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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Estudo da Parashá Bamidbar - Bamidbar, o Ômer e a arte de ser formado.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 34Bamidbar (No deserto)

Bamidbar/Números 1:1-4:20

Haftará (separação) Os 2:1-22.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Lc 2:1-7 e 1Co 12:12-31.


Bamidbar, o Ômer e a arte de ser formado.


Existe uma pergunta que toda pessoa que entra no caminho de teshuvah eventualmente faz, quase sempre em voz baixa, quase sempre no meio da noite, quando está sozinho: “Por que este silêncio? Por que este vazio? Por que, justamente agora que fui liberto, tudo parece tão árido?”

A resposta, surpreendentemente, não está nos livros de autoajuda nem nas prateleiras de espiritualidade rápida. Está escrita nas areias do deserto. Está soprada pelo vento quente entre as rochas do Sinai. Está no coração de uma palavra hebraica simples e devastadoramente profunda: Bamidbarno deserto.

Te convido a seguir por este estudo e manter sua atenção até o fim, há alguns segredos a serem revelados e você é que irá se beneficiar destas revelações. Não saia daí!


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Nesta semana estudamos a parashá Bamidbar (במדבר), a primeira porção do sefer Bamidbar. Esta porção inicia a caminhada de Yisrael rumo à terra prometida, mas antes da jornada começar, o Eterno organiza o Seu povo no deserto.

O Eterno fala a Moshê no deserto de Sinai, a partir do Ohel Moed, ordenando que seja feito o recenseamento de toda a congregação de Yisrael. Cada tribo deveria ser contada segundo suas famílias e casas paternas, registrando-se todos os homens de vinte anos para cima, aptos para sair à guerra. Isso demonstra que Yisrael não era apenas um grupo de ex-escravos libertos, mas um povo organizado, separado e preparado para cumprir os propósitos do Eterno.

Cada tribo recebe seu lugar específico no acampamento e na marcha pelo deserto. O centro de toda a organização era o Mishkan. Ao redor dele acampavam os levitas, encarregados do serviço e da guarda do santuário, e ao redor dos levitas ficavam as demais tribos, divididas em quatro grupos principais, posicionados ao norte, sul, leste e oeste.

A tribo de Levi não foi contada junto às demais, pois o Eterno a separou para o serviço do Mishkan. Os levitas foram designados para cuidar dos utensílios sagrados, desmontar e transportar o Mishkan durante as jornadas e proteger a santidade do lugar da presença do Eterno. Entre os levitas, cada família recebeu uma responsabilidade específica: os filhos de Gershon cuidariam das cortinas e coberturas; os filhos de Merari das estruturas, colunas e bases; e os filhos de Kehat dos objetos mais sagrados, como a Aron HaBrit, a Menorah e os utensílios do Mishkan.

Um dos ensinamentos mais profundos desta parashá é justamente a posição do Mishkan no centro do acampamento. Isso nos revela que o Eterno deve ser o centro da vida de Seu povo. Toda a organização de Yisrael girava ao redor da presença do Eterno. O povo marchava quando a nuvem se movia e parava quando ela repousava. Assim, aprendemos que não devemos viver segundo nossa própria vontade, mas conforme a direção do Eterno.

Também vemos nesta porção a importância da identidade e da função de cada pessoa dentro do povo. Nenhuma tribo ocupava o lugar da outra, e cada família tinha uma responsabilidade específica. Isso nos ensina que o Eterno é Elohim de ordem, propósito e santidade.

Portanto, Bamidbar não trata apenas de números e organização; trata da presença do Eterno habitando no meio de Seu povo. O deserto se torna um lugar de aprendizado, transformação e confiança. O Mishkan no centro nos lembra continuamente que o Eterno deve ocupar o lugar principal em nossa vida, acima de homens, tradições e interesses pessoais.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O Eterno falou a Mosheh no deserto do Sinai, na tenda do encontro, no primeiro dia do segundo mês do segundo ano após a saída da terra do Egito. Nm 1:1


O deserto não é um acidente. Quando lemos que o Eterno escolheu levar o povo ao deserto, podemos entender que o deserto, pois ali seria o palco da revelação, somos tentados a imaginar que foi por falta de opção, que Moisés e o povo simplesmente estavam por ali, e HaShem aproveitou a oportunidade. Mas a teologia judaica jamais pensa assim. O Eterno não imposta. Ele escolhe.

Há algo profundamente transformador no fato de que o Eterno escolheu o deserto como lugar de revelação. Bamidbar não começa em uma cidade, nem em um palácio, nem em um centro de poder humano. Começa no vazio. No silêncio. Na vastidão aparentemente estéril do deserto. Isso não é um detalhe geográfico; é um princípio espiritual que percorre toda a Escritura.

O deserto, nas Escrituras, é o lugar onde o homem deixa de confiar nas estruturas humanas e aprende a depender inteiramente do Eterno. No deserto não há segurança natural, não há abundância produzida pelas mãos do homem, não há distrações da civilização. Ali, tudo depende do Eterno: a água, o alimento, a direção, a proteção e até mesmo o próximo passo. Por isso o sefer Bamidbar começa por essas palavras que lemos acima.

O Midrash Sifrei sobre Bamidbar observa que a Torá foi dada em três lugares "sem dono": no deserto, no fogo e na água. Nenhum deles pertence a uma nação, a um povo, a uma jurisdição humana. Esse Midrash ensina que a Torá foi dada no deserto porque o deserto pertence a todos; apesar do Eterno ter escolhido o povo de Yisrael para entregá-la, ninguém pode reivindicar posse exclusiva da Palavra do Eterno. O Rabino Shimeon bar Yohai comenta que assim como esses lugares estão disponíveis para qualquer pessoa que se aproxime, a Torá também está aberta a qualquer alma, isto é, a qualquer pessoa que venha sem a arrogância da propriedade, sem a ilusão de que já sabe o suficiente. Quem deseja recebê-la precisa aproximar-se com humildade, como alguém que entra num território vazio de si mesmo.

Os sábios de Yisrael frequentemente associaram o deserto à condição necessária para receber sabedoria. O Midrash Bamidbar Rabbah ensina que somente aquele que se torna “como o deserto”, humilde e disponível, pode verdadeiramente adquirir as palavras da Torá. Esse pensamento são um eco do que o salmista declarou: “Ensina-me a fazer a Tua vontade.” (Tehilim 143:10)

O deserto é exatamente o lugar onde o homem deixa de ensinar a si mesmo e passa a ser ensinado pelo Eterno. Há, portanto, uma pedagogia deliberada no deserto. O Eterno não envia Seu povo ao deserto para puni-los, pelo menos não no sentido primário. Ele os envia porque o deserto é a única sala de aula onde certas lições podem ser aprendidas. As paredes do Egito eram cômodas demais. As hortas de pepinos e as panelas de carne (Êx 16:3) eram anestesiantes demais. Para que um povo aprenda a depender do Eterno, ele precisa primeiro ser colocado numa situação onde não pode depender de mais nada. O profeta Hoshea/Oséias entendeu isso com uma clareza quase dolorosa. Numa das passagens mais íntimas de toda a profecia judaica, o Eterno fala sobre Yisrael como um amante fala de sua amada, e diz: "Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei ao deserto, e falarei ao seu coração." (Oséias 2:16)

Perceba o movimento: atrair, levar, falar ao coração. Não é punição. É cortejo. Deus usa o deserto como um homem apaixonado usa um lugar silencioso e afastado — para finalmente ter a atenção plena da pessoa amada, longe do barulho, longe das distrações, longe de tudo que compete com Sua voz. E tudo isso se conecta profundamente com o que estamos fazendo, a contagem do Ômer, conforme veremos no próximo tópico.


1 - A Escola que Começa em Pessach e Termina no Sinai

E aqui voltamos a falar do calendário bíblico mais uma vez, e de um dos mais ricos e densos significados que o povo de Yisrael carrega: a Contagem do Ômer. Os quarenta e nove dias ou sete semanas completas, que vai do início do segundo dia de Pessach até a véspera de Shavuot. Do agitar do sheaf (mólho) da cevada até o dom da Torá. Do momento da libertação até o momento da revelação. E o que há entre esses dois polos? O deserto.

A conexão não é poética, é histórica e litúrgica. A contagem do Ômer é, em seu fundamento, uma rememoração da caminhada pelo deserto. Cada dia contado é um passo dado. Cada semana encerrada é uma etapa da jornada entre o Egito e o Sinai. O povo que saiu da casa da escravidão não estava pronto para receber a Torá. Precisava caminhar. Precisava ser contado. Precisava aprender seu próprio nome antes de receber o Nome do Eterno gravado em tábuas de pedra.

Isso diz algo fundamental sobre a natureza da fé vivida: a libertação não é o destino, é o começo. Pessach é glorioso, com seus sinais e maravilhas, com o sangue no umbral e o mar que se abre. Mas um escravo liberto não é automaticamente um homem livre. A liberdade interna, a cherrut - חירות (liverdade, libertação) verdadeira, é forjada no deserto, dia após dia, escolha após escolha.

O Talmud Bavli, no tratado Yevamot, registra que nesse período de contagem do ômer faleceram 24.000 alunos de Rabi Akiva — uma das maiores tragédias da história rabínica. Os sábios ligam isso a uma falta de kavod, de honra e respeito mútuo entre eles. A contagem do Ômer, então, tornou-se não apenas uma contagem de dias, mas uma contagem de caráter. Cada dia da semana corresponde a um dos sete midot (medidas, proporções, normas), atributos de caráter: amor, disciplina, harmonia, resistência, humildade, conexão, dignidade. O deserto ensina que não basta sair do Egito, é preciso que o Egito saia de você.

Por isso Bamidbar e o período do Ômer possuem ligação tão profunda: ambos falam de preparação, refinamento e alinhamento. O deserto não era punição; era treinamento. O Eterno estava formando uma nação sacerdotal. O que nos leva ao próximo tópico.


2 - O Homem que Vai ao Deserto

A tradição nazarena vê em Yeshua de Natzet a figura do Israelita perfeito, aquele que recapitula em si mesmo toda a jornada do povo. E é impossível não notar que, os autores dos evangelhos relatam que antes de qualquer palavra pública, antes de qualquer sinal ou ensinamento, Yeshua foi levado ao deserto. Como lemos: "Então Yeshua foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo adversário." (Mateus 4:1)

Quarenta. Para Yeshua foram dias e esse foi o mesmo número que Israel vagou no deserto, mas em anos. E as três tentações que Yeshua enfrenta nesses dias são exatamente as três nas quais Israel havia tropeçado: a tentação do pão (a murmuração pelo maná), a tentação de testar a D’us (as queixas no deserto), e a tentação do poder imediato (o bezerro de ouro e os ídolos das nações). Yeshua responde a cada uma delas com palavras do sefer Devarim/Deuteronômio, com as palavras que Mosheh disse ao povo depois do deserto, depois dos quarenta anos de formação.

O deserto, para Yeshua, não foi fraqueza. Foi preparação. E a lição que seu caminho nos deixa é esta: o Espírito leva ao deserto os que o Eterno quer usar. O deserto não é abandono, é investimento.

O Rav Shaul (apóstolo Paulo), formado nos pés de Gamaliel e depois radicalmente transformado em seu próprio deserto na Arábia (Gálatas 1:17), entendeu isso quando escreveu aos crentes em Roma com palavras que ressoam como o eco de Hoshea/Oséias: “E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz paciência, e a paciência, experiência, e a experiência, esperança.” (Romanos 5:3-4).

Em grego, a palavra traduzida como "experiência" é dokimé, o resultado de um processo de teste, como o ouro que passa pelo fogo. O deserto é o forno de dokimé. Ninguém sai dele como entrou.


3 - A Voz que Ecoa no Silêncio

O profeta Yeshayahu/Isaías, escrevendo para um povo que estava prestes a ser levado ao exílio, ao seu próprio deserto involuntário, anuncia com uma voz que atravessa séculos: "Eis que faço uma coisa nova; ela já está brotando, não a percebeis vós? Eis que farei um caminho no deserto e rios no ermo." (Isaías 43:19)

A pergunta mais perturbadora do versículo não é sobre o caminho ou os rios. É aquela que antecede tudo: "Não a percebeis vós?" D’us está fazendo algo novo agora, neste momento, e o povo não percebe porque está olhando para trás, lamentando o que foi. O deserto exige uma reeducação do olhar. Enquanto você estiver de costas para o horizonte, chorando a margem do Nilo que ficou para trás, não verá a nascente que brota na pedra à sua frente.

Yecheskel/Ezequiel usa a mesma imagem quando fala da restauração de Yisrael: ossos secos no deserto que recebem sopro e se levantam como um exército (Ez 37). O deserto de ossos, imagem máxima de morte e desolação, se torna o cenário do maior milagre de ressurreição coletiva da profecia judaica. E vemos aqui a profecia sobre ressurreição em dois níveis, a restauração do povo e a ressurreição futura. O Eterno tem uma preferência estranha pelos lugares mais improváveis para ensinar.


4 - Ser Contado no Deserto

Há um detalhe da parashá Bamidbar que não podemos deixar passar: o Eterno manda contar o povo no deserto. Não depois, nem quando chegarem à terra. No deserto, no meio do caminho, no meio da incerteza. Isso é fantástico! Significa que você não precisa ter chegado para ter valor. Você não precisa ter vencido para ser visto. Você não precisa ter saído do deserto para ser contado pelo Eterno. O Baal Shem Tov, famoso rabino fundador do movimento chassídico, ensinava que toda descida espiritual, todo yeridá (descida), tem como propósito uma ascensão maior. Não existe vale que HaShem não use como trampolim. E não existe deserto que Ele não transforme em escola. O pior erro que uma pessoa em teshuváh ou servo do Eterno pode cometer é interpretar o deserto como sinal de rejeição, quando na verdade é sinal de convite.

Rabi Nakhman de Breslov, que viveu seus próprios desertos interiores de dúvida e angústia, legou ao mundo uma das frases mais citadas do pensamento judaico moderno: "É proibido desesperar." — Assur lehityaesh. Não é fraqueza. É proibição. Porque desesperar no deserto é negar que HaShem ainda está falando.


5 - O Ômer que Ainda Estamos Contando

Enquanto estas palavras são lidas, o povo judeu e nazareno ao redor do mundo estão em meio à contagem do Ômer. Cada noite, a bênção sobe: "Hoje é o... dia do Ômer." Cada dia, um passo. Cada semana, uma camada de caráter sendo trabalhada. Estamos, literalmente, no deserto entre Pessach e Shavuot. Entre a libertação e a revelação. E a pergunta que Bamidbar faz a cada um de nós é a mesma que o Eterno fez a Israel há milênios: Você confia que Eu sei o que estou fazendo com você aqui?

Porque o deserto não termina com derrota. Termina com o Sinai e a entrega da Torá. Termina com a voz de D’us trovejando sobre a montanha e um povo inteiro tremendo diante da Presença. Termina com a Torá gravada, não em pedra, disse Jeremias (31:33), mas no coração. E esse coração? Foi formado no deserto.

No deserto, o Eterno fala. No deserto, o Eterno conta. No deserto, o Eterno transforma escravos em nação, e nação em sacerdotes.

Concluindo nosso estudo, podemos aprender que, quando atravessamos períodos de silêncio, espera ou incerteza, não devemos pensar que fomos abandonados. Frequentemente, estamos em nosso próprio Bamidbar. E talvez a maior lição seja esta: o deserto não é ausência do Eterno. É justamente o lugar onde Sua presença se torna mais evidente. A nuvem estava no deserto. O maná caiu no deserto. A água saiu da rocha no deserto. A Torá foi dada no deserto. O Mishkan foi erguido no deserto.

O deserto era árido, mas o Eterno estava no centro. Assim também ocorre conosco. O homem que decide caminhar com o Eterno inevitavelmente atravessará desertos. Mas são nesses lugares que somos moldados, alinhados e preparados para cumprir o propósito do Eterno. Como está escrito:

Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Eterno teu Elohim te guiou no deserto…” (Devarim 8:2).

O caminho pelo deserto nunca foi desperdício. Era formação. Era preparação. Era aproximação.

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Estudo da Parashá Vayetse - Comprometimento, esforço e profecia.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 07 – Vayetse (E saiu)

Bereshit/Gênesis 28:10-32:3

Haftará (separação) Os 12:13-14:10 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Jo 1:43-51


Comprometimento, esforço e profecia.


Nesta porção da Torá, como em todas as outras, há diversos pontos onde podemos parar e estudar mais profundamente, e isso é recomendável. Nesta semana algo me chamou a atenção. Lemos que Yaakov se comprometeu com seu sogro a trabalhar para ele durante sete anos, para receber Rachel como esposa. Algo que é aparentemente um mero relato da vida do patriarca, quando nos detemos um pouco mais, e descemos um nível a mais na interpretação no contexto original, sabendo que se tratam os textos de profecias, chegaremos a um entendimento sobre a relação do Mashiach e a congregação nazarena. Temos estudado e comentado sobre a missão do Mashiach em resgatar a congregação do Eterno, como um compromisso dele. E isso é demonstrado nesse texto que trata sobre parte da vida de Yaakov, Leah e Rachel. Venha comigo neste pequeno estudo, aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre o compromisso do Mashiach com as Casas de Yisrael e Yehudah, e também com todos que pretendem se aproximar do Eterno, através da Torá prática ensinada pelo Mashiach Yeshua. Não saia daí, fique até o final!


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Vayêtse relata a saída de Yaakov da casa de Yitschak em razão da ira de Esav, seu irmão gêmeo. No caminho para Charan, ele repousa em um lugar que mais tarde seria reconhecido como sagrado, e ali tem um sonho no qual vê uma escada firmada na terra, cujo topo alcança os shamaym (céus), com malakhim (mensageiros, anjos) subindo e descendo. O Eterno lhe fala do alto, renovando as promessas feitas a Avraham e Yitschak: a terra onde ele repousa seria dada à sua descendência, que haveria de ser numerosa como o pó da terra, e o Eterno estaria com ele em todos os seus caminhos.

Ao chegar em Charan, Yaakov encontra Rachel junto ao poço e se encanta por ela. Ele serve a Lavan, seu tio, por sete anos para recebê-la em casamento, mas Lavan o engana e lhe entrega Leah. Depois de passada a semana das bodas, Yaakov recebe Rachel, comprometendo-se a trabalhar mais sete anos. Leah dá à luz vários filhos, enquanto Rachel permanece estéril até que o Eterno dela se lembra e ela gera Yosef. Bilhah e Zilpah, servas de Rachel e Leah, também geram filhos para Yaakov, formando a base das futuras tribos de Yisrael.

Yaakov prospera grandemente mesmo sob as constantes tentativas de engano de Lavan, pois o Eterno o abençoa. Após muitos anos, o Eterno o orienta a retornar à terra de seus pais. Yaakov reúne sua família e parte sem avisar Lavan, que o persegue e o acusa de ter levado seus ídolos, que Rachel havia escondido sem que Yaakov soubesse. Após uma busca sem resultado e uma forte discussão, ambos estabelecem um pacto de paz. Lavan retorna ao seu caminho, e Yaakov segue adiante, sustentado pelas promessas do Eterno, caminhando para o cumprimento de sua missão dentro da aliança.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Todas as parashiot (porções) da Torá contém muitos ensinos importantes, não é à toa que ela é a instrução para o homem. Sempre podemos, e na verdade, devemos parar e meditar profundamente em pontos específicos, é para isso que estudamos em ciclos que reiniciam anualmente. Isso amplia e muito o aprendizado.

Nessa parashá não foi diferente, pois ao fazer minhas leituras durante a semana, algo me chamou a atenção. Estamos sempre comentando e ensinando sobre a missão do Mashiach em resgatar a congregação do Eterno, como um compromisso como Ben Yosef. E ao estudar essa porção da Torá, o comprometimento de Yaakov para receber Rachel como esposa, me despertou. Foi como se o Eterno em sua palavra mostrasse ou confirmasse, o que já estudamos em outras ocasiões e textos. Vamos buscar um pouco mais de aprofundamento nesse contexto no nível Pshat (literal) mas principalmente no nível profético. Para isso observe o texto:


Yaakov apaixonou-se por Rachel e disse: Trabalharei para você durante sete anos em troca de Rachel, sua filha mais nova. Lavan respondeu: Melhora dá-la a você que a qualquer outro; permaneça comigo. Então Yaakov trabalhou durante sete anos por Rachel, e isso lhe pareceu apenas uns poucos dias para ele, pois estava muito apaixonado por ela. Bereshit (Gn) 29:18-20


Vemos no caso de Yaakov, se comprometer a trabalhar sete anos por Rachel, mostrar um caminho de esforço, compromisso e paciência até alcançar aquilo que desejava. A atualidade tem demonstrado pessoas sem compromisso, que desejam as coisas sem esforço e principalmente, pessoas que não tem a mínima paciência para esperar o tempo certo das coisas. E devemos aproveitar esse contexto histórico literal para aprendermos essas virtudes, pois tudo no caminho do Eterno exige de cada um de nós, compromisso, esforço e paciência. O Eterno nunca dá nada para ninguém sem que se demonstre tais virtudes, apesar do ensino errôneo sobre uma graça sem comprometimento, propagada pelo sistema religioso cristão.


1. Ponto de Vista Profético

Passando então a olhar por um ponto de vista profético, temos no texto Yaakov, Leah, Rachel e os sete anos. Vejamos então cada um deles e seus apontamentos proféticos:

- Yaakov – Ele aponta para o Mashiach. Mas como? Observe que, segundo a tradição judaica, o nome do Mashiach junto com outros princípios foram criados antes do universo. Sabemos que nome é uma indicação de caráter, ou seja, como ele agiria e ensinaria. E sabemos também que é uma missão do Mashiach resgatar e receber as Casas de Yisrael e Yehudah, de volta para o Eterno. Assim, Yaakov aponta para o Mashiach justamente pela sua disposição em trabalhar em prol da congregação nazarena. O comprometimento de Yaakov indica o mesmo que Yeshua teve e tem com os remanescentes. A paciência de Yaakov é um indício muito forte daquela exercida por Yeshua, que em sua missão, ensina e cuida dos remanescentes, e aguarda os que ainda virão.

- Sete anos – apontam para sete milênios. Uma vez que o caráter de Mashiach foi criado desde antes da fundação do mundo, então a intenção de se dedicar pela congregação nazarena durará os sete milênios. Entenda que Mashiach reinará com a congregação nazarena a partir do sétimo milênio. Hoje estamos vivendo o período de espera. Pelas contagens rabínicas, sabemos que há anos perdidos e já devemos estar no sexto milênio desde a criação. O Mashiach trabalhou nos milênios anteriores através da vida dos que o esperava. Trabalhou no quarto milênio quando veio e cumpriu sua missão de Ben Yosef, e está trabalhando através da vida dos que seguem seu testemunho.

O número sete, nas Escrituras, frequentemente aponta para plenitude e conclusão, como vemos nos sete dias da criação, como vemos nos ciclos das festas ou encontros com o Eterno, como observamos na menoráh, entre outros.

- Leah – Aponta para a casa de Yisrael, a irmã mais velha. Que gerou mais filhos. Que comprou a presença do marido por Mandrágoras, apontando para o fato de que a casa de Yisrael se perdeu ao tentar negociar as bênçãos do Eterno e se misturar com idolatrias.

- Rachel – Aponta para a casa de Yehudah. A mais próxima, mais íntima, que permaneceu mais tempo, mas que também se misturou com idolatria, escondendo os ídolos de Lavan, assim como os Yehudim que acabaram com o tempo, se envolvendo profundamente com idolatria, e por isso foram levados a Bavel. Mas depois, nunca mais se mancharam com este problema.


2. A Relação entre o Eterno e Yisrael, a profecia e a Gematria

Podemos ainda, buscar nos termos em hebraico para compreender melhor o ponto de vista profético, através de uma gematria simples. Observe que Yaakov se compromete a trabalhar sete anos para receber a Rachel como “esposa”, repare na palavra que coloquei entre aspas. Em hebraico “esposa” é אִשָּׁה - ishah, que também significa mulher. Isháh tem raiz gemátrica 9. E tem outra palavra nesse entendimento profético que tem a mesma raiz, e que está intimamente ligada com o assunto, a palavra é קָהָל – kahal, que significa “congregação”, além de significar também público, povo, comunidade, e multidão. Kahal ou congregação é a esposa no entendimento profético. E esse entendimento está totalmente alinhado com o que estou apresentando aqui.

Os profetas compreendiam isso, pois usam imagens de casamento para descrever a relação entre o Eterno e Yisrael, vemos o profeta Hoshea 2:19-20, que diz: “Desposar-te-ei comigo para sempre…” Também em Yirmeyahu 31:32, afirmando que a aliança quebrada é complicada à infidelidade de uma esposa. E Yechezkel, que no capítulo 16, diz que Yisrael é como a mulher que o Eterno tomou, vestiu e cuidou. Nesses contextos, o Eterno é quem assume compromisso, correção e fidelidade. Como ele escolheu e deu autoridade ao Mashiach para representá-lo no trato com seu povo, ele é esse apontamento profético de marido, já que o Eterno é incorpóreo.


3. Yeshua e o Compromisso com o povo

Yeshua em sua missão como Mashiach Ben Yosef, chamou muitos ao arrependimento, ensinou as instruções do Eterno, e buscou reunir os dispersos da casa de Yisrael conforme os profetas anunciaram, de acordo com Hoshea 1 e Yechezkel 37. Seu serviço e sua vida apontavam para a restauração do povo ao Eterno, não como figura divina, mas como homem obediente, sustentado pelo Eterno.

No TaNaK, e por meio de códigos podemos traçar um paralelo moral, simbólico e profético. Assim como Yaakov trabalhou com fidelidade para obter aquilo que amava, assim também o Eterno, por meio de seu Mashiach, trabalha continuamente em favor de Yisrael, usando Seus servos, Seus profetas e Seus mensageiros para trazer o povo de volta ao caminho das Suas instruções.

Essaobra” do Eterno em favor do Seu povo, por meio do Mashiach e seu ensino de Torá, aparece claramente em:

  • Devarim 7:7–8 – Ele os escolheu por amor.

  • Yechezkel 36:22–28 – Ele os reunirá por causa do Seu Nome. Já falamos sobre o que significa nome, caráter.

  • Yirmeyahu 31:33 – Ele renovará a aliança escrevendo Suas instruções no coração. E isso, como já mencionei, é feito por meio do Mashiach.

Sendo assim, concluindo nosso estudo, vimos que mesmo em textos que parecem ser apenas relato histórico, há profecias codificadas nas Escrituras. O exemplo de comprometimento e amor de Yaakov apontando para Yeshua, deve ser para nós como modelo. Devemos nos prontificar cada dia a viver conforme o Eterno estabeleceu, afinal todos nós somos chamados pelo Eterno, como remanescentes para retornar ao caminho e levar outros de volta também. Que possamos assumir o compromisso, com esforço e paciência na missão que o Eterno estabeleceu a todos que adentram à teshuvah.

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Que o Eterno lhes abençoe.


Moshê Ben Yosef