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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Estudo da Parashá Matot-Massei - O Eterno Está na Frente da Nossa Teshuvah.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 42 – Matot (Tribos)

Bamidbar/Números 30:2-32:42

Haftará (separação) Jr 1:1-2:3 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 5:33-37

Parashá nº 43 – Massei (Estágios)

Bamidbar/Números 33:1-36:13

Haftará (separação) Jr 2:4-28; 3:4 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Tg 4:1-12


O Eterno Está na Frente da Nossa Teshuvah.


O povo de Yisrael não caminhou quarenta anos no deserto por acaso, apesar de terem sido punidos pela sua transgressão. Cada jornada, cada parada, cada passo, foi dirigido pelo Eterno com propósito, disciplina e misericórdia. A parashá Massei nos mostra que não existe estrada sem sentido na vida daqueles que são guiados pelas instruções do Altíssimo. A teshuvah é um caminho de retorno ao Eterno, e não é fácil, mas é possível. Mas há um segredo mais profundo: em cada retorno, em cada arrependimento, em cada teshuvah verdadeira, o Eterno já está à nossa frente, esperando, preparando e conduzindo o caminho de volta.

Esta verdade ecoa desde as palavras dos profetas até os ensinos de Yeshua e dos talmidim: a teshuvah não é apenas um ato nosso em direção ao Eterno, mas um caminho que o próprio Eterno abriu antes mesmo que decidíssemos retornar. Este é o chamado eterno para sair da idolatria, do erro, da impureza, e voltar para uma terra de promessa e santidade.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

Esta semana, estudamos a parashá Matot e a Massei, que encerram o livro de Bamidbar. Ambas trazem orientações fundamentais dadas pelo Eterno ao povo de Yisrael antes de entrarem na terra prometida, e revelam aspectos profundos da nossa jornada no deserto, tanto literal quanto espiritualmente, em nosso caminhar com o Eterno.

A porção Matot começa com um princípio essencial: o poder da palavra. Moshe transmite ao povo as instruções do Eterno sobre os votos e juramentos. A palavra falada tem força de aliança diante do Eterno. Isso mostra que quem ama o Eterno, cumpre aquilo que promete a Ele.

Em seguida, vemos o Eterno mandar Moshê vingar os filhos de Yisrael dos midyanitas, pelo engano que provocaram anteriormente. A guerra é vencida com ordem, pureza e justiça, e há uma separação clara entre o que é santo e o que é impuro. Ao final, as tribos de Reuven, Gad e metade de Menasheh pedem para ficar do lado leste do Yarden, pois aquela terra era boa para seus rebanhos. Moshe adverte sobre não desanimarem os outros, mas, com o compromisso de guerrearem ao lado de seus irmãos, recebem permissão. Isso mostra que a unidade e o compromisso com toda a comunidade de Yisrael é prioridade diante do Eterno.

Massei abre com uma lista detalhada de todas as jornadas dos filhos de Yisrael desde a saída de Mitsrayim até os campos de Moav, às margens do Yarden. Isso mostra que cada passo foi conduzido pelo Eterno, nenhuma caminhada foi em vão.

Depois, o Eterno ordena que, ao entrar em Kena'an, o povo expulse todos os habitantes e destrua seus ídolos e altares falsos. Se não o fizerem, tais povos seriam como "espinhos em seus olhos". A terra é santa, e exige pureza. São delineadas as fronteiras da terra e designados líderes para repartir a herança. E há também a instituição das cidades de refúgio, onde aquele que matasse alguém por acidente poderia escapar da vingança. Isso ensina que a justiça do Eterno é equilibrada, protegendo a vida e punindo o mal com discernimento.

Por fim, as filhas de Tzelofechad recebem a instrução de se casarem dentro da sua tribo, para preservar a herança de seus pais. Isso reforça a importância da responsabilidade familiar e tribal dentro da ordem do Eterno.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Em tempos de retorno e restauração, muitos acreditam que teshuvah, o voltar sincero para o Eterno, é algo que parte apenas do coração humano, como se o homem, por si só, pudesse decidir buscar a presença do Altíssimo. Mas as Escrituras revelam algo muito mais profundo: o Eterno não apenas espera nossa teshuvah, Ele a prepara, a precede, a conduz.

Nas jornadas do povo de Yisrael pelo deserto, vemos uma verdade poderosa: o Eterno guiava cada passo, mesmo quando o povo não compreendia. Não havia caminho desperdiçado. Cada parada, cada provação, cada livramento, era parte de um plano maior, o plano de transformar um povo que tinha sido escravizado em uma nação livre e santa. O mesmo ocorre com cada um de nós, pois nada é por acaso ou aleatório, HaShem tem o controle de tudo e quer nos tornar santos.

Essa realidade não terminou no deserto. Os profetas reforçaram o chamado do Eterno ao retorno. Yeshua, com as palavras vivas do Altíssimo em sua boca, reafirmou essa mensagem, e seus talmidim continuaram o chamado à purificação e obediência. Hoje, mais do que nunca, precisamos compreender que a teshuvah não é apenas um ato nosso, é um caminho que o Eterno traçou desde o princípio. Ele está à frente, chamando e preparando Seus filhos para herdarem a terra da promessa.


1. Nenhuma caminhada foi em vão

A parashá Massei começa com uma lista extensa de 42 estações ou paradas pelas quais os filhos de Yisrael passaram desde que saíram de Mitsrayim até chegarem às planícies de Moav.


Moshe escreveu os seus pontos de partida, segundo as suas jornadas por ordem do Eterno; eis os pontos de partida de cada estágio: Bamidbar 33:2


Podemos nos questionar: Por que o Eterno mandou registrar cada parada? Entender isso revela que cada jornada, cada lugar, mesmo os mais difíceis e aparentemente insignificantes, foi determinado pelo Eterno. Não há aleatoriedade na caminhada de Yisrael. Isso não foi para memória apenas, foi como um sinal profético. Cada ponto de partida e de chegada representa uma lição da caminhada de retorno à obediência. E tem profundo valor profético, pois mostra que a formação do povo não se deu apenas com milagres, mas com processos, ou seja, escolhas e resultados.


E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Eterno teu Elohim te guiou estes quarenta anos no deserto, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração... Devarim 8:2


Assim como nossos pais, o povo de Yisrael, foram guiados por nuvens e colunas de fogo, o arrependimento ou teshuvah, também é um caminho feito de paradas e recomeços. As jornadas do povo de Yisrael no deserto representam o processo de purificação que antecede a posse da herança. O Eterno molda o caráter do povo para que esteja pronto a habitar uma terra santa com instruções santas. Isso é profético, vai além do tempo, pois diz respeito também ao futuro, quando estaremos no reino do Eterno. Como está escrito:


Farei passar a terça parte pelo fogo, e os purificarei como se purifica a prata, e os testarei como se faz com o ouro. Eles chamarão meu nome, e eu lhes responderei. Zekharyah 13:9


Mesmo quando pecamos, como em Refidim ou em Qivrot-Hataavah, o Eterno não se afasta, apesar de julgar e punir. Porém, Ele está na frente, esperando que aprendamos e voltemos ao caminho certo. Observe que Yeshua ensinou essa mesma visão em forma de parábola:


O filho ainda estava longe, e seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro… Lucas 15:20


O pai da parábola não representa um sentimento humano, mas a postura do Eterno, pois Ele já está adiante, esperando, olhando para o retorno de seus filhos. E vemos ainda esse entendimento dito pelo profeta Malakhi:


Desde os dias de vossos pais vos desviastes dos meus mandamentos, e não os guardastes. Voltai a mim, e eu voltarei a vós, diz o Eterno Tsevaot. Malakhi 3:7


Portanto, as paradas ou dificuldades enfrentadas são lições vivas que revelam o cuidado e disciplina do Eterno. Elas nos ensinam que não há sofrimento ou atraso em vão quando se anda sob a direção do Eterno. Tudo visa a herança eterna.


2. O Eterno guia cada parte da nossa vida, mesmo quando não compreendemos

Muitas paradas no deserto foram difíceis, pois houve falta de água, fome, serpentes, confrontos. Porém, todas elas foram determinadas pelo Eterno:


Segundo a ordem do Eterno se acampavam, e segundo a ordem do Eterno partiam... Bamidbar 9:23


Quando olhamos para os relatos da Torá, vemos que a presença do Eterno se manifestava mesmo nos lugares de provação. Em Refidim (onde não havia água), o Eterno trouxe água da rocha (Shemot 17). Em Horev, onde o povo pecou, ainda assim a nuvem não os abandonou. A profecia de Yehezkel 20 mostra que mesmo no deserto o Eterno cuidava de Yisrael, embora corrigisse seus erros:


Então eu os retirei da terra do Egito e os trouxe para o deserto. Entreguei-lhes minhas leis e lhes mostrei meus estatutos; se alguém os obedecer, terá vida por meio deles. Entreguei-lhes meus shabatot como um sinal entre mim e eles, de maneira que eles soubessem que eu, Adonai, sou o único que os santifica. Yehezkel 20:10-12


Mesmo quando não entendemos o motivo do sofrimento, o Eterno está trabalhando para nos ensinar a confiar nEle completamente. Aprendemos com as dificuldades e crescemos, mesmo que não tenhamos ideia disso. Se não murmurarmos e não sairmos do caminho de obediência, seremos vitoriosos no final.


