Estudos da Torá
Parashá nº 53 – Haazinu (Ouçam)
Devarim/Deuteronômio 32:1-52
Haftará (separação) 2Sm 22:1-51.
Escritos Nazarenos Rm 10:14-21; 12:14-21
Parashá nº 54 – V´ezot Habrachá (E esta é a bênção)
Devarim/Deuteronômio 33:1-34:12
Haftará (separação) Js 1:1-18.
Escritos Nazarenos Mt 17:1-9 e Jd 3-10.
Não é Palavra Vã: O que fazemos com o que aprendemos?
Chegamos às últimas palavras de Moshe antes de sua partida. As porções Haazinu e Vezot HaBrachá encerram a Torá com uma combinação muito profunda: de um lado, o alerta para não esquecer o Eterno; de outro, a despedida daquele que conduziu Yisrael durante tantos anos. É um momento de transição.
Moshe está terminando sua caminhada, uma nova geração está diante de um novo tempo e Yisrael precisará continuar sem aquele que durante tanto tempo esteve à frente do povo. Mas, quando Moshe deixa de estar presente, as palavras que ele recebeu do Eterno continuam. E é justamente aqui que este estudo começa.
Ao chegar ao final de um ciclo de estudos, existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que perguntar quanto aprendemos: O que estamos fazendo com aquilo que aprendemos?
Porque podemos conhecer muitas palavras das Escrituras e, ainda assim, não permitir que elas alcancem nossas escolhas. Podemos compreender os mandamentos, falar sobre eles, ensiná-los e até defender sua importância, mas existe uma diferença entre conhecer uma instrução e caminhar de acordo com ela. Por isso, ao encerrarmos este ciclo, talvez seja necessário olhar para trás e lembrar o que recebemos, mas também olhar para dentro e perguntar o que realmente mudou. O que permaneceu apenas no conhecimento? O que já se transformou em prática? E qual área da nossa vida ainda precisa que aquilo que aprendemos se torne atitude? Ainda mais nesse período às vésperas de Yom Kipur, devemos refletir em nossas vidas e atitudes. Fique aqui até o final para não perder nada.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
Chegamos às últimas porções da Torá. Moshe está no fim de sua caminhada, Yisrael está diante de uma nova etapa e as palavras que foram transmitidas ao longo de Devarim ganham um peso diferente. Já não estamos apenas acompanhando os acontecimentos da caminhada pelo deserto. Estamos diante de um homem que sabe que sua jornada está terminando e de um povo que precisará continuar caminhando sem ele. Haazinu começa levantando uma questão fundamental: é preciso ouvir, lembrar e considerar.
“Lembra-te dos dias antigos, considera os anos de muitas gerações.” — Devarim 32:7
Não é por acaso que Moshe chama Yisrael para olhar para trás. Conforme viemos estudando nas últimas semanas, quem não se lembra de onde veio pode facilmente perder de vista para onde está indo. A memória, nas Escrituras, não é simplesmente uma lembrança sentimental do passado. Ela serve para manter diante dos olhos aquilo que o Eterno fez, aquilo que ele ordenou e aquilo que Yisrael não deveria esquecer. E então chegamos a uma das afirmações mais fortes de todo esse encerramento:
“Aplicai o vosso coração a todas as palavras que hoje testifico entre vós... porque esta não é palavra vã para vós; antes, é a vossa vida.” — Devarim 32:46–47
Talvez seja justamente aqui que Haazinu e Vezot HaBrachá encontrem uma pergunta que continua sendo necessária para nós: O que estamos fazendo com aquilo que aprendemos? Porque existe uma diferença enorme entre conhecer uma palavra e viver segundo ela. Podemos estudar durante anos, conhecer os nomes das porções, saber localizar os textos, memorizar passagens, discutir interpretações e ainda assim permanecer distantes daquilo que o Eterno está nos ensinando.
Podemos aprender muito sobre obediência sem necessariamente obedecer, falar sobre confiança no Eterno e continuar conduzindo nossa vida como se tudo dependesse de nós. Podemos falar sobre justiça, misericórdia, domínio próprio, verdade e fidelidade e, quando chega o momento em que essas coisas precisam aparecer dentro de casa, no trabalho, nos relacionamentos e nas decisões que ninguém está vendo, descobrimos que aquilo que conhecíamos intelectualmente ainda não se tornou parte da nossa maneira de viver. É justamente por isso que Moshe diz que as palavras não são vãs. O que nos leva para o primeiro tópico.
1. A memória como âncora
Haazinu começa olhando para trás porque Yisrael precisava se lembrar. “Lembra-te dos dias antigos…” Existe algo muito humano em esquecer justamente aquilo que deveria permanecer diante de nós. Quando enfrentamos uma dificuldade, lembramos do Eterno. Quando recebemos uma resposta, agradecemos. Mas, quando a vida volta à normalidade, existe o risco de voltarmos também aos antigos padrões. Foi exatamente esse perigo que Moshe apresentou no cântico. Yisrael receberia alimento, prosperidade, segurança e abundância. Mas justamente na abundância poderia surgir o esquecimento.
“E, tendo Jesurum engordado, deu coices; engordaste, engrossaste, estás coberto de gordura; então abandonou o Elohim que o fez.” — Devarim 32:15
A questão nunca foi simplesmente possuir alguma coisa. O problema estava em receber e esquecer aquele que havia concedido. Isso nos leva a uma reflexão importante sobre nossos próprios ciclos. O que o Eterno já nos ensinou que não podemos permitir que seja esquecido? Quais palavras já ouvimos tantas vezes que deixamos de tratá-las como palavras que exigem resposta? Existe uma diferença entre ouvir novamente uma verdade e realmente permanecer nela.
Por isso, a memória deve ser uma âncora. Ela nos impede de tratar cada circunstância como se fosse a primeira vez que encontramos o Eterno. Quando lembramos, percebemos que já recebemos instruções para determinados caminhos. Já sabemos o que fazer em determinadas situações. E já conhecemos palavras que deveriam orientar nossas decisões. O problema muitas vezes não é falta de conhecimento. É esquecimento.
2. Quando transformamos as Escrituras em conhecimento .
Talvez uma das maiores tentações de quem estuda as Escrituras seja transformar aquilo que deveria produzir mudanças em simplesmente mais uma área de conhecimento. Começamos querendo entender o texto e, pouco a pouco, podemos nos acostumar a falar sobre ele sem permitir que ele fale conosco. Conhecemos conceitos, mas não necessariamente desenvolvemos atitudes. Conhecemos palavras, mas não necessariamente mudamos comportamentos. Conhecemos os mandamentos, mas podemos encontrar justificativas para não aplicá-los quando sua aplicação nos custa alguma coisa.
É possível saber muito e continuar vivendo de maneira incoerente com aquilo que sabemos. E aqui precisamos tomar cuidado, porque estudar profundamente as Escrituras é algo precioso. O problema não está no conhecimento. O problema aparece quando o conhecimento se torna um fim em si mesmo. O Eterno não entregou suas palavras a Yisrael para que fossem apenas admiradas, catalogadas ou discutidas. Moshe diz:
“Aplicai o vosso coração a todas as palavras...”
Aplicar o coração significa permitir que aquilo que ouvimos alcance nossas decisões. É nesse ponto que o estudo das Escrituras deixa de ser apenas informação e começa a se tornar caminho. A pergunta deixa de ser somente “o que esse texto significa?” e passa a ser também: “O que esse texto exige de mim?” Essa segunda pergunta é muito mais difícil.
Porque podemos discutir uma passagem durante horas sem precisar mudar nada em nossa própria vida. Mas quando perguntamos o que o Eterno espera de nós, o texto deixa de estar apenas diante dos nossos olhos e começa a confrontar nossas escolhas.
3. O teste acontece no cotidiano
É fácil falar sobre paciência quando ninguém nos contrariou. Falar sobre honestidade quando não temos nada a ganhar mentindo, falar sobre domínio próprio quando tudo está tranquilo, dizer que confiamos no Eterno quando as coisas estão acontecendo exatamente como esperávamos. O verdadeiro teste aparece na dificuldade do cotidiano, é ali que descobrimos o quanto aquilo que aprendemos realmente entrou em nossa vida.
A Escritura não separa a relação com o Eterno da maneira como tratamos as pessoas, administramos nossos recursos, cumprimos nossa palavra, lidamos com nossos desejos ou reagimos quando somos contrariados. O cotidiano revela aquilo que o discurso pode esconder. Talvez por isso as transições sejam tão importantes. Quando um ciclo termina e outro começa, somos colocados diante daquilo que realmente carregamos conosco. Terminamos uma porção, iniciamos outra. Terminamos um ano, começamos outro. Passamos por uma dificuldade e entramos em um período de tranquilidade. Mudamos de trabalho, de casa, de relacionamento, de responsabilidade ou simplesmente entramos em uma nova fase da vida. E então surge a pergunta: O que realmente veio conosco?
Não adianta terminar um ciclo tendo acumulado muitas informações se nenhuma delas se transformou em atitude. Principalmente próximo a Yom Kipur, quando nossas vidas e atitudes devem ser pesadas e analisadas. Podemos carregar livros, anotações, vídeos, estudos e discursos. Mas o que o Eterno deseja encontrar em nós quando atravessamos a próxima etapa? Deseja ver uma kavanah voltada ao arrependimento e mudança de comportamentos.
3. O legado de Moshe não era apenas informação
Vezot HaBrachá nos apresenta Moshe no final de sua jornada.
Ele sobe ao monte, contempla a terra e morre. Yisrael pranteia Moshe, e Yehoshua assume a liderança. Uma geração passa para outra, mas existe algo que não passa, as palavras do Eterno permanecem. Esse detalhe é muito significativo. A continuidade de Yisrael não dependeria da presença permanente de Moshe. Ele havia cumprido sua missão. Agora Yisrael precisaria continuar andando. Isso nos ensina algo que pode ser aplicado também ao nosso próprio caminho.
Não podemos viver eternamente daquilo que aprendemos com outras pessoas. Precisamos aprender a caminhar diante do Eterno. Podemos receber muito de professores, pais, amigos, líderes e pessoas que nos ensinaram as Escrituras. Podemos ser profundamente marcados por seus exemplos. Mas chega um momento em que aquilo que recebemos precisa se tornar nossa própria prática.
Yehoshua precisaria caminhar, Yisrael precisaria caminhar e nós também precisamos caminhar. O aprendizado precisa atravessar a distância entre a cabeça e as mãos, entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.
Concluindo nosso estudo, podemos perceber que talvez essa seja uma boa pergunta para o encerramento deste ciclo. Não simplesmente: “Quanto aprendemos?” Mas: “Quanto daquilo que aprendemos está sendo vivido?” Talvez tenhamos aprendido sobre perdão, mas exista alguém a quem ainda não conseguimos perdoar.
Talvez tenhamos aprendido sobre verdade, mas exista alguma área em que ainda preferimos esconder a realidade. Talvez tenhamos aprendido sobre contentamento, mas continuemos comparando nossa vida com a vida dos outros. Talvez tenhamos aprendido sobre confiança no Eterno, mas continuemos tentando controlar aquilo que não está em nossas mãos. E talvez tenhamos aprendido sobre os mandamentos, mas ainda exista algum mandamento que conhecemos muito bem e praticamos muito pouco. Não precisamos procurar uma resposta complicada. Podemos começar com uma única área. Devemos refletir se existe alguma coisa que eu já sei que deveria fazer, mas ainda não estou fazendo?
Essa pergunta é desconfortável justamente porque não exige mais conhecimento. Ela exige honestidade. E talvez seja exatamente esse o ponto de Haazinu e Vezot HaBrachá. Moshe não termina dizendo a Yisrael que eles precisavam simplesmente aprender mais alguma coisa. Ele os chama a levar a sério aquilo que já haviam recebido. “Esta não é palavra vã para vós; antes, é a vossa vida.” Que palavra do Eterno já aprendemos, mas ainda precisa se transformar em atitude? Que instrução já conhecemos, mas ainda não colocamos em prática? Que mudança sabemos que precisa acontecer, mas continuamos adiando?
Talvez o encerramento deste ciclo seja uma boa oportunidade para parar de procurar apenas o próximo assunto para estudar e perguntar o que faremos com aquilo que já aprendemos. Porque estudar é importante. Lembrar é importante. Ensinar é importante. Mas existe um momento em que precisamos fechar o livro, levantar-nos e caminhar. E é nesse caminho que aquilo que aprendemos deixa de ser apenas conhecimento e passa a demonstrar se realmente guardamos as palavras do Eterno. Não é palavra vã. É a nossa vida.
Que o Eterno nos conceda entendimento para ouvir suas palavras, firme confiança para permanecer nelas e disposição para transformá-las em atitudes concretas todos os dias.
Que o Eterno os abençoe.
Moshê Ben Yosef
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