe possibilidade de consertar, reutilizar ou entregar a alguém, por que destruir? Isso não significa transformar objetos em ídolos. Significa reconhecer utilidade. O homem não deve se tornar escravo das coisas, mas também não deve se tornar destruidor delas.

- Preservar recursos

Água, madeira, alimentos, energia, terra e outros recursos devem ser utilizados com responsabilidade. O princípio não exige que o homem deixe de utilizar a criação. Pelo contrário, a própria Torá autoriza o cultivo, a colheita, a construção e a utilização. O princípio é: utilize sem desperdiçar. Plantar pensando em quem virá depois. Talvez uma das maiores lições da árvore seja esta: nem tudo precisa produzir para mim. Uma pessoa planta uma árvore sabendo que alguém poderá comer seus frutos daqui a dez, vinte ou trinta anos. Essa é uma forma de generosidade silenciosa. Você trabalha hoje para alguém que talvez nunca conheça. Esse princípio também pode ser aplicado à educação dos filhos, ao ensino das Escrituras, à construção de uma comunidade e à transmissão dos mandamentos.

Nós também plantamos árvores que não veremos amadurecer. Um professor ensina uma criança hoje e talvez somente décadas depois veja o fruto. Um pai ensina seu filho hoje e talvez somente muitos anos depois perceba a dimensão daquilo que plantou. Um homem pode escrever um estudo hoje para que alguém, anos depois, encontre nele uma direção. Isso é uma árvore. E talvez seja por isso que a árvore seja uma imagem tão poderosa para a vida humana. Por isso devemos ter cuidado com o que fazemos aos outros, pois podemos cortar uma árvore que seria frutífera, mas deixou de produzir por conta de nossas palavras.

- Preservar pessoas

Aqui chegamos a uma aplicação ainda mais profunda. Devarim 20 pergunta: “A árvore é homem?” A resposta literal é não. Mas existe uma consequência ética: Se o Eterno ensina o homem a não destruir inutilmente aquilo que não é seu inimigo, quanto mais devemos aprender a não destruir pessoas que foram criadas pelo Eterno. Devemos entender que: Há palavras que derrubam, há humilhações que mutilam, há acusações injustas que destroem famílias, fofocas que cortam relacionamentos como um machado, há orgulho que destrói comunidades e há líderes que utilizam pessoas e depois as descartam. E isso também precisa ser confrontado. Não basta dizer: “Eu não derrubo árvores.” Precisamos perguntar: “Eu preservo vidas?”

A árvore pode sobreviver a uma poda. Há podas que são para aumentar o vigor da árvore, mas existem aquelas que são destrutivas. Uma pessoa pode carregar durante décadas uma palavra destrutiva que ouviu na infância. Por isso, a aplicação do mandamento precisa alcançar nossa boca. Antes de destruir, pergunte-se: É necessário? Antes de descartar, pergunte: Existe algo que possa ser restaurado? Antes de desperdiçar, pergunte: Alguém poderia utilizar isso? Antes de condenar alguém, pergunte: Já fiz tudo o que poderia fazer para ajudá-lo a produzir fruto? Essa é uma maneira madura de viver os mandamentos.

- A árvore como escola de humildade

Existe ainda uma última dimensão que considero essencial. O homem moderno pode imaginar que possui tudo porque consegue controlar muitas coisas. Constrói prédios, domina máquinas, produz alimentos em grande escala, modifica sementes, corta florestas, constrói cidades, controla rios, etc. Mas então uma árvore permanece diante dele. Ela lembra: Você não criou a vida que existe dentro desta semente. Você pode plantar, pode irrigar, podar, pode cuidar, mas existe algo que você não controla. O homem participa do processo, mas não é o autor absoluto dele. E isso deve produzir humildade.

Em Tehillim 104:24, David HaMelech declara:

Quão numerosas são as tuas obras, Eterno! Fizeste todas elas com sabedoria; a terra está cheia das tuas possessões.”

