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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Estudo da Parashá Devarim (Palavras)

 


Estudos da Torá


Parashá nº 44 – Devarim (Palavras)

Devarim/Deuteronômio Dt 1:1-3:22,

Haftará (Separação) Is 1:1-27; e

B’rit Hadashah (Nova Aliança) Jo 4:1-5:47.


1 - INTRODUÇÃO

A parashá desta semana aborda o início do livro de Devarim, onde Moshê faz os relatos sobre a história do povo de Israel, enquanto peregrinavam no deserto. Este é o quinto e último livro da Torá, e ele é conhecido na literatura rabínica como Mishnê Torá, ou seja, repetição da Torá. Falaremos sobre isso mais a frente. O conteúdo desse livro foi falado por Moshê aos filhos de Israel durante as cinco semanas finais de sua vida, enquanto o povo se preparava para entrar em erets Israel (terra de Israel). Nele, Moshê explica e comenta muitas das mitsvot outorgadas previamente, e que já vimos em estudos passados e outras que aparecem pela primeira vez. Ele também os adverte continuamente a permanecer diligentes e fiéis às leis e ensinamentos de D’us.

Este relato faz uma retrospectiva dos fatos que ocorreram desde o momento em que Israel vê a derrota e morte dos egípcios no Mar de Juncos (Mar Vermelho), até o fim dos 40 anos que viveram no deserto.

A Parashat Devarim começa com a velada censura de Moshê, na qual faz referência aos numerosos pecados e rebeliões dos quarenta anos anteriores. Prossegue então relatando vários dos incidentes mais significativos que ocorreram com o povo judeu no deserto, lançando uma luz sobre as narrativas prévias da Torá.

Moshê fala da malograda missão dos espiões: dez dos doze homens enviados para vigiar a terra tinham voltado com um relatório negativo, e devido à falta de fé do povo, D’us condenou toda a nação a vagar por quarenta anos no deserto, tempo durante o qual a geração do êxodo morreu. Moshê então avança para discutir a conquista dos Filhos de Israel da margem leste do Rio Jordão. A Porção da Torá conclui com palavras de encorajamento para o sucessor de Moshê, Yehoshua. Muito há que ser lembrado, aprendido e observado por cada um de nós ao estudar essa porção.


2 - ESTUDO DAS PALAVRAS

“Estas são as palavras que falou Moshê a todo o Israel, de além do Jordão-Éver Haiarden, (a respeito) do deserto, da planície, de defronte do Mar Vermelho, entre Parán e entre Tófel, Laban, Chatserót e Di Zahab.” Dt 1:1


Sublinhei de propósito os termos “Estas são as palavras…”, pois há algo sobre o nome do livro aqui. Veja que este é o quinto e último livro da Torá, também conhecida como Pentateuco, mas que em hebraico é “Devarim” significando “palavras”, pois o livro começa da seguinte forma:

אלה הדברים – “Eleh Hadevarim” – “Estas são as palavras”.

Na Septuaginta este livro foi chamado de “Deuteronômio”, este termo vem do grego “deuteron+nómos” que significa “Segunda Lei” ou “repetição da Lei”. Conforme lemos na introdução deste livro na Torá da Editora Sêfer, do ponto de vista legal, moral e religioso, o livro de Devarim é considerado por muitos estudiosos das Escrituras como o livro mais importante de toda a Torá ou Pentateuco. Por seu profundo sentido humano, pode comparar-se coma melhor produção profética.

Maimônides, um grande rabino, também conhecia este livro como משני תורה(Mishnê Torah) – Repetição da Torá), por servir de influência para a criação das leis judaicas conhecidas como “halachá” הלכה(o andar, o caminhar).

Conforme mencionei antes, o livro que começamos a estudar, em hebraico é chamado: דברים-Devarim – Palavras. E assim como em todos os livros anteriores, a primeira porção recebe o nome do livro. Conforme dissemos no início dos estudos da Torá desse ano, isso ocorre por se utilizar uma das primeiras palavras que aparecem no texto em hebraico.

As palavras de Moshê


Vamos observar o texto original que inicia essa porção, para que possamos entender algumas coisas a respeito dessa parashá e deste livro em si.

אלה הדברים אשר דבר משה אל-כל ישראל

Elêh hadevarim asher diber Moshê El kol Israel

Estas são as palavras que falou Moshê a todo Israel.

De acordo com essa tradução, podemos seguir para o entendimento dos fatos que o texto nos descreve.

Em primeiro lugar devemos compreender que, assim como os outros livros, Moshê também escreveu esse, como está escrito em Dt 31:24:


“Tendo Moshê acabado de escrever, integralmente, as palavras desta Torá num livro.”


Percebemos com isso que Devarim/Deuteronômio é uma reafirmação daquela Torá que já havia sido dada no Monte Sinai e nas planícies de Moabe. Este é diferente dos outros quatro livros da Torá, porque não reorganiza as palavras ditadas diretamente pelo Eterno, mas sim as que foram transmitidas por meio de Moshê, o maior profeta depois de Yeshua, conforme Hebreus 3:3-6.


“Yeshua, porém, merece mais honra que Moshê, da mesma forma que o construtor de uma casa tem mais honra do que a própria casa. Pois toda casa é construída por alguém, mas D’us construiu todas as coisas. Moshê foi fiel na casa de D’us, como o servo dá testemunho das coisas que D’us mais tarde tornaria públicas. Entretanto, o Messias, como Filho, foi fiel sobre a casa de D’us. E nós somos essa casa pertencente a ele, contanto que sustentemos com firmeza a coragem e a confiança inspiradas na esperança que temos.”


Sendo assim, este livro constitui uma repetição e explicação, através do profeta, da Torá que já tinha sido dada e entregue uma vez desde o céu. Por isso o livro começa dizendo: “São estas as palavras que Moshê falou a todo o Israel...”.

Isto não significa que não fossem as palavras do Eterno, mas sim que em vez de ter ditado as palavras diretamente, agora são filtradas pelo instrumento humano que havia chegado ao maior nível de profecia que existe. São as palavras do Eterno através de Moshê, como podemos ler no verso 3:


“Falou Moshê aos filhos de Israel, segundo tudo o que o SENHOR lhe mandara a respeito deles”


Contudo, não são palavras ditadas diretamente pelo Eterno, pois a base para as palavras do quinto livro de Moshê já está estabelecida nos primeiros livros.

É importante lembrar que o fundamento de uma casa é aquele que sustenta toda a casa. Então, olhando por esse prisma os quatro primeiros livros da Torá foram completamente ditados letra por letra a Moisés e escritos com exatidão para serem o fundamento para este quinto e último livro. E sendo assim, os cinco livros, denominados de Torá do Eterno (que muitas vezes são chamados de Torá de Moisés como um substantivo, uma vez que ele foi o canal para que o povo pudesse recebê-la) são por sua vez, o fundamento para o restante das Escrituras. Os livros proféticos que logo foram acrescentados, começando com o livro de Josué, não mudam nada do fundamento, nem acrescentam nada ao fundamento, como está escrito em Dt 4:2:


“Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos de HaShem, vosso D’us, que eu vos mando”


Veja também Dt 12:32:


“Apliquem-se a fazer tudo o que eu lhes ordeno; não lhe acrescentem nem lhe tirem coisa alguma.”


Por esse motivo podemos entender que os livros dos profetas anteriores (Josué até 2 Reis) e dos profetas posteriores (Isaías até Malaquias), os escritos anteriores (Salmos até 2 Crônicas) e os Escritos posteriores (Mateus até Revelação), não podem acrescentar nada às palavras da Torá que HaShem deu a Moshê, nem tirar nada dela.

O fundamento da revelação Escrita foi dado um vez, e os demais livros não podem tirar nada ou acrescentar a esse fundamento. Todos os demais livros inspirados divinamente, vão explicando e trazendo luz sobre o que já estava escrito no fundamento, que é a Torá, conforme Ef 2:20:


“edificados sobre o fundamento dos profetas e apóstolos, tendo Yeshua HaMashiach como pedras angular.”


Com isso, deve-se ter cuidado com conceitos novos que supostamente são tirados de alguma parte das Escrituras, que não são respaldados pela Torá, pois toda revelação que veio depois de Moshê, deve estar em conformidade com a Torá, de acordo com o que lemos em Jo 5:46:


“Porque, se, de fato, crêsseis em Moshê, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito.”


Veja Romanos 3:21:


“Mas agora, além da Torá (escrita), se manifestou a justiça de D’us (a Torá Viva – o Messias) testemunhada pela lei e pelos profetas;” Grifo meu.

Também Atos 26:22:


“Mas, alcançando socorro de Deus, permaneço até ao dia de hoje, dando testemunho, tanto a pequenos como aos grandes, nada dizendo, senão o que os profetas e Moisés disseram haver de acontecer”.


No estudo desta parashá do site “emunah a fé dos santos”, o autor diz que em uma carta que líderes messiânicos-israelitas na Guatemala enviaram às suas comunidades, consta o seguinte:


“Consideramos que os livros que constam no Tanach (AT), assim como a Brit Hadashá (NT), foram escritos sob autoridade divina. Estes livros foram entregues a Israel para todo o mundo. Reconhecemos que a Torá de Moisés é o fundamento da fé e a máxima autoridade das Escrituras. O resto das Escrituras – os Profetas e os Escritos, incluindo a Brit Hadashá – não contradizem, acrescentam, ou retiram à Torá de Moisés, mas sim desenvolvem-na, explicando e revelando os mistérios que foram dados uma vez, para sempre”

O livro de Devarim/Deuteronômio, de acordo com alguns rabinos divide-se em três partes que correspondem aos três livros Êxodo, Levítico e Números, e é por esse motivo que é chamado de Mishné Torá (repetição da Torá). As três partes são as seguintes:

- 1:1 - 5:5 Moral e Advertências;

- 5:6 - 27:8 Leis diversas; e

- 27:9 – 34:12 Bênção e maldição.


Para outros estudiosos o livro se divide em quatro partes, de acordo com a Torá da Sêfer, a primeira e a última partes formam o marco de Devarim, restando a segunda e a terceira partes como seu núcleo fundamental. Seu conteúdo é quase que exclusivamente legislativo e é apresentado em forma de discursos.

Segundo o estudo dessa parashá no site Emunah a fé dos santos, ao comparar o livro de Devarim com os antigos documentos de pacto, que foram encontrados pelos arqueólogos, dos heteus e outros povos orientais do período de 1500 a 1300 a. E.C., que, entre outras coisas, regulavam a relação entre os reis e os seus súditos, constata-se uma estrutura muito similar, com introdução, reconto histórico, condições do pacto, o próprio documento do pacto, bênçãos, maldições, conclusão e duração do documento.

Com isso podemos perceber que dentro de um contexto de literatura, o livro de Devarim, segue o mesmo padrão de escrita da época.


“Estas são as palavras que falou Moshê a todo o Israel, de além do Jordão-Éver Haiarden, (a respeito) do deserto, da planície, de defronte do Mar Vermelho, entre Parán e entre Tófel, Laban, Chatserót e Di Zahab.” Dt 1:1


Falando agora sobre o verso 1, vemos que os lugares ali mencionados são os mesmos lugares onde os filhos de Israel se rebelaram contra o Eterno durante a viagem.

Outro detalhe importante, nesta porção é que neste período os israelitas já estavam subjugando seus inimigos de uma forma muito fácil. E assim, aprendemos que enquanto estamos sendo provados pelo Eterno em nossos desertos, com certeza veremos os milagres de D’us, mas também teremos vitórias sobre os nossos inimigos e sobre todos aqueles que se levantam contra nós. Porém, isso só ocorrerá se houver obediência de nossa parte, mesmo em meio aos desertos e provações de nossas vidas.

“Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que HaShem lhe mandara a respeito deles,” Dt 1:3


Moshê falou os seus três discursos, que constituem todo este livro, durante 36 dias, segundo a maioria dos rabinos e estudiosos, para logo morrer e ser sepultado no sétimo dia do décimo segundo mês. Este texto nos ensina que Moshê falou estas palavras, assim como todas as outras, fundamentando-se na revelação que o Eterno lhe dera para transmitir aos filhos de Israel. Segundo o mencionado estudo, Moshê é um bom exemplo para todos os pregadores da Palavra do Eterno.

“Além do Jordão, na terra de Moabe, encarregou-se Moisés de explicar esta lei, dizendo;” Dt 1:5


A palavra hebraica que foi traduzida como “explicar” é “baar” que significa “explicar”, “esclarecer”, “comentar”, “expôr”.

Assim, podemos concluir que a Torá já tinha sido dada e que o que agora vem é uma explicação sobre esta. Como esta era uma nova geração, e os antigos já haviam perecido no deserto, agora era necessário explicar para eles o que o Eterno havia dito e relembrado o que aconteceu. Portanto, numa forma estrita, podemos dizer que a Torá são os quatro primeiros livros de Moisés, e o que vem depois são explicações, aplicações e comentários do que já fora dado desde o céu. Como já vimos antes, a base de toda a revelação divina escrita, está nos primeiros quatro livros de Moisés, que são o fundamento, juntamente com o toque final do fundamento, que é o livro de Devarim/Deuteronômio, que contém vários mandamentos.

Com isso podemos e devemos compreender o que Yeshua queria dizer, quando aparentemente falou sobre ter dado um “novo” mandamento, conforme João 13:34:


“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros”


O fato é que Yeshua não acrescenta qualquer mandamento, porque já havia sido dito anteriormente “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Um dos mandamentos, um dos pilares dos mandamentos, é renovado para que seja como novo. O que é introduzido pelo Messias é a verdadeira aplicação do mandamento, tomando a vida justa dele, como ele mesmo disse: “como eu amei”. Ele dá nova vida a um mandamento antigo, e dá a aplicação perfeita a esse mandamento de uma nova forma. O mesmo princípio encontra-se em 1 João 2:7-8 onde está escrito:


“Amados, não vos escrevo mandamento novo, senão mandamento antigo, o qual, desde o princípio, tivestes. Esse mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha”.


Não se trata de uma nova Torá ou de um novo mandamento, mas sim, daquilo que os filhos de Israel ouviram desde o Sinai, e que tinham vindo a ouvir desde o princípio, desde o Gênesis.

Por isso, devemos ter em mente que acima de qualquer coisa devemos analisar, estudar e praticar a Torá. Assim como Moshê ensinou, os profetas falaram e anunciaram, Yeshua viveu e ensinou e os apóstolos. Cada um de nós deve olhar para o livro de Devarim com o entendimento de que o servo do Eterno Moshê havia dedicado toda a sua vida ao serviço de HaShem e ao povo escolhido, e agora às vésperas de sua morte resolve relembrar ao povo todas as palavras de D’us, ensinando-os e aconselhando-os. Que belo exemplo de servo! Vimos isso também nos profetas, em Yeshua principalmente, e nos apóstolos. E deve haver o mesmo sentimento e desejo em nós.

Que o Eterno lhes abençoe!


Pr. Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yossef)


Bibliografia:


- Torá - Lei de Moisés. Editora Sefer

- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.

- http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/

- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/

- http://shemaysrael.com/parasha-devarim/

-http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/44_-_devarim.pdf

- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/822833/jewish/Resumo-da-Parash.htm

- http://talmidd.blogspot.com/2011/08/parasha-devarim-deut-11-322.html

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Estudo da Parashá Pinchás (Fineias)


Estudos da Torá

Parashá nº 41 – Pinchás (Finéias)
Bamidbar/Números Nm 25:10-29:40,
Haftará (Separação) 1Rs 18:46-19:21; e
B’rit Hadashah (Nova Aliança) Lc 23:1-24:53

1 - INTRODUÇÃO
                  
               A porção passada nos mostrou que Bilam, um profeta, foi solicitado a amaldiçoar o povo de Israel, porém o Eterno não permitiu, e todas as vezes que ele ia proferir uma maldição, de sua boca saíam bençãos para o povo de Adonai. E no final, com o propósito de ficar com os presentes que havia recebido, ensinou a Balák a maneira de fazer o povo se afastar das Leis e consequentemente do Eterno, levando-os a uma praga que matara vinte e quatro mil pessoas, conforme lemos em Nm 25:1-9, o que ficou conhecido como a “Doutrina de Balaão”.
               Nessa porção que fala sobre muitos assuntos, iremos focar em um deles, trataremos a respeito de Pinchás (Finéias), o homem cujo nome da título a essa Parashá (porção). Veremos qual sua atitude em relação à transgressão (pecado) do povo e como o Eterno viu tudo isso.

2 - ESTUDO DAS PALAVRAS
                  
               Quase quarenta anos havia se passado desde que o povo murmurara e havia sido punido pelo Eterno a viverem no deserto até que todos os murmuradores tivessem caído. Próximo estavam agora de entrar na terra, quando se aproximam de Moabe e acontece o que estudamos na porção passada, no caso de Balák e Bilam, que tentaram amaldiçoar o povo. Mas como foi visto, essa estratégia não deu certo, e Bilam ensinou uma forma de fazer o povo cair.
               A tradição oral dos judeus, na “Mishná”, diz que Bilam não desiste por ter perdido a guerra ao tentar amaldiçoar Israel, e diz: “já que Israel não pode ser amaldiçoado de fora, vamos amaldiçoá-lo de dentro.” (Sanhedrim 81b-82b).
               Isso combina com o que está registrado em Nm 31:16-17. Ele fez com que as mulheres de Moab/Midian seduzissem os Israelitas sexualmente, levando-os posteriormente a adorarem à Baal-Peor. De acordo com fontes rabínicas, essa divindade adorada no Monte Peor era cultuada expondo-se as partes do corpo que geralmente ficam tampadas, ou seja, ficavam nus. Era um culto à base de sexo, luxúria, sensualidade, lascívia, mas também à base de muita comida consagrada. Naquela época muitas divindades eram adoradas em montes, por isso o salmista se pergunta, “Elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro?” (Sl 121:1) e também o profeta Isaías nos diz que nos últimos dias o Monte Sião, o monte da Casa de D’us será o principal (Is 2:2), pois em muitos montes se adoravam a esses baalins.
               A estratégia de Bilam, uma vez que o povo era guardado por Elohim, foi fazer o povo se contaminar com a idolatria (Nm 25:2), pois ele bem sabia que o Eterno odeia idolatria, a tal ponto de considerar isso um adultério, uma vez que considera Israel sua noiva e esposa, conforme podemos ver em Is 62:5, Jr 2:2 e Os 2:2, e a Torá é sua Ketubá (contrato de casamento) que será totalmente formalizado com a vinda do esposo, conforme Mt 25:6. E por considerar Israel, o povo escolhido, como sua noiva, ele diz que tem ciúmes. Falaremos sobre isso mais adiante nesse estudo.
               A idolatria não é apenas se dobrar diante de um ídolo ou imagem, mas também comer coisas sacrificadas, conforme lemos em Sl 141:4; Pv 23:1; 1Co 10:20-21. Também é idolatria dar ouvidos à vozes que se contrariam às Escrituras, como hoje muitos estão se contaminando com o que alguns dizem em detrimento do que a Palavra de Adonai nos instrui.
               Essa parashá inicia com o Eterno concedendo a benção de Shalom (paz) e sacerdócio a Pinchás, neto de Aharon.

Quem era Pinchás e o que ele fez?
               “Finéias, filho de Eleazar, neto do sacerdote Arão, desviou a minha ira de sobre os israelitas, pois foi zeloso, com o mesmo zelo que tenho por eles, para que em meu zelo eu não os consumisse.”Nm 25:11

Quem era Pinchás?
               Esse é o texto mais comum encontrado em quase todas as Bíblias. E ele diz que Pinchás (Finéias) era filho de Eleazar, neto de Aharon, o sacerdote. E olhando assim parece simples considerar que ele já fosse um dos sacerdotes, pois vemos que o Eterno havia concedido o sacerdócio a Aharon e seus filhos Eleazar e Itamar (Nm 3:3-4). No entanto, a mãe de Pinchás era midianita filha de Yitro (Jetro), conforme lemos em Ex 6:25.
“Eleazar, filho de Arão, tomou para si por mulher uma das filhas de Putiel, e ela lhe deu a Fineias. São estes os chefes de suas famílias, segundo os seus clãs.”
               Putiel era mais uma forma como Jetro era conhecido, assim como Reuel e Hobabe (Ex 2:18; 3:1; 4:18; 18:1,12 e Nm 10:29). O comentário de rodapé da Torá diz o seguinte sobre este homem:
“O sogro de Moisés tinha sete nomes: Reuel, Iéter, Yitró, Chobab, Chéber, Keni e Putiel, mas o seu nome original era Iéter. Depois de se converter ao judaísmo chamou-se Yitró (Jetró). Os outros nomes são qualificativos atribuídos pelas sua qualidades, como por exemplo: Reuel, porque se tornou amigo de Deus; Chobab, porque amou a Torá, etc. … a Torá o chamou de Chobab, filho de Reuel, pois o pai de Jetró chamava-se também Reuel.” (Torá, Editora Sefer; pág. 417)

               O sogro de Moisés fora um sacerdote de Midian quando o conheceu e ele se casou com sua filha mais velha. Agora Eleazar toma outra de suas filhas.
               Então, Pinchás era neto de Arão, um sacerdote, mas também era neto de Jetro, um ex-sacerdote pagão. Então com certeza ele não deveria ser bem aceito no meio do povo, pois não era totalmente israelita. As pessoa poderiam dizer: “Jetro costumava ser um sacerdote de ídolos antes de tornar-se parte do nosso povo.” Ele foi desprezado por causa de sua origem.
               Pinchás também pode ser lido como Pinechás devido sua forma hebraica פִּינְחָס .

O que Pinchás fez?
               “Um israelita trouxe para casa uma mulher midianita, na presença de Moisés e de toda a comunidade de Israel, que choravam à entrada da Tenda do Encontro. Quando Finéias, filho de Eleazar, neto do sacerdote Arão, viu isso, apanhou uma lança, seguiu o israelita até o interior da tenda e atravessou os dois com a lança; atravessou o corpo do israelita e o da mulher. Então cessou a praga contra os israelitas. Mas os que morreram por causa da praga foram vinte e quatro mil.” Nm 25:6-9
               “Finéias, filho de Eleazar, neto do sacerdote Arão, desviou a minha ira de sobre os israelitas, pois foi zeloso, com o mesmo zelo que tenho por eles, para que em meu zelo eu não os consumisse.”Nm 25:11
               Pinchás tinha pegado uma lança e com ela matou um israelita da tribo de Rúbem chamado Zinri, e uma princesa midianita de nome Cozbi, que segundo alguns comentaristas judeus, andaram no meio de todo o povo de mãos dadas e foram para a tenda da congregação para praticarem relação sexual. Ele agiu como um agente de YHWH, com autoridade delegada, obedecendo ao mandamento de 25:4. O Zelo de Pinchás recebeu elogio por parte de Adonai, e lhe rendeu uma recompensa com uma aliança especial entre ele e seus descendentes. Se Pinchás não tivesse feito o que fez, a ira de Adonai teria destruído todos os filhos de Israel. O Ato de Pinchás gerou remissão para o povo.
O zelo de Adonai
               “Finéias, filho de Eleazar, neto do sacerdote Arão, desviou a minha ira de sobre os israelitas, pois foi zeloso, com o mesmo zelo que tenho por eles, para que em meu zelo eu não os consumisse.”Nm 25:11
               Pinchás agiu com zelo, o mesmo zelo que o Eterno tem pelos filhos de Israel. O termo que foi traduzido para zelo em nossas Bíblias, originalmente em hebraico vem da raiz “qaná” significa “ciumento”. A palavra no texto em estudo é “beqaneo” uma variação de “qaná”. Talvez você se pergunte: Mas ciúmes é um sentimento humano, como D’us pode ter ciúmes? Leia os seguintes textos: Ex 20:1-5; Dt 32:15-16, 21; Zc 8:2; Sl 78:58; Jo 2:17; 2Co 11:2; Rm 10:2; Gl 1:14 e Tg 4:5 entre outros.
               O Eterno se utiliza desse termo para que possamos entender, caso contrário não poderíamos entender, como Ele quer que sejamos fiéis. E Pinchás agiu com o ciúmes de D’us, não foi com o dele próprio. Se ele agisse com o zelo/ciúmes dele não teria expiado o pecado, pois somos falhos.
               Pense no que você faria no lugar de Pinchás? Se afastaria daquela congregação perversa e pecadora? Formaria um novo povo só com pessoas santas? Qual seria a sua reação?
               Devemos ser contaminados com o zelo/ciúmes de D’us e não com o nosso. Precisamos gerar uma geração de Finéias, que se preocupa com o zelo de D’us (Rm 12)


Bibliografia:

- Torá - Lei de Moisés. Editora Sefer
- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.
- http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/
- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/
- http://shemaysrael.com/parasha-pinehas/
- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/%D7%A4%D7%A0%D7%97%D7%A1-pinchas-numero2510-301-29-40/
- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/41-_pinchas.pdf
- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/921292/jewish/Dus-Recompensa-Pinechas.htm

terça-feira, 2 de julho de 2019

Estamos sendo sal?

       Leia o texto abaixo:

"Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens." (Mt 5.13)

       No capítulo 5 de Mattityahu (Mateus) vemos Yeshua vendo uma grande multidão que o estava seguindo, então ele decidi subir um monte e lá em cima assentou-se, e junto dele assentaram-se os seus discípulos. Podemos entender que as pessoas que compunham a multidão que o seguia devem ter se assentado monte abaixo também. E neste contexto o mestre começa a ensiná-los, aproveitando a acústica do lugar, pois do alto do monte sua vós se propagaria para as várias direções. No entanto, seu ensino não era comum, nem era o que muitos esperavam naquela época atribulada de domínio romano. Seu ensino trazia algo que há muito não se via por aqueles lados, o ensino verdadeiro da Torá. Uma Torá sem as "leis de cerca"(leis que protegiam as leis da Torá) que alguns hipócritas haviam criado tempos atrás, com a intenção de proteger a Torá. 

        O ensino de Yeshua trazia uma verdade transparente e muito simples de entender, pois era a verdade que o povo havia ouvido no deserto pela boca de Moshê (Moisés) quando transmitia a vontade de Adonai. 

         Yeshua começa a ensinar a Torá e os profetas, que eram as Escrituras que ele tinha em sua época. E começa com princípios constantes na Lei de D'us para os homens. Ele começa com as "Bem-aventuranças" e continua com uma série de princípios fundamentais para todo aquele que se diz seguidor do Messias Yeshua. São princípios que devem nortear a vida daquele que se aproxima do povo de D'us, o povo de Israel. Ele fala sobre perseverança, perseguição, humildade, justiça, misericórdia, pureza, pacificação, e tantas outras coisas.

         Porém, quando chega no verso 13,  que transcrevemos acima, ele continua o discurso, mas agora sobre uma nova roupagem, ele começa a usar algumas figuras, e especificamente neste versos, fala sobre o sal.      
               
         Yeshua falou sobre o sabor do sal e sua importância em se manter puro, para que não perca seu valor, caso contrário será pisado pelos homens. Vejamos então o que podemos aprender com esse ensino do Messias Yeshua.

1. A IMPORTÂNCIA DO SAL NAS ESCRITURAS
    Encontramos em um subsídio na Bíblia do Pregador Pentecostal, página 1393, o seguinte comentário: 

    "Reconhecendo a importância do sal para dar sabor aos alimentos, o patriarca Jó faz a seguinte pergunta: "comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá gosto na clara do ovo?" (Jó 6:6)."

       Na Torá, encontramos Moshê falando da importância do sal nas ofertas em Levíticos 2:13.

      Na época de Yeshua o sal era muito valioso, tanto que os soldados romanos frequentemente recebiam seus soldos em sal, de onde vem o nome salário. Este mineral era usado também como condimento, como conservante, como fertilizante e muitas vezes até mesmo como remédio. Este mesmo elemento tão útil era facilmente inutilizado, pois se deteriorava sob o calor forte, ou sobre a umidade. E ele queria nos mostrar com essa pequena comparação que o Reino dos Céus é expressado por meio dos indivíduos, pois cada um dos que são desse reino deve expressá-lo em sua vida e atitudes, devem se comprometer com as normas do Reino, que são exatamente o que ele tinha começado a falar anteriormente. 
  
         Então, entre outras coisas podemos destacar que o sal tinha sua importância como valor monetário, mas também era muito importante em seu valor como conservador de alimentos, pois sabemos que o sal é utilizado até hoje para conservar alimentos. 

          Sendo assim, reconhecendo que o sal é importante, e que nosso mestre Yeshua queria que aprendêssemos suas características para que pudéssemos viver neste mundo fazendo a diferença, precisamos aprender a ser sal.

2. COMO SER SAL NO MUNDO?
     Para sermos sal neste mundo devemos seguir principalmente os princípios estabelecidos pelas Escrituras. Sendo assim, vejamos como a Palavra de D'us nos instrui a ser.

a) Devemos ser testemunhas fiéis (Mc 9:50)
"O sal é bom, mas se o sal perder o seu sabor, como você vai fazer isso salgar? Tende sal em vós mesmos, isso é, estejam em paz uns com os outros."
Estar em paz um com o outro pode ser complicado, mas que valor tem nosso testemunho para o mundo, se estamos sempre discutindo entre nós mesmos ou enfatizando as nossas diferenças?

b) Devemos saber usar a nossa fala (Cl 4.6)
"Que vossa palavra seja sempre graciosa, temperada com sal, para que saibais como deveis responder a cada um."
A nossa forma de falar é importante para que possamos abrir portas para as pessoas conhecerem o evangelho, no lugar de colocar obstáculos em seu caminho.

       Há um pensamento que diz: "Cuidado com seu testemunho, pois enquanto você lê a Bíblia, o mundo lê a sua vida."

         Não podemos criar uma falsa imagem de que não importa o que as pessoas pensam de nós, sim, não podemos ser guiados por aquilo que os outros acham e sim, temos que ser guiados pelo RUACH HAKODESH (Espírito Santo), porém não podemos fingir ser crentes e dar mal testemunho por aí.

          Precisamos ser sal para dar sabor, preservar a sociedade apodrecida pelo pecado e fazer a diferença onde estamos. Não a diferença por ser um crente chato, que aponta os erros dos outros, por ser legalista e que vê demônios em tudo e que as pessoas não querem estar perto. Este tipo de crente afasta as pessoas.

              Concluindo, devemos então ser sal vivendo uma vida de piedade, amor, harmonia e zelo pelas coisas do Eterno. Se precisar que o Eterno lhe ajude a ser sal, seja humilde e peça ao Eterno, que em Yeshua lhe concederá, mas acima de tudo, viva segundo as Escrituras Sagradas.












segunda-feira, 1 de julho de 2019

Estudo da Parashá Shelach Lechá (Envie para você)

Estudos da Torá

Parashá nº 37 – Shelach Lechá (Envie para você)
Bamidbar/Números Nm 13:1-15:41,
Haftará (Separação) Js 2:1-24; e
B’rit Hadashah (Nova Aliança) Lc 17:1-18:43

1 - INTRODUÇÃO
                  
               Esta parashá trás uma carga de emoção muito forte, pelo menos ao meu ver. Aqui a Torá já nos mostrou tudo o que o Eterno Criador dos céus e da terra, o Libertador, fez por este povo e agora prestes a entrar na terra a qual herdariam cometem algo que os impedem de seguir em frente e conquistar a vitória. O que me deixa emocionado nessa porção são os motivos do povo de Israel para agirem como agiram e suas atitudes após o que fizeram. Vamos seguir neste estudo pois ele é maravilhoso!

2 - ESTUDO DAS PALAVRAS
              
               “Adonai Deus disse a Mosheh: “Envie alguns homens para fazer o reconhecimento da terra de kena’an, que dou ao povo de Yisrael. De cada tribo ancestral, envie alguém que seja líder da tribo”. Mosheh enviou-os do deserto de Pa’ran, como Adonai lhe tinha ordenado; todos eles eram homens da liderança dentre o povo de Yisrael.” (Nm 13:1-3 - BJC)
              
               A porção anterior da Torá finaliza no verso 16 com o Eterno guiando o povo até o deserto de Paran, onde acampam mais uma vez. E ali no deserto de Paran Adonai manda que Moisés envie doze homens para espiarem, ou melhor observarem a terra, conforme lemos nos versos acima, o termo espiar não é muito correto aqui, conforme é tradicionalmente entendido e veremos mais adiante. Veremos que a idéia inicial de enviar homens até a terra de Canaãn não vem originalmente de D’us, como o texto parece mostrar. Também poderemos entender que o objetivo destes doze homens era trazer um relatório de suas observações e explorações.

Sobre o Nome da Parashá e o de Yehoshua (Josué)

               Em primeiro lugar, vejamos as palavras iniciais que dão nome a nossa porção da semana.

               “VAY’DABER YHVH EL-MOSHEH  LEMOR: SHELACH-LECHAH...”
               “Falou Adonai a Moshe dizendo: “Envia para ti...”

               Repare que a palavra que traduziram meramente para o português como “envia”, no original hebraico significa mais que isso. O original é “shelach lechah” que significa “envia para ti”, apontando para o fato de que Adonai não queria ou não desejava enviar, ou não via necessidade de enviar, mas estava mandando eles enviarem por eles mesmos.

               Entenda, a tradição judaica diz que há um Midrash (comentário rabínico, ensino) sobre essa questão. Tal Midrash sugere que os filhos de Israel ficaram temerosos com a possibilidade de deixar o Sinai para a conquista da Terra Prometida. Isso porque as sete nações que haviam em Canaã tinham uma reputação de serem muito violentas, maléficas e extremamente depravadas.

               Sendo assim, de acordo com a tradição judaica, foram os filhos de Israel quem pediram a Mosheh que enviassem os homens para observarem, a fim de que pudessem avaliar a terra e a resistência do inimigo, mas também podemos ler sobre isso na própria Torá em Dt 1:21 e 22: “Vejam: Adonai, seu Deus, pôs a terra diante de vocês. Subam, tomem posse, como Adonai, o Deus de seus antepassados, disse a vocês. Não temam, não se assustem. Vocês se aproximaram de mim, cada um, e disseram: Vamos enviar homens à nossa frente para explorar a terra por nós e nos trazer uma palavra sobre a rota a ser usada para subirmos até lá e nos revelar como são as cidades que encontraremos.” Por isso o Eterno usa a palavra “shelach lechá” - envia por ti ou por sua conta. Outros sábios judeus também dizem que este termo significava “enviá-los para seu próprio benefício”. Uma coisa que fica bem clara nisso tudo é que podemos ver Mosheh indo até o Santo e Bendito, para perguntar sobre a solicitação, e assim temos o texto dos versos que estamos analisando, onde Ele manda enviar por eles mesmos.

               Agora, a respeito do nome de Josué, que foi mudado por Mosheh, ao ser escolhido para ser um dos doze homens que seriam enviados para explorar a terra. O nome dele antes de ser escolhido era “Hoshea - הושׁע” (Oseias), que significa “Salvação”. Ao seu nome Mosheh acrescentou no início, a letra “Yud” (י), a fim de fazer com que o nome de Josué começasse com o nome de D’us, “YAH”, sendo assim, ficou “Yehoshua - יהושׁע” (Josué), que significa “Yah Salva”.

               Entretanto, é provável que a pronúncia “Yehoshua” não seja a mesma que Moisés deu a este homem, porque mais tarde os escribas, para camuflar a correta pronúncia do Nome Sagrado (YHWH), a fim de evitar que pagãos a pronunciassem indiscriminadamente quebrando o mandamento, mudaram certas vogais nos nomes que contém o Nome do Eterno ao pronunciar.

               Dessa forma, possivelmente Moisés nunca o tenha chamado de “Yehoshua”, mas sim “Yahushua/Yeshua. Isso porque nesse caso, a forma hebraica antiga do nome do Messias, nosso salvador é Yahushua (Yud, Hey, Vav, Shin, Ain -  י ה ו שׁ ע). A forma abreviada desse nome é “Yeshua”. Essa forma surge tanto nos textos hebraicos antigos como nos escritos aramaicos do Tanach (Antigo Testamento). Também é importante mencionar que o nome Yeshua, também significa “Yah Salva”, de acordo com alguns estudiosos.

               De acordo com o Talmud (a tradição oral compilada em livros), os rabinos de Israel ensinaram que Mosheh previa a infidelidade e falta de fé dos homens que foram escolhidos para explorar a terra, por isso mudou o nome de Hoshea para Yeshoshua para lembrar-lhes que Adonai deve sempre vir em primeiro lugar (Talmud Sotah 34b).
              
Espias ou Exploradores?

               Quando olhamos para o texto de Nm 13:1-2 lemos o seguinte: “Adonai Deus disse a Mosheh: “Envie alguns homens para fazer o reconhecimento da terra de kena’an, que dou ao povo de Yisrael. De cada tribo ancestral, envie alguém que seja líder da tribo.”

               Nesse trecho a Torá utiliza o verbo raiz “TAR”, pois a palavra que aparece no texto em hebraico é “VEYATURU”. Essa palavra significa “Excursionar, observar, viajar com um propósito, explorar, examinar e investigar. O verbo “TAR” ocorre 12 vezes neste capítulo e mais 10 vezes em todo o Tanach (Escrituras Sagradas).

               Podemos então perceber através da observação dessa palavra no original, que o objetivo dos homens não era o de espiar, mas sim de explorar, observar. Repare que a palavra hebraica para “Espião” é “Ragel – רגל", e ela não aparece em nenhuma parte do texto desta parashá (porção), no entanto, a raiz “TAR”, conforme já  mencionamos, é encontrada 10 vezes. Sendo assim, os homens enviados por Mosheh devem ser compreendidos ou chamados de Exploradores, e não de espiões; as duas palavras não são idênticas.

               A primeira vez que a palavra “Ragel” (Espião ou espionar) é usada nas Escrituras, foi uns 40 anos mais tarde já na história de Josué e na preparação da batalha de Jericó, quando espiões são enviados. A diferença está na natureza e propósito da viagem. No caso em que estamos estudando o propósito era saber como eram as terras que receberiam, como eram os povos e as cidades. Já em Josué o propósito era estritamente militar, pois estavam se preparando para a batalha.

Fatos a entender sobre os doze exploradores:
               Antes que Israel entrasse na terra, houve dois tipos de informações:
               - A natureza da terra; e
               - A praticabilidade de conquista militar.

               Este não era um trabalho a ser feito por espiões militares, pois os espiões são enviados somente depois que uma nação decidiu iniciar a guerra. Os espiões são enviados para das informações de como atacar o inimigo, mostrando seus pontos vulneráveis. E relatariam somente ao seu líder militar, que no caso era Mosheh. Já no caso dos nossos doze homens, os exploradores ou observadores, se fossem espiões militares, não haveria razão para publicar seus nomes e Mosheh para isso não escolheria líderes ou pessoas importantes de cada tribo, conforme Nm 13:1-3.

               A missão dos doze:
          Sua missão era recolher a informação, de acordo com o texto, em seis categorias:
               - Como o lugar era?
               - Como eram os povos do lugar?
               - A terra era apropriada para agricultura?
               - Que tipo de vegetação está no lugar?
               - Quais os fatos sobre as cidades?
               - Trazer algumas amostras dos produtos da terra.

              Daí percebemos a necessidade de que tinham que ser representantes influentes de cada tribo, e porque relataram tudo a nação inteira e não somente a Mosheh.

               Os observadores foram enviados e quarenta dias depois retornam, no dia 9 de Av, carregando um enorme aglomerado de uvas, uma romã gigante no tamanho e um enorme figo. Segundo o Midrash Rabínico os frutos eram tão grandes que necessitavam de um homem para carregar a romã, outro para levar o figo e de oito homens para levar o cacho de uvas.

               Podemos aprender com esta passagem que os filhos de Israel cometeram dois erros muito comuns:

               - Não conseguiram ver que possuir a terra era um ato de fé (emunah – confiança, fidelidade em D’us). Os 10 observadores foram pessimistas (realistas). O pessimismo deles contagiou todo o povo, cegando-os para a realidade da aliança,e os mantendo na realidade do que os homens estavam dizendo.

               - Não apreciaram as bênçãos de D’us tinha prometido se obedecessem a seus mandamentos (Mitsvot).
               Devemos reconhecer que as dificuldades eram reais na terra, haviam gigantes, cidades fortificadas e tantas outras coisas, os 10 espias eram realistas, mas eles também esqueceram de serem realistas em relação a D’us, pois não olharam para a realidade de que o Eteno já havia feito por eles e o que já havia prometido fazer por eles.
               Portanto, entendamos que eles cometeram Lashom Hará (maledicência) ao reportar o pessimismo em relação a Terra, na verdade contra o próprio D-us, pois era como se tivessem reportado que o povo da terra era maior do que as promessas de D’us. O pessimismo é uma das grandes barreiras construídas por nós mesmos que nos impendem de caminhar nas bençãos e nas promessas de D’us. (Nm 14:2) A fé move-se adiante na base da fidelidade de D’us, não em nossas próprias forças e habilidades, ou na ‘realidade’.
               A realidade depende do ponto de vista do observador, então a Fé do observador muda a perspectiva da realidade ou a realidade em si. Além disso, nós nunca podemos dizer que acreditamos ou temos fé em D’us, se não nos submetemos a Sua Torá. Ela reflete nossa condição interna, para que possamos fazer os reajustes – Teshuvá – Arrependimento, retorno, conversão. (Mt 7:24, Jo 14:21, Mt 5:19-20)

         E a Torá aponta para o Messias, é por isto que a rejeição do Messias é considerada a mais alta traição, para todos os mandamentos de D’us. Rejeitar Sua Torá é rejeitar o Seu Messias, que por fim, é rejeitar a D’us, aquele que o enviou. (Lc 10:16)

Sobre Kaleb, filho de Yefuneh

               Calebe foi um dos doze observadores que foram enviados a Canaã, conforme Nm 13:6. Seu nome em hebraico “Kalev” pode significar “cachorro” que é “Kelev”, mas também pode aludir a “coração” que é “Lev”. Ele foi líder da tribo de Judá, ou pelo menos uma pessoa muito influente ali.

               Entretanto, perceba que Calebe não era um israelita. Ele era um, “Ex Goy” (gentio) convertido ao D’us de Israel, e tornou-se um membro influente em Judá. Jefuneh, nome de seu pai, não era um nome propriamente hebreu, o Tanach (Escrituras) nos aponta o caminho para compreendermos isso. Veja o que diz o texto de Josué 14:6:

“Então, os filhos de Judá chegaram a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o Senhor falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, por causa de mim e de ti.”

               De onde a tribo Quenezeu veio? As Escrituras nos dizem: das tribos Cananitas. Veja o que diz Gênesis 15:18-21:

“Nessa mesma ocasião o SENHOR D’us fez uma aliança com Abrão. Ele disse:  Prometo dar aos seus descendentes esta terra, desde a fronteira com o Egito até o rio Eufrates, incluindo as terras dos Queneus, dos Quenezeus, dos Cadmoneus, dos Heteus, dos Perizeus, dos Refains, dos Amorreus, dos Cananeus, dos Girgaseus e dos Jebuseus.”
              
               Jefoné (Yefuneh) que pode significar “virou-se”, nos sugere o porquê Calebe se afastou dos esquemas pessimistas dos outros observadores. Podemos pensar que a família de Calebe vivia no Egito há anos e se juntaram aos filhos de Israel. E isso é mais uma prova de que uma multidão de povos saiu do Egito com Israel. Na verdade, Calebe era descendente de Esaú, de um dos filhos dele. Jefoné era descendente de Quenaz filho de Elifaz, filho mais velho de Esaú (Gn 36:15; 40-42). Há ainda outro texto que menciona Jefoné como “Quenezeu”, leia Nm 32:12.

               Talvez alguém possa se perguntar: “Se ele não era hebreu, como veio a ser tão importante na tribo de Judá, a ponto de ser escolhido para ir observar a terra?” ou “Como veio a ser contado como um dos membros da casa de Judá?”

               As Escrituras nos mostram como ele entrou na tribo de Judá. Leia 1Cr 2:3-5; 18. Estes textos nos mostram duas possibilidades. A primeira é que esse pode não ser o mesmo Calebe que estamos estudando, e a segunda é que Calebe teria sido recebido como filho por Hesrom, filho de Perez, que era filho de Judá. Esse é meu palpite, principalmente levando-se em consideração o tempo decorrido entre as gerações e a grande possibilidade disso ter acontecido e seguindo os textos das Escrituras.

               Agora quanto a pergunta: “Se ele não era hebreu, como veio a ser tão importante na tribo de Judá? Podemos responder entendendo o texto de Nm 14:24, que diz: “Mas o meu servo Calebe, porque nele houve outro espírito, e porque ele perseverou em seguir-me, eu o introduzirei na terra em que entrou, e a sua posteridade a possuirá.”  Devemos observar que, se houve alguma vez um caráter de um ex-gentio nas Escrituras que expôs uma atitude positiva em relação a Adonai ou inspiração diferente em direção ao Eterno e a sua Palavra, deveria ser Calebe. Na Torá encontramos três pessoas sendo definidas pelo Eterno como seus servos, e são eles: Abraão, Moisés e Calebe. Isso nos aponta o caráter de Calebe, e nos indica a direção para entendermos como ele havia sido transformado por Adonai e assim, veio a fazer parte do povo de D’us e da tribo de Judá.

               Em relação a esse assunto é importante lembrar que, por meio desse fato a Torá quer nos mostrar o “mistério” que Paulo (Rav. Shaul) diz em Efésios 3, ou seja, a entrada dos Gentios ao povo de Adonai, através do Messias e da obediência à         Palavra.

Bibliografia:

- Torá – Lei de Moisés. Editora Sefer
- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.
- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/ שלח-לך -shlach-lecha-parasha-numeros-131-1541/
- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com