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sexta-feira, 11 de março de 2022

Estudo da Parashá Vayicrá (E chamou)

Estudos da Torá


Parashá nº 24 – Vayicrá (E chamou)

Vayicrá/Levítico Lv 1:1-6:7,

Haftará (Separação) Is 43:21-44:23, e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Mc 11:1-12:44; Rm 8:1-13


1 - INTRODUÇÃO

Depois de termos lido um trecho da porção da semana, iniciamos nosso estudo, como de costume, com um resumo da parashá. Encontramos no site Chabad que, este Shabat finaliza o início da leitura do terceiro livro da Torá, o Sêfer Vayicrá, que trata principalmente dos serviços e responsabilidades dos Cohanim. Esta e a próxima porção semanal concentram-se em muitas das oferendas a serem levadas ao recém-construído Mishkan - Tabernáculo.

A Parashá Vayicrá que vai de Vayicrá/Levítico 1:1-5:26, começa com D'us chamando Moshê para o Mishcan, onde ele receberá as muitas mitsvot relevantes a serem definitivamente passadas ao povo de Israel. A primeira metade da Porção da Torá descreve os vários corbanot ou sacrifícios, opcionais trazidos por indivíduos.

Os sacrifícios podem ser classificados em três categorias gerais, cada qual dividida em várias graduações de tamanho e custo: o corban olá (oferenda de elevação) que é completamente consumido sobre o altar; o corban minchá (oferenda de refeição) a qual, por causa de seu conteúdo, é geralmente trazido por pessoas de poucos meios; e o corban shelamim (oferenda de paz) parcialmente queimado sobre o altar, com o restante dividido entre os donos e os Cohanim.

A segunda metade da porção discute as oferendas requeridas de chatat (pecado) e ashan (culpa), a serem levadas como expiação por transgressões involuntárias.


2 – ESTUDO DAS PALAVRAS

O terceiro livro da Torá ou Pentateuco chama-se, como já mencionamos, Vayicrá (E chamou/E Ele chamou), palavra que inicia este livro e esta porção. A versão bíblica “Septuaginta” (versão dos setenta) deu-lhe o nome de Levítico. Porém, esta denominação está em desacordo com o seu conteúdo, pois o livro só trata dos Levitas esporadicamente, dedicando sua maior parte aos “Cohanim” (Sacerdotes) e ao culto em geral. Talvez tenham decidido chamá-lo assim, pelo fato de Aarão e seus filhos, os sacerdotes, pertencerem à tribo de Levi.


“Chamou o Eterno a Moisés e, da tenda da congregação, lhe disse: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando algum de vós trouxer oferta ao Eterno, trareis a vossa oferta de gado, de rebanho ou de gado miúdo.” Lv 1:1-2


No final da Parashá da semana passada, lemos que Moshê terminou a obra do Mishkan (tabernáculo), e logo depois a Shekinah (presença) de Adonai encheu o lugar, de forma que Moisés não podia entrar. E a parashá dessa semana começa exatamente onde a anterior termina, ou seja, Moisés não podia entrar por causa da presença de Adonai que lá estava. Porém, agora o Eterno o chama de dentro do Mishkan. Os sábios judeus dizem que D’us honrou a Moshê mais do que a qualquer outro hebreu. Apenas ele foi convidado por D’us a entrar no Mishkan e ouvir suas palavras. E a razão deste proceder é que Moshê sempre se sentiu humilde e pouco importante. Ele não era homem de perseguir honras, mas fugia de honrarias e elogios. Uma pessoa que é modesta e se sente humilde, eventualmente irá receber de D’us a honra que merece, mas aquela que está cheia de orgulho, no final não será honrada. Moshê foi muito honrado por Deus, já que nunca se considerou grandioso ou importante.

Por estas coisas notamos que profeticamente, Moshê nessa passagem está sendo um apontamento profético para o Messias Yeshua, que tinha as mesmas características apontadas acima, a respeito de Moshê. Yeshua era humilde, fugia de chamar a atenção para si mesmo, sentia-se pouco importante, embora tivesse uma importância tamanha para os planos do Eterno, não buscava honras e elogios. Por isso o Eterno honrou mais que a Moshê, lhe dando o título de raiz de David, Rei de Israel, que governará o mundo.

Na porção desta semana iniciaremos o estudo neste livro, e conheceremos um pouco sobre os sacrifícios e cada uma de suas funções no culto ao Eterno. A Torá nos diz como e por que cada um daqueles sacrifícios deveriam ser feitos e qual a finalidade deles. Espero que com a leitura que você já fez durante esta semana tenha absorvido muitos ensinamentos para sua vida com o Eterno, mas aqui trataremos mais algumas coisas, pois a fonte da Palavra de HaShem é inesgotável.

Repare que anteriormente D’us falava com Moisés no monte Sinai, não permitindo que ninguém se aproximasse, agora porém, fala da tenda da congregação, da nuvem que estava em cima do propiciatório no Santo dos Santos, permitindo que o adorador se aproxime dele por intermédio das ofertas (Korban).


Sobre o termo Vayicrá

Na imagem acima vemos a mesma palavra escrita de duas formas distintas. Essa palavra é וַיִּקְרָא (Vayicrá) que significa “e chamou”. A primeira vez que aparece, está acima do texto é o nome do livro e da porção. A segunda está no texto propriamente dito. E esta palavra está escrita com a última letra, o Aleph, em tamanho menor que as outras letras. E segundo a hermenêutica judaica quando acontece algo assim, devemos parar e procurar mais informações sobre o texto, pois se o Eterno fez com que o escritor fizesse isso, é porque queria nos ensinar algo que está além do texto, e é preciso sair da mera letra e entrar no segundo nível de interpretação.

Nesse sentido, os sábios de Israel, que receberam os textos e suas interpretações, e passaram de pai para filho, afirmam o seguinte em seus midrashim - ensinos:


Moshê era muito humilde. E quando D’us lhe disse para escrever “Vayicrá”. Ele respondeu: “Eu devo escrever que o Senhor chamou apenas a mim para o Mishkan? Me parece muito arrogante. Me permita retirar a letra aleph do fim da palavra, assim a palavra será “vayiker, que significa que o Senhor me chamou por acaso.” D’us teria ordenado a Moshê: “Não, você deve adicionar a letra Aleph à palavra. No entanto, permitirei que você a escreva menor do que as outras letras.”