A criação nos ensina sobre a grandiosidade do Eterno. Não precisamos transformar a árvore em objeto de culto. Precisamos aprender com ela. Uma árvore não exige, não reivindica. Ela simplesmente cresce, recebe luz, água e nutrientes, produz folhas, flores e frutos e, com o tempo, alimenta outros. Talvez por isso uma árvore seja uma das melhores imagens para ensinar o homem a servir. Ela recebe para produzir. E esse é um princípio que deveria alcançar nossa vida. Recebemos do Eterno para repartir. Recebemos conhecimento para ensinar, alimento para compartilhar, recursos para administrar, tempo para servir, força para proteger, autoridade para fazer justiça e recebemos vida para produzir fruto.

Concluindo nosso estudo, vimos na parashá Shoftim que Devarim 20:19–20 começa com uma situação de guerra, mas termina confrontando uma questão que permanece absolutamente humana. O que fazemos quando temos poder para destruir? O Eterno coloca um machado na mão do homem e, antes que ele o levante contra a árvore, faz uma pergunta: “A árvore do campo é homem, para que seja sitiada por ti?” Essa pergunta quebra uma mentalidade. Ela ensina que nem tudo que está ao nosso alcance deve ser destruído, ensina que necessidade não é a mesma coisa que conveniência, que propriedade não elimina responsabilidade, que abundância não justifica desperdício, que poder precisa de limite e que o presente possui deveres para com o futuro.

Os sábios desenvolveram esse princípio sob a expressão bal tashchit, mostrando que a preocupação da Torá com a árvore poderia educar o homem a rejeitar uma cultura de destruição inútil. Yeshua, por sua vez, ensinou seus talmidim a recolher os pedaços que sobraram para que nada se perdesse. Utilizou árvores e frutos para ensinar sobre o caráter humano e contou a parábola da figueira que recebeu mais tempo, trabalho e cuidado antes de ser cortada.

Tudo isso nos conduz para uma conclusão simples, mas profunda: O mandamento não é somente sobre árvores. É sobre o homem. A árvore é apenas o lugar onde o Eterno nos ensina a olhar para dentro. Nos fazendo refletir que tipo de consumidores somos? Que tipo de proprietário somos? Que tipo de líder somos? Que tipo de pai somos? Que tipo de mestre? Que tipo de servo?

Quando algo deixa de ser útil para mim, eu simplesmente descarto? Quando alguém falha, eu imediatamente corto? Quando tenho abundância, desperdiço? Quando tenho poder, destruo? Ou aprendi a cultivar, preservar, restaurar e produzir? Talvez o grande ensinamento de bal tashchit seja este: Não permita que aquilo que você recebeu do Eterno se transforme em instrumento de destruição em suas mãos.

Seja uma pessoa que preserva. Preserve alimento, recursos, aquilo que ainda pode ser utilizado. Preserve relacionamentos, a dignidade do próximo, o conhecimento, a terra, aquilo que pode produzir fruto. E, acima de tudo, examine a própria vida. Porque no final das contas, existe uma árvore que precisa ser examinada: a árvore da nossa própria vida. Que fruto estamos produzindo? O Eterno nos deu vida para que ela produza. E uma vida que recebeu muito, mas não produz para ninguém, precisa ser cultivada novamente.

Por isso, quando estivermos diante do machado, antes de levantá-lo, que aprendamos a fazer a pergunta da Torá: “Preciso realmente destruir?” Talvez essa simples pergunta seja suficiente para transformar nossa maneira de consumir, trabalhar, liderar, ensinar, criar filhos, tratar pessoas e viver diante do Eterno. Porque maturidade não é ter poder para destruir. Maturidade é, mesmo tendo poder para destruir, escolher preservar. E talvez seja essa a grande lição de uma árvore no meio da guerra: mesmo quando o mundo ao nosso redor nos ensina a destruir, o Eterno ainda nos ensina a cultivar.


Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef


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