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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estudo da Parashá Vaetchanan - As Dez Palavras: Os Alicerces da Aliança

 



Estudos da Torá

Parashá nº 45Vaetchanan (Supliquei)

Devarim/Deuteronômio 3:23-7:11

Haftará (separação) Is 40:1-26.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Mt 4:1-11; At 13:13-43.


As Dez Palavras: Os Alicerces da Aliança


Poucos textos das Escrituras são tão conhecidos quanto os chamados Dez Mandamentos. Eles estão gravados na memória de milhões de pessoas e são frequentemente apresentados como um conjunto de dez regras fundamentais para uma vida moral. No entanto, essa compreensão, embora importante, está longe de revelar toda a profundidade do que o Eterno entregou no Horev.

As Escrituras não os chamam de "dez mandamentos", mas de Aseret HaDibrot — As Dez Palavras, mas como elas se relacionam com os 613 mandamentos? Elas são mais importantes? Os demais mandamentos são apenas detalhes? E como compreender a afirmação de Yeshua de que toda a Torá repousa sobre dois grandes mandamentos: amar o Eterno e amar o próximo?

Neste estudo, veremos que a Torá possui uma extraordinária unidade. Assim como uma construção sólida começa com fundamentos invisíveis, passa pelos alicerces e se eleva por meio de colunas que sustentam toda a estrutura, também a Palavra do Eterno apresenta uma ordem perfeita.

Compreender essa estrutura transforma completamente a maneira como lemos a Torá. Os mandamentos deixam de parecer uma coleção de regras independentes e passam a revelar um único projeto divino, harmonioso e coerente, cujo propósito é formar um povo que reflita o caráter do Eterno em todas as áreas da existência.

Ao longo deste estudo, veremos que nenhuma parte da Torá está desconectada das demais. Cada mandamento nasce de um princípio maior, cada princípio aponta para um fundamento mais profundo, e todos convergem para o mesmo propósito: ensinar o ser humano a amar o Eterno acima de todas as coisas e a amar o próximo como a si mesmo. Quando essa estrutura é compreendida, percebemos que a obediência deixa de ser um peso e passa a ser a expressão natural de um coração que deseja viver na presença de HaShem. Assim, fica até o final deste estudo para compreender mais do assunto.


RESUMO DA PARASHÁ

A Parashá Va'etḥanan traz o coração do último grande discurso de Moshe à nova geração de Yisra'el, às vésperas da entrada na terra prometida. A porção começa com Moshe relatando sua súplica para atravessar o Jordão, um pedido que foi recusado pelo Eterno. Mesmo assim, ele aceita a decisão com submissão, fortalece Yehoshua para assumir a liderança e continua dedicando seus últimos dias a ensinar o povo.

Moshe relembra momentos marcantes da caminhada, como a revelação no Horev, onde toda a nação ouviu a voz de D’us saindo do fogo sem contemplar nenhuma imagem física, o que fundamenta a severa proibição contra a idolatria. Ele também antecipa as consequências da desobediência e o exílio, mas traz uma promessa consoladora: mesmo longe da terra, se o povo buscar o Eterno de todo o coração, encontrará misericórdia, pois a aliança com os patriarcas permanece firme. É no centro desta leitura que se encontra o Shema ("Ouve, Yisra'el: HaShem é nosso Elohim; HaShem é um"), que convoca o povo a amar ao Eterno com todas as forças e a tornar a Sua Palavra o centro da vida familiar e da rotina diária. Por fim, Moshe faz um alerta crucial contra a autossuficiência que a prosperidade futura poderia trazer, lembrando que a escolha de Yisra'el não aconteceu por mérito próprio, mas por causa do amor e da fidelidade do Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Quando estudamos a Parashá Va'etḥanan, a segunda porção do livro de Devarim, encontramos novamente a proclamação das Aseret HaDibrot ou Aseret HaDevarim (עשרת הדברים), literalmente "As Dez Palavras". Apesar de muitas pessoas conhecerem como “dez mandamentos”, curiosamente, as Escrituras nunca as chamam dessa forma, mas de “dez palavras” ou “dez pronunciamentos” conforme lemos em Devarim 4:13 e 10:4. Essa diferença é significativa. "Davar" significa palavra, não ordem. Essa diferença não é só semântica. Uma palavra gera outras palavras, se desdobra, cresce. Um mandamento isolado só se cumpre ou não. A tradição rabínica sempre tratou as Dez Palavras como sementes, não como uma lista fechada, e isso já casa bem com a imagem que usarei como exemplo. O Eterno não entregou apenas dez regras isoladas; Ele apresentou dez declarações fundamentais que resumem e sustentam toda a Sua instrução.

Dentro da tradição hebraica, as Dez Palavras ocupam um lugar singular. Elas não substituem os demais mandamentos nem representam uma lista reduzida da Torá. Ao contrário, funcionam como os grandes princípios da aliança, dos quais fluem todas as demais instruções que o Eterno revelou a Yisra'el. Assim como há dois dos quais, conforme veremos, derivam estes dez.


1 - A Torá é uma unidade

Um erro comum que as pessoas cometem é imaginar que existam dois grupos de mandamentos: de um lado os Dez Mandamentos e, de outro, os 613 mandamentos. No entanto, as Escrituras Sagradas não apresentam essa divisão.

Os 613 mandamentos formam um único corpo de instruções, e as Dez Palavras são o seu resumo estrutural. É como observar uma árvore: não existem dois sistemas diferentes, o que existe é um único organismo. As raízes alimentam o tronco, e este sustenta os galhos, e eles produzem folhas, flores e frutos. Assim também acontece com a Torá.

Podemos ainda usar um outro exemplo, e particularmente gosto muito desse: a estrutura de uma casa começa de baixo, pelas sapatas. À partir delas vem os alicerces e daí as colunas. Acompanhe comigo o raciocínio.

Quando um intérprete da Torá perguntou a Yeshua qual era o maior mandamento, sua resposta não trouxe algo novo. Ele simplesmente uniu duas passagens da própria Torá. O mestre dá uma resposta dupla. A primeira encontra-se em Devarim 6:5: "Amarás HaShem teu Elohim de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força." E a segunda está em Vayicrá 19:18: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Esses dois mandamentos são os fundamentos de toda a vida da aliança. Rabi Akiva o chamou de klal gadol baTorah, o grande princípio da Torá (essa formulação está na Sifra sobre Vayikrá 19:18). Hillel, numa história bem conhecida do Talmud (Shabat 31a), resumiu a Torá inteira para um pretendente à conversão dizendo: "o que é odioso para ti, não faças ao teu próximo. Isso é toda a Torá, o resto é comentário."

Utilizando a linguagem da construção civil, podemos compará-los às sapatas de um edifício. As sapatas ficam ocultas sob a terra, elas não aparecem, mas tem uma importância singular na estrutura, pois sustentam toda a construção. Sem elas, nenhum edifício permanece de pé. Da mesma forma, todo mandamento da Torá nasce desses dois grandes fundamentos:

    • Amor ao Eterno.

    • Amor ao próximo.

Não existe obediência verdadeira a nenhum mandamento sem esses dois fundamentos. Eles são princípios dos quais as dez palavras estão embasadas.

Partindo dos fundamentos, as duas sapatas, derivam as Dez Palavras, que em nossa ilustração são os alicerces. E aqui há um fato interessante que vou compartilhar com você. Repare que em Shemot 31:18 lemos: E deu a Moshê (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Elohim. Também em Shemot 32:15: E virou-se Moshê e desceu do monte com as duas tábuas do testemunho na mão, tábuas escritas de ambos os lados; de um e de outro lado estavam escritas. E nessa parashá em Devarim 4:13 lemos: Então vos anunciou ele a sua aliança que vos ordenou cumprir, as dez palavras, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Por isso, os antigos sábios de Yisrael, frequentemente observaram que as palavras escritas nas tábuas podem ter sido divididas em duas partes.

Na primeira tábua tratava, principalmente, sobre o relacionamento entre o homem e o Eterno, como os pronunciamentos.

    • Não ter outros deuses.

    • Não fazer imagens.

    • Não tomar o Nome do Eterno em vão.

    • Guardar o Shabat.

Na segunda tábua tratava do relacionamento entre as pessoas, ou seja, o ser humano com seus semelhantes.

    • Honrar pai e mãe.

    • Não assassinar.

    • Não adulterar.

    • Não furtar.

    • Não levantar falso testemunho.

    • Não cobiçar.

Essa divisão não pode ser considerada acidental, pois revela que amar o Eterno produz fidelidade ao Criador, enquanto amar o próximo produz justiça entre as pessoas. As Dez Palavras, portanto, são como o projeto estrutural da casa, por isso a comparação com os alicerces.

Depois dos alicerces, na verdade, subindo à partir deles, surgem as colunas, o que fará com que a estrutura tenha forma. Cada um dos 613 mandamentos desenvolve algum princípio contido nas Dez Palavras. Por exemplo: O mandamento que diz: "Não furtarás". Não se limita apenas ao ato de roubar algo de outra pessoa. Dele derivam dezenas de outras instruções, que falam sobre:

    • honestidade comercial;

    • pesos e medidas justas;

    • devolução de objetos perdidos;

    • pagamento do salário;

    • respeito aos limites da propriedade;

    • proibição da fraude.

Tudo isso nasce de um único princípio. E o mesmo ocorre com o "Não assassinarás". Ele se expande para proteger:

    • a vida humana;

    • o estrangeiro;

    • o pobre;

    • o julgamento justo;

    • o cuidado com quem está em perigo;

    • a responsabilidade por danos.

O mesmo acontece com todas as demais. Assim, uma única Palavra ou pronunciamento do Eterno torna-se em inúmeras instruções e aplicações práticas, que são os mandamentos, em hebraico mitsvot. As Dez Palavras não são independentes dos 613 mandamentos; elas florescem neles.

A tradição rabínica já discute isso há muito tempo. No Talmud, em Makot 23b, Rabi Simlai ensina que foram dadas 613 mitzvot a Moshe: 248 positivas, correspondendo (segundo a anatomia rabínica da época) ao número de partes do corpo, e 365 negativas, correspondendo aos dias do ano solar. E depois o mesmo texto talmúdico mostra o caminho inverso, profetas reduzindo esse total a poucos princípios: Davi a onze, Isaías a seis, Miquéias a três, Isaías de novo a dois (justiça e retidão), Amós a um ("buscai-me e vivei"), Habacuque a um ("o justo viverá pela sua fé"). Ou seja, a própria tradição já utilizava essa ideia de compressão e expansão entre o todo e o essencial, embora o caminho ali seja do 613 para poucos, e não o contrário. A ideia de correlacionar cada uma das 613 especificamente a um dos Dez Mandamentos existe em piyutim conhecidos como Azharot, atribuídos a autores como Saadia Gaon, entre outros.

Agora, para finalizar este tópico, podemos observar a casa inteira. Podemos visualizar a Torá como uma grande construção. As duas sapatas são Amar HaShem e Amar o próximo. Os alicerces são As Dez Palavras. E as colunas são os 613 mandamentos. Que formam a casa pronta. E isso conduz ao tópico seguinte.


2 - Uma vida santa, justa e agradável ao Eterno.

Ainda olhando para o exemplo da estrutura da casa, se retirarmos qualquer parte dessa estrutura podemos comprometer toda a construção. Se alguém afirma amar o Eterno, mas despreza o próximo, a sapata está quebrada ou malfeita. Se uma pessoa afirma amar, mas ignora as Dez Palavras, os alicerces desaparecem. Ou se conhece os princípios, mas rejeita sua aplicação prática, as colunas deixam de sustentar a casa. Tudo permanece interligado.

Quando Yeshua declarou que toda a Torá depende desses dois grandes mandamentos conforme Matityahu 22:37-40, ele não estava reduzindo a Torá a apenas dois mandamentos. Ele estava justamente mostrando que há mais profundidade. A expressão utilizada indica que toda a Torá está pendurada, sustentada ou apoiada sobre eles. É a mesma relação entre raiz e árvore. Ninguém vê a raiz quando olha para uma árvore, mas sem ela não existiriam tronco, galhos nem frutos. Assim também, quem ama verdadeiramente o Eterno desejará guardar Seus mandamentos. E quem ama verdadeiramente o próximo viverá de maneira justa, misericordiosa e íntegra. O amor não substitui a obediência, pelo contrário, ele lhe dá verdadeiro sentido, ou seja, vida.

Concluindo o estudo, vimos que a Parashá Vaetcḥanan nos lembra que as Aseret HaDibrot não são apenas dez mandamentos isolados, mas a estrutura fundamental sobre a qual repousa toda a Torá. O amor ao Eterno e o amor ao próximo são o fundamento invisível da vida da aliança. Sobre eles repousam as Dez Palavras, que estabelecem os grandes princípios da vontade do Eterno. Desses princípios desenvolvem-se todos os 613 mandamentos, que orientam cada detalhe da vida do povo da aliança.

Assim como uma casa precisa de fundação, alicerces e colunas para permanecer firme, a vida daquele que deseja andar diante do Eterno precisa de amor, princípios e obediência. Quando essa estrutura permanece íntegra, a Torá deixa de ser apenas um conjunto de instruções e torna-se um caminho de vida. O amor conduz à obediência, a obediência molda o caráter, e o caráter revela ao mundo a justiça e a bondade do Eterno. É dessa forma que Yisra'el foi chamado a viver: edificando toda a sua existência sobre os fundamentos eternos da Palavra de HaShem.

Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Estudo da Parashá Hukat - Balak - O zelo, a aliança de shalom e o coração do Mashiach

 


Estudos da Torá

Parashá nº 39 e 40Hukat - Balak

(Regulamentos - Balak)

Bamidbar/Números 19:1-25:9

Haftará (separação) Jz 11:1-33 e Mq 5:6-6:8.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 3:9-21 e 2Pe 2:1-22.


O zelo, a aliança de shalom e o coração do Mashiach


Esta semana estudamos as parashiot Hukat e Balak, dois textos que juntos formam um dos episódios mais dramáticos de toda a caminhada de Yisrael pelo deserto. E pretendo focar especificamente no que acontece no final da parashá Balak, porque ali está um nó teológico que vai muito além do episódio em si.

Se você prestou atenção no início da parashá Balak, sabe que Balak ben Tzipor, rei de Moab, entrou em pânico quando viu o que Yisrael tinha feito aos amorreus. Em vez de partir para a guerra, ele contratou um profeta, Bileam ben Beor, para amaldiçoar Yisrael. Três vezes Balak posicionou Bileam. Três vezes saíram bênçãos. O plano de maldição fracassou completamente. Mas o inimigo encontrou outro caminho. E esse segundo caminho quase destruiu Israel por dentro. Permaneça até o fim desde estudo e descobrirá uma conexão entre Pinchás e o coração do mashiach.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O final da porção Balak começa com uma cena de sedução. Mulheres de Moab e Midiã atraem israelitas para festas, e essas festas envolvem adoração a Baal Peor e comidas sacrificadas. O texto é direto: o povo comeu, prostituiu-se com as mulheres e se curvou aos deuses delas. Uma praga começa então no meio do povo de Yisrael. O Eterno ordena que os líderes que caíram nesse ato de idolatria fossem executados.

É nesse clima de crise, com o povo chorando à porta da Tenda do Encontro, que acontece o episódio que dá nome à próxima parashá.


E eis que um homem dos filhos de Yisrael veio e trouxe a seus irmãos uma midianita, aos olhos de Moshé e aos olhos de toda a congregação dos filhos de Yisrael, enquanto eles choravam à porta da Tenda do Encontro. Pinchas ben Elazar, filho do sacerdote Aharon, viu isso, levantou-se do meio da congregação, tomou uma lança na mão e foi após o homem de Yisrael até o interior de sua tenda, e atravessou os dois, o homem de Yisrael e a mulher, pelo ventre dela. E a praga cessou. Bamidbar 25:6-8


O nome do homem de Yisrael era Zimri ben Salu, príncipe da tribo de Shimon. A mulher era Cozbi bat Tzur, filha de um líder midianita. O ato deles não foi discreto. Foi ostensivo, deliberado, quase uma provocação política feita na frente de Moshé e de toda a congregação. Pinchas age com zelo e a praga cessa. O texto registra que 24.000 pessoas já tinham morrido por causa da praga que havia se irrompido no meio do povo.

A recompensa de Pinchas vem na próxima parashá, que leva seu nome. O Eterno fala a Moshé em Bamidbar 25:11-13:


Pinchas ben Elazar, filho do sacerdote Aharon, desviou o meu furor de sobre os filhos de Yisrael, ao ser zeloso com o meu zelo no meio deles, e eu não consumi os filhos de Yisrael no meu zelo. Por isso dize: eis que eu lhe dou a minha aliança de paz (Brit Shalom) e ela será para ele e para a sua descendência depois dele uma aliança de sacerdócio eterno, porquanto foi zeloso pelo seu D’us e fez expiação pelos filhos de Yisrael.


Observe aqui uma inversão profunda, pois um ato de violência gerou salvação e paz. Afinal, quando Pinchás eliminou o casal infame, muitas vidas foram salvas da praga e para el próprio o Eterno abençoou com “brit shalom”. Evidentemente que não é como uma glorificação da violência, mas como contenção de uma ruptura que estava destruindo o povo por dentro. O ponto central não é a violência em si. O ponto central é o zelo pela santidade do Eterno e pela preservação da aliança. O zeloso Pinchás que detém a ira recebe aliança de paz.

Quando observamos as duas parashiot juntas, percebemos que existe um fio condutor, um tema profundo por trás: Em Hukat o povo é disciplinado pelas serpentes ardentes por causa da murmuração. Em Balak o povo é disciplinado pela praga por causa da idolatria. No entanto, em ambos os casos havia pecado, juízo, havia um meio providenciado pelo Eterno para interromper a destruição e o povo é chamado ao arrependimento. Em Hukat, o sinal foi a serpente de bronze e em Balak, o sinal foi o ato de zelo de Pinchás. Ambos os relatos mostram que a vida é restaurada quando o povo abandona a rebelião e retorna ao Eterno.

Há aqui uma aparente contradição: Um ato severo produz uma aliança de paz, mas as Escrituras mostram que a verdadeira paz não existe sem a remoção daquilo que destrói a comunhão com o Eterno. O que nos leva ao primeiro tópico e a haftará ou separação dos profetas, referente a esta parashá.


1 – O Remanescente: Orvalho e Leão

A separação dos profetas chamada de haftará, associada à parashá Balak, vem do profeta Mikhah, e a conexão não é acidental. Observe o que Mikhah diz diretamente:


Povo meu, lembra-te do que planejou Balak, rei de Moab, e o que lhe respondeu Bileam ben Beor, e do que aconteceu, entre Shitim e Gilgal, para que você entenda os atos de salvação realizados pelo Eterno. Mikhah/Mq 6:5


O profeta, séculos depois, relembra o episódio de Balak como prova da fidelidade divina. O Eterno que através do zelo de Pichás, impediu a maldição é o mesmo que agora entra em litígio com o povo, porque o povo esqueceu quem os defendeu.

Nos versículos 6 a 8, Miquéias fala de um remanescente de Yaakov no meio das nações. Aqui tem uma imagem dupla fascinante: Primeiro, o remanescente é como orvalho do Eterno, como chuva sobre a erva, que não depende dos homens nem aguarda aprovação humana. É presença soberana e silenciosa, que nutre sem pedir licença. Ao mesmo tempo, esse mesmo remanescente é como leão entre os animais da floresta, poder que ninguém contém, que avança e não há quem o liberte. O orvalho que nutre e o leão que protege no mesmo sujeito. Aqui fala da casa de Yisrael espalhada entre as nações, mas também fala de outra coisa. Guarda essa imagem, vamos precisar dela quando chegarmos ao mashiach.

Mikhah 6 muda o tom, o Eterno chama as montanhas como testemunhas e abre como um processo judicial contra o povo. É o gênero literário comum nos livros proféticos, a palavra ריב – riv, que literalmente significa disputa, contenda ou litígio, onde HaShem age como parte ofendida num tribunal cósmico.

A pergunta do Eterno é desarmante: 'O que fiz a você? Em que te cansei?' E ele recita os atos de salvação: a saída do Egito, Moshé, Miriam e Aharon, e o episódio de Balak e Bileam. A resposta do povo é a pergunta ritual errada: 'Com o que virei perante o Eterno? Com holocaustos? Com rios de azeite? Com o primogênito?' E então vem um dos versículos mais potentes de todo o Tanakh: Mikhah 6:8 Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Eterno requer de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?


Percebam as palavras que o Eterno usa através do profeta: Mishpat. Chesed. Hatznea lechet im Elohecha. Justiça. Amor leal. Caminhar humilde com seu D’us. O clímax da haftará não é ritual, é ético e relacional. E isso vai conectar diretamente com o que Yeshua vai dizer séculos depois.


2 – A profecia Messiânica

O Texto imediatamente anterior à Haftará, em Mikhah 5:1-5 nos revela uma profecia. É uma das profecias messiânicas mais explícitas de todo o Tanakh:

E tu, Beit Lechem, Efrata, pequena para ser entre os milhares de Yehudah, de ti me sairá para mim o que há de ser Governante em Yisrael; cujas origens estão no passado distante, nos tempos antigos. Por isso, ele desistirá (de Yisrael) até que a mulher em trabalho de parto dê à luz. Então o restante de seus parentes voltará ao povo de Yisrael. Ele permanecerá e alimentará seu rebanho com a força do Eterno, com a majestade do nome do Eterno, seu Elohim; e eles permanecerão juntos, pois ele crescerá até os confins da terra; e este será paz. Mikhah 5:1-4 (ou 2-5 dependendo da versão)


Note que o Eterno, pela boca do profeta usa: 'Vezeh hayah shalom', “e este será a paz”. O mashiach que vem de Beit Lechem é descrito com a mesma palavra que HaShem usou para recompensar Pinchas: shalom. Isso não é coincidência! Mikhah 5 e 6 formam uma unidade contextual. O mashiach que vem de Beit Lechem lidera um remanescente que é orvalho e leão entre as nações, e o critério pelo qual seu povo vive é mishpat, chesed e hatznea lechet – justiça, misericórdia e humildade diante do Eterno.

Existe uma relação profética muito interessante. Observe que Pinchás aparece como alguém que tem zelo pelo Nome do Eterno, intercede em favor do povo, interrompe um juízo e recebe uma aliança perpétua. Esses elementos reaparecem nas profecias sobre o futuro rei descendente de David, o Mashiach. Por exemplo, em Yeshayahu 9:6-7, o governo do Mashiach é estabelecido através do:

"zelo de HaShem Tzevaot". Também em Yeshayahu 11, o descendente de Yishai julga com justiça e remove a maldade da terra. Assim como Pinchás removeu aquilo que contaminava o povo.

Pinchas é como Tipo e Sombra do caráter zeloso do Mashiach, ele agiu com zelo para deter a ira divina sobre o povo. O resultado não é glória guerreira, é Brit Shalom, aliança de paz. Séculos depois, o mashiach de Beit Lechem é descrito por Mikhah exatamente como 'ele será a paz'. Yeshua, nesse fio tipológico, aprofunda o padrão de forma radical: não mata para deter a praga, mas vive em justiça de tal forma a ponto de morrer para deter a morte. O zeloso que detém a ira divina, aqui, é o próprio representante do Eterno, o mashiach, chamado de Filho de Elohim.

A Brit Shalom de Pinchas funciona como sombra, um apontamento profético, um prenúncio real, histórico, que direciona para algo maior. A aliança de paz definitiva é a que o mashiach sela com sua própria vida justa de obediência dedicada ao Eterno até ser morto.

E tem mais. Mikhah 6:8, mishpat, chesed, hatznea lechet, reflete diretamente no ensino de Yeshua. Em Mateus 23:23, quando ele repreende alguns fariseus que dizimavam religiosamente o que era menor e esqueciam o que era maior, ele diz:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e deixastes o mais importante da Torá: o juízo, a misericórdia e fidelidade. Estas coisas são necessárias dar atenção, sem negligenciar as outras. Mateus 23:23


Mishpat, chesed, hatznea lechet — justiça, misericórdia, fidelidade. Yeshua está citando ou fazendo um midrash de Mikhah, com plena consciência. Ele não está abolindo a Torah, está apontando para o coração dela. O mesmo coração que Mikhah identificou como o que o Eterno requer.


3 – A relação com Yeshua

Se entendermos Yeshua como o Mashiach prometido, o paralelo não está em uma função de substituir ou ser o Eterno, mas em sua missão de restaurar o povo à fidelidade ao Eterno. Yeshua não veio para abolir os mandamentos, ele veio para chamar Yisrael ao arrependimento.

Assim como Pinchás enfrentou a corrupção dentro do acampamento, Yeshua confrontou a hipocrisia, a injustiça e a desobediência. Assim como Pinchás teve zelo pela santidade do povo, Yeshua demonstrou zelo pela Casa do Eterno. O paralelo principal não é o de um salvador divino, mas o de um servo fiel que conduz o povo de volta ao Eterno.

Infelizmente, por falta de interesse e interpretação correta, os anti mashiach na ânsia de negar a Yeshua, costumam afirmar que o Eterno não aceita sacrifício humano, comparando a morte de Yeshua com sacrifício. No entanto, eles desprezam o entendimento de que não foi a morte dele o sacrifício, mas sua vida justa que foi o verdadeiro sacrifício. Vejamos isso em relação com o que ocorreu com Pinchás.

Essa é uma reflexão importante e, para tratá-la com fidelidade às Escrituras, precisamos antes separar conceitos que muitas vezes são misturados.

O Eterno realmente rejeita sacrifícios humanos. O Tanakh é explícito ao condenar o oferecimento de seres humanos como sacrifício. Como vemos em Devarim 12:31, o Eterno reprova as nações que queimavam seus filhos e filhas em altares pagãos. Da mesma forma, em Yirmeyahu 7:31, Ele declara que tal prática jamais entrou em Seu coração. Portanto, qualquer compreensão que apresente o Eterno exigindo ou desejando um sacrifício humano literal entra em conflito com o próprio Tanakh.

Resta-nos então uma pergunta: O que produz expiação segundo as Escrituras? Talvez você vá responder de bate pronto: sacrifício de sangue, pois a bíblia diz que “sem sangue não há expiação de pecados”, conforme diz o autor da epístola aos hebreus 9:22. Entretanto, isso é uma interpretação muito errônea do que o contexto desse verso quer apresentar.

Quando analisamos o Tanakh, pois é lá que estão os mandamentos, percebemos que a expiação não está limitada ao sangue dos korbanot do Mishkan ou do Beit HaMikdash. é mais amplo do que muitas vezes se imagina. O sistema dos korbanot era uma das formas pelas quais o Eterno tratava a questão do pecado, mas não a única. As Escrituras mostram diversos meios pelos quais o homem pode obter perdão, reconciliação ou remoção das consequências de suas transgressões. Encontramos na verdade, expiação realizada por diversos meios como:

    • Arrependimento (teshuváh).

O arrependimento sincero ocupa posição central nas Escrituras. Veja o texto: Yechezkel 18:21-22

"Mas, se o perverso se converter de todos os seus pecados que cometeu, guardar todos os Meus estatutos e proceder com juízo e justiça, certamente viverá; não morrerá. De todas as suas transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele."

Observe que o texto não menciona korban, pois o foco está na mudança de vida.

"Deixe o perverso o seu caminho, e o homem mau os seus pensamentos; converta-se a HaShem, que se compadecerá dele." Yeshayahu 55:7

    • Oração (Tefilah).

A oração aparece repetidamente como meio de obter misericórdia. Na dedicação do Beit HaMikdash, Shelomo pede: "E eles se converterem a Ti de todo o coração... e orarem a Ti... então ouve nos shamayim e perdoa ao Teu povo." Melachim Alef 8:46-50

Aqui o perdão está ligado à oração acompanhada de arrependimento.

Em Yonah 3:5-10 os habitantes de Nineveh clamam ao Eterno. Não há korban mencionado. O resultado:

"E Elohim viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho."

    • Justiça (tzedakáh).

As Escrituras associam atos de justiça à remoção da culpa. Em Mishlei 16:6: "Pela bondade e pela verdade se expia a iniquidade."

A palavra utilizada aqui é precisamente relacionada à ideia de expiação. Em Daniel 4:27 Daniel aconselha Nevuchadnetzar: "Redime os teus pecados pela justiça e as tuas iniquidades mostrando misericórdia aos pobres."

A justiça é apresentada como resposta ao pecado.

    • Misericórdia (chessed).

A misericórdia é vista como instrumento de reconciliação, como vemos em Hoshea 6:6: "Porque desejo misericórdia e não sacrifício."

O profeta não elimina os korbanot, mas mostra que o Eterno valoriza ainda mais a misericórdia. Em Mishlei 21:3 lemos: "Praticar justiça e juízo é mais aceitável a HaShem do que sacrifício."


    • Sofrimento suportado por causa da fidelidade ao Eterno.

Este é um tema muito presente nos Tehilim e nos Profetas. Em Tehilim 44:22: "Por amor de Ti somos entregues à morte continuamente."

Os justos sofrem não por culpa própria, mas por permanecerem fiéis. Yeshayahu 53:11 independentemente das discussões sobre a identidade do servo, o texto estabelece um princípio: "Pelo seu conhecimento o Meu servo justo justificará a muitos."

A justiça do servo beneficia outros, conforme Zecharyah 13:7-9. O remanescente passa pelo fogo da aflição e emerge purificado. O sofrimento aparece como processo de refinamento.


    • Atos de zelo pela aliança.

Este é o caso clássico de Pinchás em Bamidbar 25:11-13:

"Pinchás... desviou a Minha ira dos filhos de Yisrael."

E mais adiante: "Fez expiação pelos filhos de Yisrael."

É um dos textos mais importantes para este tema, pois não houve altar, não houve oferta animal, não houve derramamento ritual de sangue. O que produziu a expiação foi o zelo pela santidade do Eterno. Apesar de ter havido derramamento do sangue dos dois transgressores.


    • Confissão de Pecados

Muitas vezes a confissão aparece junto com a teshuváh. Em Tehilim 32:5 lemos: "Confessei-Te o meu pecado... e Tu perdoaste a culpa do meu pecado." E em Mishlei 28:13: "O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia."

Outro exemplo encontramos em Mishlei 16:6: "Pela bondade e pela verdade se expia a iniquidade."

Aqui não há derramamento de sangue nem sacrifício animal. A expiação está associada à fidelidade e à prática da justiça. Quando reunimos esses textos, percebemos um padrão: O Eterno não está preso a um único mecanismo para conceder perdão e reconciliação.

É justamente nesse contexto que o exemplo de Pinchás ganha tanta força. O texto declara explicitamente que ele fez expiação por Yisrael sem oferecer um korban. Sua fidelidade e zelo tornaram-se instrumento pelo qual o Eterno removeu a praga.

Da mesma forma, quando se fala da missão do Mashiach, é importante observar que as Escrituras frequentemente enfatizam a justiça, a obediência e a fidelidade do servo do Eterno como elementos centrais de sua missão. O padrão estabelecido no Tanakh mostra que o Eterno pode usar a vida justa de Seus servos como instrumento para trazer reconciliação, restauração e retorno do povo à aliança.

Quando olhamos para Yeshua sob essa perspectiva, encontramos um padrão semelhante. A questão central não é sua morte isoladamente considerada. A questão é sua vida inteira. Desde o início até o fim, ele permaneceu obediente ao Eterno, ele foi tentado, foi perseguido, rejeitado e acusado injustamente, mesmo assim, permaneceu fiel.

Sua vida tornou-se uma demonstração perfeita do que significa amar o Eterno de todo o coração. Nesse sentido, a força de sua missão não está meramente no momento de sua morte, mas em toda a trajetória de justiça que a precedeu. Assim como a expiação associada a Pinchás não pode ser reduzida ao instante em que ele empunhou a lança, a missão de Yeshua não pode ser reduzida ao momento de sua execução. O ato final apenas coroou uma vida inteira de fidelidade.

Entretanto, é preciso cuidado para não criar uma oposição absoluta entre "vida" e "morte". Nas Escrituras, muitas vezes a fidelidade é demonstrada justamente pela disposição de permanecer leal ao Eterno mesmo quando isso custa a própria vida.

Foi assim com muitos profetas, com inúmeros justos de Yisrael e foi assim com Yeshua. Portanto, pode-se argumentar que o valor de sua missão não estava em uma suposta exigência divina de um sacrifício humano, mas em uma vida perfeitamente fiel que permaneceu obediente ao Eterno até as últimas consequências.

Nesse entendimento, o foco continua sendo o Eterno, que salva, perdoa e restaura, enquanto o Mashiach atua como Seu servo fiel, instrumento de reconciliação e modelo de obediência. A ligação com Pinchás ajuda a enxergar isso com clareza: a expiação é associada ao zelo, à fidelidade e à obediência à aliança. O que o Eterno honra não é a morte em si, mas a vida justa que demonstra amor por Ele e por Seus mandamentos.

Concluindo o estudo, Balak tentou destruir Israel por fora, via maldição, mas fracassou. Então tenta por dentro, via sedução cultural e idolatria e quase consegue, porém Pinchas agiu com zelo e a praga cessou. Ele recebe Brit Shalom, aliança de paz, e sacerdócio eterno. Séculos depois, Miquéias evoca Balak e Bileam como prova da fidelidade divina, anuncia um mashiach que virá de Beit Lechem e será a paz em pessoa, e declara que o que o Eterno requer não é ritual, mas mishpat, chesed e humildade.

Yeshua nasce em Beit Lechem, ensina mishpat e chesed, e morre como aquele que detém a ira, não matando, mas vivendo conforme ensinou até ser morto. Ele é a paz que Pinchas prefigurou e Miquéias profetizou.

Resta-nos as seguintes perguntas para reflexão: O que está ameaçando entrar no acampamento hoje? E qual é o nosso chamado diante disso?

Pinchas não esperou instrução de Moshé, ele viu a ruptura, agiu com clareza e pagou o preço de ser mal compreendido. O texto não glorifica a violência, glorifica o zelo pela santidade do povo no momento mais crítico. O remanescente que Miquéias descreve, orvalho e leão, é formado por pessoas que sabem quem são e por quê estão aqui. Que nutrem sem precisar de aprovação e que protegem sem hesitar quando a aliança está em risco. Esse é o chamado que essas parashiot fazem para nós hoje.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef