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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Estudo da Parashá Tzav - O fogo que nunca deve se apagar

 



Estudos da Torá

Parashá nº 25Tzav (Ordena)

Vayikra/Levítico 6:1-8:36

Haftará (separação) Jr 7:21-8:3 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Mc 12:28-34, Rm 12:1, 2 e 1Co 10:14-23.


Tema: O fogo que nunca deve se apagar


Na parashá dessa semana, às vésperas de Pessach e Hamatzot, um Shabat HaGadol, um Shabat especial, o grande Shabat que antecede Pessach, marcado por preparações e reflexões profundas sobre a redenção. Nesta semana apresentamos um estudo onde o Eterno nos revela a necessidade de que o fogo do altar nunca se apague. “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará.” (Vayikrá 6:6)

Mais do que um mandamento técnico, literal e litúrgico do serviço sacerdotal, esta ordem carrega um profundo significado espiritual e profético para nossas vidas hoje. Espiritual porque envolve obedecer ao Eterno e profético porque aponta fara fatos que aconteceram e acontecerão na história do nosso povo, bem como em nossas próprias histórias. O fogo contínuo representa a presença viva do Eterno, mas também simboliza a nossa responsabilidade pessoal de manter acesa a chama da obediência, da santidade e da dedicação constante.

Neste estudo, vamos caminhar por alguns textos da Torá, dos Nevi’im (Profetas), da Bessorah e dos Escritos dos Sh'lichim, para compreendermos como essa instrução não se limitou ao altar físico, mas se estende até nós, como sacerdócio vivo que serve ao Eterno em santidade e verdade.

Convido você a refletir com sinceridade: Como está o fogo do seu altar? Tem sido alimentado dia após dia? Ou tem sido negligenciado, apagado pela rotina, pelo desânimo ou pelo pecado?

Que este estudo nos leve a reacender aquilo que talvez tenhamos deixado apagar, e nos conduza de volta ao coração ardente da Torá, que é a obediência constante ao Eterno, por meio do zelo e da firme confiança em Suas instruções.

RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Tzav está trata das instruções do Eterno dadas a Moshê sobre os sacrifícios que Aharon e seus filhos deveriam oferecer diante do altar.

O Eterno ordena a Moshê que diga a Aharon e seus filhos como deveriam proceder com as ofertas sagradas:

  1. Oláh (oferta queimada) – Devia arder continuamente sobre o altar, desde a noite até a manhã, e o fogo nunca deveria se apagar (Vayicrá 6:6).

  2. Minchá (oferta de cereais) – Parte era queimada sobre o altar, e o restante era comido por Aharon e seus filhos, em lugar sagrado e sem fermento.

  3. Chatat (oferta pelo pecado) – Era comida no lugar sagrado, e o sangue era levado até o altar.

  4. Asham (oferta pela culpa) – Também era comida pelos sacerdotes, sendo santa.

  5. Zevach Shelamim (oferta pacífica) – Era compartilhada entre o ofertante e os sacerdotes, com algumas partes queimadas.

O sacerdote deveria vestir roupas especiais para remover as cinzas do altar. Toda a prática devia ser feita com temor e reverência, pois tratava-se das coisas consagradas ao Eterno.

Moshê cumpre o mandamento do Eterno e consagra Aharon e seus filhos. Eles são lavados com água, vestidos com as roupas sacerdotais, ungidos com o óleo da unção, e realizam sacrifícios diante da tenda da congregação. Aharon e seus filhos permanecem por sete dias na entrada da tenda como parte do processo de consagração, conforme o Eterno ordenou.

Percebemos nessa porção que o Eterno exige pureza, ordem e zelo naquilo que é santo. Tudo o que é consagrado a Ele deve ser tratado com temor. O fogo do altar deve permanecer aceso continuamente, assim como nosso compromisso com as instruções do Eterno deve ser constante

ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Nesta semana, ao estudarmos a parashá Tsav, somos confrontados com um mandamento muito profundo e simbólico da Torá:


Desse modo, o fogo sobre o altar será mantido aceso: ele não deve se apagado. Toda manhã, o kohen porá fogo na madeira sobre ele, arrumará a oferta queimada e queimará a gordura das ofertas de paz. O fogo será mantido aceso continuamente sobre o altar: ele não deve ser apagado. Vayikra Lv 6:5 e 6


Sobre o verso 5 acima, os comentaristas rabínicos destacam a importância da lenha ou madeira no serviço do altar e sua conexão com a manutenção contínua do fogo sagrado.

Rashi, por exemplo, faz uma observação de que a expressão constante no texto "fogo contínuo" alude ao fogo utilizado para acender as lâmpadas da Menorá, que deveria ser aceso a partir do fogo do altar externo.

Além disso, o historiador judeu Flávio Josefo, autor de História do Hebreus, menciona a prática de doação de lenha para o Templo, associando-a a Vayikrá 6:5-6. Essa prática também é referenciada em Nechemia 10:35, onde o povo se compromete a trazer ofertas de lenha ao Templo em tempos determinados, conforme está escrito na Torá.


E também estabelecemos ordenança para trazer cada ano à casa do nosso Elohim a lenha, segundo as famílias de nossos pais, nos tempos determinados, para queimar sobre o altar de HaShem nosso Elohim, como está escrito na Torá.


Este versículo mostra que o povo assumiu a responsabilidade coletiva de prover a lenha para o altar, em tempos determinados. Isso reforça o mandamento de Vayikrá 6:5, onde o fogo devia ser alimentado constantemente com lenha nova, demonstrando que a manutenção do altar era tanto uma função sacerdotal quanto um compromisso comunitário.

A lenha, neste contexto, representa o esforço contínuo do povo em manter o serviço do Eterno vivo — cada família, cada geração, participando para que o fogo da presença de HaShem jamais se apagasse.

No entanto, essa lenha sob o ponto de vista profético representa o homem e o seu compromisso com o Eterno. É uma bela imagem de como cada um de nós também deve trazer “lenha” espiritual todos os dias, ou seja, obediência, oração, estudo, justiça, para manter acesa a chama da santidade no altar do nosso coração.

Na Torah da editora Sefer, há um comentário de rodapé vindo do Talmud, que corrobora com o que estou mostrando sobre a lenha apontar para o indivíduo. Observe:


Diz o Talmud (Tamid 29b): “Todas as árvores são apropriadas para arder no altar, exceto a oliveira e a parreira, pois o azeite e o vinho já servem sobre o altar.” Assim, o fruto salva a árvore. Da mesma forma, um filho que cumpre com esmero os mandamentos de Deus, salva e conduz seus pais ao paraíso celeste. Semelhante ao azeite, os filhos devem divulgar a luz da Torah a seus pais para que haja sempre um raio de luz que os ilumine e nunca pairem na escuridão; e como o vinho, deverão alegrar seus corações, pois “o filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe.” (Pv 10:1).


Este texto torna o que estamos trazendo de uma forma muito clara, apontando nosso compromisso com o altar do Eterno. Muito interessante ainda, uma coisa que está sendo dito neste texto. “...Assim, o fruto salva a árvore…” o nosso Mashiach Yeshua falou algo parecido com isso, quando ensinou:


Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Matityahu 7:19-20


Yeshua estava falando sobre a importância do fruto, isto é, as ações visíveis e práticas de quem serve ao Eterno. Ele estava dizendo, assim como nos ensina a Torá, que não basta aparentar ser uma árvore saudável, é preciso produzir frutos que agradam ao Eterno.

Esses frutos são justiça, compaixão, obediência, santidade. São o reflexo de um coração que teme ao Eterno e vive conforme Suas instruções. E é exatamente isso que mantém a árvore, ou seja, o homem, vivo diante do Eterno. O fruto autentica a árvore. O fruto “salva” a árvore de ser cortada e lançada ao fogo da destruição. Aqui nesse ponto de vista o fogo simboliza o juízo, mas o ensino de Yeshua comprova que o entendimento profético de árvore ou lenha em relação ao homem era e é algo comum na forma de interpretar judaica dos textos sagrados.

Como está escrito:

O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no L’vanon. Plantados na casa de HaShem, florescerão nos átrios do nosso Elohim. Tehilim 92:12-13


Portanto, que os nossos frutos sejam dignos da árvore à qual pertencemos, a oliveira verdadeira que é Yisrael obediente, para que sejamos encontrados fiéis e vivos diante do Eterno. Você está compreendendo as ligações? Compreende a importância de mantermos o fogo no altar sempre aceso? Continuemos nosso estudo, pois ainda ficará melhor.

O verso 6 em algumas versões da bíblia diz: “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará.”

Embora técnico à primeira vista, este versículo é um símbolo profundo da vida de quem anda com o Eterno, como temos visto ao longo deste estudo. O fogo do altar representa a presença contínua do Eterno e também a nossa constante dedicação, zelo, vigilância e santidade.

Assim como os sacerdotes eram responsáveis por manter aquele fogo aceso sem cessar, nós também somos responsáveis por manter o fogo da obediência viva em nosso coração. Um fogo que não é alimentado se apaga. E um coração que não se alimenta das Palavras do Eterno, que não medita em Seus mandamentos, também perde sua chama.


1. Uma Vida de Constância – O Compromisso Diário com a Torá

O Eterno deseja filhos que sejam constantes, não apenas entusiastas ocasionais. Por isso, Ele instrui através de Moshê:


Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as ensinarás diligentemente a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Devarim 6:6-7


Aqui vemos o princípio da constância diária. O fogo não deveria se acender apenas em tempos de necessidade ou celebração. Ele devia arder todos os dias, inclusive quando não havia sacrifícios sendo apresentados. Assim também, a Palavra do Eterno deve arder em nosso interior mesmo nos dias "comuns", nas rotinas silenciosas da vida.

A disciplina de meditar, ensinar e viver as instruções do Eterno é o que mantém o fogo aceso. A obediência contínua é o combustível do altar. Agora que vimos a importância do compromisso vejamos o que os profetas afirmam.


2. O Fogo Profético – Quando a Palavra Queima nos Ossos

O profeta Yirmeyahu expressa um sentimento que muitos conhecem quando se entregam ao Eterno verdadeiramente:


Se eu disser: ‘Não falarei mais no Seu Nome’, então há em meu coração como um fogo ardente encerrado nos meus ossos; e estou cansado de contê-lo, e não posso mais. Yirmeyahu 20:9


Esse fogo não é artificial, nem motivado por interesse pessoal. É um fogo gerado pela Palavra do Eterno. Um zelo que consome o profeta por dentro e o impulsiona a proclamar a verdade mesmo em meio à perseguição, rejeição e sofrimento.

Muitos tentam se calar. Muitos desistem. Mas quem foi verdadeiramente tocado pela voz do Eterno não consegue viver indiferente. Esse fogo exige ação, exige entrega, exige santidade. Ele não se apaga com o tempo, se for alimentado com obediência.

Tendo compreendido o que os profetas falam e o papel da lenha vejamos as implicações desse assunto nas palavra de Yeshua.


3. Yeshua – O Zelo que Purifica e Consome

Quando Yeshua viu o templo sendo profanado por práticas corruptas e comércio ganancioso, ele não ficou inerte. Ele agiu com zelo ardente:


O zelo da Tua casa me consumirá. Tehilim 69:10 / Yohanan 2:17


Aqui vemos que o fogo do altar também é justiça. Yeshua não foi conivente com a impureza espiritual. Ele agiu com firmeza porque entendia o valor da santidade diante do Eterno.

A purificação do Templo foi um ato profético. Ele estava mostrando que sem fogo, sem zelo, o altar perde o seu propósito. Ele não veio trazer uma nova doutrina, mas restaurar a santidade do serviço ao Eterno com fervor, reverência e fidelidade à Torá. Agora, vejamos o que os apóstolos ensinaram sobre nosso tema.


4. Os Sh'lichim – Guardiões do Fogo da Nova Aliança

Shaul e os outros emissários compreenderam que a entrega ao Eterno exigia disciplina e fervor contínuo:


Sede fervorosos no ruach, servindo ao Eterno. Romanos 12:11

Não extingais o fogo. 1 Tessalonicenses 5:19


O termo “Fervorosos” aqui tem o sentido de “fervendo”, “em ebulição”, ou seja, não há espaço para frieza espiritual, para religiosidade apática ou para legalismo. O fogo do serviço ao Eterno é vivo, ativo, prático, e nos move constantemente a agir com justiça, amor, compaixão e verdade.

Shaul também escreve:


Em tudo demos provas como ministros do Eterno: na perseverança, nas tribulações, nas necessidades... como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo. 2 Coríntios 6:4-10


A constância do fogo é vista na perseverança em meio às provações. A verdadeira devoção é provada quando mantemos o fogo aceso mesmo nas tempestades da vida.


5. Guardando o Altar do Coração

Assim como os sacerdotes cuidavam do fogo físico ou literal, somos chamados pelo Eterno a cuidar do fogo espiritual que arde em nosso coração. Ele precisa ser alimentado:

  • Com a Torá:

Antes tem o seu prazer na Torá do Eterno, e na sua Torá medita de dia e de noite. Tehilim 1:2

  • Com pureza de vida:

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Mishlei 4:23

  • Com ações concretas de justiça e misericórdia:

Não é este o jejum que escolhi... que repartas o teu pão com o faminto? Yeshayahu 58:6-7

O altar do Eterno, conforme lemos na Torah, é sagrado. E o coração daquele que obedece aos Seus mandamentos também se torna altar, portanto sagrado também. O fogo contínuo no altar não era um ornamento. Era um testemunho vivo da presença e da santidade do Eterno no meio do Seu povo.

Hoje, este fogo arde em cada um que busca viver uma vida de temor e obediência. Não deixemos que ele se apague. Não deixemos que o pecado, o comodismo, a frieza ou o ego tomem o lugar da chama sagrada.


O espírito do homem é a lâmpada do Eterno, que esquadrinha todo o mais íntimo do seu ser. Mishlei 20:27


Que a nossa lâmpada esteja sempre cheia de azeite, que o nosso altar nunca esteja sem fogo, e que a nossa vida seja uma oferta viva ao Eterno.

Que a luz do Eterno brilhe em nós, e que o fogo sagrado jamais se apague!

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef


sexta-feira, 4 de abril de 2025

Estudo da Parashá Vayikra - Relacionamento acima do sacrifício

 


Estudos da Torá

Parashá nº 24Vayikra (E chamou)

Vayikra/Levítico 1:1-5:126

Haftará (separação) Is 43:21-44:23 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Rm 8:1-13; Hb 10:1-14.


Tema: Relacionamento acima do sacrifício


Desde os primórdios, o ser humano buscou formas de se conectar ao Criador. No Gan Éden (Jardim do Éden), essa relação era pura e direta, sem barreiras. No entanto, à medida que a humanidade se distanciou do Eterno, surgiu a necessidade de meios que restaurassem essa proximidade. O sistema dos korbanot (ofertas) estabelecido e detalhado em Vayikra foi uma resposta divina para essa reconexão. Mas será que o Eterno deseja apenas sacrifícios? Ou Ele busca algo muito maior?

A história de Yisrael mostra que, apesar da importância dos korbanot, os profetas constantemente alertaram que sacrifícios sem mudança de coração eram inúteis. Yeshua HaMashiach e os sábios de Yisrael reforçaram esse princípio: a verdadeira oferta ao Eterno é um coração transformado, uma vida de justiça, retidão e amor.

O estudo da parashá dessa semana nos convida a mergulhar na essência do chamado do Eterno. Mais do que rituais e cerimônias, Ele deseja um relacionamento vivo, íntimo e genuíno com aqueles que O buscam. Vamos explorar como o Tanakh, os profetas, os ensinos de Yeshua e dos shlichim (apóstolos) revelam que o verdadeiro sacrifício não é algo externo, mas uma entrega diária ao Eterno.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Vayicrá inicia o livro de Vayicrá, que revela as instruções do Eterno sobre os korbanot (ofertas) e a aproximação do homem com Ele. O nome da parashá, "Vayicrá" (וַיִּקְרָא), significa "E chamou", mostrando que o Eterno não apenas dá mandamentos, mas chama Seu povo para um relacionamento mais profundo com Ele.

O início da parashá mostra que HaShem chama Moshe e entrega as instruções sobre os korbanot, os sacrifícios que deveriam ser trazidos ao Mishkan. Diferente do que muitos pensam, o objetivo dos korbanot não era simplesmente "apagar pecados", mas criar uma conexão entre o homem e o Eterno, pois "karov" (קָרוֹב), que tem a mesma raiz de korban (קָרְבָּן), significa "estar próximo".

Os principais tipos de korbanot apresentados nesta parashá são:

  1. Olah (עֹלָה) – Oferta Queimada: Queimada completamente no altar, representando entrega total ao Eterno.

  2. Minchá (מִנְחָה) – Oferta de Alimentos: Geralmente de cereais, sem fermento, mostrando humildade e gratidão.

  3. Zevach Shelamim (זֶבַח שְׁלָמִים) – Oferta de Paz: Parte era queimada, parte comida pelos sacerdotes e pelo ofertante, simbolizando comunhão.

  4. Chatat (חַטָּאת) – Oferta pelo Pecado: Para pecados involuntários, demonstrando que até sem intenção, é necessário buscar retificação.

  5. Asham (אָשָׁם) – Oferta pela Culpa: Relacionada a danos causados a outras pessoas ou ao santuário.

O foco dos korbanot não era a mera execução do ritual, mas a intenção do coração. O Eterno nunca desejou apenas ofertas materiais, mas obediência e transformação interior. Como está escrito:

"Porque eu quero a bondade e não o sacrifício, e o conhecimento do Eterno mais do que holocaustos." (Hoshea 6:6)

Assim, os korbanot apontam para a necessidade de teshuvá (retorno ao Eterno), um coração contrito e um compromisso de viver conforme Suas instruções.

Yeshua viveu plenamente a vontade do Eterno e ensinou que a maior oferenda que podemos dar é nossa vida de obediência e justiça. Ele nos ensinou que devemos amar ao Eterno com todo nosso coração e ao próximo como a nós mesmos. Ele também nos lembrou de que a justiça, a misericórdia e a humildade são mais importantes do que rituais vazios (Mishlei 21:3).

Isso não anula a importância dos korbanot no contexto do Mishkan e do Beit HaMikdash, mas reforça que o mais essencial sempre foi o coração daquele que se aproxima do Eterno.

A Parashá Vayicrá nos ensina que a busca pelo Eterno exige aproximação verdadeira, transformação e responsabilidade. Assim como os korbanot exigiam que o ofertante se envolvesse ativamente, nossa caminhada exige ação e mudança constante.

ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Essa porção da Torah, conhecida como Parashá Vayikra, abre as portas para conhecermos um dos temas centrais do relacionamento do homem com o Eterno: a necessidade de aproximação, que entre o povo de Yisrael é conhecido como “Teshuvah”. O próprio nome do livro e da parashá, "Vayicrá" (וַיִּקְרָא) — "E chamou" — revelam que HaShem não apenas dá mandamentos frios e legalistas, mas convida cada indivíduo a ter um relacionamento profundo com Ele. O sistema dos korbanot (sacrifícios) era um meio para isso, mas nunca foi o objetivo final. O Eterno quer o coração do homem, sua retificação e sua busca sincera. E quando falo coração, falo de intenções e de atitudes, deve ser algo completo. E como, o livro de Vayikra, aponta ou revela que deve ser esse indivíduo para se relacionar com o Eterno? Bruno Summa em seu comentário dessa parashá traz algo interessante, observe abaixo a transcrição:


O TZADIK DE ACORDO COM O SEFER VAYIKRA

Eles perguntaram à sabedoria: “qual é a punição ao pecador?” E a sabedoria respondeu: “o mal perseguirá ao pecador (Pv 13:21)”. E eles perguntaram à profecia: “qual é a punição ao pecador?” E a profecia respondeu: “o pecador morrerá (Ez 18:4)”. E eles perguntaram à Torah: “qual é a punição ao pecador?”. E a Torah respondeu: “ele levará uma oferta e obterá perdão (Os 14:2)”. E eles perguntaram ao Criador: “qual é a punição ao pecador?” E o Santo, Bendito Seja, respondeu: “tome para ti Minhas palavras e retorne a Mim (Sl 25:8)”. Yalkut Shimoni, Ezequiel 358