Desta forma, podemos aprender que aquela letra menor nos lembra quão humilde era Moshê. Assim como também, aponta para o Messias Yeshua, que sendo servo do Eterno vivendo uma vida justa de obediência, foi tratado como o menor em meio aos homens devido a sua já mencionada humildade, mas que tem uma grande importância e não poderia estar fora da história. Repare que a letra Aleph em tamanho menor está apontando para a humildade, uma vez que a palavra vayicrá sem ela é vayiker que dá um significado de chamado por acaso, enquanto com a letra mostra chamado com propósito. E Yeshua, assim como Moshê foi chamado com propósito.

Entretanto, há outra linha de entendimento dos sábios de Israel a respeito dessa letra minúscula na palavra Vayicrá. No comentário da Torá, traz a seguinte informação:


Os comentaristas da Torá, que encontraram em cada palavra, às vezes em cada letra, pontos de apoio para os seus ensinamentos éticos, chamam a nossa atenção para a palavra Vayicrá com que começa este livro. Não apenas nos livros impressos, mas também na própria Torá, a última letra da primeira palavra – a letra Aleph – é minúscula (pequena), dando-nos neste contexto duas belíssimas lições:

1) O prazer e a alegria de oferecer algo deve ser ensinado mesmo às crianças pequenas na mais tenra idade. Se ela é favorecida pela sorte e tem muitos livros ou brinquedos, deve aprender a dar aquilo que possui a mais ao seu amigo ou amiga e a um pobre que não tem nada ou muito pouco.

2) Que cada Aleph – e a letra Aleph vale um – cada qual, mesmo com recursos muito limitados, não se pode excluir nem esquivar de contribuir, na medida de suas posses, para objetivos nobres e caritativos...Portanto, podemos concluir que o Aleph diminuto da palavra Vayicrá indica que, para se tornar um servo de Adonai consciente de seus deveres e responsabilidades, para conhecer e para se aprofundar nos eternos valores espirituais, é necessário estudar a Torá desde pequeno, desde a tenra infância.


Perceba que, para que alguém possa ser consciente a ponto de ser útil em sua comunidade, podendo ajudar quem precisa, sendo doador e se aproximando das pessoas, deve estudar a Torá em seus detalhes desde muito cedo. Isso porque a Torá nos abre o entendimento a respeito do certo e errado, a respeito do que é bom ou não. E com isso, vivemos dentro dos parâmetros que o Eterno estabeleceu, e o amor ao próximo, a tsedaká fazem parte destes parâmetros. Somando as duas tradições, podemos aprender que a humildade e um caráter doador advém da observância da Torá. Por isso nosso messias Yeshua é o nosso modelo de observância da Torá, pois era humilde e tinha o caráter doador.

Sobre os sacrifícios ao Eterno


No verso 2, desse primeiro capítulo, lemos: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: quando algum de vós oferecer sacrifício ao Eterno...” À partir daqui, a Torá começa a enumerar as leis dos sacrifícios e a missão dos Cohanim (sacerdotes). E faz isso de forma bem explicada, oferta por oferta. No entanto, cabe ressaltar o grande erro que podemos cometer ao confundir os sacrifícios enumerados nesse livro, com os dos povos pagãos da Antiguidade, os quais faziam com os seus sacrifícios descer as suas divindades ao nível das paixões humanas atraindo-as a seu favor, e praticar algumas vezes atos abomináveis; sendo que os sacrifícios descritos na Torá têm como base a adoração ao Eterno, agradecer Suas bondades, pedir perdão por faltas cometidas involuntariamente ou por uma falta voluntária após tê-la reparado. Os sacrifícios dos israelitas tinham que ser acompanhados pela Cavaná (intenção) de voltar ao bom caminho, e geralmente, por uma prece ou oração.

O Eterno inicia usando a palavra “fala”. Esta palavra em hebraico é “davar” e significa “falar, declarar, ordenar, advertir”. Já a palavra “dizer” em hebraico é “amar” e esta palavra significa “ordenar”. Aqui o termo “amar” tem força de uma ordem dada a alguém. O termo “oferecerá” em hebraico é “qarab” e significa “aproximar, chocar-se”. E isso demonstra que devemos nos aproximar juntamente com a oferta do lugar onde será realizado o sacrifício. E sabemos que o lugar onde isso acontece é o altar! Já o termo “oferta” em hebraico é “korban” (sacrifício, imolação, oblação, oferta) e denota aquilo que é trazido para perto. Nessa porção as ofertas são divididas em:


- Olá - Holocausto/ascenção (queimadas) – Lv 1:1-17;

- Minhchá - Manjares (alimento) – Lv 2:1-16;

- Shlamim - Pacífica (paz, comunhão) – Lv 3:1-17;

- Chatat - Pelo Pecado (involuntário) – Lv 4:1-5:13;e

- Asham - Pela Culpa (voluntário) – Lv 5:15-6.7.


Leia com cuidado cada uma das referências acima, medite sobre elas e poderá perceber muitas minúcias da vida e obra do Messias Yeshua.

A oferta “Olá” e a oferta “minchá” são irmãs, assim como “chatat” e “asham” são irmãos, ou seja, são oferecidos de forma similar, seguindo as mesmas orientações, e se assemelham entre si.

As três primeiras são voluntárias, e as outras são obrigatórias. O texto diz que o korban (oferta) deveria ser trazida ao Senhor (HaShem). A palavra que foi traduzida como “Senhor” no texto hebraico é o tetragrama, é o nome que o Eterno se apresentou a Moshê no Sinai, significando “Serei o que serei ou eu me torno o que me torno”. E isso nos mostra que o Eterno se tornaria para os ofertantes aquilo que eles necessitassem, ou seja o perdão de seus pecados, o louvor ou o agradecimento. Podemos aprender disso que, o propósito dos sacrifícios é aproximarmo-nos do Eterno e apresentarmo-nos diante Dele. No entanto, não é possível nos aproximar do Eterno sem sacrifícios. O sacrifício é necessário para nos aproximar e permanecer na sua presença, como lemos em Ex 23:15b; 34:20b e Deut 16:16b, que diz:


“Ninguém se apresentará diante de mim com as mãos vazias”.


Sobre o Holocausto


No verso 3 lemos:


“Se a sua oferta for holocausto de gado, oferecerá macho sem defeito; à porta da tenda da congregação a oferecerá [qarab], de sua própria vontade, perante o Eterno”


O Eterno agora, através da Torá, nos fala sobre o holocausto, que em hebraico é “olá ou olâ” e significa “oferta queimada”. Esta palavra vem da raiz “alâ” e significa “subir, escalar”. O holocausto é o único meio de fazer o ofertante “subir” até a presença de D’us. A fumaça da oferta queimada é o símbolo da vida do ofertante que está sobre o altar e é queimada, devorada pelo fogo! “Olah” significa também “oferta total ou oferta inteira”. O ato de queimar é secundário em relação à entrega da criatura toda ao Senhor. O korban olâ ou holocausto é voluntário e pode ser oferecido por qualquer homem ou mulher, israelita ou não.


Sobre Qualidade versos a Quantidade


O Rabino Chaim Goldberger, escreveu para o site Chabad o seguinte:


De todos os sacrifícios introduzidos na Porção desta semana da Torá, o único que não requer o sacrifício de um animal é o corban minchá, uma oferenda de farinha misturada com óleo e incenso trazido como uma alternativa de menor custo que as demais, entre as quais as oferendas de novilho ou ave. Mesmo assim, quando a Torá descreve as pessoas que levam cada uma das várias oferendas ao Templo, a única que é destacada e identificada como sendo uma "nefesh - alma" é a pessoa que traz o simples corban minchá.

O Talmud (Tratado Menachot 104b) desenvolve: "Por que o corban minchá recebe destaque e seu portador é chamado de nefesh, alma? D'us declara: 'Quem geralmente oferece corban minchá? O pobre. Considero seu ato como se ele sacrificasse sua alma por inteiro.' "

Pode-se deduzir que para alguém que está empobrecido, o ato de separar-se de boa farinha, que de outra forma poderia alimentá-lo e aplacar sua fome, é um ato de sacrifício ainda maior que aquele do homem rico doando um animal de alto preço. Para o pobre, a farinha é mais que uma grande parte de suas posses: é sua própria vida. A Torá está nos ensinando que não é o tamanho do presente que determina a importância do sacrifício; pelo contrário, a importância está nas intenções do doador e nas circunstâncias.

Quando Yaacov despachou seus filhos para encontrar o misterioso governante do Egito, enviou com eles um presente. Este tributo era de fato pequeno - "um pouco de bálsamo, cera, lótus, pistache e amêndoas" - mas a importância não estava no tamanho. Estes itens haviam sido cuidadosamente considerados e especialmente selecionados. Eram iguarias não disponíveis no Egito àquela época. Sua mensagem era de cuidadoso esmero e consciencioso interesse. E de forma bem apropriada, Yossef chamou o presente de "um minchá".

De todas as nossas preces diárias, a mais curta é Minchá, o serviço vespertino. Não contém o longo segmento de introdução nem o de encerramento do serviço matinal de Shacharit, nem as preces Shemá e Barchú do serviço noturno de Maariv.

Basicamente, é composto pelo Shemonê Esrê, mesmo assim o serviço vespertino é o único que chamamos de "Minchá". Por quê? Porque, por mais "pobre" como esse serviço possa parecer, é o único que ocorre em meio a nosso dia de trabalho; é o único que nos pede para deixarmos de lado aquilo que estamos fazendo e nos lembremos de que somos apenas súditos de nosso Mestre Todo Poderoso.

Minchá é o único serviço de prece que nos pede para desligar de nossa inclinação mundana e nos retirar para um súbito e total encontro com o Divino. Pode levar apenas quinze minutos, mas é um Minchá. Lembra-nos da motivação necessária para doações de todos os tipos, e que não é o tamanho que importa; o significado e as intenções são igualmente importantes.

Que possamos entregar nosso minchá ao Senhor e que cada dia possamos estar diante dele com ações de graça, mas acima de tudo confiando naquele que viveu uma vida justa e foi morto como korban pelas nossas vidas, nosso amado Yeshua HaMashiah!


Bibliografia:


- Torá – Lei de Moisés. Editora Sefer

- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.

- http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/

- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/

- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/24-_vayikr_e_chamou.pdf

- http://shemaysrael.com/parasha-vayicra/

- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/822844/jewish/Mensagem-da-Parash.htm




sexta-feira, 4 de março de 2022

Estudo da Parashá Pecudê (Enumeração/Contas)

 

Estudos da Torá


Parashá nº 23 – Pecudêi (Enumeração/Contas)

Shemôt/Êxodo Ex. 38:21-40:38,

Haftará (Separação) 1Rs 7:51-8:21, e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Mc 10:1-52 e Ap 15:5-8


1 - INTRODUÇÃO

Iniciando o estudo dessa semana, como sempre pelo resumo da parashá. No site Chabad encontramos o resumo dizendo que, esta semana lemos a Porção final de Shemot, um livro que começa com o povo judeu escravizado pelo faraó no Egito e agora termina com a compleição da construção do Mishkan (tabernáculo) no deserto.

Os comentaristas referem-se a este segundo livro como o Livro da Redenção, e este é seu tema desde o início da Parashá Shemot até o final de Pecudê. A Redenção não foi conseguida somente ao escapar da escravidão; receber a Torá no Monte Sinai deu um propósito a esta liberdade, e o repouso da Presença de D'us entre Sua nação (o resultado da conclusão do Mishkan) assinala o clímax da salvação.

A Parashá Pecudê começa com uma contabilidade completa do ouro, prata e cobre doados pelo povo para uso no Mishkan. A Torá prossegue descrevendo os tecidos e a confecção das várias vestes a serem usadas pelo Cohen Gadol (Sumo-sacerdote) durante o serviço. Após a inspeção de Moshê e aprovação dos muitos utensílios e partes desmontadas, Moshê estabelece o Mishkan em Rosh Chôdesh Nissan, ou seja, início do mês de Nissan, enquanto cada parte é ungida e colocada no lugar que lhe foi destinado. E como D'us havia prometido, Sua glória preenche o Mishkan.

2 – ESTUDO DAS PALAVRAS

Essa é a última porção do Sefer Shemôt (livro de Êxodo). O nome dessa porção é “Pecudê”, que significa enumeração ou conta, que no caso em estudo, foi a prestação de contas que Moshê (Moisés) deu a todo o povo de Israel, dos bens que foram ofertados para a construção do Mishkan (tabernáculo), que o Eterno havia mandado construir, para que ele manifestasse sua glória (Kavod) e presença (Shechináh), habitando entre o povo e dentro do povo de Israel. Nessa porção temos ainda, a oportunidade, de ver a finalização da construção do Mishkan. Muitas informações estão ocultas por trás das meras descrições da finalização do Mishkan. Veremos algumas dessas instruções que a Torá nos traz, a fim de vivermos plenamente a vontade de Adonai para nossas vidas.

No relato do texto da porção semanal da Torá que estamos estudando, podemos perceber que houve um zelo muito grande da parte das pessoas que estavam à frente da construção do Mishkan, e percebemos também, com uma leitura bem atenciosa, que houve um gasto muito grande com ouro e prata na construção das peças e partes do tabernáculo. Cabe destacar ainda, um fato relevante para entendimento de nossa vida espiritual, que neste trecho bíblico em estudo, são citadas as bases do Mishkan que foram feitas com a prata ofertada pelo povo. O que há de interessante nessa informação é que aquelas bases (que ficavam enterradas na areia do deserto) eram de madeira, cobertas com prata em ambos os lados, e no topo também, como ornamento.

E talvez alguém pergunte, porque as bases teriam esta cobertura de prata que ficariam enterradas na areia do deserto e desapareceriam da vista das pessoas?

Perceba que as altas temperaturas da areia do deserto corroeriam qualquer madeira, por mais forte que ela fosse. Entretanto, com a prata recobrindo a base de madeira, a corrosão seria evitada, impedindo, portanto, que o tabernáculo caísse devido à corrosão. E isso pode ser considerado uma figura daquilo que o Eterno faz em nossas vidas. Nos reveste pela justiça do Messias Yeshua e dessa forma, somos impedidos de “apodrecer” mesmo que estejamos temporariamente “fincados” nas areias mais quentes do deserto.


Sobre Honestidade

Por causa do zelo acima citado, Moshê (Moisés) manda prestar contas ou enumerar, diante de todo o povo, como se tinha utilizado o material doado para a obra do Eterno. Não só o povo de Israel da época podia ver essas contas, mas sim todo aquele que tem acesso à Torá atualmente, pode ver como Moisés administrou o ouro, a prata, o cobre, as pedras preciosas e os demais objetos de valor. Isto nos ensina sobre a seriedade na congregação na administração pública dos bens entregues para a obra. O comentário da Torá diz que Moisés como responsável por todos os trabalhos, reuniu todo o povo e declarou as contas em público, para não deixar dúvidas quanto ao emprego dos bens ofertados para a confecção do tabernáculo. Mesmo sendo muito respeitado, e sua honestidade conhecida pelo povo, o comentarista afirma que Ele fez questão de prestar contas, servindo de exemplo a todos os dirigentes comunais, para que fizessem o mesmo. Em momento algum Moisés deu oportunidade para que o povo pensasse que ele tinha enriquecido à custa das doações para a obra do Eterno, como lemos em Bamidbar/Números 16:15b:


“nem um só jumento levei deles e a nenhum deles fiz mal”.


Moshê entregou a sua propriedade pessoal para cumprir com a missão de tirar o povo da escravidão e não reclamou posteriormente, ainda que tivesse o direito de fazê-lo. Isso, porém, serve para nós hoje, pois vemos muitos líderes que não gostam de prestar contas a ninguém e não prestam contas dos recursos que recebem. A Torá nos dá a instrução clara através do exemplo daquele homem de Deus. Alguém que entregue-se totalmente em missão para o Eterno tem o direito do sustento e manutenção, mas isso não lhe dá o direito ao todo e ao luxo. Repare o que um autor do site “Emunáh - a fé dos santos”, afirma no estudo referente a parashá Pecudê, que estamos tratando:


O procedimento de Moisés relativamente aos objetos de valor do tabernáculo é um exemplo para todo o líder que administra o dinheiro, e especialmente o dinheiro que foi dado para a obra do Eterno. É habitual vermos uma má gestão de dinheiro nas congregações, nas quais muitos líderes enriquecem fazendo usufruto daquilo que deveria ser para a obra do Eterno e não com vista os seus próprios interesses. Esta é uma das razões pela qual a shechiná (a presença do Eterno) não incide mais fortemente sobre nós, isto porque as coisas não estão a ser feitas da forma que o Eterno deseja.


Se não administrarmos bem nossa economia privada e coletiva, não vamos poder administrar as manifestações espirituais vindouras, ou seja, os bens futuros do Reino de Yeshua. Se não formos fiéis com as riquezas deste mundo, como é que poderemos ser com as verdadeiras riquezas? Veja o que Yeshua diz em Lc 16:10-12:


Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso?


Sobre Organização

“Não tenho tempo!” Esta é uma declaração muito comum na sociedade da atualidade. Isso porque temos muitas coisas para fazer durante o dia, e quando vem a noite sempre estamos atrasados com nossos afazeres. Como podemos administrar melhor nosso tempo e realizar mais todos os dias? Podemos aprender muito a esse respeito com essa porção semanal. A Torá declara: “Betsalel, filho de Uri que era filho de Hur, da tribo de Judá, fez tudo que D’us ordenou a Moshê” (Ex 38:22). De acordo com o site Chabad, este versículo provoca uma grande dúvida: Como Betsalel pôde fazer tudo que D’us ordenou a Moshê? Betsalel não estava presente quando D’us instruiu Moshê a construir o Mishkan?

De acordo com um grande comentarista da Torá chamado Rashi, o versículo nos ensina que, através de Ruach Hacôdesh (inspiração divina ou Espírito do Santo), Betsalel sabia até mesmo as coisas que Moshê não lhe dissera. Mesmo não estando presente quando Adonai deu as ordens a Moshê, ainda assim, foi capaz de construir o Mishkan exatamente de acordo com as especificações de D’us. Rashi prova que Betsalel soube de tudo através do Ruach Hacôdesh pelo fato de que quando Moshê disse a Betsalel para primeiro fazer os utensílios do Mishkan, e apenas então constuir a estrutura em si, Betsalel corrigiu Moshê e informou que deveria ser feito de outro modo. Outro comentarista da Torá chamado Kli Yakar, concorda com Rashi que o versículo de fato nos ensina que Betsalel sabia como construir o Mishkan através de Ruach Hacôdesh. Etretanto, ele refuta a prova de Rashi e insiste que, na realidade, Moshê disse tudo a Betsalel, na ordem correta.

Agora, porque é importante saber se a estrutura do Mishkan foram feitos em primeiro lugar? Rabi Yerucham Levovitz explica que assim vemos a importância de colocarmos tudo em sua ordem correta. Jamais teremos tempo suficiente a cada dia para cumprir tudo aquilo que gostaríamos. Portanto, devemos estabelecer prioridades em nossas vidas, para que possamos realizar tanto quanto possível com o tempo que nos foi reservado.

O que aprendemos com o texto da Torá e com os comentários dos rabinos é que todos que exercem liderança, apesar de saber fazer determinada tarefa, deve também saber passar a tarefa, a fim de que ela seja feita adequadamente. E esta parashá nos mostra o exemplo de liderança de Moshê ao exercer a tarefa que Deus o determinou. Ele viu exatamente o que o Eterno queria, mas não disse como fazer. Moshê confiou na Ruach Hacôdesh em Betsalel. Ou seja, confiar na capacidade do próximo, que também foi criado à imagem e à semelhança do Eterno, é um ensinamento importante dessa parashá. Líderes verdadeiros sabem confiar na capacidade de auto-aperfeiçoamento de seus liderados. E com isso obtém sucesso.



O Resultado da Obediência e Santidade

No Capítulo 40 versos 33 a 38 lemos o seguinte:

“Levantou também o átrio ao redor do tabernáculo e do altar e pendurou o reposteiro da porta do átrio. Assim Moisés acabou a obra”. Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do Eterno encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Eterno enchia o tabernáculo. E ao levantar-se a nuvem de sobre o tabernáculo, moviam-se os filhos de Israel em todas as suas jornadas. E se não se levantava a nuvem, não se moviam até o dia de seu levantar. De dia, a nuvem do Eterno repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas.”


É muito importante que haja pessoas capacitadas na frente da obra do Eterno. É importante que o povo trabalhe na obra diligentemente. É muito importante ser transparente na contabilidade da obra do Eterno. Mas é sumamente importante terminar a obra, e não deixá-la a meio. Tenhamos em conta que esta obra magnífica, que duraria mais de 400 anos, foi feita no deserto. É possível cumprir com o chamado divino mesmo passando por adversidades.

Repare também que o texto nos mostra que logo após terminar cada item das ordenanças de Deus acerca do tabernáculo foi que a Shechináh encheu a tenda. O que podemos aprender é que devemos fazer tudo conforme o Eterno manda, para que tenhamos a presença de Deus em nós. Caso contrário teremos muita coisa, menos a presença.

Em complemento, trago um trecho do excelente estudo dessa parashá, comentado pelo Rav. Marlon T. Trocolli, da Congregação Israelita Sefardita Netsarim Beyt B'nei Avraham – Belém/Pa, veja:


O Sentido espiritual da Parashá(comentários da Kabalah):

Pekudê, a última porção do livro de Êxodo, começa com uma prestação de contas feita por Moisés para sua Congregação. Esta leitura das duas últimas porções do livro de Shemot, marca o encerramento de um ciclo.

A jornada rumo ao melhor de nós mesmos (para chegarmos à Terra Prometida e ao Olam Habá) segue em frente, mas é necessário uma avaliação do nosso aprendizado.

Através desta avaliação de “perdas e ganhos”, somos lembrados sobre o motivo de estarmos aqui neste mundo, que seria uma correção (tikun) que devemos fazer em nossas vidas, caráter e personalidade.

Não adianta fugir da situação, é necessário aceitar e compreender, para depois modificar e seguir em frente.

De modo geral, fala-se muito desta prestação de contas que é feita ao longo do mês de Elul, justamente porque as pessoas estarem se preparando para os julgamentos de Rosh haShaná e posteriormente ao Yom Kipur, mas, convenhamos, quem realmente se lembra de tudo o que fez ao longo de um ano? Por isso mesmo que, devemos falar como o salmista:


“Quem pode discernir os pecados que se escondem em seu interior? Perdoa-me Tu os meus pecados que me são ocultos” (Salmos 19:12)


Todavia, o verdadeiro israelita procura, hoje, ser melhor do que foi ontem. Como fazer isso? Através de uma reflexão diária.

Feita esta avaliação diária, qual o seu compromisso com o dia seguinte? O que você pode fazer de melhor? O que pode corrigir? O que pode aprender de novo?

Lembre-se de que a construção de um consagrado espaço interior, deve permitir uma plena conexão com a Luz Divina, deve ser feita com beleza (obra de artesão), superando as dificuldades inerentes ao processo de Teshuvá diária e buscando fazer cada vez o melhor para o Eterno.


O midrash nos diz o seguinte sobre o estabelecimento da Shechiná no Mishkan:

Em Rosh Chôdesh Nissan – Início do mês de Nissan, quando o Mishkan estava armado e pronto, as nuvens de D'us o rodearam por todos os lados e por cima. O interior também estava preenchido por uma nuvem, e nela repousava a Shechiná de D'us. Assim, D'us demonstrou a seu povo que se havia estabelecido no Mishkan.

Em seguida, a Shechiná de D'us pousou no aron do Côdesh Hacodashim (Santo dos Santos). Sabem o que significa a palavra Mishkan? Origina-se da raiz "lishcon", descansar. Mishkan significa descanso para a Shechiná.

A Torá, no princípio desta Parashá, chama o Mishkan de Mishkan Haedut, do testemunho. Que tipo de testemunho era? O que atestava? O Mishcan era uma prova de que D'us havia perdoado Benê Yisrael por ter feito um bezerro de ouro. D'us havia retirado Sua Shechiná quando eles pecaram; Suas nuvens de glória desapareceram e reapareceram no dia em que começaram a trabalhar no Mishkan. O Mishkan era um sinal de amor de D'us pelo Povo de Israel; um sinal de que Ele estava sempre entre eles.

Vimos no estudo da parashá da semana passada que o Eterno somente retornou ao meio do povo após o início da construção do Mishkan. E aprendemos com isso uma lição muito valiosa. Devemos levar muito a sério quando o Eterno nos diz para sermos santos, porque ele é santo. Sermos separados para o Eterno implica vivermos segundo seus decretos porque ele nos deu para vivermos neles. Isso é por amor. Obedecer por amor. Cumprir por amor. Viver e ensinar por amor. E não por medo do chamado inferno, que as pessoas nem sabem o verdadeiro significado.

