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quarta-feira, 11 de junho de 2025

Estudo da Parashá Behaalotechá - Luz Contínua: Quando a Instrução do Eterno Ilumina Mesmo na Escuridão

 


Estudos da Torá

Parashá nº 36 – Behaalotechá (Quando você acender)

Bamidbar/Números 8:1-12:16

Haftará (separação) Zc 2:14-4:7 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Jo 19:31-37; Hb 3:1-6


Tema: Luz Contínua:

Quando a Instrução do Eterno Ilumina Mesmo na Escuridão


Ao iniciar a leitura e estudo da porção Behaalotechá, encontramos uma imagem profundamente simbólica: o acendimento contínuo da menoráh. Esta imagem não representa apenas uma ação ritualística e muito menos uma obediência legalista, mas um chamado prático e constante para manter a luz viva diante do Eterno. A Luz, que nas Escrituras representa as instruções divinas, e que deve permanecer acesa mesmo quando nossos olhos não veem mais nenhuma claridade ao redor. A pergunta que ecoa para todos os que desejam andar no caminho do Eterno é: “Onde em minha vida preciso da luz constante do Eterno?”

Neste estudo buscaremos compreender essa luz não apenas como símbolo, mas como realidade prática – que nasce da confiança firme na Palavra do Eterno e nos transforma. Veremos isso pela Torá, pelos Profetas, e pelos ensinos de Yeshua e seus talmidim.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

O Eterno ordena a Aharon que acenda as lâmpadas da menorá de forma que iluminem diante dela. A instrução aponta para a santidade contínua, a luz permanente que deve ser elevada diante do Eterno.

A porção também demonstra mais uma vez, que os levitas são separados para o serviço no Mishkan. E para isso passam por um processo de purificação com água, raspagem de todo o corpo e apresentação diante da congregação. Eles são os substitutos dos primogênitos para o serviço exclusivo ao Eterno.

Nessa parashá, ainda é apresentada a possibilidade, para aqueles que estavam impuros por contato com mortos e não puderam celebrar Pessach no tempo correto, de realizá-lo no segundo mês, o chamado Pessach Sheni – mostrando a misericórdia e justiça do Eterno

A Torá demonstra que o povo só se movia quando a nuvem sobre o Mishkan se levantava. Se a nuvem permanecesse, eles ficavam acampados, mesmo que fosse por dias ou anos. Isso ensina confiança total na condução do Eterno. E relata também que são feitas duas trombetas de prata para convocar a congregação e sinalizar os movimentos no acampamento, bem como nas batalhas. Eram usadas ainda em festas e momentos de alegria diante do Eterno.

No segundo ano após a saída do Egito, o povo parte do Sinai e segue jornada pelo deserto, com a Arca da Aliança indo adiante. O povo começa a reclamar por causa de dificuldades e falta de carne. O Eterno envia fogo em Taverá e depois codornizes em grande quantidade, mas os que reclamaram com avidez são punidos em Kivrot-Hataavá.

A porção conclui com Miryam e Aharon falando contra Moshê por causa de sua esposa cuxita. O Eterno os repreende, dizendo que com Moshê Ele fala claramente. Miryam é punida com lepra e fica isolada por sete dias até ser curada pela intercessão de seu irmão e líder Moshê.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Ao iniciarmos nosso estudo dessa semana, observemos primeiramente o que diz o texto que começa essa porção da Torá, Bamidbar 8:1-2:


O Eterno disse a Moshê: Fale a Aharon: Quando você acender as lâmpadas, as sete lâmpadas devem projetar a luz para a frente, diante da menoráh.


A menoráh é o símbolo da presença contínua do Eterno no meio do povo, e a chama que jamais se apaga representa nossa resposta à Sua presença: uma vida de obediência diária. No hebraico, o termo usado é “behaalotechá”בְּהַעֲלֹתְךָque vem da raiz העלה - haaláh, que significa "subir", "elevar", e não apenas “acender”. Ou seja, acender as lâmpadas é mais que produzir luz: é elevar a chama, trazer um movimento ascendente da alma rumo à instrução do Eterno. É um chamado para que a nossa vida não fique em escuridão nem seja conduzida pela instabilidade das circunstâncias.


1. A Luz da Instrução: Da Menorá ao Coração

A menoráh, cuja construção foi instruída com detalhes em Shemot 25:31–40, é feita de uma só peça de ouro puro – como uma única essência da vontade do Eterno. Isso demonstra que HaShem deseja que nós devemos ser moldados com um único material, a Torá. Suas sete lâmpadas não apenas iluminam o espaço físico do Mishkan, mas apontam para a permanência da instrução do Eterno. O salmista declara:


Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho. Tehilim 119:105


Aqui está a resposta: a luz do Eterno é a Sua Palavra, Sua Torá. Precisamos dessa luz nos momentos de incerteza, nas decisões silenciosas, nos becos da vida em que não vemos saídas. A firme confiança não nasce do que sentimos, como muitos pensam, mas da luz que permanece acesa em nós por causa da Palavra do Eterno.


2. A Luz que Exorta e Restaura

Vemos no TaNaK os profetas sempre repetindo as instruções do Eterno e orientando o povo a está na vontade de HaShem. Por exemplo o profeta Yeshayahu (Isaías) anuncia:


Ó casa de Yaakov, vinde, e andemos na luz de HaShem. Yeshayahu 2:5


E também:


O povo que andava em trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte resplandeceu a luz. Yeshayahu 9:2


A luz aqui é a restauração da instrução do Eterno, vinda em tempos de escuridão – idolatria, injustiça, exílio. Assim como a menoráh era limpa e reacendida diariamente, os profetas nos ensinam que mesmo em meio ao colapso da nação, a luz do Eterno pode brilhar, se buscarmos voltar à obediência.

Outro exemplo de orientação e menção à luz como apontamento para a obediência à Torá encontramos em Yirmeyahu (Jeremias) 4:22 e 23. Note que se lermos desde o início percebemos uma profecia que fala sobre as transgressões de Yehudah, sua queda e consequentemente sua falta de luz, e também fala que se mudarem seu posicionamento o Eterno os recebe novamente. Sugiro uma leitura e meditação do mencionado capítulo do profeta.


3. A Luz Encarnada em Obediência

Nos escritos dos emissários, conhecido por muitos como Novo Testamento, vemos o Messias Yeshua e seus Talmidim seguirem com essa mesma linha de interpretação e ensino. Yeshua ensina aos seus talmidim:


Vocês são a luz do mundo. A cidade construída sobre o monte não pode ser escondida. Da mesma forma, quando alguém acende uma candeia, não a cobre com uma vasilha, mas a coloca no suporte para iluminar a todos os que estão na casa. Assim, que sua luz brilhe diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai que está nos shamaym. Matityahu 5:14-16


Yeshua não se apresenta como “deus”, mas como um servo obediente que vive a Torá, ensinando que a luz se expressa em boas obrasmaasim tovim – que refletem a instrução do Eterno. Os talmidim, como Kefa (Pedro), declaram:


Vocês, porém, são o povo escolhido, os kohanim do rei, a nação santa, o povo pertencente a D’us! Por quê? Para louvar Aquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Kefa Alef (1Pedro) 2:9


Ou seja, somos chamados a levar essa luz – não de maneira teórica, mas por meio de atos que manifestam a instrução viva do Eterno em nós, mesmo quando o mundo está em trevas. Devemos seguir o exemplo do próprio Yeshua e de seus talmidim, e antes deles os profetas. Nossa vida, por mais difícil e atribulada que seja, deve manifestar essa luz, a obediência à Torá, a palavra de HaShem. A luz que guia quem está na escuridão.


4. Detalhe Hebraico de Aprofundamento

Antes de concluirmos, é importante destacar a importância do contexto original e do conhecimento da língua hebraica. A palavra “ner” נֵר (lâmpada/luz) aparece frequentemente com a ideia de transmissão de sabedoria e vida. Por exemplo em Mishlei 6:23, lemos:


Porque o mandamento é uma lâmpada (ner), e a instrução (torá) é luz...


Aqui, o paralelismo poético hebraico deixa claro: a lâmpada é o mandamento específico; a luz é o todo da Torá. Nesse entendimento, quando mantemos os nerot (lâmpadas) acesas, cada mandamento obedecido, a luz da Torá brilha de forma completa em nossas vidas. Por isso a Torá e os profetas chamam de justos os que vivem conforme os mandamentos de justos, como Yeshua disse que os talmidim são luz. Apagar um só mandamento é perder parte da claridade.

Concluindo nosso estudo, vamos refletir na pergunta que fiz no início desse estudo. “Onde em minha vida preciso de luz constante do Eterno?” A resposta deve sempre ser: em todo lugar onde ainda caminho com meus próprios olhos.

A luz do Eterno não depende do nosso entendimento ou emoções, mas da permanência diária na obediência. Ela não é uma filosofia com pensamentos humanos e religiosos, é luz verdadeira que advém da prática diária em amor ao Eterno. A menoráh era acesa mesmo em momentos de silêncio divino, em dias comuns do deserto, quando tudo parecia estar perdido. Assim também, nossa vida deve estar acesa mesmo quando não vemos milagres, pois a maior luz é a constância na fidelidade ao Eterno.

Leiamos juntos Tehilim 43:3


Envia a tua luz e tua verdade, para que sejam meu guia; deixa que me guiem a teu santo monte, aos lugares onde habitas.


Que a chama da instrução do Eterno jamais se apague em cada um de nós, mesmo quando não vemos raízes, mesmo quando não sentimos sua presença. Porque a luz verdadeira é aquela que vem da obediência.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Estudo da Parashá Nassô - Equilibrando os nossos desejos: o voto de Nazir.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 35 – Nassô (Faça)

Bamidbar/Números 4:21-7:89

Haftará (separação) Jz 13:2-25 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Jo 7:53-8:11; Atos 21:17-32


Tema: Equilibrando os nossos desejos: o voto de Nazir.


Sejam muito bem-vindos a mais um momento de aprendizado e reflexão profunda nas Palavras do Eterno! No estudo dessa semana, convido você a fazer uma pausa, respirar fundo e olhar com sinceridade para dentro de si: Quem governa a sua vida, você ou os seus desejos?

Vivemos em uma época em que somos bombardeados a todo instante por estímulos, desejos e vontades. O mundo e o sistema religioso nos diz: “siga o seu coração”, “viva sem limites”, “aproveite tudo ao máximo”, “não se preocupe estamos na graça”, “a lei foi cravada na cruz”. Mas será que esse é o caminho que o Eterno quer para nós?

Neste estudo exploraremos um dos temas mais intrigantes e desafiadores das Escrituras: o voto de Nazir. É uma escolha radical de se afastar, temporariamente, de prazeres lícitos, para se consagrar totalmente ao Eterno. E perceberá também que esse voto não é apenas sobre vinho ou cabelo comprido… É, na verdade, sobre equilibrar os nossos desejos, dominar o que muitas vezes parece indomável dentro de nós, e encontrar um caminho de liberdade verdadeira.

Vamos viajar juntos pelo Sefer Bamidbar, mas também pelas palavras dos profetas, dos ketuvim (escritos) e até dos escritos nazarenos, para descobrir a mensagem poderosa constante nesse antigo voto, que permanece viva e atual para cada um de nós! Não importa quem você é ou onde esteja na sua caminhada. Este estudo é para todos que desejam crescer, amadurecer e, principalmente, servir ao Eterno com um coração puro e equilibrado. Prepare o seu coração… e venha comigo!


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Esta é a segunda porção do Sefer Bamidbar, chamada Nassô. Seguindo as instruções do Eterno, essa porção aprofunda o papel das famílias de Levi, leis de pureza no acampamento, o voto de nezirut e a bênção sacerdotal, entre outros temas.

Depois da contagem dos filhos de Kehat, a Parashá continua com a contagem dos filhos de Gershon e Merari, outros clãs da tribo de Levi. O Eterno ordena que também estes sejam contados, de 30 a 50 anos, pois realizariam o serviço do Mishkan. As famílias de Gershon seriam responsáveis pelas cortinas, tapeçarias e coberturas do Mishkan. Enquanto as de Merari foram encarregados das tábuas, travessões, colunas e bases, ou seja, toda a estrutura física do Mishkan. Cada família de Levi tinha uma missão específica e intransferível. Assim, serviam ao Eterno com ordem e reverência.

O Eterno ordena a remoção do acampamento de qualquer pessoa impura: seja Metzora (impureza por tzaraat), Zav (fluxos corporais impuros) e Temei Nefesh (impureza por contato com mortos). O acampamento, onde a Presença do Eterno habitava, deveria permanecer puro.

Aquele que pecasse contra o próximo deveria confessar a sua transgressão, restituir o valor do prejuízo mais um quinto e caso não houvesse parente próximo para a restituição, o bem seria entregue ao sacerdote. E aqui se destaca a importância da teshuvá, que significa arrependimento, retorno e reparação diante do Eterno e do próximo.

Esta porção trata da mulher suspeita de traição, a chamada sota. O homem que suspeitasse da infidelidade de sua esposa deveria levá-la ao sacerdote. Ela então passava por um ritual:

- Era apresentada ao sacerdote;

- Ingeria águas amargas contendo palavras escritas de maldição;

- Se fosse culpada, sofreria consequências físicas; se inocente, seria abençoada com fertilidade.

Este mandamento revela a seriedade da santidade do casamento, mas também a misericórdia do Eterno, que permitia provar a inocência da mulher e restaurar a confiança.

Homem ou mulher que desejasse se consagrar ao Eterno podia fazer o voto de Nazir, comprometendo-se com três restrições principais:

- Não beber vinho ou qualquer derivado da uva;

- Não cortar o cabelo;

- Não se tornar impuro por contato com mortos, nem mesmo por parentes próximos.

O Nazir buscava se separar das vaidades e prazeres para se dedicar ao Eterno. Este voto revela que a consagração ao Eterno não é exclusiva dos levitas ou sacerdotes, mas aberta a todo aquele que, com firme confiança, deseja se aproximar Dele.

O Eterno instrui a Aharon e seus filhos a abençoar o povo de Yisrael com as palavras da Birkat Kohanim. Esta bênção expressa o desejo de proteção, graça, e paz do Eterno sobre o Seu povo.

A porção finaliza com o dia em que Moshe completou a montagem do Mishkan, e os líderes das tribos levando oferendas voluntárias. A repetição detalhada de cada oferta demonstra que, embora iguais, cada presente era considerado especial diante do Eterno, pois expressava a dedicação e amor de cada líder e tribo.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Observe que desde o princípio, o ser humano carrega dentro de si uma tensão permanente: o chamado do Eterno à santidade e a atração natural pelos desejos materiais e carnais. Conforme está escrito na Torá:


Pois a inclinação do coração do homem é má desde a sua juventude. Bereshit/Gn 8:21.


O voto de Nazir, conforme instruído em Bamidbar 6, surge como um modelo extraordinário desse enfrentamento interior. O Nazir não é um asceta que despreza o mundo, mas alguém que, reconhecendo a força dos seus desejos, decide consagrar-se por um tempo determinado, afastando-se dos prazeres lícitos para intensificar sua aproximação ao Eterno. Talvez você pergunte o que é um “asceta”? Pois bem, segundo o dicionário, ascetismo é um estilo de vida caracterizado pela abstinência dos prazeres mundanos por meio da autodisciplina, da pobreza autoimposta e da vida simples, muitas vezes com o propósito de perseguir objetivos espirituais. O que, conforme já mencionei, não é o caso do Nazir.

Hoje, ao estudarmos profundamente este voto, aprenderemos sobre o equilíbrio necessário para não sermos escravos dos desejos, mas também não desprezarmos a criação que o Eterno nos deu. Como está escrito:

Sejam santos, pois Eu, HaShem, sou santo. Vayicrá/Lv 19:2.


Veremos que o caminho correto é com equilíbrio, consagração e vigilância constante.


1. O Nazir: Separação para a aproximação

A separação dos prazeres materiais

De acordo com o que lemos na Torá, vemos que o Nazir se separa, sobretudo, do vinho e de tudo o que provém da uva, não só da bebida, mas até das uvas-passas ou sementes, conforme ordenado:


De tudo que se faz da vinha do vinho não comerá… Bamidbar/Nm 6:4.


Como bem exposto no texto que estamos estudando, os sábios entenderam que a ordem do Eterno para o afastamento de todos os derivados da uva é uma cerca de proteção, evitando que, por descuido, o Nazir venha a transgredir. Isso ensina um princípio poderoso: quem deseja manter-se puro diante do Eterno, deve colocar distância entre si e aquilo que pode corrompê-lo, como está escrito:


Fujam do mal e façam o bem... Tehilim/Sl 34:14.


O vinho ou outras bebidas enebriantes, símbolo de alegria e celebração, também podem ser portas para a perda de autocontrole. O Nazir, ao abster-se, busca manter a mente clara e o coração vigilante.


Deixar de lado a vaidade e o ego

A segunda característica marcante do Nazir é não cortar os cabelos durante o período do voto:


Todos os dias do voto de sua consagração, navalha não passará sobre sua cabeça... Bamidbar/Nm 6:5.


Como destacou Seforno, um sábio do povo de Yisrael, ao deixar o cabelo crescer, o Nazir abdica da preocupação estética, da vaidade pessoal, renunciando ao desejo de agradar aos olhos humanos para se voltar totalmente ao Eterno. Este ato silencioso e visível de não se embelezar demonstra um coração comprometido com valores mais elevados que a aparência. Como está escrito:


O homem vê o que está diante dos olhos, mas HaShem vê o coração Shmuel Alef/1Sm 16:7


Pureza extrema: nem mesmo pelos mortos

O Nazir também não pode se impurificar por mortos, nem por seus parentes mais próximos, conforme lemos em Bamidbar/Nm 6:7. Aqui, há um rompimento radical: até mesmo o instinto natural de chorar e cuidar dos mortos é colocado em segundo plano diante da sua consagração ao Eterno.

Este é o mesmo padrão do Cohen Gadol, como expõe o Midrash: a consagração total exige um grau de pureza acima do comum. Assim, aprendemos que há momentos em que servir ao Eterno requer deixar de lado até mesmo os vínculos mais fortes, como disse o messias:


Quem seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou filha mais que a Mim, não é digno de Mim. Matityahu/Mt 10:37


Percebam que como homem, enviado pelo Eterno para anunciar o Reino, Yeshua falava não por si mesmo, mas como um navium profeta, um mensageiro que representava a vontade do Eterno, conforme está escrito:


Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. Devarim/Dt 18:18


Portanto, quando Yeshua diz que é necessário amá-lo mais que aos próprios pais ou filhos, ele está se colocando no papel daquele que representa a Torá e as instruções do Eterno, não que ele deveria ser adorado. O que ele está dizendo é:

Se você valoriza mais os laços humanos do que a obediência à verdade que eu ensino — à vontade do Eterno — então você não está pronto para andar neste caminho. Não se trata de substituir o amor ao Eterno pelo amor a Yeshua, jamais! Pois está escrito claramente:


Amarás a HaShem, teu Elohim, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Devarim/Dt 6:5


Este é o maior de todos os mandamentos! Mas amar a Yeshua, como ele mesmo ensinava, significava seguir o caminho da obediência ao Eterno com fidelidade, mesmo que isso custasse rupturas familiares, rejeição ou perseguição. Ele estava chamando o povo a colocar o Eterno acima de tudo, inclusive dos laços mais queridos.

Lembre-se que o contexto dessa fala é o envio dos emissários, e ele advertia que seguir o Eterno com sinceridade causaria divisão até mesmo dentro das famílias, como pode ser lido em Matityahu/Mt 10:34-36, como também já tinha sido profetizado:


O filho despreza o pai, a filha se levanta contra sua mãe a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa. Mikhah/Mq 7:6.


Portanto, Yeshua não estava pedindo adoração pessoal, mas dizendo: “Se vocês colocarem qualquer pessoa — por mais amada que seja — acima da verdade que ensino, vocês não estão prontos para caminhar comigo neste chamado de total consagração ao Eterno.”

Servir à HaShem é uma chamada à fidelidade radical ao Eterno, e Yeshua, como verdadeiro servo, estava dizendo: sigam-me, porque eu sigo o Eterno com todo o coração. Era isso o que um Nazir fazia durante o tempo de seu nazireado, o tempo de seu voto. E é o que devemos fazer em nossas vidas.


2. O Nazir e o equilíbrio dos desejos: entre abstinência e serviço

Não é um desprezo ao mundo, mas um caminho de equilíbrio

O Nazir não se afasta do vinho porque este seja mau em si mesmo, pois o vinho é citado como bênção:


O vinho que alegra o coração do homem. Tehilim/Sl 104:15

A separação ou o voto é temporário e pedagógico: um exercício para demonstrar que o homem não deve ser dominado pelos prazeres, mas governá-los. Assim também disse Shelomo:


o neguei a meus olhos nenhum desejo. Mantive-me no prazer, pois senti satisfação por todo o meu trabalho, e essa foi minha recompensa por tudo. Então olhei para a realização das minhas mãos e para o trabalho que executei; e vi que ele era totalmente desprovido de sentido, sustentar-me de vento, e que não havia obtido nada debaixo do sol. Kohelet/Ec 2:10-11.


Entender o voto do Nazir nos ensina que o domínio dos desejos não exige o desprezo do mundo, mas a capacidade de, por amor ao Eterno, colocar limites quando necessário.


O Nazir como figura de autocontrole e inspiração profética

O Nazir é a representação do ideal profético de domínio próprio, como exemplificado na vida de Shimshon, em Shoftim/Jz 13. Desde o ventre de sua mãe, Shimshon foi separado como Nazir, um homem consagrado, cuja força vinha não dos seus músculos, mas da sua dedicação ao Eterno. Todavia, seu fim trágico mostra que não basta o voto externo: é necessário que o coração esteja alinhado com a consagração. Ele falhou ao romper os limites de seu voto, e isso nos mostra a necessidade de coerência interna e não apenas forma externa. Como disse o profeta Yirmeyahu:


Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas… Yirmeyahu/Jr 17:9.


Assim, o Nazir é chamado não apenas a práticas externas, nem ao legalismo, mas a um profundo exame interior, buscando pureza de intenções e não apenas aparências.


A humildade no término do voto: expiação obrigatória

É interessante notar que, ao concluir seu voto, o Nazir deveria trazer um sacrifício pelo pecado (chatat), conforme lemos em Bamidbar 6:13. Por quê? Os sábios do nosso povo explicam: pelo fato de ter-se privado das bênçãos que o Eterno deu ao homem, como o vinho, símbolo de alegria e festividade, por exemplo. Esta obrigação final mostra que a abstinência não é o ideal permanente, mas um instrumento pedagógico. Assim também nos ensinou Kohelet:


Por isso, não seja excessivamente justo nem sábio; por que frustrar a si mesmo? Kohelet Ec 7:16


O serviço ao Eterno requer equilíbrio, ou seja, nem entrega desenfreada aos prazeres, nem mortificação extrema.


3. Paralelos com os Profetas e os Escritos Nazarenos

O chamado profético à separação

O voto de Nazir ecoa o chamado dos profetas ao povo para separar-se da idolatria e da corrupção moral:


Afastem-se, saiam daqui! Não toquem em coisas impuras! Saiam dela e sejam puros, vocês, que transportam os utensílios do Eterno. Yeshayahu 52:11


A separação não é um fim em si mesmo, mas um meio para manter-se puro para o serviço ao Eterno. O Nazir é um modelo desse chamado: separa-se para aproximar-se de HaShem.


O exemplo de Yeshua: domínio próprio e santificação

Yeshua, embora nunca tenha feito o voto de Nazir, viveu como um homem separado para o Eterno. Esse afastamento voluntário é semelhante ao espírito do Nazir: não uma rejeição do vinho, mas um gesto de consagração, aguardando o tempo apropriado. Yeshua também ensinou:


Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua estaca e siga-me. Matityahu/Mt 16:24


Este chamado à negação dos desejos carnais é o mesmo que inspira o voto de Nazir.


O fruto do autocontrole: uma vida de paz

Lemos em Mishlei:


Melhor é o homem paciente do que o valente, e o que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade. Mishlei/Pv 16:32


O Nazir representa esta conquista interior: domínio próprio, que é também um dos frutos da firme confiança, como reforçado nos escritos nazarenos:


Mas o fruto da firme confiança é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, confiança, mansidão e domínio próprio. Galatim/Gl 5:22-23


4. Lições práticas: como equilibrar nossos desejos hoje

Reconhecer os próprios limites

O Nazir não assume seu voto por orgulho, mas porque reconhece a necessidade de estabelecer limites para não ser dominado por suas paixões. Assim também devemos proceder: reconhecer nossas fraquezas e, por amor ao Eterno, buscar equilibrar nossos desejos,


Usar a separação como um meio, não como um fim

O afastamento dos prazeres deve ter um propósito: aproximar-se do Eterno, purificar-se e crescer em domínio próprio. Não se trata de negar o mundo, mas de usá-lo com sabedoria e moderação. Não é se tornar legalista, uma pessoa que segue centenas de leis de cerca ou halachot para parecer santo. É ser verdadeiramente santo, obedecendo à Torá do Eterno.


Buscar sempre a santidade equilibrada

Devemos sempre lembra o que o Eterno disse ao seu povo:


...Sejam santos, pois eu, o Eterno, o Elohim de vocês, sou santo. Vayicrá 19:2


A santidade não exige um voto de Nazir, mas requer o mesmo espírito, ou seja, os mesmos princípios: domínio dos desejos, pureza de intenções e serviço dedicado. Assim como o Nazir se afasta do vinho, podemos hoje escolher períodos para nos afastar do excesso das redes sociais, comidas específicas ou hábitos que estejam nos afastando da presença do Eterno.

Concluindo nosso estudo, vimos que entender os princípios do voto de Nazir é um convite atemporal para reconhecer que a vida diante do Eterno requer equilíbrio, domínio próprio e, às vezes, afastamento temporário dos prazeres legítimos para que possamos crescer em santificação. Assim como o Nazir, somos chamados a ser "kadosh", isto é, santos, separados, não por desprezar o mundo, mas para que, purificados, possamos servir melhor ao Eterno, amar ao próximo e viver com sabedoria, sendo luz para os remanescentes perdidos da Casa de Yisrael e para todos que desejam se aproximar do Eterno.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef