ESTUDO ESPECIAL DE SHAVUOT
Ruth 3 e 4
Boaz: a imagem do remidor.
O livro de Ruth é lido como haftará da Parashá Especial de Shavuot. Existe algo curioso interessante sobre o livro de Ruth, quando alguém pensa em grandes acontecimentos das Escrituras, geralmente lembra da abertura do mar, do Monte Sinai, dos profetas ou dos reis de Yisrael. Mas Ruth parece diferente. Neste relato não há mar se abrindo. Não há fogo descendo dos shamaym. Não há exércitos. Não há grandes sinais visíveis. Há apenas uma viúva estrangeira, uma sogra amargurada, alguns campos de cevada e um homem caminhando entre trabalhadores. Esse seria um romance dramático por tudo que ele relata.
À primeira vista, parece uma história pequena, mas as Escrituras frequentemente escondem grandes propósitos dentro de acontecimentos aparentemente comuns. Enquanto Yisrael recebeu a Torah em Har Sinai, o livro de Ruth é lido em Shavuot e parece responder a uma pergunta silenciosa: Como a Torah se manifesta na vida diária?
Perceba que não é através de trovões, mas através de bondade. Não é através de sinais extraordinários, como muitos buscam até hoje nos sistemas religiosos, mas através de fidelidade. Não é através de discursos, mas através de atos. No centro dessa história encontramos Boaz, chamado de Go'el – remidor. E compreender essa palavra muda completamente a leitura do livro.
1. O conceito hebraico de Go'el
A palavra Go'el (גואל) vem da raiz ga'al (גאל), que significa:
resgatar;
restaurar;
reivindicar;
recuperar aquilo que foi perdido.
O Go'el não era simplesmente alguém generoso, era alguém que assumia responsabilidade familiar. Entre suas funções estavam:
resgatar propriedades perdidas;
preservar o nome da família;
auxiliar parentes em dificuldades;
restaurar aquilo que estava em risco de desaparecer.
Em Vayicrá encontramos:
“Quando teu irmão empobrecer e vender alguma parte da sua possessão, então virá o seu remidor mais chegado, e remirá o que vendeu seu irmão.” Vayicrá 25:25
A palavra usada aqui é justamente Go'el e o objetivo não era apenas recuperar terra, mas restaurar a herança, impedir que algo destinado à vida fosse perdido.
2. Boaz como Go'el
No livro de Ruth, Naomi retorna de Moav após perder marido e filhos. Ruth, sua nora, decide permanecer com ela:
“Porque aonde quer que fores irei eu, e onde quer que pousares ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, e o teu Elohim será o meu Elohim.” Ruth 1:16
A história começa com perda:
perda da terra;
perda da família;
perda da esperança;
perda do futuro.
Então surge Boaz, note que o texto o apresenta:
“E Naomi tinha um parente de seu marido, homem poderoso e rico, da família de Elimelech; e era seu nome Boaz. Ruth 2:1
Boaz poderia ignorar Ruth, poderia limitar-se à obrigação mínima e permanecer distante. Mas faz algo além do esperado. Ele protege, sustenta, honra, restaura e mais tarde declara:
“Na verdade sou remidor…” Ruth 3:12
Aqui encontramos outro conceito importante: Chesed (חסד). Este termo não significa simplesmente bondade ou misericórdia, indica amor demonstrado através de ações concretas. É fidelidade expressa por compromisso. Ruth demonstra chesed para Naomi e Boaz demonstra chesed para Ruth. E as Escrituras, frequentemente, descrevem o próprio Eterno usando essa palavra.
3. Boaz e a expectativa messiânica
Boaz, normalmente não é associado diretamente a Mashiach Ben Yosef, pois sua ligação tradicional é com a linhagem de David. Ou seja, literalmente, no nível Pshat, Boaz está ligado a Mashiach Ben David. Contudo, nunca estudamos um texto apenas no nível Pshat. O fato dele ser o parente remidor, profeticamente o liga ao mashiach Ben Yosef e sua característica de remidor.
O final de Ruth diz:
“Boaz gerou Oved; Oved gerou Yishai; e Yishai gerou David.” Ruth 4:21–22
Isso muda completamente o peso da história. Ruth não está apenas contando como uma família foi restaurada. Está mostrando o surgimento da linhagem real e profeticamente, como as pessoas podem ser redimidas e unidas ao povo da aliança.
O que os sábios ensinam sobre a leitura deste livro em Shavuot? Os observaram que Ruth foi lido em Shavuot por algumas razões tradicionais:
- David nasceu e morreu próximo a Shavuot
Uma tradição antiga relaciona David a Shavuot. Como o sefer Ruth conduz à genealogia de David, sua leitura tornou-se associada à festa.
- Ruth escolheu entrar na aliança
Os sábios compararam a decisão de Ruth com Israel em Sinai.
Yisrael disse: “Tudo o que o Eterno falou faremos.” Shemot 19:8
Ruth declarou:
“Teu povo será meu povo…” Ruth 1:16
Ambos representam compromisso voluntário.
4. Yeshua e os talmidim: imagens de redenção e colheita
Yeshua usa linguagem muito semelhante ao ambiente de Ruth. Ele declara:
“Levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.” Yochanan 4:35
Parte da história de Ruth ocorre durante a colheita, assim como Shavuot está ligado à colheita. Nas Escrituras colheita frequentemente representa pessoas sendo reunidas. Yeshua também usa a imagem do noivo:
“Podem os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o noivo?” Marcos 2:19
Boaz aparece como alguém que restaura uma família e preserva uma herança. Yeshua utiliza imagens semelhantes de restauração, reunião e vida. Os talmidim continuaram usando essa mesma linguagem. Por exemplo, Kefa escreve:
“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados…” 1 Kefa 1:18–19
Com isso, vemos a ideia de resgate aparece novamente.
5. Mashiach Ben Yosef e Mashiach ben David
A tradição rabínica posterior, através de estudos dos textos proféticos, desenvolveu o conceito de dois aspectos messiânicos: o Mashiach ben Yosef e o Mashiach ben David.
O Mashiach Ben Yosef está associado a:
sofrimento;
preparação;
batalha;
reunião dos dispersos.
O Mashiach Ben David está associado a:
reinado;
restauração;
paz;
governo.
Boaz, conforme já mencionei, normalmente se conecta mais naturalmente ao segundo aspecto, porque Boaz não aparece como sofredor, ele aparece como restaurador de herança e fundador da linhagem de David. Assim o fluxo torna-se:
Ruth → Boaz → Oved → Yishai → David → esperança messiânica
Concluindo nosso estudo, talvez a grande pergunta que se possa fazer em Ruth, nunca tenha sido: “Quem é Boaz?” Mas talvez a pergunta seja: “O que significa tornar-se um Go'el?” Porque Boaz poderia ter feito apenas o necessário, mas foi além. A redenção nas Escrituras raramente aparece apenas como transação legal, ela aparece como responsabilidade assumida por amor. E talvez seja exatamente por isso que Ruth é lido em Shavuot.
No Sinai o povo recebeu palavras, já em Ruth vemos essas palavras ganhando vida. No fim, Boaz não restaurou apenas uma terra. Ele restaurou futuro. E às vezes o Eterno faz exatamente isso: Ele entra em histórias que parecem pequenas, comuns e quebradas e constrói algo que atravessa gerações.
Moshê Ben Yosef
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário