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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Filosofia Religiosa ou Escrituras Sagradas?

 


Filosofia Religiosa ou Escrituras Sagradas?


Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não no Messias.” Cl 2:8


Há algum tempo venho refletindo no seguinte tema: “Filosofia Religiosa ou Escrituras Sagradas?” Saiba que essa pergunta não é descabida. A maior parte do que se tem de ensino teológico, desde os primeiros séculos da era comum, não vem puramente das Escrituras Sagradas, eles vem da filosofia. Apesar de a própria palavra “teologia” significar estudo de D’us, na prática os estudiosos desse área, se debruçam mais sobre temas deflagrados pelos homens de forma filosófica, do que propriamente sobre o Eterno. Daí, muitos desses ensinos se tornaram dogmas que de forma argumentativa, e totalmente filosófica solidificaram “sofismas”, ou ensinos que contém parte da verdade permeada de ensinos meramente humanos. Se buscar em um dicionário o significado do termo sofisma encontrará que ele é um argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. E é exatamente isso que os dogmas apresentam, e infelizmente a maioria das pessoas desde o início, vem seguindo por desconhecerem a verdade.


A filosofia, como expoente do conhecimento racional pensado de maneira sistemática, surgiu na Grécia em meados do século VI a.EC. Essa nova ciência surgiu a partir da necessidade de explicar o mundo de maneira racional. Até o surgimento dessa maneira de pensar e compreender o mundo, as explicações eram dadas através dos mitos. (site: querobolsa.com.br) Note que o texto de Paulo mencionado no início, faz sentido olhando para esse conceito do nascimento da filosofia.


Muitos livros já foram escritos sobre teologia e sobre filosofia, e alguns deles sobre ambos juntos. Em minha época de faculdade de teologia adquiri um livro ao qual usei para a pesquisa da minha monografia. Era um livro muito aclamado na época, e ainda hoje é, dentro do ramo teológico cristão. O título do livro é para impressionar bem os acadêmicos, ele é “Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma introdução à teologia cristã.” E logo no início da introdução desse livro percebemos o que mencionei no parágrafo anterior, a respeito de a teologia se utilizar da filosofia. Ele diz o seguinte:


Ao refletir-se sobre as grandes questões da teologia cristã logo se percebe que muitas delas já foram tratadas. É quase impossível fazer-se teologia, como se isso nunca tivesse sido feito antes. Há sempre a atitude de se olhar para trás, para ver como as coisas foram feitas no passado e quais as respostas que foram dadas.”


Sabemos pelo conceito de filosofia, que ela é a busca por respostas às diversas perguntas feitas pelo intelecto humano. E é por isso, que o autor afirma que para se refletir sobre as questões da teologia deve-se buscar as respostas do passado. Perceba que não está se falando de refletir sobre questões bíblicas ou das Escrituras, mas sobre a teologia e para isso, segundo ele deve buscar as respostas que a teologia, que usa filosofia, forneceu.


Muitos teólogos antigos são também filósofos, e nessa mencionada introdução o autor cita alguns muito famosos dentro do cristianismo. Ele diz que:


Parte da noção de “tradição” está na disposição de levar a sério a herança teológica do passado. Karl Barth expressa essa ideia de uma forma contundente à medida que nota, nos debates teológicos do presente, a contínua importância das grandes celebridades teológicas do passado: “Não podemos permanecer na igreja sem assumir tanto a responsabilidade pela teologia do passado, quanto pela teologia do presente. Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, Schleiermacher e todos os demais não estão mortos, mas vivem. Eles ainda falam e exigem ser ouvidos como vozes vivas, tão certo quanto sabemos que, eles como nós, pertencemos à mesma igreja.”


Veja como é normal para os autores e teóricos da religião tomarem por base os escritos e ensinos desses e de muitos outros filósofos e teólogos do que da própria Bíblia. Se dá mais ênfase nos seus pensamentos do que o que é ensinado nas Escrituras. E tudo isso é muito claro, não vê quem não quer. Há um outro livro, que também li nos tempos da faculdade de teologia, esse é um livro de apologética, que é uma disciplina teológica que ensina como defender a fé cristã, e para isso se utiliza muito da filosofia. O livro é o “Manual de Defesa da Fé – Apologética Cristã”, e em sua apresentação os editores falam o seguinte no terceiro parágrafo:


Fazendo uso da lógica aristotélica e de argumentos racionais, e respaldados pela abordagem desses temas por pensadores cristãos clássicos e modernos(como Agostinho, Aquino, Pascal, C.S. Lewis e outros), Kreeft e Tacelli apresentam soluções equilibradas e bíblicas para as objeções e conduzem os leitores a uma reflexão profunda a cerca das bases do cristianismo, das religiões não-bíblicas e do ateísmo moderno.”


Note que, conforme já mencionei a base principal são as reflexões dos filósofos, desde Aristóteles aos cristãos, e seus ensinos vem permeados de lógica filosófica. E com isso, formam toda uma forma, muito própria do cristianismo, de defender seus dogmas. Vejam que eles não usam para defender as Escrituras, mas aos dogmas criados pelas reflexões filosóficas à partir de textos isolados das Escrituras. Outra coisa que deve ser percebida, Agostinho e Aquino foram citados nas duas referências que mencionei, isso porque são dois dos maiores expoentes antigos do cristianismo, e ambos antes de serem cristãos eram filósofos. Por isso toda a sua teologia vem com uma enorme influência da filosofia grega.


Veja o que podemos encontrar sobre Tomás de Aquino ao fazer uma rápida busca em sites de pesquisa: Tomás de Aquino foi um padre católico e discípulo do grande escolástico Alberto Magno. Ele auxiliou na reintrodução da filosofia aristotélica no pensamento europeu e atualizou a teologia cristã junto à filosofia medieval, tendo escrito sobre os conflitos entre fé e razão existentes no período.” (site: brasilescola.uol.com.br)


Sobre Agostinho encontramos: “Agostinho é considerado por muitos o patriarca mais importante da Igreja e, provavelmente, o mais conhecido devido à sua obra Confissões, um relato pessoal de sua conversão ao cristianismo. Ele nasceu no norte da África, de pai pagão e mãe cristã. Quando jovem adulto, era um seguidor dos ensinamentos pagãos gregos.” (site: paodiario.org.br)


Diz-se que logo Agostinho se converteu, mas o fato é que sua filosofia influenciou sua teologia, e isso ocorre com todos os teólogos cristãos que tem envolvimento com a filosofia. Quanto a isso vejam o que os próprios autores “Kreeft e Tacelli”, que são também filósofos, afirmam sobre o motivo de terem escrito o livro, no início do capítulo um.


Decidimos escrever este livro porque recebemos inúmeros pedidos para fazê-lo. Ambos ensinamos Filosofia da Religião na Universidade de Boston, e nossos alunos com frequência nos perguntam onde podem encontrar um livro com os principais argumentos para ensinamentos cristãos mais relevantes, sobre os quais são desafiados pelos descrentes atualmente. Nossos alunos querem um livro com ensinamentos sobre a existência de D’us, a imortalidade da alma, a confiabilidade das Escrituras e a divindade e a ressurreição de Cristo, bem como respostas para as objeções mais comuns e mais fortes a essas doutrinas.”


É impressionante a clareza com que demonstram que se utilizam mais da filosofia. Sua meta é conseguir argumentos para responder perguntas e objeções aos dogmas que a própria religião criou, e que nada tem em comum com as Escrituras em seu contexto verdadeiro e cultural.


As pessoas há muito tempo tem esquecido que as Escrituras Sagradas é uma coletânea de livros judaicos, escritos por judeus e que se utilizaram de conhecimentos e formas de interpretação judaicos. Os textos da Torá, compilado por Moisés, das palavras que lhe fora entregue pelo próprio Eterno não sofreram influências filosóficas. Da mesma forma as palavras dos profetas. E até mesmo os escritores do chamado Novo Testamento, a Brit Hadasháh, não sofreram influências filosóficas. Apenas os apóstolos João e Paulo mencionaram em seus escritos palavras que vieram da cultura helenista, mas não por influência destes, e sim ao falarem de algo judaico para pessoas que entendiam o grego.


Sendo assim, o que devemos entender é que no lugar de utilizarmos conhecimentos filosófico religiosos, deveríamos nos utilizar, a exemplo dos profetas e dos talmidim (apóstolos), da própria Escritura Sagrada. Uma base fundamental que tenho aprendido nos meus anos de estudo das Escrituras é de que a Escritura comprova ela mesma. Isso quer dizer que um texto dos profetas, dos escritos ou dos escritos da Brit Hadasháh precisam encontrar uma fonte na Torá, que são os primeiros cinco livros. O que passa disso, pode ser um erro.


Com isso, quando Shaul Hashaliach (apóstolo Paulo) diz:


Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não no Messias.” Cl 2:8


Ele já estava vendo que a filosofia estava penetrando dentro da comunidade dos servos do Eterno e seguidores de Yeshua. Isso porque estavam ouvindo a ideias enganosas que não se fundamentavam nas Verdades das Escrituras, mas nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo. E por isso Yeshua já havia alertado: E conhecereis a verdade, e a verdade os libertará.” Jo 8:32


A verdade é a palavra do Eterno, registrada nas páginas das Escrituras Sagradas, que foram dadas a um povo e com um propósito. E essa verdade não muda e não tem variação de pensamento ou ideais. Ela ilumina os pensamentos e caminhos do homem, muito antes de iniciar a filosofia. Por isso, apegue-se às Escrituras Sagradas e aos seus ensinos, e deixe a teologia repleta de filosofias que somente levam ao engano, porque são meramente humanas.


Mas a palavra de D’us é lâmpada que ilumina o caminho do homem e é luz que clareia os seus passos, conforme Sl 119:105.


Pense nisso!

Que o Eterno, Santo e Bendito, lhes abençoe!


Marcelo Santos da Silva (Sou Peregrino na Terra)

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Parashá nº 2 – Nôach (Noé)

 Estudos da Torá - Parashá Noach


Parashá nº 2 – Nôach (Noé)

Bereshit/Gênesis 6.9-11.32

Haftará (separação) Is 54.1-55.5 e 

B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 3.1-4.25


1 - INTRODUÇÃO


 No final da primeira porção semanal, a parashá Bereshit, vimos no início do capítulo 6, que Adonai estava muito insatisfeito com o ser humano, pois a maldade do seu coração era muito grande e aumentava a cada dia. Por isso, o Eterno resolveu reduzir o tempo de vida do homem a um limite de cento e vinte anos. E a corrupção do homem estava tão grande e cada vez mais aumentava, somado a isso havia também o fato de os Filhos de Deus se encantarem pelas filhas dos homens, por isso Adonai resolveu eliminar todos os homens da terra, e não somente os homens, mas também todos os seres vivos.

 Nesta segunda porção ou parashá falaremos sobre Noach (Noé) e sua vida justa, falaremos também um pouco de sua geração, a geração que viveu antes do Mabul (dilúvio), olhando para o que a tradição judaica nos diz a respeito, e com base no que vamos ver na Torá veremos como podemos viver de forma justa em tempos como os atuais, que muito se igualam aos tempos de Noach. Qual deve ser nossa conduta como servos do Eterno, Hakadosh Baruch Hu, redimidos pelo Messias Yeshua? Poderemos refletir um pouco sobre isso e levar o aprendizado para nossas vidas diárias.

 Como já temos aprendido a Torá tem informações nas entrelinhas de seus textos, e muitas vezes há mensagens escondidas em letras ou palavras, e essas mensagens são proféticas, nos encaminhando para a compreensão de coisas que iriam acontecer no futuro de quem as escrevia, para o futuro dos contemporâneos de Yeshua e dos talmidim, bem como, algumas são para o nosso futuro também, e assim podemos saber mais sobre o nosso porvir com o Messias.


2 – ESTUDO DAS PALAVRAS


 Para que possamos compreender bem o contexto histórico desse período ou época, devemos procurar analisar o que estava acontecendo, como as pessoas viviam nesse período e como afetaram o ambiente em que estavam. Assim, vejamos o que podemos encontrar dentro dos conhecimentos do nosso povo sobre esse tempo. 

 No Midrash Bereshit (O Midrash disse - El Midrash Dice, em espanhol), nessa parashá os rabinos nos dizem que, apesar de os seres humanos já não viverem mais no Gan Éden, seu estilo de vida anterior ao dilúvio ainda se assemelhava ao que tinham no Gan Éden. A vida era boa. Na verdade era muito boa, diz o midrash. Era uma vida de ininterrupta serenidade e prazer. Por exemplo, ainda segundo o midrash, os filhos eram concebidos e nasciam no mesmo dia, e um recém nascido se levantava e começava a caminhar imediatamente, bem como era capaz de falar. Além disso, nenhuma criança morreu enquanto seus pais estavam vivos; na verdade, todos os pais viveram para ver, não apenas seus filhos, mas também seus netos. 

 Talvez por isso, a Torá nos conte com tanta clareza, na parashá passada, sobre a morte de Hébel (Abel), porque isso era algo que não era comum quando aconteceu, e nem mesmo tempos imediatamente depois.

 Essa geração anterior ao dilúvio possuía uma força física enorme, como diz o verso 4, “...os gigantes estavam na terra naqueles dias...”. Eles eram capazes de extrair a raiz de cedros inteiros e consideravam leões e panteras tão inofensivos quanto pulgas. Sua força não diminuía, ao invés disso, aumentava com a idade. E daí nós podemos entender, como Noach e seus filhos construíram uma Arca tão grande. 

 Eles viviam centenas de anos, conforme pudemos ver nos textos bíblicos da parashá passada, no capítulo 5 de Bereshit, porém quando começaram a pecar HaShem proferiu as palavras do verso 3 do capítulo 6, e daí em diante o homem viveria cento e vinte anos. 


“Então disse o Eterno: Por causa da perversidade do homem, meu ruach (espírito) não contenderá com ele para sempre; e ele só viverá cento e vinte anos.” Gn 6:3


 E à partir daí eles passaram a viver menos tempo a cada dia.

 O referido midrash diz também que, os homens daquela época semeavam o solo uma vez a cada quarenta anos e a terra produzia a quantidade suficiente para os quarenta anos seguintes. Eles não precisavam suportar nem calor e nem frio excessivo, já que não havia variação de estações e o estado do tempo era como uma contínua primavera suave e prazerosa, somente após o dilúvio que passou a ter variações nas estações como podemos ver no verso 22 do capítulo 8.


“Enquanto durar a terra, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais cessarão.” Gn 8:22

 

 De acordo com os relatos do midrash podemos perceber que o ser humano, mesmo depois que foi expulso do Gan Éden ainda era muito forte, era de alta estatura, com uma inteligência muito acima do que vemos atualmente, e até mesmo a natureza era bem diferente do que vemos hoje. Mas se eles tinham todas essas condições favoráveis, então o que levou o Eterno a tomar a decisão de reduzir o tempo de vida, que vimos no verso 3, mencionado anteriormente? Que espécie de corrupção ou transgressão os homens cometeram para gerar tal reação de HaShem?

 Para responder essas questões, e ainda continuar a compreender o contexto, precisamos continuar nos debruçando sobre o que os antigos nos falaram, sobre o que vem sendo passado de pai para filho, dentro do povo de Israel. E perceba que o conteúdo do midrash, vem sendo confirmado com o texto da Torá.

 Segundo o midrash, como consequência de todos os benefícios que os homens tinham, abandonaram a autoridade de HaShem, dizendo que não precisariam do Eterno, pois eles conseguiam tudo o que precisavam sem a ajuda do Senhor, eles se perguntavam porque precisariam de chuva se podiam dispor de toda água que precisavam das fontes, dos rios e poços da terra. 

 Outras transgressões maiores eles cometiam. Ainda de acordo com os midrashim, os antigos nos contam que aquelas gerações começaram a dizer ao Eterno para se apartar deles, pois não sentiam necessidade de conhecer os “caminhos do Eterno”, e sabemos que “caminhos” é uma alusão clara à Torá de HaShem, e sendo assim, estavam rejeitando a viver de acordo com a vontade do Eterno. E pioravam ainda mais, questionando quem era o “Todo Poderoso para que lhe servissem?” ou “porque devemos rezar a ele?” E se afastavam ainda mais de HaShem adquirindo experiências com feitiçaria, segundo o midrash.

 Eles se tornaram muito violentos, por isso o texto hebraico fala de “chamás” ou violência no verso 11 do capítulo 6. 


“Ora, a terra estava corrompida aos olhos de D’us e cheia de violência.”Gn 6:11


 O mesmo midrash Bereshit nos diz que eles eram assassinos, e que sua depravação era similar ao que leremos sobre a perversa cidade de Sodoma, mais tarde. Eles eram imorais, haviam rechaçado o mandamento dito a Adan, para crescer e multiplicar. Tanto que suas metas eram agradar seus instintos mais primitivos, e por isso reduziram o número de filhos ao mínimo, aumentando assim, as atrocidades que faziam naqueles tempos, como algumas mencionadas abaixo:

 - Os homens tomavam as esposas da seguinte forma: uma com o propósito de criar filhos, e outra para prazer;

 - Eles trocavam de esposas;

 - Arranjavam contratos matrimoniais entre seres humanos e animais, legalizando desta forma relações proibidas; e

 - Os juízes eram corruptos.

 A situação estava tão deturpada que a natureza estava corrompida pelo homem, e os animais já estavam seguindo o caminho de corrupção dos seres humanos, misturando as espécies entre si, de forma que por exemplo, o cachorro se unia sexualmente ao lobo e o galo ao pato. E muitas outras coisas cita o midrash a respeito das gerações antes do dilúvio, a geração de Noach.

 Agora que compreendemos um pouco o contexto histórico da época e o que levou ao dilúvio, vamos prosseguir e ver um pouco sobre Noach.  

 A Torá nos relata em Bereshit/Gênesis 6:9, que Noach foi um homem justo, perfeito nas suas gerações, diz também que ele andou com D’us. Sabemos que foi o fato de ser ele temente a Elohim, e seu padrão de vida, que permitiu que a humanidade fosse salva da morte e da completa extinção. Foi sua vida e conduta que levaram ao Eterno escolhê-lo para, através da arca, ele e sua família fossem preservados a fim de darem continuidade à raça humana.

 Sabendo de tudo isso sobre Noach e que a Torá nos diz que ele era justo, podemos meditar acerca do contraponto. Vemos que o testemunho da Torá é que ele era justo nas suas gerações, e já sabemos como eram as pessoas da geração antes do dilúvio. Aprendemos o que eles fizeram para que o Eterno considerasse que eles deveriam ser condenados à morte e somente Noach e sua família vivessem para renovar à humanidade.

 Assim, lemos o seguinte no texto da Torá:

“E o Eterno viu que era grande a maldade do homem na terra, e que todo impulso dos pensamentos do seu coração era exclusivamente mau todo dia. E arrependeu-se o Eterno de ter feito o homem na terra, e pesou-lhe em seu coração. E disse o Eterno: Farei desaparecer o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até o quadrúpede, até o réptil e até a ave dos céus; porque Me arrependi de os haver feito. E Noé achou graça aos olhos do Eterno.” (Gn 6:5-6)


 Continuando nosso assunto, vamos nos aproximar mais do texto para que vejamos com um pouco mais de detalhes, algumas partes dos textos dessa porção. Voltemos um pouquinho nos últimos versos da parashá passada mais uma vez e observemos primeiro o termo “arrepender” que aparece nos versos acima. 

 Talvez você se questione: D’us pode se arrepender de algo? 

 O Eterno não se arrepende, mas a Torá é muito didática, e nos traz essa expressão que conhecemos bem, para que possamos ter uma clara compreensão do que Ele quis dizer. O objetivo de Elohim é sempre se revelar para nós, por isso se preocupa em como passar as informações para o homem entender através de suas próprias linguagens. Esse é um texto figurativo. Elohim procede ou age de acordo com as atitudes dos homens, segundo as decisões que eles tomam, e as ações que praticam, conforme lemos em Ezequiel 18:1-4


“Esta palavra do Senhor veio a mim: "Que é que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: " ‘Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’? "Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá.” Ezequiel 18:1-4 


 Com tudo o que foi exposto até aqui, podemos entender o porquê de Noach se opor à forma de vida de sua época, e o motivo de Adonai ter agido com graça para com Ele. Noach vivia de forma justa, conforme a vontade de D’us. 

 Em Gn 6:8 lemos que, “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor” Apesar de muitos hoje pensarem que a graça vem apenas no chamado Novo Testamento, vemos que o Eterno sempre ofereceu graça (chessed - misericórdia) aos homens que se arrependem do mal e O buscam. Um midrash diz: “Noach foi salvo, não porque merecia, mas sim por causa da graça do Eterno.” O conceito de graça, como favor imerecido, é um dos pilares mais importantes da fé no Eterno, embora o próprio texto da Torá nos mostre o Eterno dando testemunho da vida justa de Noach, conforme veremos um pouco adiante.

 Também nós devemos em nossa época viver diferente da forma como as pessoas vivem, nos afastando da vida pecaminosa e nos prevenindo de transgredir a Torá de HaShem. Devemos obedecer as palavras do Eterno, a Torá, e viver de forma justa, pois também fomos alcançados pela graça. A arca que é um apontamento profético para Yeshua, livrou Noach e sua família da morte, e também nos livrará da morte que tocará esse mundo, e isso é a graça ou misericórdia do Eterno para nós.


 Segundo o site judeu.org, podemos comparar esses dois textos: 


 “E viu YHWH que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente.” (Bereshit/Gênesis 6:5) 


 “E YHWH sentiu o suave cheiro, e YHWH disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz.” (Bereshit/Gênesis 8:21) 


 Reparemos que o motivo de o Eterno enviar o dilúvio foi a maldade do homem que se multiplicou, conforme apontamos acima. E de acordo com esse site, podemos nos questionar: Como pode o mesmo motivo que fez com que o Eterno destruísse a terra ser alegado para afirmar que o Eterno não mais destruiria a terra? 

 A resposta deles é que:

 “Quando comparado com o 6:5, a linguagem está consideravelmente modificada, e não é mais totalmente inclusiva. A afirmação não é um juízo, mas uma observação de que há uma inclinação para o mal, tecida no pano da natureza humana. 

 Em outro lugar encontramos:

 A frase chave é ‘desde a sua juventude’, não desde o nascimento ou desde a concepção, implicando que a tendência ao mal pode ser refreada e redirecionada através da disciplina das leis. Assim, a próxima seção lida com a imposição de leis sobre a humanidade pós-diluviana.” (Nahum Sarna, Comentário da JPS sobre Gn. 8:21) 


 Com isso, é nos ensinado a importância de criar um ambiente saudável, e de promoção da disciplina, para que o ser humano possa sujeitar suas paixões. Desde cedo podemos fazer isso com nossos filhos, isto é, ensinando-os a guardar a Palavra do Eterno, e a viver não segundo o curso deste mundo. Nós mesmos devemos nos esquivar da Yetser Hará (inclinação para o mal), que a todo tempo nos rodeia de perto, devemos ir para os pés do Senhor, e como fez Noach, caminhar com Elohim.

 E a grande lição da Torá é que, após um certo ponto de estabelecimento da barbárie, torna-se quase impossível voltar atrás e consertar a situação. E o resultado é que o ímpio será destruído perpetuamente, conforme lemos em Salmos 92:7: 


“Quando o ímpio cresce como a erva e quando florescem todos os que praticam a iniquidade, é que serão destruídos perpetuamente.”


 Em Bereshit (Gênesis) 6.9, que é o verso inícial da parashá desta semana, encontramos o seguinte texto, e repare no grifo em vermelho:


 “9 Estas são as gerações de Noach(Noé). Noach homem justo e perfeito nas suas gerações; com Adonai andou Noach.”


 Note que o nome de Noach repete três vezes, e isso não é algo comum de acontecer em textos da Torá. Os rabinos afirmam que quando isso ocorre devemos parar e observar, pois com certeza haverá uma mensagem escondida. E nesse caso, quando paramos para olhar mais de perto, realmente encontramos algo. 

 Lembra o que o pai de Noach disse quando ele nasceu, ao falar seu nome? 


 “Aos 182 anos, Lameque gerou um filho. Deu-lhe o nome de Noach e disse: "Ele nos aliviará do nosso trabalho e do sofrimento de nossas mãos, causados pela terra que o Eterno amaldiçoou".” Gênesis 5:28,29 


 Noach significa consolo, conforto, alívio. Por isso seu pai disse que “...ele nos aliviará do nosso trabalho e do sofrimento…”, e isso é um apontamento profético para o messias, veja o que diz o profeta Yeshayahu/Isaías:


 “Escutem! Suas sentinelas erguem a voz; juntas gritam de alegria. Quando o Senhor voltar a Sião, elas o verão com os próprios olhos. Cantem juntamente de alegria, vocês, ruínas de Jerusalém, pois o Senhor consolou o seu povo, ele resgatou Jerusalém.” Isaías 52:8,9 


 “Eu vi os seus caminhos, mas vou curá-lo; eu o guiarei e tornarei a dar-lhe consolo,” Isaías 57:18 


 Agora observe o texto do capítulo 7:1, onde encontramos este texto, e repare no grifo em vermelho e no que ele diz:


א ויֹּאמֶר יְהוָה לְנֹחַ, בֹּא-אַתָּה וְכָל-בֵּיתְךָ אֶל-הַתֵּבָה:  כִּי-אֹתְךָ רָאִיתִי צַדִּיק לְפָנַי  בַּדּוֹר הַזֶּה 


 1 vayo’mer Adonay lenoach  bo’-‘attâh vekhol-bêythkha’el-hattêvâh kiy-‘othekha râ’iythyi tsaddyk lephânay baddor hazzeh 


 1 Depois disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração.

 

 Note que a porção começa com as qualificações de Noé, a Torá afirma que ele era homem justo e perfeito nas suas gerações. E aí está algo que devemos observar, pois enquanto em 6:9 fala das gerações, em 7.1 fala da geração. Será que há algo mais aí? 

 O texto nos mostra as gerações anteriores de Noé, ou seja, desde seu pai, bem como as gerações durante sua vida até que ele tem seus próprios filhos. E veja que Lameque declara uma profecia que nos coloca exatamente onde estamos estudando, o fato de Noé ser um homem justo e que seria usado por Adonai para trazer redenção à humanidade caída. O exato apontamento para o messias Yeshua, conforme falamos antes. Também devemos perceber que nas gerações posteriores a Noé, este também era a referência, pois dele a raça humana voltaria a se propagar na terra. Assim como acontecerá após a volta de Yeshua, a qual trará glorificação para os justos que viveram seguindo os seus princípios, e também redenção para os que viveram sem o messias.

 Dos descendentes de Set, filho de Adão, quando se começaram a invocar o nome do Eterno até Noé, a geração humana foi crescendo, pois também cresciam os descendentes de Caim, e estes eram maldosos e começaram a se misturar com os descendentes de Set, bem como a destruí-los. Os seres humanos justos foram diminuindo, enquanto aumentavam os corruptos, até que chega em Noé, que agora era o único homem justo, junto com seu pai Lameque, que ainda deveria estar vivo.

 No entanto, ainda temos mais a observar no texto em estudo, o verso 1 do capítulo 7, que no grifo em vermelho diz: “tsaddiyq lephânay baddor hazzeh”, ou seja, “justo diante de mim nesta geração”. O foco da Torá agora é específico na geração contemporânea de Noé. Ele estava vivendo em justiça em uma época corrompida, e a torá nos diz que ele andava com Adonai (Gn 6.9). Isso levou ao testemunho de sua justiça e ao reconhecimento de sua vida reta, como podemos ler em Ezequiel 14:13-14. 


“Filho do homem, se uma nação pecar contra mim por infidelidade, estenderei contra ela o meu braço para cortar o seu sustento, enviar fome sobre ela e exterminar seus homens e seus animais. Mesmo que estes três homens — Noé, Daniel e Jó — estivessem nela, por sua retidão eles só poderiam livrar a si mesmos, palavra do Soberano Senhor.” Ezequiel 14:13-14 


 E o mais interessante é que não testemunha somente de Noé, mas o Eterno testemunha também de Daniel e Jó. Aprendemos com este trecho da Torá, que precisamos andar nos princípios do Eterno, pois nossas atitudes testemunharão a nosso respeito, conforme vemos Yeshua declarar em Jo 8.13-18, veja: 


Os fariseus lhe disseram: "Você está testemunhando a respeito de si próprio. O seu testemunho não é válido! " Respondeu Yeshua: "Ainda que eu mesmo testemunhe em meu favor, o meu testemunho é válido, pois sei de onde vim e para onde vou. Mas vocês não sabem de onde vim nem para onde vou. Vocês julgam por padrões humanos; eu não julgo ninguém. Mesmo que eu julgue, as minhas decisões são verdadeiras, porque não estou sozinho. Eu estou com o Pai, que me enviou. Na Torá de vocês está escrito que o testemunho de dois homens é válido. Eu testemunho acerca de mim mesmo; a minha outra testemunha é o Pai, que me enviou". João 8:13-18 

 O testemunho válido é o que deixamos para que outros vejam, e o Pai testifica de nós, conforme podemos ver neste estudo. 

 O fato da vida prática de Noé ser justa diante de D’us é o que deu-lhe a redenção, pela misericórdia, em hebraico, “chessed”, também conhecido por graça, como disse antes. Também, redimiu a sua família, naquele momento de tribulação que viria sobre o mundo. E esse fator é profético, pois o observamos no sermão do Mashiach Yeshua em Mt 24.37-39 e Lc 17.26 e 27. 


“Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem.” Mateus 24:37-39 


“Assim como foi nos dias de Noé, também será nos dias do Filho do homem. O povo vivia comendo, bebendo, casando-se e sendo dado em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Então veio o dilúvio e os destruiu a todos.” Lucas 17:26,27 


 Ao contrário do que muitos pensam, na comparação que Yeshua faz  sobre os tempos de Noé, no sermão profético, não é para dizer que haverá um arrebatamento de alguém para o céu, mas o termo “levou” em Mt 24:39 é uma referência aos que foram levados pelas águas do dilúvio, ou seja, foram mortos, está intimamente ligado ao “destruiu” de Lc 17:27. O arrebatamento aqui é para a morte, para a destruição, pois os que ficaram vivos estavam na arca. Assim também será no futuro, quando Yeshua viver, os justos estarão vivos e glorificados com ele, enquanto muitos serão levados para a morte, por não terem vivido segundo os padrões da Torá de HaShem.

 Que possamos aprender com essa parashá a viver de acordo com os decretos do Eterno.


Que HaShem lhes abençoe!


Bibliografia:


- Torá – Lei de Moisés. Editora Sefer

- El Midrash Dice Bereshit – O Midrash disse

- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/

- http://shemaysrael.com/parasha-noach/

- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/02_noah_no.pdf

- http://judeu.org/pdfs/parashiyot/noah/noahmaldade.pdf

- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/771005/jewish/Resumo-da-parasha-noach

- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1985154/jewish/Minimiza-o-milagre


Marcelo Santos da Silva

sábado, 2 de outubro de 2021

Parashá nº 1 - Bereshit - 2021-2022

 

Estudos da Torá

Parashá nº 1 – Bereshit (No Princípio)

Bereshit/Gênesis 1.1-6.8

Haftará (separação) Is 42.5-43.10 e B’rit Hadashah (nova aliança) Mt 1:1-23 e Jo 1:1-2


1 - INTRODUÇÃO

Na semana que passou reiniciamos o ciclo de estudos da Torá, juntamente com nossos irmãos judeus, judeus messiânicos, judeus nazarenos e crentes em Yeshua que guardam os mandamentos em todo o mundo.

Este é o livro dos começos. Podemos aprender muita coisa ao estudarmos a Torá com singeleza de coração, amor e dedicação, pois é a revelação da vontade do Eterno ao ser humano. E como vocês já sabem, Torá é o nome dos cinco primeiros livros da Bíblia, também chamado de pentateuco, quando foi traduzido para o grego.

Bereshit é o nome hebraico do primeiro livro da Torá, que significa “no princípio”, e Gênesis nas Bíblias traduzidas para português, significando “origem”. Bereshit também é o nome dessa primeira porção ou parashá, assim como é a primeira palavra que aparece no texto em hebraico. Estes significados, segundo a introdução da Torá da Editora Sefer, são bem adequados a um livro que trata da criação do mundo, das origens do gênero humano e da iniciação história do povo hebreu.

Podemos dividir o livro em três partes: a primeira trata do princípio do mundo e da humanidade, nos capítulos 1 a 11; a segunda parte trata da vida dos patriarcas, nos capítulos 12 a 36; e a terceira e última parte desse livro, trata da história de Yossef/José, do capítulo 37 até o último capítulo do livro.

Sempre tentou-se desmembrar esse livro, no sentido de diminuir sua importância, porém de acordo com o texto na introdução da Torá da Editora Sefer, o professor Humberto Casuto, da Universidade de Jerusalém, demonstrou claramente em seu livro La Questione Della Genesi, com documentos e amplas explicações, a unidade do Genesis/Bereshit, e demonstrando que a tradição judaica que atribui a autoria do livro a Moshé/Moisés, permanece inalterável.

Veremos que as primeiras palavras deste livro, tratando da criação de todas as coisas, são repletas de solene majestade. Isenta de adornos e fantasias inúteis nos impressiona por sua clareza. Suas palavras nos mostram que apenas o Eterno existia naquele tempo, com a sua onipotência e a sua vontade de criar o mundo, e este elevado conceito da realidade está expresso de forma simples e sem nenhum esclarecimento sobre tal feito maravilhoso, que é a criação, ou seja, a Torá não se preocupa em dar detalhes do ato criativo de HaShem.

Como infelizmente não temos como estudar a fundo toda a parashá e esgotar o estudo da Torá, e Bendito seja o Eterno por isso, ano que vem se o Eterno permitir recomeçaremos novamente. Neste estudo falaremos um pouco sobre a criação do homem e veremos o que a Torá quer nos instruir com esse relato que é também profético.

Ainda como introdução, devemos compreender que a história Bíblica da Criação do Mundo é causa de um dos debates mais acirrados entre os que acreditam na Bíblia e aqueles que seguem as teorias científicas. E verdadeiramente há discrepâncias entre o que a ciência diz e o que a Bíblia diz a esse respeito. No entanto, precisamos ter em mente que o texto da Torá, no livro de בְּרֵאשִׁית Bereshit/Gênesis não foi escrito com a intenção de trazer uma explicação científica para o ato da Criação do Mundo pelo Eterno, conforme vimos no parágrafo anterior.

Na época de Moshé/Moisés, haviam alguns relatos míticos da criação do mundo contado por outros povos de culturas pagãs, como:

- A Enuma Elish – Conto mítico Babilônico da Criação;

- O Épico do Gilgamesh – Conto mítico Mesopotâmico; e

- A crença Egípcia no deus Amon-ra como criador.

Dessa forma, podemos entender também, que o relato bíblico da criação pode ter sido escrito para refutar esses relatos míticos, apesar de que, muito do que foi escrito era passado de pai para filho pela Torá oral. Assim, ler Gênesis com o propósito de encontrar explicações que se adaptem às teorias científicas da atualidade não é adequado, pois o texto não tinha esse propósito quando foi escrito.

Esses contos míticos, apesar de serem muito diferentes, trazem elementos que se aproximam do relato da Criação contida em Bereshit. É como se todos tivessem sido tirados de uma mesma fonte, porém com inserções posteriores de componentes próprios de cada religião. Por exemplo, a Enuma Elish (conto mítico babilônico) fala da existência de um oceano (face das águas) e caos primitivos, que seriam na verdade corpos dos vários deuses mesopotâmicos. E da batalha entre esses deuses os demais elementos e o ser humano teriam sido criados. Já os egípcios acreditavam que o deus Amon-ra era o ordenador do caos e das trevas primitivas (havia trevas sobre a face do abismo). Por isso, no seu templo em Karnak, a imagem de Amon-ra ficava em um santuário totalmente escuro (onde somente o Faraó e o Sumo Sacerdote podiam entrar, e com o auxílio da luz de uma tocha).

No entanto, mais do que ficarmos examinando as teorias científicas e/ou os contos míticos para a Criação, neste estudo da Parashá Bereshit, devemos nos focar nas palavras do texto, principalmente no seu contexto original hebraico e aramaico, a fim de extraírmos mais de cada uma das palavras do Eterno. Você terá também a oportunidade de ter contato com o hebraico bíblico.

Que possamos a partir de hoje, nos programar para estudar as Escrituras, durante os dias da semana, através de leitura sistemática, meditação e principalmente oração.


2 – ESTUDO DAS PALAVRAS

A Escritura inicia seu texto com uma frase interessante: “No princípio criou Deus os céus e a terra.”.

Em hebraico a frase é (leitura da direita para a esquerda):

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ


Bereshit bará Elohim et hashamayim veêt haarets


A palavra Bereshit, que dá nome ao livro e à parashá, conforme mencionamos na introdução, aparece somente em mais outro lugar em toda a Escritura, que é no evangelho segundo escreveu Yochanan/João.

Outro fato interessante é que o primeiro verso da Torá em hebraico possui sete palavras, e se somarmos as letras dessas palavras dá o total de 28 letras que é igual 7+7+7+7=28. Reparem em mais algumas curiosidades sobre o número sete no primeiro verso de Bereshit. A frase é formada por um sujeito, um predicado e dois objetos. O sujeito e o predicado da frase somam 14 letras, ou seja 2x7, veja:

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים bereshit bará Elohim” ou “no princípio criou Elohim”

O 1º objeto אֵת הַשָּׁמַיִם "et hashamayim” ou “os céus”, tem sete letras. O segundo objeto וְאֵת הָאָרֶץveet haarets” ou “e a terra”, também tem sete letras.

Cada letra no alfabeto hebraico tem um valor numérico, sendo assim, veja:






E mais:




Perceba que nada disso é coincidência, são mistérios ocultos nos textos da Torá, esperando para serem revelados a quem buscar, através do estudo das Escrituras. Vejamos mais algumas informações:

De Bereshit capítulo 1 ao capítulo 2:4, que é o texto que retrata a criação, a palavra D’us ou Elohim aparece 35 vezes, que é 5x7.

E também:



Mas o que tem o número 7, e qual a relação com o texto?

O número sete é o número que significa perfeição. E com tudo que vimos até agora percebemos que o primeiro verso já nos revela um senso de organização e perfeição da parte do criador, e isso nos mostra que os atos do Eterno foram planejados, organizados e realizados de forma lógica e precisa, com o fim de atingir um objetivo: uma criação que glorificasse o Nome do D’us Eterno!

Na tradição judaica há midrashim que contam como por parábolas como o Eterno teria escolhido as letras para iniciar a Torá, com o sentido de nos mostrar que HaShem planejou tudo com muito cuidado, pois cada coisa na Torá tem um sentido profético.

Vejamos ainda mais uma coisa curiosa para aprendermos nesse primeiro verso, ou mais um apontamento profético. A Torá inicia com a letra “Beit” ב. Entrando um pouco nos méritos da kabalá, esta letra tem uma abertura para a esquerda, diferentemente das outras letras do alfabeto hebraico. E o que isso pode significar? Segundo os rabinos, isso significa que o processo de revelação tem início a partir de agora, ou seja, quando a Escritura começou a ser revelada e escrita, e ao homem é dado conhecer somente aquilo que lhe é revelado a partir da palavra “Bereshit”, seja escrita ou via oral. A língua hebraica é escrita da direita para a esquerda, significando então que ao homem foi dado conhecer o que o Criador lhe revelou a partir de agora! O que ficou para trás, como quando o Eterno criou os anjos? Ou o que aconteceu antes de se ouvir o haja luz? Essas coisas não estão reveladas e, portanto, ao homem é vedado o direito de “especular” o que aconteceu antes da criação.

A palavra Bereshit é uma palavra formada por prefixo e radical, por isso, alguns rabinos argumentam também, que a letra “Beit”, como preposição do radical “reshit” funciona como um construto indicando o tempo em que a ação foi realizada. Então seria traduzido por “para”. A palavra “reshit” significa “primeiro, princípio, melhor”. Em sua raiz temos vários outros significados como “ro’sh”, que significa “cabeça, pico, cume, parte superior”, também “ri’shâ” que significa “princípio, tempo remoto”. Outra interpretação para todos esses dados na palavra “Bereshit”, é que se traduziria para “na cabeça”, uma vez que o “beit” é uma preposição e um dos significados de “reshit” é cabeça, e essa interpretação somada ao que está escrito em Jo 1.1 e 2 amplia muito o entendimento, porque se na cabeça criou D’us os céus e a terra, o verbo ou palavra de D’us criou na ação, e sem ele (o verbo ou palavra) nada do que foi feito se fez. Mas compreenda que esse verbo não é Yeshua, como a teologia dogmática da religião ensina. O verbo é o poder criador de HaShem, por meio de sua vontade e palavra, esse verbo esteve com os profetas antes de Yeshua. Basta conferirmos o que Moshé/Moisés disse em Devarim/Deut 18:18


Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar” Deuteronômio 18:18


Bem, ninguém diz que algum dos profetas esteve com o Eterno no momento da criação, e se a situação é a mesma, e Moisés esteve falando do messias, então Yeshua não pode ser o verbo, mas o verbo veio sobre ele. Assim, o verbo ou palavra, o poder do Eterno, a luz criada no primeiro dia, apontam para Yeshua, mas não era ele.

Voltando para a parashá, vejamos alguns comentários que podem ser encontrados no rodapé da Torá da Editora Sefer a respeito desse primeiro versículo de Gênesis:


No princípio - Os primeiros capítulos do Gênesis narram os primórdios da Criação. Por serem muito profundos, é difícil compreender todo seu conteúdo sem um conhecimento prévio dos ensinamentos da Torá, conforme foram revelados no Talmud e na Cabalá.

No princípio – Bereshit (por causa de Reshit): O Talmud proclama que o Universo não teria sido criado se não fosse pelo mundo espiritual, pela palavra Divina, pela Torá, chamada Reshit, princípio de tudo (Pessachim 68).

Criou D’us – Elohim (D’us) tem, em hebraico, a forma plural, para indicar que D’us compreende e unifica todas as forças infinitas e eternas. E para que não se pense que são muitos deuses, o verbo Bará (criou) foi empregado no singular, imediatamente depois de Elohim. O exegeta Abraham Ibn Ezra (1089-c.1164) argumenta que esta palavra não é nada além de um plural majestático concebido pelo homem devido às múltiplas e ilimitadas manifestações de D’us.

Os céus e a terra – No primeiro versículo do Gênesis, vemos a intenção evidente de dar ao homem a consciência de que tudo se deve à Criação Divina. Os mitos antigos atribuem a existência do mundo ao resultado das lutas dos múltiplos deuses, ou como nascido da casualidade e do capricho. Porém, a Torá quer nos mostrar o Universo como expressão da vontade Divina; a Criação como princípio de tudo, e não a Criação em si, mas a Providência – isto é, D’us – como Criador, Legislador e Condutor do Universo.”


Ao estudar essa porção da Torá, nos deparamos com o início de tudo o que foi criado no âmbito material e toda a organização que o Eterno estabeleceu. O Eterno cria todas as coisas do nada, por isso o texto usa a palavra “bará”, e a cada dia da criação, o criador fez pela sua palavra, que as coisas fossem criadas, tudo o que existe, desde a escuridão e a luz, o dia e a noite, os animais, a terra e o mar, e etc, até que no sexto dia o Eterno Elohim cria ser humano. E o mais interessante e profético, é que Ele cria, no sexto dia, o ser humano e logo depois descansa, ou seja, cria o shabat, o sétimo dia. D’us cessa o trabalho no sétimo dia, e o santifica, separa, como um dia de descanso, repouso.

Vamos refletir um pouco sobre a criação do homem. Vejamos o texto bíblico.


“E disse Elohim: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Elohim o homem à sua imagem; à imagem de Elohim o criou; homem e mulher os criou.”Gn 1:26-27


Naquele sexto dia, conforme o relato de Gn 1.26-27, HaShem formou o corpo humano do pó da terra, e sopra em suas narinas o ruach (espírito, sopro) fazendo que ele se torne um ser vivo, ou alma vivente.

De acordo com o site Yeshuachai.org, a primeira palavra pronunciada por D’us, “haja luz”(vaihi ohr) em Gn 1:3, foi proferida na intenção de todos os que desejam contemplar Sua Glória, como podemos ler no profeta Isaías:


Levanta-te, e ilumine, porque vem a tua luz” Is 60:1

A criação da luz por si, já é um apontamento profético e culmina em Apocalipse, ou seja no final de todas as coisas. O Eterno deu uma ordem, “haja luz”, e a partir de Yeshua está havendo luz no mundo. E essa ordem será cumprida plenamente no shabat milenial, início do Olam Habáh, conforme lemos em Ap 21:24 e 22:5


“As nações andarão em sua luz, e os reis da terra lhe trarão a sua glória.” Ap 21:24


“Não haverá mais noite. Eles não precisarão de luz de candeia nem da luz do sol, pois o Senhor D’us os iluminará; e eles reinarão para todo o sempre.” Ap 22:5

Dessa forma, podemos ver que quando Adam/Adão abriu os olhos pela primeira vez, e sua consciência humana nasceu, ele compreendeu imediatamente, que o Eterno criou todas as coisas, incluindo eles próprios. De acordo com um Midrash (comentário ou ensino dos rabinos), as primeiras palavras deste Adão (ser humano) consciente foram: “Adonai melech olam Vaed” - Adonai é o Rei por toda a eternidade. E Hashem disse: “Agora todos saberão que Eu Sou Rei”, e se contentou muito, e esse teria sido o momento “Tov Me’od” (muito bom) da criação, quando D’us viu tudo o que tinha feito “e viu que era muito bom” (Gn 1:31). Por isso, o nome para o ser humano, ou seja, Adam, אָדָם, está relacionado com a palavra “muito” – me’od” מְאד. Perceba que duas letras se repetem, o Alef e o Dálet. Isso aponta para importância do homem na criação.

Essa importância se dá pelo fato do ser humano ser aquele que ao cumprir a vontade do Eterno, leva a restauração das coisas a cabo. Por isso, vemos Yeshua dar orientação de como os filhos do reino deve se comportar no mundo, em Mt 5:16 falando sobre ser luz, uma luz que brilha diante dos homens, para que eles possam glorificar a D’us.

Sobre esse assunto da importância do homem na criação, o site judeu.org diz que, Gn 1 começa com uma premissa anterior de que os seres humanos são os seres mais importantes no mundo, e trabalham dali pra trás desde a criação o que precisaria existir antes deles, para que pudessem prosperar, no sentido de conseguirem viver no mundo. Observe que o objetivo disso é óbvio, ou seja, demonstrar que o homem, que fora criado à imagem e semelhança do Eterno, é um elemento muito importante da Criação. No entanto, o Eterno está no comando de tudo, suprindo o homem no que for necessário. Bastando apenas que este homem o obedeça e tenha fé/confiança para andar em seus caminhos.


A Criação do Homem e o Shabat

Como vimos até aqui, Adonai cria o homem, e dá tudo o que ele precisa pra existir, inclusive sua própria vida, conforme pode ser confirmado pelo profeta Isaías:


“Assim diz Elohim, o YHVH, que criou os céus e os desenrolou, e estendeu a terra e o que dela procede; que dá a respiração ao povo que nela está, e o espírito aos que andam nela...”


Depois de criar todas as coisas e também o homem, como mencionamos acima, o Eterno Elohim, cria uma última coisa, o Shabat, o descanso. Quando lemos o texto parece algo estranho vermos um D’us criador descansando ao final de sua obra criadora.

Perceba que esse ato de Elohim descansar foi também a primeira coisa que o homem fez depois de ser criado. Observe o texto bíblico:


“E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.” Gênesis 1:31


“Assim foram concluídos os céus e a terra, e tudo o que neles há. No sétimo dia Deus já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação.” Gênesis 2:1-3


Note que em Gn 1:31, assim como nos textos anteriores, referentes aos dias da criação, a Torá nos diz sobre “a tarde e a manhã”, um dia. No sexto dia, após fazer o homem, novamente aparece o texto “a tarde e a manhã”, e finaliza o texto, mostrando-nos que também acabou o sexto dia. Isso porque no calendário bíblico um dia começa com o final da tarde, ao pôr do sol. Assim, ao final do sexto dia, inicia o sétimo (hasheviy), o dia do descanso (shabat).

E o ser humano que havia acabado de ser criado inicia o dia de descanso com o seu criador. Isso nos mostra algo especial e profético, pois o shabat além de ser dia de descanso, é também dia de comunhão com o Eterno e com sua família. Por isso, esse momento nos aponta para o desejo de Elohim em ter comunhão com o homem. Aquele fora o primeiro momento de comunhão de D’us com o ser humano, nos indicando que novamente esse tempo de comunhão íntima será restaurado no Olam habáh (mundo vindouro), através da volta do messias Yeshua, ao findar o sexto milênio.

Então, o fato de o Eterno ter descansado, além de ter servido para dar o exemplo ao homem, ele também o fez para anunciar um apontamento profético para a o futuro.

O shabat é um dia especial para o Eterno, conforme demonstramos acima. O texto nos diz que Adonai abençoou o dia sétimo, e o santificou (separou). Na criação este é o único dia que recebe um nome, “há sheviy” (o sétimo), denominado de shabat”. A palavra santificar vem do hebraico “kadosh” que significa “ser consagrado, ser santo, ser separado”. E como já disse, o fato de o Eterno criador descansar no sétimo dia, nos mostra que Adonai estava dando exemplo ao homem daquilo que ele deveria fazer. Com isso, podemos facilmente entender a atitude do homem, guardar o shabat, juntamente com o Eterno, seu criador. E segundo o site Shemaysrael.com, Elohim diz ao homem que a importância maior na vida seria a comunhão entre a criatura e o Criador. Nada substituiria este momento entre os dois e justamente por isso Adonai estabelece que o shabat será separado, santificado, consagrado para o homem e para Ele. E de forma profética, apontando para o futuro, quando a nossa comunhão com o Eterno será plena, e com a presença de Yeshua que o representará. Hoje temos vários elementos no shabat que representam Yeshua, no futuro ele estará conosco, nós estaremos com ele e com o Eterno, e Jo 17 se cumprirá.

Ainda se tratando da criação do homem, podemos perceber que o ser humano é a forma visível daquilo que até então era invisível. De acordo com o entendimento das Escrituras Sagradas o homem físico é feito à imagem e semelhança do Eterno. Os sábios de Israel afirmam que essa imagem e semelhança também vem dos seres espirituais (anjos), bem como dos elementos do mundo material. E esse homem perfeito e recém criado é um apontamento para o messias, que seria perfeito porque obedeceria totalmente a Torá de HaShem. Este homem criado e colocado no Édem, tem um corpo físico. Ele é espiritual e carnal, ao contrário dos seres celestiais que não tem corpo físico.

Por isso devemos concluir, que o ser humano teria que refletir a forma de ser do Eterno no mundo físico, da mesma forma que os anjos refletem no mundo espiritual.

Com isso, entendemos que o homem foi criado para ser a coroa da criação, porque o messias seria aquele que governaria no reino do Eterno, que será no sétimo milênio, assim como o homem foi criado para celebrar ao Eterno no shabat.

Veja Romanos 5:14b: “Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir”


Até o próximo estudo!


Bibliografia:

- Torá – Lei de Moisés. Editora Sefer

- Biblia Judaica Completa de David H. Stern

- https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/771004/jewish/Resumo-da-Torá

- https://www.acruzhebraica.com.br/blog/a-criacao-do-mundo-parasha-bereshit/

- http://shemaysrael.com/parasha-bereshit/

- http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/quadros.asp

- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/

- http://hebraico.top/biblia-hebraica-online-transliterada/

- https://judeu.org/bereshit/

- https://www.acruzhebraica.com.br/blog/a-criacao-do-mundo-parasha-bereshit/

- http://shemaysrael.com/parasha-bereshit/

- http://www.yeshuachai.org/forums/topic/parasha-bereshit-genesis-11-68/

- http://emunah-fe-dos-santos.weebly.com/uploads/1/4/2/3/14238883/01_bereshit.pdf