Há ainda algo no midrash, muito interessante para considerarmos a respeito da importância de estudarmos sobre a construção do Mishkan. Veja o que diz o midrash:

Embora hoje não tenhamos mais Mishkan nem Bet Hamicdash, é uma grande mitsvá estudar a planta e a forma do Mishkan e todas suas partes e receptáculos. Nossos Sábios nos dizem que o profeta Yechezekel/Ezequiel recebeu uma nevuá, profecia de D'us. Nesta nevuá lhe era mostrado a planta do Terceiro Bet Hamicdash, que será construído depois da chegada de Mashiach. D'us descreveu a Yechezekel a planta exata do Terceiro Bet Hamicdash; todas suas partes e medidas. Yechezekel perguntou ao Criador: "Por que tenho que transmitir aos judeus esta profecia? De qualquer forma não podem construir o Bet Hamicdash agora. Deixe-me aguardar e lhes relatarei quando chegar o momento de construi-lo." Mas D'us respondeu a Yechezekel: "Não, não quero que aguardes. Se Benê Yisrael estudar agora os planos para a reconstrução do Bet Hamicdash, vou recompensá-los como se realmente o tivessem construído!" O mesmo se aplica a nós. Se estudarmos as plantas do Mishcan e do Bet Hamicdash, D'us nos recompensa como se estivéssemos realmente construindo uma sagrada Morada para Ele.

Sabemos por meio dos textos da Brit Hadashá estudada junto com os profetas, que o Beit Hamicdash futuro não será construído, mas descerá do céu, porém o que podemos tirar desse midrash de aprendizado para nós é que é uma benção estudarmos sobre o mishkan e seus utensílios. Isso nos mostra os apontamentos proféticos para o futuro e nos dá uma maior compreensão do que o Eterno nos passou na sua Torá.

Que o Eterno nos ajude a cada dia viver segundo os seus preceitos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Estudo da Parashá Vayak'hel (E reuniu/ajuntou)

 

Estudos da Torá


Parashá nº 22 – Vayak’hêl (E reuniu/ajuntou)

Shemôt/Êxodo Ex. 35:1-38:20,

Haftará (Separação) 1Rs 7:13-26, 40-50, e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Mc 9:1-50


1 - INTRODUÇÃO

Inicia-se com Moshê reunindo toda a nação de Israel para transmitir-lhes tudo aquilo que D'us lhe ordenara sobre a construção e a montagem do Mishkan nas três porções prévias da Torá.

Entretanto, Moshê primeiro os adverte novamente sobre a mitsvá fundamental de guardar o Shabbat, lembrando-os que embora a construção do Mishkan seja de importância transcendental, não tem precedência sobre a observância semanal do Shabbat. Apenas um dia antes, em Yom Kipur, Moshê desceu do Monte Sinai com o segundo conjunto de Tábuas nas mãos, informando ao povo que eles tinham sido perdoados por D'us do horrível pecado de adorar o bezerro de ouro. Em resposta ao chamado de Moshê, os Filhos de Israel vieram com contribuições generosas para a construção do Mishkan, produzindo uma abundância de suprimentos.

Os artesãos são escolhidos e inicia-se a construção, e a Torá descreve em detalhes a fabricação de cada aspecto do Mishkan.

2 – ESTUDO DAS PALAVRAS

Vimos desde três parashiot (porções) passadas que a Torá vem tratando da construção do Mishkan (tabernáculo). Vem falando para Moshê levar ao povo de Israel cada palavra do Eterno. No entanto, nessa porção acontece algo que nos leva a parar e refletir sobre o texto. No primeiro verso dessa porção o Eterno interrompe as ordens da construção do Mishkan e fala sobre a prioridade do Shabbat (Descanso) em relação aos trabalhos relacionados à construção do tabernáculo. E é sobre isso que estudaremos.


“Moshê reuniu toda a comunidade dos filhos de Israel e lhes disse: “Isto é o que o Eterno ordenou a fazer. Todo o trabalho deve ser feito em seis dias, mas o sétimo dia deverá ser para vocês um dia sagrado, um shabbat de descanso absoluto em honra do Eterno. Quem realizar qualquer trabalho nesse dia será executado. No shabbat, não acendam fogo em seus lares””. (Ex 35:1-3)


Os antigos entendem que esta porção começa um dia depois de Moshê ter descido do Monte Sinai, com as segundas tábuas das dez palavras. Eles dizem que aquele dia em que ele desceu do Monte era Yom Kipur, e que no outro dia reúne o povo, homens, mulheres e crianças, para dizer-lhes que HaShem havia ordenado iniciar a construção do Mishkan (tabernáculo). Segundo o Midrash, nós sabemos muito sobre o Mishkan, pois viemos estudando sobre ele desde semanas atrás. Já os filhos de Israel, naquele dia, nada sabiam sobre ele ainda, pois Moshê somente os instruiu sobre isso após o Yom Kipur.

O Midrash ainda diz que Moshê anunciou ao povo que o Eterno os havia perdoado por fazerem o bezerro de ouro, e que sua Shechiná (presença) permaneceria novamente entre eles, no Mishkan, a tenda que eles deveriam construir. É dito pelos antigos que o júbilo entre os filhos de Israel foi enorme, com a notícia, uma vez que desde o ocorrido com o bezerro de ouro eles tinham estado muito tristes, devido a ausência do Eterno entre ele.

No entanto, Moshê adverte que o Shabat deveria ser respeitado, e antes mesmo de dar as instruções sobre a construção do Mishkan, o Eterno lhe pede para advertir ao povo. Embora a construção do Mishkan seja um trabalho sagrado, sempre devem interrompê-lo antes que comece o Shabat.

Assim, Moshê reúne o povo e fala, segundo a ordem do Eterno, sobre o shabat, antes de começar a obra do tabernáculo (Mishkan), repetindo a importância desse dia, a fim de que fique claro que o mandamento do shabat tem prioridade até mesmo sobre a construção do Mishkan.

Como percebemos até aqui, Moshê toma uma atitude, a de ajuntar o povo e passar as palavras do Eterno. Sobre isso o site ShemaYsrael diz que, quando Moshê fala ao povo, deixa claro que o que estavam recebendo naquele momento não são meras palavras que devem ser esquecidas ou negligenciadas. Veja que o site continua mostrando que Moshê diz “…Estas são as palavras que o Eterno ordenou que se cumprissem” e o termo traduzido por “palavras” em hebraico vem da raiz “davar” e significa “falar, declarar, conversar, ordenar, prometer”. Mas, quem havia dito “estas palavras”? Nossa tradução nos fala de “Senhor”, mas o hebraico nos informa que quem disso isso foi HaShem – o tetragrama. O Eterno agora se tornara para seu povo um Legislador que trazia sobre eles ordenanças (ordenou) que em hebraico é tsawa, e significa “ordenar, incumbir”. A raiz da palavra designa a instrução de um pai para seu filho; de um fazendeiro a seus lavradores; de um rei a seus servos. Aqui fica claro que o Eterno torna-se para o povo de Israel seu legislador e que lhes trará a partir de agora um “reforço” em sua Palavra, pois veremos que aquilo que o Eterno dirá ao povo já foi dito anteriormente, mas Ele volta a novamente instruir seus filhos a fim de poderem continuar a andar no caminho correto diante do Senhor!

Acerca do verso 1 dessa porção, o comentário da Torá da Editora Sefer nos diz que, o Midrash atribui a Moshê a instituição do costume dos israelitas de se juntarem após a reza no templo ou na casa de um correligionário, principalmente no dia de sábado, para discutir sobre o trecho da Torá lido na casa de oração, sobre alguma passagem do Talmud, do Midrash, ou pelo menos para ler Salmos. (Página 271)

Encontramos ainda no comentário da Torá, que Moisés reuniu o povo, e começou a ensinar-lhes as leis do shabat, pois parece ter-lhe dito o Eterno: “Adote este costume de fazer reunir o povo, a fim de ensinar-lhe as regras de sua conduta e inspirar-lhe o amor pela Torá. Essas reuniões servirão de modelo para as futuras gerações. Assim, a luz não se apagará em Israel e Meu nome será glorificado de geração em geração.” (Midrash Ialcut 408).

Até este momento do relato da Torá, as ordens de HaShem estavam sendo transmitidas ao povo, eles ainda não tinham iniciado a construção do Mishkan (tabernáculo). Veja que no verso 20 toda a comunidade sai da presença de Moisés e retornam para seus lugares, suas tendas, e começam a trazer as ofertas que haviam sido mencionadas na parashá Terumá (Ex 25:1-27:19), e é relembrada no verso 4 em diante dessa porção.

Agora, quando olhamos para este texto que estamos estudando reparamos que o Eterno antes de permitir o povo começar a obras do Mishkan (tabernáculo), repete a importância do Shabbat, para que fique bem claro, que o mandamento do Sábado tem prioridade até sobre a construção do tabernáculo. O que o Eterno queria, era que o povo fixasse em sua mente o entendimento do princípio do mandamento. Que o Shabbat é mais importante que aquela obra, mostrando assim, que o homem tem que se fixar mais na sua tarefa de obedecer ao Eterno enquanto vive, isto é, no seu caminhar, do que em outras coisas paralelas, mesmo que essas digam respeito a coisas sagradas. Veja o que diz Yeshua a esse respeito em Mt 19:16-22:


“Eis que alguém se aproximou de Yeshua e lhe perguntou: "Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna? "Respondeu-lhe Yeshua: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos"."Quais?", perguntou ele. Yeshua respondeu: "‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe’ e ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’".Disse-lhe o jovem: "A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda? "Yeshua respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me".Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas.”


Repare que a resposta de Yeshua para “como fazer para herdar a vida Eterna?” é, “obedecer aos mandamentos”. E a pessoa pergunta quais mandamentos. Yeshua então começa a mencionar os mandamentos que são relacionados ao homem com o seu semelhante, os que estão em uma das tábuas que o Eterno entregou a Moshê. Isso porque os mandamentos que são relacionados ao homem com Deus são considerados indiscutíveis, pois são totalmente absolutos. Sendo assim, obedecer ao Eterno é mais importante, pois se o amamos o obedecemos:


“Porque nisto consiste o amor a Deus: obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados.” 1Jo 5.3


“Respondeu Yeshua: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada. Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. Estas palavras que vocês estão ouvindo não são minhas; são de meu Pai que me enviou.” Jo 14:23 e 24


Voltando à questão do trabalho, repare que o ser humano sente-se realizado no seu trabalho, quando produz algo, e especialmente se pode fazer algo para o Eterno. E ele pode valorizar tanto o seu trabalho, que corre o risco de esquecer as prioridades maiores, como a esposa e a família. E neste caso, os filhos de Israel corriam o perigo de esquecer o mandamento de HaShem por causa da sua devoção à obra do Eterno. Esta, infelizmente é uma tentação em todo o obreiro de HaShem, esquecer o Eterno para dedicar-se à Sua obra. Muitos estão dedicando tanto tempo a estudar comentários sobre as Escrituras e aos trabalhos da congregação que lideram, que acabam por esquecer-se de ter comunhão com o próprio D’us, e até mesmo de cuidar de sua família, principalmente pelo exemplo de uma vida justa. E neste caso específico, o remédio contra isso é colocar o Shabbat como prioridade em relação aquela obra. No Shabbat o obreiro para o seu trabalho e dedica-se à oração, ao estudo da Torá e à sua família, ajudando-o a manter a sua relação principalmente com o Eterno, mas também com sua família.

Certa vez, um estudante rabínico procurou o rabino Ben Tizion e alegou que não podia comprar para a esposa um vestido novo porque dedicava todo seu tempo ao estudo da Torá. Nesse caso, disse o rabino, "feche seu tamuld, arranje um trabalho e vá comprar o que sua mulher precisa. Esse é um dos termos da ketubá (contrato de casamento) a obrigação do marido prover sua esposa. No hebraico "casar e carregar" é a mesma palavra “lasset”. Quando um homem casa é seu trabalho carregar (sustentar) a esposa.

Então, continuemos falando sobre Shabat! O que significa essa palavra?

Em hebraico “Shabat” significa repouso, descanso. Ela sempre vai se remeter a repouso, e não ao sétimo dia em si, embora ambos estejam ligados, pois no sétimo dia será shabat. Basta olharmos os textos bíblicos, tanto da Torá, como dos profetas, e até mesmo os escritos do chamado Novo Testamento para compreendermos que se refere ao ato de descansar no sétimo dia.

No comentário da Torá diz o seguinte sobre a criação do Shabbat pelo Eterno:

“Antes de formar, no sexto dia, o homem, o ser mais importante da Criação, Deus preparou-lhe o máximo de conforto e felicidade. O sol, a lua e as estrelas para iluminar o seu caminho; as flores para gozar de seus perfumes; os pássaros para entoar-lhe os seus cânticos harmoniosos, e todos os bens da terra para desfrutar deles segundo seu desejo. Faltava dar-lhe o exemplo do Shabbat (Descanso), o dia em que deveria dedicar-se ao repouso do corpo e da alma, ao regozijo e à elevação do seu espírito. “E Deus descansou, abençoou e santificou o sétimo dia”.


Em outro comentário diz que, a observância do Shabbat é o sinal que testemunha que o Eterno é o Criador do Universo e que completou Seu trabalho no sétimo dia. Nós, entretanto, devemos abster-nos de todo trabalho criativo no sábado para demonstrar que não somos os donos deste mundo, mas somente os servidores de D’us para cumprir Seus mandamentos.

A observância do Shabbat é importante para que possamos reconhecer o Criador, e para demonstrar para as pessoas que somos servos do Eterno que criou todas as coisas (Ex 20:8-11; Ex 31:12-18; Lv 23;1-3; Is 56:2; Is 58:13). E podemos perceber isso em passagens do chamado Novo Testamento que são muito mal interpretadas, por falta de conhecimento do contexto judaico das Escrituras, em que muitas pessoas afirmam que Yeshua anulou os mandamentos, mas é justamente o contrário. É preciso que olhemos para esses textos com olhares corretos (Mc 2:23-28; Mc 12:12; Mc 6:2; Jo 7:23; Jo 9:14 (lodo); At 16:13; At 17:2 (Paulo tinha costume).

É interessante observar a importância do dia de descanso para a vida dos servos do Eterno. Note que segundo alguns sábios do povo de Israel, o tempo é representado pelo Shabat. Todos os dias da semana estão vinculados ao Shabat. Veja que Domingo, segunda e terça-feiras estão ligados ao Shabat anterior e quarta, quinta e sexta-feiras estão ligados ao Shabat posterior.

O Rabino Isaac Dichi, em sua obra Nos Caminhos da Eternidade, afirma que ao cumprir o Shabat conforme as regras que a Torá prescreve, o povo testemunha que o Todo Poderoso criou o mundo em seis dias e no sétimo se absteve de criar. Os sábios de Israel, de acordo com o rabino, o final da semana, do mês e do ano devem ser períodos dedicados a um balanço espiritual, ou seja, ele mostra que devemos a cada Shabat avaliar nossa vida de obediência aos mandamentos do Eterno.

Quando Yom Teruá – Dia das Trombetas, se aproxima, o indivíduo começa a meditar sobre suas atitudes, tentando eliminar seus maus hábitos, para se aproximar mais e mais da Torá e de suas mitsvot na prática, e consequentemente ao Eterno. Assim, é também no êrev Shabat – início de Shabat. Da mesma forma que o indivíduo se prepara para o Shabat, banhando-se e trocando suas vestimentas do dia a dia, assim também deve se expurgar das más atitudes que eventualmente tenha feito durante a semana. Deve vestir-se espiritualmente de maneira adequada, libertando-se das manchas do pecado, da mesma forma que fez com as roupas diárias.

O livro “Divrê Shemuel” traz um exemplo expressivo para transmitir o sentido do início (entrada) do Shabat: Um indivíduo estava em uma estrada em um dia de muita chuva, com frio, molhado, com fome, sede e sem saber o que fazer.

De repente surge em seu caminho uma hospedaria, onde, para sua alegria completa, encontra tudo o que precisa – uma lareira para se esquentar, água quente para se banhar, a possibilidade de trocar suas roupas molhadas e uma alimentação adequada.

Assim é o Shabat para nós. Depois de uma semana de trabalho intenso e cansativo, chega o Shabat para nos reanimar e para nos revigorar, para podermos prosseguir o nosso caminho.

Exemplo semelhante encontramos no midrash. Ele conta que um homem estava se afogando em alto-mar e de repente percebeu a aproximação de uma embarcação. De dentro lhe jogam uma corda, dizendo para segurar firme. Disseram também que durante todo o tempo em que a estiver segurando, não se afogará.

Assim é o Shabat; os dias da semana são semelhantes a um oceano, com altas ondas e no Shabat o Todo-Poderoso nos estende uma corda. Ao nos ligarmos a esta corda, temos condições de sobreviver.

Ainda falando sobre o Shabat, vamos agora tratar um pouco sobre o mandamento de não acender fogo nesse dia. Vejamos o que diz o texto:


“Não acendereis fogo em nenhuma das vossas moradas no dia do sábado.” Ex 35:3


Como já dissemos em estudos anteriores este preceito ou mandamento pertence à categoria das leis chamadas “Chukim”, ou seja são leis as quais a Torá não explica a razão delas existirem.

Encontramos um interessante comentário no estudo dessa parashá no site Emunah a fé dos santos, ele diz que a razão pela qual não se pode acender fogo no Shabbat é que o fogo intervém na criação, alterando os elementos. O homem não tem o direito de intervir na criação no Shabbat para assim reconhecer que está submetido ao Criador. A palavra hebraica que fora traduzida como “acendereis” é “baar” que significa “arder”; “acender-se”; “incendiar-se”; “queimar-se”. A pessoa que faz tal coisa viola o Shabat. No entanto, se alguém viver em um local gélido, onde é necessário acender, o que deverá fazer? Morrer de frio? Claro que não! Neste e em casos similares, é permitido acender fogo, porque os mandamentos foram dados para vida, não para morte, como lemos em Lv 18:5


“Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Eterno.”


Pense bem, se alguém morre por causa de um mandamento, não cumpriu o propósito do mandamento que é dar vida. É permitido quebrar todos os mandamentos para preservar a vida humana, excepto três mandamentos, porque a vida humana tem prioridade sobre os mandamentos. Os três mandamentos que não se podem violar ainda que tenhamos que dar a nossa vida por causa disso são: Não praticar a idolatria, não assassinar e não cometer adultério.

E talvez, possamos colocar junto a esses três mandamentos que não podemos quebrar, mais uma coisa. Com a vinda do Messias e sua vida justa, vivida para nos ensinar a Torá limpa de tradições humanas, talvez possamos acrescentar o fato de não negá-lo como Messias de Israel e como aquele que trouxe a salvação do Eterno a quem o seguir obediente a HaShem.

É preferível morrer do que quebrar um desses mandamentos ou negar ao messias. Logo, se uma pessoa corre perigo de adoecer por não acender fogo no Shabat, é permitido fazê-lo, porque a enfermidade é um prenúncio/primogênito da morte e atenta contra a vida humana, conforme podemos ler em Jó 18:13.


Que possamos nos lembrar e guardar o shabat, e junto com ele, cada mandamento do Eterno que cabe a nós.

Que o Eterno lhes abençoe!

Por: Pr. Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva)