Estudos da Torá
Parashá nº 45 – Vaetchanan (Supliquei)
Devarim/Deuteronômio 3:23-7:11
Haftará (separação) Is 40:1-26.
Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 4:1-11; At 13:13-43.
As Dez Palavras: Os Alicerces da Aliança
Poucos textos das Escrituras são tão conhecidos quanto os chamados Dez Mandamentos. Eles estão gravados na memória de milhões de pessoas e são frequentemente apresentados como um conjunto de dez regras fundamentais para uma vida moral. No entanto, essa compreensão, embora importante, está longe de revelar toda a profundidade do que o Eterno entregou no Horev.
As Escrituras não os chamam de "dez mandamentos", mas de Aseret HaDibrot — As Dez Palavras, mas como elas se relacionam com os 613 mandamentos? Elas são mais importantes? Os demais mandamentos são apenas detalhes? E como compreender a afirmação de Yeshua de que toda a Torá repousa sobre dois grandes mandamentos: amar o Eterno e amar o próximo?
Neste estudo, veremos que a Torá possui uma extraordinária unidade. Assim como uma construção sólida começa com fundamentos invisíveis, passa pelos alicerces e se eleva por meio de colunas que sustentam toda a estrutura, também a Palavra do Eterno apresenta uma ordem perfeita.
Compreender essa estrutura transforma completamente a maneira como lemos a Torá. Os mandamentos deixam de parecer uma coleção de regras independentes e passam a revelar um único projeto divino, harmonioso e coerente, cujo propósito é formar um povo que reflita o caráter do Eterno em todas as áreas da existência.
Ao longo deste estudo, veremos que nenhuma parte da Torá está desconectada das demais. Cada mandamento nasce de um princípio maior, cada princípio aponta para um fundamento mais profundo, e todos convergem para o mesmo propósito: ensinar o ser humano a amar o Eterno acima de todas as coisas e a amar o próximo como a si mesmo. Quando essa estrutura é compreendida, percebemos que a obediência deixa de ser um peso e passa a ser a expressão natural de um coração que deseja viver na presença de HaShem. Assim, fica até o final deste estudo para compreender mais do assunto.
RESUMO DA PARASHÁ
A Parashá Va'etḥanan traz o coração do último grande discurso de Moshe à nova geração de Yisra'el, às vésperas da entrada na terra prometida. A porção começa com Moshe relatando sua súplica para atravessar o Jordão, um pedido que foi recusado pelo Eterno. Mesmo assim, ele aceita a decisão com submissão, fortalece Yehoshua para assumir a liderança e continua dedicando seus últimos dias a ensinar o povo.
Moshe relembra momentos marcantes da caminhada, como a revelação no Horev, onde toda a nação ouviu a voz de D’us saindo do fogo sem contemplar nenhuma imagem física, o que fundamenta a severa proibição contra a idolatria. Ele também antecipa as consequências da desobediência e o exílio, mas traz uma promessa consoladora: mesmo longe da terra, se o povo buscar o Eterno de todo o coração, encontrará misericórdia, pois a aliança com os patriarcas permanece firme. É no centro desta leitura que se encontra o Shema ("Ouve, Yisra'el: HaShem é nosso Elohim; HaShem é um"), que convoca o povo a amar ao Eterno com todas as forças e a tornar a Sua Palavra o centro da vida familiar e da rotina diária. Por fim, Moshe faz um alerta crucial contra a autossuficiência que a prosperidade futura poderia trazer, lembrando que a escolha de Yisra'el não aconteceu por mérito próprio, mas por causa do amor e da fidelidade do Eterno.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
Quando estudamos a Parashá Va'etḥanan, a segunda porção do livro de Devarim, encontramos novamente a proclamação das Aseret HaDibrot ou Aseret HaDevarim (עשרת הדברים), literalmente "As Dez Palavras". Apesar de muitas pessoas conhecerem como “dez mandamentos”, curiosamente, as Escrituras nunca as chamam dessa forma, mas de “dez palavras” ou “dez pronunciamentos” conforme lemos em Devarim 4:13 e 10:4. Essa diferença é significativa. "Davar" significa palavra, não ordem. Essa diferença não é só semântica. Uma palavra gera outras palavras, se desdobra, cresce. Um mandamento isolado só se cumpre ou não. A tradição rabínica sempre tratou as Dez Palavras como sementes, não como uma lista fechada, e isso já casa bem com a imagem que usarei como exemplo. O Eterno não entregou apenas dez regras isoladas; Ele apresentou dez declarações fundamentais que resumem e sustentam toda a Sua instrução.
Dentro da tradição hebraica, as Dez Palavras ocupam um lugar singular. Elas não substituem os demais mandamentos nem representam uma lista reduzida da Torá. Ao contrário, funcionam como os grandes princípios da aliança, dos quais fluem todas as demais instruções que o Eterno revelou a Yisra'el. Assim como há dois dos quais, conforme veremos, derivam estes dez.
1 - A Torá é uma unidade
Um erro comum que as pessoas cometem é imaginar que existam dois grupos de mandamentos: de um lado os Dez Mandamentos e, de outro, os 613 mandamentos. No entanto, as Escrituras Sagradas não apresentam essa divisão.
Os 613 mandamentos formam um único corpo de instruções, e as Dez Palavras são o seu resumo estrutural. É como observar uma árvore: não existem dois sistemas diferentes, o que existe é um único organismo. As raízes alimentam o tronco, e este sustenta os galhos, e eles produzem folhas, flores e frutos. Assim também acontece com a Torá.
Podemos ainda usar um outro exemplo, e particularmente gosto muito desse: a estrutura de uma casa começa de baixo, pelas sapatas. À partir delas vem os alicerces e daí as colunas. Acompanhe comigo o raciocínio.
Quando um intérprete da Torá perguntou a Yeshua qual era o maior mandamento, sua resposta não trouxe algo novo. Ele simplesmente uniu duas passagens da própria Torá. O mestre dá uma resposta dupla. A primeira encontra-se em Devarim 6:5: "Amarás HaShem teu Elohim de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força." E a segunda está em Vayicrá 19:18: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Esses dois mandamentos são os fundamentos de toda a vida da aliança. Rabi Akiva o chamou de klal gadol baTorah, o grande princípio da Torá (essa formulação está na Sifra sobre Vayikrá 19:18). Hillel, numa história bem conhecida do Talmud (Shabat 31a), resumiu a Torá inteira para um pretendente à conversão dizendo: "o que é odioso para ti, não faças ao teu próximo. Isso é toda a Torá, o resto é comentário."
Utilizando a linguagem da construção civil, podemos compará-los às sapatas de um edifício. As sapatas ficam ocultas sob a terra, elas não aparecem, mas tem uma importância singular na estrutura, pois sustentam toda a construção. Sem elas, nenhum edifício permanece de pé. Da mesma forma, todo mandamento da Torá nasce desses dois grandes fundamentos:
Amor ao Eterno.
Amor ao próximo.
Não existe obediência verdadeira a nenhum mandamento sem esses dois fundamentos. Eles são princípios dos quais as dez palavras estão embasadas.
Partindo dos fundamentos, as duas sapatas, derivam as Dez Palavras, que em nossa ilustração são os alicerces. E aqui há um fato interessante que vou compartilhar com você. Repare que em Shemot 31:18 lemos: E deu a Moshê (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Elohim. Também em Shemot 32:15: E virou-se Moshê e desceu do monte com as duas tábuas do testemunho na mão, tábuas escritas de ambos os lados; de um e de outro lado estavam escritas. E nessa parashá em Devarim 4:13 lemos: Então vos anunciou ele a sua aliança que vos ordenou cumprir, as dez palavras, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Por isso, os antigos sábios de Yisrael, frequentemente observaram que as palavras escritas nas tábuas podem ter sido divididas em duas partes.
Na primeira tábua tratava, principalmente, sobre o relacionamento entre o homem e o Eterno, como os pronunciamentos.
Não ter outros deuses.
Não fazer imagens.
Não tomar o Nome do Eterno em vão.
Guardar o Shabat.
Na segunda tábua tratava do relacionamento entre as pessoas, ou seja, o ser humano com seus semelhantes.
Honrar pai e mãe.
Não assassinar.
Não adulterar.
Não furtar.
Não levantar falso testemunho.
Não cobiçar.
Essa divisão não pode ser considerada acidental, pois revela que amar o Eterno produz fidelidade ao Criador, enquanto amar o próximo produz justiça entre as pessoas. As Dez Palavras, portanto, são como o projeto estrutural da casa, por isso a comparação com os alicerces.
Depois dos alicerces, na verdade, subindo à partir deles, surgem as colunas, o que fará com que a estrutura tenha forma. Cada um dos 613 mandamentos desenvolve algum princípio contido nas Dez Palavras. Por exemplo: O mandamento que diz: "Não furtarás". Não se limita apenas ao ato de roubar algo de outra pessoa. Dele derivam dezenas de outras instruções, que falam sobre:
honestidade comercial;
pesos e medidas justas;
devolução de objetos perdidos;
pagamento do salário;
respeito aos limites da propriedade;
proibição da fraude.
Tudo isso nasce de um único princípio. E o mesmo ocorre com o "Não assassinarás". Ele se expande para proteger:
a vida humana;
o estrangeiro;
o pobre;
o julgamento justo;
o cuidado com quem está em perigo;
a responsabilidade por danos.
O mesmo acontece com todas as demais. Assim, uma única Palavra ou pronunciamento do Eterno torna-se em inúmeras instruções e aplicações práticas, que são os mandamentos, em hebraico mitsvot. As Dez Palavras não são independentes dos 613 mandamentos; elas florescem neles.
A tradição rabínica já discute isso há muito tempo. No Talmud, em Makot 23b, Rabi Simlai ensina que foram dadas 613 mitzvot a Moshe: 248 positivas, correspondendo (segundo a anatomia rabínica da época) ao número de partes do corpo, e 365 negativas, correspondendo aos dias do ano solar. E depois o mesmo texto talmúdico mostra o caminho inverso, profetas reduzindo esse total a poucos princípios: Davi a onze, Isaías a seis, Miquéias a três, Isaías de novo a dois (justiça e retidão), Amós a um ("buscai-me e vivei"), Habacuque a um ("o justo viverá pela sua fé"). Ou seja, a própria tradição já utilizava essa ideia de compressão e expansão entre o todo e o essencial, embora o caminho ali seja do 613 para poucos, e não o contrário. A ideia de correlacionar cada uma das 613 especificamente a um dos Dez Mandamentos existe em piyutim conhecidos como Azharot, atribuídos a autores como Saadia Gaon, entre outros.
Agora, para finalizar este tópico, podemos observar a casa inteira. Podemos visualizar a Torá como uma grande construção. As duas sapatas são Amar HaShem e Amar o próximo. Os alicerces são As Dez Palavras. E as colunas são os 613 mandamentos. Que formam a casa pronta. E isso conduz ao tópico seguinte.
2 - Uma vida santa, justa e agradável ao Eterno.
Ainda olhando para o exemplo da estrutura da casa, se retirarmos qualquer parte dessa estrutura podemos comprometer toda a construção. Se alguém afirma amar o Eterno, mas despreza o próximo, a sapata está quebrada ou malfeita. Se uma pessoa afirma amar, mas ignora as Dez Palavras, os alicerces desaparecem. Ou se conhece os princípios, mas rejeita sua aplicação prática, as colunas deixam de sustentar a casa. Tudo permanece interligado.
Quando Yeshua declarou que toda a Torá depende desses dois grandes mandamentos conforme Matityahu 22:37-40, ele não estava reduzindo a Torá a apenas dois mandamentos. Ele estava justamente mostrando que há mais profundidade. A expressão utilizada indica que toda a Torá está pendurada, sustentada ou apoiada sobre eles. É a mesma relação entre raiz e árvore. Ninguém vê a raiz quando olha para uma árvore, mas sem ela não existiriam tronco, galhos nem frutos. Assim também, quem ama verdadeiramente o Eterno desejará guardar Seus mandamentos. E quem ama verdadeiramente o próximo viverá de maneira justa, misericordiosa e íntegra. O amor não substitui a obediência, pelo contrário, ele lhe dá verdadeiro sentido, ou seja, vida.
Concluindo o estudo, vimos que a Parashá Vaetcḥanan nos lembra que as Aseret HaDibrot não são apenas dez mandamentos isolados, mas a estrutura fundamental sobre a qual repousa toda a Torá. O amor ao Eterno e o amor ao próximo são o fundamento invisível da vida da aliança. Sobre eles repousam as Dez Palavras, que estabelecem os grandes princípios da vontade do Eterno. Desses princípios desenvolvem-se todos os 613 mandamentos, que orientam cada detalhe da vida do povo da aliança.
Assim como uma casa precisa de fundação, alicerces e colunas para permanecer firme, a vida daquele que deseja andar diante do Eterno precisa de amor, princípios e obediência. Quando essa estrutura permanece íntegra, a Torá deixa de ser apenas um conjunto de instruções e torna-se um caminho de vida. O amor conduz à obediência, a obediência molda o caráter, e o caráter revela ao mundo a justiça e a bondade do Eterno. É dessa forma que Yisra'el foi chamado a viver: edificando toda a sua existência sobre os fundamentos eternos da Palavra de HaShem.
Que o Eterno lhes abençoe.
Moshê Ben Yosef
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