Eu sei os pensamentos que tenho sobre vós, diz o Eterno; pensamentos de paz e não de mal... Yirmeyahu 29:11


Devemos compreender que nossas lutas têm direção quando seguimos as instruções do Eterno. As paradas do povo de Yisrael nos ensinam a esperar e confiar em HaShem, mesmo sem respostas imediatas. No sistema religioso as pessoas são ensinadas que Deus sempre vai responder, e quando isso não acontece, eles se perdem. É preciso entender que há momentos que o Eterno fica em silêncio e nos observa para ver nossas atitudes, assim como um professor na hora da prova, mas nossa confiança em tudo que aprendemos deve ser demonstradas com atitudes justas. Isso confirma o caminho que estamos trilhando.


3. Expulsar os habitantes e destruir os ídolos e altares falsos

O Eterno ordena:


Lançareis fora todos os habitantes da terra... destruireis todos os seus ídolos... e desfareis todos os seus altos… Bamidbar 33:52


Este mandamento tem peso profético e espiritual. A terra de Kena’an era contaminada por idolatria, imoralidade e violência, como está escrito:


Porque a terra está contaminada; e eu visitei a sua iniquidade sobre ela... Vayicrá 18:25


O mandamento de expulsar e destruir é para purificar a terra, pois o Eterno não habita onde há impureza e rebelião. O caminho de teshuvah exige a eliminação radical da idolatria, tanto visível quanto oculta. Yisrael não poderia herdar a terra mantendo os altares falsos, porque o Eterno não divide sua presença com abominações. E se o povo não obedecesse, os habitantes restantes seriam laço e tropeço:


Se não expulsardes os moradores da terra... acontecerá que os que deixardes serão por espinhos nos vossos olhos… Bamidbar 33:55


Esse mandamento não é para sobre a terra, ele aponta profeticamente para a purificação interior de cada membro do povo. Os ídolos externos são reflexos de idolatria interna, como a busca por poder, ganância e desobediência. E também aponta para um tempo futuro, conforme escrito:


E tirarei da terra os nomes dos ídolos, e deles não haverá mais memória… Zekharyah 13:2


Lavai-vos, purificai-vos; tirai a maldade dos vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal! Yeshayahu 1:16


A conquista da terra prometida não é apenas geográfica, é uma conquista moral e espiritual. Só podemos herdar quando expulsamos da nossa vida tudo que nos afasta de HaShem, toda forma de idolatria, colocando o Eterno como único Rei.

Yeshua reafirmou essa mensagem profética, dizendo:


Bem-aventurados os limpos de coração, pois eles verão o Eterno. Matityahu 5:8


E Shaul HaShaliach (Apóstolo Paulo) escreveu com clareza aos irmãos:


Pois que ligação há entre o santuário do Eterno e os ídolos? Porque vós sois santuário do Elohim vivente... 2 Coríntios 6:16


Teshuvah verdadeira exige quebrar os ídolos do orgulho, da avareza, da rebelião e da religiosidade. Só assim o povo pode entrar e permanecer na herança que o Eterno prometeu. Por isso, cada parte da jornada de nossa vida tem um propósito, pois os processos moldam o caráter, e o Eterno conduz até mesmo as partes difíceis da nossa caminhada. Mesmo sem entender, confie no Eterno e em sua palavra, pois ele guia cada parte da nossa vida com fidelidade, devemos nos lembrar que ele é Melech Neeman, Rei Fiel. No fim, devemos ter em mente que purificação é inegociável, pois a herança só vem com santidade e remoção da idolatria, tanto externa quanto interna. Como disse o profeta:


O povo que andar em justiça, herdará a terra e possuirá para sempre... Yeshayahu 60:21


Concluindo nosso estudo, podemos compreender que a teshuvah começa no coração do Eterno. Não somos nós que abrimos o caminho de volta. É o Eterno quem guia, conduz, prepara e espera. O deserto que atravessamos é a escola onde aprendemos a depender apenas de HaShem. A terra prometida só pode ser herdada por corações puros, livres de idolatria, e dispostos a obedecer todas as suas instruções. O profeta Hoshea diz:


Volta, ó Yisrael, ao Eterno teu Elohim, porque caíste pela tua transgressão. Os 14:1


O chamado do Eterno é claro. No entanto, mais claro é a certeza: Ele já está à frente, preparando nosso retorno. O Eterno está na frente da nossa teshuvah. Que caminhemos com firme confiança, expulsando os ídolos e confiando no caminho que ele mesmo traçou para a nossa restauração.

Quem ama o Eterno, anda nos Seus caminhos, destrói os ídolos e prepara-se para herdar a terra que Ele prometeu. O tempo da teshuvah é agora, pois Ele já está à nossa frente. Caminhemos com zelo e temor!

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!

Hazak, hazak, v’nit’chazek! Seja forte, seja forte, e sejamos fortalecidos!


Moshê Ben Yosef


sábado, 15 de julho de 2023

Estudo da Parashá Matot e Masei - 2022-2023 - Na jornada com Yisrael

 


Estudos da Torá

Parashá nº 42 e 43 – Matôt/Mas’ei (Tribos/Partidas)

Bamidbar/Números Nm 30:1-32:42/33:1-36:13,

Haftará (Separação) Jr 1:1-2:3/2:4-28. 3:4, 4:1-2; e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Mt 5:33-37; Tg 4:1-12.


Tema: Na jornada com Yisrael


Essa semana falaremos sobre a jornada do povo de Yisrael pelo deserto antes de entrar em Kenaan, junto com os que se ligaram a eles na saída do Egito. E veremos a ligação profética que essa jornada tem com o caminho de teshuvah que os nazarenos trilham a partir dos ensinos do mestre Yeshua, o nosso Mashiach e irmão mais velho. Traremos através da visão do profeta Yirmeyahu/Jeremias a ligação profética do Yisrael do deserto com o Yisrael nazareno cumpridor de Torá que vem caminhando nessa jornada desde o 4º milênio.


A PARASHÁ DA SEMANA


Estudamos duas porções juntas essa semana, a porção Matôt e a Masei, e assim finalizaremos o livro de Bamidbar/Números.

A parashá Matôt (Tribos) inicia com um tratado a respeito das leis de nedarim (votos). Passando após para a descrição da batalha do povo de Israel contra os Midianitas e a consequente vitória, bem como a narrativa detalhada da distribuição dos despojos de guerra. Relata ainda o pedido das tribos de Reuven (Rubem) e Gad de assumir a possessão de sua herança daquele lado do rio, pois seria melhor para eles criarem seus gados. Após alguma discussão, Moshê concorda, mas apenas sob a condição de que ajudassem o restante da nação a conquistar toda a Terra, antes de retornarem para estabelecer-se no seu legado.

Já na parashá Mase’i (Partidas), inicia-se com um resumo de toda a rota viajada pelo povo de Israel durante os quarenta anos no deserto, desde a saída do Egito até a chegada às margens do Jordão. O Eterno ordena que retirem todos os cananitas da terra e dá os limites das fronteiras exatas da terra de Israel. Já que os levitas não receberiam uma porção como os demais, cidades especiais foram separadas para eles. Alguns destes locais serviriam também como cidades de refúgio para alguém que, sem intenção, tenha matado uma pessoa, e então fugiria para uma destas cidades para buscar abrigo e evitar a vingança de um parente próximo da vítima, lá permanecendo até a morte do atual Cohen Gadol. Determina várias instruções e parâmetros para as diversas situações em que seriam sujeitas acontecer assassinatos e encerra assim, com mais informações sobre as filhas de Tslofchad e as leis sobre herança.

Sendo assim, como sempre fazemos vamos pinçar um dos temas da parashá ou porção para comentar, e nesse estudo daremos ênfase especial à questão dos votos, e o que eles têm a ensinar para as nossas vidas a respeito de autoridade.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ


Apesar de termos estudado essa semana duas porções. Em nosso estudo de hoje, veremos parte da porção Masei, e vamos falar sobre as jornadas dos b’ney Yisrael/filhos de Yisrael pelo deserto, antes de tomarem posse da terra. Essa parashá faz um resumo dessa jornada. Vamos ao texto da Torá que tomaremos por base.


Estas são as jornadas dos filhos de Yisrael, que saíram da terra do Egito, segundo os seus exércitos, sob a direção de Moshê e Aharon. E escreveu Moshê as suas saídas, segundo as suas jornadas, conforme ao mandado do Eterno; e estas são as suas jornadas, segundo as suas saídas. Partiram, pois, de Ramessés no primeiro mês, no dia quinze do primeiro mês; no dia seguinte da páscoa saíram os filhos de Yisrael por alta mão, aos olhos de todos os egípcios, enquanto os egípcios enterravam os que o Eterno tinha ferido entre eles, a todo o primogênito, e havendo o Eterno executado juízos também contra os seus deuses” Nm 33:1-4.


Primeiramente, o que podemos perceber na leitura destes versos é que Moshê vai fazer uma retrospectiva das jornadas do povo de Yisrael. Mas note que o texto diz que o Eterno mandou ele escrever, então ele começa a recapitular a relembrar as partes da jornada.

Vejamos um pouco do conceito da palavra que dá nome a essa parashá. Mas antes, vou pedir para você guardar bem o a primeira frase do texto da Torá, pois retornaremos a ela no final do estudo.


O significado de Masei

O povo de Yisrael ao estudar essa parashá geralmente utilizam três traduções possíveis para a palavra מַסְעֵי – masei, usam “jornadas”, “partidas” e “caminhadas”. No entanto, a palavra masei é uma forma plural possessiva da raiz masah que traz os seguintes significados: saída, ponto de partida, viagem e marcha. Mas dependendo do contexto também pode significar: levantamento (de estacas ao desmontar tendas), ação de levantar acampamento, jornada, estação ou parada. Assim, o termo masei aqui nesta porção parece implicar não somente os lugares onde acamparam os filhos de Yisrael, mas também as jornadas que se fizeram entre esses lugares.

E por jornadas podemos refletir nas várias coisas que aconteceram no deserto por onde eles passaram. Cada coisa sejam trágicas com os teimosos e rebeldes ou abençoadoras com os fiéis e obedientes ao Eterno. Tudo fez parte da jornada, do aprendizado daquele povo ao sair do Egito, depois de tanto tempo de dura escravidão.

Segundo o site Shema Ysrael, outra informação importante, diz respeito aos que “saíram da terra do Egito, segundo seus exércitos”. Essas pessoas já saíram do Egito como guerreiros que viriam a compor os exércitos de Yisrael, apesar de nada saberem sobre guerra. Aqui a palavra “exércitos” vem do termo hebraico tsaba’ e significa “guerra, exército”. Significa um amplo emprego no sentido de prestar serviço. É usado também com respeito aos levitas e seu trabalho na tenda da congregação. Isso é interessante! Porque já sabemos que os levitas era quem verdadeiramente carregavam o título de filhos de Yisrael, já que seguiam desde o Egito em obediência ao Eterno, em detrimento de seus irmãos de outras tribos que muitos acabaram assimilando os costumes pecaminosos daquela terra. Um outro detalhe interessante é que a Torá considera que a caminhada do povo de Yisrael pelo deserto não foi um ato isolado, mas sim uma determinação do Eterno para que este povo fosse ali tratado! O deserto seria o tempo de tratamento e ensino para os que ainda não viviam de acordo com a vontade de HaShem. Inclusive, os “guerreiros” que são aqueles que serviriam para “defender” o povo, quando o Eterno ordenasse, e até mesmo os levitas eram considerados como “guerreiros” do Senhor – pelo menos a nível espiritual, ou seja, de vida de obediência – enquanto serviam no Tabernáculo! Ainda um outro aspecto interessante é que a roupa dos sacerdotes tem uma configuração semelhante à da armadura que Paulo descreve em Efésios 6, conforme já vimos em parashiot passadas, quando falamos das vestes sacerdotais.

Então, o entendimento que podemos tirar até aqui é que masei, jornadas, estágios, partida, viagem e todas as demais palavras que podem ser usadas aponta para um povo que se levanta em uma jornada ou viagem, prontos para enfrentar qualquer coisa nesse caminho pelo qual trilharão, verdadeiramente como um exército. Esses são representados pela casa de Yisrael que tem se levantado ao longo dos milênios desde Yeshua, e tem caminhado em direção à plena vontade de HaShem e para o cumprimento das promessas. Mas não pare por aqui. Ainda temos mais a aprender.


O Eterno manda escrever

E escreveu Moshê as suas saídas, segundo as suas jornadas, conforme ao mandado do Eterno; e estas são as suas jornadas, segundo as suas saídas. Nm 33:2


Neste verso Moshê registra ou escreve a respeito dessas jornadas pelo deserto e seus vários pontos e paradas, e cada uma delas carregadas de lembranças dos 40 anos de caminhada. As palavras “E escreveu” foram traduzidas do termo hebraico וַיִּכְתֹּב – vaykhetov, que provém das raízes כָּתַב - katav – escrever, registrar ou alistar e כִּתֵּב -kitov – talhar, inscrever ou gravar.

Podemos entender que talvez a intenção do Eterno ao mandar Moshê escrever, relatar ou registrar as jornadas seria realmente, fazer com que aqueles acontecimentos não se perdessem no passado, sendo esquecidos, registrando assim, para a posteridade, tamanha a sua importância! Um outro detalhe muito importante é que estas “jornadas” aconteciam conforme ao “mandado do Eterno”. Aqui a palavra que define o Eterno no texto em hebraico é o tetragrama, e isso significa que o Eterno estaria, mais uma vez, se tornando aquilo que seu povo necessitava d´Ele enquanto caminhava pelo deserto!

Outro detalhe é que o relato nos informa que tal registro vem desde a saída do Egito, quando o Eterno feriu aos egípcios e fez Yisrael passar pelo Mar dos Juncos. A palavra “ferir” em hebraico vem do termo naka e significa “ferir, golpear, bater, atingir, abater, matar”. Pelo contexto, sabemos que esta palavra nos fala sobre abater, matar, pois os egípcios tiveram de “enterrar” seus mortos após a passagem do povo por aquele local! E a palavra ainda nos fala sobre o juízo que o Senhor fez aos deuses egípcios. Uma coisa a notarmos aqui é que a palavra traduzida em muitas bíblias como Senhor, é no hebraico o tetragrama! Que trocamos por HaShem, Eterno entre outros. Isso significa que o Eterno se tornou aquilo que os deuses egípcios precisavam que Ele se tornasse para eles, ou seja, juízo! Inclusive, esta palavra “juízo” vem do termo hebraico shepet e significa “julgamento”; porém esta palavra aparece sempre no plural e tem o sentido de julgamento penal, condenação, ou seja, castigo! Os deuses egípcios foram julgados pelo Eterno a fim de serem punidos e nada puderam fazer contra Ele! Isso ocorreu para mostrar aos pagãos egípcios da época que as divindades que eles idolatravam nada eram. Com toda a força que seus adoradores achavam que eles tinham, não puderam impedir que a manifestação do Eterno fosse detida e não os derrotasse!

Com isso, deve ficar claro para nós, que é impossível deter as poderosas manifestações de juízos ou castigos que o Eterno lança contra os inimigos de seu povo. Pode até parecer por um momento que há vitória para eles ao fazerem o povo de HaShem sofrer, mas como diz o Salmo 92:6-7: O homem brutal não conhece, nem o louco entende isto. Quando o ímpio cresce como erva e quando florescem todos os que praticam a iniquidade, é que serão estruídos perpetuamente. Quando o Eterno determina que o juízo aconteça, ninguém poderá deter seu intento, e se não ocorre hoje, com certeza ocorrerá no futuro.

Podemos refletir um pouco sobre o fato de Moshê ter escrito as viagens dos filhos de Yisrael, seguindo a ordem do Eterno, e percebemos que ele cita com alguns detalhes esses lugares, mencionando os nomes, ora os nomes de antes deles passarem, ora os nomes que receberam ao passar. Mas isso demonstra que há vários propósitos para essas citações. Vejamos então, de acordo com o site Emunah a fé dos santos, alguns dos propósitos:

1 - Para mostrar às gerações futuras, que a saída do Egito de milhares de pessoas não é uma lenda. Há datas específicas de lugares conhecidos, mostrando que realmente estiveram ali. A maioria dos desertos descritos neste relato eram inóspitos. Um grande número de pessoas, homens, mulheres e crianças, jamais poderia ter sobrevivido em condições normais. Somente a intervenção divina podia suprir as suas necessidades naqueles lugares tão insalubres.

2 - Também, para dar a conhecer a bondade do Eterno. Muitos pensam que eles ficaram andando pelo deserto desordenadamente, mas nada é por acaso. Em 40 anos, viajaram 42 vezes. Como tal, não estiveram a vaguear de um lado para o outro a todo o momento, visto que em vários lugares ficaram acampados a longo prazo. Rashí menciona que só houve 20 viagens em 38 anos, porque se fizeram 14 viagens durante o primeiro ano, oito viagens depois da morte de Arão no quadragésimo ano. Além disso estiveram em Kadesh durante 19 anos. Durante o resto do tempo estiveram em 19 acampamentos durante 19 anos, que corresponde a uma média de uma viagem por ano.

3 - Outro propósito, que podemos observar, de acordo com o mencionado site, foram escritas para que os filhos de Yisrael soubesse que as suas peregrinações foram ditadas por um plano definido pelo Eterno.

4 - Ainda consideramos, que foram escritas para que nos lembremos da viagem no deserto. Quando vivemos na prosperidade, há que lembrar os momentos difíceis que nos levaram até ali. Assim nos manteremos humildes e gratos. Se não tivesse sido pela provisão dada pelo Eterno, nunca poderíamos ter chegado tão longe.

5 - E por último, devemos considerar como propósito, os apontamentos proféticos, que são os mistérios que o Eterno revela aos seus servos obedientes.

Com tudo o que vimos até aqui, podemos entender que HaShem se utiliza dessas informações de lugares e situações que aconteceram, para ensinar valiosas lições ao seu povo. E também com a onisciência do Eterno, que conhece tudo no passado, presente e futuro, pois para ele não existe a limitação do tempo, usou os erros do povo para deixar importantes ensinos aos descendentes dos filhos de Yisrael, e a todos os que se aproximam do Eterno.


O caminho de obediência

“Eis as jornadas dos filhos de Yisrael...eles viajaram...e eles acampara...e eles viajaram...e eles acamparam…”.


A Torá nos indica os locais em que os filhos de Yisrael acamparam no deserto. Está claramente descrito no início do texto desta parashá, conforme temos visto neste estudo. Agora podemos refletir mais um pouco e nos perguntar o seguinte: Por quê a Torá diz “...estas são as jornadas dos filhos de Yisrael…” e não estes são os acampamentos dos filhos de Yisrael…”?

É óbvio que para cada parada houve um jornada. Porém Moshê escolheu contar também os acampamentos. Além disso, se Moshê quer nos contar a viagem dos filhos de Yisrael pelo deserto, ele poderia ter dito “esta é a jornada, a viagem”, no singular, mas ele fala no plural, “estas são as jornadas”. Por quê ele escolhe falar no plural?

Aqui temos algo muito importante a aprender com a Torá. Vejamos duas coisas:

- “as jornadas” – um filho de Yisrael deve sempre seguir em frente. Quando cumprimos a vontade de D’us não devemos nunca no deter. É preciso que sempre progredir e crescer, tanto no entendimento da Torá, quanto no relacionamento com HaShem. A Torá não nos fala de uma só jornada, mas de numerosas. Existiram diversas situações no cotidiano da vida dos filhos de Yisrael durante esse tempo. Claro que nem todas foram escritas, apenas as mais importantes. Porém, todas elas fizeram parte das jornadas deles, pequenas e grandes situações, problemas, dificuldades, e muitas vitórias. O crescimento e elevação de muitos deles fizeram parte dessas jornadas. Da mesma forma podemos falar a respeito da nossa, uma vez que cada uma das coisas mencionadas na Torá são apontamentos proféticos que visam revelar o futuro, nós também fazemos parte disso, já que estamos no futuro daqueles israelitas, assim como, os que vierem depois de nós. Nossas jornadas na Teshuvah são muitas! Nosso dia a dia na caminhada, nossas lutas internas e externas, dificuldades enfrentadas pela falta de compreensão de parentes, amigos e alguns ex-irmãos de onde congregávamos. Tudo isso faz parte de nossas jornadas, e tudo tem nos ensinado, nos feito crescer e nos elevado diante do Eterno. Cada decisão que tomamos em direção ao Eterno representa um nível de crescimento nestas jornadas. Por isso, sempre e em qualquer situação é preciso avançar, seguir em frente.

- “as jornadas” – são um ensinamento para cada filho de Yisrael, e para cada judeu. Para aquele que está longe da Torá, que não cumpre as Mitsvot/mandamentos, ele não deve se desesperar. Mas também, não deve permanecer neste estado. “Masei - as jornadas” vem ensinar que ele deve progredir, avançar cada vez mais, conforme disse acima. Porém, principalmente para o que está longe da Torá, que precisa se decidir e começar a fazer teshuvah o quanto antes. Começar a trilhar o caminho agora, enquanto dá tempo de se arrepender e começar a se elevar. E para aquele que respeita a vontade de HaShem, que já cumpre os mandamentos que lhe são cabíveis, que não tem costume de pecar, ou seja, o pecado é apenas um acidente em sua vida. Para aquele que ajuda outros a se aproximarem da Torá, ele não tem o direito de se deter, precisa realmente seguir em frente. Uma vez que está sendo observado por outros. “Massei - as jornadas” vem nos ensinar que precisamos avançar sempre! Para fazer a vontade do Eterno, não devemos nunca contentar-nos com o que já fizemos. Não temos o direito de achar que pelo fato de já obedecer, podemos nos tranquilizar e estabilizar, estagnar. Isso seria uma séria transgressão! Não podemos parar em uma zona de conforto. É preciso praticar os mandamentos apendidos todos os dias, acrescentar boas ações e continuar progredindo sempre, melhorando nossa obediência na forma de cumprir, por exemplo, o shabat, as moedim, olhar se as mezuzot de minhas portas estão com bom aspecto, se estou usando os tsitsiot como deveria e se estão em bom estado. Aumentar nosso critério na observação dos alimentos que compramos, e como estamos vivendo em casa com a família e no nosso trabalho, dentre tantas outras coisas. Avançar no caminho da teshuvah cumprindo a Torá da forma que o mashiach Yeshua ensinou deve ser nosso propósito, a fim de aguardarmos a redenção e retorno de Yeshua para acordar os da primeira ressurreição.

Essas jornadas que vemos nessa parashá Masei, nos explicam ainda que para atravessar o “exílio”, como os judeus dizem por estarem longe da terra, precisamos imitar alguns comportamentos dos filhos de Yisrael que estavam no deserto ao se dirigirem do Egito a erets/terras Yisrael. Vemos na Torá que eles atravessaram por 42 jornadas ou etapas. Da mesma forma todo judeu e remanescente deve atravessar este exílio por 42 etapas a serem superadas, a fim de conseguirem entrar em erets Yisrael quando se der o retorno de Mashiach. Note que no deserto os dois últimos preparativos para entrarem nas terras de Yisrael foram a casherização dos utensílios e a pureza pessoal. O mesmo deve acontecer conosco na atualidade. Um esforço particular cada vez maior é necessário para tudo que se refere à pureza e santificação de nossas vidas, como nossa alimentação e à pureza familiar. Isso quer dizer, que tudo o que comemos, seja literalmente, no sentido de alimentos, ou no sentido metafórico, em se tratando do que aprendemos, deve ser puro. Precisa passar pelo crivo da Torá. Em relação à pureza familiar, devemos nos esforçar juntos aos da nossa casa para obedecer aos mandamentos, e levar isso à outras famílias. Mas se você ainda está só nas jornadas, se mantenha firme, pois sua vida de justiça servirá de esteio e de amparo para a revelação da verdade para seus entes queridos. Continue caminhando e logo o Eterno providenciará essa purificação para os seus. E se de todo isso não ocorrer nesse período de nossas jornadas, no futuro reino do messias eles terão a oportunidade de aprender a verdade, através de toda sua obediência de hoje. Eis aí, a importância de se obedecer aos mandamentos hoje, e que muitos não entendem. Porém, a existência desses mandamentos nos permitem nos preparar para a entrada nas terras de Yisrael, quando a libertação plena prometida se cumprir com o retorno de nosso mashiach Yeshua.


Os segredos por trás das jornadas dos filhos de Yisrael

Antes de concluir nosso estudo, vejamos ainda mais algumas coisas importantes para nossas jornadas. Estamos aprendendo vários apontamentos nessa parashá que indicam nossa caminhada com o Eterno. Mas quero ainda, mostrar um segredo dentro do texto em hebraico que indica de forma clara o caminho dos remanescentes descritos em código.


Estas são as jornadas que os Filhos de Israel... Nm 33:1


Por que foi necessário repetir na Torá a jornada de Yisrael, aqui? O rabino Baal Shem Tov explica que essa jornada física pelo deserto é um reflexo da jornada espiritual, ou seja, das jornadas proféticas ou de obediência à Torá, que cada pessoa irá encontrar desde o dia que nascem até sua morte.

O Midrash explica que neste discurso de adeus de Moshé para o povo de Israel, que continuará no próximo sêfer/livro, ele lembrou os eventos que eles passaram juntos. É também para nos lembrar que cada lugar e situação nos deixam uma marca, até mesmo se a marca for invisível. Também, nós tentamos deixar marcas nos lugares que visitamos.

Mas o Eterno deixou marcas para que pudéssemos perceber essas jornadas e aprender com elas, conforme viemos aprendendo hoje. E nessa frase inicial da parashá Masei, há um código escondido que veremos agora.

A frase “Estas são as jornadas que os filhos de Yisrael...” aqui esconde uma pista para Galut /Exílio que os filhos de Israel iriam passar no futuro, observe o texto em hebraico abaixo:


אֵ֜לֶּה מַסְעֵ֣י בְנֵֽי־יִשְׂרָאֵ֗ל

Eleh masei bney Yisrael


Essas letras em vermelho iniciando as palavras apontam para onde os filhos de Yisrael no decorrer de sua história seriam levados ao exílio. Vejamos:

- אֵ֜לֶּה – Eleh – Estas – A palavra em hebraico mostra o exílio para Edom;

- מַסְעֵ֣י - masei – jornadas – A palavra mostra o exílio para Midiã;

- בְנֵֽי – bney – A palavra mostra o exílio para Bavel;

- Yisrael – Yon - A palavra mostra o exílio para a Grécia, ou seja, para as nações. Onde muitos da casa de Yisrael e de Yehudah estão ainda hoje.

Assim, concluindo nosso estudo vimos que o Eterno tem estabelecido em sua Palavra os apontamentos dentro do tempo e das jornadas do povo para que em cada geração os remanescentes fiéis possam descobrir e entender como caminhar em meio aos desertos e exílios.

Que possamos ao compreender essas coisas, que o Eterno tem nos chamado e devemos a cada dia trilhar essas jornadas com os filhos de Yisrael e como filhos de Yisrael.

Hazak, hazak, v’nit’chazek! Seja forte, seja forte, e sejamos fortalecidos!


Que HaShem lhes abençoe!


Pr./Rav Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)