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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Estudo da Parashá Chayei Sarah - Estás disposto a dizer: irei?

 

Estudos da Torá

Parashá nº 05 – Chayei Sarah (A vida de Sarah)

Bereshit/Gênesis 23:1-25:18

Haftará (separação) 1Rs 1:1-31 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 8:19-22; Lc 9:57-62


Estás disposto a dizer: irei?


Existe um detalhe na parashá Chayei Sarah que merece uma atenção especial, pois está ligado com nossa vida. Quando o servo de Avraham termina sua missão e apresenta à família de Rivkah o propósito de sua viagem, acontece algo muito significativo: a jovem recebe a oportunidade de decidir se está disposta a deixar sua casa, sua família e a terra onde cresceu para seguir em direção a uma realidade completamente nova. A resposta de Rivkah é curta, mas carrega um significado muito profundo. Ela simplesmente diz: irei.

E nesse aspecto dessa porção semanal encontramos uma grande reflexão para nossa vida e para nossa decisão de servir ao Eterno ou não. Venha comigo nesse estudo e vamos olhar para Rivkah e para nós mesmos.



ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Depois de todo o Relato de Elazar, o servo de Avraham, a família de Rivkah a pergunta qual era a decisão dela. A resposta da moça foi curta e decidida, mas carrega um significado muito profundo:

"Chamaram Rivkah e lhe perguntaram: Irás tu com este homem? Ela respondeu: Irei." (Bereshit 24:58)

No hebraico, a resposta é אֵלֵךְ (Elech), que significa "Irei". Não encontramos aqui um discurso longo, uma negociação ou uma lista de exigências de garantias sobre o futuro. Encontramos uma decisão. Rivkah não conhecia todos os detalhes da vida que teria pela frente. Não sabia exatamente como seria sua convivência com Yitzchak, quais desafios enfrentaria ou como seria viver naquela terra que ela ainda não conhecia. Mesmo assim, decidiu partir.

É justamente nesse ponto que podemos encontrar um ensinamento muito importante para nossa caminhada com o Eterno: há momentos em que a fidelidade exige que estejamos dispostos a deixar aquilo que conhecemos para caminhar em direção àquilo que o Eterno está colocando diante de nós.

Entretanto, precisamos compreender essa passagem com cuidado. Não se trata de defender uma obediência cega a qualquer pessoa que se autointitule falar em nome do Eterno. O texto apresenta uma decisão consciente, precedida por acontecimentos que permitiram reconhecer a direção da missão. Vamos aprofundar alguns aspectos dessa narrativa.

1. Rivkah já demonstrava quem era.

Para que possamos compreender a corajosa decisão de Rivkah, precisamos voltar um pouco no contexto da narrativa, porque sua disposição não começa no versículo 58. Ela já havia demonstrado características importantes antes mesmo de conhecer a missão do servo de Avraham.

Em Bereshit 24:17-20, o servo pede água, e Rivkah prontamente lhe oferece de beber. Porém, ela não se limita a atender ao pedido. Espontaneamente, também se dispõe a retirar água para todos os camelos. Observe a dimensão desse gesto. Não estamos falando de um pequeno favor. Um camelo sedento pode consumir uma quantidade considerável de água, e o texto apresenta Rivkah realizando várias viagens ao poço. O servo havia pedido um sinal, mas o que encontrou foi muito mais significativo: uma jovem cuja atitude demonstrava generosidade, iniciativa e disposição para servir.

Aqui encontramos um princípio importante: a disposição de uma pessoa para caminhar com o Eterno não se manifesta apenas naquilo que ela declara acreditar, mas também na maneira como trata as pessoas e responde às necessidades que estão diante dela.

Rivkah ainda não sabia que aquele encontro mudaria sua vida. Não sabia que estava diante do servo de Avraham, nem que sua atitude seria parte de um acontecimento fundamental para a continuidade da aliança. Simplesmente fez aquilo que considerava correto. Isso nos leva a uma reflexão importante, pois muitas pessoas desejam participar dos propósitos do Eterno, mas nem todas demonstram disposição para desenvolver as atitudes necessárias para essa caminhada. Querem conhecer as promessas, mas nem sempre desejam assumir as responsabilidades. Querem receber as bênçãos, mas não necessariamente estão dispostas a desenvolver generosidade, hospitalidade, humildade e compromisso. Rivkah nos apresenta uma ordem interessante: primeiro vemos suas atitudes, depois conhecemos sua decisão. A disposição interior já estava sendo revelada antes de ela pronunciar qualquer palavra.

2. A decisão de caminhar em direção ao desconhecido

Voltemos ao texto de Bereshit 24:57-58. A família de Rivkah havia recebido a explicação do servo e reconhecido que os acontecimentos estavam relacionados à direção do Eterno. Entretanto, quando chegou o momento de partir, seus familiares disseram: "Chamemos a jovem e perguntemos a ela."

Essa pequena informação é muito importante. A família não toma a decisão em seu lugar. Rivkah é chamada para responder pessoalmente.

A pergunta é: הֲתֵלְכִי עִם־הָאִישׁ הַזֶּה

Ha-telechi im ha'ish hazeh?

"Tu irás com este homem?"

A resposta: וַתֹּאמֶר אֵלֵךְ

Vatomer: Elech.

"E ela disse: Irei."

O comentário de Rashi sobre Bereshit 24:58 é particularmente interessante. Ele interpreta a resposta de Rivkah como uma demonstração de determinação: ela iria por sua própria vontade, mesmo que sua família não concordasse. Essa interpretação está relacionada ao Bereshit Rabbah 60:12, que também destaca a autonomia de Rivkah diante daquela decisão. Isso implica que seu caráter já demonstrava ser digno de uma matriarca. Mas isso não quer dizer que ela era perfeita.

É importante perceber que o texto não apresenta Rivkah como alguém arrastada para uma decisão alheia. Ela assume sua própria escolha. E aqui encontramos uma conexão muito bonita com Avraham. Em Bereshit 12:1, o Eterno chama Avraham: לֶךְ־לְךָ — Lech Lecha

"Vai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai."

Avraham precisava deixar o ambiente conhecido para caminhar em direção àquilo que o Eterno lhe mostraria. Agora, em Bereshit 24:58, encontramos Rivkah respondendo: אֵלֵךְ — Elech

"Irei."

As expressões não são idênticas gramaticalmente, mas compartilham a raiz hebraica הלך (halach), relacionada ao ato de caminhar ou ir. Há uma aproximação literária muito interessante: Avraham começa sua jornada deixando sua terra; Rivkah, uma geração depois, também aceita deixar sua terra para participar da continuidade daquela história. Uma leitura apresentada em estudos da tradição judaica observa justamente essa aproximação entre a iniciativa de Avraham e a decisão de Rivkah. Isso nos permite compreender algo profundo: a história da aliança não seria continuada somente por aqueles que receberam diretamente uma convocação, mas também por pessoas que, ao reconhecerem o caminho, decidiram assumir sua parte nele. E você, reconhece o caminho e já decidiu fazer parde dele?

3. A disposição de obedecer não significa conhecer antecipadamente todo o caminho

Aqui está um dos ensinamentos mais importantes dessa parashá. Rivkah não recebeu um mapa detalhado de seu futuro. Não sabia como seria sua vida conjugal, quais dificuldades encontraria ou quais responsabilidades assumiria. Ela sabia o suficiente para tomar uma decisão consciente. Sabia que havia uma missão, havia uma família ligada à promessa do Eterno e havia uma oportunidade de participar daquela continuidade. Isso nos permite estabelecer uma distinção entre duas atitudes:

  • A pessoa que somente aceita caminhar quando conhece todas as condições, garantias e resultados.

  • A pessoa que, depois de discernir que o caminho está de acordo com a vontade do Eterno, aceita assumir a responsabilidade de caminhar, mesmo sem conhecer todos os acontecimentos futuros.

A segunda atitude exige confiança. Entretanto, é necessário fazer uma ressalva: confiança no Eterno não significa aceitar indiscriminadamente qualquer orientação humana. O servo apresentou sua missão, relatou os acontecimentos, reconheceu a ação do Eterno e Rivkah teve oportunidade de responder. A narrativa bíblica não deve ser usada para justificar manipulação religiosa ou submissão cega a líderes.

A disposição de Rivkah foi uma decisão diante de uma situação que ela pôde avaliar. Esse princípio também pode ser observado em Devarim 30:19-20, quando Moshê apresenta ao povo a escolha entre a vida e a morte, a bênção e a maldição, convocando Israel a escolher a vida, amar o Eterno, ouvir sua voz e apegar-se a Ele. A Torá não apresenta a obediência como uma atitude meramente emocional. Ela envolve escolha, compromisso e permanência. Não basta admirar o caminho do Eterno; é necessário decidir caminhar nele. É preciso praticar os mandamentos, viver o que se aprende no dia a dia.

4. É preciso estar disposto a mudar

Existe outro aspecto que merece atenção nessa parashá. Rivkah não estava simplesmente mudando de endereço. Ela estava entrando em uma nova etapa de sua existência. Deixaria sua família, sua terra e os referenciais que conhecia para constituir uma nova família com Yitzchak. Essa mudança nos ajuda a compreender um princípio espiritual: aceitar a vontade do Eterno frequentemente exige rever hábitos, prioridades, relacionamentos e comportamentos que já fazem parte da nossa vida.

Em Bereshit 12:1, Avraham precisou sair de sua terra. Em Shemot 3:10, Moshê precisou aceitar a missão de retornar ao Egito. Em Yonah 1, encontramos o contraste de alguém que recebe uma missão, mas tenta fugir na direção contrária. Essas narrativas mostram diferentes respostas diante de uma direção divina. Avraham parte. Moshê apresenta suas dificuldades, mas acaba assumindo a missão. Yonah inicialmente resiste. Rivkah, por sua vez, responde: "Irei".

Isso não significa que todas as pessoas precisam abandonar sua família ou mudar de cidade para obedecer ao Eterno. O princípio é mais profundo que isso. Não podemos colocar nossas conveniências acima daquilo que sabemos ser correto diante do Criador. Às vezes, a mudança necessária não é geográfica, mas moral. Pode ser abandonar uma prática injusta, corrigir uma postura, deixar uma relação baseada em manipulação, reconhecer um erro ou renunciar a uma vantagem obtida por meios incompatíveis com a Torá. A pergunta que essa narrativa nos apresenta é: estamos realmente dispostos a mudar quando a vontade do Eterno confronta nossas preferências?

5. A disposição precisa permanecer depois da decisão

Existe um perigo na caminhada: confundir o entusiasmo de começar com a fidelidade necessária para continuar. Rivkah poderia ter dito que iria e, posteriormente, desistido diante das dificuldades da viagem. Entretanto, a narrativa prossegue mostrando que ela efetivamente parte. Bereshit 24:59-61 relata que Rivkah é enviada com sua ama, acompanhada por suas servas, e segue com o servo de Avraham. O versículo 61 apresenta uma expressão interessante: וַתֵּלַכְנָה אַחֲרֵי הָאִישׁ

Vatelechnah acharei ha'ish.

"E seguiram o homem."

Rivkah não ficou apenas na intenção. Sua decisão tornou-se movimento. Essa é uma diferença fundamental entre intenção e compromisso. Uma pessoa pode admirar a Torá, concordar com seus ensinamentos e até declarar que deseja viver conforme a vontade do Eterno. Entretanto, a verdadeira disposição é demonstrada quando essa pessoa transforma sua convicção em atitudes, ou seja, práticas verdadeiras.

Podemos relacionar isso com o ensinamento de Yeshua em Mattityahu (Mateus) 7:21: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." E também com Mattityahu 7:24, quando Yeshua compara aquele que ouve suas palavras e as praticas a um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Observe a proximidade do princípio: ouvir, reconhecer e praticar.

Na perspectiva nazarena, esse ensinamento não representa uma ruptura com a Torá, mas reafirma uma preocupação profundamente presente nas Escrituras, isto é, a obediência precisa ser demonstrada na vida cotidiana. A disposição de Rivkah nos ajuda a compreender que não basta dizer "eu irei". É necessário realmente partir, caminhar e permanecer fiel ao compromisso assumido.

6. A diferença entre receber uma bênção e participar de um propósito

Existe ainda uma dimensão muito importante em nosso estudo. Rivkah poderia ter permanecido em sua terra, constituído sua família e vivido uma existência comum. Mas, ao aceitar partir, passou a participar de uma história muito maior do que seus próprios interesses. Ela se tornaria esposa de Yitzchak e mãe de Yaakov e Esav. Por meio de Yaakov, a história das tribos de Yisrael teria continuidade. Isso nos leva a refletir sobre a maneira como muitas pessoas compreendem a relação com o Eterno. Algumas procuram o Criador exclusivamente por aquilo que desejam receber dele como, proteção, prosperidade, cura, segurança e realização pessoal. Entretanto, a relação com o Eterno não deve ser reduzida à expectativa de receber benefícios.

O chamado para viver conforme a vontade do Criador envolve responsabilidade. Rivkah não estava simplesmente recebendo uma oportunidade de casamento. Estava assumindo um lugar na continuidade da promessa feita a Avraham. Da mesma maneira, quando alguém decide orientar sua vida pela Torá, não está apenas adotando um conjunto de regras religiosas. Está assumindo uma maneira de viver, de tratar o próximo, de conduzir sua família, de fazer escolhas e de testemunhar a justiça do Eterno. Devarim 10:12-13 apresenta uma pergunta fundamental: "O que é que o Eterno, teu Elohim, pede de ti?" A resposta envolve temer o Eterno, andar em seus caminhos, amá-lo e servi-lo de todo o coração e de toda a alma, guardando seus mandamentos. Perceba que o texto utiliza a ideia de andar nos caminhos do Eterno. A obediência é uma caminhada, não apenas uma declaração.

7. Você está disposto a dizer "Elech" - irei?

Podemos agora trazer a narrativa de Rivkah para nossa realidade. Quantas pessoas conhecem os ensinamentos da Torá, mas continuam adiando mudanças que sabem ser necessárias? Quantas reconhecem que precisam corrigir determinadas atitudes, mas permanecem presas ao conforto dos velhos hábitos? Quantas desejam experimentar as promessas do Eterno, mas não estão dispostas a assumir as responsabilidades que acompanham uma vida de fidelidade? Rivkah nos ensina que existe um momento em que precisamos deixar de apenas ouvir sobre o caminho e começar a percorrê-lo.

Entretanto, precisamos observar que sua disposição não nasceu de uma decisão impulsiva. Ela já havia demonstrado generosidade, iniciativa e hospitalidade. Sua escolha final estava em harmonia com as características que já demonstrava. Isso nos permite compreender que a disposição de obedecer ao Eterno precisa ser cultivada diariamente. Não podemos esperar uma grande convocação para começar a desenvolver fidelidade. Precisamos demonstrá-la nas pequenas decisões, nas atitudes que ninguém vê, na maneira como tratamos as pessoas e na disposição de fazer o que é correto mesmo quando isso exige renúncia.

Concluindo nosso estudo, percebemos que a história de Rivkah nessa parashá nos apresenta uma verdade que muitas vezes esquecemos: o Eterno realiza seus propósitos, mas a narrativa bíblica também nos mostra pessoas que assumem responsabilidades e participam desses propósitos por meio de suas escolhas. Avraham precisou partir. Moshê precisou retornar ao Egito. Rivkah precisou deixar sua casa. Cada um enfrentou circunstâncias diferentes, mas todos nos ajudam a refletir sobre a importância de responder à direção do Eterno.

Rivkah não conhecia todos os detalhes do futuro, mas estava disposta a dar o próximo passo. Talvez seja justamente isso que precisamos aprender com ela. Não precisamos conhecer antecipadamente todos os acontecimentos da nossa vida para começar a obedecer ao Eterno. Precisamos conhecer seus caminhos, compreender suas instruções e desenvolver uma disposição sincera para praticá-las. A Torá não nos chama para uma vida de passividade, mas para uma caminhada de fidelidade, responsabilidade e compromisso.

O exemplo de Rivkah nos deixa uma pergunta que merece ser examinada individualmente: Se hoje você reconhecesse que precisa mudar sua direção para viver conforme a vontade do Eterno, estaria disposto a responder como Rivkah: Elech, eu irei? Porque uma coisa é admirar o caminho, outra é decidir percorrê-lo. E existe uma diferença ainda maior entre dizer que estamos dispostos e demonstrar essa disposição por meio das nossas atitudes. A promessa continua sendo anunciada, mas a caminhada exige pessoas que estejam dispostas a sair do lugar onde estão e viver aquilo que o Eterno ensina.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!



Moshê Ben Yosef