Os sábios procuram de quatro maneiras diferentes explicar o problema chamado pecado e suas consequências. A primeira ocorre quando um ser humano tenta compreendê-lo através de sua sabedoria e inteligência. Nesse caso, um ser humano tende a compreender o pecado e suas consequências através de suas próprias experiências e através dos danos que lhe são causados quando outrem erram consigo. A natureza decaída humana, a vontade de se vingar e a dificuldade de liberar perdão que o ser humano ordinário possui, o leva a desejar que a pessoa que lhe cometeu um dano seja “perseguida pelo mal”, isso é, quando um ser humano é vítima do pecado de seu próximo, ele desejará se vingar, desejará que aquele que lhe fez mal se auto-destrua ou que seja destruído de alguma forma por forças externas. É comum vermos pessoas, quando falam sobre as pessoas que não gostam, desejando-lhes tudo que é ruim e negativo.

A segunda ocorre quando um ser humano procura entender o pecados e suas consequência através das profecias que há no Tanakh e pela forma como o pecado punia Israel; em outras palavras, aqui temos uma pessoa que compreende o pecado através de ensinos rasos. Esse indivíduo compreenderá o pecado como algo que o condenará à morte por mais que procure se retificar. Esse tipo de pensamento é altamente destrutivo, pois se alguém chega a conclusão que, por ser um pecador, ele está automaticamente condenado, ele se afundará ainda mais no pecado e se entregará aos seus desejos carnais.

A terceira ocorre quando um ser humano procura compreender o pecado e suas consequências pelo ponto de vista literal da Torah. Ele chegará à pobre conclusão que para se safar de seu erro, apenas lhe basta prestar um sacrifício, isso é, observar alguma Mitzvah ou sacrificar algo em sua vida. O homem que assim compreende o pecado, terá a tendência de barganhar com Hashem pela remissão: “eu faço uma bondade e Hashem me redime”. Devemos entender que tudo na Torah, tanto bençãos quanto expiação, jamais devem ser na base da barganha, pois por melhor que sejamos e mais pios que nos tornemos, jamais seremos merecedores de benção alguma e de perdão algum. O ato de sacrificar algo como forma de obter perdão é completamente inválido.

A quarta ocorre quando um homem, ao invés de se basear em sua ciência para compreender o pecado e suas consequência, simplesmente se volta ao Criador e, com coração quebrantado, pede perdão de forma sincera por aquilo que fez. Isso é, o pecado e suas consequências devem ser compreendidos em sua forma mais simples, pecou, pagou, mas se houver arrependimento perante Hashem, eles serão apagados e perdoados. Isso nos basta para que possamos de forma simples nos retificarmos, e não há forma mais simples do que nos voltarmos ao nosso Deus e clamar pela Sua misericórdia e perdão. Essa ação vale mais do que toda sabedoria, ciência, estudo e sacrifício. O primeiro passo ao perdão é muito bem exemplificado pelo relacionamento entre um pai e seu filho, pois assim como o pai perdoa ao filho sem razões concretas e compreensíveis pelo filho, o mesmo é válido entre Hashem e Seus filhos. Os motivos que levam Hashem a perdoar seus filhos nunca serão compreensíveis a nós.

O Livro de Levítico aborda dois temas vitais, sacrifício e correta conduta perante Hashem. Viver nos conformes da vontade de Hashem é viver uma vida de constantes sacrifícios, pois cada Mitzvah observada, por menor que seja, sempre será acompanhada por algum sacrifício de nossa parte. E por que o homem foi criado e chamado ao sacrifício? Porque um homem deve sempre oferecer tudo aquilo que ele pensa que possui como forma de reconhecimento de que nada merece e de que nada realmente lhe pertence. Um sacrifício consiste tanto em reconhecimento quanto devolver a Hashem aquilo que foi colocado temporariamente em suas mãos.

O Livro de Levítico é capaz de separar profundamente um homem de Torah de um homem idólatra, e aqui não se trata do idólatra que não reconhece a Hashem, mas sim ao idólatra que supostamente serve a Hashem e conhece a Torah. O idólatra disfarçado de Tzadik é aquele que sempre buscará posses, riquezas, dinheiro, conforto e bens. Ele focará sua vida no trabalho secular, na conquista e sempre que possível, observará os mandamentos da Torah visando algum beneficio material. A vasta maioria das pessoas, infelizmente, servem e buscam a Hashem com uma agenda em mente, com um plano que precisam concretizar e não são capazes por si só, portanto, decidem buscar ajuda espiritual. Essas pessoas se engajam no Serviço Divino, estudam a Torah, fazem Tzedakah e observam inúmeras Mitzvot, mas em seus interiores, são idolatras, não idolatras de ídolos de pedra, mas idólatras de riquezas e posses.

O foco principal da Torah e, principalmente do Livro de Levítico, não é estabelecer sacrifícios de animais e um estilo de vida distinto, mas de traçar uma linha que separa o idólatra que se considera Tzadik do verdadeiro Tzadik. Enquanto o idólatra que se considera Tzadik leva sacrifícios caros a Hashem buscando perdão para que não sofra, para que não tenha que mudar seu estilo de vida e para ser materialmente abençoado, o verdadeiro Tzadik sacrifica a si mesmo ao não desejar bençãos terrenas e ao não buscar o perdão visando o próprio bem estar; o verdadeiro Tzadik, o verdadeiro homem que vive Torah e não possui nenhuma forma de idolatria em seu coração, é aquele que muda seu estilo de vida e se sacrifica diariamente em nome das Mitzvot pelo simples amor que possui, tanto a Hashem quanto pelo próximo.

O homem que não ama ao Mestre sobre todas as coisas, que não ama Sua Torah, Seus mandamentos e ao próximo como a si mesmo, por mais Torah que viva e estude, não deixará de praticar uma das mais ocultas e profundas idolatrias, a idolatria da busca pelo próprio bem estar e por bençãos materiais através da barganha com Hashem.

O homem que busca benefícios através da Torah e dos sacrifícios é comparável ao homem que entra em um bar e se embriaga. Quando menos esperar, durante sua falsa alegria, o garçom virá com a conta e lhe cobrará por tudo que bebeu. Akeyidat Yitzchak, Perek 57

Summa, Bruno. SHA'AREI TORAH: Portões da Torah - VAYIKRA 1 (pp. 31-35). Edição do Kindle.

Tendo em vista o que falamos até aqui vamos aprofundar mais um pouco e observar o propósito dos korbanot.


1. O Propósito dos Korbanot: Um Meio, Não um Fim

Nos tempos do Mishkan e do Beit HaMikdash, os korbanot eram uma forma visível de demonstrar um compromisso interior. E percebam que há também o entendimento dos korbanot como pessoas, pela perspectiva profética. No entanto, no ponto de vista físico ou visível, os profetas e os sábios de Yisrael sempre enfatizaram que a verdadeira adoração não está no sacrifício em si, mas na obediência e na retidão do coração de cada indivíduo.

Podemos observar os profetas expressando seu entendimento a respeito do relacionamento do homem com o Eterno. Veja o que o profeta Sh’muel disse ao Rei Shaul:


Acaso tem o Eterno tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Sua voz? Eis que obedecer é melhor do que sacrificar, e atender, melhor do que a gordura de carneiros. Shmuel Alef/1Sm 15:22


Aqui neste verso vemos claramente que o Eterno deseja primeiro um coração inclinado à Sua vontade, mais do que ofertas mecânicas e meramente legalistas. O profeta Yeshayahu também transmitiu essa mensagem do Eterno, como um forte alerta:


De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios? — diz o Eterno. Já estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados; não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes... Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem, praticai o que é reto, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Yeshayahu/Is 1:11-17

O profeta com o Verbo em sua boca diz que HaShem rejeita sacrifícios sem arrependimento e transformação verdadeiros. A justiça, ou seja, a obediência e a bondade através de tsedakah, são a verdadeira oferta que Ele deseja. Outro profeta também enfatiza esse fato.


Pois amor e bondade quero Eu, e não sacrifício; e o conhecimento do Eterno, mais do que holocaustos. Hoshea/Os 6:6


Pela mensagem transmitida através desse profeta vemos a instrução de que o verdadeiro korban é a busca por conhecer o Eterno e viver conforme Suas instruções. Entretanto, entenda que de forma alguma estou afirmando que os sacrifícios não tinham importância ou que não representava remissão e perdão, o que estou mostrando é que o korbam sem o devido arrependimento acaba não tendo validade, e se torna algo que o Eterno rejeita. Yeshua ensinou também sobre o verdadeiro culto ou serviço, o sacrifício real e prático, não apenas de palavras.


2. Yeshua e o Verdadeiro Serviço ao Eterno

Yeshua ensinou repetidamente que um coração puro e uma vida justa são mais importantes do que qualquer ritual. Ele confrontou aqueles que confiavam apenas em práticas externas sem verdadeira transformação. Quando perguntaram a ele sobre o maior mandamento, Yeshua citou a essência da Torá:


Amarás ao Eterno, teu Elohim, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Devarim 6:5 "E amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Vayicrá 19:18

Ele destacou que sem amor ao Eterno e ao próximo, nenhuma oferta ou sacrifício teria valor. Em outra ocasião, Yeshua advertiu sobre a hipocrisia de cumprir rituais sem justiça e misericórdia:


Ai de vós, escribas e perushim, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Torá: a justiça, a misericórdia e a confiança. Estas coisas deveríeis fazer, sem omitir aquelas. Mattityahu 23:23


Ele não rejeitou a obediência aos mandamentos e nem os korbanot mencionados nessa parashá, mas mostrou que eles deve ser acompanhados de um caráter transformado, como mencionei.


3. O Ensino dos Emissários era o mesmo

Os emissários de Yeshua seguiram o mesmo entendimento. Eles ensinaram que a verdadeira oferta ao Eterno é uma vida dedicada a Ele, mas sem negligenciar os mandamentos. O Apóstolo Paulo disse aos nazarenos de Roma:


Rogo-vos, pois, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável ao Eterno, que é o vosso verdadeiro culto. Rom 12:1


Aqui ele reforça que a verdadeira adoração é a entrega completa da vida ao Eterno, não apenas rituais externos. E o apóstolo Pedro também disse:


Também vós, como pedras vivas, sois edificados como uma casa espiritual, para serdes um sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios aceitáveis ao Eterno por meio de Yeshua HaMashiach. 1Pe 2:5


Isso significa que nossa vida deve ser um korban contínuo de justiça e bondade, e para isso devemos obedecer aos mandamentos do Eterno.


4. O Entendimento dos Sábios de Israel

E para que vocês entendam que o que estou apresentando não é uma invenção. Além de todos os textos das Escrituras e da Brit Hadashá que já mencionei, vejam ainda que os sábios de Yisrael também compreenderam que os sacrifícios nunca foram um fim em si mesmos. Rabi Yochanan Ben Zakkai disse o seguinte:


Mesmo sem o Beit HaMikdash, temos algo que pode expiar: atos de bondade e arrependimento. Talmud Bavli, Avodá Zará 17b


Esse ensinamento está em harmonia com o TaNaK, mostrando que a retidão é a verdadeira forma de se aproximar do Eterno. Rambam (Maimônides) também mencionou algo sobre isso:


O propósito final da Torá é que o homem alcance um coração puro e se aproxime do Eterno por meio do conhecimento e da justiça. Moreh Nevuchim 3:32


Isso reafirma que a obediência interna é superior a qualquer sacrifício externo vazio de verdade e arrependimento. A Parashá Vayikra nos ensina que o Eterno deseja proximidade, e isso exige ação de nossa parte. Assim como os korbanot exigiam arrependimento, devemos corrigir nossos caminhos diariamente através da teshuvah. Devemos buscar a retidão obedecendo à HaShem e ajudando o necessitado, pois essa é a verdadeira oferta que agrada ao Eterno, ou seja, a justiça e a misericórdia. Seguir as instruções do Eterno com um coração íntegro, e não por mero ritual. E por fim, como Yeshua ensinou, amar e servir ao próximo é uma forma poderosa de nos aproximarmos do Eterno.

Concluindo nosso estudo, vimos que o livro de Vayikra não trata de sacrifícios vazios ou legalistas, mas do chamado do Eterno para um relacionamento mais profundo. Ele quer um povo que O busque de coração, que pratique a justiça e que viva em retidão. Que possamos responder ao chamado de Vayikra com um coração sincero, oferecendo ao Eterno a melhor oferta de todas: uma vida reta e dedicada a Ele!

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef