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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Estudo da Parashá Haazinu - V´zot Habrachá - Não é Palavra Vã: O que fazemos com o que aprendemos?

 

Estudos da Torá

Parashá nº 53 – Haazinu (Ouçam)

Devarim/Deuteronômio 32:1-52

Haftará (separação) 2Sm 22:1-51.

Escritos Nazarenos Rm 10:14-21; 12:14-21

Parashá nº 54 – V´ezot Habrachá (E esta é a bênção)

Devarim/Deuteronômio 33:1-34:12

Haftará (separação) Js 1:1-18.

Escritos Nazarenos Mt 17:1-9 e Jd 3-10.


Não é Palavra Vã: O que fazemos com o que aprendemos?


Chegamos às últimas palavras de Moshe antes de sua partida. As porções Haazinu e Vezot HaBrachá encerram a Torá com uma combinação muito profunda: de um lado, o alerta para não esquecer o Eterno; de outro, a despedida daquele que conduziu Yisrael durante tantos anos. É um momento de transição.

Moshe está terminando sua caminhada, uma nova geração está diante de um novo tempo e Yisrael precisará continuar sem aquele que durante tanto tempo esteve à frente do povo. Mas, quando Moshe deixa de estar presente, as palavras que ele recebeu do Eterno continuam. E é justamente aqui que este estudo começa.

Ao chegar ao final de um ciclo de estudos, existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que perguntar quanto aprendemos: O que estamos fazendo com aquilo que aprendemos?

Porque podemos conhecer muitas palavras das Escrituras e, ainda assim, não permitir que elas alcancem nossas escolhas. Podemos compreender os mandamentos, falar sobre eles, ensiná-los e até defender sua importância, mas existe uma diferença entre conhecer uma instrução e caminhar de acordo com ela. Por isso, ao encerrarmos este ciclo, talvez seja necessário olhar para trás e lembrar o que recebemos, mas também olhar para dentro e perguntar o que realmente mudou. O que permaneceu apenas no conhecimento? O que já se transformou em prática? E qual área da nossa vida ainda precisa que aquilo que aprendemos se torne atitude? Ainda mais nesse período às vésperas de Yom Kipur, devemos refletir em nossas vidas e atitudes. Fique aqui até o final para não perder nada.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Chegamos às últimas porções da Torá. Moshe está no fim de sua caminhada, Yisrael está diante de uma nova etapa e as palavras que foram transmitidas ao longo de Devarim ganham um peso diferente. Já não estamos apenas acompanhando os acontecimentos da caminhada pelo deserto. Estamos diante de um homem que sabe que sua jornada está terminando e de um povo que precisará continuar caminhando sem ele. Haazinu começa levantando uma questão fundamental: é preciso ouvir, lembrar e considerar.

“Lembra-te dos dias antigos, considera os anos de muitas gerações.” — Devarim 32:7

Não é por acaso que Moshe chama Yisrael para olhar para trás. Conforme viemos estudando nas últimas semanas, quem não se lembra de onde veio pode facilmente perder de vista para onde está indo. A memória, nas Escrituras, não é simplesmente uma lembrança sentimental do passado. Ela serve para manter diante dos olhos aquilo que o Eterno fez, aquilo que ele ordenou e aquilo que Yisrael não deveria esquecer. E então chegamos a uma das afirmações mais fortes de todo esse encerramento:

“Aplicai o vosso coração a todas as palavras que hoje testifico entre vós... porque esta não é palavra vã para vós; antes, é a vossa vida.” — Devarim 32:46–47

Talvez seja justamente aqui que Haazinu e Vezot HaBrachá encontrem uma pergunta que continua sendo necessária para nós: O que estamos fazendo com aquilo que aprendemos? Porque existe uma diferença enorme entre conhecer uma palavra e viver segundo ela. Podemos estudar durante anos, conhecer os nomes das porções, saber localizar os textos, memorizar passagens, discutir interpretações e ainda assim permanecer distantes daquilo que o Eterno está nos ensinando.

Podemos aprender muito sobre obediência sem necessariamente obedecer, falar sobre confiança no Eterno e continuar conduzindo nossa vida como se tudo dependesse de nós. Podemos falar sobre justiça, misericórdia, domínio próprio, verdade e fidelidade e, quando chega o momento em que essas coisas precisam aparecer dentro de casa, no trabalho, nos relacionamentos e nas decisões que ninguém está vendo, descobrimos que aquilo que conhecíamos intelectualmente ainda não se tornou parte da nossa maneira de viver. É justamente por isso que Moshe diz que as palavras não são vãs. O que nos leva para o primeiro tópico.


1. A memória como âncora

Haazinu começa olhando para trás porque Yisrael precisava se lembrar. “Lembra-te dos dias antigos…” Existe algo muito humano em esquecer justamente aquilo que deveria permanecer diante de nós. Quando enfrentamos uma dificuldade, lembramos do Eterno. Quando recebemos uma resposta, agradecemos. Mas, quando a vida volta à normalidade, existe o risco de voltarmos também aos antigos padrões. Foi exatamente esse perigo que Moshe apresentou no cântico. Yisrael receberia alimento, prosperidade, segurança e abundância. Mas justamente na abundância poderia surgir o esquecimento.

“E, tendo Jesurum engordado, deu coices; engordaste, engrossaste, estás coberto de gordura; então abandonou o Elohim que o fez.” — Devarim 32:15

A questão nunca foi simplesmente possuir alguma coisa. O problema estava em receber e esquecer aquele que havia concedido. Isso nos leva a uma reflexão importante sobre nossos próprios ciclos. O que o Eterno já nos ensinou que não podemos permitir que seja esquecido? Quais palavras já ouvimos tantas vezes que deixamos de tratá-las como palavras que exigem resposta? Existe uma diferença entre ouvir novamente uma verdade e realmente permanecer nela.

Por isso, a memória deve ser uma âncora. Ela nos impede de tratar cada circunstância como se fosse a primeira vez que encontramos o Eterno. Quando lembramos, percebemos que já recebemos instruções para determinados caminhos. Já sabemos o que fazer em determinadas situações. E já conhecemos palavras que deveriam orientar nossas decisões. O problema muitas vezes não é falta de conhecimento. É esquecimento.


2. Quando transformamos as Escrituras em conhecimento .

Talvez uma das maiores tentações de quem estuda as Escrituras seja transformar aquilo que deveria produzir mudanças em simplesmente mais uma área de conhecimento. Começamos querendo entender o texto e, pouco a pouco, podemos nos acostumar a falar sobre ele sem permitir que ele fale conosco. Conhecemos conceitos, mas não necessariamente desenvolvemos atitudes. Conhecemos palavras, mas não necessariamente mudamos comportamentos. Conhecemos os mandamentos, mas podemos encontrar justificativas para não aplicá-los quando sua aplicação nos custa alguma coisa.

É possível saber muito e continuar vivendo de maneira incoerente com aquilo que sabemos. E aqui precisamos tomar cuidado, porque estudar profundamente as Escrituras é algo precioso. O problema não está no conhecimento. O problema aparece quando o conhecimento se torna um fim em si mesmo. O Eterno não entregou suas palavras a Yisrael para que fossem apenas admiradas, catalogadas ou discutidas. Moshe diz:

“Aplicai o vosso coração a todas as palavras...”

Aplicar o coração significa permitir que aquilo que ouvimos alcance nossas decisões. É nesse ponto que o estudo das Escrituras deixa de ser apenas informação e começa a se tornar caminho. A pergunta deixa de ser somente “o que esse texto significa?” e passa a ser também: “O que esse texto exige de mim?” Essa segunda pergunta é muito mais difícil.

Porque podemos discutir uma passagem durante horas sem precisar mudar nada em nossa própria vida. Mas quando perguntamos o que o Eterno espera de nós, o texto deixa de estar apenas diante dos nossos olhos e começa a confrontar nossas escolhas.


3. O teste acontece no cotidiano

É fácil falar sobre paciência quando ninguém nos contrariou. Falar sobre honestidade quando não temos nada a ganhar mentindo, falar sobre domínio próprio quando tudo está tranquilo, dizer que confiamos no Eterno quando as coisas estão acontecendo exatamente como esperávamos. O verdadeiro teste aparece na dificuldade do cotidiano, é ali que descobrimos o quanto aquilo que aprendemos realmente entrou em nossa vida.

A Escritura não separa a relação com o Eterno da maneira como tratamos as pessoas, administramos nossos recursos, cumprimos nossa palavra, lidamos com nossos desejos ou reagimos quando somos contrariados. O cotidiano revela aquilo que o discurso pode esconder. Talvez por isso as transições sejam tão importantes. Quando um ciclo termina e outro começa, somos colocados diante daquilo que realmente carregamos conosco. Terminamos uma porção, iniciamos outra. Terminamos um ano, começamos outro. Passamos por uma dificuldade e entramos em um período de tranquilidade. Mudamos de trabalho, de casa, de relacionamento, de responsabilidade ou simplesmente entramos em uma nova fase da vida. E então surge a pergunta: O que realmente veio conosco?

Não adianta terminar um ciclo tendo acumulado muitas informações se nenhuma delas se transformou em atitude. Principalmente próximo a Yom Kipur, quando nossas vidas e atitudes devem ser pesadas e analisadas. Podemos carregar livros, anotações, vídeos, estudos e discursos. Mas o que o Eterno deseja encontrar em nós quando atravessamos a próxima etapa? Deseja ver uma kavanah voltada ao arrependimento e mudança de comportamentos.

3. O legado de Moshe não era apenas informação

Vezot HaBrachá nos apresenta Moshe no final de sua jornada.

Ele sobe ao monte, contempla a terra e morre. Yisrael pranteia Moshe, e Yehoshua assume a liderança. Uma geração passa para outra, mas existe algo que não passa, as palavras do Eterno permanecem. Esse detalhe é muito significativo. A continuidade de Yisrael não dependeria da presença permanente de Moshe. Ele havia cumprido sua missão. Agora Yisrael precisaria continuar andando. Isso nos ensina algo que pode ser aplicado também ao nosso próprio caminho.

Não podemos viver eternamente daquilo que aprendemos com outras pessoas. Precisamos aprender a caminhar diante do Eterno. Podemos receber muito de professores, pais, amigos, líderes e pessoas que nos ensinaram as Escrituras. Podemos ser profundamente marcados por seus exemplos. Mas chega um momento em que aquilo que recebemos precisa se tornar nossa própria prática.

Yehoshua precisaria caminhar, Yisrael precisaria caminhar e nós também precisamos caminhar. O aprendizado precisa atravessar a distância entre a cabeça e as mãos, entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.

Concluindo nosso estudo, podemos perceber que talvez essa seja uma boa pergunta para o encerramento deste ciclo. Não simplesmente: “Quanto aprendemos?” Mas: “Quanto daquilo que aprendemos está sendo vivido?” Talvez tenhamos aprendido sobre perdão, mas exista alguém a quem ainda não conseguimos perdoar.

Talvez tenhamos aprendido sobre verdade, mas exista alguma área em que ainda preferimos esconder a realidade. Talvez tenhamos aprendido sobre contentamento, mas continuemos comparando nossa vida com a vida dos outros. Talvez tenhamos aprendido sobre confiança no Eterno, mas continuemos tentando controlar aquilo que não está em nossas mãos. E talvez tenhamos aprendido sobre os mandamentos, mas ainda exista algum mandamento que conhecemos muito bem e praticamos muito pouco. Não precisamos procurar uma resposta complicada. Podemos começar com uma única área. Devemos refletir se existe alguma coisa que eu já sei que deveria fazer, mas ainda não estou fazendo?

Essa pergunta é desconfortável justamente porque não exige mais conhecimento. Ela exige honestidade. E talvez seja exatamente esse o ponto de Haazinu e Vezot HaBrachá. Moshe não termina dizendo a Yisrael que eles precisavam simplesmente aprender mais alguma coisa. Ele os chama a levar a sério aquilo que já haviam recebido. “Esta não é palavra vã para vós; antes, é a vossa vida.” Que palavra do Eterno já aprendemos, mas ainda precisa se transformar em atitude? Que instrução já conhecemos, mas ainda não colocamos em prática? Que mudança sabemos que precisa acontecer, mas continuamos adiando?

Talvez o encerramento deste ciclo seja uma boa oportunidade para parar de procurar apenas o próximo assunto para estudar e perguntar o que faremos com aquilo que já aprendemos. Porque estudar é importante. Lembrar é importante. Ensinar é importante. Mas existe um momento em que precisamos fechar o livro, levantar-nos e caminhar. E é nesse caminho que aquilo que aprendemos deixa de ser apenas conhecimento e passa a demonstrar se realmente guardamos as palavras do Eterno. Não é palavra vã. É a nossa vida.

Que o Eterno nos conceda entendimento para ouvir suas palavras, firme confiança para permanecer nelas e disposição para transformá-las em atitudes concretas todos os dias.

Que o Eterno os abençoe.

Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Estudo da Parashá Vezot Habrachá - Bênçãos, Profecias e o Caminho para o Olam Habah

 



Estudos da Torá

Parashá nº 54 – Vezot HaBrachá (E esta é a bênção)

Devarim/Deuteronômio DT 33:1-34:12,

Haftará (Separação) Js 1:1-18 e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Mt 17:1-9; Jd 3, 4, 8-10.


Tema: Bênçãos, Profecias e o Caminho para o Olam Habah


Esta semana vamos explorar algumas das profecias que estão nas palavras de Moshê na parashá Vezot Habrachá, focando as tribos de Yehudah, Levi e Yosef, explorando temas, vitórias proféticas, a gematria e sua ligação com o Olam Habah, conectando as bênçãos com a realidade presente e futura de Yisrael prometida pelo Eterno.

RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA


Esta é a última porção da Toráh, Parashá Vezot Habrachá, que narra os momentos finais do grande líder do povo de Yisrael, Moshê. Um homem que viveu cada etapa de sua vida sob a orientação do Eterno, mas sempre demonstrando uma humanidade palpável, repleta de humildade e devoção.

Nesta parte, encontramos Moshê, agora com 120 anos, pronto para despedir-se dos filhos de Yisrael. Embora tenha sido o servo fiel que liderou o povo com coragem e sabedoria, ele não entraria na Terra Prometida. Em vez disso, seu destino foi encerrado no Monte Nebo, de onde ele apenas contemplaria a terra que tanto desejava alcançar.

Vezot Habrachá é mais que uma simples despedida. É uma benção solene de Moshê para cada tribo de Yisrael. Ele sabia, melhor do que ninguém, os desafios que o povo enfrentaria. Por isso, antes de partir, Moshê oferece palavras de força, encorajamento e proteção do Eterno, ajustadas às características de cada tribo. Assim, vemos um líder que não entende profundamente cada membro de seu povo, mas também se importa genuinamente com o futuro deles. Por isso, o Eterno o usa para deixar uma profecia a respeito do futuro do povo de Yisrael.

Nesta parashá, podemos ver a plena humanidade de Moshê. Um homem que, desde o começo, hesitou em aceitar a missão que HaShem lhe confiou, alegando que era "pesado de boca e pesado de língua" (Shemot 4:10), mas que no final de sua vida, tornou-se o mais eloquente de todos os profetas. Um homem que pecou, ​​sim, mas que nunca deixou de ser humilde e devoto ao Eterno. A Toráh nos lembra que, apesar de toda sua grandeza, pois Moshê, segundo a Toráh, era “o homem mais humilde da face da terra” (Bamidbar 12:3).

Vemos também, desde o livro de Shemot/Êxodo, como a caminhada de Moshê, que começou no Egito, teve altos e baixos. Ele experimentou desafios internos e externos, questionamentos, rebeliões e momentos de dúvida. Mesmo assim, manteve-se firme na sua confiança no Eterno. Ele era, sem dúvida, um líder escolhido, mas também era alguém com emoções, medos e fragilidades – como todos nós. Estas mesmas caraterísticas encontramos também no Messias Yeshua, e isso é algo interessante.

Esta parashá é um convite para refletirmos sobre a vida de Moshê, não como uma figura inalcançável, mas como um exemplo de dedicação ao Eterno, apesar das limitações humanas. Ele nos ensina que o caminho da obediência ao Eterno exige perseverança, humildade e confiança, mesmo quando os resultados que desejamos parecerem fora de alcance.

Moshê nos deixa, não apenas com suas palavras de benção, mas com um legado vivo de fidelidade ao Eterno. Ao estudarmos Vezot Habrachá, somos chamados a não apenas lembrar das bênçãos, mas a incorporá-las em nossas próprias vidas, buscando sempre andar nos caminhos que HaShem traçou para nós.


ESTUDO DO CONTEXTO LITERAL, PROFÉTICO E PRÁTICO


Ao estudar essa última parashá do ciclo anual de estudos da Torah devemos refletir em algumas coisas. A nota de Rodapé da Torá da Editora Sefer diz que, após o cântico de “Adeus” da parashá anterior, Moshê, antes de se separar do seu povo querido, abençoou-o, como o fez o patriarca Yaakov, fundador das tribos de Yisrael (Gn 49:29). Convocou então toda a congregação e abençoou a cada tribo em separado, destacando o papel que haveriam de desempenhar ao longo dos tempos.

Sobre esse papel a ser desempenhado percebemos que, conforme já mencionei, as últimas palavras de Moshê para as tribos de Yisrael não são meras despedidas. Elas carregam uma profundidade profética que ultrapassa amplamente o momento histórico, revelando aspectos sobre o futuro de cada tribo e suas missões espirituais. Em especial, como vitórias de Yehudá, Levi e Yosef destacam-se por apontarem para papéis de liderança, espiritualidade e prosperidade que não se limitam ao deserto ou à conquista de Canaã, mas se estendem até o Olam Habah.

Cada uma dessas tribos representa uma faceta essencial da redenção futura de Yisrael. Destacaremos três dessas tribos para olhar um pouco mais de perto as bênçãos proferidas por Moshê e algumas profecias ocultas nelas. Yehudah, da qual viria o Mashiach, simboliza o reinado eterno e a autoridade divina entre as nações. Levi, com sua função sacerdotal, garante a pureza do serviço ou culto ao Eterno, restaurando a centralidade do Templo, que em um sentido bem amplo são pessoas e o ensinamento da Toráh. Já Yosef, abençoado com fertilidade e força, reflete a promessa de abundância e proteção divina. Essa tribo reflete claramente a Casa de Yisrael, que se encontra dispersa entre as nações, cuja missão principal do messias é resgatá-la. Assim, as vitórias de Moshê são mais que orações de despedida; elas são visões divinamente inspiradas sobre o futuro glorioso de Yisrael, que se cumprirá completamente no tempo do Olam Habah, quando essas tribos desempenharão suas funções plenamente no plano redentor do Eterno.

Ao estudar essas bênçãos e profecias, nos deparamos com um Moshê que, até seu último momento, não apenas guiou o povo, mas também lhes deixa vislumbres de sua missão no futuro, onde cada tribo terá seu papel na concretização das promessas do Eterno.


As Bênçãos Proféticas para Yehudah, Levi e Yosef

Cada uma das bênçãos dada por Moshê em Vezot Habrachá possui um significado profundo e profético. Olhemos para o que foi dito a Yehudah, Levi e Yosef.


- Yehudah (Devarim 33:7)

Lendo o texto, percebemos que a bênção de Yehudah enfatiza sua liderança e força em batalhas, refletindo sua posição como a tribo de onde viria a realeza. Moshê diz: "Ouve, ó Eterno, a voz de Yehudah". Essas palavras são uma clara alusão à missão do mashiach na restauração da Casa de Yisrael. A realidade de Yehudah é um tema profético que culmina na promessa de que o Mashiach viria de sua linhagem, conforme vemos nas profecias de Yesha'yahu (Isaías 11:1) sobre o renovo do tronco de Yishai (pai de David). O aspecto profético aponta para os dias do Rei Mashiach e o Olam Habah, onde a liderança de Yehudah será restaurada plenamente.


- Levi (Devarim 33:8-11)

O texto mostra que Levi, uma tribo escolhida para o serviço no Mishkan, obtém uma bênção relacionada à sua pureza e dedicação. A função sacerdotal e o papel de ensinar as instruções do Eterno à nação são destacados. Moshê menciona o teste em Massá e Merivá, onde Levi provou sua fidelidade ao Eterno. Profeticamente, a função de Levi está ligada à restauração do serviço no Beit HaMikdash (Templo) e à presença do Eterno entre o povo, em outras palavras, isso quer dizer a restauração da obediência às pessoas aos mandamentos do Eterno. Como está escrito em Malaquias 3:3, os levitas serão restritos para apresentarem ofertas justos ao Eterno no Olam Habah, que são pessoas restauradas.


- Yosef (Devarim 33:13-17)

A bênção de Yosef é grandiosa em termos materiais e espirituais. Ele é abençoado com "os mais preciosos frutos dos céus e da terra", que aponta para a restauração dos remanescentes da casa de Yisrael e de gentios que se aproximam do Eterno. Além disso, Moshê o compara ao primogênito de um touro, uma alusão à sua força e à liderança entre as nações. As bênção de Yosef também têm um aspecto messiânico, especialmente no conceito do Mashiach ben Yosef, que será um precursor do Mashiach ben David. Yehezkel (Ezequiel 37:19) menciona a unificação dos reinos de Yehudah e Yosef, algo que acontece no fim dos dias, antes do Olam Habah. Isso tem acontecido desde que Yeshua se manifestou com seu ministério e continua a acontecer, mas se concretizará plenamente à partir do sétimo milênio para o Olam Habah.


A Gematria do número 54 e o Olam Habah

A Parashá Vezot Habrachá é a 54ª e última parashá da Toráh. Já sabemos que na tradição judaica, os números possuem significados profundos. A gematria do número 54 tem implicações significativas, especialmente quando se considera sua relação com as profecias e o Olam Habah.

O número 54 pode ser dividido em dois números principais: 5 e 4. O número 5 está relacionado com a Toráh, pois ela é composta de 5 livros e as dez palavras estão dividas em 5 mandamentos em cada tábua de pedra. A Torah sendo composta por cinco livros, representa o fundamento do relacionamento entre o Eterno e o Seu povo. O número 4 nos lembra os quatro exílios pelos quais o povo de Yisrael passaria antes da redenção final, a dispersão assíria, o exílio babilônico, o persa e o romano.

Quando somamos os dígitos de 54, temos 5 + 4 = 9, que é um número associado à verdade e ao julgamento. Verdade em hebraico é Emet – אמת, ela é uma das poucas palavras que não possui plural, segundo Bruno Summa, na língua santa a verdade é apenas uma. A verdade é a própria Toráh. Perceba a gematria da palavra אמת:

  • 1=א

  • מ=40

  • 400= ת

Total 1+4+4 = 9, assim esse valor conectando-o ao conceito de Olam Habah, que será no 9º milênio em diante, como o tempo em que a justiça divina será plenamente manifestada. Profecias em Yeshayahu 65:17 fala sobre os "novos céus e nova terra", que é o cumprimento final da justiça divina.

Essa conexão do número 54 com o Olam Habah também nos mostra que este é um estágio de transição, assim como a própria parashá marca o fim da Toráh e a abertura para uma nova era de cumprimentos proféticos.


Gematria de וְזֹ֣את הַבְּרָכָ֗ה – Vezot Habrachá e Suas Implicações Proféticas

A frase וְזֹ֣את הַבְּרָכָ֗ה ("E esta é a bênção") contém uma riqueza de significados quando examinada por meio da gematria, tanto na forma mispar gadol (gematria "grande" ou “normal”), mispar siduri (sequencial), quanto mispar katan (reducida).

- Mispar Gadol ou gematria normal

646 – 16 - 7- וְזֹ֣את הַבְּרָכָ֗ה – Vezot Habrachá

Este valor está associado com a palavra נצר – "netzer" - broto, que possui a mesma raíz gemátrica (7), observando que as bênçãos ditas por Moshê têm como objetivo revelar o broto que cresceria aproximando os remanescente ao Eterno, e explicitamente diz respeito à missão do messias em relação ao povo de Yisrael. Também, na forma mispar gadol, onde as letras têm valores maiores, podemos ver que esse broto se refere à revelação sobre os seguidores do messias que cumprem o mesmo papel, resgatando as ovelhas perdidas e conduzindo-as para o Olam Habah. Yeshayahu 11:1 fala de um ramo que surgiria do tronco de Yishai e cujas raízes brotaria um renovo, esse renovo fala sobre Yisrael, ligando a gematria das bênçãos com essa visão profética.


- Mispar Siduri – valor sequêncial

Na gematria sequencial, onde as letras são contadas em sua ordem no alfabeto com valor de cada letra de 1 a 22, o valor da frase וְזֹ֣את הַבְּרָכָ֗ה – vezot habrachá têm raiz 7, a mesma raiz que encontramos na gematria normal, isso destaca a continuidade e também a progressão da revelação do Eterno. Essa ideia de "sequência" aponta para o processo de redenção gradual, isto é, a teshuvah, que culminará no Olam Habah.


- Mispar Katan – valor reduzido (é o valor das letras, mas sem os zeros após números grandes. (ex. "Yud" é 1 em vez de 10, "Tav" é 4 em vez de 400)).

Quando a gematria é reduzida, a frase וְזֹ֣את הַבְּרָכָ֗ה – vezot habrachá chega ao número 34, que somado também apresenta a raiz 7, conectando-a novamente ao conceito de netzer – broto. Isso, como vimos aponta para a tarefa do messias, que é resgatar os perdidos e conduzi-los ao caminho da verdade, que é a Torah. O 7 aponta para o Shabat semanal, que é o sétimo dia, que por sua vez aponta para o sétimo milênio, sendo ideias de descanso, sendo cumpridos à partir do sétimo milênio e se tornando pleno no 9º milênio.

Já vimos anteriormente que verdade tem raiz 9, por isso, o messias leva a verdade e justiça que será estabelecida plenamente a partir do sétimo milênio, ou seja, antes do Olam Habah. Isso reflete profecias como as de Daniel 12:2, onde fala sobre a ressurreição e o julgamento final.

O Mashiach como mensageiro da verdade, tem a missão de restaurar a justiça no mundo. Isso é consistente com as profecias sobre o Mashiach, que julgará com equidade e trará a verdadeira instrução ao povo de Yisrael e às pessoas das nações. Essa verdade será manifestada plenamente no sétimo milênio, conforme indicado na tradição hebraica, antes do Olam Habah, conforme mencionado acima.


Conexões Proféticas nos Livros dos Nevi'im (Profetas)

As bênção proferidas por Moshê nessa parashá, conforme estamos vendo até agora, apontam para um futuro profético que ecoam o por vir de Yisrael como nação escolhida, bem como a manifestação do reinado do Eterno sobre a terra através da representatividade do messias. Nos profetas encontramos múltiplas conexões às promessas referidas ao destino de Yisrael que ampliam as palavras de Moshê, conectando suas bênçãos às promessas de redenção e restauração final.

Essas conexões são fundamentais para compreender a profundidade do legado de Moshê, já que suas bênçãos para as tribos, especialmente para Yehudah, Levi e Yosef, refletem realidades futuras que se cumprem de maneira progressiva ao longo da história, mas culminam no Olam Habah. Por exemplo, o papel de Yehudah como liderança messiânica, previsto tanto por Moshê quanto por profetas como Yeshayahu (Isaías), aponta para a vinda de um reinado justo e eterno sob o Mashiach ben David. Do mesmo modo, a bênção de Levi, com sua função sacerdotal, antecipa a purificação e restauração do serviço no Templo, conforme descrito em Malaquias 3:3.

Ao olharmos para os escritos dos profetas, como Yehezkel (Ezequiel) e Z’kharyah (Zacarias), vemos que o futuro de Yisrael e seu papel entre as nações está diretamente ligado ao cumprimento das bênçãos de Moshê. As promessas de uma terra restaurada, de justiça e paz, e da presença do Eterno entre Seu povo ressoam em cada profecia. Essas visões proféticas não são apenas abstratas, elas estão enraizadas nas bênçãos que Moshê deu, revelando um destino sagrado que transcende a história e nos conduz à plena realização no Olam Habah.

Vamos ver três passagens sérias:

Yeshayahu 2:2-4: Esta passagem profetiza que no fim dos dias, todas as nações subirão a Yerushalayim para buscar a instrução do Eterno. As conquistas dadas por Moshê, especialmente a Yehudah e Levi, alinham-se com essa visão de liderança e ensinamento que veio da Casa de David e dos levitas no Olam Habah .

Yehezkel 37:15-28: Uma profecia da união entre Yehudah e Yosef, que simboliza a futura unificação de todo o povo de Israel sob um só rei, o Mashiach. Isso é visto nas bênçãos de Moshê para ambas as tribos, onde Yehudah é exaltado como líder e Yosef é abençoado com prosperidade e força.

Zacarias 14:9: O versículo que afirma que o Eterno será rei sobre toda a terra. Essa promessa está no centro das bênçãos de Moshê, que desejava que o povo confirmasse o reinado do Eterno em todas as suas ações.

Concluindo nosso estudo, vimos que este é o último capítulo da Toráh, mas para nós, é apenas o começo de uma nova jornada. Que a vida de Moshê nos inspire a buscar o Eterno com toda nossa força e coração, sabendo que, assim como ele, somos chamados a grandes coisas, mesmo que o fim de nossa jornada seja desconhecido mantemos a esperança. Que esta seja também nossa bênção.

Hazak, hazak, v’nit’chazek! Seja forte, seja forte e sejamos fortalecidos!


Que HaShem lhes abençoe!


Pr/Rav. Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)