Páginas

Boas Vindas

Seja Bem Vindo e Aproveite ao Máximo!
Curta, Divulgue, Compartilhe e se desejar comente.
Que o Eterno o abençoe!!

Mostrando postagens com marcador cartas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cartas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de junho de 2026

PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?

 


PLENITUDE DA DIVINDADE INDICA DIVINDADE?



Devido à interpretações erradas muitos leitores da bíblia tem um entendimento errado do que o apóstolo Paulo, o rav Shaul, fala na epístola aos Colossenses 2:9. Infelizmente há muita interpretação errada das palavras de Paulo, devido à ausência de compreensão do contexto original.

Então, será que Colossenses 2:9 realmente ensina que Yeshua é o próprio D’us encarnado ou está utilizando uma linguagem conhecida do judaísmo do Segundo Templo para falar da presença e autoridade divinas que habitam nele?

Muitos leem o texto do apóstolo a partir de uma teologia posterior, sem considerar o contexto do século I. Essa é uma discussão antiga e importante.

Primeiro, vejamos o texto:

"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Colossenses 2:9)
Qual o contexto desse verso? Para quem Shaul está escrevendo e qual o contexto daquela comunidade? Qual o motivo da carta? Quando respondemos a essas perguntas entenderemos o contexto original. Quando isso fica claro, Colossenses 2:9 deixa de parecer um versículo isolado indicando divindade e passa a fazer parte de um raciocínio muito maior e correto, de acordo com a mentalidade paulina da época.

1. A cidade de Colossos

Colossos ficava na região da Frígia, na Ásia Menor (atual Turquia). Era uma cidade situada próxima de Laodiceia e Hierápolis (Shaul menciona ambas em Colossenses 4:13.).

No passado Colossos havia sido uma cidade importante, mas no século I já não possuía o prestígio comercial de antes. A população era bastante mista havia gregos, frígios, romanos e judeus da diáspora. Sabemos por fontes históricas que havia uma comunidade judaica significativa naquela região desde os tempos dos selêucidas. Portanto, a congregação provavelmente era composta por judeus que criam no testemunho de Yeshua como Mashiach e por gentios atraídos ao D’us de Yisrael através do testemunho de Yeshua e dos Shaliachim(apóstolos). Exatamente como ocorreu em muitas outras comunidades fundadas durante o ministério apostólico.

2. Shaul provavelmente nunca visitou Colossos

Há um detalhe importante, pois possivelmente o Rav Shaul nunca tenha visitado esta cidade. Em Colossenses 2:1 ele escreve: "...e por todos quantos não me viram pessoalmente." Isso sugere que a comunidade foi fundada por outro colaborador, que de acordo com muitos estudiosos o principal candidato é Epafras, conforme lemos em Colossenses 1:7: "Como aprendestes de Epafras." Epafras parece ter sido discípulo de Shaul e fundador da comunidade. Portanto, Shaul escreve àquela congregação porque recebeu notícias preocupantes por meio de seu discípulo.

3. Qual era o problema?

Aqui chegamos ao ponto central, o contexto do assunto da carta e consequentemente, o motivo da fala no seu texto. Existe um grande debate acadêmico sobre a natureza exata da heresia combatida na carta. Mas alguns elementos são claros, vejamos:

- Filosofia

Em Colossenses 2:8 lemos: Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio de filosofias.

A palavra "filosofia" aqui não significa necessariamente Platão ou Aristóteles, mas refere-se a um sistema religioso ou espiritual que competia com o ensino original apostólico.

- Culto aos anjos

Em Colossenses 2:18 encontramos: ...culto dos anjos...

Isso é extremamente importante, pois parece que certos grupos ensinavam que o acesso a D’us exigia mediação angelical.

- Ascetismo

Ainda em Colossenses 2:21 lemos: Não toques, não proves, não manuseies.

Haviam práticas rígidas de negação do corpo.

- Experiências místicas

Colossenses 2:18 registra: baseando-se em visões.

Algumas pessoas reivindicavam experiências espirituais superiores.

Muitos estudiosos acreditam que o problema não era paganismo puro, mas também não era judaísmo puro. Parece que estavam inserindo uma mistura, algo parecido com um misticismo judaico primitivo, especulações angelológicas, elementos ascéticos e influências helenistas. Em outras palavras, era uma espiritualidade que dizia "Yeshua é importante, mas não basta." Não estavam apenas reduzindo a importância do ensino de Yeshua, estavam inserindo outros elementos, contrários ao TaNaK, que nem Yeshua e nem os talmidim nunca ensinaram. E é justamente contra isso que Shaul escreve.

Entendendo todas essas coisas, e com o objetivo de nos aprofundarmos um pouco no assunto do verso em estudo, é preciso abandonar, por alguns instantes, tanto as lentes do cristianismo tradicional como as do antitrinitarismo moderno e tentar entrar na mente de um judeu do século I. A pergunta correta não é: "O que os teólogos do século IV entenderam?" Nem: "O que os antitrinitários modernos entendem?". A pergunta é: O que um discípulo de Yeshua, judeu do primeiro século teria entendido ao ouvir que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade"?

Voltemos ao texto, mas observemos os versos anteriores, desde o início do capítulo.

Porque desejo dar informações sobre quão duramente trabalho por vocês, pelos de Laodiceia e por todos que não me conhecem pessoalmente. Meu propósito é encorajá-los, uni-los em amor, para que tenham todas as riquezas derivadas da segurança e conheçam integralmente a verdade secreta de Deus, isto é, o Messias. Todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos nele. Digo isso para que ninguém os engane com argumentos plausíveis, mas ilusórios. Porque apesar de estar longe de vocês fisicamente, estou presente em espírito, alegrando-me em ver a firmeza disciplinada e resoluta de sua confiança no Messias. Portanto, como vocês receberam o Messias Yeshua, o Senhor, continuem a viver unidos a ele. Permaneçam profundamente enraizados nele; continuem a ser edificados nele e confirmados na confiança, como foram ensinados, para que transbordem em ações de graças. Cuidem para que ninguém os cative por meio de filosofias e enganos vãos, seguindo tradições humanas que concordam com os espíritos elementares do mundo, mas não concordam com o Messias. Porque nele habita, corporalmente, a plenitude do que Deus é. E, por sua união com ele, vocês foram plenificados — ele é o cabeça de todo governo e autoridade. Colossenses 2:1-10

A palavra grega traduzida para plenitude é pleroma (πλήρωμα), que significa "plenitude", "totalidade", "aquilo que enche".

4. O que significava "pleroma" no século I?

Muitos leitores começam ler em Colossenses 2:9, mas Paulo começou o argumento muito antes. O texto não pode ser analisado fora de seu contexto. A preocupação da carta não é provar que Yeshua é Deus, porque essa nunca foi a visão dos talmidim. A preocupação é combater um ensino que diminuía sua posição, conforme vimos acima.

Parece que alguns grupos ensinavam que o homem precisava subir uma espécie de escada espiritual através de seres intermediários. Paulo responde: Vocês já possuem tudo no Messias. E por quê? Porque ele era D’us? Não, porque o ensino que ele deixou acerca da Palavra do Eterno, a Torá, era suficiente. Por isso Shaul diz que o mashiach é suficiente. Por isso ele usa repetidamente a palavra pleroma (plenitude).

Hoje muitos pensam que "plenitude da divindade" significa: "100% D’us." ou “uma emanação”. Mas essa não era necessariamente a maneira hebraica de pensar. No Tanakh encontramos a ideia de plenitude relacionada à presença divina. Veja os seguintes textos:

- Em Yeshayahu 6:3: Toda a terra está cheia da sua glória.

A terra não se torna D’u, mas é preenchida pela manifestação divina.

- Em Êxodo 40:34: A glória do Senhor encheu o tabernáculo.

A plenitude divina habita no tabernáculo, mas ninguém conclui que o tabernáculo seja D’us.

- Em 1 Reis 8:10-11: A glória do Senhor encheu a casa.

Novamente, presença plena, não identidade ontológica.

Portanto, para um judeu do século I, "plenitude" normalmente evocava a ideia de habitação da presença divina. No judaísmo do período do Segundo Templo, "plenitude" frequentemente se referia à presença, sabedoria, glória ou manifestação de D’us.

Por exemplo:

  • A glória de D’us enchia o Tabernáculo (Êxodo 40:34).

    A glória de D’us enchia o Templo (1 Reis 8:10-11).

    A Sabedoria divina era descrita como habitando entre os homens (Eclesiástico 24).

Em nenhum desses casos a presença divina transformava o objeto ou local em D’us.

O pensamento hebraico distingue entre:

  • - Deus (HaShem)

    - Sua glória (Kavod)

    - Sua presença (Shechiná)

    -Sua palavra (Davar)

    - Sua sabedoria (Chochmá)

Todas são manifestações reais do Eterno sem que deixem de existir distinções entre o Criador e sua criação.

5. O verbo "habitar"

O apóstolo Paulo escreve: “Nele habita corporalmente.” O verbo grego é: κατοικέω (katoikeō), que significa residir permanentemente, estabelecer morada ou fixar habitação.

Este verbo aparece frequentemente na Septuaginta para falar da habitação da presença divina. Isso aproxima muito o texto da linguagem da época do Templo. Em outras palavras: “Yeshua está sendo apresentado como o lugar definitivo da habitação de D’us.” Essa ideia aparece também em Yochanan/João.

João 1:14 diz: O Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós. O verbo usado lembra diretamente o Mishkan, e a idéia aqui é impressionante, pois o que antes acontecia no Tabernáculo agora acontece em uma pessoa. O Templo não virava o próprio Eterno, mas ele comportava a presença. Assim, o Templo não desaparece da teologia apostólica. Ele é reinterpretado à luz do Messias. Por isso Yeshua diz: Destruí este templo e em três dias o levantarei. Yochanan explica que o mestre falava de seu corpo.

Novamente, a plenitude de D’us está presente no Messias e transborda para os discípulos.

6. O conceito judaico da Shechiná

Embora a palavra Shechiná não apareça no Tanakh, por tratar-se de um termo rabínico cunhado na tradição judaica posterior, durante o período do Talmude e dos Targuns, ela se tornou comum no judaísmo para descrever a presença manifesta de D’us.

Os sábios falavam da Shechiná no Tabernáculo, no Templo, entre os justos e em Yisrael. A Shechiná não era outro deus, nem era uma pessoa separada, era a manifestação da presença divina.

Quando Paulo diz que toda a plenitude habita em Yeshua corporalmente, um judeu poderia muito bem entender que toda a Shechiná de D’us está presente nele. E isso não significa que ele era o Eterno ou uma emanação do Eterno, mas que o Eterno estava nele.

7. O contexto da Sabedoria (Chochmá)

Existe algo ainda mais interessante que muitos interpretam errado. Durante o período do Segundo Templo, muitos judeus falavam da Sabedoria divina quase como uma personagem. Por exemplo: Em Provérbios 8. Sabedoria de Salomão.

Também Eclesiastes 24, a Sabedoria estava com D’us, participava da criação, habitava entre os homens, mas continuava sendo uma expressão do próprio D’us. Não era um segundo deus ou uma emanação. Era na verdade uma representação.

Muitos estudiosos entendem que Paulo utiliza essa tradição para falar do Messias. Por isso Colossenses 1 afirma: Tudo foi criado por meio dele. A linguagem lembra muito a Sabedoria personificada, mas não significa que Yeshua estava criando o universo ou existisse antes de nascer.

8. O significado de "theotēs"

Ainda nesse mesmo verso, encontramos um detalhe técnico importante, pois em Colossenses 2:9 aparece também o termo θεότης (theotēs), geralmente traduzido por divindade ou natureza divina. Mas existe outra palavra grega semelhante, o termo θειότης (theiotēs), e em Romanos 1:20 encontramos esta segunda palavra. Paulo escolheu propositalmente theotēs em Colossenses. Isso mostra que ele deseja enfatizar algo extremamente forte. Mas ainda resta a pergunta: O que significa possuir plenamente a divindade? A resposta não é automaticamente: Ser o próprio D’us, pois no pensamento judaico, alguém pode ser investido da autoridade, glória e presença divina sem ser o próprio Eterno.

E aqui entramos numa das chaves mais importantes para a compreensão do contexto. No judaísmo existe o conceito de: Shaliach (שליח), que significa o enviado. Veja, os rabinos ensinavam que o enviado de uma pessoa é como a própria pessoa. O emissário falava em nome de quem o enviou, agia com sua autoridade e representava sua vontade. Isso ajuda a compreender muitas falas de Yeshua como por exemplo: “...Quem me vê, vê o Pai...”, “...Quem me recebe, recebe aquele que me enviou…”. No pensamento judaico, representação perfeita não significa identidade absoluta.

Há outro paralelo frequentemente ignorado, em Shemot/Êxodo 7:1 O Eterno diz a Moshê:

Eu te constituí como Elohim para Faraó. Moshê virou D’us? Claro que não. Ele recebeu autoridade divina para representar o Eterno. Agora imagine isso levado ao nível máximo. O Messias seria o representante supremo de D’us, a imagem perfeita, o reflexo sem distorção. Enfim, o portador pleno da presença divina, não o Eterno.

9. O que Paulo provavelmente quer afirmar?

Dessa forma, juntando todo o contexto que podemos refletir aqui: Templo, Shechiná, Sabedoria, Shaliach e Autoridade messiânica. Rav Shaul parece estar dizendo: Tudo aquilo que D’us é em sua presença, glória, autoridade, sabedoria e propósito habita plenamente no Messias. Por isso não há necessidade de buscar anjos, mediadores adicionais, poderes cósmicos ou experiências místicas paralelas, pois tudo está concentrado nele, ou melhor, nos ensinos dele.

Vale à pena ainda mencionar um paralelo interessante. Em Números 25, Pinchás age com o zelo do próprio Eterno. O texto chega a dizer: Ele teve o meu zelo. Pinchás não se torna o Eterno, mas manifesta perfeitamente a vontade divina naquele momento. Como um representante não uma emanação. Por isso recebe a aliança de paz. Por isso, da mesma forma, o Messias representa a expressão máxima da vontade divina. A diferença é que Pinchás manifesta parcialmente o caráter de D’us em um episódio específico. E Yeshua manifesta plenamente o caráter de D’us durante toda sua vida de justiça. Por isso, Rav Shaul pode dizer que toda a plenitude habita nele.

Portanto, quando Colossenses 2:9 é lido dentro do universo judaico do século I, a primeira imagem que surge não é a de uma discussão filosófica sobre essência ou natureza divina, mas a do Templo, da Shechiná, da Sabedoria de D’us e do enviado perfeito do Eterno. O texto certamente exalta Yeshua a um nível extraordinário, mas não o divinisa ou afirma que ele é o Eterno. O que é inegável é que Paulo apresenta Yeshua como aquele em quem D’us habita de forma única e plena, cumprindo e superando tudo aquilo que o Mishkan, o Templo, Moshé, a Sabedoria e até Pinchás haviam apenas prefigurado. Essa leitura se harmoniza profundamente com o ambiente judaico do primeiro século e com os padrões de pensamento encontrados no Tanakh e na literatura judaica do Segundo Templo.



Por: Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A INCIRCUNCISÃO DOS GÁLATAS II - Um Estudo Aprofundado no Contexto Original

 


A INCIRCUNCISÃO DOS GÁLATAS II

Um Estudo Aprofundado no Contexto Original


Introdução: O Problema de Ler Paulo sem Ler Moshê

Há um erro interpretativo gravíssimo que permeia séculos de teologia cristã ocidental: ler as cartas de Paulo como se ele fosse um teólogo grego escrevendo para uma audiência europeia do século XXI.

Paulo era um Talmid Chacham — um discípulo de sábio — formado aos pés de Rabban Gamliel II, um dos maiores mestres da época do Segundo Templo. Sua linguagem era semítica, seus argumentos eram midráshicos, e seu universo mental era completamente saturado pela Torah, pelos Profetas e pelos Escritos — o TaNaK.

Quando ele escreve para os Gálatas, ele não está inaugurando uma nova religião. Ele está defendendo uma ordem de entrada no Povo da Aliança.

Sendo assim, para que se possa entender claramente o texto em estudo, deve seguir alguns passos que sempre trago à tona:

Existe uma forma de interpretar os textos de Paulo. Principalmente usando-se o PaRDeS e as formas de interpretação judaica.

Então, vamos seguir esses métodos que o povo do Eterno usam há muito tempo.

Existem 3 pontos importantes para analisar um escrito de Paulo, assim em primeiro lugar vamos ver esses três pontos para compreendermos melhor o texto.

Primeiro Ponto - Quem é o destinatário da Carta;

Segundo Ponto - Qual era o motivo do envio da carta ou do texto; e

Terceiro Ponto - Qual era o contexto histórico que envolvia a situação.

Repare também que nas suas cartas o Rabino Sha'ul (apóstolo Paulo) usa alguns pronomes para identificar com quem ele está falando. Assim, quando ele usa os pronomes "nós, nosso ou nossos", está falando dele e dos judeus. E quando usa "você, vocês, vosso ou vossos", está falando dos ex-gentios que agora fazem parte do povo do Eterno.

Entendendo esses pontos ficará mais fácil compreender o que realmente Shaul estava ensinando em seu texto.

I. O QUE É A BRIT MILAH — O SELO DO ETERNO

Para entender Gálatas 5:2, é preciso voltar ao começo. A Brit Milah, a Aliança da Circuncisão, não é um ritual de higiene nem uma tradição cultural. É um Selo da Aliança.

"Este é o meu pacto que guardareis entre mim e vós, e a tua semente depois de ti: Que todo homem entre vós será circuncidado." Bereshit (Gênesis) 17:10

O próprio nome muda nesse momento. Avram torna-se Avraham. A letra Hei — ה — a letra do nome do Eterno é inserida no nome do Patriarca. A circuncisão não é apenas física. Ela é uma declaração ontológica: "Eu pertenço ao Eterno, corpo e alma, e assumo a responsabilidade integral de toda a Aliança."

E o D'us de Avraham é muito claro quanto às consequências observe o texto:

"O homem incircunciso, que não for circuncidado na carne do seu prepúcio, essa alma será extirpada do seu povo; quebrou o meu pacto." Bereshit 17:14

Isso não é uma ameaça vazia. É a seriedade de um pacto de sangue. E pactos de sangue no mundo semítico antigo eram os vínculos mais solenes que existiam. Quebrar um pacto de sangue era equivalente a uma morte.

II. O GENTIO E A OLIVEIRA CULTIVADA — O ENXERTO DE ROMANOS 11

Paulo usa em Romanos 11 uma das imagens mais poderosas e tecnicamente precisas de toda a literatura epistolar:

"Pois se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeiro, foste enxertado no lugar deles, e feito participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos." Romanos 11:17-18

Essa imagem é horticulturalmente precisa e teologicamente devastadora. A oliveira cultivada (kallielaios) é Yisrael, o povo da Aliança, enraizado na promessa de Avraham, Yitzchak e Yaakov. A oliveira silvestre (agrielaios) é o Gentio que por natureza dá fruto amargo e escasso.

O processo de enxertia não é instantâneo. O agrônomo insere o enxerto com cuidado, e há um período de pega, um tempo em que o ramo novo precisa se integrar ao sistema vascular da árvore cultivada antes de poder dar fruto. Forçar o ramo antes do tempo mata o enxerto. Com o ser humano em relação ao Eterno não é diferente. Essa é exatamente a imagem da Teshuvah do Gentio.

O Gentio que se achega à Aliança através do sangue de Yeshua está sendo enxertado. Ele precisa de tempo para que a seiva da oliveira cultivada, a Torah, os mandamentos, a vida de Yisrael, circule por ele de forma orgânica.

III. A CIRCUNCISÃO DO CORAÇÃO — O QUE OS PROFETAS JÁ DIZIAM

Aqui está algo que surpreende muitos: a crítica à circuncisão meramente física ou legalista não começa com Paulo. Ela está no TaNaK.

O profeta Yirmiyahu (Jeremias) já havia declarado:

"Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Yehudah e moradores de Yerushalayim." Yirmiyahu (Jeremias) 4:4

E Moshê mesmo, em Devarim (Deuteronômio), profetizou:

"E o Eterno teu D'us circuncidará o teu coração e o coração de tua semente, para amares o Eterno teu D'us com todo o teu coração e com toda a tua alma." Devarim (Deuteronômio) 30:6

Os Profetas e a própria Torah já ensinavam que a circuncisão física sem a correspondente transformação interior era vazia. O Povo já havia sido repreendido por ser "incircunciso de coração", fisicamente selado mas espiritualmente rebelde.

O que Yeshua e Paulo fazem não é abolir esse ensino. Eles o completam e expandem para incluir os Gentios dentro dessa mesma lógica, desde que a kavanah seja verdadeira.

IV. YESHUA E O PROCESSO GRADUAL — A PEDAGÓGICA DO REINO

O próprio Yeshua ensina em parábolas a lógica do processo gradual:

"O Reino dos Céus é semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é menor que todas as sementes, mas, quando crescido, é maior do que as hortaliças." Mattityahu (Mateus) 13:31-32

Nenhum agricultor semeia hoje e colhe amanhã. Há um kairos, um tempo próprio, para cada coisa. A semente precisa morrer na terra, germinar no escuro, brotar, crescer, florescer e então frutificar.

A Teshuvah do Gentio segue essa mesma pedagogia. Yeshua também ensina:

"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um iota ou um til se omitirá da lei." Mattityahu 5:17-18

A palavra grega aqui é plēroō — completar, preencher até a borda. Não destruir. Não substituir. Completar.

E o que Yeshua completa? Ele completa justamente essa lacuna que a Torah apontava mas não resolvia: como os Gentios, que não receberam a Aliança do Sinai, podem ser incorporados ao Povo do Eterno? A resposta é o seu próprio sangue, isto é, sua vida justa, seus ensinos e exeplos, como kaporet tampa de expiação, que purifica o Gentio que se arrepende e permite sua entrada gradual na Aliança.

V. AS "OBRAS DA LEI" — O ERRO GÁLATA QUE AINDA PERSISTE

Um dos equívocos mais devastadores da teologia cristã foi traduzir a expressão paulina "erga nomou" em grego ou “maasei hatorá” — obras da lei — como se fosse sinônimo de "Torah" ou "mandamentos de D'us".

Mas podemos observar que Paulo usa essa expressão no contexto específico dos marcadores de identidade que os judeus do Segundo Templo usavam para se separar dos Gentios: circuncisão prematura, leis de pureza alimentar nas refeições comuns (kashrut como barreira social), e observância do Shabat como exclusividade étnica.

Os "Judeus Legalistas" que Paulo confronta em Gálatas não estavam simplesmente ensinando a Torah. Eles estavam usando a circuncisão como portão de entrada étnico, faziam mais questão das tradições dos anciãos do que da própria Torá, dizendo essencialmente:

"Você só pode pertencer ao Povo de D'us se primeiro se tornar etnicamente judeu."

Isso é uma distorção da Aliança, não uma defesa dela.

O próprio TaNaK já contempla a entrada do Gentio sem a exigência prévia da circuncisão:

"E os filhos dos estrangeiros que se chegarem ao Eterno para o servir, e para amar o nome do Eterno, para serem seus servos... eu os levarei ao meu santo monte." Yeshayahu (Isaías) 56:6-7

O profeta Yeshayahu não exige circuncisão como condição prévia. Exige amor ao Nome do Eterno e serviço.

VI. O CONCÍLIO DE JERUSALÉM E A SABEDORIA APOSTÓLICA

Em Atos 15, os Apóstolos enfrentam exatamente essa crise em Antioquia. E a decisão do Concílio é reveladora:

"Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais nenhum encargo além destas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, e do sangue, e do sufocado, e da fornicação." Atos 15:28-29

Esses quatro requisitos não são arbitrários. São as "Leis de Noach", os mandamentos que, segundo a tradição rabínica, se aplicam a toda a humanidade antes mesmo do Sinai.

A sabedoria apostólica aqui é profunda: comecem pelo fundamento universal, e a Torah ensinará o resto ao longo do tempo, conforme forem estudando e praticando.

Tiago mesmo completa:

"Pois Moshê, desde as gerações antigas, tem em cada cidade os que o pregam nas sinagogas, onde é lido em cada Shabat." Atos 15:21

Em outras palavras: "Não precisamos colocar tudo sobre eles de uma vez. Eles ouvirão a Torah toda semana. O processo acontecerá naturalmente."

VII. PAULO E A TORAH — O TESTEMUNHO IRREFUTÁVEL

O argumento definitivo contra a interpretação anti-Torah de Paulo está em suas próprias palavras diante do Sinédrio:

"Mas confesso-te isto: que segundo o Caminho, a que chamam seita, assim sirvo ao D'us de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas." Atos 24:14

Paulo chama a confiança no testemunho e ensino de Yeshua de HaDerech, O Caminho, um termo interno judaico, não uma religião nova. E declara publicamente que crê em tudo que está escrito na Torah e nos Profetas.

Mas observe um detalhe, se Rav Shaul realmente ensinasse a abolição da Torah, o Sinédrio não precisaria de testemunhas falsas para condená-lo. Bastaria citar seus próprios escritos e falas. O fato de que precisaram de acusações fabricadas é o maior testemunho de que Paulo vivia e ensinava dentro dos limites da fé judaica messiânica.

VIII. SÍNTESE — O MAPA DO PROCESSO

GENTIO EM TESHUVAH

↓

Purificação pela vida justa de Yeshua (Circuncisão do coração)

↓

Período de Tutela — Aprendizado da Torah

(sob as 4 leis noahidas + instrução semanal)

↓

Crescimento orgânico na vida da Aliança

↓

Brit Milah — O Selo Físico

(quando há maturidade, responsabilidade e consciência plena)

↓

Incorporação plena ao Povo de Yisrael

Conclusão: Uma Palavra ao Coração

O Eterno nunca foi um D'us de exclusão étnica. Desde Bereshit, o plano sempre foi abençoar todas as famílias da terra através da semente de Avraham.

O sangue de Yeshua não aboliu a Aliança, ele abriu as portas para que as pessoas das nações pudessem entrar na casa que Avraham construiu. Mas entrar na casa não significa derrubá-la. Significa aprender a viver nela, respeitar sua estrutura, e gradualmente, com amor e reverência, tornar-se parte da família.

A circuncisão prematura forçada pelos legalistas gálatas era o equivalente a entregar as chaves de um templo sagrado a alguém que ainda não conhecia nem o nome do D'us a quem ele pertence.

Paulo não estava dizendo: "A circuncisão não tem valor."

Paulo estava dizendo: "Há um tempo certo para tudo, e forçar o processo mata o processo."



"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Yochanan (João) 8:32

שָׁלוֹם עֲלֵיכֶם — Shalom Aleichem Que a paz do Eterno repouse sobre toda a casa de Yisrael e sobre todos os que se achegam à Aliança.



Moshê Ben Yosef

domingo, 18 de abril de 2021

Entenda os Textos de Paulo – Parte 5 - Os ex-gentios se tornaram filhos de D’us.

 




Este estudo pretende falar sobre a adoção de filhos que os ex-gentios receberam a qual o Rav Sha’ul (apóstolo Paulo) diz que, aquele que se volta para o Eterno (Santo Bendito seja ele) recebe por meio da fidelidade que vem da confiança no Messias Yeshua, registrado em Gálatas 4. A maioria dos teólogos cristãos entendem que Sha’ul ensinou contra a Torá do Eterno, Santo Bendito seja ele. Mas será que ele realmente pregava e ensinava contra a Torá que HaShem havia dado ao seu povo?


Para termos uma perfeita compreensão das cartas Paulo, devemos aprender principalmente a usar o PaRDeS, que é a hermenêutica judaica, pois Paulo se utiliza muito dessa técnica, além disso devemos nos lembrar que precisamos analisar três pontos:


- Primeiro - Com quem Paulo estava falando ou qual é o destinatário;

- Segundo - Qual era o motivo da carta ou qual era a situação vivida pelo destinatário; e

- Terceiro - Qual era o contexto histórico vivido pela congregação e pelo destinatário.


É importante lembrar também que o apóstolo Paulo usava alguns pronomes para identificar com quem ele está falando. Assim, quando ele usa os pronomes "nós, nosso ou nossos", está falando dele e dos judeus. E quando usa "você, vocês, vosso ou vossos", está falando dos ex-gentios que agora fazem parte do povo do Eterno.


Então vamos ao Primeiro Ponto – Com quem Paulo estava falando ou qual é o destinatário. Talvez você ache estranho começarmos por esse ponto, afinal o nome da carta já define o destinatário. Porém, quem realmente eram os gálatas? Eles eram judeus ou gentios?


Conforme mencionei no estudo anterior, olhando para o texto introdutório da carta, no capítulo 1, poderemos facilmente distinguir o destinatário real.


Como disse, note que na introdução dessa carta, o apóstolo ou emissário, fala de seu chamado e que o Evangelho ou boas novas que anunciou era verdadeiro. Ele falava de acordo com a Torá e os profetas. E que algumas pessoas estavam trazendo um falso evangelho, falamos sobre isso nos estudos anteriores, se não os leu procure-os. Agora, repare de quem e para quem o apóstolo fala. Esta parte ainda é do estudo anterior, para que possamos cumprir os pontos de observação, e então chegarmos ao entendimento do texto em estudo no Capítulo 4 de Gálatas.


Primeiro ele diz que a carta era para as comunidades messiânicas da Galácia. E devemos ter o entendimento que não era uma igreja (prédio) na cidade, como muitos pensam, mas comunidades que se reuniam em vários lugares na cidade, de acordo com o que podemos ler em Rm 16. Eram famílias, irmãos e amigos que se reuniam em casas e que se revesavam nos ensinos e instruções da Torá, que o apóstolo havia lhes deixado. Agora repare também nos pronomes utilizados por ele. Note que no verso 3 ele diz: “Graça e shalom a vocês de D’us, nosso Pai, e do Senhor Yeshua, o Messias,…”, vejam que faz distinção de vocês e nosso. Isso é porque ele está desejando que a graça e a shalom (paz) fossem com esses crentes ex-gentios da Galácia, da parte de D’us que como ele disse, nosso Pai. O Eterno é o Pai do povo de Israel, de acordo com Ex 4:23:


“e eu já lhe disse que deixe o meu filho ir para prestar-me culto. Mas você não quis deixá-lo ir; por isso matarei o seu primeiro filho!”


Também podemos ver que ele fala do povo de Israel quando diz: “...se entregou a si mesmo por nossos pecados, a fim de nos libertar do presente sistema mundial maligno, em obediência à vontade de D’us, nosso Pai…” Pois aqueles que estão vivendo sob ou debaixo da lei são o povo do Eterno, e como pecado é transgressão da Lei, só pode transgredir quem vive sob a Lei, tentando acertar. Os gentios que não tinham D’us, não tinham a Torá, e nem a promessa do messias, não viviam sob a Lei. Eles são iníquos ou anomos, sem Lei. Por isso podemos entender que Paulo se refere a si e a seu povo.


Mas repare que o destino e objetivo da carta é esse: “A realidade é que certas pessoas estão aborrecendo vocês…” Algumas pessoas estavam vindo a estes ex-gentios, com um ensinamento diferente do que eles tinham aprendido com o apóstolo. Veja, aborrecendo vocês, o pronome mostra. O ensino que estava chegando e aborrecendo, era repleto de legalismos e distantes da verdadeira Torá ensinada por Paulo. Por isso ele chama esses ensinos de falso evangelho ou boas novas que não são boas novas. E quando continuamos a ler os versos seguintes desse primeiro capítulo temos certeza que Paulo está falando a ex-gentios, e que seu evangelho é destinado a gentios ou remanescentes israelitas espalhados entre as nações.


Entendemos então o primeiro ponto, que era a quem a carta é destinada, e também entendemos o segundo ponto, que é: qual era o motivo da carta ou qual era a situação vivida pelo destinatário. Quando dissemos que Paulo estava combatendo um falso ensino que estava adentrando as comunidades naquela cidade.


Agora vamos entrar no contexto do capítulo 4 e buscar o entendimento do que Paulo queria ainda ensinar às comunidades da galácia.


Digo porém que, enquanto o herdeiro é menor de idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono de tudo. No entanto, ele está sujeito a guardiães e administradores até o tempo determinado por seu pai. Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo. Mas, quando chegou a plenitude do tempo, D’us enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai".

Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, D’us também o tornou herdeiro. Antes, quando vocês não conheciam a D’us, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. Mas agora, conhecendo a D’us, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?

Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos!

Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis. Eu lhes suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês. Em nada vocês me ofenderam; como sabem, foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez. Embora a minha doença lhes tenha sido uma provação, vocês não me trataram com desprezo ou desdém; pelo contrário, receberam-me como se eu fosse um anjo de D’us, como o próprio Messias Yeshua. Que aconteceu com a alegria de vocês? Tenho certeza que, se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para dá-los a mim. Tornei-me inimigo de vocês por lhes dizer a verdade? Os que fazem tanto esforço para agradá-los, não agem bem, mas querem isolá-los a fim de que vocês também mostrem zelo por eles. É bom sempre ser zeloso pelo bem, e não apenas quando estou presente.

Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que o Messias seja formado em vocês. Eu gostaria de estar com vocês agora e mudar o meu tom de voz, pois estou perplexo quanto a vocês.

Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da observância legalista Torá: Acaso vocês não ouvem a Torá? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. O filho da escrava nasceu de modo natural, mas o filho da livre nasceu mediante promessa. Isso é usado aqui como uma ilustração; estas mulheres representam duas alianças. Uma aliança procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão: esta é Hagar. Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está escravizada com os seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre, e essa é a nossa mãe. Pois está escrito: "Regozije-se, ó estéril, você que nunca teve um filho; grite de alegria, você que nunca esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido".

Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque. Naquele tempo, o filho nascido de modo natural perseguia o filho nascido segundo o Espírito. O mesmo acontece agora. Mas o que diz a Escritura? "Mande embora a escrava e o seu filho, porque o filho da escrava jamais será herdeiro com o filho da livre". Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre.

Gálatas 4:1-31


Agora que já entendemos um pouco do contexto, e já lemos o capítulo 4, vamos procurar entender este ensino de Rav Shaul (Paulo) aquela comunidade, o que ele queria dizer nessa parte da carta, que infelizmente, é muito mal compreendida nos meios teológicos, e acreditem quando falo isso, pois sou formado naquela teologia. E agradeço ao Eterno por ter me aberto os olhos para a verdade do contexto original.

Para buscarmos mais compreensão ainda, voltemos alguns versos no capítulo anterior ao que lemos, vamos ao capítulo 3 verso 26 em diante:



Todos vocês são filhos de D’us mediante a fé no Messias Yeshua, pois os que no Messias foram batizados, no Messias se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um no Messias Yeshua. E, se vocês são do Messias, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Gálatas 3:26-29


Veja que o apóstolo está falando que os ex-gentios, repare no pronome “vocês”, tornaram-se filhos de D’us no Messias Yeshua, por causa da confiança ou fé que depositaram na vida justa dele. E diz mais, diz ainda que os que foram batizados ou imergidos, mergulhados no Messias, também nele foram revestidos, ou seja passaram a fazer parte do povo do Eterno como filhos adotivos. Na casa desse Pai celestial, a quem faz parte desse reino, não há distinção de nacionalidade, condição social, sexo, quanto a ser homem ou mulher, por que todos são um povo no Messias. Agora, de acordo com Gl 3:29, os ex-gentios haviam se tornado descendência de Avraham e herdeiros segundo a promessa, assim como os filhos de Israel o são.


Veja como Paulo fala isso também aos Efésios:


E, vindo, ele evangelizou a paz a vós que estáveis longe e aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Yeshua o Messias é a principal pedra da esquina; Ef 2:17-20


Sendo assim, continuemos e vejamos o versos 1 e 2 do capítulo 4 dessa carta aos irmãos da comunidade da galácia. O apóstolo dá prosseguimento ao seu ensino fazendo uma alusão à situação de um herdeiro como exemplo, para deixar seu ensino claro, veja:


Digo porém que, enquanto o herdeiro é menor de idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono de tudo. No entanto, ele está sujeito a guardiães e administradores até o tempo determinado por seu pai. Gl 4:1


Reparem que coisa linda a comparação que Paulo faz, mostrando que o herdeiro quando é menor de idade, ou seja, quando ainda não tem condições de receber a herança, é como um servo, precisando de tutores, guardiões e administradores até que chegue o tempo correto de estar preparado para receber a herança. Ele estava dizendo que os que são feitos filhos de D’us, precisam do Messias, o guardião ou administrador, que o ensinará tudo o que ele precisa saber até que chegue o tempo do recebimento da herança, que é o Olam Habá. Maravilha é poder ter o entendimento dos mistérios do Eterno (Hakadosh Baruch hu).


No verso 3, Paulo fala que antes de se aproximarem do Eterno por meio de Yeshua, eles serviam aos espíritos elementares. Veja: Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo. E aqui muitos seguidores dos dogmas da teologia religiosa, não entendem o que o Rav Shaul está falando. Ele está dizendo que antes, eles seguiam aos elementos da natureza, fogo, água, ar e terra, muitos deles adoravam a esses elementos.


Porém reparem no verso 4: Mas, quando chegou a plenitude do tempo, D’us enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. Quem estava sob a Lei, ou seja, a Torá? Os gentios não, pois eles não tinham a torá, mas os filhos de Israel, sim. E Paulo está confirmando que o Filho de D’us foi enviado para os filhos de Israel para que recebesse a adoção de filhos, que já havia sido dita desde a muito tempo.


Assim, ele continua nos versos 5 a 7.

a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai".

Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, D’us também o tornou herdeiro.


Notem que Paulo está confirmando de forma mais explicada o que tinha afirmado antes, que agora os ex-gentios também faziam parte da família de D’us, havia sido enviado o ruach (espírito, mover) de seu filho aos corações deles, e esse ruach clama dentro deles “aba”, que quer dizer Pai.


Então podemos fazer uma pergunta: O que é o ruach do Filho de D’us?


Considerando que ruach, dependendo do contexto pode ser mover, poder, sopro, vento, hálito. Nesse contexto, ruach significa mover. Então, o ruach do Filho de D’us é o mover do Filho de D’us. É o mover da forma de vida obediente de Yeshua na vida daqueles que se convertem ao Eterno pelos méritos da vida justa do Messias, e esse mover clama dentro dessas pessoas “Aba”, confirmando para elas que são filhos de D’us. Você que entra na teshuvah crendo nos méritos de Yeshua como nosso guardião e Messias, e vive obedecendo aos mandamentos, deve sentir que é filho do Eterno. E aí, você sente isso?


Nos versos 8 a 11 encontramos mais algumas preciosas confirmações, e infelizmente no verso 11, muitos tem um entendimento errado, que esclareceremos agora.


Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, D’us também o tornou herdeiro. Antes, quando vocês não conheciam a D’us, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. Mas agora, conhecendo a D’us, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Gl 4:8-11


Paulo confirma mais uma vez a adoção de filhos dos ex-gentios. Notem o pronome que ele usa, e que nos indica que está falando com os ex-gentios. Eles não conheciam a D’us antes, eram escravos por natureza, mas agora conhecendo ao Eterno, e o melhor de tudo, sendo conhecido por Ele. Melhor que conhecer a D’us é ser conhecido por Ele. É fazer parte da família do Eterno.


Nesses versos, Paulo ainda pergunta se os Gálatas desejariam voltar a ser escravos do pecado, das divindades elementares que mencionamos antes, pois se obedecessem aos legalistas e cumprissem os dogmas, seria como se realmente estivessem voltando à escravidão. E Paulo diz que eles estavam observando dias especiais, meses, e anos. E muitos entendem que aqui Paulo estava falando das festas ordenadas por D’us na Torá. Contudo, se Paulo não prega contra a Torá, conforme já comprovamos antes, e o contexto desse capítulo e dessa carta é mostrar que os ex-gentios receberam o verdadeiro evangelho, e foram feitos filhos de D’us pelo Messias e obedeciam a Torá, e além disso pelo que o apóstolo estava falando sobre os Gálatas voltarem a ser escravos, então as festas e ocasiões a que ele se refere no verso 11, são eventos pagãos. É muito simples não acha?!


Nos versos 12 até o 19 o apostolo Paulo mostra sua indignação contra os irmãos daquela comunidade, por estarem dando ouvidos aos judeus legalistas. Mas ele exalta a fidelidade inicial e a alegria dos Gálatas.


E no verso 20, repare algo bem interessante!

Sempre vemos teólogos e pegadores dizerem que os servos de D’us devem ser somente mansos, não podem fazer julgamentos, etc. Mas notem o que o apóstolo fala nesse verso.


Eu gostaria de estar com vocês agora e mudar o meu tom de voz, pois estou perplexo quanto a vocês. Gl 4;20


Ele queria mudar o tom de voz! Podemos entender pelo que ele está dizendo, que se ele estivesse frente a frente com os Gálatas, ele elevaria o tom de voz e seria duro com aqueles irmãos. E isso contraria o que muitos pensam por aí, que não se pode ser duro as vezes. Amar o próximo não significa de maneira alguma ser sempre complacente com erros e constantes deslizes.


Dos versos 22 ao 31 Paulo inicia um midrash muito interessante a respeito de filhos, fazendo comparações proféticas entre os judeus que não seguem a Yeshua e os ex-gentios que seguem com o Ismael e Isaque.


Vejamos então esse midrash.


Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da observância legalista Torá: Acaso vocês não ouvem a Torá? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Gl 4:21-22


Ele começa relembrando que a Torá declara que Avraham teve dois filhos. Um era da escrava e outro da livre. Mas prestem atenção, pois no midrash que ele está fazendo o que parece ser não é.


Veja nos versos seguintes, 23 e 24:

O filho da escrava nasceu de modo natural, mas o filho da livre nasceu mediante promessa. Isso é usado aqui como uma ilustração; estas mulheres representam duas alianças.


Notem essa comparação, onde ele diz que Hagar e Sara representam duas alianças. Mas apesar do que se possa entender, ele faz uma comparação diferente do que é a realidade. Uma aliança era a aliança do Sinai, que aqui ele faz a comparação da escravidão, não pelo fato da Lei ter sido entregue ali, mas pelo fato haver observância legalista, de ações meramentes humanas, assim como foi o ato de concepção de Ismael. Utilizou uma escrava para tentar alcançar a promessa do Eterno.


Enquanto a comparação com Sara é feita através do fato de ela era livre, e recebeu a concepção de Isaque no período determinado pelo Eterno, através do milagre, pois ela de forma natural não poderia mais, por ser idosa. E dessa forma, essa aliança era perfeita, e representa os que se achegam ao Eterno através do Messias, sendo eles judeus ou ex-gentios.


Vejam os versos 24 a 26:

Uma aliança procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão: esta é Hagar. Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está escravizada com os seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre, e essa é a nossa mãe.


Notem as comparações conforme mencionei acima. Quando ele fala que a Hagar do Sinai representa a atual Jerusalém, na época a elite religiosa de Jerusalém estava corrompida e cheia de dogmas com suas chalachots (leis de cercas), por isso a comparação. Já Sara, representa a Jerusalém celestial, pois é pura e não corrompida, pois segue a Torá livremente e sem dogmas.


E no verso 27:

Pois está escrito no TaNak: "Regozije-se, ó estéril, você que nunca teve um filho; grite de alegria, você que nunca esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido".


Paulo faz em seu midrash uma citação de Yeshayahu/Isaías 54:1. Apontando assim que os Ex-gentios e os judeus que seguiam os passos de Yeshua eram como Isaque, os filhos da promessa.


Nos versos 28 a 31 ele explica essa comparação, tornando claro o entendimento. Ele faz uma citação de Bereshit/Gênesis 21:10:


Livre-se da escrava e de seu filho, porque de forma alguma o filho da escrava herdará com o filho da mulher livre.


Note que com o midrash e com a referência Paulo sugere que aqueles crentes, ex-gentios se livrassem da escrava e de seu filho, ou seja, daqueles legalistas.


Isso porquê, ele conclui, são filhos da livre e não da escrava. Apontando para o fato de que os filhos de D’us, são os que vivem de acordo com a Torá que o Messias ensinou, são filhos da livre, da Jerusalém celestial. Fazem parte do reino verdadeiramente os que não se deixam dominar pelo legalismo. Esse foi o ensino de Paulo.


Por isso no capítulo que se segue, o capítulo 5, ele fala da verdadeira liberdade, conforme vimos no estudo anterior.


Que o Eterno nos abençoe!