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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Hipocrisia Revelada. Estudo do Evangelho de Mateus - Capítulo 23 - Parte 1


 


Shalom leitores, vou aproveitar o roteiro que escrevi para gravar o vídeo o estudo de Mateus 23 - parte 1, e adaptá-lo para um artigo aqui do blog. Quero pedir a você que se não for inscrito aqui ainda se inscreva ali na lateral direita, assim você não perderá nenhuma postagem daqui.

Vamos então ao texto. 

Imagine um abismo espiritual tão profundo que separa a observância externa da verdadeira devoção. Neste pequeno artigo, vamos mergulhar em Mateus 23, a primeira parte, onde vemos Yeshua desmascarar o perigoso jogo de fingimento religioso praticado pelos fariseus em sua época. Algo que não é muito diferente do que ocorre em muitos meios religiosos atuais também. Prepare-se para ter sua compreensão da fé autêntica desafiada, enquanto descobrimos lições atemporais sobre humildade e serviço genuíno que ressoam profundamente com nossa caminhada hoje.


Reflita em uma coisa comigo. E quando a liderança se afasta do coração do Eterno? Este é um dos discursos mais duros de Yeshua, não contra o povo em si, mas contra os líderes que conheciam as Escrituras e não as viviam.


Neste contexto histórico, Yeshua está no Beit HaMikdash, poucos dias antes de sua morte. Ele fala publicamente, diante do povo e de seus discípulos. E suas palavras não são novas, são o eco fiel dos profetas do TaNaK, as Escrituras Sagradas já em sua época. Observe o que disse o profetas Amós sobre a hipocrisia dos religiosos.


Eu odeio, abomino completamente, suas festas; não sinto prazer em suas assembleias solenes. Se vocês me apresentarem ofertas queimadas e ofertas de grãos, não as aceitarei; tampouco considerarei as ofertas de paz do gado criado em confinamento. Poupem-me do barulho de seus cânticos! Não quero ouvir o som de seus alaúdes! Em vez disso, que a justiça corra como água, e a retidão, como uma corrente ininterrupta. Amós 5: 21-24


Você pode perceber que o Eterno nunca rejeitou Seu povo, Ele rejeita a hipocrisia, o legalismo e o excesso de chalachá.

Observe o texto referência de nossa reflexão, Mt 23:1-12.

¹ Então, Yeshua disse à multidão e aos seus discípulos:
² "Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moshê.
³ Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam.
⁴ Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los.
⁵ "Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Eles fazem seus tefilim bem largos e os tizitiziot de suas vestes bem longos;
⁶ gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas sinagogas,
⁷ de serem saudados nas praças e de serem chamados ‘rabis’.
⁸ "Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.
⁹ A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus.
¹⁰ Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês têm um só Chefe, o Mashiach.
¹¹ O maior entre vocês deverá ser servo.
¹² Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado. 

Mateus 23:1-12

Quando analisamos calmamente MATTITYAHU/Mateus 23, desvendamos as camadas das práticas farisaicas na época de Yeshua e podemos expor o abismo que havia entre a observância externa e meramente legalista e a devoção interna com kavanah verdadeira. Vamos aqui iluminar a crítica contundente de Yeshua à hipocrisia religiosa, instruindo a um retorno ao discipulado autêntico, isto é, a teshuvah enraizada na humildade e no verdadeiro serviço obediente, alinhando nossa caminhada com os caminhos antigos, os mandamentos e instruções do Eterno na Torá.

1 - O panorama espiritual atual: a fé performática está voltando à moda?

Atualmente podemos observar um panorama espiritual muito parecido com o que Yeshua via em sua época. Muitas pessoas estão vivendo apenas liturgicamente, se preocupam muito em demonstrar o exterior, em como são mais judeus que outros, em qual sinagoga ou grupo pertencem, a qual rabino renomado seguem etc. Enquanto a prática verdadeira, quem vem da kavanah do coração acabam ficando para trás.

Nesse momento do texto, Mattitiahu faz questão de mostrar o que Yeshua falou aos Escribas e Fariseus, os líderes de sua época, pois era nítida a hipocrisia deles, assim como a dos saduceus que nem foram mencionados aqui neste texto.

- "Dizem e não fazem" - Sobre a cadeira de Moshê 

 Na cadeira de Moshe se assentaram os escribas e os perushim, obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois dizem e não fazem.”

A “cadeira de Moshê” representa autoridade baseada na Torá, escrita e oral, não no poder humano ou em legalismos criados pelos religiosos. Yeshua não nega a validade das palavras de Moshê, isto é, a Torá do Eterno. Ele denuncia a ruptura entre ensino e prática, entre valorizar mais leis de homens ou de cerca do que a própria Torá.

Podemos encontrar Paralelos desse pensamento de Yeshua no TaNaK, pois era o que o guiava:

  • Em Devarim 5:27 — ouvir e praticar.

    Aproxime-se você, Moshe, e ouça tudo o que o Eterno, o nosso Elohim, disser; você nos relatará tudo o que o Eterno, o nosso Elohim, lhe disser. Nós ouviremos e obedeceremos".

  • Em Yechezkel 33:31–32 — ouvem como canção, mas não obedecem.

    O meu povo vem a você, como costuma fazer, e se assenta diante de você para ouvir as suas palavras, mas não as põe em prática. Com a boca eles expressam devoção, mas o coração deles está ávido de ganhos injustos.

    De fato, para eles você não é nada mais do que alguém que entoa cânticos de amor com uma bela voz e que sabe tocar um instrumento, pois eles ouvem as suas palavras, mas não as põem em prática.

  • No texto de Yirmeyahu 7:8–10 — confiança em palavras vazias.

    Mas vejam! Vocês confiam em palavras enganosas e inúteis.

    "‘Vocês pensam que podem roubar e matar, cometer adultério e jurar falsamente, queimar incenso a Baal e seguir outros deuses que vocês não conheceram, e depois vir e permanecer perante mim neste templo, que leva o meu nome, e dizer: Estamos seguros!, seguros para continuar com todas essas práticas repugnantes? 

Vemos portanto, com esses textos, que conhecer as Escrituras sem obedecê-las endurece o coração e leva ao legalismo. O Eterno não procura pregadores ou professores eloquentes, mas servos obedientes e de coração verdadeiramente quebrantado.

2 - Desmascarando os "fardos pesados": Identificando regras religiosas que oprimem, em vez de libertar.

Observe agora o verso 4:

Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los.

Sabemos que é de entendimento rabínico que mestres tem liberdade de criar cercas para ajudar ou proteger o mandamento, mas a intenção é de torná-lo mais prático para seu cumprimento, nunca tornar mais difícil. O Eterno jamais ordenou um serviço ou culto, muito menos mandamentos que esmague o povo. Pelo contrário é dito que os mandamentos são vida, observe:

Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Eterno, o seu Elohim, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Eterno é a sua vida, e ele lhes dará muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Avraham, Yitschak e Yaakov. Devarin/Dt 30:19,20

Outro texto, veja:

Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos, pois eles prolongarão a sua vida por muitos anos e lhe darão prosperidade e paz. Que o amor e a fidelidade jamais o abandonem; prenda-os ao redor do seu pescoço, escreva-os na tábua do seu coração. Mishlei/Pv 3:1-3

Quando lê estes textos, você deve perceber exatamente de onde Yeshua, o Mashiach, tirava seus ensinos e críticas aos Escribas e Fariseus. Sempre que as instruções e mandamentos se tornam peso insuportável, é porque leis humanas foram acrescentadas e algo se corrompeu, acabou virando legalismo. As leis do Eterno são boas e não são fardo algum.

Observemos mais alguns paralelos no Tanakh, de onde com certeza, Yeshua se baseava:

  • Yeshayahu 58:6–7 — o serviço que o Eterno escolhe.

    "O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Yeshayahu/Is 58:6,7

  • Tehilim 19:8 — as instruções do Eterno alegram o coração.

    Os preceitos do Senhor são justos, e dão alegria ao coração. Os mandamentos do Senhor são límpidos, e trazem luz aos olhos. Salmos 19:8

  • Yechezkel 34:2-4 — pastores que exploram o rebanho.

    "Filho do homem, profetize contra os pastores de Israel; profetize e diga-lhes: ‘Assim diz o Soberano Senhor: Ai dos pastores de Israel que só cuidam de si mesmos! Acaso os pastores não deveriam cuidar do rebanho? Vocês comem a coalhada, vestem-se de lã e abatem os melhores animais, mas não tomam conta do rebanho. Vocês não fortaleceram a fraca nem curaram a doente nem enfaixaram a ferida. Vocês não trouxeram de volta as desviadas nem procuraram as perdidas. Vocês têm dominado sobre elas com dureza e brutalidade. Yechezkel/Ez 34:2-4

Toda liderança que afasta o povo do Eterno trai sua função, seu propósito diante do Eterno.


Yeshua sempre ensinava de acordo com as Escrituras, o Tanakh, e lá, honra nunca é buscada, é concedida pelo Eterno.


Observe os seguintes textos:


Mishlei 29:23 — o soberbo será abatido.


O orgulho do homem o humilha, mas o de espírito humilde obtém honra. Provérbios 29:23


Tehilim 75:6–7 — a exaltação vem do Eterno.


Não é do Oriente nem do Ocidente nem do deserto que vem a exaltação. É o Eterno quem julga: Humilha a um, a outro exalta. Salmos 75:6,7


Shemuel Alef 15:17 — Sha’ul caiu por buscar honra.


E Samuel disse: "Embora pequeno aos seus próprios olhos, você não se tornou o líder das tribos de Israel? O Senhor o ungiu como rei sobre Israel. 1 Samuel 15:17



Observando a forma de agir dos líderes religiosos da época de Yeshua notamos o contraste do que foi ensinado por Yeshua ecoando o TaNaK, conforme já vimos. Em resumo o mestre diz: O maior é o que serve.


Assim, se alguém precisa de títulos para ser ouvido, como parece ser o caso deles, já perdeu autoridade diante do Eterno. Devemos sempre nos lembrar o que o Eterno quer de cada um de nós, que vivamos segundo os seus mandamentos, e estes ensinados pelo seu Mashiach. E devemos demonstrar principalmente a Kavanah verdadeira, quem vem de um coração em teshuvah.

Pense sobre isso. Shalom




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Estudo da Parashá Vayigash - Yehudah, a Teshuvah e o Caminho do Discípulo

 


Estudos da Torá

Parashá nº 11 – Vayigash (E aproximou-se)

Bereshit/Gênesis 44:18-47:27

Haftará (separação) Ez 37:15-28 e

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) At 7:9-16


Yehudah, a Teshuvah e o Caminho do Discípulo


Há momentos nas Escrituras em que um simples movimento humano se torna um divisor de águas na história da redenção. E a parashá Vayigash nos apresenta um desses momentos: Yehudah se aproxima do governante do Egito e, sem saber, se aproxima do próprio irmão que havia sido rejeitado e vendido. Esse passo não é apenas físico, é o reflexo de um coração quebrantado, responsável e transformado. Aqui, a Torá nos convida a olhar para dentro de nós mesmos e a reconhecer que todo remanescente que deseja se aproximar do Eterno precisa trilhar o mesmo caminho de teshuvah vivido por Yehudah. Venha comigo nesse estudo e entenda a relação de Yehudah com os remanescentes nazarenos e com a teshuvah.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Na parashá Vayigash, a Torá nos conduz a um dos momentos mais intensos e decisivos da história da família de Yaakov. A narrativa se abre com Yehudah se aproximando do governante do Egito, sem saber que este era Yosef, e fazendo uma súplica profunda e responsável pela vida de Binyamin. Yehudah não fala apenas em favor do irmão mais novo, mas carrega em suas palavras o peso do sofrimento de Yaakov e a consequência que a perda de Binyamin traria sobre a casa inteira. Ele assume plena responsabilidade e se oferece para permanecer como servo no lugar do irmão, demonstrando arrependimento, maturidade e liderança.

Esse gesto marca uma virada em direção à teshuvah. Ao ver a transformação de seus irmãos, especialmente de Yehudah, Yosef não consegue mais se conter e revela sua identidade. O reencontro é carregado de emoção e verdade. Yosef não busca vingança, mas reconhece que tudo o que ocorreu estava sob a condução do Eterno, que o enviou adiante para preservar vidas em tempos de fome. Ele consola seus irmãos e os chama a enxergar os acontecimentos não apenas pelo sofrimento humano, mas pelo propósito maior do Eterno.

Yosef então envia seus irmãos de volta à terra de Kenaan com provisões abundantes e a ordem de trazerem Yaakov e toda a família para o Egito. Antes da descida, Yaakov recebe a palavra do Eterno em Beer Sheva, assegurando-lhe que não tema, pois Ele desceria com ele ao Egito e, no tempo determinado, o faria retornar. Essa promessa reafirma que mesmo fora da terra, o pacto permanece vivo.

O reencontro entre Yaakov e Yosef após vinte e dois anos é um dos momentos mais comoventes da Torá. Yaakov vê que seu filho vive e declara estar em paz. A família se estabelece na região de Goshen, onde encontra sustento e proteção durante os anos de fome. A parashá se encerra descrevendo a administração de Yosef sobre o Egito, mostrando como ele centraliza os recursos do país nas mãos do faraó, garantindo alimento ao povo e ordem em meio à crise.

Vayigash é, portanto, uma porção que fala de aproximação verdadeira, reconciliação, responsabilidade e restauração. Ela nos ensina que o arrependimento genuíno abre caminho para a revelação, que a unidade da casa de Yisrael é essencial para a preservação da vida, e que o Eterno dirige a história mesmo quando Seus caminhos não são imediatamente compreendidos. Quem ama o Eterno precisa aprender a se aproximar dele, com verdade e humildade, para que haja vida, reconciliação e continuidade.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A narrativa se abre com as palavras:

...וַיִּגַּ֨שׁ אֵלָ֜יו יְהוּדָ֗ה

Vayigash elayv Yehudah...

E Yehudah se aproximou dele...

Yehudah não se aproxima para se defender, acusar alguém ou justificar o passado, como geralmente vemos em momentos de crise, um exemplo disso encontramos em Adam e Havah, em Bereshit 3:12-13. Ele se aproxima carregando o peso da dor de Yaakov, a fragilidade de Binyamin e a culpa silenciosa que atravessava toda a casa. Pela primeira vez, Yehudah assume plenamente a responsabilidade por outro, oferecendo a própria vida como garantia. Esse gesto marca uma virada clara em direção à teshuvah, demonstrando não apenas arrependimento verbal, mas mudança concreta de atitude.

A Torá mostra que a redenção começa quando alguém se aproxima do Eterno com verdade, responsabilidade e disposição para perder a própria posição em favor da vida do próximo. É esse padrão que ecoa nos profetas e reaparece nos ensinos de Yeshua, apontando o caminho para todo remanescente que deseja ser recebido pelo Eterno.


1. Yehudah como modelo profético de teshuvah prática

A atitude de Yehudah é profética porque revela como o Eterno espera que Seu povo retorne. O profeta Hoshea declara: “Shuvah Yisrael ad HaShem Eloheicha” - “Retorna, Yisrael, até HaShem teu Elohim” (Hoshea 14:2). Retornar não é apenas sentir pesar ou remorso, mas se arrepender, assumir responsabilidade e mudar de direção, isto é, fazer teshuvah de verdade.

Yehudah havia sido um dos que consentiram na venda de Yosef. Anos depois, diante de Binyamin, ele não repete o erro. Ele se coloca no lugar do irmão mais frágil. Essa mudança visível é a essência da teshuvah anunciada pelos profetas: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes” (Yoel 2:13). O Eterno busca um coração que se transforma e se manifesta em ações concretas. No próximo tópico entenderemos mais sobre tais ações concretas e o que ela traz.


2. O remanescente e o peso da responsabilidade coletiva

Os profetas falam repetidamente de um remanescente que retornaria ao Eterno não por mérito próprio, mas por quebrantamento. Yeshayahu declara: “Um remanescente voltará, o remanescente de Yaakov, ao El poderoso” (Yeshayahu 10:21). Esse retorno não acontece sem reconhecimento de culpa e mudança de conduta. É necessário haver arrependimento e reconhecimento que andavam no caminho errado e distante do Eterno. Mas ao fazerem isso, HaShem toca neles e gera condições de aproximação e justificação por meio da limpeza pela Palavra. O mashiach Yeshua ensinou sobre isso, de acordo com o que Yochanan relatou em sua bessoráh (evangelho) 15:3:


Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado. Jo 15:3


A palavra que o mestre da Galil ensinava era a Torá do Eterno, nunca foi outra coisa, como muitos pensam A atitude do remanescente, que gera aproximação tem o peso de servir para um grande grupo de pessoas. Assim, Yehudah fala diante de Yosef não apenas por si, mas pela casa inteira. Ele entende que suas escolhas afetam o pai, os irmãos e o futuro da família. Assim também o remanescente é chamado a viver uma teshuvah que não é individualista, mas responsável, pois sua vida pode levar outros a encontrar o caminho da justiça também. O profeta Yechezkel afirma que o Eterno se agrada quando o ímpio abandona seu caminho e vive, veja:


Acaso eu tenho algum prazer em ver um ímpio morrer? Pergunta o Eterno Elohim. Eu não preferia que ele retornasse de seus caminhos e vivesse? Yechezkel 18:23.


Viver, aqui, está ligado a mudar o caminho, assim como Yehudah mudou o seu. Cada pessoa que deseja realmente servir ao Eterno e fazer parte de seu Reino deve se arrepender, deixar o engano e se converter verdadeiramente ao Eterno, não à religião, à denominação ou ao que quer que o homem crie. A conversão é ao Eterno e a demonstração é através da teshuvah e da prática dos seus mandamentos. Qualquer coisa além disso é religiosidade.

Depois de iniciar a teshuvah, cumpre-se o que foi instituído pelos shaliachim em Atos 15, e aprende-se a cumprir os mandamentos na prática ao se aproximar de um membro do povo do Eterno e estudar a Torá, sem a ênfase que dão em chalachá ou legalismo. No tópico a seguir observaremos que há uma relação entre a atitude de Yehudah e os ensinos de Yeshua sobre a Torá.


3. Yehudah, a teshuvah e os ensinos de Yeshua

Yeshua ensinou esse mesmo princípio, ou seja, viver a teshuvah prática entendendo a responsabilidade de cada um, ao chamar os homens ao arrependimento vívido. Ele disse que a árvore é conhecida pelos seus frutos, ecoando o que já estava escrito:


Porque o homem vê o que está diante dos olhos, mas HaShem vê o coração” Shemuel Alef 16:7.


Há pessoas que até pensam se esconder por trás de aparência de santidade e justiça, mas é o coração e as práticas verdadeiras que produzem frutos reais e visíveis. Esse é o verdadeiro testemunho que a pessoa tem, o testemunho de sua justiça, dito por outros, sem que eu precise abrir a boca. As Escrituras mostram com clareza que o verdadeiro testemunho de alguém que anda nos caminhos do Eterno não é autoproclamado, mas confirmado pelos outros, por meio de obras visíveis, caráter transformado e fidelidade prática aos mandamentos. Desde a Torá, o Eterno estabelece que o testemunho válido vem de fora, nunca apenas da própria boca:


Uma só testemunha não se levantará contra um homem por qualquer iniquidade ou pecado; pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato.” Devarim 19:15


Esse princípio não é apenas jurídico, mas espiritual: ninguém autentica a si mesmo. A vida alinhada ao Eterno é reconhecida pelos frutos que outros veem. O testemunho nas ações, não nas palavras. Em Mishlei Sh’lomoh ensina que o caráter é provado pela conduta observável:


Pelos seus frutos o homem se dá a conhecer.” Mishlei 20:11


Quem vive segundo os mandamentos não precisa se defender ou se promover. A obediência constante produz um testemunho silencioso, porém forte, que é percebido pelos que estão ao redor. O próprio Eterno declara que Seu povo é reconhecido como testemunha por aquilo que vive:


Vós sois Minhas testemunhas, diz HaShem.” Yeshayahu 43:10


Não se trata de discurso, mas de vida alinhada à vontade do Eterno. Yeshua reafirma exatamente esse padrão. Ele declara que o testemunho de alguém sobre si mesmo não é suficiente:


Se eu dou testemunho de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro.” Yochanan 5:31


E aponta que o testemunho legítimo vem das obras visíveis:


As obras que o Pai me deu para realizar, essas mesmas obras testificam de mim.” Yochanan 5:36


Da mesma forma, ele ensina que os seus talmidim seriam reconhecidos não pelo que dizem, mas pelo modo como vivem:


Por isto todos conhecerão que sois meus talmidim: se tiverdes amor uns pelos outros.” Yochanan 13:35


Por isso, o reconhecimento deve vir de fora. O testemunho nasce da prática. Quando Yeshua falou sobre amar o próximo, carregar o peso do outro e negar a si mesmo, ele não introduziu algo novo, mas revelou o caminho já vivido por Yehudah. E Yehudah se nega, se esvazia de sua liberdade e se oferece como servo. Isso está em perfeita harmonia com a Torá:


Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Vayicrá 19:18.


Por isso, o remanescente que se aproxima do Eterno precisa viver essa mesma lógica, isto é, obediência, responsabilidade e amor prático. Ao concluir o estudo dessa parashá, vemos que a parashá Vayigash nos ensina que o Eterno recebe aqueles que se aproximam com verdade. Yehudah não foi recebido porque falou bonito, mas porque demonstrou mudança. Sua atitude apontava claramente como estava seu coração. Sua teshuvah foi demonstrada na disposição de perder para que outro vivesse. Esse é o caminho do remanescente em todas as gerações.

Os profetas anunciaram e Yeshua ensinou o que a Torá já afirmava, o retorno ao Eterno não acontece sem transformação visível. Cada pessoa que deseja se achegar ao Eterno deve se ver em Yehudah, alguém que reconhece o passado, se arrepende, assume responsabilidade no presente e escolhe obedecer às instruções do Eterno no dia a dia.

Se ainda não abriu, abra os olhos e o coração para a verdade e faça teshuvah já!

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Que o Eterno lhes abençoe.


Moshê Ben Yosef


sábado, 20 de dezembro de 2025

A Sabedoria de Yosef é visto como um prenúncio do Mashiach.

 


A Sabedoria de Yosef é visto como um prenúncio do Mashiach.
A sabedoria de Yosef na parashá Mikets é vista por alguns comentaristas como um prenúncio da sabedoria do Mashiach.
Podemos destacar algumas conexões importantes para ajudar no entendimento:
1. *Sabedoria e liderança*: Yosef é apresentado como um líder sábio e capaz, que salva o Egito e sua família da fome. O Mashiach também é descrito como um líder sábio e justo que trará paz e prosperidade para Israel e as nações (Isaías 11:1-5).
2. *Interpretação de sonhos e visão*: Yosef interpreta os sonhos do Faraó e prevê o futuro. O Mashiach é descrito como alguém que terá visão e entendimento para julgar com justiça (Isaías 11:3-4).
3. *Salvação e redenção*: Yosef salva sua família da fome e os leva a se estabelecer no Egito, prenunciando a redenção final que o Mashiach trará para Israel e o mundo.
Alguns midrashim e comentaristas, como o Ramban, veem Yosef como um tipo de Mashiach, que traz salvação e redenção para seu povo.
*Conexão com o conceito de Mashiach ben Yosef*: Alguns textos judaicos falam de um Mashiach ben Yosef, um messias que sofrerá e morrerá antes da vinda do Mashiach ben David. Yosef é visto como um precursor desse conceito, pois ele sofre e é separado de sua família, mas acaba trazendo salvação. Sobre esse tema, conversamos todas as terças as 19h em uma live.
Essas são apenas algumas das conexões que podem ser feitas entre a sabedoria de Yosef e as profecias sobre o Mashiach. Yosef é um perfeito apontamento profético para o Mashiach, mas também o é para a comunidade nazarena, que segue as instruções do Mashiach.
Moshê Ben Yosef
Shabat Shalom

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Estudo da Parashá Mikets - Entenda o conceito original de sabedoria

 


Estudos da Torá

Parashá nº 10 – Mikets (Ao fim)

Bereshit/Gênesis 41:1-44:17

Haftará (separação) 1Rs 3:15-4:1 e

Escritos Nazarenos (Novo Testamento) At 7:9-16


Entenda o conceito original de sabedoria


Quando ouvimos a palavra “sabedoria”, muitas vezes pensamos em inteligência, diplomas, cargos ou discursos bem articulados. Outras vezes, confundimos sabedoria com aquilo que nos agrada ouvir, com conselhos que confirmam nossos desejos e vontades. No entanto, as Escrituras Sagradas, conhecidas no meio judaico como TaNaK, apresentam um conceito muito mais profundo, prático e transformador. A parashá Mikets, ao narrar como se deu a elevação de Yosef ao governo do Egito, nos oferece uma oportunidade clara de compreender o que é a verdadeira sabedoria segundo o padrão do Eterno, e como ela se manifesta na vida cotidiana. Venha comigo nesse pequeno estudo, compreender melhor o conceito original, baseado no TaNaK, sobre sabedoria.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Mikets dá continuidade à história de Yosef e revela, com grande clareza, como o Eterno dirige os acontecimentos mesmo quando tudo parece silencioso ou injusto. A porção se inicia com o Faraó tendo dois sonhos perturbadores: vacas saudáveis sendo devoradas por vacas magras e espigas boas sendo consumidas por espigas mirradas. Nenhum dos sábios, magos ou conselheiros do Egito consegue dar uma interpretação verdadeira, até que o copeiro se lembra de Yosef, esquecido por anos na prisão.

Yosef é chamado às pressas e deixa claro que a interpretação não vem dele, mas do Eterno. Ele explica que os sonhos são um só: o Egito viveria sete anos de grande abundância, seguidos por sete anos de fome severa. Com sabedoria, Yosef aconselha o Faraó a se preparar, armazenando alimentos durante os anos de fartura para que o povo sobreviva nos anos difíceis. O Faraó reconhece que a sabedoria de Yosef vem do Eterno e o coloca como governador de todo o Egito, sendo ele o segundo em autoridade, abaixo apenas do próprio Faraó.

Yosef recebe um novo nome egípcio, casa-se com Asnat e tem dois filhos, Menashê e Efraim, cujos nomes refletem a cura de suas dores passadas e a prosperidade que o Eterno lhe concedeu em terra estrangeira. Tudo acontece exatamente como foi revelado: a abundância vem, seguida pela fome, não apenas no Egito, mas também nas terras ao redor, incluindo Kenaan.

Com a fome atingindo a casa de Yaakov, seus filhos descem ao Egito para comprar alimento. Eles se prostram diante de Yosef sem reconhecê-lo, cumprindo, sem saber, os sonhos que ele tivera anos antes. Yosef os reconhece, mas fala com dureza, acusando-os de serem espiões. Seu objetivo não é vingança, mas sondar o coração dos irmãos e verificar se houve arrependimento pelo que fizeram no passado.

Shimeon é mantido preso, e os irmãos são enviados de volta com alimentos, com a exigência de que retornem trazendo Binyamin. Após resistência e temor, Yaakov permite que Binyamin vá com eles. No retorno ao Egito, Yosef os recebe com bondade, mas demonstra um cuidado especial por Binyamin. Antes da partida, Yosef manda esconder sua taça no saco de Binyamin, criando uma situação que coloca os irmãos diante de uma nova prova.

A parashá termina em tensão: Binyamin é acusado de roubo e ameaçado de se tornar servo do governante do Egito. O leitor é deixado diante da pergunta central: os irmãos abandonarão Binyamin como fizeram com Yosef no passado, ou demonstrarão que seus corações foram transformados?

Mikets nos ensina que o Eterno governa o tempo, exalta no momento certo e usa até o sofrimento para cumprir Seus propósitos. Quem ama o Eterno, segue os Seus mandamentos, e aprende a confiar que nada está fora do Seu controle.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

O que você entende ser sabedoria? Será que sabedoria é aquilo que você quer ouvir? Se é assim que você compreende sabedoria, então precisa analisar as Escrituras Sagradas para entender e definir a partir dela o padrão para reconhecer o que é sabedoria de verdade.

Tens visto o homem que é sábio a seus próprios olhos? Pode-se esperar mais do tolo do que dele. Mishlêi/Provérbios 26.12


Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! Yeshayahu/Isaías 5.21


No Hebraico חָכְמָה – chokhmah (lê-se rormá) traduz-se como sabedoria, sua raíz é חָכַם – chakham, que significa “sábio”. O termo Chokhmah além de ser traduzido como “sabedoria”, também pode, em alguns casos, ser traduzido como “habilidade”, conforme veremos mais adiante.

Aqui nesta parashá, chamada Mikets, vemos Yosef interpretar os sonhos do Faraó e, mais do que isso, oferece um conselho estratégico e prático: armazenar alimento nos anos de fartura para sobreviver aos anos de fome. Esse detalhe é fundamental. Aquele jovem hebreu, filho do patriarca Yaakov, declara que a sabedoria vem do Eterno, em uma clara intenção de dar a HaShem a honra, conforme podemos ver no texto abaixo:


O faraó disse a Yosef: Tive um sonho, e ninguém é capaz de interpretá-lo; no entanto, ouvi falar a seu respeito que você é capaz de interpretar os sonhos das pessoas. Yosef respondeu ao faraó: Não sou eu. Elohim concederá ao faraó uma resposta que deixará sua mente em paz. Bereshit/Gênesis 41:15-16


Vemos no decorrer do relato do texto que Yosef não apenas revelou o significado do sonho, mas que ele soube agir corretamente a partir do entendimento recebido do Eterno. O Faraó reconhece que essa chokhmah - sabedoria não era humana, mas vinha do Eterno, e por isso entrega a Yosef autoridade sobre toda a terra do Egito. Aqui, a Torá nos ensina que sabedoria não é apenas conhecimento, mas discernimento aplicado, uma habilidade, alinhada com o propósito do Eterno. É essa sabedoria, prática, humilde e obediente, que precisamos compreender e buscar.

De acordo com um artigo no site Yeshua Melekh, a palavra chochmah tem um sentido muito amplo, como vimos antes e para aprofundar o entendimento pelas Escrituras, vejamos alguns exemplos. Em Divrê Hayamim/Crônicas temos um exemplo do termo sendo usado no sentido de “habilidade”.


E eis que aí tens as turmas dos sacerdotes e dos levitas para todo o ministério da casa de Elohim; estão também contigo, para toda a obra, voluntários com sabedoria - בַּֽחָכְמָה֙ bachackemah - de toda a espécie para todo o ministério; como também todos os príncipes, e todo o povo, para todos os teus mandados. Div'rê Hayamim Aleph/1 Crônicas 28.21


A tradução, deste mesmo texto, pela “Almeida Corrigida, Revisada e Fiel” trouxe uma tradução bem literal, mas pelo contexto vemos claramente que os voluntários para toda a obra são pessoas habilidosas, não a toa, as versões como “Bíblia de Jerusalém da Editora Paulus 2002” e as versões em inglês trazem uma tradução usando o termo “hábil”, como pode ser lido abaixo:


Eis aqui as classes dos sacerdotes e dos levitas para todo o serviço da casa de Elohim; todos os voluntários hábeis - בַּֽחָכְמָה֙ bachackemah em qualquer especialidade ajudar-te-ão em toda esta obra; os oficiais e todo o povo estão às tuas ordens. Div'rê Hayamim Aleph/1 Crônicas 28.21 (Bíblia de Jerusalém – Paulus 2002)


De acordo com o já mencionado site, obviamente este conceito de sabedoria aplicado à habilidades tem um escopo bastante limitado. Certamente os antigos não iriam à um ferreiro pedir conselhos sobre estratégias de batalha por exemplo, só porque o ferreiro é um “sábio” com a manipulação de ferro. Os antigos compreendiam que habilidade era semelhante à sabedoria, pois, para um ferreiro ser tão habilidoso, este ferreiro deveria ter bastante conhecimento. Portanto, temos aqui um exemplo que sábio não é aquele que sabe responder a todas as perguntas, mas sim, é possível ser sábio com um conhecimento aplicado a determinado assunto. Por isso, podemos mais uma vez entender, que o TaNaK está nos ensinando que sabedoria não é apenas conhecimento, mas discernimento aplicado, alinhado com a vontade e propósito do Eterno. Vejamos nos tópicos seguintes um pouco mais de aprofundamento.


1. Sabedoria não é autoexaltação, mas submissão ao Eterno

As Escrituras são contundentes ao alertar contra a falsa sabedoria, aquela que nasce do orgulho e da autossuficiência. Mishlei 26:12 declara que o homem sábio aos seus próprios olhos é mais perigoso do que o tolo, observe:


Você conhece alguém que se julga sábio? Há mais esperança para o insensato do que para ele. Mishlei/Provérbios 26:12


Em seu texto Yeshayahu também reforça esse alerta, mostrando que essa postura conduz à ruína, observe:


Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em sua própria opinião. Yeshayahu/Isaías 5:21


A Torá nos mostra que Yosef é o oposto desse padrão, e isso é justamente para que possamos tê-lo como exemplo. Diante do Faraó, ele não se apresenta como alguém especial, nem reivindica crédito. Pelo contrário, ele afirma que a interpretação pertence ao Eterno, ou seja, a sabedoria é dada por HaShem e deve ser usada corretamente. Na verdade, aqueles que agem como se fossem sábios, mas estão distantes do Eterno, são considerados tolos. Essa postura de submissão praticada por Yosef é a base da verdadeira chokhmah - sabedoria. Assim como está escrito em Devarim 4:5-6, a sabedoria de um povo não está em sua exaltação, mas em guardar e cumprir as instruções do Eterno, observe:


Eu lhes ensinei decretos e leis, como me ordenou o Senhor, o meu Deus, para que sejam cumpridos na terra na qual vocês estão entrando para dela tomar posse. Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvirem todos estes decretos dirão: "De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente". Devarim/Deuteronômio 4:5,6


Nos Escritos Nazarenos, esse mesmo princípio aparece quando Yeshua, seguindo o padrão do TANaK e dos sábios do povo de Yisrael, declara que aquele que ouve e pratica as palavras do Eterno é comparado a um homem prudente que edifica sua casa sobre a rocha, conforme lemos em Mt 7:24-27. O fundamento da sabedoria continua sendo o mesmo: ouvir e obedecer. Essa compreensão nos leva ao próximo ponto: sabedoria não é teoria, é ação.


2. Sabedoria como habilidade prática e discernimento aplicado

A palavra chokhmah, como visto na Torá e nos Profetas, ou seja no TaNaK, também carrega o sentido de habilidade, conforme já vimos. Em Shemot 31:6 e Divrêi Hayamim Aleph 28:21, que vimos acima, pessoas são chamadas de sábias porque sabem fazer bem aquilo que lhes foi confiado. Não se trata de status, mas de competência aplicada com responsabilidade. Talvez possamos acrescentar a isso, competência aplicada com amor verdadeiro ao Eterno. Observe o seguinte texto:


"E eis que eu tenho posto com ele a Aoliabe, o filho de Aisamaque, da tribo de Dã, e tenho dado sabedoria - חֲכַםkhacham - ao coração de todos aqueles que são hábeis - חָכְמָ֑ה - chakhmah, para que façam tudo o que te tenho ordenado." Shemoth/Êxodo 31.6


É interessante esta forma do texto tratar a sabedoria, pois podemos ver valor nas pessoas e nas suas atividades. Além disso, nos mostra que devemos estar mais atentos às pessoas e aquilo que elas têm a nos dizer, claro, desde que seja tudo medido pela Torá. No mundo de hoje é comum estar sempre atentos às celebridades, personalidades importantes, pessoas de status, etc. No entanto, muitas vezes se ignora as pessoas mais humildes acreditando que estas pessoas não têm muito a oferecer. Certas vezes não damos atenção às palavras de um mecânico, um pedreiro, um gari, etc. Mas é importante aprendermos de todos, pois todos têm experiências, e cada experiência que adquirimos reflete no nosso modo de enxergar a vida. O pedreiro que levanta uma parede pode trazer lições de suas atividades para as nossas vidas, assim como os profetas bíblicos usavam de parábolas para nos trazer lições, como por exemplo, a parábola do barro nas mãos do oleiro.

Yosef demonstra exatamente esse tipo de sabedoria. Ele não apenas entende o problema futuro, mas organiza o presente para enfrentá-lo. Planejar, armazenar, administrar e distribuir são expressões claras de chokhmah. Ele transforma revelação em ação concreta com entendimento. Isso é sabedoria!

Esse princípio atravessa toda a Escritura. O oleiro de Yirmeyahu 18 não é apenas um artesão, sua habilidade se torna uma lição viva sobre como o Eterno trabalha com o homem. Sugiro ler esse capítulo com atenção posteriormente, mas veja um verso:


Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Yirmeyhu/Jeremias 18.4


Ser oleiro, por exemplo, era uma atividade comum, assim como o tecelão, o pescador, etc. Mas apesar da simplicidade da profissão, o profeta criou uma parábola com o objetivo de ensinar e instruir. Abstrair conhecimento a partir de suas experiências é sabedoria, e não importa a atividade, se é uma atividade de destaque ou não, podemos ser sábios aprendendo de tudo aquilo que nos cerca. Falaremos mais sobre isso à frente. Além da sabedoria estar em uma pessoa habilidosa, também pode estar em nós quando tomamos uma decisão correta.

Assim, aprendemos que sabedoria é saber extrair entendimento das experiências simples da vida. Observar o que as Escrituras nos ensinam, observar as coisas ao nosso redor com os olhos da Torá. Esse tipo de sabedoria prática exige algo essencial, exige humildade para reconhecer limites e aprender com outros. No próximo tópico veremos que sabedoria está ligada com humildade.


3. Sabedoria se manifesta em humildade, escuta e obediência

Não poderíamos entrar nesse tópico falando sobre sabedoria e humildade sem lembrar de Shelomoh, que é chamado de sábio não apenas por suas palavras, mas por suas escolhas. Em Melachim Aleph/1 Reis 5, ele reconhece que os sidônios eram mais habilidosos no corte de madeira e decide cooperar com eles. Isso revela um princípio fundamental, o sábio reconhece valor nos outros e não se deixa governar pelo orgulho.

Em contraste, o relato de Amnon em Shemu’el Beth/2 Samuel 13 mostra o perigo de ouvir apenas conselhos que agradam. Yonadave é chamado de khacham, mas sua “sabedoria” é pervertida, pois ignora completamente os mandamentos do Eterno. O resultado é destruição, vergonha e morte.

De acordo com o artigo no site mencionado, a sabedoria de Shelomoh está muito além de uma simples escolha. Ele era um rei poderoso, de uma nação que se tornou poderosa através de David, seu pai. Mas não foi pelo fato de ser poderoso que ele quis submeter os sidônios. Outros reis da antiguidade criam que era melhor escravizar um povo para fazê-los trabalhar, do que pagar um salário para isto. A ausência do orgulho abriu lugar para a humildade, e a humildade também lhe permitiu reconhecer que os sidônios eram mais habilidosos. Mas e se Shelomoh tivesse sido orgulhoso? Certamente diria: “Nós somos o povo eleito, e nós é que temos que construir a casa de HaShem, e estrangeiro nenhum trabalhará nesta casa. Nós somos um povo santo, mas o estrangeiro não!”. Portanto, podemos e devemos entender que, sabedoria também é deixar o orgulho de lado, reconhecer as nossas debilidades e reconhecer as qualidades nos outros. Precisamos perceber que somos imperfeitos e que precisamos uns dos outros para sermos grandes, pois sozinhos nada seremos. O Rav Shaul, conhecido como apóstolo Paulo, disse: Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos, cuidando, cada um, não somente dos próprios interesses, mas também dos interesses dos outros. Filipenses 2:3-4.

O sábio é aquele que sabe reconhecer nos outros a sabedoria e que tem a humildade para buscar do sábio a sabedoria, e por isso Shelomoh diz em seu provérbio:


Mishlei 12:15 ensina que o sábio é aquele que dá ouvidos ao conselho correto, observe:


O caminho do insensato parece-lhe justo, mas o sábio ouve os conselhos. Mishlei/Provérbios 12:15


E em Mishlei 10:8 afirma que o sábio de coração aceita os mandamentos, veja:


Os sábios de coração aceitam mandamentos, mas a boca do insensato o leva à ruína. Mishlei/Provérbios 10:8


Aqui está o critério definitivo, os mandamentos do Eterno são o filtro que separa a verdadeira sabedoria da tolice. Tehilim/Salmos 107:42 e 43 conclui que o sábio observa as obras do Eterno e entende Sua benignidade. Ou seja, sabedoria é uma vida alinhada, sensível e obediente. Veja o texto:


Os justos vêem tudo isso e se alegram, mas todos os perversos se calam. Reflitam nisso os sábios e considerem a bondade do Senhor. Tehilim/Salmos 107:42,43


Concluindo nosso estudo, vimos que a história de Yosef na parashá Mikets nos ensina que a verdadeira sabedoria não está em títulos, reconhecimento humano ou palavras bonitas. Ela se revela em humildade, em ouvir, em aprender, em obedecer e em agir conforme os mandamentos do Eterno. Yosef foi exaltado porque já vivia essa sabedoria muito antes de receber autoridade. As Escrituras deixam claro que os mandamentos são a nossa sabedoria diante das nações. Quando escolhemos ouvir o Eterno acima das nossas vontades, quando rejeitamos conselhos que apenas nos agradam e quando aplicamos o entendimento recebido de forma prática e justa, passamos a andar no caminho da chokhmah verdadeira. Portanto, quem segue os mandamentos do Eterno aprende a viver com sabedoria, não para se exaltar, mas para preservar vidas, edificar outros e glorificar o Nome do Eterno em tudo o que faz.

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Que o Eterno lhes abençoe. 


Moshê Ben Yosef