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domingo, 14 de julho de 2019

Estudo da Parashá Chukát (Estatuto)

Estudos da Torá

Parashá nº 39 – Chukát (Estatuto)
Bamidbar/Números Nm 19:1-22:1,
Haftará (Separação) Jz 11:1-33; e 
B’rit Hadashah (Nova Aliança) Lc 21:1-38

1 - INTRODUÇÃO

No estudo dessa semana estaremos tratando sobre “Chukát” – Estatuto, ou seja aquele estatuto que o Eterno estabeleceu e que os judeus e nós como parte do povo, aceitamos como mandamento que transcende nossa habilidade de entender racionalmente o porquê dele. É o mandamento que quando somos perguntados qual a razão de obedecermos, respondemos que obedecemos simplesmente porque D’us disse para obedecermos, e que não precisamos de uma razão lógica para isso. Esse é um estatuto perpétuo, através das gerações.

Esta parashá “Chukát” (estatuto) fala novamente sobre a morte e a impureza, conforme já estudamos na porção “Emôr”(Fala), e sua consequente necessidade de purificação através da “Pará Adumá” (Vaca Vermelha).

2 - ESTUDO DAS PALAVRAS

“E falou a Moisés e a Aarão, dizendo: “Este é o estatuto da lei (chukát hatorá) que ordenou o Eterno, dizendo: Fala aos filhos de Israel para que tomem em teu nome uma vaca vermelha, perfeita, na qual não haja defeito e que ainda não tenha levado jugo;” (Nm 16:1-2 – Torá, Ed. Sefer)

Há estatutos e decretos divinos dados sem nenhuma razão aparente. Exemplo deles é o dessa parashá, o da “PARÁ ADUMÁ”(vaca vermelha), no qual segundo a tradição nem mesmo o Rei Salomão entendeu o porquê. 

Devemos entender, antes de prosseguir, que temos três tipos de “Mitzvot” (mandamentos), vejamos cada uma delas:

- Mishpatim – Leis Civis: Os “Mishpatim” são leis Divinas que promulgam a segurança e sobrevivência da sociedade humana. Incluem nelas, por exemplo, a proibição de roubar, matar e não cobiçar as coisas do próximo.

- Edut – Testemunhos: Quando uma “mitsvá” (mandamento) dá testemunho de um evento histórico ou algum aspecto da nossa “emunah” (fé, confiança), é chamada de “Edut” (testemunho). São exemplos a mitsvá de observar o Shabat, que atesta nossa crença de que o Todo Poderoso criou o mundo em seis dias; observar os dias de Festas (Yom Tov), pois comemoram o Êxodo do Egito; as mitsvot de usar o tsitsit e tefilin que demonstram nossa crença na soberania de D’us.

- Chukim – Decretos Divinos, Estatutos: Esse é o tipo de mandamento “Chok” (o plural é Chukim), classifica-se todas as mitsvot (mandamento) cujo propósito ou significado não são compreendidos pela inteligência humana. E este é o tipo de mandamento que é mais difícil de respeitar, principalmente por aqueles que não fazem parte do povo de Adonai, seja judeus ou não. O Talmud afirma que essas são as leis que o “yetser hará” (inclinação pra o mal) e as nações do mundo sempre tentam contestar. Quando não se compreende o motivo de alguma coisa é tentador achar pretextos para não cumpri-la. O fato de um mandamento não ter um motivo óbvio torna seu cumprimento um ato de “emunah” (fé, confiança) maior. Isso vai nos indicar que estamos prontos e desejosos de obedecer às ordens de D’us, até mesmo quando não podemos justificá-las de forma racional. Todas as leis de pureza ritual pertencem à esse tipo de mandamento conhecido como “chukim”. 

Podemos entender isso de forma mais clara observando a “mitsvá” dos animais impuros (Lv 11). Nós não deixamos de comer tais animais por causa da nossa saúde, porque se for isso, o centro do mandamento seríamos nós. Deixamos, porém, de comer tais animais porque o Eterno nos mandou não comer. Não devemos racionalizar esse mandamento, pois ele é um tipo de Chuk, ou seja, D’us mandou e nós obedecemos e pronto. Dessa forma, estaremos colocando D’us acima de nosso próprio intelecto e vontade. 

Existem muitos exemplos de “chukim”, porém o Midrash (ensino, interpretação) enumera alguns sobre os quais a Torá afirma explicitamente, a exemplo do verso 2, do texto em estudo: “Este é um chok”. Uma vez que elas contém elementos aparentemente contraditórios, são passíveis de serem ridicularizados pelos que se pautam pelo pensamento racional. 

Digo aparentemente contraditórios, porque não existem contradições nas Escrituras, o que acontece é que muitas vezes os que pretendem estudar a bíblia não compreendem os métodos judaicos de interpretá-la corretamente, utilizando a hermenêutica judaica, como o “PaRDeS”.

Explicando rapidamente o que é o “PaRDeS”, para que possamos entender o assunto, a respeito de não haver contradições nas Escrituras. Na hermenêutica judaica existem quatro níveis de interpretações utilizadas pelos sábios. Essa interpretação pode chegar ao nível mais profundo que é o que mencionamos acima. Na tradução literal, “PaRDeS” significa “jardim”, no entanto esse termo é um acróstico desse método de estudo das Escrituras Sagradas, e cada um dos quatro níveis atendem a capacidade da pessoa naquele momento, em outras palavras são quatro diferentes abordagens da exegese das Escrituras no judaísmo rabínico. Vejamos os níveis do “PaRDeS” de acordo com o Rab. Joseph Shulam:

- Pshat - o entendimento “simples” e literal ou superficial do texto. Assim é ensinado para as crianças e adultos que não tem muito conhecimento das Escrituras.

- Remez - é a “dica” para um significado mais profundo saindo do literal. É buscado o contexto da passagem, onde se discerne as pistas, que o autor deixou escondidas, e ela é a indicação da direção a seguir.

- Drash - significa “pesquisa”, quando se lê um texto compreende-se o que o autor quer que o leitor entenda, acrescentando o seu conteúdo pessoal e seu sentimento para descobrir o significado através da midrash (hermenêutica), por comparação de palavras, formas e também por ocorrências semelhantes em outras partes das Escrituras.

- Sod – “segredo” ou o significado místico de uma passagem, como determinado através de inspiração ou revelação. Ela é restrita aos que são do meio ou que foram ensinados a entender a linguagem própria específica do contexto em que foi escrita. Perceba o que o autor mencionado afirma.

“Um exemplo está no texto de II Tm 2:15. Na maioria dos textos em inglês diz: [...] que divide a palavra da verdade [...], diferente do texto em português: [...] que maneja a palavra da verdade [...]. A forma tradicional que os comentaristas cristãos dizem a respeito desse texto, é que o cristão deve dividir o Antigo Testamento do Novo Testamento, porque estamos na era do Novo Testamento e que não tem necessidade de aprender nada do Antigo Testamento.
Quando Paulo estava escrevendo esse texto, no contexto do seu tempo e lugar, parece sugerir a Timóteo que ele use o PaRDêS, para que ele entenda todos os níveis de entendimento dos textos bíblicos, não só aplicando a lógica, mas também a sua experiência própria e o que o Espírito Santo quer revelar com esse texto.” (Shulam. J, p.11)

Por isso, como realmente não há contradições nas Escrituras, a Torá aconselha o servo do Eterno a dizer a si mesmo: “É um chok, não tenho direito de questioná-lo.” 

Existem outros chukim na Torá para tomarmos como exemplo:

- Yibum: Uma pessoa que se case com a esposa de seu irmão estando ele ainda vivo, ou mesmo morto, incorre em pena de caret (morte espiritual), desde que seu irmão tenha tido filhos. Mas, se a esposa do irmão não tem filhos, é mitsvá casar-se com ela (levirato, yibum). Embora a razão ache difícil de aceitar um paradoxo como este, mas o texto bíblico diz: “E vocês guardarão Meus chukim.” (Vayicrá/Levítico 18:26).

- Shaatnez: A Torá proíbe nos vestirmos com roupas que contenham mistura de lã e linho. Porém, é permitido vestir uma roupa de linho que tenha tsitsit de lã atados. Mesmo que questionemos isso a Torá nos diz: “E vocês guardarão Meus chukim.” (Vayicrá/Levitico 19:19). 

- O bode para Azazel: Um bode era enviado à morte como parte do Serviço de Yom Kipur, expiando o povo de Israel de seus pecados. Mas também, tornava impuro a pessoa que o enviava. Assim, esta lei é chamada de “um chok eterno” (Vayicrá 16:29).

Uma vez tendo entendido os tipos de “mitsvot” (mandamentos), vamos então passar para o mandamento constante nesta parashá, o Chukát, que tem haver com a Pará Adumá – Vaca Vermelha.

A Vaca Vermelha e Yeshua

Os mandamentos que têm o nome de “chuk” ou “chukát”, estão ligados de uma forma especial ao Messias. A chukát desta parashá, pode ser considerada chukát por excelência, pois há uma ligação íntima em todo este ritual, com o messias Yeshua.

A novilha citada deveria nascer com uma cor diferente das outras, e de acordo com o Midrash, se tivesse mais de um pelo que não fosse vermelho, seria desqualificada. O próprio YHWH era quem provinha o nascimento do animal, quando houvesse necessidade dele. Outras características desse animal era que a novilha deveria ter pelo menos três anos de idade e não podia ter estado sob jugo. Agora observem, os três anos apontam para os (cerca de ) 30 anos de idade que tinha o Messias Yeshua quando foi sacrificado para limpar o povo. Veja no verso 6 outros itens que apontam para a morte de Yeshua: a madeira de cedro, o hissopo e a lã carmesim, que deveriam ser queimados juntos com a novilha vermelha.

“E tomará o sacerdote um pau de cedro, hissopo e lã carmesim e os jogará no meio do fogo em que arde a vaca.” (Nm 19:6)

Esses elementos estavam presentes na morte de Yeshua, a madeira na cruz, o hissopo na hora que lhes deram vinagre a beber e a lã carmesim na túnica que o vestiram.

As cinzas da vaca vermelha eram recolhidas e reservadas, porque depois era misturada com águas vivas e serviriam para purificação daqueles que se encontravam impuros, enquanto tornavam impuro qualquer um que estivesse envolvido em sua preparação. Uma vez que isto também desafia a lógica, pois é um chukát, a Torá mais uma vez introduz o assunto com as palavras: “Este é o chukat da Torah” (19:2), por isso, devemos aceitar essa mitsvá como uma ordem Divina.

Um fato interessante a ser mencionado é que, as águas da purificação eram guardadas nas casas dos sacerdotes em todo o território de Israel, a fim de que aqueles que tivessem estado em contato com algum morto, pudessem se purificar durante sete dias, conforme prescreve a Torá. Não era necessário muita cinza para uma grande quantidade de água. Assim, as cinzas de uma novilha duravam muitos anos. De acordo com a Mishna e o Midrash, no total foram sacrificadas nove novilhas vermelhas na história de Israel. As cinzas da primeira vaca duraram até a época de Esdras. É possível que a décima novilha vermelha diga respeito à segunda vinda do Messias.

Mais paralelos entre a vaca vermelha e Yeshua

Analisemos o efeito da morte da novilha vermelha e das suas cinzas.
        Purificava:
- A pessoa que matava a novilha;
- O Sacerdote (Cohen) que salpicou o sangue;
- A pessoa que queimou a carcaça; e
- A pessoa que reuniu as cinzas.

Como já afirmamos acima as cinzas da novilha vermelha com águas vivas eram chamadas de “Águas da Separação” – Mei Nidá. Porque eram usadas na limpeza cerimonial de pessoas impuras que queriam separar-se da impureza.

Como a purificação feita pela Pará Adumá (novilha vermelha) aponta para a morte de Yeshua? Ela aponta para o seguinte:

A morte de Yeshua purificou:
- Aqueles que estiveram implicados na Sua morte;
- Aqueles que falsamente testemunharam contra Ele;
- Aqueles que o entregou aos Romanos;
- Aqueles que bateram Nele e zombaram Dele; 
- Aqueles que dirigiram os pregos em suas mãos e pés; e
- Todos os que pecaram.

O resultado deste sacrifício é o meio pelo qual cada um pode ser limpo ou purificado, esta era a razão da novilha vermelha, assim como foi a razão da morte e ressurreição de Cristo. O que as pessoas fizeram à novilha e à Yeshua, os fez impuros, mas ele produziu o poder para fazê-los puros novamente. 

A instrução da Torá para uso da novilha pode ser destinado para simbolizar o contato da nova vida daqueles que ficaram impuros pelo contato com a morte. O seu sangue que é salpicado diante do Tabernáculo sete vezes simbolizava a aceitação do sacrifício por D’us.

Tudo isso nos aponta para um paradoxo, os sacerdotes se consagravam para oferecer o sacrifício da Pará Adumá e por ter contato com a vaca vermelha se tornavam impuros, a fim de obter as cinzas para purificar os do povo de Israel que precisasse ser purificado. Da mesma forma Yeshua, como sacerdote também sendo puro se tornou impuro para purificar a todos os que tiveram contato com o momento de seu sacrifício e todos os que precisam dele para se purificar. E da mesma forma, como novilha seu sangue torna puro a todos quanto toca. Essa pureza é espiritual. E esse paradoxo tem um centro, que o move, que é o "amor" em hebraico "AHAVÁ", para entendermos isso vemos o que Yeshua diz em MT 22:34-40. O amor é o ingrediente misterioso e é o principio dessa parashá, por isso não podemos questionar. E tudo isso aponta para o tempo do Messias, quando ele voltará e estabelecerá seu Reino de pureza espiritual. 


Bibliografia:

- Torá - Lei de Moisés. Editora Sefer
- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.
- http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/
- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/
- http://shemaysrael.com/parasha-chucat/
- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/ חקת -chukat-estatutos-decretos/
- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/39-_chukat_estatuto_de.pdf

sábado, 6 de julho de 2019

Estudo da Parashá Korach (Coré)


Estudos da Torá

Parashá nº 38Korach (Coré)
Bamidbar/Números Nm 16:1-18:32,
Haftará (Separação) 1Sm 11:14-12:22; e
B’rit Hadashah (Nova Aliança) Lc 19:1-30:47

1 - INTRODUÇÃO

Na parashá (porção) desta semana vamos tratar do assunto da rebeldia, rebelião e questionamento de autoridade. Veremos que isso aconteceu com Moshê e quais foram as consequências destes atos, e refletiremos sobre o resultado disso nas nossas vidas.

2 - ESTUDO DAS PALAVRAS

Korach, o filho de Yitz’har, netode K’hat, bisneto de Levi, junto com Datan e Aviram, os filhos de Eli’av, e On, o filho de Pelet, descendentes de Re’uven, reuniram homens e se rebelaram contra Mosheh. Aliaram-se a eles 250 homens de Yisrael, líderes da comunidade, membros importantes do conselho, homens de bom conceito.” (Nm 16:1-2 - BJC)

O comentário da Torá nos diz o seguinte a respeito do primeiro verso dessa porção:
Esta porção semanal registra a primeira revolta contra a autoridade de Moisés e Aarão. Os interesses pessoais de Côrach motivaram a sua rebeldia. O descontentamento deste, nos diz o Midrash, surgiu porque Elitsafan, seu primo irmão, obteve um cargo ao qual Côrach se achava no direito de ocupar. Porém, Elitsafan tinha mais méritos: ele era mais apto que Côrach para as funções que lhe eram confiadas e Moisés não podia sacrificar o interesse geral em nome de idade e de família. Quanto a Datan e Abiram, a tradição nos ensina serem aqueles dois hebreus que brigaram no Egito e disseram então a Moisés: “Quem te pôs por homem, principe e juiz sobre nós?” (Ex 2:13-14) Eles eram também os mesmos homens que infringiram a prescrição de Deus relativa ao Maná (Ex 16:20). Côrach, conhecendo as más disposições destes, apoiou-se sobre essa classe de gente na sia revolta injusta.” (Torá – A Lei de Moisés, Ed. Sefer, 2001, Página 436)

Na leitura dessa porção, podemos perceber que o nome da parashá é o primeiro nome que aparece no texto, Korach (Coré), assim como também encontramos o nome de outros três. Segundo o que lemos no comentário da Torá transcrito acima, onde nos é informado o motivo pelo qual levou este homem a questionar a autoridade de Mosheh, e isso nos é confirmado mais à frente no texto, no verso 8-9.
Podemos assim, perceber que a Torá que nos apontar algo sobre o caráter deste homem chamado Korach. Embora fosse rico, estimado entre sua tribo e honrado com a tarefa de cuidar da Arca da Aliança, conforme Nm 4:15:

Quando Arão e os seus filhos terminarem de cobrir os utensílios sagrados e todos os artigos sagrados, e o acampamento estiver pronto para partir, os Coatitas virão carregá-los. Mas não tocarão nas coisas sagradas; se o fizerem, morrerão. São esses os utensílios da Tenda do Encontro que os coatitas carregarão.”

Korach não tinha sido nomeado líder dos Coatitas, mas sim Elisafã, um primo mais jovem. O avô de Korach, era Kehat (Coate), cf. Êxodo 6:18-22.

Os filhos de Coate foram Anrão, Isar, Hebrom e Uziel. Coate viveu cento e trinta e três anos. Os filhos de Merari foram Mali e Musi. Esses foram os clãs de Levi, por ordem de nascimento. Anrão tomou por mulher sua tia Joquebede, que lhe deu à luz Arão e Moisés. Anrão viveu cento e trinta e sete anos. Os filhos de Isar foram Corá, Nefegue e Zicri. Os filhos de Uziel foram Misael, Elizafã e Sitri.”

O pai de Korach era Izar, irmão de Uziel. E este era o pai de Elisafã. O pai de Korach era mais velho que o pai de Elisafã. Uziel mesmo sendo mais novo, seu filho Elisafâ foi eleito para ser o líder dos Coatitas, Conforme Nm 3:29-31.

Os clãs coatitas tinham que acampar no lado sul do tabernáculo. O líder das famílias dos clãs coatitas era Elisafã, filho de Uziel. Tinham a responsabilidade de cuidar da arca, da mesa, do candelabro, dos altares, dos utensílios do santuário com os quais ministravam, da cortina e de tudo o que estava relacionado com esse serviço.”

A inveja desses homens os levaram a dizer coisas que tinham aparência de verdade, como por exemplo o que Korach disse a Mosheh:

Vocês se valorizam em demazia! Afinal, toda a comunidade é sagrada, todas as pessoas, e Adonai está entre eles. Porque, então, vocês se elevam acima da assembléia de Adonai?”(Nm 16:3)

Toda a comunidade é santa, todas as pessoas, disse Korach, ou seja, todos poderiam exercer o ministério, mas isso contrariava a ordem de Adonai, que disse que somente os levitas poderiam servir.
Mas também disseram mentiras como Datan e Abiram:

Nós não subiremos! É algo sem importância ter-nos tirado da terra em que sobejam leite e mel para nos matar no deserto, a tal ponto que você se arroga o papel de ditador sobre nós?” (Nm 16:13)

Por acaso no Egito, para eles que eram escravos, era um lugar que emanava leite e mel? Eles eram bem tratados no Egito? Claro que não! Mas a inveja os cegou,assim como cega a todos os que vivem assim.

O tratamento do Eterno para a inveja

Alguns estudiosos defendem que Adonai deveria ter dado a Korach um cargo importante para que não se aborrecesse e assim, não se revoltaria. No entanto, com D’us não é dessa maneira que as coisas funcionam, pois o Eterno vê o coração do homem. E assim, como ele viu em Caim seu descontrole em relação a seu irmão Abel, estava olhando o coração de Korach e vendo seus reais motivos. O problema não está no cargo que D’us não deu àquele homem, mas na inveja e na falta de humildade dele. Por isso, a solução não seria dar a um homem ambicioso um cargo de responsabilidade, mas sim fazer com que ele se humilhe e aprenda a submeter-se aos líderes que YHWH instituiu sobre ele. E devemos aprender essa lição, e trazer para nossas vidas, pois não é porque entendemos que temos o direito, mais condições, ou mais conhecimento, que receberemos algum cargo ou autoridade no reino do Eterno. É ele quem planeja e estabelece quem vai usar e como vai usar, a nós cabe apenas aceitar sua vontade com humildade, e orar para que nosso irmão, que foi escolhido exerça com zelo e amor a autoridade que recebeu. Em Korach havia uma fonte insaciável, uma inveja implacável, que o levou à loucura e a autodestruição. Ele foi alcançado por sua própria inveja, arrogância e despeito.
Devemos perceber que essa escolha de outro líder que não Korach, era um tratamento de Adonai para curar a alma dele, porém ele se recusou tratar o pecado em sua alma, e desenvolveu um sentimento de revolta que cresceu de tal maneira que lhe custou a vida. Temos no entanto, nas Escrituras exemplos contrários que mostram que não houve ciúmes quando um irmão mais novo foi elevado a uma posição superior, como Moisés e Aarão; Efraim e Manassés.

Não devemos seguir os pensamentos errados

Outra coisa que devemos aprender é que, não é só porque alguém da nossa família tem um tipo de pensamento, que devemos seguir. Nessa situação de Korach, percebemos que seus filhos não estavam do lado dele, não tomaram partido, não penderam para o lado errado. Ao contrário dos filhos de Datan e Abiram, veja em Nm 16:27-32:

Eles se afastaram das tendas de Corá, Datã e Abirão. Datã e Abirão tinham saído e estavam de pé, à entrada de suas tendas, junto com suas mulheres, seus filhos e suas crianças pequenas. E disse Moisés: "Assim vocês saberão que o Senhor me enviou para fazer todas essas coisas e que isso não partiu de mim. Se estes homens tiverem morte natural e experimentarem somente aquilo que normalmente acontece aos homens, então o Senhor não me enviou. Mas, se o Senhor fizer acontecer algo totalmente novo, e a terra abrir a sua boca e os engolir, junto com tudo o que é deles, e eles descerem vivos ao Sheol, então vocês saberão que estes homens desprezaram o Senhor". Assim que Moisés acabou de dizer tudo isso, o chão debaixo deles fendeu-se e a terra abriu a sua boca e os engoliu juntamente com suas famílias, com todos os seguidores de Corá e com todos os seus bens.”

Se olharmos com cuidado as Escrituras perceberemos que a família de Datan e Abiram estavam ao lado dele quando o povo se afastou deles, mas a Torá não fala da família de Korach. Porque seus filhos não o seguiram, e por isso não tiveram o mesmo destino dos filhos de Datan e Abiram.

e os filhos de Eliabe foram Nemuel, Datã e Abirão. Estes, Datã e Abirão, foram os líderes da comunidade que se rebelaram contra Moisés e contra Arão, estando entre os seguidores de Corá quando se rebelaram contra o Senhor. A terra abriu a boca e os engoliu juntamente com Corá, cujos seguidores morreram quando o fogo devorou duzentos e cinqüenta homens, que serviram como sinal de advertência. A descendência de Corá, contudo, não desapareceu.” Nm 26:9-11


Com certeza, os filhos de Korach quiseram acabar com essa maldição familiar, tendo nomes importantes como o de Samuel, que foi um descendente de Korach, foram autores de vários Salmos como 42-49; 84 e 85; 87 e 88, e chegaram a ter cargos importantes no templo. Por isso encontramos os seus descendentes sendo mencionados em 1Cr 6:31-38:

Estes são os homens a quem Davi encarregou de dirigir os cânticos no templo do Senhor depois que a arca foi levada para lá. Eles ministravam o louvor diante do tabernáculo, da Tenda do Encontro, até quando Salomão construiu o templo do Senhor em Jerusalém. Eles exerciam suas funções de acordo com as normas estabelecidas. Estes são os que ministravam, junto com seus filhos: Dentre os coatitas: O músico Hemã, filho de Joel, filho de Samuel, filho de Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliel, filho de Toá, filho de Zufe, filho de Elcana, filho de Maate, filho de Amasai, filho de Elcana, filho de Joel, filho de Azarias, filho de Sofonias filho de Taate, filho de Assir, filho de Ebiasafe, filho de Corá, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi, filho de Israel.”

Quando se está feliz e fiel na posição e no chamado que o Eterno lhe colocou, no tempo certo receberá a devida recompensa. Conforme está dito pelo Apóstolo Pedro, se no humilhamos debaixo da mão poderosa do Eterno, ele nos exaltará no devido tempo, de acordo com 1Pe 5:5-6. Que tenhamos a atitude dos descendentes de Korach.

A questão da Autoridade de Yeshua

Nessa parashá, a porção referente a este assunto no Novo Testamento está em Lc 19:1-20:47. Entretanto, quero me ater a parte do capítulo 20, onde alguns sacerdotes, mestres da lei e anciãos vem questionar a Yeshua a sua autoridade. Para que se possa entender bem o contexto, leia desde o verso 45 do capítulo 19 até o verso 19 do capítulo 20, que não transcreverei aqui para poupar espaço.
Tendo lido todos os versos mencionados acima, podemos perceber que o questionamento aqui é o mesmo, de Korach, Datan e Abiram, ou seja: Quem é o escolhido de D’us? De quem é a autoridade de Yeshua?

Assim, como aqueles homens questionaram a autoridade de Mosheh sobre as decisões tomadas, os líderes religiosos hipócritas na época de Yeshua estavam questionando o que ele tinha feito no templo, ao expulsar os vendilhões da Beit Hamikdash (Casa da Santidade ou Templo Sagrado), conforme lemos em Lc 20:1-2. Ao que Yeshua responde com uma outra pergunta, sobre o batismo de Yohanan (João). Eles não respondem pois entendiam que se dissessem que o batismo era do céu, Yeshua os questionariam o porquê eles perseguiam Yohanan, mas se dissessem que era dos homens, então o povo os apedrejariam, porque era bem visto pelo povo. E, Yeshua então, diz que não lhes diria de onde vinha sua autoridade, e começa a contar uma Parábola (Agadá), sobre os lavradores maus.

Alguns detalhes dessa parábola:
- certo homem;
- uma vinha;
- arrendar;
- lavradores;
- 3 servos;
- o filho; e
- outros.

O significado de cada um deles:
- certo homem - o Eterno;
- uma vinha - Israel;
- arrendar - autoridade para cuidar (ensinar);
- lavradores - autoridades religiosas;
- 3 servos - os profetas do Eterno;
- o filho - Yeshua; e
- outros - Yeshua em sua volta.

Alguns ali que ouviram a Agadá disseram que não fosse assim, então Yeshua cita as Escrituras, fazendo um Midrash. E os religiosos entenderam que era deles que estava sendo falado.

O que podemos e devemos aprender com essa porção é que o Eterno enviou Yeshua seu filho, para receber sua porção dos lavradores a quem ele tinha arrendado a vinha, mas ele foi morto e ressuscitou, e retornará para tomar a vinha para si mesmo, e ele mesmo cuidará dela. A autoridade de Yeshua, assim como a de Mosheh no deserto, foi dada por Adonai, e aqueles que questionaram sabiam disso, mas mesmo assim, levantaram-se contra. E enquanto nós formos humildes e reconhecermos a autoridade da Torá e de Yeshua em nossas vidas, estaremos seguindo em frente em direção à vontade do Eterno.

Concluindo, devemos viver em nossas vidas de acordo com os filhos de Korach, que em detrimento de seu pai estar errado, eles tomaram a decisão de viver a verdade da vontade de Adonai. Assim como o Mashiach Yeshua, viveu de acordo com a vontade do Eterno e nos abriu o caminho para nos aproximar do Pai, e nos afastar do caminho da rebeldia e dos questionamentos. Vivamos segundo o que Adonai estabeleceu para cada um de nós, pois a cada um ele deu um talento, conforme Mt 25:14-30.

Bibliografia:

- Torá - Lei de Moisés. Editora Sefer
- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.
- http://shemaysrael.com/parasha-korach/
- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/parasha-korach-cora-rebeldes/
- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/38-_korach_cor.pdf

terça-feira, 2 de julho de 2019

Estamos sendo sal?

       Leia o texto abaixo:

"Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens." (Mt 5.13)

       No capítulo 5 de Mattityahu (Mateus) vemos Yeshua vendo uma grande multidão que o estava seguindo, então ele decidi subir um monte e lá em cima assentou-se, e junto dele assentaram-se os seus discípulos. Podemos entender que as pessoas que compunham a multidão que o seguia devem ter se assentado monte abaixo também. E neste contexto o mestre começa a ensiná-los, aproveitando a acústica do lugar, pois do alto do monte sua vós se propagaria para as várias direções. No entanto, seu ensino não era comum, nem era o que muitos esperavam naquela época atribulada de domínio romano. Seu ensino trazia algo que há muito não se via por aqueles lados, o ensino verdadeiro da Torá. Uma Torá sem as "leis de cerca"(leis que protegiam as leis da Torá) que alguns hipócritas haviam criado tempos atrás, com a intenção de proteger a Torá. 

        O ensino de Yeshua trazia uma verdade transparente e muito simples de entender, pois era a verdade que o povo havia ouvido no deserto pela boca de Moshê (Moisés) quando transmitia a vontade de Adonai. 

         Yeshua começa a ensinar a Torá e os profetas, que eram as Escrituras que ele tinha em sua época. E começa com princípios constantes na Lei de D'us para os homens. Ele começa com as "Bem-aventuranças" e continua com uma série de princípios fundamentais para todo aquele que se diz seguidor do Messias Yeshua. São princípios que devem nortear a vida daquele que se aproxima do povo de D'us, o povo de Israel. Ele fala sobre perseverança, perseguição, humildade, justiça, misericórdia, pureza, pacificação, e tantas outras coisas.

         Porém, quando chega no verso 13,  que transcrevemos acima, ele continua o discurso, mas agora sobre uma nova roupagem, ele começa a usar algumas figuras, e especificamente neste versos, fala sobre o sal.      
               
         Yeshua falou sobre o sabor do sal e sua importância em se manter puro, para que não perca seu valor, caso contrário será pisado pelos homens. Vejamos então o que podemos aprender com esse ensino do Messias Yeshua.

1. A IMPORTÂNCIA DO SAL NAS ESCRITURAS
    Encontramos em um subsídio na Bíblia do Pregador Pentecostal, página 1393, o seguinte comentário: 

    "Reconhecendo a importância do sal para dar sabor aos alimentos, o patriarca Jó faz a seguinte pergunta: "comer-se-á sem sal o que é insípido? Ou haverá gosto na clara do ovo?" (Jó 6:6)."

       Na Torá, encontramos Moshê falando da importância do sal nas ofertas em Levíticos 2:13.

      Na época de Yeshua o sal era muito valioso, tanto que os soldados romanos frequentemente recebiam seus soldos em sal, de onde vem o nome salário. Este mineral era usado também como condimento, como conservante, como fertilizante e muitas vezes até mesmo como remédio. Este mesmo elemento tão útil era facilmente inutilizado, pois se deteriorava sob o calor forte, ou sobre a umidade. E ele queria nos mostrar com essa pequena comparação que o Reino dos Céus é expressado por meio dos indivíduos, pois cada um dos que são desse reino deve expressá-lo em sua vida e atitudes, devem se comprometer com as normas do Reino, que são exatamente o que ele tinha começado a falar anteriormente. 
  
         Então, entre outras coisas podemos destacar que o sal tinha sua importância como valor monetário, mas também era muito importante em seu valor como conservador de alimentos, pois sabemos que o sal é utilizado até hoje para conservar alimentos. 

          Sendo assim, reconhecendo que o sal é importante, e que nosso mestre Yeshua queria que aprendêssemos suas características para que pudéssemos viver neste mundo fazendo a diferença, precisamos aprender a ser sal.

2. COMO SER SAL NO MUNDO?
     Para sermos sal neste mundo devemos seguir principalmente os princípios estabelecidos pelas Escrituras. Sendo assim, vejamos como a Palavra de D'us nos instrui a ser.

a) Devemos ser testemunhas fiéis (Mc 9:50)
"O sal é bom, mas se o sal perder o seu sabor, como você vai fazer isso salgar? Tende sal em vós mesmos, isso é, estejam em paz uns com os outros."
Estar em paz um com o outro pode ser complicado, mas que valor tem nosso testemunho para o mundo, se estamos sempre discutindo entre nós mesmos ou enfatizando as nossas diferenças?

b) Devemos saber usar a nossa fala (Cl 4.6)
"Que vossa palavra seja sempre graciosa, temperada com sal, para que saibais como deveis responder a cada um."
A nossa forma de falar é importante para que possamos abrir portas para as pessoas conhecerem o evangelho, no lugar de colocar obstáculos em seu caminho.

       Há um pensamento que diz: "Cuidado com seu testemunho, pois enquanto você lê a Bíblia, o mundo lê a sua vida."

         Não podemos criar uma falsa imagem de que não importa o que as pessoas pensam de nós, sim, não podemos ser guiados por aquilo que os outros acham e sim, temos que ser guiados pelo RUACH HAKODESH (Espírito Santo), porém não podemos fingir ser crentes e dar mal testemunho por aí.

          Precisamos ser sal para dar sabor, preservar a sociedade apodrecida pelo pecado e fazer a diferença onde estamos. Não a diferença por ser um crente chato, que aponta os erros dos outros, por ser legalista e que vê demônios em tudo e que as pessoas não querem estar perto. Este tipo de crente afasta as pessoas.

              Concluindo, devemos então ser sal vivendo uma vida de piedade, amor, harmonia e zelo pelas coisas do Eterno. Se precisar que o Eterno lhe ajude a ser sal, seja humilde e peça ao Eterno, que em Yeshua lhe concederá, mas acima de tudo, viva segundo as Escrituras Sagradas.












segunda-feira, 1 de julho de 2019

Estudo da Parashá Shelach Lechá (Envie para você)

Estudos da Torá

Parashá nº 37 – Shelach Lechá (Envie para você)
Bamidbar/Números Nm 13:1-15:41,
Haftará (Separação) Js 2:1-24; e
B’rit Hadashah (Nova Aliança) Lc 17:1-18:43

1 - INTRODUÇÃO
                  
               Esta parashá trás uma carga de emoção muito forte, pelo menos ao meu ver. Aqui a Torá já nos mostrou tudo o que o Eterno Criador dos céus e da terra, o Libertador, fez por este povo e agora prestes a entrar na terra a qual herdariam cometem algo que os impedem de seguir em frente e conquistar a vitória. O que me deixa emocionado nessa porção são os motivos do povo de Israel para agirem como agiram e suas atitudes após o que fizeram. Vamos seguir neste estudo pois ele é maravilhoso!

2 - ESTUDO DAS PALAVRAS
              
               “Adonai Deus disse a Mosheh: “Envie alguns homens para fazer o reconhecimento da terra de kena’an, que dou ao povo de Yisrael. De cada tribo ancestral, envie alguém que seja líder da tribo”. Mosheh enviou-os do deserto de Pa’ran, como Adonai lhe tinha ordenado; todos eles eram homens da liderança dentre o povo de Yisrael.” (Nm 13:1-3 - BJC)
              
               A porção anterior da Torá finaliza no verso 16 com o Eterno guiando o povo até o deserto de Paran, onde acampam mais uma vez. E ali no deserto de Paran Adonai manda que Moisés envie doze homens para espiarem, ou melhor observarem a terra, conforme lemos nos versos acima, o termo espiar não é muito correto aqui, conforme é tradicionalmente entendido e veremos mais adiante. Veremos que a idéia inicial de enviar homens até a terra de Canaãn não vem originalmente de D’us, como o texto parece mostrar. Também poderemos entender que o objetivo destes doze homens era trazer um relatório de suas observações e explorações.

Sobre o Nome da Parashá e o de Yehoshua (Josué)

               Em primeiro lugar, vejamos as palavras iniciais que dão nome a nossa porção da semana.

               “VAY’DABER YHVH EL-MOSHEH  LEMOR: SHELACH-LECHAH...”
               “Falou Adonai a Moshe dizendo: “Envia para ti...”

               Repare que a palavra que traduziram meramente para o português como “envia”, no original hebraico significa mais que isso. O original é “shelach lechah” que significa “envia para ti”, apontando para o fato de que Adonai não queria ou não desejava enviar, ou não via necessidade de enviar, mas estava mandando eles enviarem por eles mesmos.

               Entenda, a tradição judaica diz que há um Midrash (comentário rabínico, ensino) sobre essa questão. Tal Midrash sugere que os filhos de Israel ficaram temerosos com a possibilidade de deixar o Sinai para a conquista da Terra Prometida. Isso porque as sete nações que haviam em Canaã tinham uma reputação de serem muito violentas, maléficas e extremamente depravadas.

               Sendo assim, de acordo com a tradição judaica, foram os filhos de Israel quem pediram a Mosheh que enviassem os homens para observarem, a fim de que pudessem avaliar a terra e a resistência do inimigo, mas também podemos ler sobre isso na própria Torá em Dt 1:21 e 22: “Vejam: Adonai, seu Deus, pôs a terra diante de vocês. Subam, tomem posse, como Adonai, o Deus de seus antepassados, disse a vocês. Não temam, não se assustem. Vocês se aproximaram de mim, cada um, e disseram: Vamos enviar homens à nossa frente para explorar a terra por nós e nos trazer uma palavra sobre a rota a ser usada para subirmos até lá e nos revelar como são as cidades que encontraremos.” Por isso o Eterno usa a palavra “shelach lechá” - envia por ti ou por sua conta. Outros sábios judeus também dizem que este termo significava “enviá-los para seu próprio benefício”. Uma coisa que fica bem clara nisso tudo é que podemos ver Mosheh indo até o Santo e Bendito, para perguntar sobre a solicitação, e assim temos o texto dos versos que estamos analisando, onde Ele manda enviar por eles mesmos.

               Agora, a respeito do nome de Josué, que foi mudado por Mosheh, ao ser escolhido para ser um dos doze homens que seriam enviados para explorar a terra. O nome dele antes de ser escolhido era “Hoshea - הושׁע” (Oseias), que significa “Salvação”. Ao seu nome Mosheh acrescentou no início, a letra “Yud” (י), a fim de fazer com que o nome de Josué começasse com o nome de D’us, “YAH”, sendo assim, ficou “Yehoshua - יהושׁע” (Josué), que significa “Yah Salva”.

               Entretanto, é provável que a pronúncia “Yehoshua” não seja a mesma que Moisés deu a este homem, porque mais tarde os escribas, para camuflar a correta pronúncia do Nome Sagrado (YHWH), a fim de evitar que pagãos a pronunciassem indiscriminadamente quebrando o mandamento, mudaram certas vogais nos nomes que contém o Nome do Eterno ao pronunciar.

               Dessa forma, possivelmente Moisés nunca o tenha chamado de “Yehoshua”, mas sim “Yahushua/Yeshua. Isso porque nesse caso, a forma hebraica antiga do nome do Messias, nosso salvador é Yahushua (Yud, Hey, Vav, Shin, Ain -  י ה ו שׁ ע). A forma abreviada desse nome é “Yeshua”. Essa forma surge tanto nos textos hebraicos antigos como nos escritos aramaicos do Tanach (Antigo Testamento). Também é importante mencionar que o nome Yeshua, também significa “Yah Salva”, de acordo com alguns estudiosos.

               De acordo com o Talmud (a tradição oral compilada em livros), os rabinos de Israel ensinaram que Mosheh previa a infidelidade e falta de fé dos homens que foram escolhidos para explorar a terra, por isso mudou o nome de Hoshea para Yeshoshua para lembrar-lhes que Adonai deve sempre vir em primeiro lugar (Talmud Sotah 34b).
              
Espias ou Exploradores?

               Quando olhamos para o texto de Nm 13:1-2 lemos o seguinte: “Adonai Deus disse a Mosheh: “Envie alguns homens para fazer o reconhecimento da terra de kena’an, que dou ao povo de Yisrael. De cada tribo ancestral, envie alguém que seja líder da tribo.”

               Nesse trecho a Torá utiliza o verbo raiz “TAR”, pois a palavra que aparece no texto em hebraico é “VEYATURU”. Essa palavra significa “Excursionar, observar, viajar com um propósito, explorar, examinar e investigar. O verbo “TAR” ocorre 12 vezes neste capítulo e mais 10 vezes em todo o Tanach (Escrituras Sagradas).

               Podemos então perceber através da observação dessa palavra no original, que o objetivo dos homens não era o de espiar, mas sim de explorar, observar. Repare que a palavra hebraica para “Espião” é “Ragel – רגל", e ela não aparece em nenhuma parte do texto desta parashá (porção), no entanto, a raiz “TAR”, conforme já  mencionamos, é encontrada 10 vezes. Sendo assim, os homens enviados por Mosheh devem ser compreendidos ou chamados de Exploradores, e não de espiões; as duas palavras não são idênticas.

               A primeira vez que a palavra “Ragel” (Espião ou espionar) é usada nas Escrituras, foi uns 40 anos mais tarde já na história de Josué e na preparação da batalha de Jericó, quando espiões são enviados. A diferença está na natureza e propósito da viagem. No caso em que estamos estudando o propósito era saber como eram as terras que receberiam, como eram os povos e as cidades. Já em Josué o propósito era estritamente militar, pois estavam se preparando para a batalha.

Fatos a entender sobre os doze exploradores:
               Antes que Israel entrasse na terra, houve dois tipos de informações:
               - A natureza da terra; e
               - A praticabilidade de conquista militar.

               Este não era um trabalho a ser feito por espiões militares, pois os espiões são enviados somente depois que uma nação decidiu iniciar a guerra. Os espiões são enviados para das informações de como atacar o inimigo, mostrando seus pontos vulneráveis. E relatariam somente ao seu líder militar, que no caso era Mosheh. Já no caso dos nossos doze homens, os exploradores ou observadores, se fossem espiões militares, não haveria razão para publicar seus nomes e Mosheh para isso não escolheria líderes ou pessoas importantes de cada tribo, conforme Nm 13:1-3.

               A missão dos doze:
          Sua missão era recolher a informação, de acordo com o texto, em seis categorias:
               - Como o lugar era?
               - Como eram os povos do lugar?
               - A terra era apropriada para agricultura?
               - Que tipo de vegetação está no lugar?
               - Quais os fatos sobre as cidades?
               - Trazer algumas amostras dos produtos da terra.

              Daí percebemos a necessidade de que tinham que ser representantes influentes de cada tribo, e porque relataram tudo a nação inteira e não somente a Mosheh.

               Os observadores foram enviados e quarenta dias depois retornam, no dia 9 de Av, carregando um enorme aglomerado de uvas, uma romã gigante no tamanho e um enorme figo. Segundo o Midrash Rabínico os frutos eram tão grandes que necessitavam de um homem para carregar a romã, outro para levar o figo e de oito homens para levar o cacho de uvas.

               Podemos aprender com esta passagem que os filhos de Israel cometeram dois erros muito comuns:

               - Não conseguiram ver que possuir a terra era um ato de fé (emunah – confiança, fidelidade em D’us). Os 10 observadores foram pessimistas (realistas). O pessimismo deles contagiou todo o povo, cegando-os para a realidade da aliança,e os mantendo na realidade do que os homens estavam dizendo.

               - Não apreciaram as bênçãos de D’us tinha prometido se obedecessem a seus mandamentos (Mitsvot).
               Devemos reconhecer que as dificuldades eram reais na terra, haviam gigantes, cidades fortificadas e tantas outras coisas, os 10 espias eram realistas, mas eles também esqueceram de serem realistas em relação a D’us, pois não olharam para a realidade de que o Eteno já havia feito por eles e o que já havia prometido fazer por eles.
               Portanto, entendamos que eles cometeram Lashom Hará (maledicência) ao reportar o pessimismo em relação a Terra, na verdade contra o próprio D-us, pois era como se tivessem reportado que o povo da terra era maior do que as promessas de D’us. O pessimismo é uma das grandes barreiras construídas por nós mesmos que nos impendem de caminhar nas bençãos e nas promessas de D’us. (Nm 14:2) A fé move-se adiante na base da fidelidade de D’us, não em nossas próprias forças e habilidades, ou na ‘realidade’.
               A realidade depende do ponto de vista do observador, então a Fé do observador muda a perspectiva da realidade ou a realidade em si. Além disso, nós nunca podemos dizer que acreditamos ou temos fé em D’us, se não nos submetemos a Sua Torá. Ela reflete nossa condição interna, para que possamos fazer os reajustes – Teshuvá – Arrependimento, retorno, conversão. (Mt 7:24, Jo 14:21, Mt 5:19-20)

         E a Torá aponta para o Messias, é por isto que a rejeição do Messias é considerada a mais alta traição, para todos os mandamentos de D’us. Rejeitar Sua Torá é rejeitar o Seu Messias, que por fim, é rejeitar a D’us, aquele que o enviou. (Lc 10:16)

Sobre Kaleb, filho de Yefuneh

               Calebe foi um dos doze observadores que foram enviados a Canaã, conforme Nm 13:6. Seu nome em hebraico “Kalev” pode significar “cachorro” que é “Kelev”, mas também pode aludir a “coração” que é “Lev”. Ele foi líder da tribo de Judá, ou pelo menos uma pessoa muito influente ali.

               Entretanto, perceba que Calebe não era um israelita. Ele era um, “Ex Goy” (gentio) convertido ao D’us de Israel, e tornou-se um membro influente em Judá. Jefuneh, nome de seu pai, não era um nome propriamente hebreu, o Tanach (Escrituras) nos aponta o caminho para compreendermos isso. Veja o que diz o texto de Josué 14:6:

“Então, os filhos de Judá chegaram a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o Senhor falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, por causa de mim e de ti.”

               De onde a tribo Quenezeu veio? As Escrituras nos dizem: das tribos Cananitas. Veja o que diz Gênesis 15:18-21:

“Nessa mesma ocasião o SENHOR D’us fez uma aliança com Abrão. Ele disse:  Prometo dar aos seus descendentes esta terra, desde a fronteira com o Egito até o rio Eufrates, incluindo as terras dos Queneus, dos Quenezeus, dos Cadmoneus, dos Heteus, dos Perizeus, dos Refains, dos Amorreus, dos Cananeus, dos Girgaseus e dos Jebuseus.”
              
               Jefoné (Yefuneh) que pode significar “virou-se”, nos sugere o porquê Calebe se afastou dos esquemas pessimistas dos outros observadores. Podemos pensar que a família de Calebe vivia no Egito há anos e se juntaram aos filhos de Israel. E isso é mais uma prova de que uma multidão de povos saiu do Egito com Israel. Na verdade, Calebe era descendente de Esaú, de um dos filhos dele. Jefoné era descendente de Quenaz filho de Elifaz, filho mais velho de Esaú (Gn 36:15; 40-42). Há ainda outro texto que menciona Jefoné como “Quenezeu”, leia Nm 32:12.

               Talvez alguém possa se perguntar: “Se ele não era hebreu, como veio a ser tão importante na tribo de Judá, a ponto de ser escolhido para ir observar a terra?” ou “Como veio a ser contado como um dos membros da casa de Judá?”

               As Escrituras nos mostram como ele entrou na tribo de Judá. Leia 1Cr 2:3-5; 18. Estes textos nos mostram duas possibilidades. A primeira é que esse pode não ser o mesmo Calebe que estamos estudando, e a segunda é que Calebe teria sido recebido como filho por Hesrom, filho de Perez, que era filho de Judá. Esse é meu palpite, principalmente levando-se em consideração o tempo decorrido entre as gerações e a grande possibilidade disso ter acontecido e seguindo os textos das Escrituras.

               Agora quanto a pergunta: “Se ele não era hebreu, como veio a ser tão importante na tribo de Judá? Podemos responder entendendo o texto de Nm 14:24, que diz: “Mas o meu servo Calebe, porque nele houve outro espírito, e porque ele perseverou em seguir-me, eu o introduzirei na terra em que entrou, e a sua posteridade a possuirá.”  Devemos observar que, se houve alguma vez um caráter de um ex-gentio nas Escrituras que expôs uma atitude positiva em relação a Adonai ou inspiração diferente em direção ao Eterno e a sua Palavra, deveria ser Calebe. Na Torá encontramos três pessoas sendo definidas pelo Eterno como seus servos, e são eles: Abraão, Moisés e Calebe. Isso nos aponta o caráter de Calebe, e nos indica a direção para entendermos como ele havia sido transformado por Adonai e assim, veio a fazer parte do povo de D’us e da tribo de Judá.

               Em relação a esse assunto é importante lembrar que, por meio desse fato a Torá quer nos mostrar o “mistério” que Paulo (Rav. Shaul) diz em Efésios 3, ou seja, a entrada dos Gentios ao povo de Adonai, através do Messias e da obediência à         Palavra.

Bibliografia:

- Torá – Lei de Moisés. Editora Sefer
- Bíblia Judaica Completa, Editora Vida.
- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/ שלח-לך -shlach-lecha-parasha-numeros-131-1541/
- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com