Estudos da Torá
Parashá nº 50 – Ki Tavô (Quando vier)
Devarim/Deuteronômio 26:1-29:8
Haftará (separação) Is 60:1-22.
Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 13:1-23; Atos 28:17-31.
Lembre de onde você veio.
Lembre de onde você veio. Essa frase resume, com uma simplicidade quase perigosa, o cerne da parashá Ki Tavô. E digo "perigosa", porque é fácil ouvir isso como um convite à nostalgia, um "não esqueça de onde você saiu" de forma sentimental. Mas na Torá essa memória tem uma função muito mais dura e mais prática: ela é o que sustenta a obediência. Quem esquece de onde veio, esquece por que obedece.
Essa porção nos conduz a uma pergunta que parece simples, mas alcança profundamente o coração: você se lembra de onde veio? Quando Yisrael entrasse na terra que o Eterno havia prometido, não deveria permitir que a prosperidade apagasse sua memória. Ao levar as primícias diante do Eterno, cada israelita deveria declarar sua história: de onde seus pais vieram, como desceram ao Egito, como foram afligidos, como clamaram ao Eterno e como Ele os resgatou com mão forte.
Lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. Por isso quero te convidar a mergulhar comigo nesse estudo.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
A Torá não trata "lembrar" como um mero sentimento. A palavra Zachor (זכור), que em hebraico significa “lembra-te” ou “lembrar” é sempre um mandamento que produz ação, como vemos nos seguintes exemplos: lembra-te do dia que saíste do Egito (16:3), lembra-te do que Amaleq te fez (25:17), lembra-te dos dias antigos (32:7). E o oposto, "pen tishkach", que significa “para que não te esqueças”, aparece como a grande advertência em Devarim 8:11-18. Ali Moshê descreve exatamente o que vai acontecer: o povo vai prosperar na terra, vai construir casas boas, ver seus rebanhos e sua prata se multiplicarem, e nesse conforto vai dizer no coração "minha força e o poder da minha mão me trouxeram esta riqueza". O esquecimento não vem como rebelião barulhenta. Vem como prosperidade silenciosa.
Por isso, no início dessa parashá, lemos a orientação de quando o povo chegasse a terra, eles deveriam levar as primícias das colheitas da terra e entregá-las ao sacerdote como sinal de gratidão, e ao entregar eles deveria declarar uma bênção especial, que lembraria a história do povo:
“Meu pai era um arameu errante, e desceu ao Egito em número pequeno…” Devarim 26:5
A primeira coisa que encontramos, portanto, é memória ou lembrança. Yisrael deveria lembrar de onde veio para reconhecer quem o havia trazido até ali. E se somos servos do Eterno, essa mensagem também nos confronta. Porque, quando começamos a experimentar crescimento, conhecimento, provisão ou reconhecimento, existe sempre o perigo de esquecermos o caminho pelo qual o Eterno nos conduziu.
Lembre de onde você veio. Não importa se você veio do sistema religioso, se foi pastor, como eu fui. Se era um obreiro ou membro de banco. Se era de qualquer outra religião. Não importa se veio do judaísmo ortodoxo e agora reconhece Yeshua como mashiach em detrimento de todos que não aceitam isso. Lembre-se de quem o Eterno era quando você ainda não compreendia muitas coisas. Ele tinha planos e permitiu que eu e você passássemos por onde passamos, assim como permitiu tantas coisas que aconteceram com Yisrael. Lembre-se das vezes em que Ele abriu caminhos, corrigiu seus passos, sustentou você e colocou Sua Palavra diante dos seus olhos. Afinal, você não chegou onde está aleatoriamente. Entretanto, lembrar não significa viver preso ao passado. Nas Escrituras, a memória deve produzir uma resposta no presente. É por isso que Ki Tavô abre exatamente com algo próximo a "lembre de onde você veio", inserido aqui em forma de uma prática. O agricultor que traz os bikkurim precisa recitar, em voz alta, diante do sacerdote: "um arameu errante era meu pai..." (26:5). Ele conta a descida ao Egito, a escravidão, o clamor, a redenção, mesmo que ele mesmo nunca tenha pisado lá. A Torá o obriga a lembrar antes de agradecer, e a agradecer antes de comer do próprio fruto. A sequência é rígida: lembrar, reconhecer, agradecer, agir. Nenhuma dessas etapas substitui a outra. E isso nos encaminha para o primeiro tópico desse estudo.
1. Não esqueça quem o Eterno é
Como vimos na introdução, ao apresentar as primícias, Yisrael não dizia simplesmente: “Eu tenho uma boa colheita”. Eles começavam contando uma história. Havia um passado de peregrinação, o Egito, a aflição, o clamor e houve o resgate. Somente depois vinha a declaração:
E o Eterno nos tirou do Egito com mão forte… Devarim 26:8
A pessoa estava diante do sacerdote com o fruto da terra, mas sua memória estava no Egito. Por quê? Porque o Eterno queria que Yisrael entendesse que aquilo que possuía naquele momento não era fruto apenas de sua própria capacidade. Era necessário olhar para a colheita e lembrar do deserto, para a liberdade e lembrar da servidão, para a abundância e lembrar da necessidade e olhar para a terra e lembrar daquele que havia prometido.
Esse princípio aparece também em Devarim 8:2:
E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Eterno, teu Elohim, te conduziu estes quarenta anos no deserto...
O caminho deveria ser lembrado. Até mesmo os períodos difíceis deveriam ser lembrados. Porque aquilo que vivemos no caminho também pode nos ensinar quem é o Eterno. Talvez uma das maiores tentações da vida seja querer lembrar somente de onde estamos e esquecer de onde viemos. Mas Ki Tavô nos chama: Lembre de onde você veio. Não para permanecer no passado, mas para reconhecer a mão do Eterno no caminho.
Quem esquece de onde veio pode começar a atribuir a si mesmo aquilo que recebeu. Depois de advertir Yisrael a lembrar do caminho, Moshê apresenta uma advertência: Guarda-te, para que não te esqueças do Eterno, teu Elohim… Devarim 8:11
E pouco depois: Não digas no teu coração: A minha força e o poder da minha mão me adquiriram esta riqueza. Devarim 8:17
Aqui encontramos algo muito sério, pois o esquecimento não é apresentado apenas como uma falha de memória. Ele pode mudar a maneira como enxergamos nossa própria vida. Quando esquecemos de onde viemos, podemos começar a pensar: Eu cheguei aqui sozinho; Eu consegui porque sou forte; Eu sei porque sou inteligente; ou Eu tenho porque trabalhei mais do que todos. Mas Moshê responde: Antes te lembrarás do Eterno, teu Elohim, porque é Ele que te dá força… Devarim 8:18.
A memória, portanto, protege o coração contra a soberba.
Por isso, lembrar de onde viemos é também uma forma de permanecer humildes diante do Eterno. Quanto mais crescemos em conhecimento, mais precisamos lembrar que a Palavra não nos foi dada para nos tornar superiores aos outros, mas para nos ensinar a andar diante do Eterno. Portanto, veremos no próximo tópico o que lembrar deve produzir.
2. Lembrar produz gratidão
As primícias também nos ensinam que a memória deve produzir gratidão. Depois de recordar a história do povo, o israelita declara: E agora, eis que trouxe as primícias do fruto da terra que tu, ó Eterno, me deste. Devarim 26:10.
Observe a expressão: “que tu me deste.” A pessoa trabalhou, plantou, esperou, colheu, mas reconheceu: Foi o Eterno quem me deu.
Essa é a diferença entre simplesmente possuir algo e reconhecer a fonte daquilo que recebemos. David expressa algo semelhante: Que darei ao Eterno por todos os seus benefícios para comigo? Tehillim 116:12. O Salmo 103 segue essa mesma lógica: bendize, ó minha alma, ao Eterno, e não te esqueças de nenhum de Seus benefícios, e o Salmo 78 mostra o outro lado da moeda: gerações inteiras que se corromperam porque "esqueceram Suas obras". Lembrar de onde veio não é opcional na teologia bíblica. É a condição para continuar andando direito.
A gratidão verdadeira não é apenas verbal, ela pergunta: O que farei com aquilo que recebi? Se o Eterno me deu conhecimento, como usarei esse conhecimento? Me deu recursos, como tratarei o necessitado? Uma família, como tratarei aqueles que estão dentro dela? Se me deu entendimento das Escrituras, como colocarei essa compreensão em prática? Ensinou-me um mandamento, vou apenas falar sobre ele ou vou obedecê-lo? Assim, a gratidão conduz naturalmente à obediência.
Não basta conhecer as palavras: é necessário guardá-las. Esse é um dos grandes temas de Ki Tavô. Yisrael deveria escrever as palavras da Torá nas pedras. Escreverás sobre elas todas as palavras desta Torá. Devarim 27:8.
As palavras deveriam estar diante dos olhos. Mas o propósito não era simplesmente possuir um memorial escrito. Em Devarim 27:9–10, Moshê declara:
...Hoje te tornaste povo do Eterno, teu Elohim. Portanto, obedecerás à voz do Eterno, teu Elohim, e cumprirás os seus mandamentos...
Perceba a ligação:
- palavras escritas → ouvir → obedecer → viver a aliança.
Isso continua sendo um grande desafio para todos nós. Podemos conhecer muito sobre as Escrituras e ainda assim não obedecer, estudar durante anos e continuar repetindo comportamentos que o Eterno já nos mostrou que precisam mudar. Podemos saber citar um mandamento e não praticá-lo, falar sobre amor ao Eterno e, ao mesmo tempo, ignorar aquilo que Ele ordenou.
Por isso, Yeshua ensinou: Se me amais, guardareis os meus mandamentos. Yochanan 14:15.
E novamente: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. Yochanan 14:21.
O amor, segundo essas palavras, não permanece apenas no sentimento. O amor se manifesta na obediência.
3. Yeshua não separou amor de obediência
Quando observamos os ensinos de Yeshua, como os que citei anteriormente, encontramos a mesma direção presente em Devarim. Ele não ensinou que conhecer as palavras era suficiente. Em Mattityahu 7:24, declarou: Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente...
Existem duas ações: ouvir e praticar. Não apenas ouvir. Não apenas estudar. Não apenas ensinar. Deve ter também a ação de praticar.
Yeshua também afirmou: Não penseis que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Mattityahu 5:17. Portanto, seus ensinos devem nos conduzir a uma vida coerente com as palavras do Eterno. E os talmidim continuaram anunciando essa mesma verdade. Yochanan escreveu: Nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. 1 Yochanan 2:3. E: Porque este é o amor ao Eterno: que guardemos os seus mandamentos.1 Yochanan 5:3.
Assim, encontramos uma linha contínua:
- Devarim → Yeshua → talmidim.
Todos traçam a mesma linha de ensino: conhecer, lembrar, amar, guardar e praticar.
4. Os sábios e a importância de recordar
Entre os sábios de Yisrael existe uma forte valorização da memória como elemento essencial para preservar a identidade e a transmissão das palavras recebidas. Isso aparece de maneira particularmente marcante na Mishná, Pirkei Avot 1:4, quando é enfatizada a importância de aprender, receber e transmitir.
Também encontramos em Avot 3:21 a conhecida afirmação de que, quando não há conhecimento da Torá, não há verdadeiro caminho; e quando não há prática, o conhecimento não permanece suficiente.
Embora essas palavras sejam posteriores ao TaNaK, elas tocam uma questão já presente em Devarim: o conhecimento precisa produzir uma vida coerente. Entretanto, devemos manter uma ordem correta: primeiro a Palavra do Eterno; depois toda reflexão humana deve ser examinada à luz dela.
Como diz o próprio Moshe: Não acrescentareis à palavra que vos ordeno, nem diminuireis dela. Devarim 4:2
Portanto, qualquer ensinamento dos sábios pode servir como reflexão, mas não pode ocupar o lugar da Palavra do Eterno.
5. Como lembrar de onde viemos na vida diária?
A pergunta agora deixa de ser apenas bíblica e passa a ser prática. Como viver isso amanhã de manhã?
- Ao acordar, lembre-se: Antes de começar o dia, reconheça que sua vida não pertence a você de maneira absoluta.
- Ao trabalhar, lembre-se: Seu trabalho também deve ser conduzido por honestidade e justiça.
- Ao lidar com dinheiro, lembre: O desejo de possuir não pode governar seu coração.
- Ao falar com sua família, lembre: As pessoas próximas também são parte do lugar onde sua obediência será demonstrada.
- Quando alguém lhe fizer mal, lembre: O Eterno também observa como você responde à injustiça.
- Quando encontrar alguém necessitado, lembre: Ki Tavô não separa adoração de responsabilidade para com o próximo.
- Quando chegar o Shabat, lembre: O tempo pertence ao Eterno.
- Quando tiver uma oportunidade de transgredir sem que ninguém saiba, lembre: o Eterno sabe.
E quando perceber que falhou, não esconda seu erro atrás de palavras. Se corrija. Devarim 30 apresenta justamente o caminho do retorno ao Eterno e à obediência.
O coração que lembra continua humilde e ensinável. Talvez essa seja uma das aplicações mais importantes. Quem lembra de onde veio não precisa provar que já chegou, nem precisa fingir que sabe tudo. Não despreza quem ainda está aprendendo e nem precisa transformar conhecimento em orgulho. Pelo contrário, a memória produz humildade. O homem que se lembra de que um dia não sabia entende que ainda pode aprender. Aquele que se lembra de que já caiu compreende a necessidade de permanecer vigilante. E quem se lembra de que foi corrigido aprende a receber correção. Quem se lembra de que foi resgatado aprende a agradecer. E aquele que se lembra de onde veio permanece disposto a obedecer.
Devarim 30 apresenta uma promessa extraordinária. Mesmo depois de Yisrael experimentar as consequências da infidelidade, Moshê declara: E te converterás ao Eterno, teu Elohim, e obedecerás à sua voz… Devarim 30:8
O retorno não termina simplesmente com uma mudança de direção emocional, ele produz obediência à voz do Eterno. Isso também nos ajuda a compreender o papel dos ensinos de Yeshua. Se seus ensinos nos fazem lembrar do Eterno, reconhecer nossos caminhos errados, retornar a Ele e guardar Seus mandamentos, então estamos compreendendo corretamente a direção de suas palavras. O propósito não é criar pessoas que apenas falam sobre o Eterno. É formar pessoas que vivem diante do Eterno.
Concluindo nosso estudo, aprendemos que a parashá Ki Tavô nos coloca diante das pedras, das primícias, da terra, das bênçãos, das consequências da desobediência e da renovação da aliança. Mas por trás de tudo existe uma mensagem importante: não se esqueça.
Não se esqueça de onde você veio, de quem o Eterno é, do que Ele fez, dos caminhos pelos quais Ele conduziu você, das palavras que Ele colocou diante de você. E, principalmente, não permita que a memória se torne apenas uma história bonita.
Transforme a memória em gratidão, a gratidão em amor, o amor em obediência. Porque aquele que realmente se lembra não apenas diz: “O Eterno me trouxe até aqui.” Ele também pergunta: “Eterno, como queres que eu viva agora?” Essa talvez seja a grande mensagem de Ki Tavô para nossa caminhada: Lembre de onde você veio, para não esquecer a quem você pertence. E, ao lembrar a quem você pertence, guarde Seus mandamentos e pratique Suas palavras. Pois, como está escrito: “E agora, Israel, que é o que o Eterno, teu Elohim, pede de ti? Senão que temas o Eterno, teu Elohim, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Eterno, teu Elohim, de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Eterno…” Devarim 10:12–13
Lembre de onde você veio, quem o Eterno é, e o que Ele fez. E viva hoje em obediência à Sua Palavra.
Que o Eterno os abençoe.
Moshê Ben Yosef
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