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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Estudo da Parashá Lech Lechá - Seja amigo do Eterno.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 03 – Lech Lechá (Saia por ti)

Bereshit/Gênesis 12:1-17:27

Haftará (separação) Is 40:27-41:16 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Atos 7:1-8; Rm 3:19-5:6


Seja amigo do Eterno.


Entre tantas pessoas mencionadas pelas Escrituras, poucas brilham com tanta força quanto Avraham, nosso pai na firme confiança (emunáh, ). Sua trajetória não é apenas a história de um homem que ouviu a voz do Eterno e partiu rumo ao desconhecido; é o relato do nascimento de uma amizade, a mais sublime que um ser humano pode ter, a amizade com o próprio Criador. Na parashá Lech Lechá, Avraham é chamado a deixar tudo e seguir um caminho novo. Séculos depois, no contexto da haftará correspondente, o profeta Yeshayahu recorda esse mesmo homem com palavras comoventes: “Mas tu, Yisrael, meu servo, Yaakov, a quem escolhi, descendência de Avraham, meu amigo.” (Yeshayahu 41:8)

Por que o Eterno chama Avraham de “meu amigo”? Que tipo de relação é essa, e o que ela nos ensina sobre como o Eterno se relaciona com aqueles que O seguem de todo o coração? Mais ainda, será que é possível que nós também sejamos chamados “amigos do Eterno”?

Este estudo busca responder a essas perguntas, mostrando que a amizade com o Eterno não é um privilégio distante, mas o resultado de uma vida de confiança, obediência e amor à Sua vontade.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Lech Lechá marca um novo começo na história das Escrituras, quando o Eterno chama Avram para sair de sua terra, de sua parentela e da casa de seu pai, rumo a uma terra que Ele ainda lhe mostraria. Com essa ordem — “Lech Lechá”, que significa literalmente, “Sai para ti”, o Eterno inicia uma jornada que mudaria o destino da humanidade. Ele promete a Avram que fará dele uma grande nação, o abençoará e tornará o seu nome grande, afirmando que “em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Em obediência, Avram parte de Haran com sua esposa Sarai e seu sobrinho Lot, levando consigo todos os bens e servos que havia adquirido, até chegar à terra de Kena’an. Ali, o Eterno lhe aparece e promete entregar aquela terra à sua descendência, e Avram edifica um altar para honrar o Nome do Eterno.

Logo depois, uma grande fome obriga Avram a descer ao Egito. Temendo ser morto por causa da beleza de Sarai, ele pede que ela se apresente como sua irmã. O faraó toma Sarai para seu palácio, mas o Eterno intervém, enviando pragas sobre sua casa, e o faraó a devolve a Avram, despedindo-os com riquezas e rebanhos. De volta a Kena’an, Avram e Lot se separam, pois a terra não comportava seus numerosos rebanhos. Lot escolhe habitar nas campinas férteis do Jordão, próximas a Sedom, enquanto Avram permanece nas montanhas de Hebron, onde o Eterno renova Suas promessas e garante a Avram toda a terra que ele pode ver.

Mais tarde, Lot é capturado durante uma guerra entre quatro reis do Oriente e cinco reis do vale de Sedom. Ao saber disso, Avram reúne seus servos treinados e resgata seu sobrinho, derrotando os poderosos reis. Na volta, é recebido por Malki-Tsedek, rei de Shalem, que o abençoa em nome do Eterno. Em seguida, o Eterno firma com Avram o Brit Bein HaBetarim, o “Pacto entre as Partes”, revelando-lhe que seus descendentes seriam estrangeiros em terra alheia, oprimidos por quatrocentos anos, mas que depois sairiam com grandes bens. Como sinal da aliança, o Eterno promete dar à descendência de Avram toda a terra desde o Egito até o Eufrates.

Passados dez anos, ainda sem filhos, Sarai entrega sua serva Hagar a Avram para gerar descendência. Hagar concebe e dá à luz Ishmael, mas o Eterno deixa claro que a promessa se cumprirá através de um filho que nascerá de Sarai. Aos noventa e nove anos, Avram recebe uma nova revelação: o Eterno muda seu nome para Avraham, “pai de uma multidão de nações”, e o de Sarai para Sara, “princesa”. Ele promete que um filho, Yitschac, nasceria do ventre de Sara, e com ele o pacto seria confirmado. Como sinal eterno dessa aliança, HaShem ordena a Avraham a brit milah (circuncisão) de todos os homens de sua casa. Avraham obedece de imediato, selando assim a aliança que marcaria o início da nação que levaria o Nome do Eterno diante de todas as nações.

A Parashá Lech Lechá, portanto, é o início da história do povo de Yisrael e o fundamento de todas as promessas do Eterno. Ela nos ensina sobre a confiança firme e a obediência de Avraham, que, ao ouvir a voz do Eterno e agir segundo Suas instruções, tornou-se o exemplo de quem caminha pela fidelidade e transforma-se em canal de bênção para toda a humanidade.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Lech Lechá marca um novo começo na história da humanidade. O Eterno chama Avram com as palavras:

Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que Eu te mostrarei.” Bereshit 12:1

Neste chamado, o Eterno estabelece com Avram um vínculo de pacto ou aliança (brit) e uma promessa. Esse pacto não é apenas territorial ou genealógico, é espiritual no sentido da relação e da obediência. O Eterno promete:

Farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.” Bereshit 12:2

Avram responde com ação. Ele parte, constrói altares, invoca o Nome do Eterno e manifesta com sua vida o propósito divino. Essa confiança firme e ativa é a semente de uma amizade profunda. É isso que o profeta Yeshayahu evoca séculos depois, quando Avraham é lembrado não apenas como o patriarca de uma nação, mas como ohavi, “meu amigo”, ou seja, o amigo do Eterno, aquele que amou o Eterno e O fez amado no mundo.

Interessante é que vemos na Torá que isso já ocorria com Adam, antes da queda, quando lemos:

Eles ouviram a voz do Eterno, Elohim, andando no jardim no momento da brisa da tarde, por isso o homem e sua mulher se esconderam da presença do Eterno, Elohim, entre as árvores do jardim.” Bereshit (Gn) 3:8

O Eterno tinha Adam como a um amigo, indo ter com ele à tarde, havia uma ligação muito maior do que uma mera amizade como a conhecemos. Essa expressão nos convida a refletir, o que significa ser amigo do Eterno. As Escrituras, os profetas, os ensinos de Yeshua e as palavras dos sábios convergem em uma só resposta, amizade com o Eterno é comunhão baseada em obediência, confiança e missão. A partir dessa ideia, convido você a continuar lendo esse estudo, onde desenvolveremos o tema em três partes relacionadas a seguir:

  1. Avraham, o amigo do Eterno pela obediência.

  2. O vínculo da amizade nas palavras dos profetas e dos sábios.

  3. Yeshua e os shaliachim, o chamado a ser amigo do Eterno.

1. Avraham — o amigo do Eterno pela obediência

A amizade de Avraham com o Eterno nasce da intimidade do pacto e da obediência incondicional. O primeiro mandamento recebido por nosso pai Avraham — “Sai da tua terra” — exigiu confiança total. Nosso patriarca não discute, não negocia, ele parte. Essa prontidão é o primeiro gesto de amizade, partindo do homem, pois o amigo verdadeiro confia na voz daquele a quem ama.

Em Bereshit 18:17–19, o Eterno declara:

Ocultarei Eu a Avraham o que estou para fazer? [...] Porque Eu o conheço, para que ordene a seus filhos e à sua casa depois dele, a fim de guardarem o caminho do Eterno, fazendo justiça e juízo.”

“Conhecer” do hebraido “yedá” – ידע, aqui significa intimidade, o tipo de conhecimento que nasce da convivência e da confiança. Avraham vive de modo que o Eterno o pode “conhecer”, partilhar com ele Seus planos, confiar-lhe Seu propósito.

A Akedá, o sacrifício de Yitschac em Bereshit 22, é a prova máxima dessa amizade. Avraham se dispõe a oferecer o filho da promessa, e o Eterno responde:

Agora sei que tu és temente a Mim.” Bereshit 22:12.

Os sábios no Talmud no tratado Sanhedrin 89b, dizem que foi nesse momento que Avraham tornou-se “amado” (ahuv) pelo Eterno. A obediência, portanto, não é submissão cega, mas expressão de confiança e amor. É o elo que transforma a aliança em amizade.


2. O vínculo da amizade nas palavras dos profetas e dos sábios

O profeta Yeshayahu diz o seguinte:

Mas você, Yisrael, meu servo, Yaakov, a quem escolhi, descendente de Avraham, meu amigo.” Yeshayahu 41:8.

Ele retoma essa relação única e a estende a toda a descendência de Avraham. Yisrael é lembrado como “descendência de Avraham, meu amigo”, para reforçar que o pacto do Eterno com Seu povo está enraizado em amor e fidelidade, não apenas em mandamentos. A palavra “amigo” aplicada a Avraham, aqui neste texto, não é mero afeto sentimental, é reconhecimento de uma relação de aliança, confiança e responsabilidade.

Há menções riquíssimas sobre Avraham ser chamado “amigo do Eterno” - אברהם אהובי — Avraham Ohavi, em diversas fontes antigas da tradição judaica, como nos Midrashim, Talmud e nos comentários clássicos ao Chumash. Todas elas convergem no mesmo ponto central que também aparece em Yeshayahu 41:8, ou seja, que Avraham recebeu esse título por causa da obediência incondicional, da confiança firme e do zelo em divulgar o Nome do Eterno entre as pessoas com quem tinha contato. Por exemplo no Bereshit Rabbah 44:1, lemos:

O Eterno chamou Avraham de ‘meu amigo’ porque ele amou o Nome do Eterno e o proclamou no mundo inteiro.”

Observe que o sábio mostra que a amizade aqui não é passiva, é ativa, voluntária e até missionária. Avraham é amigo porque leva o Eterno ao conhecimento dos outros. Rashi comenta Yeshayahu 41:8 dizendo:

Aquele que Me amou e Me fez amado sobre a terra.”

Já o Midrash Tanchuma (Lech Lechá 6) acrescenta:

Tu Me amaste mais do que teu pai, tua terra e tua parentela; por isso, Eu te chamarei meu amigo.”

Assim, os sábios ensinam que ser amigo do Eterno é amar-Lhe mais do que tudo e colocá-Lo acima de todos os laços humanos e interesses pessoais. A amizade é a expressão suprema do amor obediente e da entrega total. O Eterno não escolhe Avraham por acaso, escolhe-o para um propósito redentor e para ser canal de bênção, e essa escolha funda uma intimidade que é expressa pelo termo “amigo”.

O próprio profeta Yeshayahu amplia esse entendimento. No capítulo 49:6 fala do servo do Eterno que será “luz para as nações”, retomando a promessa feita a Avraham, que diz: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”, Bereshit 12:3. A amizade de Avraham gera uma vocação, a de ser canal de bênção universal.


3. Yeshua e os shaliachim — o chamado a ser amigo do Eterno

Na Brit Hadashá, Yeshua retoma o mesmo princípio de Yeshayahu 41:8 e o aplica aos seus discípulos. Ele declara:

Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos ordeno.” Yochanan 15:14

Se Yeshua como mashiach, define a amizade com ele nos mesmos termos que o profeta estabelece para o Eterno, é porque a obediência é o princípio a ser seguido. Assim como Avraham foi chamado amigo do Eterno por obedecer, Yeshua chama de amigos aqueles que obedecem às instruções do Pai que ele ensina. A amizade, aqui, é comunhão ativa, é participar da vontade divina. Ele não está se colocando no lugar ou como D’us. Yeshua ainda acrescenta:

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer.” Yochanan 15:15

A relação é de intimidade e partilha, como entre o Eterno e Avraham em Bereshit 18:17. O Mashiach como representante e autoridade designada pelo Eterno traz essa aplicação da amizade. O amigo é aquele a quem o Eterno revela Seus caminhos, e que responde com fidelidade.

O shaliach Yaakov em sua epístola, 2:21–23, faz o paralelo de modo explícito:

Não foi Abraão, nosso antepassado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? Você pode ver que tanto a fé como as suas obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus. Tiago 2:21-23

Yaakov, o irmão de nosso messias Yeshua, mostra que a amizade com o Eterno é viva, manifesta-se em obras de justiça e obediência, e não apenas em palavras. Assim, a amizade que começou em Avraham encontra continuidade nos discípulos de Yeshua, homens e mulheres que caminham na mesma confiança, obedecem à voz do Eterno e buscam manifestar o Seu Nome entre as nações. Cabe a cada um de nós que seguimos os ensinos de Yeshua e guardamos os mandamentos do Eterno, vivermos de modo a ansiarmos por ser amigos do Eterno, assim como Avraham.

Concluindo, vimos que Avraham foi chamado “amigo do Eterno” porque viveu em obediência, confiança e amor. Ele se tornou modelo para todo aquele que deseja caminhar com o Eterno. Ser amigo do Eterno não é título, é modo de vida, significa ouvir Sua voz, guardar Suas instruções e revelar Seu Nome ao mundo por meio das nossas ações. Os profetas e os sábios compreenderam isso, e Yeshua reafirmou a mesma verdade mostrando que a amizade com o Eterno é fidelidade à Sua vontade e participação no Seu propósito redentor.

Que, como Avraham, possamos deixar nossa “terra”, nossos apegos e seguranças, e andar com o Eterno com a mesma confiança firme. Que possamos ser chamados também “amigos do Eterno”, porque O amamos, obedecemos e fazemos com que o Seu Nome seja amado sobre toda a terra. Que sejamos amigos do Eterno.

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Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Estudo da Parashá Lech Lechá - A jornada de Avram e o Papel Redentor do Mashiach.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 3 – Lech Lechá (Vá Por ti)

Bereshit/Gênesis 12.1-17.27

Haftará (separação) Is 40.27-41.16 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 5.1-48; At 7:1-8


Tema: A jornada de Avram e o Papel Redentor do Mashiach.


Essa semana estudamos a parashá Lech Lachá, e podemos ver que a promessa do Eterno a Avram marca o início de uma missão que ultrapassa os limites do povo de Yisrael, alcançando pessoas de todas as nações. Ao dizer a Avram que nele “seriam benditas todas as famílias da terra”, o Eterno estabelece uma aliança que define Yisrael não apenas como uma nação escolhida, mas como uma luz para as nações. Este estudo explora como a promessa de Avram se estende através das gerações e se concretiza na figura do Mashiach, o descendente de Avram chamado para redimir as casas de Yisrael e Yehudah, bem como unir pessoas das nações no serviço ao Eterno. Convido você neste estudo para, a partir das Escrituras e das profecias, entendermos como o Mashiach cumpre o propósito de Avram, levando redenção e bênção a todos que buscam o caminho do Eterno, tornando-se assim o ponto culminante da aliança universal prometida.


A PARASHÁ DA SEMANA

Esta é a terceira semana do novo ciclo de estudos da Toráh, estamos na Parashá Lech Lechá, e ela nos apresenta o chamado do Eterno a Avram, um momento decisivo na história do povo de Israel e um ponto de partida para as promessas eternas feitas por HaShem a ele e seus descendentes. Ao dizer a Avram "Lech Lechá" que literalmente significa “Sai por ti mesmo”, o Eterno o convoca a deixar tudo para seguir um caminho de confiança e obediência, guiado apenas pela promessa divina.

Dessa forma, o Eterno garante a Avram que ele será transformado em uma grande nação, e sua semente será uma bênção para todas as famílias da terra. Avram, acompanhado por sua esposa Sarai e seu sobrinho Lot, parte para a terra de Kena'an, onde ele começa a edificar altares e proclamar o nome do Eterno, o Único D’us verdadeiro.

Em certo momento surge uma crise de fome, que obriga Avram e Sarai a descer ao Egito. Lá, temendo por sua vida, Avram instrui Sarai a se apresentar como sua irmã e faraó toma Sarai como sua comcubina. No entanto, o Eterno intervém e envia pragas sobre o faraó, que então liberta Sarai e recompensa Avram com riquezas.

De volta a Kena'an, Avram e Lot se separaram. Lot no entanto, se instala em Sodoma, uma cidade conhecida pela perversidade. Quando depois de um tempo Lot é capturado, em uma batalha entre reis, Avram, confiando no Eterno, o resgata com apenas um pequeno grupo. Após essa vitória, Avram é abençoado por Malki-Tsedek, o rei de Shalem, registrando ainda mais o favor do Eterno sobre ele.

Em seguida, o Eterno faz um pacto com Avram, conhecido como Brit Bein HaBetarim (Pacto entre as Partes). Neste pacto, o Eterno revela a Avram que seus descendentes enfrentarão exílio e aflições, mas que, no tempo certo, herdarão a terra de Kena'an como herança perpétua.

Anos se passam, e ainda sem filhos, Sarai propõe que Avram tenha descendentes através de sua serva Hagar, que concebe Yishmael. Porém, o Eterno reafirma a Avram que a promessa será cumprida através de um filho que ele terá com Sarai. O nome de Avram é então mudado para Avraham, “pai de multidões”, e Sarai passa a se chamar Sara, “princesa”. O Eterno promete que Yitschac nascerá, e que através dele uma grande nação será estabelecida. Como sinal deste pacto, o Eterno ordena a Avraham a prática da brit milah (circuncisão) para si e para todos os homens de sua casa. Avraham forneceu esta instrução, selando o compromisso com o Eterno.

A Parashá Lech Lechá, destaca não apenas a jornada física de Avraham, mas também sua caminhada de confiança firme no Eterno, tornando-se o primeiro a responder ao chamado divino e o pai de uma aliança que abençoaria pessoas do mundo inteiro.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Se você acompanha às live de Comentário de Pirkei Shimon, no meu canal no YouTube, e se leu o estudo da parashá Bereshit, sabe sobre o fato de o Eterno ter criado a Torah antes de todas as coisas, e também que criou a Teshuvah e o nome do messias, ou seja, criou a redenção. No entanto, isso ocorreria à partir dos descendentes de Avraham, principalmente de um descendente específico, o mashiach. Nesse estudo, abordaremos a promessa do Eterno a Avram de ser uma bênção para todas as famílias da terra. Vamos explorar o significado dessa promessa e como ela se desdobra nas Escrituras, apontando para o papel do Mashiach como um redentor tanto de Yisrael quanto das nações. Essa parashá possibilita uma análise mais a fundo das Escrituras, desde a promessa inicial até as confirmações proféticas.


1. O Chamado e a Promessa do Eterno a Avram

O chamado de Avram em Bereshit/Gn 12:1-3 é um momento fundamental na narrativa bíblica e na formação do povo de Yisrael. Mas a pergunta é porque HaShem escolheu Avram? Ele ainda não era como Noach, reconhecidamente justo. Vinha de uma família idólatra. Apesar disso, os midrashim dizem que Avram, logo cedo rejeitou a idolatria. E isso foi o motivo da escolha do Eterno, pois até a torre de bavel não havia idolatria no mundo, após a torre, a humanidade passou a adotá-la, mas Avram a rejeitou. Por isso, ele era a melhor escolha para reiniciar uma geração de pessoas que seguem ao D’us único. E por esse motivo, mais tarde, MalkTsedek ou Shem sendo da linhagem dos filhos de Elohim, encontra-se com Avram e lhe ensina sobre o Eterno e sua Torah, e também lhe transfere autoridade para seguir esse legado.

Através da mencionada escolha, o Eterno instrui Avram a deixar sua terra, seu local de nascimento e a casa de seu pai para uma terra desconhecida, que Ele lhe mostraria. A tradição judaica diz que através das palavras ditas a Avram, o Eterno revelou o lugar através do “sod”, na gematria das palavras hebraicas ditas a ele. No comentário de rodapé da Toráh da Editora Sefer, a respeito de “...para a terra que te mostrarei…” diz que Avram parte para um destino desconhecido. De acordo com a sabedoria profunda da Cabalá, nem tanto. O comentário continua, e diz que, usando um sofisticado sistema de Gematria composta, seu paradeiro é óbvio: se decompusermos os elementos que compõem os nomes de cada uma das letras da palavra אַרְאֶֽךָּ - “arecha” – “que te mostrarei”, teremos:

אלף - א - Alef = 111

ריש - ר - Reish - 510

אלף - אAlef = 111

כף - ךּ - Kaf = 100

Total = 832

A gematria simples de Erets Yisrael (Terra de Yisrael) é 832. Com isso, podemos concluir que Avram recebeu do Eterno o conhecimento do local para onde deveria ir.

Este comando, “Lech Lechá”, ou “Vai para ti”, implica uma jornada tanto física quanto espiritual, ou seja, de obediência às palavras do Eterno. Avram é chamado a abandonar a zona de conforto e as tradições de seu passado para trilhar um caminho de confiança no Eterno, ancorado na promessa de que ele se tornaria uma grande nação. Em meio a essas instruções, o Eterno declara que Avram não apenas seria abençoado, mas também que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Bereshit/Gn 12:3). Esta promessa contém o propósito divino que se estende para além da vida de Avram, apontando para o papel do seu povo como uma bênção universal, ou seja, o Olam Habáh.

Esse conceito de Avram como um canal de bênção revela o propósito do Eterno de estabelecer um povo que represente Sua justiça e estabilidade diante de todas as nações. A escolha de Avram e, posteriormente, de seus descendentes, dá prosseguimento ao propósito do Eterno de fazer de Yisrael, e principalmente o messias, uma “luz para as nações”.


"Eu, o Eterno, o chamei em retidão; segurarei firme a sua mão. Eu o guardarei e farei de você um mediador para o povo e uma luz para os gentios,” Yeshayahu 42:6


Isso significa que, embora a bênção seja primeiramente concedida a Avram e sua descendência, ela não se restringe somente a um único povo. Pelo contrário, essa bênção possui um caráter expansivo e universal, destinado a trazer conhecimento dos mandamentos de HaShem, e redenção a todas as pessoas da terra que desejam se aproximar de D’us e de seu povo.

A promessa de Avram ser uma bênção, pode ser desdobrada ao longo das Escrituras em duas etapas principais: a formação de Yisrael como nação e a missão que essa nação possui de testemunhar o Eterno para os demais povos. Quando o Eterno reafirma a promessa de Avraham em Bereshit 18:18-19, Ele diz:


"Todas as nações da terra serão benditas nele, pois Eu o escolhi para que ordene a seus filhos e sua casa depois dele a guardarem o caminho do Eterno , para fazer em justiça e juízo.”


Essa exigência implica que a paz e a retidão de Yisrael seriam o meio pelo qual a conquista alcançaria todas as famílias da terra. A partir dessa perspectiva, a bênção divina não é apenas um privilégio exclusivo, mas uma responsabilidade que exige que Yisrael se torne um exemplo vivo da aliança com o Eterno.

Outro ponto fundamental para compreender essa promessa é o papel do povo de Yisrael na história da humanidade, que se delineia como um povo separado para os propósitos do Eterno, mas com a missão de impactar todas as nações. Basta olhar ao redor em sua casa, em seu trabalho, na medicina, e em vários pontos da nossa sociedade há uma invenção de alguém do povo de Yisrael. Há algo que ajudou as pessoas de alguma maneira.

Em Yeshayahu 49:6, o Eterno afirma:


Pouco é que seja meu servo para levantar as tribos de Yaakov e restaurar os preservados de Yisrael; também te dei como luz para as nações, para seres a minha salvação até os confins da terra.”


Esse versículo confirma que a missão de Yisrael vai além de si mesmo, alcançando os confins da terra como uma bênção universal. Este propósito é também uma reafirmação da promessa original a Avram e um indicativo de como ela seria cumprida por meio de seus descendentes. E em todos estes textos que estamos vendo Yisrael, é também e principalmente, um apontamento para o messias, já que ele é descendente de Avraham e profeticamente é aquele que o Eterno estabeleceu como aquele que guiaria o povo ao seu caminho. Não foi à toa que Yeshua ao conversar com a mulher samaritana disse que: “...a salvação vem dos judeus…” em Yochanan/Jo 4:22. Isso é muito relevante porque os judeus são descendentes de Avram, são membros de Yisrael. Também é muito relevante nesse assunto, o que Rav Sha’ul diz em Rm 11.

Assim, o chamado de Avram é o primeiro passo em uma jornada que culmina com o messias e Yisrael assumindo o papel de mediador das bênçãos do Eterno para o mundo. Essa promessa contida no “Lech Lechá” define a natureza de Yisrael como um povo distinto, com uma aliança perpétua que não visa apenas seu próprio benefício, mas o de toda a humanidade. A partir dessa perspectiva, a escolha de Avram representa o compromisso do Eterno em conduzir os povos ao conhecimento de Sua justiça e estabilidade, colocando Yisrael em um lugar de responsabilidade para com os povos da terra.

Portanto, esse chamado, juntamente com as reafirmações da promessa e os mandamentos subsequentes, revelam que o plano do Eterno não é apenas formar um povo, mas, por meio desse povo e seu representante, abençoar e redimir a casa de Yisrael e pessoas de todo o mundo. A promessa de ser uma bênção às famílias da terra é um aspecto central da aliança com Avram, enfatizando a visão do Eterno de uma humanidade redimida em justiça e verdade, refletindo a paz e a santidade do Criador através dos ensinos do messias Yeshua, um membro da descendência de Avram. Dessa forma, o compromisso de Avram com a obediência e a confiança no Eterno torna-se o primeiro passo para o cumprimento dessa missão.


2. O Papel do Descendente de Avraham e a Bênção para as Nações

Conforme vimos no tópico anterior, a promessa do Eterno a Avram de que "em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Bereshit 12:3) não se limita ao próprio Avram, mas se expande através de sua descendência, culminando na figura do Mashiach. Ao longo das Escrituras, é revelado que essa vitória seria transmitida pelas gerações de Yisrael, sendo reafirmada nos patriarcas Yitschac e Yaakov e apontando para um descendente específico que traria redenção tanto a Yisrael quanto às nações. Em sua infinita sabedoria HaShem sabia o que aconteceria com seu povo com o passar dos anos, a diáspora da casa de Yisrael pelo mundo e da casa de Yehudah em Bavel, bem como seu retorno. Como descendente de Avram, o Mashiach assume um papel crucial como o agente através do qual o Eterno manifestaria Sua aliança e Suas promessas ao mundo, unindo Yisrael e trazendo bênçãos às nações. A bênção de se unirem ao povo de Yisrael em obediência ao Eterno, tornando-se um povo.

Em primeiro lugar, a promessa dada a Avram é renovada através de Yitschac e Yaakov, fortalecendo a ideia de que a linhagem de Avram carrega uma responsabilidade redentora. Em Bereshit 26:4, o Eterno promete a Yitschac:


Multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por tua descendência serão benditas todas as nações da terra.”


O mesmo se repete com Yaakov em Bereshit 28:14. Essa continuidade enfatiza que a promessa de bênção para as nações é uma missão que permeia as gerações e que se destina a ser cumprida através de um representante específico de Yisrael: o Mashiach. O papel do Mashiach como redentor é amplamente abordado nas Escrituras Sagradas através das profecias, onde ele é descrito como aquele que reunirá as tribos dispersas de Yisrael, levantará o tabernáculo caído de David e restaurará a aliança entre o Eterno e Seu povo. Essa tarefa de redenção é essencial, pois Yisrael, ao longo dos séculos, se dispersou e se distanciou de sua missão original. Yeshua como representante de Yisrael teve e tem o papel de efetuar esse resgate e levá-los ao caminho original. Os seguidores do messias receberam também essa missão.

Em Yeshayahu 49:6, o Eterno declara que o servo (identificado como o Mashiach) tem um propósito duplo:


Pouco é que seja meu servo para restaurar as tribos de Yaakov e trazer de volta os preservados de Yisrael; também te dei como luz para as nações, para seres a minha salvação até os confins da terra.”


Assim, o Mashiach é o mediador que restaura Yisrael e, ao mesmo tempo, amplia o alcance dessa bênção, levando-a para os confins da terra, ou seja, a toda a criatura. E de fato, tudo o que ocorreu com Yeshua levou o relato de sua vida a todas a nações, porém, não apenas isso, levou também o próprio TaNaK, pois se não fosse por isso, ninguém no mundo conheceria a respeito de Avram, Yaakov, Moshê, Yeshayahu, Dan’el e todos os outros. A bíblia em si não seria lida em várias culturas. Isso é parte do cumprimento da bênção de Avram a todas as nações.

Em Yeshayahu 42:6, o Eterno reitera essa missão universal ao dizer:


Eu, o Eterno, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei; e te darei por aliança do povo e para luz das nações.”


Isso indica que a missão do Mashiach não inclui apenas o resgate de Yisrael, mas o convite aos povos gentios para participarem dessa aliança. Como descendente de Avram, o Mashiach cumpre a promessa original feita ao patriarca, conectando todas as famílias da terra ao propósito divino e trazendo a redenção universal.

Outro aspecto importante que já foi mencionado anteriormente, é a restauração e unificação do povo disperso de Yisrael, a primeira e essencial tarefa do Mashiach. Em Yechezkel 37:21-22, o Eterno promete:


E eu os tomarei de entre as nações, e os congregarei de todas as terras, e os trarei à sua terra. E farei deles uma nação na terra, nos montes de Yisrael; e um rei será rei sobre todos eles.”


Este rei, descrito como o Mashiach, representa a liderança que reunirá tribos dispersas e estabelecerá uma unidade e paz que é uma base para a bênção prometida em Avram. O Mashiach era, portanto, como o ponto de convergência para a nação de Yisrael e como o canal de salvação para as nações.

A visão profética ainda mostra que essa redenção e unidade culminam em um tempo de paz universal e reconhecimento do Eterno como soberano. Em Z'kharyah 14:9, está dito:


E o Eterno será rei sobre toda a terra; naquele dia, o Eterno será um, e Seu Nome um.”


Esse tempo final de paz e entusiasmo ao Eterno cumpre o propósito pelo qual Avram foi chamado, demonstrando que a bênção que passa por Yisrael é destinada a toda a humanidade. O Mashiach, ao reunir Yisrael e abrir a aliança às nações, atua como o remidor para os herdeiros finais dessa promessa.

Portanto, o papel do Mashiach como descendente de Avram é fundamental para o cumprimento da promessa de que todas as famílias da terra seriam abençoadas. Como representante de Yisrael e agente de redenção, o Mashiach restaura Yisrael, cumpre a aliança e estende o convite divino a todos os povos. Assim, ele realizou o propósito do Eterno de que Yisrael, através de Avram e seus descendentes, se tornou uma bênção para o mundo inteiro, estabelecendo a paz e a justiça divina em toda a terra.


3. A Concretização da Promessa e o Papel do Mashiach como Bênção Universal

A promessa feita para Avram pelo Eterno se concretizam plenamente na figura do Mashiach, o redentor prometido, tanto em seu papel como Mashiach Ben Yosef, quanto como Mashiach Ben David, que ainda está para ser concretizado. Ao longo das Escrituras, é enfatizado que o Mashiach não apenas redimirá Yisrael, mas também possibilitará que os gentios se aproximem do Eterno, unificando todos os povos sob uma aliança de paz e justiça, conforme mencionamos nos tópicos anteriores. Este é o ápice da promessa da bênção a Avram, pois através do cumprimento das profecias sobre Mashiach, as famílias da terra podem encontrar o caminho da redenção e comunhão com o Eterno, através do cumprimento dos mandamentos.

Além de restaurar Yisrael, o Mashiach também tem a missão de incluir as pessoas das nações no serviço ao Eterno, estendendo-lhes a oportunidade de fazer parte dessa aliança, como reis e sumo sacerdotes. A profecia de Yeshayahu 56:6-7 reforça esse papel, afirmando:


Aos estrangeiros que se achegarem ao Eterno para servi-Lo e amarem o nome do Eterno [...] Eu os levarei ao Meu santo monte e os alegrarei na Minha casa de oração; [...] pois a Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.”


Este texto evidencia que, com a vinda do Mashiach, a presença do Eterno se tornará acessível a todos os povos. A casa do Eterno será um local de entusiasmo e comunhão para todos, de modo que a bênção dada a Avram se concretiza na união de Yisrael e dos gentios que se aproximam sob o propósito divino, tornando-se eles mesmos o templo de HaShem.

Além disso, este papel do Mashiach se estenderá a um nível universal de plenitude de paz e justiça, cumprindo a visão profética de um mundo unificado em serviço ao Eterno no Olam Habáh. Z'kharyah 14:9 afirma:


O Eterno será Rei sobre toda a terra; naquele dia o Eterno será um, e Seu Nome um.”


Este versículo aponta para o objetivo final do papel do Mashiach, quando a glória do Eterno será reconhecida por todos os povos e uma paz universal reinará. Ao unificar Yisrael e as pessoas das nações sob a aliança do Eterno, o Mashiach completa a promessa feita a Avram de que em sua descendência todas as famílias da terra seriam abençoadas, criando uma era de harmonia entre todos os povos. Isto está em pleno acontecimento através dos remanescentes que se voltam para o Eterno e sua palavra. O Mashiach Yeshua é a figura através da qual o Eterno estabelece uma renovação da aliança, mencionada em Yirmiyahu 31:31-34, na qual Ele promete escrever Suas instruções no coração de Seu povo, renovando a relação com Yisrael e Yehudah e ampliando essa aliança a todos os que se unirem a essa aliança através da Teshuvah. Ao tornar acessível essa renovação da aliança, não apenas restaura o compromisso de Yisrael com o Eterno, mas também amplia a bênção da aliança para as nações que se dispuserem a seguir os caminhos do Eterno. Assim, ele concretiza a promessa de Avram de que todas as famílias da terra seriam abençoadas.

Portanto, o papel do Mashiach como descendente de Avram e membro do povo de Yisrael é essencial para a realização plena da benção prometida. Ele reúne as casas de Yisrael e Yehudah, convida as nações para a aliança e inaugura um novo tempo, cumprindo o desejo do Eterno de ver todas as famílias da terra unida Nele. Dessa forma, a figura do Mashiach é o ápice da promessa feita a Avram, estabelecendo o caminho para que todas as pessoas das nações conheçam e sirvam ao Eterno em harmonia.

Concluímos nosso estudo, vemos que a jornada de Avram tem uma ligação profética ao papel redentor do Mashiach. A cada passo correto de Avram em direção à obediência ao Eterno estava mais perto do cumprimento dos propósitos do Eterno que através dos filhos de Yisrael e do messias virão ao pleno cumprimento no futuro. Cada um de nós, assim como o patriarca do povo de Yisrael tem a responsabilidade de nesse caminho de teshuvah viver passo a passo, dia a dia, a vontade do Eterno, para que os propósitos estejam e continuem sendo cumpridos em nossas vidas para que no futuro, com a vinda de Mashiach Ben David, a plenitude das promessas se cumpram, a fim de vermos o Olam Habáh.


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)