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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estudo da Parashá Achare Mot-Kedoshim - Não Existe Santidade sem Arrependimento

 



Estudos da Torá

Parashá nº 29 e 30 – Achare Mot-Kedoshim

(Depois da Morte-Santos)

Vayicrá/Levítico 16:1-20:27

Haftará (separação) Ez 20:2-20 e 22:1-19.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Rm 3:19-28 e 13:8-10.


Não Existe Santidade sem Arrependimento


Vivemos em uma geração marcada pela imagem. Nunca foi tão fácil parecer algo sem necessariamente ser. Pessoas aparentam sucesso sem paz, alegria sem contentamento, conhecimento sem sabedoria e espiritualidade sem transformação. O problema da aparência não está apenas no mundo secular; ele também invade o ambiente religioso. Muitos aprendem a linguagem da santidade, vestem-se como santos, falam como santos, argumentam como santos, mas ainda não passaram pelo processo interior que conduz à verdadeira mudança.

É justamente por isso que o estudo das porções desta semana, Acharê Mot e Kedoshim, é tão atual. Essas duas parashiot revelam que o Eterno não busca performance religiosa, mas um povo restaurado por dentro e obediente por fora. Ele não procura pessoas que saibam impressionar os outros, e sim homens e mulheres que se arrependam sinceramente e vivam de forma justa.

O tema central deste estudo nasce dessa verdade eterna: não existe santidade sem arrependimento. Antes de haver separação verdadeira, precisa haver retorno. Antes de haver pureza nas mãos, precisa haver quebrantamento no coração.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A porção Acharê Mot inicia após a morte de Nadav e Avihu, filhos de Aharon, que se aproximaram do Eterno de maneira indevida. A mensagem inicial é forte: o Eterno é santo e não pode ser tratado com irreverência. Em seguida, a Torá apresenta as instruções de Yom HaKippurim, o Dia das Expiações, quando o sumo sacerdote entrava no lugar santíssimo para fazer expiação por si mesmo, pela casa sacerdotal e por todo o povo de Israel.

Também são apresentadas instruções sobre o sangue, pois a vida pertence ao Eterno, e advertências severas contra práticas imorais das nações. O povo separado não deveria imitar o Egito, de onde saiu, nem Kena’an, para onde estava indo.

A porção Kedoshim começa com uma das declarações mais profundas da Torá: “Falou mais o Eterno a Moshê, dizendo: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque Eu, o Eterno vosso Elohim, sou santo.” Vayicrá 19:1-2

A partir dessa ordem, a santidade é explicada de forma prática: honrar pai e mãe, guardar o Shabat, agir com honestidade, não furtar, não mentir, não oprimir o próximo, julgar com justiça, deixar parte da colheita para os necessitados, não guardar ódio e amar o próximo como a si mesmo.

A Torá mostra que santidade não é um conceito abstrato. É vida diária alinhada à vontade do Eterno. Fica até o final e entenda mais do assunto.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

As duas porções desta semana estão unidas por uma sequência reveladora. Acharê Mot trata da purificação e Kedoshim trata da conduta após a purificação. Primeiro vem a reconciliação, depois a transformação. Primeiro o retorno, depois a caminhada.

Ao compararmos estas porções e refletirmos sobre uma vida de aparências, percebemos que a mensagem da Torá confronta diretamente um dos maiores perigos do ser humano: parecer transformado sem realmente ser transformado. Essas duas porções, lidas juntas, revelam que o Eterno nunca se agradou de uma santidade teatral, exibida diante das pessoas, mas vazia diante d’Ele. Desde os dias antigos, a Palavra já denunciava o abismo entre aparência religiosa e verdadeira pureza prática.

Isso revela um princípio essencial das Escrituras Sagradas: ninguém vive em santidade genuína sem antes reconhecer sua condição e voltar-se ao Eterno. O conceito hebraico de arrependimento é teshuvá (תשובה), palavra que significa literalmente retorno. Arrepender-se não é apenas sentir culpa; é mudar de direção. É abandonar caminhos tortuosos e voltar à rota correta, ao caminho que o Eterno preparou.

Da mesma forma, a palavra hebraica para santidade é kedushá (קדושה), derivada da raiz kadosh (קדוש), que significa separado, consagrado, distinto para um propósito santo. Santidade, no entendimento hebraico e das Escrituras, não é superioridade espiritual, nem aparência religiosa. É separação do mal e dedicação total ao Eterno por meio de seus mandamentos.

Assim, as porções desta semana, conforme estamos vendo, nos ensinam que não existe kedushá sem teshuvá. Não há vida santa sem retorno sincero.


1-Purificação Interior e Aparência de Santidade

Em Acharê Mot, a Torá começa tratando de aproximação ao Eterno com reverência e purificação, o sumo sacerdote não entrava no lugar santíssimo como queria, quando queria ou do jeito que queria. O contexto da morte de Nadav e Avihu nos lembra que não se entra na presença do Santo de qualquer maneira, segundo desejos pessoais ou criatividade humana. Havia um caminho estabelecido pelo próprio Eterno. Deveria ter uma preparação com reverência, confissão e expiação. Isso nos ensina que a aproximação ao Eterno exige humildade.

Como vimos em porções anteriores, os filhos de Aharon representam um perigo ainda presente hoje: querer servir ao Eterno conforme o impulso humano, sem submissão à Sua vontade. Muitos desejam experiências espirituais, títulos ou visibilidade, mas não desejam obediência. O serviço de Yom HaKippurim ensinava que o pecado contamina, rompe comunhão e precisa ser tratado com seriedade. Antes de pensar em imagem, reputação ou reconhecimento, o homem precisava reconhecer sua culpa e buscar reconciliação.

Isso fala profundamente aos nossos dias. Muitos se preocupam mais em parecer espiritualmente corretos do que em permitir que o coração seja sondado. Desejam transmitir uma imagem de pureza, conhecimento ou fidelidade, mas evitam encarar áreas internas ainda dominadas pelo orgulho, pela vaidade, pela dureza ou pela hipocrisia. Acharê Mot nos lembra que santidade começa onde ninguém vê: no arrependimento sincero, na confissão interior, na rendição do ego diante do Eterno.

É preciso reconhecer que não existe santidade verdadeira enquanto a alma vive de maquiagem moral. Não adianta vestir linguagem religiosa, exibir práticas externas ou cultivar reputação de piedade quando o interior continua distante. O Eterno sempre buscou verdade no íntimo. Primeiro o coração precisa ser reconciliado.

Em seguida, Kedoshim aprendemos que depois da purificação nos é mostrado que a vida deve ser vivida. O arrependimento genuíno produz mudança concreta. A santidade não fica restrita ao altar, ela vai para a mesa, para o comércio, ela continua no campo, no mercado, na família e na forma de falar e tratar com o próximo.


“Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo.” Vayicrá 19:11


“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno.” Vayicrá 19:18


“Santos sereis” é desenvolvido em mandamentos práticos, como vimos acima: não mentir, não roubar, não explorar, não guardar rancor, julgar com justiça, respeitar os vulneráveis, amar o próximo como a si mesmo. Não são apenas teorias, são formas práticas de obedecer que não ficaram somente no passado.

Isso destrói a ideia de que alguém pode ser santo apenas porque frequenta reuniões, conhece textos ou mantém símbolos externos. A Torá ensina que o Eterno observa como tratamos pessoas, como negociamos, como reagimos, como falamos e como perdoamos. Muitos querem parecer santos; poucos querem morrer para o ego. Porém a santidade começa exatamente aí.

