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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Estudo da Parashá Bo - Chamados ao Amanhecer e ao Entardecer.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 15 – Bo (Vá)

Shemot/Êxodo 10:1-13:16

Haftará (separação) Jr 46:13-28 e

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 20:1-16; Lc 2:22-24 e Atos 13:16,17


Chamados ao Amanhecer e ao Entardecer.


relatos nas Escrituras que nunca envelhecem. Eles atravessam gerações porque falam diretamente ao coração humano através de assuntos como poder, opressão, justiça, inveja, misericórdia e propósito. A parashá Bo, a haftará em Yirmeyahu, que estamos estudando essa semana, e a parábola dos trabalhadores da vinha, ensinada por Yeshua, pertencem a esse grupo. À primeira vista, parecem textos distintos, separados por séculos e contextos diferentes. Mas, quando colocados lado a lado, e estudados da maneira correta, revelam uma única mensagem, isto é, o Eterno liberta, chama para o serviço e exige um coração alinhado com Sua justiça, não com o orgulho humano.

Através deste estudo convido você a caminhar desde a saída de Mitsrayim até a vinha do dono justo, entendendo que o mesmo Eterno que julgou Faraó continua ensinando como viver em Sua aliança hoje. O Eterno chama ao amanhecer e ao entardecer, traz libertação, justiça e misericórdia na Parashá Bo. Fique até o final para não perder nada.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Nesta semana lemos a parashá Bo, que descreve os atos finais do Eterno para libertar os filhos de Yisrael da servidão em Mitsrayim e estabelecer um memorial eterno dessa libertação.

O Eterno envia as três últimas pragas sobre Mitsrayim: Arbeh (gafanhotos), que consomem tudo o que restou da terra; Choshech (escuridão densa), que cobre Mitsrayim por três dias, enquanto os filhos de Yisrael têm luz em suas habitações; e, por fim, o anúncio da morte dos primogênitos.

O coração de Faraó permanece endurecido. Mesmo quando admite momentaneamente o erro, ele tenta negociar a obediência, permitindo apenas uma libertação parcial. Mosheh rejeita qualquer concessão, pois o serviço ao Eterno exige entrega completa.

Antes da última praga, o Eterno estabelece Pesach. Cada casa de Yisrael deveria separar um cordeiro sem defeito, abatê-lo no décimo quarto dia do mês de Aviv, colocar o sangue nos umbrais e na verga da porta, e comer a carne assada com matzot e ervas amargas, prontos para partir. O sangue é o sinal de obediência que distingue as casas de Yisrael em meio ao juízo.

À meia-noite, o Eterno fere todos os primogênitos de Mitsrayim, do palácio à prisão. Há grande clamor na terra, e Faraó finalmente ordena que Yisrael saia imediatamente. O povo parte apressadamente, levando matzot, pois não houve tempo para a massa fermentar, e sai com bens concedidos pelos mitsrim.

Cerca de seiscentos mil homens, além de mulheres e crianças, deixam Mitsrayim. Assim se cumpre a palavra dita a Avraham, de que seus descendentes seriam libertos após longo tempo de aflição.

A parashá Bo ensina que a libertação vem pela obediência aos mandamentos do Eterno, que não há redenção parcial, e que Yisrael foi tirado da servidão para servir somente a Ele. A saída de Mitsrayim não é apenas um fato histórico, mas um memorial vivo para todas as gerações, pois “...Com mão forte o Eterno nos tirou de Mitsrayim, da casa da servidão.”


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Bo se inicia com palavras firmes do Eterno a Mosheh:

à presença de Faraó, porque Eu endureci o seu coração.” Shemot 10:1

O cenário é de confronto direto entre duas forças:

– de um lado, Mitsrayim, com seu poder, economia e opressão;

– do outro, o Eterno, chamando Seu povo para sair e servi-lo.

Desde o início da porção, fica claro que a libertação não é apenas sair fisicamente de um lugar, mas romper com um sistema que se opõe à vontade do Eterno. Eles deveriam mudar sua kavanah e mentalidade para serem verdadeiramente livres. Esse mesmo tema reaparece na haftará, quando Yirmeyahu anuncia o juízo definitivo contra Mitsrayim, e ecoa nos ensinos de Yeshua que falou sobre quem é chamado primeiro, quem chega depois e como o Eterno distribui Sua recompensa, na parábola dos trabalhadores da vinha.

No Chumash Plaut, há um comentário introdutório da parashá Bo, onde o autor afirma que Moshê confrontou repetidamente o Faraó com a alegação de que é D’us, e não o Faraó, quem possui Yisrael. No entanto, o governante do Egito insistiu em manter o controle do povo escravizado, apesar dos custos crescentes para a nação, por uma série de sete catástrofes até aquele momento. Infelizmente há pessoas que não entendem os sinais, situações que ocorrem a sua volta e que muitas vezes são instrumentos do Eterno para nos colocar no caminho certo, e no caso do Faraó, para julgá-lo, por suas atitudes imprudentes. Vejamos nos tópicos a seguir um pouco mais de como o Eterno chama e desperta seu povo.


1. Mitsrayim: o sistema que escraviza e será julgado

Sempre falo que no estudo das Escrituras é preciso se ater a forma judaica de interpretar os textos, entender as palavras chaves, as representações e etc. Na parashá Bo, Mitsrayim representa mais do que uma terra, ela é chamada de “Casa da servidão”, conforme lemos em Shemot 20:2.

Faraó simboliza um poder que resiste à palavra do Eterno até o fim. Mesmo diante de sinais claros, ele tenta negociar, ceder parcialmente, manter controle. Porém, a libertação só acontece quando o Eterno executa Seu juízo e isso ocorre sempre no tempo certo, determinado por HaShem. Quando isso ocorre o Eterno liberta seu povo.

A haftará em Yirmeyahu 46:13–28 mostra que esse julgamento não ficou restrito ao passado, ela traz uma profecia clara e direta contra Mitsrayim, anunciando sua queda definitiva diante do juízo do Eterno. Esse texto dialoga profundamente com a parashá que estamos estudando, pois revela que o poder que oprimiu Yisrael no passado não permanece para sempre diante da soberania do Eterno. Séculos depois dos eventos relatados na parashá, o Eterno declara que Mitsrayim cairá novamente, agora pelas mãos de Bavel, que naquele momento era instrumento de julgamento de HaShem. O texto é direto, mostra que força militar, sabedoria humana e ídolos não sustentam um sistema que se levanta contra o Eterno, mesmo que supostamente afirme servir ao Eterno, como foi o caso do reino do sul, que buscou se aliar ao Egito.

O profeta Yirmeyahu anuncia a palavra do Eterno contra Mitsrayim no tempo da invasão de Nevuchadnetsar, rei de Bavel. Mitsrayim, que se via como forte, organizada e protegida por seus exércitos, é descrita como incapaz de resistir ao decreto do Eterno.

A haftará nos mostra Mitsrayim confiando em sua força militar, em seus guerreiros, em seus ídolos, e em sua própria sabedoria. Contudo, todas essas coisas falham, e o Eterno declara que os valentes tropeçam, os mercenários fogem, o orgulho do Egito é humilhado e seus deuses são julgados.

Ao mesmo tempo, o profeta traz consolo a Yisrael, à casa de Yehudá, mesmo julgando e punindo-os lhes diz:


Não tenha medo, ó Yaakov, meu servo, porque Eu estou com você! Diz o Eterno. Eu darei um a rodas as nações a cujas terras o levei; mas não darei um fim a você. Ainda que Eu não permita que fique impune, Eu o castigarei com justiça. Yirmeyahu 46:28


O perdão divino atenua, mas não anula o castigo, pois a justiça divina deve ser cumprida, diz o comentário de rodapé do Chumash Plaut. E neste texto que acabamos de ler, está um princípio essencial, o Eterno julga os sistemas opressores, e até mesmo os seus escolhidos, se errarem, mas preserva Seu povo para cumprir Seu propósito e para trazê-los de volta ao caminho da teshuvah.

O Egito é comparado a uma bela novilha, mas o destruidor vem do norte. Nenhum plano humano consegue impedir o juízo do Eterno. A terra que antes oprimia agora se torna objeto de terror. HaShem, através do profeta, declara que Yisrael, no caso Judá, será disciplinado com justiça, mas não destruído. Há juízo para as nações opressoras, mas preservação e esperança para o povo do Eterno.

O pensamento rabínico antigo observa que Mitsrayim é lembrada repetidamente nas Escrituras não apenas como um lugar, mas como um modelo de arrogância humana que precisa ser confrontado geração após geração.

Olhando para essa porção e sua haftará, vemos o reforço de um tema essencial mencionado pelos profetas, ou seja, não buscar segurança nos sistemas que o Eterno já julgou. Assim como em Bo o Eterno tira Yisrael de Mitsrayim, em Yirmeyahu Ele mostra que o Egito e outros como Bavel, não é refúgio, mas armadilha. A parashá Bo nos mostra o nascimento da libertação e a haftará mostra que essa libertação continua válida ao longo da história. O Egito cai, os sistemas opressores passam, mas o Eterno permanece fiel à sua palavra. O chamado é o mesmo em todas as gerações, isto é, não confiar no Egito, não temer Bavel e permanecer firme nos caminhos do Eterno. Vejamos no tópico seguinte que o Eterno continua chamando para a libertação e para servir, e utiliza o mashiach e seus ensinos.


2. A vinha, a aliança e o chamado para servir

Ao estudar as Escrituras, ou seja, a Torá e a haftará, notamos que há uma evolução da revelação das Palavras do Eterno. Os princípios da Torá são mantidos e ampliados pelos profetas, mas se olharmos para os escritos nazarenos, vemos que Yeshua também repetiu os mesmos ensinos. E fez isso de forma prática, clara e ainda mais ampla, assim, podemos perceber uma relação direta e profunda entre a parashá Bo e a parábola contado por Yeshua em Matituahu 20:1-16, quando lidas à luz das Escrituras e do propósito do Eterno revelado desde o início.

Mais uma vez, para entender bem o que uma parábola quer dizer, é preciso analisar pelo contexto original, utilizando de métodos judaicos de interpretação. E sendo assim, vamos separar os elementos da parábola:

- o dono da vinha;

- a vinha;

- o contrato de trabalho;

- os trabalhadores contratados primeiro;

- os trabalhadores da última hora.

Quando Yeshua conta a parábola dos trabalhadores da vinha, Ele estava falando a um povo que conhece bem a história do Êxodo. A parábola começa com um dono de vinha que chama, desde cedo, trabalhadores em diferentes horas do dia. Isso não é novo nas Escrituras, a vinha não é uma imagem nova, pois o profeta Yeshayahu já havia falado sobre isso, observe:


Porque a vinha do Eterno dos Exércitos é a casa de Yisrael, e os homens de Yehudah são a planta das suas delícias; e esperou que exercesse juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor. Yeshayahu 5:7


Também encontramos referência em Tehilim:


Trouxeste uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste. Tehilim 80:8


Dessa forma, quando Yeshua falou de uma vinha, ele estava falando do projeto do Eterno na terra, iniciado com o povo de Yisrael. A vinha é o povo de Yisrael.

Os primeiros trabalhadores, chamados ao amanhecer, representam Yisrael, retirado de Mitsrayim e colocado em aliança no Sinai. Eles receberam o “contrato”: a Torá, os mandamentos, a responsabilidade de viver como povo separado.

Os últimos trabalhadores, chamados na última hora do dia, sem negociação prévia e confiando apenas na justiça do dono da vinha, eles representam as pessoas das nações, que se achegam mais tarde ao mesmo propósito do Eterno. E apesar de não terem a promessa do contrato formal, como os primeiros chamados, o contrato vale para estes também, desde que entrem no campo e se juntem aos demais trabalhadores. O ponto central da parábola não é a quantidade de trabalho, mas o caráter do dono da vinha.

Isso se conecta diretamente com a parashá Bo. Yisrael não saiu de Mitsrayim por mérito próprio, mas porque o Eterno havia feito uma aliança com os patriarcas e decidiu libertá-los. Da mesma forma, ninguém entra na vinha por justiça própria. O Eterno liberta do sistema pecaminoso, depois dá o contrato, a Torá, e então se passa a viver em justiça.

Os trabalhadores da última hora não substituem Yisrael, mas são ajuntados à mesma vinha, ou seja, são ajuntados à Yisrael, como Rav Shaul disse, são enxertados.

O ensino rabínico reconhece que o mérito maior não está em ter sido chamado primeiro, mas em permanecer fiel até o fim.

Mas, assim como vemos hoje, os primeiros trabalhadores murmuraram, reclamaram que os últimos estavam recebendo a mesma coisa que eles. No entanto, Yeshua alerta que aqueles que foram chamados primeiro não devem se escandalizar quando o Eterno demonstra misericórdia aos que chegam depois, como vemos em Mt 20:15.


3. Murmuração, justiça e transformação do coração

Na parábola, os primeiros trabalhadores murmuram. Esse detalhe não é acidental. Ele ecoa o comportamento de Yisrael logo após sair de Mitsrayim:


E murmurou toda a congregação. Shemot 16:2


Yeshua não está acusando Yisrael, mas advertindo, pois o chamado antigo não autoriza arrogância. Isso acontece atualmente também, muitos judeus rejeitas os nazarenos, seguidores do mashiach. Porém o princípio é claro, quem conhece mais, responde por mais.

O Eterno não é injusto por ser misericordioso com quem chega depois. Ele permanece fiel ao que prometeu. A verdadeira questão é o coração de quem já está na vinha. O pensamento rabínico ensina que o Eterno mede o homem não pelo tempo de serviço, mas pela intenção do coração e pela obediência constante.

Fica claro um ensino prático, uma regra do Reino do Eterno, isto é, ordem não é hierarquia. Observe o que Yeshua disse em Mt 20:16:


Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, últimos.


Isso não anula Yisrael, pelo contrário corrige o orgulho de alguns. O profeta Amós falou algo ligado a isso, observe:


De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades. Amós 3:2.


Quem é chamado primeiro é mais responsável, não mais privilegiado. Por isso, podemos compreender que a parashá Bo marca o início do chamado, a haftará e a parábola contada por Yeshua mostram a ampliação do chamado, isso porque a vinha é a mesma, o dono é o mesmo e o propósito também é o mesmo. De acordo com Ml 3:6, o Eterno não muda. Assim, podemos claramente entender, que o Eterno tirou Yisrael de Mitsrayim para servir. Depois, chamou também a casa de Yisrael que se perdeu e pessoas das nações, para andar no mesmo caminho, não sem Torá, mas sendo ensinadas nela.

Concluindo o estudo, a parashá Bo, a haftará de Yirmeyahu e a parábola dos trabalhadores da vinha revelam uma única linha contínua, isto é, o Eterno liberta para servir, julga sistemas opressores e chama Seu povo a viver sem orgulho. Mitsrayim cai. Bavel cai. A vinha permanece. Mas a pergunta que fica não é: quando fomos chamados? Mas sim: como estamos servindo?

Quem saiu de Mitsrayim não pode desejar voltar. Quem entrou na vinha não pode desprezar quem chegou depois. O chamado do Eterno continua ecoando em todas as gerações, e diz: andar em Seus caminhos, guardar Seus mandamentos e refletir Sua justiça e misericórdia.

Não é por tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o Eterno teu Elohim as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o Eterno jurou a teus pais, Avraham, Yitschak e Yaakov. Devarim 9:5

Que cada um de nós examine o próprio coração, abandone toda forma de Mitsrayim e sirva ao Dono da vinha com humildade e fidelidade, aproveitando a liberdade que HaShem nos deu.


Que o Eterno lhes abençoe.


Moshê Ben Yosef


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