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sexta-feira, 26 de junho de 2026

PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?

 


PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?



Devido à interpretações erradas muitos leitores da bíblia tem um entendimento errado do que o apóstolo Paulo, o rav Shaul, fala na epístola aos Colossenses 2:9. Infelizmente há muita interpretação errada das palavras de Paulo, devido à ausência de compreensão do contexto original.

Então, será que Colossenses 2:9 realmente ensina que Yeshua é o próprio D’us encarnado ou está utilizando uma linguagem conhecida do judaísmo do Segundo Templo para falar da presença e autoridade divinas que habitam nele?

Muitos leem o texto do apóstolo a partir de uma teologia posterior, sem considerar o contexto do século I. Essa é uma discussão antiga e importante.

Primeiro, vejamos o texto:

"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Colossenses 2:9)
Qual o contexto desse verso? Para quem Shaul está escrevendo e qual o contexto daquela comunidade? Qual o motivo da carta? Quando respondemos a essas perguntas entenderemos o contexto original. Quando isso fica claro, Colossenses 2:9 deixa de parecer um versículo isolado indicando divindade e passa a fazer parte de um raciocínio muito maior e correto, de acordo com a mentalidade paulina da época.

1. A cidade de Colossos

Colossos ficava na região da Frígia, na Ásia Menor (atual Turquia). Era uma cidade situada próxima de Laodiceia e Hierápolis (Shaul menciona ambas em Colossenses 4:13.).

No passado Colossos havia sido uma cidade importante, mas no século I já não possuía o prestígio comercial de antes. A população era bastante mista havia gregos, frígios, romanos e judeus da diáspora. Sabemos por fontes históricas que havia uma comunidade judaica significativa naquela região desde os tempos dos selêucidas. Portanto, a congregação provavelmente era composta por judeus que criam no testemunho de Yeshua como Mashiach e por gentios atraídos ao D’us de Yisrael através do testemunho de Yeshua e dos Shaliachim(apóstolos). Exatamente como ocorreu em muitas outras comunidades fundadas durante o ministério apostólico.

2. Shaul provavelmente nunca visitou Colossos

Há um detalhe importante, pois possivelmente o Rav Shaul nunca tenha visitado esta cidade. Em Colossenses 2:1 ele escreve: "...e por todos quantos não me viram pessoalmente." Isso sugere que a comunidade foi fundada por outro colaborador, que de acordo com muitos estudiosos o principal candidato é Epafras, conforme lemos em Colossenses 1:7: "Como aprendestes de Epafras." Epafras parece ter sido discípulo de Shaul e fundador da comunidade. Portanto, Shaul escreve àquela congregação porque recebeu notícias preocupantes por meio de seu discípulo.

3. Qual era o problema?

Aqui chegamos ao ponto central, o contexto do assunto da carta e consequentemente, o motivo da fala no seu texto. Existe um grande debate acadêmico sobre a natureza exata da heresia combatida na carta. Mas alguns elementos são claros, vejamos:

- Filosofia

Em Colossenses 2:8 lemos: Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio de filosofias.

A palavra "filosofia" aqui não significa necessariamente Platão ou Aristóteles, mas refere-se a um sistema religioso ou espiritual que competia com o ensino original apostólico.

- Culto aos anjos

Em Colossenses 2:18 encontramos: ...culto dos anjos...

Isso é extremamente importante, pois parece que certos grupos ensinavam que o acesso a D’us exigia mediação angelical.

- Ascetismo

Ainda em Colossenses 2:21 lemos: Não toques, não proves, não manuseies.

Haviam práticas rígidas de negação do corpo.

- Experiências místicas

Colossenses 2:18 registra: baseando-se em visões.

Algumas pessoas reivindicavam experiências espirituais superiores.

Muitos estudiosos acreditam que o problema não era paganismo puro, mas também não era judaísmo puro. Parece que estavam inserindo uma mistura, algo parecido com um misticismo judaico primitivo, especulações angelológicas, elementos ascéticos e influências helenistas. Em outras palavras, era uma espiritualidade que dizia "Yeshua é importante, mas não basta." Não estavam apenas reduzindo a importância do ensino de Yeshua, estavam inserindo outros elementos, contrários ao TaNaK, que nem Yeshua e nem os talmidim nunca ensinaram. E é justamente contra isso que Shaul escreve.

Entendendo todas essas coisas, e com o objetivo de nos aprofundarmos um pouco no assunto do verso em estudo, é preciso abandonar, por alguns instantes, tanto as lentes do cristianismo tradicional como as do antitrinitarismo moderno e tentar entrar na mente de um judeu do século I. A pergunta correta não é: "O que os teólogos do século IV entenderam?" Nem: "O que os antitrinitários modernos entendem?". A pergunta é: O que um discípulo de Yeshua, judeu do primeiro século teria entendido ao ouvir que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade"?

Voltemos ao texto, mas observemos os versos anteriores, desde o início do capítulo.

Porque desejo dar informações sobre quão duramente trabalho por vocês, pelos de Laodiceia e por todos que não me conhecem pessoalmente. Meu propósito é encorajá-los, uni-los em amor, para que tenham todas as riquezas derivadas da segurança e conheçam integralmente a verdade secreta de Deus, isto é, o Messias. Todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos nele. Digo isso para que ninguém os engane com argumentos plausíveis, mas ilusórios. Porque apesar de estar longe de vocês fisicamente, estou presente em espírito, alegrando-me em ver a firmeza disciplinada e resoluta de sua confiança no Messias. Portanto, como vocês receberam o Messias Yeshua, o Senhor, continuem a viver unidos a ele. Permaneçam profundamente enraizados nele; continuem a ser edificados nele e confirmados na confiança, como foram ensinados, para que transbordem em ações de graças. Cuidem para que ninguém os cative por meio de filosofias e enganos vãos, seguindo tradições humanas que concordam com os espíritos elementares do mundo, mas não concordam com o Messias. Porque nele habita, corporalmente, a plenitude do que Deus é. E, por sua união com ele, vocês foram plenificados — ele é o cabeça de todo governo e autoridade. Colossenses 2:1-10

A palavra grega traduzida para plenitude é pleroma (πλήρωμα), que significa "plenitude", "totalidade", "aquilo que enche".

4. O que significava "pleroma" no século I?

Muitos leitores começam ler em Colossenses 2:9, mas Paulo começou o argumento muito antes. O texto não pode ser analisado fora de seu contexto. A preocupação da carta não é provar que Yeshua é Deus, porque essa nunca foi a visão dos talmidim. A preocupação é combater um ensino que diminuía sua posição, conforme vimos acima.

Parece que alguns grupos ensinavam que o homem precisava subir uma espécie de escada espiritual através de seres intermediários. Paulo responde: Vocês já possuem tudo no Messias. E por quê? Porque ele era D’us? Não, porque o ensino que ele deixou acerca da Palavra do Eterno, a Torá, era suficiente. Por isso Shaul diz que o mashiach é suficiente. Por isso ele usa repetidamente a palavra pleroma (plenitude).

Hoje muitos pensam que "plenitude da divindade" significa: "100% D’us." ou “uma emanação”. Mas essa não era necessariamente a maneira hebraica de pensar. No Tanakh encontramos a ideia de plenitude relacionada à presença divina. Veja os seguintes textos:

- Em Yeshayahu 6:3: Toda a terra está cheia da sua glória.

A terra não se torna D’u, mas é preenchida pela manifestação divina.

- Em Êxodo 40:34: A glória do Senhor encheu o tabernáculo.

A plenitude divina habita no tabernáculo, mas ninguém conclui que o tabernáculo seja D’us.

- Em 1 Reis 8:10-11: A glória do Senhor encheu a casa.

Novamente, presença plena, não identidade ontológica.

Portanto, para um judeu do século I, "plenitude" normalmente evocava a ideia de habitação da presença divina. No judaísmo do período do Segundo Templo, "plenitude" frequentemente se referia à presença, sabedoria, glória ou manifestação de D’us.

Por exemplo:

  • A glória de D’us enchia o Tabernáculo (Êxodo 40:34).

    A glória de D’us enchia o Templo (1 Reis 8:10-11).

    A Sabedoria divina era descrita como habitando entre os homens (Eclesiástico 24).

Em nenhum desses casos a presença divina transformava o objeto ou local em D’us.

O pensamento hebraico distingue entre:

  • - Deus (HaShem)

    - Sua glória (Kavod)

    - Sua presença (Shechiná)

    -Sua palavra (Davar)

    - Sua sabedoria (Chochmá)

Todas são manifestações reais do Eterno sem que deixem de existir distinções entre o Criador e sua criação.

5. O verbo "habitar"

O apóstolo Paulo escreve: “Nele habita corporalmente.” O verbo grego é: κατοικέω (katoikeō), que significa residir permanentemente, estabelecer morada ou fixar habitação.

Este verbo aparece frequentemente na Septuaginta para falar da habitação da presença divina. Isso aproxima muito o texto da linguagem da época do Templo. Em outras palavras: “Yeshua está sendo apresentado como o lugar definitivo da habitação de D’us.” Essa ideia aparece também em Yochanan/João.

João 1:14 diz: O Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós. O verbo usado lembra diretamente o Mishkan, e a idéia aqui é impressionante, pois o que antes acontecia no Tabernáculo agora acontece em uma pessoa. O Templo não virava o próprio Eterno, mas ele comportava a presença. Assim, o Templo não desaparece da teologia apostólica. Ele é reinterpretado à luz do Messias. Por isso Yeshua diz: Destruí este templo e em três dias o levantarei. Yochanan explica que o mestre falava de seu corpo.

Novamente, a plenitude de D’us está presente no Messias e transborda para os discípulos.

6. O conceito judaico da Shechiná

Embora a palavra Shechiná não apareça no Tanakh, por tratar-se de um termo rabínico cunhado na tradição judaica posterior, durante o período do Talmude e dos Targuns, ela se tornou comum no judaísmo para descrever a presença manifesta de D’us.

Os sábios falavam da Shechiná no Tabernáculo, no Templo, entre os justos e em Yisrael. A Shechiná não era outro deus, nem era uma pessoa separada, era a manifestação da presença divina.

Quando Paulo diz que toda a plenitude habita em Yeshua corporalmente, um judeu poderia muito bem entender que toda a Shechiná de D’us está presente nele. E isso não significa que ele era o Eterno ou uma emanação do Eterno, mas que o Eterno estava nele.

7. O contexto da Sabedoria (Chochmá)

Existe algo ainda mais interessante que muitos interpretam errado. Durante o período do Segundo Templo, muitos judeus falavam da Sabedoria divina quase como uma personagem. Por exemplo: Em Provérbios 8. Sabedoria de Salomão.

Também Eclesiastes 24, a Sabedoria estava com D’us, participava da criação, habitava entre os homens, mas continuava sendo uma expressão do próprio D’us. Não era um segundo deus ou uma emanação. Era na verdade uma representação.

Muitos estudiosos entendem que Paulo utiliza essa tradição para falar do Messias. Por isso Colossenses 1 afirma: Tudo foi criado por meio dele. A linguagem lembra muito a Sabedoria personificada, mas não significa que Yeshua estava criando o universo ou existisse antes de nascer.

8. O significado de "theotēs"

Ainda nesse mesmo verso, encontramos um detalhe técnico importante, pois em Colossenses 2:9 aparece também o termo θεότης (theotēs), geralmente traduzido por divindade ou natureza divina. Mas existe outra palavra grega semelhante, o termo θειότης (theiotēs), e em Romanos 1:20 encontramos esta segunda palavra. Paulo escolheu propositalmente theotēs em Colossenses. Isso mostra que ele deseja enfatizar algo extremamente forte. Mas ainda resta a pergunta: O que significa possuir plenamente a divindade? A resposta não é automaticamente: Ser o próprio D’us, pois no pensamento judaico, alguém pode ser investido da autoridade, glória e presença divina sem ser o próprio Eterno.

E aqui entramos numa das chaves mais importantes para a compreensão do contexto. No judaísmo existe o conceito de: Shaliach (שליח), que significa o enviado. Veja, os rabinos ensinavam que o enviado de uma pessoa é como a própria pessoa. O emissário falava em nome de quem o enviou, agia com sua autoridade e representava sua vontade. Isso ajuda a compreender muitas falas de Yeshua como por exemplo: “...Quem me vê, vê o Pai...”, “...Quem me recebe, recebe aquele que me enviou…”. No pensamento judaico, representação perfeita não significa identidade absoluta.

Há outro paralelo frequentemente ignorado, em Shemot/Êxodo 7:1 O Eterno diz a Moshê:

Eu te constituí como Elohim para Faraó. Moshê virou D’us? Claro que não. Ele recebeu autoridade divina para representar o Eterno. Agora imagine isso levado ao nível máximo. O Messias seria o representante supremo de D’us, a imagem perfeita, o reflexo sem distorção. Enfim, o portador pleno da presença divina, não o Eterno.

9. O que Paulo provavelmente quer afirmar?

Dessa forma, juntando todo o contexto que podemos refletir aqui: Templo, Shechiná, Sabedoria, Shaliach e Autoridade messiânica. Rav Shaul parece estar dizendo: Tudo aquilo que D’us é em sua presença, glória, autoridade, sabedoria e propósito habita plenamente no Messias. Por isso não há necessidade de buscar anjos, mediadores adicionais, poderes cósmicos ou experiências místicas paralelas, pois tudo está concentrado nele, ou melhor, nos ensinos dele.

Vale à pena ainda mencionar um paralelo interessante. Em Números 25, Pinchás age com o zelo do próprio Eterno. O texto chega a dizer: Ele teve o meu zelo. Pinchás não se torna o Eterno, mas manifesta perfeitamente a vontade divina naquele momento. Como um representante não uma emanação. Por isso recebe a aliança de paz. Por isso, da mesma forma, o Messias representa a expressão máxima da vontade divina. A diferença é que Pinchás manifesta parcialmente o caráter de D’us em um episódio específico. E Yeshua manifesta plenamente o caráter de D’us durante toda sua vida de justiça. Por isso, Rav Shaul pode dizer que toda a plenitude habita nele.

Portanto, quando Colossenses 2:9 é lido dentro do universo judaico do século I, a primeira imagem que surge não é a de uma discussão filosófica sobre essência ou natureza divina, mas a do Templo, da Shechiná, da Sabedoria de D’us e do enviado perfeito do Eterno. O texto certamente exalta Yeshua a um nível extraordinário, mas não o divinisa ou afirma que ele é o Eterno. O que é inegável é que Paulo apresenta Yeshua como aquele em quem D’us habita de forma única e plena, cumprindo e superando tudo aquilo que o Mishkan, o Templo, Moshé, a Sabedoria e até Pinchás haviam apenas prefigurado. Essa leitura se harmoniza profundamente com o ambiente judaico do primeiro século e com os padrões de pensamento encontrados no Tanakh e na literatura judaica do Segundo Templo.



Por: Moshê Ben Yosef

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