Estudos da Torá
Parashá nº 03 – Lech Lechá (Sai por ti)
Bereshit/Gênesis 12:1-17:27
Haftará (separação) Is 40:27-41:16 e
B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Atos 7:1-8; Rm 3:19-5:6
O chamado não termina na partida.
Você já percebeu que, muitas vezes, é mais fácil tomar a decisão de começar uma caminhada do que permanecer fiel depois que os desafios aparecem? No início, temos disposição, entusiasmo e a expectativa de que tudo dará certo. Mas o que acontece quando o caminho se torna diferente daquilo que imaginávamos? Como reagimos quando a promessa parece demorar, quando nossas escolhas produzem conflitos ou quando precisamos reconhecer que, apesar de termos respondido ao chamado do Eterno, ainda carregamos medos e fragilidades?
A parashá Lech Lechá nos coloca diante dessas perguntas por meio da trajetória de Avram, chamado pelo Eterno para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, caminhando em direção a uma terra que lhe seria mostrada. Avram parte, mas sua história não termina naquele primeiro passo. Pelo contrário, é depois da partida que ele começa a enfrentar situações que revelarão a profundidade de sua confiança, os limites de suas decisões e a responsabilidade que acompanha a promessa recebida.
Nesta reflexão, vamos compreender por que o chamado do Eterno não deve ser medido apenas pela disposição de começar, mas também pela maneira como caminhamos depois de responder. Veremos que a fidelidade não significa ausência de medo, que a aliança não nos isenta dos conflitos e que receber uma promessa não nos autoriza a agir de qualquer maneira para alcançar aquilo que desejamos.
A pergunta que conduzirá nosso estudo é esta: estamos apenas dispostos a partir ou também estamos dispostos a ser transformados durante a caminhada?
Acompanhe esta reflexão até o final, porque talvez o maior desafio não seja deixar para trás aquilo que conhecemos, mas aprender a viver de maneira coerente com o chamado que recebemos do Eterno.
ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ
A expressão hebraica לֶךְ־לְךָ (Lech Lechá), encontrada em Bereshit 12:1, inaugura uma nova etapa na história de Avram. O Eterno lhe diz:
Vayomer HaShem el-Avram lech lechá mearetsekha umimoladetekha umibeyt avykha el haarets asher areeka.
“Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” Bereshit 12:1
A ordem apresenta um movimento de saída. Avram deveria deixar referências que faziam parte de sua identidade familiar e social e caminhar em direção a um destino que ainda seria revelado. Nos versículos seguintes, o Eterno apresenta as promessas que acompanham esse chamado: fazer dele uma grande nação, abençoá-lo, engrandecer seu nome e fazer com que, por meio dele, todas as famílias da terra fossem abençoadas (Bereshit 12:2-3).
O versículo 4 registra a resposta: Avram partiu conforme a palavra do Eterno. Contudo, precisamos observar algo essencial: a Torá não encerra a história nesse momento. A partida é o início de uma narrativa que continuará apresentando dificuldades, conflitos, decisões equivocadas, atos de generosidade, períodos de espera e reafirmações da aliança.
Essa estrutura narrativa nos ajuda a compreender o título deste estudo. O chamado não termina na partida porque a resposta inicial precisa ganhar forma na maneira como vivemos. Avram não recebeu todas as informações sobre o futuro, mas precisou agir com base na palavra que havia recebido. Depois disso, cada circunstância se tornou parte de sua caminhada.
Em Bereshit 12:10, por exemplo, a fome atinge a terra e Avram desce ao Egito. Em Bereshit 13:8-9, ele procura resolver o conflito com Lot, oferecendo-lhe a possibilidade de escolher primeiro a região onde desejava permanecer. Em Bereshit 15:2-6, questiona como a promessa de descendência se cumprirá e recebe uma nova reafirmação da palavra do Eterno. Finalmente, em Bereshit 17:1-11, a aliança é reafirmada e a circuncisão é instituída como seu sinal.
Essas passagens mostram que a caminhada de Avram não é feita de um único ato de confiança, mas de uma sucessão de circunstâncias nas quais ele precisa responder ao Eterno. O próprio texto bíblico preserva a complexidade dessa experiência. Avram demonstra confiança, mas também sente medo. Procura a paz, mas enfrenta conflitos. Recebe uma promessa, mas precisa esperar. É chamado para uma missão, mas continua responsável pelas consequências de suas escolhas. Tudo isso também ocorre com cada um de nós e precisamos analisar olhando para Avram, justamente as nossas atitudes.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se Avram teve coragem de partir. Precisamos compreender como a promessa recebida se relaciona com suas decisões posteriores e o que essa relação nos ensina sobre a fidelidade ao Eterno. É a partir dessa perspectiva que desenvolveremos três aspectos fundamentais da parashá: a fidelidade que se revela durante a caminhada, a responsabilidade de quem vive sob uma aliança e a confiança necessária para continuar quando a promessa ainda não se concretizou.
1. A fidelidade não é demonstrada apenas quando começamos, mas na maneira como caminhamos
O primeiro aspecto de Lech Lechá é a relação entre o chamado e a resposta humana. Em Bereshit 12:4, lemos que Avram partiu conforme o Eterno lhe havia ordenado. Sua resposta não ficou restrita à intenção, à emoção ou à declaração de que acreditava na promessa. Ele tomou uma decisão e se colocou em movimento. Entretanto, seria um erro concluir que, depois dessa partida, Avram passou a agir sempre da maneira correta. A própria Torá apresenta situações que exigem uma avaliação mais cuidadosa de suas atitudes.
Em Bereshit 12:10-20, diante da fome que atinge Canaã, Avram desce ao Egito. Temendo ser morto por causa de Sarai, pede que ela se apresente como sua irmã. A decisão revela seu medo e coloca Sarai em uma situação de perigo, até que o Eterno intervém. Esse episódio não deve ser ignorado para preservar uma imagem idealizada do patriarca. A Torá não precisa apresentar Avram como um homem incapaz de errar para demonstrar a importância de seu chamado. Sua história possui profundidade justamente porque a promessa divina e as fragilidades humanas aparecem na mesma narrativa.
O fato de Avram ter sido chamado não torna todas as suas decisões automaticamente corretas. A confiança que demonstrou ao partir não elimina a responsabilidade de examinar como agiu quando enfrentou o perigo. Aqui encontramos uma distinção fundamental: ter fé no Eterno não significa que toda decisão tomada por alguém que crê seja necessariamente fiel à vontade do Eterno.
Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está seguindo um caminho correto e, ainda assim, permitir que o medo, a ansiedade ou o desejo de controlar os resultados influenciem suas decisões. Por isso, a caminhada exige discernimento. Não basta recordar uma experiência espiritual do passado; é necessário avaliar continuamente se a maneira de agir corresponde aos princípios que se afirma seguir.
A parashá também mostra o lado construtivo dessa aprendizagem. Em Bereshit 13:8-9, quando surge o conflito entre os pastores de Avram e os de Lot, Avram toma a iniciativa de impedir que a contenda se aprofunde. Ele reconhece que ambos são parentes e oferece a Lot a oportunidade de escolher primeiro a região onde deseja estabelecer-se. Avram não precisa transformar a disputa em uma demonstração de superioridade. Ele poderia reivindicar prioridade, mas prefere buscar uma solução que preserve a relação familiar. Mais tarde, quando Lot é capturado, Avram parte para resgatá-lo (Bereshit 14:14-16). A separação geográfica não apaga sua responsabilidade para com o sobrinho.
Esses episódios, quando considerados em conjunto, apresentam uma dimensão concreta da fidelidade: ela aparece na maneira como lidamos com as pessoas, administramos os conflitos e respondemos às circunstâncias. É possível declarar confiança no Eterno e, ao mesmo tempo, tratar injustamente alguém que discorda de nós. É possível falar sobre aliança e não cumprir as responsabilidades que assumimos. Também é possível usar a ideia de chamado para justificar atitudes autoritárias, como se uma convicção espiritual colocasse nossas decisões acima de qualquer avaliação.
Lech Lechá nos convida a examinar essa contradição. A relação com o Eterno não deve ser utilizada para encobrir nossas fragilidades, mas precisa nos levar a reconhecê-las e a assumir responsabilidade por nossas ações. Na vida atual, isso significa compreender que a fidelidade não se manifesta somente quando fazemos uma grande escolha, mudamos de direção ou iniciamos um novo projeto. Ela também se revela quando precisamos agir com honestidade, quando escolhemos não alimentar uma contenda, quando reconhecemos que erramos e quando nos recusamos a prejudicar alguém para preservar nossos próprios interesses.
A pergunta que fica é: se o chamado do Eterno orienta nossa vida, essa orientação pode ser percebida na maneira como tratamos as pessoas que convivem conosco?
2. A aliança não nos isenta dos conflitos; ela nos ensina a agir com responsabilidade.
O segundo aspecto da parashá está relacionado à natureza da aliança. Avram recebe promessas extraordinárias, mas sua trajetória não se transforma em uma vida sem dificuldades. A fome, os conflitos familiares, as guerras e a demora da descendência continuam fazendo parte de sua experiência. Isso nos ajuda a compreender que a promessa não deve ser interpretada como uma autorização para ignorar a realidade ou como uma garantia de que todas as circunstâncias serão favoráveis.
Em Bereshit 12:2-3, o Eterno declara que Avram será abençoado e que, por meio dele, todas as famílias da terra serão abençoadas. A promessa possui uma dimensão que ultrapassa a prosperidade pessoal do patriarca. Avram não é chamado apenas para receber; sua história está vinculada a algo que alcançará outras pessoas e gerações. Ser uma bênção, nesse contexto, não significa que Avram será responsável por controlar o destino de todos os povos. Significa que a promessa recebida está relacionada a um propósito maior do que seus interesses particulares. Essa dimensão torna-se especialmente clara no conflito com Lot. Avram não precisa vencer todas as disputas para assegurar que o Eterno cumprirá sua palavra. Ele pode buscar a paz, permitir que Lot escolha primeiro e continuar sua jornada.
É importante perceber que a atitude de Avram não significa que ele tenha renunciado à promessa. Tampouco significa que toda concessão seja necessariamente justa ou que evitar conflitos exija aceitar qualquer forma de abuso. O texto apresenta uma situação específica em que Avram procura impedir que uma divergência material se transforme em uma contenda entre parentes. A confiança na promessa permite que ele não transforme cada disputa em uma batalha por reconhecimento.
Mais adiante, em Bereshit 14, Avram resgata Lot e encontra Malki-Tzedek, rei de Shalem e sacerdote do Deus Altíssimo. Depois de receber sua bênção, Avram recusa os bens oferecidos pelo rei de Sodoma, declarando que não deseja que esse rei diga que o enriqueceu (Bereshit 14:22-23). A narrativa mostra que Avram não está preocupado apenas em conquistar ou acumular. Ele também considera de onde vêm seus recursos e quais implicações estão envolvidas em aceitar determinada vantagem. Sua atitude revela que o resultado de uma ação não é o único critério para avaliá-la; os meios utilizados e as relações estabelecidas também importam.
Entretanto, a parashá apresenta outra dimensão da responsabilidade em Bereshit 16. A demora da descendência leva Sarai e Avram a tomar decisões envolvendo Hagar, e a situação resulta em sofrimento e conflito. Hagar, que ocupa uma posição social vulnerável, foge para o deserto. Ali, o mensageiro do Eterno a encontra e reconhece sua aflição. Esse episódio merece atenção porque a narrativa não se limita ao sofrimento de Avram e Sarai diante da ausência de um filho. Ela também apresenta o sofrimento de Hagar, uma mulher envolvida nas decisões de pessoas com maior autoridade sobre sua vida. A promessa feita a Avram não torna irrelevante a experiência daqueles que convivem com ele. Hagar é vista e ouvida, e Ishmael também recebe promessas de descendência e de futuro. Isso nos ajuda a evitar uma leitura segundo a qual estar associado a uma promessa divina significa que todos os nossos interesses devem prevalecer sobre os interesses dos outros. A aliança não pode ser usada para apagar a dignidade de quem se encontra em uma posição vulnerável.
A história de Avram também demonstra que decisões tomadas para resolver um problema podem criar outros problemas. Por isso, não basta perguntar se uma atitude parece útil para alcançar determinado objetivo. Precisamos perguntar quem será afetado, quais consequências podem surgir e se estamos agindo de maneira coerente com os princípios da Torá. A promessa não elimina a responsabilidade moral; ela torna ainda mais importante a maneira como conduzimos nossas decisões. Essa compreensão tem consequências práticas. Na família, no trabalho, na comunidade e nas relações de liderança, não podemos justificar atitudes injustas apenas porque acreditamos estar defendendo uma causa importante. Um propósito que consideramos correto não transforma automaticamente todos os meios em aceitáveis.
A vida da aliança exige que nossa confiança no Eterno seja acompanhada de justiça, discernimento e consideração pelas pessoas que serão afetadas por nossas escolhas. O chamado, portanto, não nos coloca acima dos outros. Ele nos chama a viver de maneira responsável diante do Eterno e do próximo.
3. A confiança é provada quando a promessa ainda não se concretizou
O terceiro aspecto de Lech Lechá está relacionado à espera. Em Bereshit 15, Avram já deixou sua terra, percorreu Canaã, enfrentou dificuldades e recebeu promessas. Contudo, permanece diante de uma questão fundamental: ele ainda não tem o filho que dará continuidade à sua descendência. Em Bereshit 15:2-3, Avram apresenta sua preocupação ao Eterno. Sua pergunta não é uma negação automática da promessa, mas uma expressão da tensão entre aquilo que lhe foi anunciado e aquilo que consegue observar na própria vida.
A resposta do Eterno vem por meio de uma imagem: Avram é conduzido para fora e convidado a olhar para o céu e contar as estrelas, se puder. Sua descendência seria assim (Bereshit 15:5). O versículo seguinte declara:
“E creu ele no Eterno, e imputou-lhe isto por justiça.” Bereshit 15:6
Esse versículo é central para compreender a emuná de Avram. Ele confia no Eterno enquanto a promessa ainda não se concretizou. Sua confiança não depende de já possuir todas as evidências que deseja, nem significa que tenha deixado de perceber a dificuldade da situação. A narrativa nos ensina que a espera faz parte da caminhada. Há uma diferença entre confiar na palavra recebida e acreditar que temos o poder de determinar quando e como ela deve se cumprir.
Avram não controla o futuro da promessa. Ele pode agir diante das circunstâncias, mas não pode produzir por sua própria força tudo aquilo que o Eterno anunciou. Essa tensão torna-se ainda mais evidente em Bereshit 16, quando Sarai oferece Hagar a Avram. A família procura uma solução para a ausência de descendência, mas a decisão gera conflitos e sofrimento. O texto da Torá não precisa ser reduzido à afirmação de que os dois simplesmente perderam a paciência. Ele apresenta uma situação humana complexa, na qual a espera, as estruturas familiares e as relações de poder se entrelaçam. O episódio, contudo, nos permite refletir sobre um perigo recorrente: quando não conseguimos controlar o tempo de uma promessa, podemos tentar controlar os meios e os resultados, tomando decisões cujas consequências não avaliamos adequadamente.
É necessário fazer uma distinção. A Torá não declara nesse episódio, de forma explícita, que toda a situação envolvendo Hagar decorreu de uma intenção consciente de Avram e Sarai de desobedecer ao Eterno. Essa é uma interpretação que exige cautela. O que o texto efetivamente apresenta é uma decisão familiar que resulta em conflito e sofrimento, seguida pela intervenção do mensageiro do Eterno na vida de Hagar. O princípio que podemos extrair não é que toda ação humana durante a espera seja necessariamente errada, mas que a ansiedade pelo resultado pode nos levar a decisões cujas consequências ultrapassam nossas intenções. A confiança não exige passividade, mas também não autoriza a manipulação das circunstâncias a qualquer custo. Precisamos continuar agindo, tomando decisões e assumindo responsabilidades, sem transformar nossos desejos em justificativa para prejudicar outras pessoas.
Em Bereshit 17, quando Avram tem 99 anos, o Eterno reafirma a aliança e anuncia que Sarah dará à luz Yitzchak. O sinal da aliança é estabelecido, e Avraham responde à ordem recebida. A narrativa mostra que a promessa se desenvolve ao longo do tempo e que a relação de aliança envolve uma resposta concreta. A mudança de nome de Avram para Avraham e de Sarai para Sarah também marca uma nova etapa da narrativa. Contudo, não devemos interpretar essa mudança como se os personagens tivessem se tornado imediatamente incapazes de falhar. A história continuará mostrando suas experiências e responsabilidades. O que muda é a maneira como a promessa e a aliança são reafirmadas dentro da trajetória que o Eterno está conduzindo.
Na atualidade, essa reflexão é especialmente importante. Muitas vezes, confundimos confiança com a expectativa de que nossos planos se concretizem no prazo que consideramos adequado. Quando isso não acontece, podemos concluir que falhamos, que fomos esquecidos ou que precisamos forçar uma solução. Lech Lechá nos convida a uma postura diferente. A confiança no Eterno não significa que teremos respostas imediatas para todas as perguntas. Significa que a ausência de respostas completas não nos dispensa de agir com responsabilidade no presente. Podemos esperar sem abandonar nossos deveres. Podemos questionar sem transformar toda dificuldade em motivo para desistir. Podemos rever nossas decisões sem concluir que a caminhada perdeu todo o sentido.
A pergunta que a parashá nos deixa é profunda: quando não conseguimos enxergar o cumprimento da promessa, continuamos orientando nossas escolhas pela justiça, pela fidelidade e pela responsabilidade, ou permitimos que a ansiedade determine o caminho?
Concluindo nosso estudo, vemos que Lech Lechá começa com uma ordem para partir, mas sua mensagem não se limita ao movimento inicial de Avram. Ao longo da parashá, vemos um homem que precisa lidar com o medo, resolver conflitos, proteger pessoas, enfrentar a espera e responder às exigências da aliança. Sua história nos ensina que o chamado do Eterno não significa uma vida sem dificuldades e tampouco transforma quem o recebe em alguém incapaz de errar. Avram é chamado, mas continua responsável por suas decisões. Recebe promessas, mas precisa aprender a caminhar sem controlar todas as circunstâncias. É escolhido para uma missão, mas sua história permanece relacionada ao destino e à dignidade de outras pessoas.
Por isso, viver o chamado do Eterno hoje exige mais do que recordar uma experiência espiritual ou afirmar que temos fé. Exige que nossa confiança se torne visível na maneira como conduzimos a vida.
Podemos começar examinando nossas decisões. Quando o medo aparece, precisamos avaliar se estamos agindo com prudência ou se estamos colocando outras pessoas em risco para proteger nossos próprios interesses. Quando surge um conflito, precisamos discernir se estamos buscando uma solução justa ou apenas tentando provar que temos razão. Quando a espera se prolonga, precisamos cuidar para que a ansiedade não nos leve a escolhas que produzam sofrimento. Também precisamos compreender que a bênção não deve terminar em nós. A promessa feita a Avram aponta para algo que ultrapassa sua própria casa: todas as famílias da terra seriam abençoadas por meio dele. Essa dimensão nos convida a pensar em como nossas escolhas podem contribuir para o bem das pessoas ao nosso redor, sem transformar a fé em instrumento de superioridade ou domínio.
Na perspectiva judaica e nazarena que orienta este estudo, a relação com o Eterno não deve ser separada da responsabilidade ética. A oração não substitui a justiça, o conhecimento das Escrituras não substitui a prática e a declaração de confiança não elimina a necessidade de examinar nossas atitudes. Isso não significa que nossas obras produzam automaticamente o cumprimento de uma promessa divina. Significa que somos responsáveis pela maneira como vivemos enquanto caminhamos, independentemente de conseguirmos controlar os resultados. O exemplo de Avram também nos ensina que reconhecer uma fragilidade não precisa significar abandonar o caminho. Sua história registra momentos de confiança e momentos difíceis, e é justamente por isso que precisamos lê-la com seriedade, sem esconder os episódios que desafiam nossa compreensão.
Viver o chamado do Eterno hoje significa continuar aprendendo, assumir as consequências de nossas decisões, tratar as pessoas com justiça e não permitir que a busca por resultados nos faça esquecer os princípios que deveriam orientar nossa vida. Talvez não precisemos deixar uma terra física como Avram fez, mas podemos precisar rever hábitos, deixar uma expressão religiosa cheia de vícios, abandonar atitudes injustas, corrigir relações e abrir mão da necessidade de controlar tudo. Essas mudanças não devem ser inventadas arbitrariamente como se cada dificuldade fosse uma ordem divina específica. Elas precisam ser discernidas à luz da Torá, das responsabilidades que temos e das consequências de nossas escolhas.
Ao final, a grande pergunta de Lech Lechá não é apenas se temos coragem para partir. É se estamos dispostos a continuar caminhando com fidelidade quando o caminho se torna difícil, quando nossas fragilidades aparecem e quando a promessa ainda não se concretizou. O chamado começa quando respondemos, mas sua profundidade se revela na maneira como vivemos depois dessa resposta.
Que a trajetória de Avram nos ajude a compreender que caminhar com o Eterno não significa possuir todas as respostas, e sim assumir a responsabilidade de viver de acordo com Sua palavra, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. Porque o chamado não termina na partida. Ele continua nas decisões que tomamos, nas pessoas que escolhemos respeitar, nos conflitos que procuramos resolver com justiça e na fidelidade que demonstramos ao longo da jornada. E talvez seja essa a reflexão mais importante que podemos levar desta parashá: não basta perguntar para onde o Eterno nos chama a ir; precisamos também perguntar quem estamos nos tornando enquanto caminhamos com Ele.
Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!
Moshê Ben Yosef
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