Aqui está o contraste com a vida de aparências. A falsa santidade se preocupa em ser vista. A verdadeira santidade se preocupa em obedecer. A falsa santidade quer aplauso. A verdadeira aceita anonimato. A falsa enfatiza símbolos externos. A verdadeira se revela em caráter constante. Alguém pode parecer santo em público e ser cruel em casa. Pode citar Escrituras e agir com arrogância. Pode demonstrar zelo religioso e tratar mal quem discorda. Pode falar de pureza e negociar sem honestidade. A parashá Kedoshim derruba essa máscara, porque define santidade em termos cotidianos. O Eterno mede a vida não pelo desempenho diante da plateia, mas pela integridade quando ninguém está observando. No próximo tópico veremos como este ensino foi conectado e continuado pelos profetas, por Yeshua e seus talmidim e pelos sábios de Yisrael.


2 - O Ensinaram dos Profetas, dos Sábios, Yeshua e dos Talmidim

Os profetas enviados pelo Eterno para instruírem e repreenderem o povo na justiça repetiram a mesma mensagem que vemos na Torá: o Eterno rejeita religiosidade sem justiça.


“Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.” Yeshayahu / Isaías 1:16-17


Outro texto é:


“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Eterno pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Elohim?” Mikhah / Miqueias 6:8


Talvez você note que há versos que sempre cito, mas é justamente devido ao fato de que o texto mostre o princípio que as Escrituras definem. Os sábios de Yisrael também perceberam esse princípio. Rabi Akiva ensinou sobre Vayicrá 19:18, dizendo que “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é um grande princípio da Torá. Ramban comentou que alguém pode cumprir mandamentos externamente e ainda viver de forma vulgar, se o coração não for transformado.

Tudo isso é diretamente conectado por Yeshua aos dias atuais também, pois na sua fala com os escribas. Eles buscavam honra, reconhecimento e lugares elevados, enquanto negligenciavam justiça e misericórdia. No canal do YouTube há um vídeo na Playlist de Mateus que trata desse assunto, busque Estudo de Mateus 23 – Parte 2. Nesse contexto Yeshua não estava trazendo uma ideia nova, ele estava ecoando a parashá Kedoshim. Ele confrontou o mesmo problema que a Torá já denunciava: religiosidade sem transformação, aparência sem essência, exterior arrumado com interior desordenado. Yeshua confrontou exatamente o problema que pode ser visto desde aquela época. Ele denunciou aqueles que aparentavam santidade, mas negligenciavam o interior, veja o texto:


“Ai de vós, escribas e perushim, hipócritas! Pois dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da Torá: o juízo, a misericórdia e a fidelidade.” Mattityahu / Mateus 23:23


Ele também afirmou:


“Não penseis que vim revogar a Torá ou os Profetas; não vim revogar, vim cumprir.” Mattityahu / Mateus 5:17


Yeshua não anulou a santidade, ele restaurou seu sentido verdadeiro. A tradução diz: “… vim cumprir.” Porém a palavra em várias cópias gregas está plerosai que significa tornar pleno. Yeshua veio fazer com que a Torá pudesse ser obedecida corretamente sendo observado seus princípios, mais do que a aparência.


Os talmidim continuaram ensinando as mesmas instruções da Torá que aprenderam com Yeshua, observe:


“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo.” Kefa Alef / 1 Pedro 1:15-16


“Tornai-vos praticantes da palavra e não somente ouvintes.” Yaakov / Tiago 1:22


Quem chama é o Eterno, e os que ouvem o chamado deve seguir e ter o caráter de quem os chamou. A mensagem é única do início ao fim: santidade real sempre produz mudança real. Por isso, essas porções juntas ensinam algo poderoso: não existe santidade sem arrependimento, nem arrependimento verdadeiro sem mudança de vida. Se alguém diz que se arrependeu, mas continua preso ao mesmo orgulho, à mesma mentira, à mesma vaidade e à mesma dureza, seu arrependimento ainda não alcançou profundidade. E se alguém tenta viver padrões externos de santidade sem quebrantamento interior, está apenas representando um papel.

O Eterno deseja um povo de mãos limpas e coração puro. Mãos limpas falam de ações justas e coração puro fala de motivações verdadeiras. Uma sem a outra produz desequilíbrio. Boas intenções sem obediência são insuficientes. Obediência externa sem sinceridade também. Vejamos agora, no último tópico, como viver o princípio na atualidade.


3 - Como Viver os Mandamentos na Prática

Nos dias atuais, o desafio continua. A tecnologia permite criar personagens religiosos facilmente. É possível publicar versículos e tratar mal a família. Defender pureza alimentar e cultivar impureza no coração. Corrigir doutrinas alheias e permanecer dominado pelo orgulho. A internet está repleta de exemplos.

Mas o Eterno continua olhando para o íntimo. A palavra hebraica lev (לב) significa coração, centro interior da vontade e das decisões. É onde está a kavaná, a intenção, que pode ser boa ou má. O Eterno deseja transformar o coração (lev), não apenas a aparência. Como viver isso na prática? A resposta é “Santidade”! A santidade começa quando alguém reconhece erros, pede perdão, abandona arrogância e decide obedecer. Ela se manifesta:

    • em casa, quando tratamos os nossos com paciência e amor;

    • no trabalho, quando agimos com honestidade;

    • nos relacionamentos, quando perdoamos;

    • no uso da fala, quando evitamos lashon hará (má língua, fala destrutiva);

    • nas finanças, quando somos íntegros;

    • na fé, quando buscamos agradar ao Eterno e não impressionar pessoas.

Guardar Shabat, alimentar-se corretamente, celebrar os tempos determinados e estudar a Torá são preciosos. Porém tudo isso perde sentido quando não há humildade, justiça e amor. A verdadeira kedushá transforma a rotina. Ela aparece quando ninguém está vendo.

Concluindo nosso estudo, as porções Acharê Mot e Kedoshim nos conduzem por uma jornada espiritual completa: primeiro o homem reconhece sua contaminação, depois aprende a viver de forma santa. Primeiro vem a teshuvá (arrependimento), depois a kedushá (santidade). Primeiro o coração é reconciliado; depois a vida é transformada.

Não existe santidade sem arrependimento. Toda tentativa de parecer santo sem retorno sincero produz apenas religiosidade vazia. O Eterno não procura atores religiosos, mas servos quebrantados. Não busca máscaras, mas verdade. Não deseja performance, mas fidelidade.

Por isso, cada um de nós precisa perguntar: tenho apenas aparência de santidade ou estou realmente sendo transformado? Minha obediência nasce do amor ao Eterno ou da necessidade de aprovação humana?

Que nesta semana, após termos estudado essas porções, possamos ter examinado nossos caminhos, abandonar o que contamina e voltar ao Eterno com sinceridade.

Que nossas mãos sejam limpas. Que nosso coração seja puro. Que nossa vida revele aquilo que nossos lábios professam. E que a santidade deixe de ser discurso para se tornar prática diária, em casa, no trabalho, nos relacionamentos e em toda conduta.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


Santidade, uma realidade distorcida.

 


Santidade, uma realidade distorcida.

Vivemos em um tempo em que a aparência, para muitos, vale mais do que a essência. Há quem procure demonstrar riqueza para ser admirado, quem exiba felicidade para convencer os outros de que sua vida é perfeita, e quem mostre conquistas o tempo todo para parecer invencível. Essa necessidade constante de validação já é prejudicial em qualquer área da vida, mas se torna ainda mais séria quando invade o campo da santidade.

A religiosidade também pode se transformar em palco. Pessoas passam a representar um personagem piedoso, comprometido e separado, quando, na verdade, o coração está longe da humildade e da sinceridade. Nos dias de Yeshua isso já acontecia. Ele alertou o povo a respeito de alguns dos escribas e fariseus, homens que gostavam de ser vistos, reconhecidos e tratados como importantes. Gostavam das vestes que chamavam atenção, das saudações públicas, dos lugares de honra e da aparência de grande devoção, enquanto por dentro cultivavam injustiça e egoísmo.

Yeshua expôs esse comportamento porque sabia que, por trás da imagem de santidade, muitas vezes havia interesses ocultos. A credibilidade religiosa pode trazer benefícios para quem a busca de forma errada: prestígio, influência, admiração, favores e até poder sobre a consciência das pessoas. Quem é visto como “autoridade espiritual” pode facilmente manipular outros, ditar regras humanas e alimentar o próprio ego.

Mas antes de apontarmos para líderes famosos, pregadores conhecidos ou figuras públicas, é necessário olhar para dentro. A tentação da aparência religiosa não está apenas nos púlpitos. Ela pode morar silenciosamente no coração de qualquer pessoa.

Alguém pode abandonar antigos costumes, passar a guardar mandamentos e reorganizar a vida segundo as Escrituras, e ainda assim continuar preso ao desejo de reconhecimento. Pode trocar antigos erros por novos tipos de vaidade. Agora, em vez de se exibir pelo que possuía, exibe-se pelo que deixou de fazer. Em vez de buscar aplausos por conquistas materiais, busca admiração por práticas religiosas.

Isso acontece quando alguém faz questão de anunciar a todos sua obediência: o que come, o que não come, o que guarda, o que sabe, o que descobriu, o quanto se separou dos outros. Muitas vezes o discurso parece ensino, mas no fundo esconde a necessidade de ser notado. Nem sempre se busca dinheiro ou favores; às vezes o que se deseja é algo ainda mais sutil: superioridade.

É possível obedecer externamente e, ao mesmo tempo, alimentar orgulho internamente. É possível falar de Torá, santidade e verdade enquanto o coração busca status. Esse é um dos perigos mais difíceis de perceber, porque a aparência continua correta. Aos olhos humanos, tudo parece admirável. Mas o Eterno vê intenções.

Muitos entram no caminho da teshuvá com sinceridade, desejando retornar às veredas antigas. Porém, no meio da jornada, alguns começam a se considerar melhores que os demais. Pensam: “Agora eu sei”, “agora eu enxerguei”, “agora sou diferente”. E sem perceber, substituem antigos enganos por um novo tipo de cegueira: a arrogância religiosa.

O orgulho é traiçoeiro porque nos convence de que já chegamos longe demais para continuar aprendendo. Faz a pessoa acreditar que sempre tem razão, que sempre sabe mais, que sempre deve ensinar, nunca ouvir. E foi exatamente contra isso que Yeshua advertiu ao dizer que quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Muitos acreditam que o conhecimento os torna grandes, quando na verdade o Reino valoriza os servos. Enquanto os orgulhosos estacionam, satisfeitos consigo mesmos, os humildes continuam crescendo. Enquanto uns defendem sua reputação, outros continuam sendo transformados.

Outro efeito do orgulho é fechar nossos ouvidos. A pessoa passa a pensar: “O que esse alguém pode me ensinar?” Julga o mensageiro antes de ouvir a mensagem. Despreza correções porque vêm de pessoas consideradas inferiores, ignorantes ou de outra caminhada. Mas o Eterno não está limitado às nossas preferências. Ele pode usar quem quiser para confrontar, corrigir e despertar.

Quando Yeshua disse que, se os discípulos se calassem, até as pedras clamariam, ele mostrou que a verdade não depende do status de quem fala. Se necessário, o Eterno levanta vozes improváveis para cumprir Seu propósito.

Por isso, precisamos vigiar constantemente o coração. Nem toda exposição é ensino, nem toda firmeza é humildade, nem todo discurso correto nasce de intenções corretas. A verdadeira santidade não precisa de propaganda. Ela não grita para ser notada. Ela se manifesta em mansidão, coerência, justiça e temor ao Eterno.

Quem realmente caminha com HaShem não sente necessidade de parecer maior que ninguém. Sabe que ainda está aprendendo, ainda está sendo moldado, ainda depende de misericórdia todos os dias.

No fim, o teste não está apenas no que defendemos, mas em como vivemos. Não apenas no que sabemos, mas no que nos tornamos. E o caminho mais seguro sempre será este: ouvir mais, exibir menos, servir mais, julgar menos e permanecer ensinável diante do Eterno.

Moshê Ben Yosef

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Estudo da Parashá Acharei Mot e Kedoshim - Santidade, o caminho prático.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 29 – Acharei Mot (Depois da Morte)

Vayikra/Levítico 16:1-18:30

Haftará (separação) Ez 22:1-19 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Rm 3:19-26 e 9:30-10:13

Parashá nº 28 – Kedoshim (Povo Santo)

Vayikra/Levítico 19:1-20-27

Haftará (separação) Am 9:7-15 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 5:33-48.


Tema: Santidade, o caminho prático.


Com temor e reverência diante das Palavras do Eterno, e com coração disposto a ouvir e obedecer, na parashá dessa semana nos aproximamos de um dos chamados ou mandamentos mais profundos e transformadores das Escrituras: “Santos sereis, porque Eu sou santo” (Vayicrá 19:2). Este chamado não é uma proposta teórica, nem um ideal distante reservado aos separados por título ou posição; é um convite direto do Criador para todo aquele que deseja andar em Seus caminhos. Neste estudo, buscamos compreender como a santidade é vivida — não apenas declarada — e como ela se manifesta em obediência prática, justiça no cotidiano, amor ao próximo e separação do mal. Através da Torá, dos Profetas, dos ensinamentos de Yeshua e dos seus enviados, e mesmo nas palavras refletidas por alguns dos sábios, vemos um fio contínuo: a santidade é uma expressão viva da confiança firme e da aliança com o Eterno. Ela não se resume a práticas externas, mas se revela no caráter, nas escolhas, e na forma como tratamos o próximo. Este pequeno estudo propõe-se a ampliar e aprofundar esse entendimento, chamando todos a retornarem à essência da santidade conforme as Escrituras.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Após a morte dos filhos de Aharon (Nadav e Avihu), o Eterno ordena como o Sumo Sacerdote deve entrar no Lugar Santíssimo – somente uma vez ao ano, em Yom HaKippurim, com sacrifícios específicos e pureza extrema. Este é o centro do serviço de expiação, mostrando que a aproximação ao Eterno exige temor, ordem e purificação. E estabelece que todo sangue deve ser derramado perante o altar e proíbe o consumo de sangue – “porque a vida da carne está no sangue”, mostrando que a vida pertence ao Eterno. A Torá apresenta os mandamentos sobre pureza moral, proibindo práticas das nações, especialmente imoralidades sexuais. O povo de Yisrael é chamado a diferenciar-se das nações, vivendo conforme a santidade do Eterno.

O Eterno declara: “Kedoshim tihyu – Santos sereis, porque Eu, HaShem, sou santo” (Vayicrá 19:2). Esta parashá apresenta instruções sociais, éticas e rituais que formam o coração da vida em santidade:

  • Respeitar pai e mãe;

  • Guardar os Shabatot;

  • Não roubar, não mentir, não oprimir o próximo;

  • Julgar com justiça;

  • Deixar parte da colheita para os pobres e estrangeiros

  • Não guardar ódio, nem vingar-se;

  • “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Essa santidade é vivida no dia a dia – na honestidade, na justiça e na separação de costumes das nações.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A santidade como prática diária de obediência ao Eterno é um dos temas mais repetidos e aprofundados em toda a Torá, nos escritos dos profetas, e também nos ensinos de Yeshua e dos seus enviados. Não se trata de um estado místico reservado a poucos, nem de uma ideia abstrata distante da realidade do ser humano. Ela é, pela Torá, uma convocação direta, possível e necessária:


“Santos sereis, porque Eu, HaShem, vosso Elohim, sou santo” Vayicrá 19:2

Essa declaração não é poética, é instrucional. O Eterno não nos chama para algo inatingível, mas nos convida a andar com Ele de maneira justa, pura e reta — vivendo os Seus mandamentos com integridade em cada aspecto da vida.


1. A santidade vivida no cotidiano

Na Torá, a santidade é demonstrada através de ações concretas no dia a dia, como deixar as pontas da colheita para o necessitado, justiça nos negócios, julgar com justiça, guardar o Shabat, honrar os pais, não guardar ódio no coração, não difamar, e amar o próximo como a si mesmo. São ações e decisões tomadas em conformidade com a instrução dada pelo Eterno por meio de Sua Palavra, Torá. O Eterno espera santidade de seu povo.


Eu sou o Eterno que os tirou da terra do Egito para ser o seu Elohim; por isso, sejam santos, porque eu sou santo. Lv 11:45


Consagrem-se, porém, e sejam santos, porque eu sou o Eterno, o Elohim de vocês. Lv 20:7


Vocês serão santos para mim, porque eu, o Eterno, sou santo, e os separei dentre os povos para serem meus. Lv 20:26


Ao estudarmos os textos bíblicos, não apenas os mencionados aqui, percebemos claramente que cada uma dessas ações concretas revelam que a verdadeira separação ao Eterno não está em rituais vazios, em meras liturgias legalistas, nem muito menos em cultos desprovidos de verdade, mas em um viver alinhado com a Sua vontade. Conforme Yeshua falou a uma certa mulher samaritana:


No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Jo 4:23


Yeshua estava ensinando sobre santidade e obediência prática, acima de liturgias criadas por homens. A santidade não é isolamento do mundo, mas transformação do mundo através da obediência. Santidade é obediência contínua e prática aos mandamentos do Eterno, principalmente, seguindo o exemplo do messias Yeshua. Vamos falar mais sobre isso no próximo tópico.


2. Santidade além do ritual: a expressão da justiça

Os profetas foram vocacionados pelo Eterno para despertar a consciência adormecida do povo. Eles constantemente denunciaram o povo por pensarem que a santidade se resumia a rituais e sacrifícios, enquanto negligenciavam o juízo, a misericórdia e a fidelidade. Eles não aboliram a Torá, mas chamaram o povo a lembrar do que ela realmente exige. Yeshayahu, por exemplo, denuncia os que continuam oferecendo sacrifícios enquanto praticam a injustiça, observe o texto:


"Para que me oferecem tantos sacrifícios? ", pergunta o Senhor. Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos; não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes! Quando lhes pediu que viessem à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés em meus átrios? Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembléias cheias de iniqüidade. Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais! Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva. Is 1:11-17


A santidade, para ele, não se manifesta no incenso, mas na limpeza das mãos sujas de sangue, na defesa dos órfãos e das viúvas. O Eterno não estava dizendo que não queria sacrifícios em cumprimento à sua palavra, mas que a vida dos ofertantes estivessem santificadas, que não estivessem agindo com hipocrisia. O profeta Mikhah resume toda a Torá em três palavras: justiça, misericórdia e humildade.


Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom, e o que o Eterno exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu D’us. Mq 6:8


Ele não reduz os mandamentos, mas mostra seu coração, demonstra que HaShem espera que façamos o que é correto, simplesmente porque é correto e por amor a ele. O que é correto está definido em suas palavras. Observe também o que diz Yirmeyahu


Não confiem em palavras enganosas: "Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor! " Mas se vocês realmente corrigirem a sua conduta e as suas ações, e se, de fato, tratarem uns aos outros com justiça, se não oprimirem o estrangeiro, o órfão e a viúva e não derramarem sangue inocente neste lugar, e se vocês não seguirem outros deuses para a sua própria ruína, então eu os farei habitar neste lugar, na terra que dei aos seus antepassados desde a antigüidade e para sempre. Jr 7:4-7


Vimos assim, que os profetas reforçam o que a Torá já ordenava: a santidade exige vida reta diante do Eterno e do próximo. Ser santo, portanto, não é fazer parte de um grupo exclusivo, mas viver de forma que o mundo veja, em cada ação nossa, o reflexo do Eterno.


3. Restaurando a santidade real e interior

Mais uma vez afirmo que Yeshua nunca contradisse a Torá. Pelo contrário, ele a levou à sua profundidade mais pura. Demonstrando em suas atitudes que sua obediência é na prática diária. Ele desmascarou o engano de viver a aparência do mandamento sem guardar sua essência. Ao dizer “não penseis que vim abolir a Torá”, observe:


"Não pensem que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Torá a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus". Mt 5:17-20


Ele reafirma que a verdadeira santidade requer mais do que rituais e legalismos: ela exige coerência interior, justiça, misericórdia e firme confiança no Eterno.


Ai de vós, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas desprezais os preceitos mais importantes da Torá: justiça, misericórdia e confiança. Vocês devem fazer estas coisas, sem omitir aquelas. Mt 23:23


Veja ainda Yochanan 17:17:


Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.


Yeshua afirma que a santidade vem pela obediência à Palavra do Eterno. Quando ensina sobre perdoar, sobre reconciliar-se antes de trazer uma oferta, sobre tratar com honra até mesmo os inimigos, Yeshua está restaurando o que sempre esteve na Torá: que a obediência ao Eterno passa pelo modo como tratamos uns aos outros.


4. Santidade como identidade e missão

Kefa, que viveu com Yeshua e aprendeu diretamente dele, repete as palavras da Torá:


Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: "Sejam santos, porque eu sou santo". 1Pe 1:15-16.


Ele não se dirige a religiosos, mas a pessoas comuns como agricultores, pescadores, viúvas, estrangeiros. Ou seja, todos podem e devem viver em santidade.

Yaakov, conhecido como Tiago, outro enviado, diz que a verdadeira “religião” é visitar os órfãos e viúvas e guardar-se incontaminado do mundo (Yaakov 1:27). Ele entendia que a separação do mal e o amor prático são indissociáveis. Os enviados ensinaram que a santidade envolve separação dos caminhos mundanos e uma vida ativa de prática dos mandamentos. Veja o que Rav Sha’ul diz:


Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de D’us que apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável ao Eterno, que é o vosso culto racional. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de D’us. Rm 12:1-2


A santidade, portanto, não é apenas um mandamento; é uma identidade que molda nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossas prioridades.


5. Ecos de uma verdade eterna

Mesmo os sábios, ainda que por caminhos muitas vezes distantes da simplicidade da Torá, reconheceram que a santidade não se mede pelo saber ou pelo rito, mas pela vida íntegra.

Ramban, por exemplo, afirmou que alguém pode cumprir todos os mandamentos técnicos e ainda ser um “naval bereshut haTorá” (um devasso dentro dos limites da Torá). Assim, a santidade exige moderação, consciência, zelo, e temor do Eterno.

Rabi Akiva também resumiu: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" é um grande princípio da Torá. Isso demonstra que a santidade verdadeira se manifesta, inevitavelmente, em amor e justiça.

Concluindo nossa reflexão, a santidade não é um fardo, é um caminho. Um chamado de amor do Eterno para que sejamos reflexo da Sua luz em um mundo cheio de escuridão. Viver em santidade é viver com consciência, com justiça, com humildade, com temor ao Eterno e amor ao próximo.

Quem ama o Eterno, segue os Seus mandamentos. Quem anda em santidade, vive em retidão, não para ser visto pelos homens, mas para agradar Àquele que vê o coração.

Que possamos andar nesse caminho de obediência, dia após dia, até que toda a terra esteja cheia do conhecimento do Eterno, como as águas cobrem o mar.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef