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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Estudo da Parashá Nassô - Uma mensagem escondida nas ofertas.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 35 – Nassô (Faça)

Bamidbar/Números 4:21-7:89

Haftará (separação) Jz 13:2-25.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Jo 7:53-8:11; At 21:17-32.


Uma mensagem escondida nas ofertas.


Há textos nas Escrituras que, sinceramente, parecem desafiar nossa paciência. Enquanto lemos a Parashá Nassô, chegamos ao capítulo 7 de Bamidbar e algo curioso acontece: os líderes das tribos começam a trazer suas ofertas para a dedicação do Mishkan. Até aqui tudo parece normal. Porém, a Torá faz algo inesperado. Ela repete, e repete novamente e mais uma vez. Doze vezes, os mesmos objetos, os mesmos pesos, os mesmos animais, a mesma estrutura de oferta. Humanamente, nossa primeira reação poderia ser: “Por que não resumir?” Afinal, bastaria escrever: “Todos trouxeram a mesma oferta”. Mas a Torá não economiza palavras quando deseja ensinar algo profundo.

E talvez aqui esteja uma das mensagens mais humanas de toda a Parashá Nassô: o Eterno não vê pessoas como números, Ele vê pessoas como indivíduos, quem tem seus pensamentos, intenções e atitudes próprias.

Quantas vezes alguém já sentiu que sua contribuição é pequena? Quantas vezes alguém pensou: “Ninguém percebe o que faço”? Mas, ao abrirmos a Torá nesta semana, descobrimos uma verdade transformadora: o Eterno não apenas conta os passos do Seu povo, Ele observa, com carinho, a motivação de cada coração que se aproxima d’Ele. Este estudo é um convite para olharmos além do texto escrito e encontrarmos o convite divino para uma vida de propósito, onde cada gesto, por mais comum que pareça, pode se tornar um ato sagrado. Nassô parece responder: "Eu vejo." Hoje caminharemos por essa porção para descobrir como o Eterno ensina sobre identidade, propósito, serviço e valor individual. Venha comigo até o final deste pequeno estudo e descobrirá esse segredo.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Nassô é a maior porção da Torá em número de versículos e continua a organização do povo de Yisrael no deserto. Ela inicia com a contagem das famílias de Gershon e Merari, filhos de Levi, que receberam funções específicas relacionadas ao transporte do Mishkan. Os filhos de Gershon cuidariam das cortinas e coberturas, enquanto Merari seria responsável pelas estruturas, colunas e bases.

Depois disso, o Eterno apresenta instruções relacionadas à pureza do acampamento, mostrando que Sua presença exigia separação e santidade. A porção prossegue tratando sobre restituição e reparação de danos, ensinando que arrependimento verdadeiro requer ações concretas.

Em seguida surge a instrução sobre a mulher suspeita de adultério (sotah), seguida pelo voto de Nazir, um período voluntário de separação e dedicação especial ao Eterno. Logo após aparece a Birkat Kohanim, a bênção sacerdotal.

Por fim, os líderes das tribos apresentam suas ofertas para a dedicação do Mishkan. E é exatamente aqui, que para mim, surgiu um dos detalhes mais intrigantes da porção neste ano, o que nos levou ao tema do nosso estudo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Desde o início da parashá Nassô existe um tema invisível costurando toda a narrativa: ordem com propósito. Cada família recebeu uma tarefa, cada pessoa recebeu uma responsabilidade, cada grupo tinha sua posição no acampamento. O Eterno poderia simplesmente dizer: "Todos trabalhem." No entanto, Ele não fez isso, mas Ele distribuiu funções específicas. Porque o Reino do Eterno não funciona através do caos.

Em Bamidbar 4:49 está escrito: “Segundo a ordem de HaShem, por intermédio de Moshê, foram contados, cada um segundo o seu serviço e segundo o seu encargo.” Observe algo extraordinário: o Eterno não chamou todos para a mesma função. Kehat carregava a Arca, Gershon carregava cortinas e Merari carregava colunas e bases. Humanamente falando, talvez alguém de Merari pudesse pensar: "Gostaria de carregar a Arca." Mas sem as bases que Merari carregava, não haveria Mishkan em pé. E então chegamos às ofertas dos líderes. Doze líderes, doze ofertas aparentemente iguais, mas o Eterno se recusa a resumir. Por quê?

Ao pesquisar sobre isso, descobri que os sábios de Yisrael também ficaram intrigados com essa questão durante séculos.


1. Quando a Torá desacelera nossa leitura

Em Bamidbar 7:12–83, cada um dos líderes das tribos apresentam exatamente a mesma oferta, composta de:

- Prato de prata.

- Bacia de prata.

- Concha de ouro.

- Animais.

- Oferta pelo pecado.

- Oferta de paz.

Humanamente falando, parece estranho, pois não há variação alguma. O texto descreve a oferta do líder de Yehudah e depois repete praticamente a mesma descrição para Yissachar, Zevulun, Reuven, Shim'on e assim sucessivamente. Tudo igual, mas a Torá registra cada uma individualmente.

Se as ofertas eram exatamente iguais, por que simplesmente não escrever: “os demais fizeram o mesmo”? Os sábios de Yisrael refletiram profundamente sobre isso. No Midrash (Bamidbar Rabbah 13), encontramos a ideia de que cada líder possuía intenções e compreensões distintas ao apresentar sua oferta. Exteriormente eram iguais, mas interiormente eram diferentes e isso muda completamente a leitura. Porque nós enxergamos ações, já o Eterno vê os corações. Em Shmuel Alef 16:7 está escrito: “Porque HaShem não vê como vê o homem. O homem vê o que está diante dos olhos, porém HaShem vê o coração.”

A repetição deixa de ser repetição e cada descrição torna-se uma história individual. O príncipe de Judá tinha um foco, o de Issachar, outro. Ao registrar cada nome, o Eterno nos ensina que o Criador do Universo vê a singularidade em meio à uniformidade. Você não é apenas mais um; o seu serviço, mesmo que seja parecido com o do seu irmão, tem uma cor, uma história e uma intenção que só você pode oferecer.

Os sábios também observaram algo curioso: o primeiro líder a ofertar foi Nachshon ben Aminadav, da tribo de Yehudah. Por que Yehudah primeiro? Uma explicação aponta para o episódio do mar de juncos em Shemot 14. A tradição hebraica preserva a ideia de que, enquanto o povo hesitava diante do Yam Suf, Nachshon avançou em direção às águas antes da abertura do mar. A lição aqui é poderosa: a liderança no Reino do Eterno não começa com posição; começa com iniciativa e confiança.

Quem entra primeiro nas águas demonstra confiança antes de ver o milagre. Isso ecoa algo que encontramos nos escritos nazarenos quando Kefa saiu do barco em direção a Yeshua sobre as águas. Primeiro vem o passo; depois vem aquilo que o Eterno faz.


2. O que os profetas, os sábios, Yeshua e os talmidim ensinam

Os profetas repetidamente enfatizaram que o Eterno deseja mais que atos externos. Em Mikhah 6:8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que HaShem pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com teu Elohim?”

Yeshua ensinou algo semelhante ao observar pessoas entregando ofertas, em Marcos 12:41–44 está escrito: “E vendo uma viúva pobre lançar duas pequenas moedas, disse: Em verdade vos digo que esta viúva pobre lançou mais do que todos.” Externamente ela entregou menos, mas interiormente entregou mais. O valor nunca esteve na quantidade estava no coração.

Os talmidim também enfatizaram isso. Na Primeira Carta aos Coríntios 12:12–18, Shaul compara o povo a um corpo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros…” O olho possui função diferente da mão, a mão possui função diferente do pé, mas nenhum deles é dispensável. Isso reverbera exatamente a mensagem da parashá Nassô. Nem todos carregam a Arca, nem todos carregam cortinas mas todos sustentam o Mishkan.


3. Nassô e nossa vida hoje

Contextualizando o assunto, vivemos em uma época de comparação constante. As pessoas comparam trabalho, conhecimento, ministérios, seguidores e resultados, mas Nassô parece nos lembrar: "Pare de olhar para a oferta do outro." Talvez alguém carregue algo que parece mais importante, talvez alguém apareça mais ou talvez alguém seja mais reconhecido, no entanto, diante do Eterno a pergunta não é: "O que você carregou?" A pergunta é: "Você foi fiel ao que Eu coloquei em suas mãos?" Viver os mandamentos hoje significa compreender isso, significa servir sem necessidade de aplausos, fazer o bem sem precisar ser visto, obedecer mesmo quando ninguém percebe. Porque o Eterno percebe tudo. Em Kohelet 12:13 lemos: “Teme ao Eterno e guarda os Seus mandamentos, porque isto é o dever de todo homem.”

Ao concluir nosso estudo, podemos refletir que talvez a maior mensagem escondida em Nassô seja esta: O Eterno não registra apenas tarefas Ele registra nomes. Frequentemente olhamos para nós mesmos e pensamos: "Sou pequeno", "Meu serviço é pequeno", "Minha contribuição não faz diferença". No entanto, a Torá dedica dezenas de versículos para repetir aquilo que poderia resumir. Porque diante do Eterno ninguém é apenas mais um. Ele conhece quem carrega a Arca, conhece quem monta colunas, conhece quem carrega cortinas, conhece quem entrega pequenas ofertas e conhece quem faz algo em silêncio.

Talvez hoje seja um bom momento para parar de medir nosso valor pelo tamanho da nossa função, ou talvez, seja hora de perguntar: Tenho sido fiel àquilo que o Eterno colocou em minhas mãos? Porque a parashá Nassô nos ensina algo profundamente humano: O Eterno não procura pessoas extraordinárias procura pessoas fiéis independente da situação, se alguém repara ou o tamanho do que faz.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estudo da Parashá Achare Mot-Kedoshim - Não Existe Santidade sem Arrependimento

 



Estudos da Torá

Parashá nº 29 e 30 – Achare Mot-Kedoshim

(Depois da Morte-Santos)

Vayicrá/Levítico 16:1-20:27

Haftará (separação) Ez 20:2-20 e 22:1-19.

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) Rm 3:19-28 e 13:8-10.


Não Existe Santidade sem Arrependimento


Vivemos em uma geração marcada pela imagem. Nunca foi tão fácil parecer algo sem necessariamente ser. Pessoas aparentam sucesso sem paz, alegria sem contentamento, conhecimento sem sabedoria e espiritualidade sem transformação. O problema da aparência não está apenas no mundo secular; ele também invade o ambiente religioso. Muitos aprendem a linguagem da santidade, vestem-se como santos, falam como santos, argumentam como santos, mas ainda não passaram pelo processo interior que conduz à verdadeira mudança.

É justamente por isso que o estudo das porções desta semana, Acharê Mot e Kedoshim, é tão atual. Essas duas parashiot revelam que o Eterno não busca performance religiosa, mas um povo restaurado por dentro e obediente por fora. Ele não procura pessoas que saibam impressionar os outros, e sim homens e mulheres que se arrependam sinceramente e vivam de forma justa.

O tema central deste estudo nasce dessa verdade eterna: não existe santidade sem arrependimento. Antes de haver separação verdadeira, precisa haver retorno. Antes de haver pureza nas mãos, precisa haver quebrantamento no coração.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A porção Acharê Mot inicia após a morte de Nadav e Avihu, filhos de Aharon, que se aproximaram do Eterno de maneira indevida. A mensagem inicial é forte: o Eterno é santo e não pode ser tratado com irreverência. Em seguida, a Torá apresenta as instruções de Yom HaKippurim, o Dia das Expiações, quando o sumo sacerdote entrava no lugar santíssimo para fazer expiação por si mesmo, pela casa sacerdotal e por todo o povo de Israel.

Também são apresentadas instruções sobre o sangue, pois a vida pertence ao Eterno, e advertências severas contra práticas imorais das nações. O povo separado não deveria imitar o Egito, de onde saiu, nem Kena’an, para onde estava indo.

A porção Kedoshim começa com uma das declarações mais profundas da Torá: “Falou mais o Eterno a Moshê, dizendo: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque Eu, o Eterno vosso Elohim, sou santo.” Vayicrá 19:1-2

A partir dessa ordem, a santidade é explicada de forma prática: honrar pai e mãe, guardar o Shabat, agir com honestidade, não furtar, não mentir, não oprimir o próximo, julgar com justiça, deixar parte da colheita para os necessitados, não guardar ódio e amar o próximo como a si mesmo.

A Torá mostra que santidade não é um conceito abstrato. É vida diária alinhada à vontade do Eterno. Fica até o final e entenda mais do assunto.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

As duas porções desta semana estão unidas por uma sequência reveladora. Acharê Mot trata da purificação e Kedoshim trata da conduta após a purificação. Primeiro vem a reconciliação, depois a transformação. Primeiro o retorno, depois a caminhada.

Ao compararmos estas porções e refletirmos sobre uma vida de aparências, percebemos que a mensagem da Torá confronta diretamente um dos maiores perigos do ser humano: parecer transformado sem realmente ser transformado. Essas duas porções, lidas juntas, revelam que o Eterno nunca se agradou de uma santidade teatral, exibida diante das pessoas, mas vazia diante d’Ele. Desde os dias antigos, a Palavra já denunciava o abismo entre aparência religiosa e verdadeira pureza prática.

Isso revela um princípio essencial das Escrituras Sagradas: ninguém vive em santidade genuína sem antes reconhecer sua condição e voltar-se ao Eterno. O conceito hebraico de arrependimento é teshuvá (תשובה), palavra que significa literalmente retorno. Arrepender-se não é apenas sentir culpa; é mudar de direção. É abandonar caminhos tortuosos e voltar à rota correta, ao caminho que o Eterno preparou.

Da mesma forma, a palavra hebraica para santidade é kedushá (קדושה), derivada da raiz kadosh (קדוש), que significa separado, consagrado, distinto para um propósito santo. Santidade, no entendimento hebraico e das Escrituras, não é superioridade espiritual, nem aparência religiosa. É separação do mal e dedicação total ao Eterno por meio de seus mandamentos.

Assim, as porções desta semana, conforme estamos vendo, nos ensinam que não existe kedushá sem teshuvá. Não há vida santa sem retorno sincero.


1-Purificação Interior e Aparência de Santidade

Em Acharê Mot, a Torá começa tratando de aproximação ao Eterno com reverência e purificação, o sumo sacerdote não entrava no lugar santíssimo como queria, quando queria ou do jeito que queria. O contexto da morte de Nadav e Avihu nos lembra que não se entra na presença do Santo de qualquer maneira, segundo desejos pessoais ou criatividade humana. Havia um caminho estabelecido pelo próprio Eterno. Deveria ter uma preparação com reverência, confissão e expiação. Isso nos ensina que a aproximação ao Eterno exige humildade.

Como vimos em porções anteriores, os filhos de Aharon representam um perigo ainda presente hoje: querer servir ao Eterno conforme o impulso humano, sem submissão à Sua vontade. Muitos desejam experiências espirituais, títulos ou visibilidade, mas não desejam obediência. O serviço de Yom HaKippurim ensinava que o pecado contamina, rompe comunhão e precisa ser tratado com seriedade. Antes de pensar em imagem, reputação ou reconhecimento, o homem precisava reconhecer sua culpa e buscar reconciliação.

Isso fala profundamente aos nossos dias. Muitos se preocupam mais em parecer espiritualmente corretos do que em permitir que o coração seja sondado. Desejam transmitir uma imagem de pureza, conhecimento ou fidelidade, mas evitam encarar áreas internas ainda dominadas pelo orgulho, pela vaidade, pela dureza ou pela hipocrisia. Acharê Mot nos lembra que santidade começa onde ninguém vê: no arrependimento sincero, na confissão interior, na rendição do ego diante do Eterno.

É preciso reconhecer que não existe santidade verdadeira enquanto a alma vive de maquiagem moral. Não adianta vestir linguagem religiosa, exibir práticas externas ou cultivar reputação de piedade quando o interior continua distante. O Eterno sempre buscou verdade no íntimo. Primeiro o coração precisa ser reconciliado.

Em seguida, Kedoshim aprendemos que depois da purificação nos é mostrado que a vida deve ser vivida. O arrependimento genuíno produz mudança concreta. A santidade não fica restrita ao altar, ela vai para a mesa, para o comércio, ela continua no campo, no mercado, na família e na forma de falar e tratar com o próximo.


“Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo.” Vayicrá 19:11


“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno.” Vayicrá 19:18


“Santos sereis” é desenvolvido em mandamentos práticos, como vimos acima: não mentir, não roubar, não explorar, não guardar rancor, julgar com justiça, respeitar os vulneráveis, amar o próximo como a si mesmo. Não são apenas teorias, são formas práticas de obedecer que não ficaram somente no passado.

Isso destrói a ideia de que alguém pode ser santo apenas porque frequenta reuniões, conhece textos ou mantém símbolos externos. A Torá ensina que o Eterno observa como tratamos pessoas, como negociamos, como reagimos, como falamos e como perdoamos. Muitos querem parecer santos; poucos querem morrer para o ego. Porém a santidade começa exatamente aí.

Aqui está o contraste com a vida de aparências. A falsa santidade se preocupa em ser vista. A verdadeira santidade se preocupa em obedecer. A falsa santidade quer aplauso. A verdadeira aceita anonimato. A falsa enfatiza símbolos externos. A verdadeira se revela em caráter constante. Alguém pode parecer santo em público e ser cruel em casa. Pode citar Escrituras e agir com arrogância. Pode demonstrar zelo religioso e tratar mal quem discorda. Pode falar de pureza e negociar sem honestidade. A parashá Kedoshim derruba essa máscara, porque define santidade em termos cotidianos. O Eterno mede a vida não pelo desempenho diante da plateia, mas pela integridade quando ninguém está observando. No próximo tópico veremos como este ensino foi conectado e continuado pelos profetas, por Yeshua e seus talmidim e pelos sábios de Yisrael.


2 - O Ensinaram dos Profetas, dos Sábios, Yeshua e dos Talmidim

Os profetas enviados pelo Eterno para instruírem e repreenderem o povo na justiça repetiram a mesma mensagem que vemos na Torá: o Eterno rejeita religiosidade sem justiça.


“Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.” Yeshayahu / Isaías 1:16-17


Outro texto é:


“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Eterno pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Elohim?” Mikhah / Miqueias 6:8


Talvez você note que há versos que sempre cito, mas é justamente devido ao fato de que o texto mostre o princípio que as Escrituras definem. Os sábios de Yisrael também perceberam esse princípio. Rabi Akiva ensinou sobre Vayicrá 19:18, dizendo que “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é um grande princípio da Torá. Ramban comentou que alguém pode cumprir mandamentos externamente e ainda viver de forma vulgar, se o coração não for transformado.

Tudo isso é diretamente conectado por Yeshua aos dias atuais também, pois na sua fala com os escribas. Eles buscavam honra, reconhecimento e lugares elevados, enquanto negligenciavam justiça e misericórdia. No canal do YouTube há um vídeo na Playlist de Mateus que trata desse assunto, busque Estudo de Mateus 23 – Parte 2. Nesse contexto Yeshua não estava trazendo uma ideia nova, ele estava ecoando a parashá Kedoshim. Ele confrontou o mesmo problema que a Torá já denunciava: religiosidade sem transformação, aparência sem essência, exterior arrumado com interior desordenado. Yeshua confrontou exatamente o problema que pode ser visto desde aquela época. Ele denunciou aqueles que aparentavam santidade, mas negligenciavam o interior, veja o texto:


“Ai de vós, escribas e perushim, hipócritas! Pois dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da Torá: o juízo, a misericórdia e a fidelidade.” Mattityahu / Mateus 23:23


Ele também afirmou:


“Não penseis que vim revogar a Torá ou os Profetas; não vim revogar, vim cumprir.” Mattityahu / Mateus 5:17


Yeshua não anulou a santidade, ele restaurou seu sentido verdadeiro. A tradução diz: “… vim cumprir.” Porém a palavra em várias cópias gregas está plerosai que significa tornar pleno. Yeshua veio fazer com que a Torá pudesse ser obedecida corretamente sendo observado seus princípios, mais do que a aparência.


Os talmidim continuaram ensinando as mesmas instruções da Torá que aprenderam com Yeshua, observe:


“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo.” Kefa Alef / 1 Pedro 1:15-16


“Tornai-vos praticantes da palavra e não somente ouvintes.” Yaakov / Tiago 1:22


Quem chama é o Eterno, e os que ouvem o chamado deve seguir e ter o caráter de quem os chamou. A mensagem é única do início ao fim: santidade real sempre produz mudança real. Por isso, essas porções juntas ensinam algo poderoso: não existe santidade sem arrependimento, nem arrependimento verdadeiro sem mudança de vida. Se alguém diz que se arrependeu, mas continua preso ao mesmo orgulho, à mesma mentira, à mesma vaidade e à mesma dureza, seu arrependimento ainda não alcançou profundidade. E se alguém tenta viver padrões externos de santidade sem quebrantamento interior, está apenas representando um papel.

O Eterno deseja um povo de mãos limpas e coração puro. Mãos limpas falam de ações justas e coração puro fala de motivações verdadeiras. Uma sem a outra produz desequilíbrio. Boas intenções sem obediência são insuficientes. Obediência externa sem sinceridade também. Vejamos agora, no último tópico, como viver o princípio na atualidade.


3 - Como Viver os Mandamentos na Prática

Nos dias atuais, o desafio continua. A tecnologia permite criar personagens religiosos facilmente. É possível publicar versículos e tratar mal a família. Defender pureza alimentar e cultivar impureza no coração. Corrigir doutrinas alheias e permanecer dominado pelo orgulho. A internet está repleta de exemplos.

Mas o Eterno continua olhando para o íntimo. A palavra hebraica lev (לב) significa coração, centro interior da vontade e das decisões. É onde está a kavaná, a intenção, que pode ser boa ou má. O Eterno deseja transformar o coração (lev), não apenas a aparência. Como viver isso na prática? A resposta é “Santidade”! A santidade começa quando alguém reconhece erros, pede perdão, abandona arrogância e decide obedecer. Ela se manifesta:

    • em casa, quando tratamos os nossos com paciência e amor;

    • no trabalho, quando agimos com honestidade;

    • nos relacionamentos, quando perdoamos;

    • no uso da fala, quando evitamos lashon hará (má língua, fala destrutiva);

    • nas finanças, quando somos íntegros;

    • na fé, quando buscamos agradar ao Eterno e não impressionar pessoas.

Guardar Shabat, alimentar-se corretamente, celebrar os tempos determinados e estudar a Torá são preciosos. Porém tudo isso perde sentido quando não há humildade, justiça e amor. A verdadeira kedushá transforma a rotina. Ela aparece quando ninguém está vendo.

Concluindo nosso estudo, as porções Acharê Mot e Kedoshim nos conduzem por uma jornada espiritual completa: primeiro o homem reconhece sua contaminação, depois aprende a viver de forma santa. Primeiro vem a teshuvá (arrependimento), depois a kedushá (santidade). Primeiro o coração é reconciliado; depois a vida é transformada.

Não existe santidade sem arrependimento. Toda tentativa de parecer santo sem retorno sincero produz apenas religiosidade vazia. O Eterno não procura atores religiosos, mas servos quebrantados. Não busca máscaras, mas verdade. Não deseja performance, mas fidelidade.

Por isso, cada um de nós precisa perguntar: tenho apenas aparência de santidade ou estou realmente sendo transformado? Minha obediência nasce do amor ao Eterno ou da necessidade de aprovação humana?

Que nesta semana, após termos estudado essas porções, possamos ter examinado nossos caminhos, abandonar o que contamina e voltar ao Eterno com sinceridade.

Que nossas mãos sejam limpas. Que nosso coração seja puro. Que nossa vida revele aquilo que nossos lábios professam. E que a santidade deixe de ser discurso para se tornar prática diária, em casa, no trabalho, nos relacionamentos e em toda conduta.


Que o Eterno lhes abençoe.

Moshê Ben Yosef