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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Estudo da Parashá Bereshit - Não houve morte de animal no Éden: O engano sobre as túnicas de pele.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 01 – Bereshit (Em um Princípio)

Bereshit/Gênesis 1:1-6:8

Haftará (separação) Is 42:5-43:10 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 1:1-17; 2Pe 3:3-14


Não houve morte de animal no Éden: O engano sobre as túnicas de pele.


Sejam bem vindos a mais um ciclo de estudos da Torá, que é dividida em 54 porções anuais, chamadas parashiot no plural, já que seu singular é parashá. Cada parashá tem um nome que a caracteriza e nos revela importantes ensinos do Eterno para seu povo. Essa parashá, a primeira do ciclo que recomeçou essa semana, chama-se Bereshit, que literalmente podemos traduzir como “Em um princípio”. E tendo em vista este significado gostaria de trazer à tona uma instrução que a Torá traz e que é muito mal interpretado nos meios religiosos que usam a bíblia como livro base. Desejo trazer o princípio da existência do ser humano, e nisso mostrar o estado anterior, perfeito e luminoso, mas também esclarecer que depois da queda o Eterno agiu com bondade e deu-lhes pele para cobrir seu corpo, e não uma roupa feita de couro de animal. Isso mesmo caro leitor, mostrarei que não foi morto um cordeiro para que eles tivessem roupas para vestir. Vem comigo até o final desse estudo, e poderá entender um pouco mais a respeito desse assunto, e ainda acrescentará se assistir a live de comentário desse estudo no meu canal no YouTube (https://youtube.com/SouPeregrinonaTerra)


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

O Eterno, pela Sua palavra, trouxe à existência todas as coisas. Em seis dias Ele organizou o caos: separou luz e trevas, águas e firmamento, terra e mares, e fez brotar toda planta e fruto. Criou os luminares nos céus, as criaturas do mar, as aves e os animais da terra. No sexto dia, formou o homem à Sua imagem (b’tzelem Elohim) e lhe concedeu domínio sobre toda a criação, instruindo-o a frutificar, multiplicar-se e guardar a terra. No sétimo dia, o Eterno cessou Sua obra e abençoou o Shabat (descanso), separando-o como sinal entre Ele e os filhos dos homens, um tempo de descanso e lembrança da criação.

O Eterno formou Adam do pó da terra e soprou nele o fôlego da vida. Plantou um jardim no Éden e o colocou ali para cultivar e guardar o que lhe foi confiado. Vendo que o homem estava só, o Eterno formou Chaváh, auxiliadora e companheira, e os uniu como um só ser.

A serpente levou Chaváh a duvidar da palavra do Eterno. Ela comeu do fruto e deu também a Adam. Com isso, a harmonia se rompeu. A vergonha, o medo e a separação entraram na criação. O Eterno julgou a serpente, a mulher e o homem, e da terra brotariam espinhos e a dureza da terra levaria o homem ao suor, ao cansaço e a fadiga. Mesmo após o erro, o Eterno os revestiu de vestes de pele e os enviou do jardim, para que aprendessem a andar em obediência fora dele, aqui começa a teshuvah na prática.

Hevel ofereceu ao Eterno das primícias de seu rebanho, e Caim do fruto da terra. O Eterno atentou para Hevel, porque sua oferta veio com coração puro e obediente, mas rejeitou Caim, que não possuía um coração obediente como de seu irmão e por isso se encheu de ciúme e o matou. Mesmo assim, o Eterno marcou Caim para que ninguém o matasse, mais uma vez, misericórdia em meio ao juízo.

A Torá então nos mostra as descendências: Set (Shet) substitui Hevel e dele nasce uma linhagem de homens que começam a invocar o Nome do Eterno. Com o tempo, porém, a corrupção se espalha, e muitos homens se inclinam ao erro, levando o Eterno a constatar que “toda a inclinação do coração do homem era má continuamente”. Contudo, Noach achou graça aos olhos do Eterno, pois era um homem justo e bom em sua geração, separado da violência e da corrupção que enchiam a terra.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

No meio dessa porção da Torá, encontramos o primeiro drama do ser humano. O Eterno o havia feito correto e perfeito, cheio de luz que vinha do caráter de HaShem, dando-lhe algo diferente dos demais seres criados nesta terra, o poder de escolha. E com isso, deu ao homem uma instrução que logo foi rejeitada em prol de um desejo gerado pela inclinação para o mal, a serpente. Com isso, o homem antes cheio de luz, agora percebendo sua queda notou que estava nu, a luz não estava mais ali. A palavra do Eterno se cumpre e o homem morre após seu pecado. Depois de três dias o Eterno os refaz demonstrando misericórdia e oportunidade para o homem retornar a Ele. Algo interessante, pois Yeshua sendo justo acaba morto, mas ao terceiro dia o Eterno também o ressuscita. Lembre-se que os relatos da Torá são como profecias que apontam para o futuro, por isso, não estão exatamente em ordem cronológica. Este ato de criar túnicas ou roupas de pele relatado no texto, está ligado com a formação do ser humano após a queda. Veja o texto:

E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu. Gn 3:21

Apesar de tudo que aconteceu e da trágica consequência de seu pecado, ou seja, a morte, o Eterno aplica uma de suas mais marcantes características divinas, o amor. E podemos ver isso aqui, no início da Torá e também no fim dela, na porção que estudamos na semana passada, em Devarim 34:6. Isso é dito por um dos comentaristas da Torá, observe:

A Torá tem no seu princípio um ato de amor: “E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu.” E no fim, um outro: “E sepultou-o (o Eterno a Moshê) no vale, na terra de Moav” (Devarim 34:6) “A beneficência é uma das coisas sobre a qual se sustenta a humanidade.” (Midrash Ialcut 23)...(Comentário de Rodapé da Torah da Editora Sefer, pág 9)

No Chumash Plaut, a Torá da UJR, também há um comentário de rodapé sobre esse contexto, observe abaixo:

Ibn Ezra relata as diversas tentativas de explicar como a pele do animal passou a ser utilizada no jardim do Éden e conclui que não precisamos investigar cada ação do Todo Poderoso. Ele também sugere que “roupas para pele” é uma interpretação possível. O Targum Yonatan especula que era a pele trocada pela serpente. (Comentário de Rodapé página 26).

Na mesma Torá, há outro comentário sobre o assunto e diz o seguinte:

Dois sábios talmúdicos, Rav e Samuel, discutiram sobre o versículo que diz que D’us fez “roupas de peles para Adam e sua mulher”. Rav explicou que D’us os vestiu com algo “derivado de pele”(lã), enquanto Samuel o leu como “roupas para o bem da pele”. Ambos então concordaram que a pele de animais não foi o material do qual D’us fez as roupas. (Talmud Tratado Sotá 14a).

Há ainda muitas palavras ditas pelos sábios em midrashim comentando sobre a pele que o Eterno dá ao homem e à mulher. Estes comentários rabínicos advém da Torá Oral, são variações e falas diferentes, pois ela não pode ser escrita, então se utiliza de técnicas antigas com palavras chaves e histórias para guardar a verdade, que não posso aqui escrever e nem falar em live tais detalhes. Porém, apesar de tanto conhecimento que os judeus possuem e já transmitiram, conforme mostrei acima, ainda assim, o sistema cristão em todas as suas vertentes, despreza tudo e afirma que o Eterno teria matado um animal para fazer as roupas para o casal. Isso, segundo eles, gerou o primeiro sacrifício de animal para cobertura de pecado. Infelizmente, essa informação não poderia estar mais enganada. Vejamos então nos tópicos seguintes o contexto correto de todo esse ensino da Torá.


1. O Homem Criado em Luz e Pureza

No primeiro dia o Eterno cria a luz. Ela já fazia parte de si, pois está implícita em seu caráter. A Torá, em Bereshit 1:26-27, deixa claro que o homem foi criado b’tzelem Elohim, “à imagem de Elohim”. Essa expressão não fala simplesmente da forma física, pois o Eterno não tem forma, mas fala também do caráter e da essência moral, isto é, justiça, misericórdia e pureza. Percebemos aqui a demonstração que, enquanto andavam na obediência, o homem recém criado refletia a or – אור (luz) do Criador, a Torá. Por isso, antes da transgressão, não havia vergonha na nudez (Bereshit 2:25), pois a luz que havia neles não os permitia notar isso, e era do seu interior para o exterior que vinha esse revestimento de luz.

Quando o homem desobedeceu, a luz (or com alef – אור) foi perdida, e o Eterno providenciou e cobriu seu corpo, estando agora, ele “vestido de pele” (or com ayin – עור). Literalmente no texto em hebraico é assim que está escrito o termo pele. A diferença da letra na palavra é profunda, pois simboliza a transição da glória para a materialidade, da pureza para a condição de impureza e mortalidade. Antes um ser puro e próximo do Eterno, agora fraco e tendo que se esforçar muito para voltar a estar próximo do seu Criador. Aqui começa a Teshuvah para o homem.

Rav Shaul HaShaliach, conhecido como apóstolo Paulo, era um proeminente conhecedor da Torá e de seus segredos, tanto que também falou sobre esse assunto nesse contexto, observe:

Pois da mesma forma como em Adam todos morrem, no Mashiach todos serão vivificados. 1 Coríntios 15:22

Quando você semeia, não semeia o corpo que virá a ser, mas apenas uma simples semente, como de trigo ou de alguma outra coisa. Mas D’us lhe dá um corpo, como determinou, e a cada espécie de semente dá seu corpo apropriado. 1 Coríntios 15:37,38

Assim está escrito: “O primeiro homem, Adam, tornou-se um ser vivente”; o último Adam, espírito vivificante. 1 Coríntios 15:45

Quando lemos todo o contexto dessa carta de Paulo, entendemos o assunto da ressurreição e sobre como será os corpos dos justos no futuro. O primeiro homem é Adam, literalmente, aquele que foi criado em luz e santidade, mas caiu, o segundo Adam, é uma referência ao Mashiach Yeshua, criado em corpo mortal e com propensão ao erro, mas que fez o caminho oposto do primeiro, obedecendo em tudo, se tornando o exemplo de justiça. Por isso é tido, por Paulo nesta carta, como espírito vivificante, ou seja, ruach, mover ou poder que dá vida. Depois de observarmos com clareza a verdade, vamos para o que o engano diz.


2. O Engano: a ideia da morte de um animal

A doutrina que ensina que o Eterno matou um animal como sacrifício para vestir o homem não se encontra em lugar algum da Torá. Essa ideia foi introduzida muito tempo depois, especialmente por interpretações externas à tradição judaica, que buscavam vincular o texto a um dogma criado a partir de uma má interpretação do sistema de sacrifícios para cobertura de pecados pela culpa. Observe o erro em um comentário de rodapé da Bíblia Vida Nova diz sobre o verso que estamos estudando em Gn 3:21:

A tentativa feita pelo homem de cobrir-se com folhas, era tão inadequada como o desejo de desculpar-se pelo pecado. A provisão de D’us, fazendo-lhes vestimentas de peles, é o primeiro vestígio da exigência divina de uma vítima sacrificial que ofereça uma cobertura (propiciação: heb caphar) capaz de promover a reconciliação. (Bíblia Vida Nova, página 9).

Vou lhe apresentar um outro comentário que carrega o mesmo erro doutrinário, observe:

D’us, porém, lhes fez “túnicas de peles”, e assim ensinou, por uma figura, a necessidade da morte de uma vítima inocente para que o pecador pudesse ficar coberto e justificado perante D’us. “Sem derramamento de sangue não há remissão de pecados.” e em folhas de figueira não há sangue derramado. (A Bíblia Explicada, S.E McNair, Editora CPAD 1997, pág 20.).

Como disse, esta linha de raciocínio interpretativa vai contra o ensino da Torá a respeito de kapará, por sacrifícios. O objetivo do sacrifício é mostrar a quem foi ofendido, no caso o Eterno, que se está arrependido e quer fazer teshuvah. Como pode alguém pensar que o ofendido, faria ele mesmo o sacrifício para mostrar a si mesmo, que o ofensor (Adam) está arrependido? E notem que é daqui, que os teólogos tiram a bobagem de que JC sendo Deus, vem para fazer expiação dele mesmo, para aplacar a ofensa que o homem fez contra Ele, para que Deus possa ver que o homem se arrependeu. E chamam erroneamente isso de graça salvadora.

O texto é claro ao dizer que o Eterno fez “roupas de pele”, mas isso não é por acaso, e não está falando de uma roupa, como uma camisa ou uma túnica em si. A palavra no original fala de cobertura - כָּתְנוֹת – katenot, seu significado literalmente, cobrir como faria uma camisa, casaco, veste ou manto. Mas observe que sua raiz é katheph indicando que significa vestir a partir do ombro como extremidade superior, ou seja, desde cima. Indica também suporte apoio, isto significa que a cobertura era para cobrir e apoiar ou dar suporte ao homem, e isto em si, nos mostra a pele e não uma mera roupa. Além disso, a própria palavra pele, que está ligada a este termo que acabamos de ver confirma isso. Observe que pele é עור – or – significando também esconder, couro e pele. Esse termo é usado literalmente para pele humana, e em Ex 34:29, foi usada para descrever a pele do rosto de Moshê que brilhava, ou seja, estava irradiando luz divina, como Adam antes da queda. Com isso, podemos entender ser claro que o que o texto quer dizer é que o Eterno cobriu o homem com peles, pois antes era luz. A pele de carne cobriu o homem, até que volte no tempo certo, se fizer teshuvah, a ter corpo de luz novamente. Veja o que diz o verbo pela boca do profeta Yeshayahu:

É grande o meu prazer no Eterno! Regozija-se a minha alma em meu D’us! Pois ele me vestiu com as vestes da salvação e sobre mim pôs o manto da justiça, qual noivo que adorna a cabeça como um sacerdote, qual noiva que se enfeita com joias. Isaías 61:10

Portanto, sem informações claras como estas, os teólogos sugerirem que o Eterno matou um animal, naquele momento seria contradizer própria instrução de HaShem. Eles não levam em consideração também que a instituição de sacrifícios já vinha da Torá oral, pois Hevel oferece, tempos depois, oferta ao Eterno, dos animais que criava. Essa instrução não veio da confecção de uma roupa.

O que aconteceu, então?

O Eterno não matou, mas revestiu, criou uma nova cobertura para o homem, adequada ao seu novo estado. O homem deixou de ser envolto em luz e passou a ser envolto em matéria, carne, pele, limitação e mortalidade. Esse é o verdadeiro sentido de “kotnot ‘or” — vestimentas de pele, isto é, o corpo perecível que cobre o ser verdadeiro, agora sujeito à dor, ao tempo e à morte.

A ideia de “cobrir” é um tema recorrente nas Escrituras, isto é, no TaNaK, observe alguns paralelos:

- Tehilim 32:1 - Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, cujo pecado é coberto.

- Mishlei 10:12 - O amor cobre todas as transgressões.

Não há sangue, nem morte de animal aqui, mas transformação de condição, de vergonha para retidão, ou seja, vida de justiça através da obediência. No caso de Adam e Chaváh, a palavra se cumpriu, eles morreram literalmente como já disse, e se sangue é vida, a deles se foi, se esvaiu na morte, houve então remissão, e o Eterno os trouxe de volta a vida, agora diferente do que eram antes, para viverem de forma diferente, com a promessa de que um seria capaz de retornar perfeitamente ao Eterno e levar consigo, outros que viverem como ele, isto é, o messias e seus seguidores.

Nos escritos nazarenos vemos Yeshua também ensinando esse mesmo princípio, de maneira coerente com o TaNaK. Quando ele ensina a parábola do filho pródigo em Lc 15, conta que o pai, na parábola diz: Trazei depressa a melhor veste e veste-o. O pai não exige sacrifício, apenas cobre a vergonha do filho com amor. Também Rav Shaul escreve: … e se revistam da nova natureza, criada para a piedade, que expressa em si mesma a justiça e a santidade procedentes da verdade. Ef 4:24. Vemos aqui, o mesmo conceito, pois revestir é ser restaurado ao caráter do Eterno, não ser coberto por morte. Dessa forma, o que os escritos ensinam é retorno à luz, não dependência de sangue físico. A morte de um animal não é o fim, o retorno à obediência sempre foi o caminho para a volta da luz.


3. O Ato de Amor e Misericórdia

Mesmo após a desobediência, o Eterno não deixou o homem morto, mas lhe restaurou a vida e o revestiu com pele, permitindo esforçar-se para viver o que não conseguiu em glória, e o enviou para continuar seu caminho, com a possibilidade de retorno (teshuvá). Foi um gesto de chesed, benevolência pura, de amor.

E como vimos anteriormente, a Torá começa e termina com atos de chesed:

  • No início: “E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu.” (Bereshit 3:21)

  • No fim: “E o Eterno o sepultou no vale.” (Devarim 34:6)

O mesmo Eterno que cobre a nudez de Adam é o que cobre o corpo de Moshê, com misericórdia apesar de não lhe ter permitido entrar na terra. Do princípio ao fim, a Torá é revestimento de misericórdia.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Estudo da Parashá Bereshit - A sabedoria da Torah: A planta da criação.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 1 – Bereshit (No Princípio)

Bereshit/Gênesis 1.1-6.8

Haftará (separação) Is 42.5-43.10 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Jo 1:1-51; Mc 10:1-12 e Hb 1:1-3, 3:7-4:11


Tema: A sabedoria da Torah: A planta da criação


Essa semana reiniciamos o ciclo anual de estudos da Torah. Se você chegou agora no caminho da teshuvah e está começando o estudo da Torah nesse ciclo, pode consultar depois no blog: SouPeregrinonaTerra.blogspot.com.br, todos os estudos do ciclo passado publicados lá em texto, e estão disponíveis para pesquisa além de muitos outros estudos. Também os estudos estão disponíveis em vídeo nos canais do YouTube Sou Peregrino na Terra e Kahal Teshuvah Brasil.

Bereshit é o começo de tudo. É o primeiro livro da Bíblia, é a primeira porção de leitura e estudo das Escrituras, é a primeira palavra na Torah. O significado de Bereshit é tradicionalmente entendido como “no princípio”, mas é bem mais amplo que isso, e essa parashá é fundamental para compreendermos a criação do mundo e a origem da humanidade segundo a vontade do Eterno. Na parashá Bereshit estão descritos os eventos mais significativos do início de tudo que existe.


A PARASHÁ DA SEMANA

No resumo da parashá dessa semana vemos que o Eterno cria os céus/shamaym e a terra/haarets em seis dias. Cada dia traz um aspecto diferente da criação: a luz, a separação das águas, os astros celestes, os seres vivos nas águas, nos céus e na terra, até o ápice da criação, a humanidade. O homem é criado "à imagem e semelhança" do Eterno, e no sexto dia, o Eterno vê que tudo é muito bom. No sétimo dia, Ele descansa, estabelecendo o Shabat como um dia separado e sagrado.

A parashá relata como o Eterno formou o homem/Adam do pó da terra e soprou nele o fôlego de vida, tornando-o um ser vivo. O Eterno planta um Jardim no Éden, um lugar de abundância, e coloca o homem ali para cultivá-lo e guardá-lo. Elohim estabelece um princípio: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Depois, Ele cria a mulher/Chaváh, a partir de uma parte do homem, para lher ser uma companheira condizente.

A yetser haráh, na forma de uma serpente, engana Chaváh para que ela coma do fruto da árvore do conhecimento, ela não somente come, mas também dá a Adam. Eles desobedecem ao Eterno, seus olhos se abrem, e eles percebem que estão nus. Como consequência de seu erro morrem. Segundo a Torah oral três dias depois o Eterno os ressuscita sem a perfeição que tinham antes, e como consequência, conforme vemos nos textos da Torah, são expulsos do Éden, e o trabalho, a dor e a morte se tornam parte da vida humana.

O relato da história dos filhos de Adam e Chaváh é marcada pela inveja e pela violência. Caim, o primogênito, mata seu irmão Hevel por ciúmes, após perceber que o Eterno aceitou a oferta de Hevel e rejeitou a sua. O Eterno confronta Caim, que é amaldiçoado e condenado a ser errante sobre a terra.

Finalmente, a parashá também detalha as descendências de Adam e Chaváh, apresentando os nomes de seus filhos e as gerações que se seguirão, chegando até Noach, aquele que foi escolhido para sobreviver ao dilúvio que virá na próxima parashá.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Você pode pensar que a Toráh é apenas um livro religioso, pois o que lhe mostram e falam apontam para isso, o que você vê as pessoas falarem mostram um livro com relatos, leis e princípios estabelecidos. Entretanto, a cada estudo de parashá semanalmente, temos percebido que a Palavra do Eterno, a Toráh, é muito mais que isso. E nesse estudo vou apresentar alguns argumentos e entendimentos que corroboram para o fato de que a Toráh é a planta de toda a criação. Ela é o projeto que estabeleceu os parâmetros para tudo o que foi criado, e por isso Yochanan, o autor do evangelho/bessoráh, entendia muito bem isso. Você pode buscar o estudo dessa parashá no ano passado no blog ou no canal do Youtube, quando falamos da criação da luz.

A Toráh pode ser compreendida como o "projeto" ou a "planta" de toda a criação. As Escrituras nos mostram que a vontade e os mandamentos do Eterno, revelados na Toráh, formam uma estrutura fundamental sobre a qual o mundo foi criado e pelo qual ele é sustentado. E os sábios do povo de Yisrael, bem como estudos gemátricos corroboram para esse entendimento. Vamos então aprofundar um pouco mais este assunto sabendo que não temos a mínimo condição de esgotá-lo, mas de dar um ponta pé para o entendimento que é muito profundo.


A sabedoria do Eterno na criação

Observemos um texto interessante do TaNaK, conhecido como Antigo Testamento, que nos mostra que o Eterno usa algo importante, e que já existia, ao criar todas as coisas. Note que eu disse algo não alguém!


O Eterno, pela sua sabedoria fundou a terra, por sua compreensão estabeleceu o firmamento, Mishlei/Pv 3:19


A "sabedoria" aqui mencionada é muitas vezes entendida como a própria Toráh, pois a Toráh contém parte da sabedoria infinita do Eterno. Assim, podemos ver que HaShem usou Sua sabedoria, expressa na Toráh, como o fundamento da criação. Segundo as Escrituras e a tradição judaica, a Toráh já existia antes da criação do mundo. Já comentei algo a respeito disso em minhas lives de Comentário do livro Pirkei Shimon de Bruno Summa, que você pode buscar no meu canal no YouTube. Esse entendimento, de que a Toráh já existia é sugerido, por exemplo, em Tehilim/Salmos 119:89, onde lemos:


A tua palavra, ó Eterno, para sempre está firmada nos céus.

Isso demonstra que a palavra do Eterno, que inclui Suas instruções e mandamentos, estava presente e ativa antes mesmo da criação do mundo material. A Torá que foi inicialmente dada ao povo de Yisrael, reflete a ordem e a justiça com as quais o Eterno governa toda a criação, pois ela é ampla, ou seja, além da escrita entregue ao povo no Sinai. A palavra "Toráh" significa instrução, direção ou ensino. No livro de Devarim /Deuteronômio 30:19-20, o Eterno nos diz que a escolha de seguir a Toráh é a escolha pela vida:


"Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando ao Eterno teu Elohim, obedecendo à Sua voz, e apegando-te a Ele."


Isso nos mostra que a Toráh contém as instruções essenciais para a vida, essas mesmas instruções são reflexos da ordem do universo. Assim como o Eterno distribuiu leis físicas para governar o mundo natural, Ele deu a Toráh como leis espirituais e morais para governar a vida humana em harmonia com a criação. Vejamos então, como podemos aprender ainda mais, pois a primeira palavra dessa parashá é significativamente importante, e carrega uma quantidade enorme de ensino.

Bruno Summa, em seu livro Sha’arei Torah – Portões da Torah – Bereshit 1, onde comenta essa parashá, diz que o significado preciso da palavra BERESHIT pode ser um tanto enigmático. Ele afirma que pela tradução simples e literal, a qual estamos acostumados na língua portuguesa, seu significado seria “no início” ou “no princípio”, no entanto, se esse fosse o caso, diz o autor, a Toráh não começaria com BERESHIT e sim com BARESHIT, já que “no princípio” deixa implícito um princípio único e específico, pois na palavra “no” se esconde o artigo “o”, o qual define a esse princípio. De acordo com o autor, a diferença entre as preposições na língua hebraica Ba e Be é que a primeira define o substantivo enquanto a segunda não, ou seja, BERESHIT, por não possuir artigo, deve ser compreendido como “em um princípio”, um dentre outros.

Segundo o mencionado autor, a respeito desses entendimento, os sábios do povo de Yisrael ensinam que o “princípio” relatado pelo sefer/livro de Bereshit é, na verdade o oitavo “princípio”, pois antes dele, sete outras coisas tiveram seus princípios, a saber:

- a Torah, a qual foi criada para estabelecer como toda a criação deveria se comportar em relação ao estabelecimento da vontade do Eterno nessa realidade;

- O Trono da Glória, o local de onde provém toda emanação de HaShem;

- A Teshuvah, sem a qual o mundo não se sustentaria;

- O Gehinam, que representa a jsutiça divina;

- O Gan Edem, que é o mérito do Tzadik;

- O Nome do Mashiach, a quem tudo será dado; e

- O Beit Hamikdash ou Templo Sagrado, a habitação do Criador em meio ao seu povo.

E isso é dito também pelo Talmud Bavili.


O mesmo autor, ainda diz que, outra prova de que o “no princípio” conforme Gn 1:1 não é “o princípio”, encontra-se na própria palavra BERESHIT. Caso a Toráh estivesse falando sobre o primeiro e único princípio de todas as coisas, a palavra de abertura da Toráh deveria ser BARESHONAH – בראשונה, termo que possui um significado mais preciso sobre um “início absoluto” do que BERESHIT – בראטית.

Podemos perceber quanto é profundo o entendimento da Toráh. A palavra BERESHIT, conforme já dissemos é a primeira palavra, mas ela começa com a segunda letra do alfabeto hebraico, e isso também traz um ensino profundo. A escolha do Eterno para que a Toráh comece com a letra Beit - ב na palavra Bereshit é rica em significados profundos. Embora não haja uma explicação direta nas Escrituras sobre essa escolha específica, a tradição judaica e os estudiosos das Escrituras meditaram sobre o simbolismo dessa letra e seu lugar no início da Toráh, revelando assim, um ensino importante.

A letra Beit tem um formato que se abre para frente, mas é fechado por trás. Isso indica que a Toráh escrita começa a partir de um ponto em que o passado (o que veio antes da criação) estava além do nosso conhecimento, conforme já mencionamos acima. O homem deve focar no que está à frente (o que é revelado) e não se concentrar no que está oculto ou antes da criação do mundo, pois isso pertence apenas ao Eterno, embora ele tenha revelado muita coisa através da Torah oral. A palavra Beit é associada a "casa" (Bait em hebraico). A criação do mundo é como uma casa que o Eterno preparou para a humanidade. Dessa forma, assim como o homem habita em uma casa, o Eterno criou os céus e a terra como uma "morada" para Suas criaturas. Começar com a letra Beit pode significar que o mundo é a "casa" que o Eterno coloca para a humanidade, e esta é chamada a cuidar e preservar essa criação conforme as instruções do Eterno.

Outra coisa interessante é que a letra Beit é a segunda letra do alfabeto hebraico, tendo o número dois como seu valor numérico. Alguns estudiosos enxergam nisso uma representação da dualidade presente na criação, observe: os céus e a terra, a luz e a escuridão, o homem e a mulher, o bem e o mal. Isso reflete o equilíbrio e a interação de forças opostas no mundo criado pelo Eterno, estabelecendo o princípio da escolha ou livre arbítrio. O Beit, sendo a segunda letra, nos revela que a criação não começou com a letra Alef, a primeira letra, pois Alef - א representa o Eterno, que é único e anterior a toda a criação. A criação começa com a segunda letra, o Beit, estabelecendo que o mundo já foi criado em um estado onde existe o "dois", ou seja, a possibilidade de escolha e dualidade. Isso reflete o livre-arbítrio dado à humanidade, que deve escolher entre o caminho da obediência ou da desobediência.

Por isso, o fato de a Toráh não começar com Alef, a primeira letra, pode nos ensinar que o Eterno não revela o princípio absoluto de todas as coisas naquele momento, pois Ele está além da compreensão. Mas a revelação que Ele nos deu, a partir de Beit, comprova que havia outros princípios, isso é suficiente para que possamos seguir Seus ensinos e viver de acordo com Sua vontade. O homem deve começar seu entendimento da criação a partir da revelação da divina, sem tentar buscar além do que foi mostrado. Assim, a escolha de Beit em "Bereshit" nos instrui sobre o equilíbrio, a dualidade do mundo, a criação como uma morada para a humanidade, e que a Toráh, sendo a planta da criação, é nossa porta de entrada para entender a vontade do Eterno e o propósito da existência.

É importante que tenhamos em mente, que ao buscarmos um entendimento mais profundo dessas primeiras palavras da Toráh, é que segundo Bruno Summa, ela não fala sobre o princípio de algo como normalmente imaginamos, mas o relato da criação de todas as coisas não nos foram revelados para sabermos que um dia houve um início, mas sim como tudo foi criado, os motivos que foram criados e para quê foram criados. Esse entendimento revelam os verdadeiros segredos que estão por trás de cada ato da criação pelo Eterno.


A Toráh como a Planta da criação

Conforme já mencionamos, a Toráh, criada antes de outras coisas, é a planta da criação, e se é assim, como deveríamos compreender esse primeiro verso da parashá Bereshit?

Mais uma vez, podemos voltar ao TaNaK, pois Sh’lomor Hamelech/Rei Salomão escreveu algo que o Eterno lhe revelou.


O Eterno me criou como o princípio de seu caminho, antes das suas obras mais antigas. Pv 8:22


Algumas pessoas que não conhecem a forma original de interpretar as Escrituras consideram este verso como uma referência à pré existência de JC, mas isso está totalmente fora do contexto, pois conforme estamos mostrando no estudo, a Torah é a sabedoria do Eterno, e ela foi criada antes. Note que Brunno Summa em seu livro já mencionado aqui, faz uma leitura desse verso de forma diferente, mas correta e em concordância com o contexto das Escrituras e da tradição judaica. Observe:


Adonai me criou (Toráh) como RESHIT (início) de Seu curso, como a primícia de Seus trabalhos na antiguidade. Pv 8:22


É demonstrado que Salomão afirma que a Toráh foi criada pelo Eterno no começo de tudo, aludindo à criação das criações. Há um midrash que trata desse assunto, observe abaixo:


Existe também um comentário sobre Rashi no Daat Zkenim, observe:


Rashi entende a palavra RESHIT em referência à Toráh, pois é chamada de RESHIT em outro lugar.


Essa afirmação de Rashi se dá porque em Tehilim/Salmos encontramos um verso que nos confirma o pensamento.


Então, ao lermos cada uma das referências mencionadas acima e compreendendo que Be aponta para o termo “pela” e RESHIT seria um apontamento para a “Toráh”, poderemos reler o primeiro verso de Bereshit da seguinte forma:


Pela Toráh criou Elohim os céus e a terra. Gn 1:1


Podemos ainda verificar o que estamos falando pela gematria da palavra BERESHIT:


BERESHIT - בראשית 

= 913

Esse é o mesmo valor de uma frase, veja:

BATORAH YATZARבתורה יצר – COM A TORAH FORMOU

= 913

Há um outro segredo gemátrico que encontramos através da observação através do contexto original, olhando para o ensino do povo de Yisrael. Vimos que BERESHIT tem valor 913, e que ele aponta para a Toráh. Esta é composta por 5 livros conhecido como Chamesh, no entanto, o livro de Bamidbar/Números seria subdividido em três livros, o que geraria o total de 7 livros na Torah, e conhecida como Sheva – sete, uma palavra que possui o seguinte valor:


SHEVAשבע – Sete

= 372

Sabendo que a Torah foi entregue a Yisrael, vejamos o valor dessa palavra:


Yisraelישראל

= 541

Assim, podemos perceber que se juntarmos a Torah de sete livros com o povo que o recebe, encontramos o real propósito da criação, observe:


Yisrael-541 + Sheva-372 = Bereshit-913


Dessa forma, conforme Bruno Summa fala, tudo que HaShem criou, gerou e formou, foi antes idealizado por Ele e escolhido nas letras e nas palavras que formam a Torah nas esferas espirituais.


A Harmonia entre a criação e a obediência à Toráh

Com tudo que já vimos até agora, percebemos que a obediência à Toráh não é apenas um aspecto moral, mas também uma forma de viver em harmonia com o universo que o Eterno criou. Quando o homem segue os princípios do Eterno, ele vive de acordo com o projeto da criação. Se olharmos para as instruções sobre Shabat, por exemplo, vemos que o descanso no sétimo dia reflete o próprio padrão da criação, conforme relatado em Bereshit 2:2-3, onde o Eterno deixou de criar no sétimo dia. Assim, a vida humana deve espelhar a ordem da criação que está embutida na Toráh.

O relato da criação em Bereshit nos mostra que o Eterno trouxe ordem do caos, separando luz e escuridão, águas e terra, e criando todas as coisas em sequência, de acordo com Sua vontade. Da mesma forma, a Torá estabelece ordem na vida humana, mostrando como o homem deve viver de acordo com os princípios para que haja harmonia na criação. O Eterno criou o mundo com um propósito, e esse propósito é baseado e revelado na Toráh, já que ela é anterior. Quando o homem desobedece às instruções da Toráh, ele perturba essa harmonia, como vimos com o pecado de Adam e Chaváh e suas consequências para toda a criação.

Não é à toa o que o salmista escreve em Tehilim/Salmos 119:105:


Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho.


Isso nos ensina que a Toráh, como a planta ou projeto do Eterno, sendo a luz, ilumina o caminho da vida, guiando o homem para andar de acordo com o propósito pelo qual foi criado. Assim como uma planta arquitetônica guia a construção de uma casa, a Toráh guia a construção de uma vida em alinhamento com o projeto divino da criação.

Portanto, ao finalizar nosso estudo, tenhamos em mente que ao estudarmos e obedecermos à Toráh, estamos nos conectando ao projeto original do Eterno para o mundo e para a humanidade. A Toráh revela os princípios eternos que sustentam a criação e a vontade do Eterno, para que vivamos em harmonia com esses princípios. Ela é, em essência, o "plano mestre" que o Eterno percorreu desde o início. Que possamos seguir esse plano com firme confiança, vivendo de acordo com suas instruções.


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)