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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Estudo da Parashá Bamidbar - Bamidbar, o Ômer e a arte de ser formado.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 34Bamidbar (No deserto)

Bamidbar/Números 1:1-4:20

Haftará (separação) Os 2:1-22.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Lc 2:1-7 e 1Co 12:12-31.


Bamidbar, o Ômer e a arte de ser formado.


Existe uma pergunta que toda pessoa que entra no caminho de teshuvah eventualmente faz, quase sempre em voz baixa, quase sempre no meio da noite, quando está sozinho: “Por que este silêncio? Por que este vazio? Por que, justamente agora que fui liberto, tudo parece tão árido?”

A resposta, surpreendentemente, não está nos livros de autoajuda nem nas prateleiras de espiritualidade rápida. Está escrita nas areias do deserto. Está soprada pelo vento quente entre as rochas do Sinai. Está no coração de uma palavra hebraica simples e devastadoramente profunda: Bamidbarno deserto.

Te convido a seguir por este estudo e manter sua atenção até o fim, há alguns segredos a serem revelados e você é que irá se beneficiar destas revelações. Não saia daí!


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Nesta semana estudamos a parashá Bamidbar (במדבר), a primeira porção do sefer Bamidbar. Esta porção inicia a caminhada de Yisrael rumo à terra prometida, mas antes da jornada começar, o Eterno organiza o Seu povo no deserto.

O Eterno fala a Moshê no deserto de Sinai, a partir do Ohel Moed, ordenando que seja feito o recenseamento de toda a congregação de Yisrael. Cada tribo deveria ser contada segundo suas famílias e casas paternas, registrando-se todos os homens de vinte anos para cima, aptos para sair à guerra. Isso demonstra que Yisrael não era apenas um grupo de ex-escravos libertos, mas um povo organizado, separado e preparado para cumprir os propósitos do Eterno.

Cada tribo recebe seu lugar específico no acampamento e na marcha pelo deserto. O centro de toda a organização era o Mishkan. Ao redor dele acampavam os levitas, encarregados do serviço e da guarda do santuário, e ao redor dos levitas ficavam as demais tribos, divididas em quatro grupos principais, posicionados ao norte, sul, leste e oeste.

A tribo de Levi não foi contada junto às demais, pois o Eterno a separou para o serviço do Mishkan. Os levitas foram designados para cuidar dos utensílios sagrados, desmontar e transportar o Mishkan durante as jornadas e proteger a santidade do lugar da presença do Eterno. Entre os levitas, cada família recebeu uma responsabilidade específica: os filhos de Gershon cuidariam das cortinas e coberturas; os filhos de Merari das estruturas, colunas e bases; e os filhos de Kehat dos objetos mais sagrados, como a Aron HaBrit, a Menorah e os utensílios do Mishkan.

Um dos ensinamentos mais profundos desta parashá é justamente a posição do Mishkan no centro do acampamento. Isso nos revela que o Eterno deve ser o centro da vida de Seu povo. Toda a organização de Yisrael girava ao redor da presença do Eterno. O povo marchava quando a nuvem se movia e parava quando ela repousava. Assim, aprendemos que não devemos viver segundo nossa própria vontade, mas conforme a direção do Eterno.

Também vemos nesta porção a importância da identidade e da função de cada pessoa dentro do povo. Nenhuma tribo ocupava o lugar da outra, e cada família tinha uma responsabilidade específica. Isso nos ensina que o Eterno é Elohim de ordem, propósito e santidade.

Portanto, Bamidbar não trata apenas de números e organização; trata da presença do Eterno habitando no meio de Seu povo. O deserto se torna um lugar de aprendizado, transformação e confiança. O Mishkan no centro nos lembra continuamente que o Eterno deve ocupar o lugar principal em nossa vida, acima de homens, tradições e interesses pessoais.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O Eterno falou a Mosheh no deserto do Sinai, na tenda do encontro, no primeiro dia do segundo mês do segundo ano após a saída da terra do Egito. Nm 1:1


O deserto não é um acidente. Quando lemos que o Eterno escolheu levar o povo ao deserto, podemos entender que o deserto, pois ali seria o palco da revelação, somos tentados a imaginar que foi por falta de opção, que Moisés e o povo simplesmente estavam por ali, e HaShem aproveitou a oportunidade. Mas a teologia judaica jamais pensa assim. O Eterno não imposta. Ele escolhe.

Há algo profundamente transformador no fato de que o Eterno escolheu o deserto como lugar de revelação. Bamidbar não começa em uma cidade, nem em um palácio, nem em um centro de poder humano. Começa no vazio. No silêncio. Na vastidão aparentemente estéril do deserto. Isso não é um detalhe geográfico; é um princípio espiritual que percorre toda a Escritura.

O deserto, nas Escrituras, é o lugar onde o homem deixa de confiar nas estruturas humanas e aprende a depender inteiramente do Eterno. No deserto não há segurança natural, não há abundância produzida pelas mãos do homem, não há distrações da civilização. Ali, tudo depende do Eterno: a água, o alimento, a direção, a proteção e até mesmo o próximo passo. Por isso o sefer Bamidbar começa por essas palavras que lemos acima.

O Midrash Sifrei sobre Bamidbar observa que a Torá foi dada em três lugares "sem dono": no deserto, no fogo e na água. Nenhum deles pertence a uma nação, a um povo, a uma jurisdição humana. Esse Midrash ensina que a Torá foi dada no deserto porque o deserto pertence a todos; apesar do Eterno ter escolhido o povo de Yisrael para entregá-la, ninguém pode reivindicar posse exclusiva da Palavra do Eterno. O Rabino Shimeon bar Yohai comenta que assim como esses lugares estão disponíveis para qualquer pessoa que se aproxime, a Torá também está aberta a qualquer alma, isto é, a qualquer pessoa que venha sem a arrogância da propriedade, sem a ilusão de que já sabe o suficiente. Quem deseja recebê-la precisa aproximar-se com humildade, como alguém que entra num território vazio de si mesmo.

Os sábios de Yisrael frequentemente associaram o deserto à condição necessária para receber sabedoria. O Midrash Bamidbar Rabbah ensina que somente aquele que se torna “como o deserto”, humilde e disponível, pode verdadeiramente adquirir as palavras da Torá. Esse pensamento são um eco do que o salmista declarou: “Ensina-me a fazer a Tua vontade.” (Tehilim 143:10)

O deserto é exatamente o lugar onde o homem deixa de ensinar a si mesmo e passa a ser ensinado pelo Eterno. Há, portanto, uma pedagogia deliberada no deserto. O Eterno não envia Seu povo ao deserto para puni-los, pelo menos não no sentido primário. Ele os envia porque o deserto é a única sala de aula onde certas lições podem ser aprendidas. As paredes do Egito eram cômodas demais. As hortas de pepinos e as panelas de carne (Êx 16:3) eram anestesiantes demais. Para que um povo aprenda a depender do Eterno, ele precisa primeiro ser colocado numa situação onde não pode depender de mais nada. O profeta Hoshea/Oséias entendeu isso com uma clareza quase dolorosa. Numa das passagens mais íntimas de toda a profecia judaica, o Eterno fala sobre Yisrael como um amante fala de sua amada, e diz: "Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei ao deserto, e falarei ao seu coração." (Oséias 2:16)

Perceba o movimento: atrair, levar, falar ao coração. Não é punição. É cortejo. Deus usa o deserto como um homem apaixonado usa um lugar silencioso e afastado — para finalmente ter a atenção plena da pessoa amada, longe do barulho, longe das distrações, longe de tudo que compete com Sua voz. E tudo isso se conecta profundamente com o que estamos fazendo, a contagem do Ômer, conforme veremos no próximo tópico.


1 - A Escola que Começa em Pessach e Termina no Sinai

E aqui voltamos a falar do calendário bíblico mais uma vez, e de um dos mais ricos e densos significados que o povo de Yisrael carrega: a Contagem do Ômer. Os quarenta e nove dias ou sete semanas completas, que vai do início do segundo dia de Pessach até a véspera de Shavuot. Do agitar do sheaf (mólho) da cevada até o dom da Torá. Do momento da libertação até o momento da revelação. E o que há entre esses dois polos? O deserto.

A conexão não é poética, é histórica e litúrgica. A contagem do Ômer é, em seu fundamento, uma rememoração da caminhada pelo deserto. Cada dia contado é um passo dado. Cada semana encerrada é uma etapa da jornada entre o Egito e o Sinai. O povo que saiu da casa da escravidão não estava pronto para receber a Torá. Precisava caminhar. Precisava ser contado. Precisava aprender seu próprio nome antes de receber o Nome do Eterno gravado em tábuas de pedra.

Isso diz algo fundamental sobre a natureza da fé vivida: a libertação não é o destino, é o começo. Pessach é glorioso, com seus sinais e maravilhas, com o sangue no umbral e o mar que se abre. Mas um escravo liberto não é automaticamente um homem livre. A liberdade interna, a cherrut - חירות (liverdade, libertação) verdadeira, é forjada no deserto, dia após dia, escolha após escolha.

O Talmud Bavli, no tratado Yevamot, registra que nesse período de contagem do ômer faleceram 24.000 alunos de Rabi Akiva — uma das maiores tragédias da história rabínica. Os sábios ligam isso a uma falta de kavod, de honra e respeito mútuo entre eles. A contagem do Ômer, então, tornou-se não apenas uma contagem de dias, mas uma contagem de caráter. Cada dia da semana corresponde a um dos sete midot (medidas, proporções, normas), atributos de caráter: amor, disciplina, harmonia, resistência, humildade, conexão, dignidade. O deserto ensina que não basta sair do Egito, é preciso que o Egito saia de você.

Por isso Bamidbar e o período do Ômer possuem ligação tão profunda: ambos falam de preparação, refinamento e alinhamento. O deserto não era punição; era treinamento. O Eterno estava formando uma nação sacerdotal. O que nos leva ao próximo tópico.


2 - O Homem que Vai ao Deserto

A tradição nazarena vê em Yeshua de Natzet a figura do Israelita perfeito, aquele que recapitula em si mesmo toda a jornada do povo. E é impossível não notar que, os autores dos evangelhos relatam que antes de qualquer palavra pública, antes de qualquer sinal ou ensinamento, Yeshua foi levado ao deserto. Como lemos: "Então Yeshua foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo adversário." (Mateus 4:1)

Quarenta. Para Yeshua foram dias e esse foi o mesmo número que Israel vagou no deserto, mas em anos. E as três tentações que Yeshua enfrenta nesses dias são exatamente as três nas quais Israel havia tropeçado: a tentação do pão (a murmuração pelo maná), a tentação de testar a D’us (as queixas no deserto), e a tentação do poder imediato (o bezerro de ouro e os ídolos das nações). Yeshua responde a cada uma delas com palavras do sefer Devarim/Deuteronômio, com as palavras que Mosheh disse ao povo depois do deserto, depois dos quarenta anos de formação.

O deserto, para Yeshua, não foi fraqueza. Foi preparação. E a lição que seu caminho nos deixa é esta: o Espírito leva ao deserto os que o Eterno quer usar. O deserto não é abandono, é investimento.

O Rav Shaul (apóstolo Paulo), formado nos pés de Gamaliel e depois radicalmente transformado em seu próprio deserto na Arábia (Gálatas 1:17), entendeu isso quando escreveu aos crentes em Roma com palavras que ressoam como o eco de Hoshea/Oséias: “E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz paciência, e a paciência, experiência, e a experiência, esperança.” (Romanos 5:3-4).

Em grego, a palavra traduzida como "experiência" é dokimé, o resultado de um processo de teste, como o ouro que passa pelo fogo. O deserto é o forno de dokimé. Ninguém sai dele como entrou.


3 - A Voz que Ecoa no Silêncio

O profeta Yeshayahu/Isaías, escrevendo para um povo que estava prestes a ser levado ao exílio, ao seu próprio deserto involuntário, anuncia com uma voz que atravessa séculos: "Eis que faço uma coisa nova; ela já está brotando, não a percebeis vós? Eis que farei um caminho no deserto e rios no ermo." (Isaías 43:19)

A pergunta mais perturbadora do versículo não é sobre o caminho ou os rios. É aquela que antecede tudo: "Não a percebeis vós?" D’us está fazendo algo novo agora, neste momento, e o povo não percebe porque está olhando para trás, lamentando o que foi. O deserto exige uma reeducação do olhar. Enquanto você estiver de costas para o horizonte, chorando a margem do Nilo que ficou para trás, não verá a nascente que brota na pedra à sua frente.

Yecheskel/Ezequiel usa a mesma imagem quando fala da restauração de Yisrael: ossos secos no deserto que recebem sopro e se levantam como um exército (Ez 37). O deserto de ossos, imagem máxima de morte e desolação, se torna o cenário do maior milagre de ressurreição coletiva da profecia judaica. E vemos aqui a profecia sobre ressurreição em dois níveis, a restauração do povo e a ressurreição futura. O Eterno tem uma preferência estranha pelos lugares mais improváveis para ensinar.


4 - Ser Contado no Deserto

Há um detalhe da parashá Bamidbar que não podemos deixar passar: o Eterno manda contar o povo no deserto. Não depois, nem quando chegarem à terra. No deserto, no meio do caminho, no meio da incerteza. Isso é fantástico! Significa que você não precisa ter chegado para ter valor. Você não precisa ter vencido para ser visto. Você não precisa ter saído do deserto para ser contado pelo Eterno. O Baal Shem Tov, famoso rabino fundador do movimento chassídico, ensinava que toda descida espiritual, todo yeridá (descida), tem como propósito uma ascensão maior. Não existe vale que HaShem não use como trampolim. E não existe deserto que Ele não transforme em escola. O pior erro que uma pessoa em teshuváh ou servo do Eterno pode cometer é interpretar o deserto como sinal de rejeição, quando na verdade é sinal de convite.

Rabi Nakhman de Breslov, que viveu seus próprios desertos interiores de dúvida e angústia, legou ao mundo uma das frases mais citadas do pensamento judaico moderno: "É proibido desesperar." — Assur lehityaesh. Não é fraqueza. É proibição. Porque desesperar no deserto é negar que HaShem ainda está falando.


5 - O Ômer que Ainda Estamos Contando

Enquanto estas palavras são lidas, o povo judeu e nazareno ao redor do mundo estão em meio à contagem do Ômer. Cada noite, a bênção sobe: "Hoje é o... dia do Ômer." Cada dia, um passo. Cada semana, uma camada de caráter sendo trabalhada. Estamos, literalmente, no deserto entre Pessach e Shavuot. Entre a libertação e a revelação. E a pergunta que Bamidbar faz a cada um de nós é a mesma que o Eterno fez a Israel há milênios: Você confia que Eu sei o que estou fazendo com você aqui?

Porque o deserto não termina com derrota. Termina com o Sinai e a entrega da Torá. Termina com a voz de D’us trovejando sobre a montanha e um povo inteiro tremendo diante da Presença. Termina com a Torá gravada, não em pedra, disse Jeremias (31:33), mas no coração. E esse coração? Foi formado no deserto.

No deserto, o Eterno fala. No deserto, o Eterno conta. No deserto, o Eterno transforma escravos em nação, e nação em sacerdotes.

Concluindo nosso estudo, podemos aprender que, quando atravessamos períodos de silêncio, espera ou incerteza, não devemos pensar que fomos abandonados. Frequentemente, estamos em nosso próprio Bamidbar. E talvez a maior lição seja esta: o deserto não é ausência do Eterno. É justamente o lugar onde Sua presença se torna mais evidente. A nuvem estava no deserto. O maná caiu no deserto. A água saiu da rocha no deserto. A Torá foi dada no deserto. O Mishkan foi erguido no deserto.

O deserto era árido, mas o Eterno estava no centro. Assim também ocorre conosco. O homem que decide caminhar com o Eterno inevitavelmente atravessará desertos. Mas são nesses lugares que somos moldados, alinhados e preparados para cumprir o propósito do Eterno. Como está escrito:

Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Eterno teu Elohim te guiou no deserto…” (Devarim 8:2).

O caminho pelo deserto nunca foi desperdício. Era formação. Era preparação. Era aproximação.

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


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