Santidade, uma realidade distorcida.
Vivemos em um tempo em que a aparência, para muitos, vale mais do que a essência. Há quem procure demonstrar riqueza para ser admirado, quem exiba felicidade para convencer os outros de que sua vida é perfeita, e quem mostre conquistas o tempo todo para parecer invencível. Essa necessidade constante de validação já é prejudicial em qualquer área da vida, mas se torna ainda mais séria quando invade o campo da santidade.
A religiosidade também pode se transformar em palco. Pessoas passam a representar um personagem piedoso, comprometido e separado, quando, na verdade, o coração está longe da humildade e da sinceridade. Nos dias de Yeshua isso já acontecia. Ele alertou o povo a respeito de alguns dos escribas e fariseus, homens que gostavam de ser vistos, reconhecidos e tratados como importantes. Gostavam das vestes que chamavam atenção, das saudações públicas, dos lugares de honra e da aparência de grande devoção, enquanto por dentro cultivavam injustiça e egoísmo.
Yeshua expôs esse comportamento porque sabia que, por trás da imagem de santidade, muitas vezes havia interesses ocultos. A credibilidade religiosa pode trazer benefícios para quem a busca de forma errada: prestígio, influência, admiração, favores e até poder sobre a consciência das pessoas. Quem é visto como “autoridade espiritual” pode facilmente manipular outros, ditar regras humanas e alimentar o próprio ego.
Mas antes de apontarmos para líderes famosos, pregadores conhecidos ou figuras públicas, é necessário olhar para dentro. A tentação da aparência religiosa não está apenas nos púlpitos. Ela pode morar silenciosamente no coração de qualquer pessoa.
Alguém pode abandonar antigos costumes, passar a guardar mandamentos e reorganizar a vida segundo as Escrituras, e ainda assim continuar preso ao desejo de reconhecimento. Pode trocar antigos erros por novos tipos de vaidade. Agora, em vez de se exibir pelo que possuía, exibe-se pelo que deixou de fazer. Em vez de buscar aplausos por conquistas materiais, busca admiração por práticas religiosas.
Isso acontece quando alguém faz questão de anunciar a todos sua obediência: o que come, o que não come, o que guarda, o que sabe, o que descobriu, o quanto se separou dos outros. Muitas vezes o discurso parece ensino, mas no fundo esconde a necessidade de ser notado. Nem sempre se busca dinheiro ou favores; às vezes o que se deseja é algo ainda mais sutil: superioridade.
É possível obedecer externamente e, ao mesmo tempo, alimentar orgulho internamente. É possível falar de Torá, santidade e verdade enquanto o coração busca status. Esse é um dos perigos mais difíceis de perceber, porque a aparência continua correta. Aos olhos humanos, tudo parece admirável. Mas o Eterno vê intenções.
Muitos entram no caminho da teshuvá com sinceridade, desejando retornar às veredas antigas. Porém, no meio da jornada, alguns começam a se considerar melhores que os demais. Pensam: “Agora eu sei”, “agora eu enxerguei”, “agora sou diferente”. E sem perceber, substituem antigos enganos por um novo tipo de cegueira: a arrogância religiosa.
O orgulho é traiçoeiro porque nos convence de que já chegamos longe demais para continuar aprendendo. Faz a pessoa acreditar que sempre tem razão, que sempre sabe mais, que sempre deve ensinar, nunca ouvir. E foi exatamente contra isso que Yeshua advertiu ao dizer que quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.
Muitos acreditam que o conhecimento os torna grandes, quando na verdade o Reino valoriza os servos. Enquanto os orgulhosos estacionam, satisfeitos consigo mesmos, os humildes continuam crescendo. Enquanto uns defendem sua reputação, outros continuam sendo transformados.
Outro efeito do orgulho é fechar nossos ouvidos. A pessoa passa a pensar: “O que esse alguém pode me ensinar?” Julga o mensageiro antes de ouvir a mensagem. Despreza correções porque vêm de pessoas consideradas inferiores, ignorantes ou de outra caminhada. Mas o Eterno não está limitado às nossas preferências. Ele pode usar quem quiser para confrontar, corrigir e despertar.
Quando Yeshua disse que, se os discípulos se calassem, até as pedras clamariam, ele mostrou que a verdade não depende do status de quem fala. Se necessário, o Eterno levanta vozes improváveis para cumprir Seu propósito.
Por isso, precisamos vigiar constantemente o coração. Nem toda exposição é ensino, nem toda firmeza é humildade, nem todo discurso correto nasce de intenções corretas. A verdadeira santidade não precisa de propaganda. Ela não grita para ser notada. Ela se manifesta em mansidão, coerência, justiça e temor ao Eterno.
Quem realmente caminha com HaShem não sente necessidade de parecer maior que ninguém. Sabe que ainda está aprendendo, ainda está sendo moldado, ainda depende de misericórdia todos os dias.
No fim, o teste não está apenas no que defendemos, mas em como vivemos. Não apenas no que sabemos, mas no que nos tornamos. E o caminho mais seguro sempre será este: ouvir mais, exibir menos, servir mais, julgar menos e permanecer ensinável diante do Eterno.
Moshê Ben Yosef
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário