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quinta-feira, 8 de maio de 2025

Estudo da Parashá Acharei Mot e Kedoshim - Santidade, o caminho prático.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 29 – Acharei Mot (Depois da Morte)

Vayikra/Levítico 16:1-18:30

Haftará (separação) Ez 22:1-19 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Rm 3:19-26 e 9:30-10:13

Parashá nº 28 – Kedoshim (Povo Santo)

Vayikra/Levítico 19:1-20-27

Haftará (separação) Am 9:7-15 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 5:33-48.


Tema: Santidade, o caminho prático.


Com temor e reverência diante das Palavras do Eterno, e com coração disposto a ouvir e obedecer, na parashá dessa semana nos aproximamos de um dos chamados ou mandamentos mais profundos e transformadores das Escrituras: “Santos sereis, porque Eu sou santo” (Vayicrá 19:2). Este chamado não é uma proposta teórica, nem um ideal distante reservado aos separados por título ou posição; é um convite direto do Criador para todo aquele que deseja andar em Seus caminhos. Neste estudo, buscamos compreender como a santidade é vivida — não apenas declarada — e como ela se manifesta em obediência prática, justiça no cotidiano, amor ao próximo e separação do mal. Através da Torá, dos Profetas, dos ensinamentos de Yeshua e dos seus enviados, e mesmo nas palavras refletidas por alguns dos sábios, vemos um fio contínuo: a santidade é uma expressão viva da confiança firme e da aliança com o Eterno. Ela não se resume a práticas externas, mas se revela no caráter, nas escolhas, e na forma como tratamos o próximo. Este pequeno estudo propõe-se a ampliar e aprofundar esse entendimento, chamando todos a retornarem à essência da santidade conforme as Escrituras.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Após a morte dos filhos de Aharon (Nadav e Avihu), o Eterno ordena como o Sumo Sacerdote deve entrar no Lugar Santíssimo – somente uma vez ao ano, em Yom HaKippurim, com sacrifícios específicos e pureza extrema. Este é o centro do serviço de expiação, mostrando que a aproximação ao Eterno exige temor, ordem e purificação. E estabelece que todo sangue deve ser derramado perante o altar e proíbe o consumo de sangue – “porque a vida da carne está no sangue”, mostrando que a vida pertence ao Eterno. A Torá apresenta os mandamentos sobre pureza moral, proibindo práticas das nações, especialmente imoralidades sexuais. O povo de Yisrael é chamado a diferenciar-se das nações, vivendo conforme a santidade do Eterno.

O Eterno declara: “Kedoshim tihyu – Santos sereis, porque Eu, HaShem, sou santo” (Vayicrá 19:2). Esta parashá apresenta instruções sociais, éticas e rituais que formam o coração da vida em santidade:

  • Respeitar pai e mãe;

  • Guardar os Shabatot;

  • Não roubar, não mentir, não oprimir o próximo;

  • Julgar com justiça;

  • Deixar parte da colheita para os pobres e estrangeiros

  • Não guardar ódio, nem vingar-se;

  • Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Essa santidade é vivida no dia a dia – na honestidade, na justiça e na separação de costumes das nações.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A santidade como prática diária de obediência ao Eterno é um dos temas mais repetidos e aprofundados em toda a Torá, nos escritos dos profetas, e também nos ensinos de Yeshua e dos seus enviados. Não se trata de um estado místico reservado a poucos, nem de uma ideia abstrata distante da realidade do ser humano. Ela é, pela Torá, uma convocação direta, possível e necessária:


Santos sereis, porque Eu, HaShem, vosso Elohim, sou santo” Vayicrá 19:2

Essa declaração não é poética, é instrucional. O Eterno não nos chama para algo inatingível, mas nos convida a andar com Ele de maneira justa, pura e reta — vivendo os Seus mandamentos com integridade em cada aspecto da vida.


1. A santidade vivida no cotidiano

Na Torá, a santidade é demonstrada através de ações concretas no dia a dia, como deixar as pontas da colheita para o necessitado, justiça nos negócios, julgar com justiça, guardar o Shabat, honrar os pais, não guardar ódio no coração, não difamar, e amar o próximo como a si mesmo. São ações e decisões tomadas em conformidade com a instrução dada pelo Eterno por meio de Sua Palavra, Torá. O Eterno espera santidade de seu povo.


Eu sou o Eterno que os tirou da terra do Egito para ser o seu Elohim; por isso, sejam santos, porque eu sou santo. Lv 11:45


Consagrem-se, porém, e sejam santos, porque eu sou o Eterno, o Elohim de vocês. Lv 20:7


Vocês serão santos para mim, porque eu, o Eterno, sou santo, e os separei dentre os povos para serem meus. Lv 20:26


Ao estudarmos os textos bíblicos, não apenas os mencionados aqui, percebemos claramente que cada uma dessas ações concretas revelam que a verdadeira separação ao Eterno não está em rituais vazios, em meras liturgias legalistas, nem muito menos em cultos desprovidos de verdade, mas em um viver alinhado com a Sua vontade. Conforme Yeshua falou a uma certa mulher samaritana:


No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Jo 4:23


Yeshua estava ensinando sobre santidade e obediência prática, acima de liturgias criadas por homens. A santidade não é isolamento do mundo, mas transformação do mundo através da obediência. Santidade é obediência contínua e prática aos mandamentos do Eterno, principalmente, seguindo o exemplo do messias Yeshua. Vamos falar mais sobre isso no próximo tópico.


2. Santidade além do ritual: a expressão da justiça

Os profetas foram vocacionados pelo Eterno para despertar a consciência adormecida do povo. Eles constantemente denunciaram o povo por pensarem que a santidade se resumia a rituais e sacrifícios, enquanto negligenciavam o juízo, a misericórdia e a fidelidade. Eles não aboliram a Torá, mas chamaram o povo a lembrar do que ela realmente exige. Yeshayahu, por exemplo, denuncia os que continuam oferecendo sacrifícios enquanto praticam a injustiça, observe o texto:


"Para que me oferecem tantos sacrifícios? ", pergunta o Senhor. Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos; não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes! Quando lhes pediu que viessem à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés em meus átrios? Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembléias cheias de iniqüidade. Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais! Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva. Is 1:11-17


A santidade, para ele, não se manifesta no incenso, mas na limpeza das mãos sujas de sangue, na defesa dos órfãos e das viúvas. O Eterno não estava dizendo que não queria sacrifícios em cumprimento à sua palavra, mas que a vida dos ofertantes estivessem santificadas, que não estivessem agindo com hipocrisia. O profeta Mikhah resume toda a Torá em três palavras: justiça, misericórdia e humildade.


Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom, e o que o Eterno exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu D’us. Mq 6:8


Ele não reduz os mandamentos, mas mostra seu coração, demonstra que HaShem espera que façamos o que é correto, simplesmente porque é correto e por amor a ele. O que é correto está definido em suas palavras. Observe também o que diz Yirmeyahu


Não confiem em palavras enganosas: "Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor! " Mas se vocês realmente corrigirem a sua conduta e as suas ações, e se, de fato, tratarem uns aos outros com justiça, se não oprimirem o estrangeiro, o órfão e a viúva e não derramarem sangue inocente neste lugar, e se vocês não seguirem outros deuses para a sua própria ruína, então eu os farei habitar neste lugar, na terra que dei aos seus antepassados desde a antigüidade e para sempre. Jr 7:4-7


Vimos assim, que os profetas reforçam o que a Torá já ordenava: a santidade exige vida reta diante do Eterno e do próximo. Ser santo, portanto, não é fazer parte de um grupo exclusivo, mas viver de forma que o mundo veja, em cada ação nossa, o reflexo do Eterno.


3. Restaurando a santidade real e interior

Mais uma vez afirmo que Yeshua nunca contradisse a Torá. Pelo contrário, ele a levou à sua profundidade mais pura. Demonstrando em suas atitudes que sua obediência é na prática diária. Ele desmascarou o engano de viver a aparência do mandamento sem guardar sua essência. Ao dizer “não penseis que vim abolir a Torá”, observe:


"Não pensem que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Torá a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus". Mt 5:17-20


Ele reafirma que a verdadeira santidade requer mais do que rituais e legalismos: ela exige coerência interior, justiça, misericórdia e firme confiança no Eterno.


Ai de vós, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas desprezais os preceitos mais importantes da Torá: justiça, misericórdia e confiança. Vocês devem fazer estas coisas, sem omitir aquelas. Mt 23:23


Veja ainda Yochanan 17:17:


Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.


Yeshua afirma que a santidade vem pela obediência à Palavra do Eterno. Quando ensina sobre perdoar, sobre reconciliar-se antes de trazer uma oferta, sobre tratar com honra até mesmo os inimigos, Yeshua está restaurando o que sempre esteve na Torá: que a obediência ao Eterno passa pelo modo como tratamos uns aos outros.


4. Santidade como identidade e missão

Kefa, que viveu com Yeshua e aprendeu diretamente dele, repete as palavras da Torá:


Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: "Sejam santos, porque eu sou santo". 1Pe 1:15-16.


Ele não se dirige a religiosos, mas a pessoas comuns como agricultores, pescadores, viúvas, estrangeiros. Ou seja, todos podem e devem viver em santidade.

Yaakov, conhecido como Tiago, outro enviado, diz que a verdadeira “religião” é visitar os órfãos e viúvas e guardar-se incontaminado do mundo (Yaakov 1:27). Ele entendia que a separação do mal e o amor prático são indissociáveis. Os enviados ensinaram que a santidade envolve separação dos caminhos mundanos e uma vida ativa de prática dos mandamentos. Veja o que Rav Sha’ul diz:


Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de D’us que apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável ao Eterno, que é o vosso culto racional. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de D’us. Rm 12:1-2


A santidade, portanto, não é apenas um mandamento; é uma identidade que molda nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossas prioridades.


5. Ecos de uma verdade eterna

Mesmo os sábios, ainda que por caminhos muitas vezes distantes da simplicidade da Torá, reconheceram que a santidade não se mede pelo saber ou pelo rito, mas pela vida íntegra.

Ramban, por exemplo, afirmou que alguém pode cumprir todos os mandamentos técnicos e ainda ser um “naval bereshut haTorá” (um devasso dentro dos limites da Torá). Assim, a santidade exige moderação, consciência, zelo, e temor do Eterno.

Rabi Akiva também resumiu: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" é um grande princípio da Torá. Isso demonstra que a santidade verdadeira se manifesta, inevitavelmente, em amor e justiça.

Concluindo nossa reflexão, a santidade não é um fardo, é um caminho. Um chamado de amor do Eterno para que sejamos reflexo da Sua luz em um mundo cheio de escuridão. Viver em santidade é viver com consciência, com justiça, com humildade, com temor ao Eterno e amor ao próximo.

Quem ama o Eterno, segue os Seus mandamentos. Quem anda em santidade, vive em retidão, não para ser visto pelos homens, mas para agradar Àquele que vê o coração.

Que possamos andar nesse caminho de obediência, dia após dia, até que toda a terra esteja cheia do conhecimento do Eterno, como as águas cobrem o mar.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Estudo da Parashá Tazria e Metsorá - O Sinal para Arrependimento e Concerto

 


Estudos da Torá

Parashá nº 27Tazria (Conceber)

Vayikra/Levítico 12:1-13:59

Haftará (separação) 2Rs 4:42-5:19 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 8:1-4; 11:2-6.

Parashá nº 28Metsora (Afligida)

Vayikra/Levítico 14:1-15:33

Haftará (separação) 2Rs 7:3-20 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 9:20-26.


Tema: O Sinal para Arrependimento e Concerto


Na parashá dessa semana, convido você a refletirmos juntos sobre algo que vai muito além da aparência. Vamos entrar em um tema que, à primeira vista, pode parecer distante ou estranho — manchas em roupas, paredes manchadas, pessoas isoladas com aflições visíveis no corpo... Mas se olharmos com olhos atentos à voz do Eterno, perceberemos que estas imagens falam, e falam alto!

Estamos prestes a estudar duas porções da Torá — Tazria e Metsorá — que tratam da tzaraat, uma aflição física que alcançava a pele, os tecidos e até as casas. Mas será que isso era apenas uma doença? Ou o Eterno estava nos ensinando algo muito mais profundo? Qual apontamento profético encontramos com este assunto?

Estas porções revelam que o Eterno nos dá sinais visíveis quando há algo invisível que precisa ser tratado. Algo que está nos afligindo de dentro para fora, um pecado escondido, seja intencional ou não. HaShem não nos abandona em nossos erros — Ele nos alerta. Ele nos chama ao arrependimento antes do juízo. E isso continua valendo hoje.

Vivemos tempos em que é fácil esconder impurezas atrás de aparências, palavras bonitas ou rotinas religiosas. Mas o Eterno vê o interior da casa. Ele examina nossas vestes. Ele toca aquilo que precisa ser purificado. Por isso, considerei o título desse estudo muito apropriado: “O Sinal para Arrependimento e Concerto”. Vamos observar alguns apontamentos proféticos para as roupas e casas contaminadas e aprender com eles.

Que você abra o coração para ouvir. Que suas paredes falem. Que suas vestes sejam examinadas. Que haja arrependimento onde for necessário — e que, acima de tudo, você descubra o caminho de retorno ao Eterno. Vamos juntos buscar entendimento na Torá do Eterno, e que este estudo seja um instrumento para nos tornarmos um povo verdadeiramente puro, limpo e separado para Ele.

RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Ao estudamos as parashiot Tazria e Metsorá juntas, somos levados a refletir profundamente sobre a kedushá (separação/santidade) que o Eterno exige de Seu povo. Em Tazria o tema central é a pureza relacionada ao nascimento e à tzaraat (aflição da pele). E em Metsorá vemos a purificação da pessoa afligida por tsaraat, e também vemos as impurezas físicas de homens e mulheres.

A mulher que dá à luz passa por um tempo de separação. Se for filho homem, sete dias; se for filha, quatorze dias (Vayikrá 12:2-5). Após o tempo, oferece-se um sacrifício de purificação. Apresenta-se o diagnóstico de uma aflição física (erroneamente chamada de "lepra"), que simboliza impurezas causadas por comportamentos internos, como o lashon hará (maledicência). E a pessoa com tzaraat precisa ser examinada por um cohen (sacerdote), e se for declarada impura, deve isolar-se fora do acampamento. A impureza atinge também roupas.

Um ritual detalhado de purificação, com aves, madeira de cedro, escarlate e hissopo é descrito. Isso mostra que o retorno à comunidade exige não apenas cura física, mas mudança interior. Quando manchas aparecem em roupas ou nas paredes da casa, é necessário que o cohen examine. A casa pode ser purificada ou, em casos extremos, destruída. Homens e mulheres que têm fluxos corporais precisam passar por um período de separação e purificação, revelando o valor da santidade até nas ações mais naturais da vida. Toda separação e reintegração demonstram que o povo de Yisrael deve ser kadosh (separado), como o Eterno é Kadosh. O Eterno deseja habitar no meio de um povo puro, tanto no corpo quanto no coração.

ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Antes de iniciar o estudo e comentários vamos ler os textos bíblicos referentes ao tema deste estudo.

- Tzaraat nas roupas - Vayikrá 13:47-59

- Tzaraat nas casas - Vayikrá 14:33-57

Em meio às santas instruções do Eterno, reveladas ao povo de Yisrael no deserto, duas porções da Torá — Tazria e Metsorá — nos conduzem por um caminho de reflexão profunda sobre pureza, arrependimento e restauração. O tema da tzaraat (aflição visível na pele, roupas e casas) não é apenas um ensinamento sobre doenças ou impurezas cerimoniais, mas um sinal divino que aponta para a necessidade de arrependimento e concerto com o Eterno, devido a alguma transgressão partindo do interior do indivíduo.

A tzaraat não surge ao acaso. Quando ela aparece na casa, nas roupas ou na pele, é como se o Eterno estivesse acendendo um alerta visível ao indivíduo ou à comunidade, chamando-os ao retorno, à teshuvá. Ela revela que a impureza não se esconde por muito tempo, e que o Eterno, em Sua misericórdia, primeiro nos alerta antes de nos julgar e aplicar a punição. Vamos aprofundar um pouco mais. Siga comigo até o final.


1. A tzaraat nas roupas e nas casas: o que representa?

A Tzaraat em casa e nas roupas é uma revelação muito profunda da Torá sobre a forma como o Eterno nos comunica que há impurezas escondidas em nosso viver. O Eterno não vê apenas por fora, ele sonda tudo, até mesmo os ambientes que criamos e onde habitamos.

Em anos anteriores já estudamos sobre esse sinal no ser humano e seus apontamentos, mas nesse ano, vamos nos ater ao sentido profético que há quando isso ocorre antes de atingir a pele do homem. Sim, pelo que podemos entender, era um estágio, níveis de contaminação que o Eterno ia permitindo que ocorresse até que o homem se arrependesse e fizesse teshuváh. Primeiro aparecia o sinal na casa, depois nas roupas e se não houvesse correção, o último estágio, apareciam as manchas na pele. Era o Eterno dando oportunidade de mudança de vida, de arrependimento e concerto.

Em Vayikrá 13:47-59 e 14:33-53, textos que lemos antes, vimos que tzaraat podia atingir não apenas pessoas, mas também roupas e casas. E isso não é um mero relato, é um apontamento profético com representações claras nos textos. Como já mencionei, são níveis de sinal que o Eterno mostra. O primeiro é a casa, que representa o ambiente onde habitamos, os relacionamentos e estruturas que construímos, seja em nosso lar, no trabalho ou congregação. Quando o Eterno permite que uma mancha surja nas paredes da casa, está revelando que há algo impuro em nosso interior que está transbordando para o lugar onde vivemos, tendo a possibilidade de contaminar outras coisas dentro de casa. Essas contaminações podem ser contendas, maledicência (lashon hará), injustiças ou ganância.

A casa deve refletir a kedushá ou santidade, conforme entendemos do que Moshê disse:


Pois HaShem, teu Elohim, anda no meio do teu acampamento, para te livrar e te entregar os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que Ele não veja em ti coisa indecente e se afaste de ti. Devarim 23:14


O texto é profundo, não trata apenas de limpeza e higiene, mas de coisas mais profundas, trata de coisas que estão no íntimo de quem as habita. Aqui vemos que o espaço físico onde habitamos deve ser limpo e separado, pois o Eterno caminha entre nós. Assim como o acampamento de Yisrael precisava ser puro, as casas hoje também devem ser lugares onde o Nome do Eterno é honrado.

Da mesma forma, o segundo nível, ultrapassou as paredes da casa e atinge as roupas. E elas simbolizam nossas ações externas, ou seja, nossos atos de justiça, nossas práticas. Isto é, aquilo que mostramos ao mundo, e se as roupas estão manchadas, é porque nossas obras estão contaminadas por impureza moral, como orgulho, mentira ou desonestidade, e isso é fruto de transgressão a vários mandamentos da Torá.

A vestimenta representa ações justas, vemos em Yeshayahu 64:6 que diz:


Todos nós somos como impuro, e todas as nossas justiças como trapo de imundícia...


Perceba que a roupa impura é usada como símbolo de ações humanas contaminadas. A tzaraat na veste mostra que até nossas obras externas devem ser limpas diante do Eterno, caso contrário, serão rejeitadas.


2. O caso de Gechazi: um exemplo vivo

Podemos encontrar no TaNaK exemplo sobre o que estamos falando. Um exemplo marcante nas Escrituras é o de Gechazi (Geazi), servo do profeta Elishá (Eliseu), que lemos em Melachim Bet/2Rs 5. Este moço, movido pela ganância, mentiu para receber presentes de Naamã, contrariando a instrução do profeta e a vontade do Eterno. Como resultado, a tzaraat que havia deixado o sírio recaiu sobre ele e sua descendência.

Este episódio mostra e comprova que a tzaraat é uma consequência visível de uma corrupção interna. O coração de Gechazi, mesmo servindo ao Eterno como moço do profeta, estava impuro, e isso se manifestou externamente. O Eterno sonda e revela o que está oculto, lemos também sobre isso em Yov/Jó 34:21-22:


Porque os olhos d’Ele estão sobre os caminhos do homem, e vê todos os seus passos. Não há trevas nem sombra de morte onde possam esconder-se os que praticam o mal.

A tzaraat que surge em roupas e casas revela que o Eterno torna visível o que está oculto, chamando o homem ao arrependimento antes que seja tarde. Isso nos ensina que o Eterno trata com seriedade as inclinações do coração, e que toda desobediência, se não for confessada e corrigida, contamina também as futuras gerações. E essa confissão é ao Eterno, a correção é a mudança de vida que volta ao caminho da obediência aos mandamentos do Eterno. Isso leva à purificação.

A tzaraat nos lares e vestes tem um reflexo profético. O profeta Chagai, em Chagai/Ageu 2:10-14) diz que:


No dia vinte e quatro do nono mês, no segundo ano do reinado de Dario, a palavra do Senhor veio ao profeta Ageu: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Pergunte aos sacerdotes sobre a seguinte questão da Lei: Se alguém levar carne consagrada na borda de suas vestes, e com ela tocar num pão, ou em algo cozido, ou em vinho, ou em azeite ou em qualquer comida, isso ficará consagrado? ’” Os sacerdotes responderam: "Não". Em seguida perguntou Ageu: “Se alguém ficar impuro por tocar num cadáver e depois tocar em alguma dessas coisas, ela ficará impura?” ”Sim”, responderam os sacerdotes, "ficará impura". Assim é este povo e assim é esta nação diante de mim, diz HaShem; assim é toda obra das suas mãos; e tudo o que ali oferecem é impuro.


Ou seja, até os atos religiosos tornam-se impuros se os corações e os lares não forem purificados.


3. Yeshua e os shaliachim: o chamado ao concerto interior

Apesar de muitos não compreenderem, Yeshua, o emissário fiel do Eterno, não ignorou as instruções da Torá que estão em Vayikrá. Quando em um determinado dia curou um homem com tzaraat, lemos em Marcos 1:40-44, ele ordenou que este cumprisse tudo o que Moshê ensinou, oferecendo sacrifícios e apresentando-se ao kohen. Isso por sí, prova que Yeshua não veio anular a Torá, mas confirma seus princípios eternos.

Para ele, a pureza era algo que começava dentro do coração. Em dos ensinos de Yeshua registrados por Matityahu e Lukas vemos o mestre dizer que:


o bom homem, do bom tesouro do coração, tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do coração, tira o mal, porque a boca fala do que está cheio o coração. Mt 12:35 e Lc 6:45


Em outra ocasião Yeshua ensinou que não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai do coração, conforme lemos em Matityahu 15:18-20, ou seja, palavras e ações originadas de uma mente não submetida ao Eterno tornam o homem impuro. Mas é preciso compreender que este texto não é uma aprovação para comer animais imundos, pois isso é transgressão, desobediência, e não impureza. São situações diferentes e o assunto no contexto é sobre leis humanas e pureza de coração. Em suma, Yeshua estava combatendo interpretações humanas que criavam mandamentos próprios, e não anulando os mandamentos do Eterno sobre alimentos.

O shaliach Shaul, conhecido como apóstolo Paulo, por sua vez, escreveu que a comunidade deve ser purificada pela Palavra, sendo lavada e santificada como uma noiva pura (Efesiyim/Ef 5:26-27). Isso nos conecta de volta às instruções de Vayikrá: a purificação não era apenas física, mas também moral, ética e espiritual, através da obediência fiel.


4. Comentário dos sábios

Os sábios do povo de Yisrael observaram que o Eterno usava a tzaraat como forma de advertência gradual:

  1. Primeiro na casa – para que a pessoa percebesse a necessidade de mudança.

  2. Depois nas roupas – indicando que a impureza se aproximava do corpo.

  3. Por fim, na pele – já era um juízo visível, resultado da negligência.

Mas tudo isso está em perfeita harmonia com o que já está revelado na Torá, e não depende de tradições humanas. Como está escrito:


Pois Eu sou HaShem, que vos faço subir da terra de Mitsraym para ser vosso Elohim; portanto, sede santos, porque Eu sou santo. Vayicrá 11:45


O Talmud relaciona a tzaraat ao lashon hará (maledicência) e outras transgressões morais. Maimônides também explica que a tzaraat era uma manifestação espiritual que se revelava na pele da pessoa, causando a morte das células, e onde há morte há impureza. Possuir a tzaraat é um castigo que isola o indivíduo da congregação de Israel. Ele está impuro, não pode se chegar ao Templo, não pode comparecer ao Lugar Santo para adorar ao Eterno. Para quem ama a D'us, ficar longe destas atividades templárias é algo que colocava a pessoa a refletir e lamentar, levando-o à fazer teshuváh.

Os comentários rabínicos destacam que a tzaraat não era apenas uma condição física, mas um sinal espiritual que chamava o indivíduo ao arrependimento e à correção de condutas morais. A manifestação da tzaraat nas roupas e casas servia como um alerta divino para que a pessoa examinasse suas ações e retornasse ao caminho da retidão.


5. Arrependimento e reconstrução

Após a destruição causada pela impureza e transgressão, há sempre um caminho de arrependimento e restauração. Como em Nechemyah/Ne 1:9:

Se vos converterdes a Mim e guardardes os Meus mandamentos e os praticardes... ainda que os vossos dispersos estejam nos confins dos céus, de lá os ajuntarei.


Isso mostra que mesmo uma casa destruída pode ser restaurada, e uma roupa destruída outra pode ser adquirida, se houver arrependimento e obediência verdadeira. O arrependimento e a teshuváh podem transformar uma situação calamitosa como a que estamos estudando, pois o Eterno guarda os que verdadeiramente se convertem.

Concluindo nosso estudo, pudemos entender que a tzaraat era, e continua sendo, um sinal do Eterno para despertar o coração do povo. Hoje, embora não vejamos manchas em paredes ou roupas da mesma forma, vemos os efeitos da impureza em lares destruídos, relacionamentos manchados e atitudes corruptas. O Eterno ainda fala. Ele ainda chama ao arrependimento. Ele ainda oferece restauração àqueles que, como os antigos, se separam para refletir, confessar e corrigir seus caminhos.


Se vos converterdes a Mim e guardardes os Meus mandamentos e os praticardes... então vos reunirei novamente. Devarim 30:2-3


Quem realmente ama o Eterno, purifica sua casa, suas ações e seus pensamentos. Que sejamos como o homem com tzaraat que, ao ouvir o chamado, se aproximou para ser purificado. Que o Eterno encontre em nós vestes limpas, casas santas e corações dispostos a obedecer.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!

Lembremos: A santidade começa dentro de casa, se manifesta em nossas ações, e transforma todo nosso ser. Que possamos ouvir o sinal e responder com humildade, obediência e temor ao Eterno.


Moshê Ben Yosef