Páginas

Boas Vindas

Seja Bem Vindo e Aproveite ao Máximo!
Curta, Divulgue, Compartilhe e se desejar comente.
Que o Eterno o abençoe!!

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Estudo da Parashá Vayikra - Relacionamento acima do sacrifício

 


Estudos da Torá

Parashá nº 24Vayikra (E chamou)

Vayikra/Levítico 1:1-5:126

Haftará (separação) Is 43:21-44:23 e

B’rit Hadashah (nova aliança) Rm 8:1-13; Hb 10:1-14.


Tema: Relacionamento acima do sacrifício


Desde os primórdios, o ser humano buscou formas de se conectar ao Criador. No Gan Éden (Jardim do Éden), essa relação era pura e direta, sem barreiras. No entanto, à medida que a humanidade se distanciou do Eterno, surgiu a necessidade de meios que restaurassem essa proximidade. O sistema dos korbanot (ofertas) estabelecido e detalhado em Vayikra foi uma resposta divina para essa reconexão. Mas será que o Eterno deseja apenas sacrifícios? Ou Ele busca algo muito maior?

A história de Yisrael mostra que, apesar da importância dos korbanot, os profetas constantemente alertaram que sacrifícios sem mudança de coração eram inúteis. Yeshua HaMashiach e os sábios de Yisrael reforçaram esse princípio: a verdadeira oferta ao Eterno é um coração transformado, uma vida de justiça, retidão e amor.

O estudo da parashá dessa semana nos convida a mergulhar na essência do chamado do Eterno. Mais do que rituais e cerimônias, Ele deseja um relacionamento vivo, íntimo e genuíno com aqueles que O buscam. Vamos explorar como o Tanakh, os profetas, os ensinos de Yeshua e dos shlichim (apóstolos) revelam que o verdadeiro sacrifício não é algo externo, mas uma entrega diária ao Eterno.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Vayicrá inicia o livro de Vayicrá, que revela as instruções do Eterno sobre os korbanot (ofertas) e a aproximação do homem com Ele. O nome da parashá, "Vayicrá" (וַיִּקְרָא), significa "E chamou", mostrando que o Eterno não apenas dá mandamentos, mas chama Seu povo para um relacionamento mais profundo com Ele.

O início da parashá mostra que HaShem chama Moshe e entrega as instruções sobre os korbanot, os sacrifícios que deveriam ser trazidos ao Mishkan. Diferente do que muitos pensam, o objetivo dos korbanot não era simplesmente "apagar pecados", mas criar uma conexão entre o homem e o Eterno, pois "karov" (קָרוֹב), que tem a mesma raiz de korban (קָרְבָּן), significa "estar próximo".

Os principais tipos de korbanot apresentados nesta parashá são:

  1. Olah (עֹלָה) – Oferta Queimada: Queimada completamente no altar, representando entrega total ao Eterno.

  2. Minchá (מִנְחָה) – Oferta de Alimentos: Geralmente de cereais, sem fermento, mostrando humildade e gratidão.

  3. Zevach Shelamim (זֶבַח שְׁלָמִים) – Oferta de Paz: Parte era queimada, parte comida pelos sacerdotes e pelo ofertante, simbolizando comunhão.

  4. Chatat (חַטָּאת) – Oferta pelo Pecado: Para pecados involuntários, demonstrando que até sem intenção, é necessário buscar retificação.

  5. Asham (אָשָׁם) – Oferta pela Culpa: Relacionada a danos causados a outras pessoas ou ao santuário.

O foco dos korbanot não era a mera execução do ritual, mas a intenção do coração. O Eterno nunca desejou apenas ofertas materiais, mas obediência e transformação interior. Como está escrito:

"Porque eu quero a bondade e não o sacrifício, e o conhecimento do Eterno mais do que holocaustos." (Hoshea 6:6)

Assim, os korbanot apontam para a necessidade de teshuvá (retorno ao Eterno), um coração contrito e um compromisso de viver conforme Suas instruções.

Yeshua viveu plenamente a vontade do Eterno e ensinou que a maior oferenda que podemos dar é nossa vida de obediência e justiça. Ele nos ensinou que devemos amar ao Eterno com todo nosso coração e ao próximo como a nós mesmos. Ele também nos lembrou de que a justiça, a misericórdia e a humildade são mais importantes do que rituais vazios (Mishlei 21:3).

Isso não anula a importância dos korbanot no contexto do Mishkan e do Beit HaMikdash, mas reforça que o mais essencial sempre foi o coração daquele que se aproxima do Eterno.

A Parashá Vayicrá nos ensina que a busca pelo Eterno exige aproximação verdadeira, transformação e responsabilidade. Assim como os korbanot exigiam que o ofertante se envolvesse ativamente, nossa caminhada exige ação e mudança constante.

ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

Essa porção da Torah, conhecida como Parashá Vayikra, abre as portas para conhecermos um dos temas centrais do relacionamento do homem com o Eterno: a necessidade de aproximação, que entre o povo de Yisrael é conhecido como “Teshuvah”. O próprio nome do livro e da parashá, "Vayicrá" (וַיִּקְרָא) — "E chamou" — revelam que HaShem não apenas dá mandamentos frios e legalistas, mas convida cada indivíduo a ter um relacionamento profundo com Ele. O sistema dos korbanot (sacrifícios) era um meio para isso, mas nunca foi o objetivo final. O Eterno quer o coração do homem, sua retificação e sua busca sincera. E quando falo coração, falo de intenções e de atitudes, deve ser algo completo. E como, o livro de Vayikra, aponta ou revela que deve ser esse indivíduo para se relacionar com o Eterno? Bruno Summa em seu comentário dessa parashá traz algo interessante, observe abaixo a transcrição:


O TZADIK DE ACORDO COM O SEFER VAYIKRA

Eles perguntaram à sabedoria: “qual é a punição ao pecador?” E a sabedoria respondeu: “o mal perseguirá ao pecador (Pv 13:21)”. E eles perguntaram à profecia: “qual é a punição ao pecador?” E a profecia respondeu: “o pecador morrerá (Ez 18:4)”. E eles perguntaram à Torah: “qual é a punição ao pecador?”. E a Torah respondeu: “ele levará uma oferta e obterá perdão (Os 14:2)”. E eles perguntaram ao Criador: “qual é a punição ao pecador?” E o Santo, Bendito Seja, respondeu: “tome para ti Minhas palavras e retorne a Mim (Sl 25:8)”. Yalkut Shimoni, Ezequiel 358

Os sábios procuram de quatro maneiras diferentes explicar o problema chamado pecado e suas consequências. A primeira ocorre quando um ser humano tenta compreendê-lo através de sua sabedoria e inteligência. Nesse caso, um ser humano tende a compreender o pecado e suas consequências através de suas próprias experiências e através dos danos que lhe são causados quando outrem erram consigo. A natureza decaída humana, a vontade de se vingar e a dificuldade de liberar perdão que o ser humano ordinário possui, o leva a desejar que a pessoa que lhe cometeu um dano seja “perseguida pelo mal”, isso é, quando um ser humano é vítima do pecado de seu próximo, ele desejará se vingar, desejará que aquele que lhe fez mal se auto-destrua ou que seja destruído de alguma forma por forças externas. É comum vermos pessoas, quando falam sobre as pessoas que não gostam, desejando-lhes tudo que é ruim e negativo.

A segunda ocorre quando um ser humano procura entender o pecados e suas consequência através das profecias que há no Tanakh e pela forma como o pecado punia Israel; em outras palavras, aqui temos uma pessoa que compreende o pecado através de ensinos rasos. Esse indivíduo compreenderá o pecado como algo que o condenará à morte por mais que procure se retificar. Esse tipo de pensamento é altamente destrutivo, pois se alguém chega a conclusão que, por ser um pecador, ele está automaticamente condenado, ele se afundará ainda mais no pecado e se entregará aos seus desejos carnais.

A terceira ocorre quando um ser humano procura compreender o pecado e suas consequências pelo ponto de vista literal da Torah. Ele chegará à pobre conclusão que para se safar de seu erro, apenas lhe basta prestar um sacrifício, isso é, observar alguma Mitzvah ou sacrificar algo em sua vida. O homem que assim compreende o pecado, terá a tendência de barganhar com Hashem pela remissão: “eu faço uma bondade e Hashem me redime”. Devemos entender que tudo na Torah, tanto bençãos quanto expiação, jamais devem ser na base da barganha, pois por melhor que sejamos e mais pios que nos tornemos, jamais seremos merecedores de benção alguma e de perdão algum. O ato de sacrificar algo como forma de obter perdão é completamente inválido.

A quarta ocorre quando um homem, ao invés de se basear em sua ciência para compreender o pecado e suas consequência, simplesmente se volta ao Criador e, com coração quebrantado, pede perdão de forma sincera por aquilo que fez. Isso é, o pecado e suas consequências devem ser compreendidos em sua forma mais simples, pecou, pagou, mas se houver arrependimento perante Hashem, eles serão apagados e perdoados. Isso nos basta para que possamos de forma simples nos retificarmos, e não há forma mais simples do que nos voltarmos ao nosso Deus e clamar pela Sua misericórdia e perdão. Essa ação vale mais do que toda sabedoria, ciência, estudo e sacrifício. O primeiro passo ao perdão é muito bem exemplificado pelo relacionamento entre um pai e seu filho, pois assim como o pai perdoa ao filho sem razões concretas e compreensíveis pelo filho, o mesmo é válido entre Hashem e Seus filhos. Os motivos que levam Hashem a perdoar seus filhos nunca serão compreensíveis a nós.

O Livro de Levítico aborda dois temas vitais, sacrifício e correta conduta perante Hashem. Viver nos conformes da vontade de Hashem é viver uma vida de constantes sacrifícios, pois cada Mitzvah observada, por menor que seja, sempre será acompanhada por algum sacrifício de nossa parte. E por que o homem foi criado e chamado ao sacrifício? Porque um homem deve sempre oferecer tudo aquilo que ele pensa que possui como forma de reconhecimento de que nada merece e de que nada realmente lhe pertence. Um sacrifício consiste tanto em reconhecimento quanto devolver a Hashem aquilo que foi colocado temporariamente em suas mãos.

O Livro de Levítico é capaz de separar profundamente um homem de Torah de um homem idólatra, e aqui não se trata do idólatra que não reconhece a Hashem, mas sim ao idólatra que supostamente serve a Hashem e conhece a Torah. O idólatra disfarçado de Tzadik é aquele que sempre buscará posses, riquezas, dinheiro, conforto e bens. Ele focará sua vida no trabalho secular, na conquista e sempre que possível, observará os mandamentos da Torah visando algum beneficio material. A vasta maioria das pessoas, infelizmente, servem e buscam a Hashem com uma agenda em mente, com um plano que precisam concretizar e não são capazes por si só, portanto, decidem buscar ajuda espiritual. Essas pessoas se engajam no Serviço Divino, estudam a Torah, fazem Tzedakah e observam inúmeras Mitzvot, mas em seus interiores, são idolatras, não idolatras de ídolos de pedra, mas idólatras de riquezas e posses.

O foco principal da Torah e, principalmente do Livro de Levítico, não é estabelecer sacrifícios de animais e um estilo de vida distinto, mas de traçar uma linha que separa o idólatra que se considera Tzadik do verdadeiro Tzadik. Enquanto o idólatra que se considera Tzadik leva sacrifícios caros a Hashem buscando perdão para que não sofra, para que não tenha que mudar seu estilo de vida e para ser materialmente abençoado, o verdadeiro Tzadik sacrifica a si mesmo ao não desejar bençãos terrenas e ao não buscar o perdão visando o próprio bem estar; o verdadeiro Tzadik, o verdadeiro homem que vive Torah e não possui nenhuma forma de idolatria em seu coração, é aquele que muda seu estilo de vida e se sacrifica diariamente em nome das Mitzvot pelo simples amor que possui, tanto a Hashem quanto pelo próximo.

O homem que não ama ao Mestre sobre todas as coisas, que não ama Sua Torah, Seus mandamentos e ao próximo como a si mesmo, por mais Torah que viva e estude, não deixará de praticar uma das mais ocultas e profundas idolatrias, a idolatria da busca pelo próprio bem estar e por bençãos materiais através da barganha com Hashem.

O homem que busca benefícios através da Torah e dos sacrifícios é comparável ao homem que entra em um bar e se embriaga. Quando menos esperar, durante sua falsa alegria, o garçom virá com a conta e lhe cobrará por tudo que bebeu. Akeyidat Yitzchak, Perek 57

Summa, Bruno. SHA'AREI TORAH: Portões da Torah - VAYIKRA 1 (pp. 31-35). Edição do Kindle.

Tendo em vista o que falamos até aqui vamos aprofundar mais um pouco e observar o propósito dos korbanot.


1. O Propósito dos Korbanot: Um Meio, Não um Fim

Nos tempos do Mishkan e do Beit HaMikdash, os korbanot eram uma forma visível de demonstrar um compromisso interior. E percebam que há também o entendimento dos korbanot como pessoas, pela perspectiva profética. No entanto, no ponto de vista físico ou visível, os profetas e os sábios de Yisrael sempre enfatizaram que a verdadeira adoração não está no sacrifício em si, mas na obediência e na retidão do coração de cada indivíduo.

Podemos observar os profetas expressando seu entendimento a respeito do relacionamento do homem com o Eterno. Veja o que o profeta Sh’muel disse ao Rei Shaul:


Acaso tem o Eterno tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Sua voz? Eis que obedecer é melhor do que sacrificar, e atender, melhor do que a gordura de carneiros. Shmuel Alef/1Sm 15:22


Aqui neste verso vemos claramente que o Eterno deseja primeiro um coração inclinado à Sua vontade, mais do que ofertas mecânicas e meramente legalistas. O profeta Yeshayahu também transmitiu essa mensagem do Eterno, como um forte alerta:


De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios? — diz o Eterno. Já estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados; não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes... Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem, praticai o que é reto, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Yeshayahu/Is 1:11-17

O profeta com o Verbo em sua boca diz que HaShem rejeita sacrifícios sem arrependimento e transformação verdadeiros. A justiça, ou seja, a obediência e a bondade através de tsedakah, são a verdadeira oferta que Ele deseja. Outro profeta também enfatiza esse fato.


Pois amor e bondade quero Eu, e não sacrifício; e o conhecimento do Eterno, mais do que holocaustos. Hoshea/Os 6:6


Pela mensagem transmitida através desse profeta vemos a instrução de que o verdadeiro korban é a busca por conhecer o Eterno e viver conforme Suas instruções. Entretanto, entenda que de forma alguma estou afirmando que os sacrifícios não tinham importância ou que não representava remissão e perdão, o que estou mostrando é que o korbam sem o devido arrependimento acaba não tendo validade, e se torna algo que o Eterno rejeita. Yeshua ensinou também sobre o verdadeiro culto ou serviço, o sacrifício real e prático, não apenas de palavras.


2. Yeshua e o Verdadeiro Serviço ao Eterno

Yeshua ensinou repetidamente que um coração puro e uma vida justa são mais importantes do que qualquer ritual. Ele confrontou aqueles que confiavam apenas em práticas externas sem verdadeira transformação. Quando perguntaram a ele sobre o maior mandamento, Yeshua citou a essência da Torá:


Amarás ao Eterno, teu Elohim, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Devarim 6:5 "E amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Vayicrá 19:18

Ele destacou que sem amor ao Eterno e ao próximo, nenhuma oferta ou sacrifício teria valor. Em outra ocasião, Yeshua advertiu sobre a hipocrisia de cumprir rituais sem justiça e misericórdia:


Ai de vós, escribas e perushim, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Torá: a justiça, a misericórdia e a confiança. Estas coisas deveríeis fazer, sem omitir aquelas. Mattityahu 23:23


Ele não rejeitou a obediência aos mandamentos e nem os korbanot mencionados nessa parashá, mas mostrou que eles deve ser acompanhados de um caráter transformado, como mencionei.


3. O Ensino dos Emissários era o mesmo

Os emissários de Yeshua seguiram o mesmo entendimento. Eles ensinaram que a verdadeira oferta ao Eterno é uma vida dedicada a Ele, mas sem negligenciar os mandamentos. O Apóstolo Paulo disse aos nazarenos de Roma:


Rogo-vos, pois, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável ao Eterno, que é o vosso verdadeiro culto. Rom 12:1


Aqui ele reforça que a verdadeira adoração é a entrega completa da vida ao Eterno, não apenas rituais externos. E o apóstolo Pedro também disse:


Também vós, como pedras vivas, sois edificados como uma casa espiritual, para serdes um sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios aceitáveis ao Eterno por meio de Yeshua HaMashiach. 1Pe 2:5


Isso significa que nossa vida deve ser um korban contínuo de justiça e bondade, e para isso devemos obedecer aos mandamentos do Eterno.


4. O Entendimento dos Sábios de Israel

E para que vocês entendam que o que estou apresentando não é uma invenção. Além de todos os textos das Escrituras e da Brit Hadashá que já mencionei, vejam ainda que os sábios de Yisrael também compreenderam que os sacrifícios nunca foram um fim em si mesmos. Rabi Yochanan Ben Zakkai disse o seguinte:


Mesmo sem o Beit HaMikdash, temos algo que pode expiar: atos de bondade e arrependimento. Talmud Bavli, Avodá Zará 17b


Esse ensinamento está em harmonia com o TaNaK, mostrando que a retidão é a verdadeira forma de se aproximar do Eterno. Rambam (Maimônides) também mencionou algo sobre isso:


O propósito final da Torá é que o homem alcance um coração puro e se aproxime do Eterno por meio do conhecimento e da justiça. Moreh Nevuchim 3:32


Isso reafirma que a obediência interna é superior a qualquer sacrifício externo vazio de verdade e arrependimento. A Parashá Vayikra nos ensina que o Eterno deseja proximidade, e isso exige ação de nossa parte. Assim como os korbanot exigiam arrependimento, devemos corrigir nossos caminhos diariamente através da teshuvah. Devemos buscar a retidão obedecendo à HaShem e ajudando o necessitado, pois essa é a verdadeira oferta que agrada ao Eterno, ou seja, a justiça e a misericórdia. Seguir as instruções do Eterno com um coração íntegro, e não por mero ritual. E por fim, como Yeshua ensinou, amar e servir ao próximo é uma forma poderosa de nos aproximarmos do Eterno.

Concluindo nosso estudo, vimos que o livro de Vayikra não trata de sacrifícios vazios ou legalistas, mas do chamado do Eterno para um relacionamento mais profundo. Ele quer um povo que O busque de coração, que pratique a justiça e que viva em retidão. Que possamos responder ao chamado de Vayikra com um coração sincero, oferecendo ao Eterno a melhor oferta de todas: uma vida reta e dedicada a Ele!

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef


sábado, 22 de março de 2025

O Filho Pródigo no Contexto Original - Um paralelo com a Casa de Yisrael e Yehudah

 


O Filho Pródigo no Contexto Original - Um paralelo com a Casa de Yisrael e Yehudah


Talvez você não saiba, mas há uma forte ligação entre a parábola do Filho Pródigo e a profecia sobre as duas casas de Yisrael e Yehudah. Essa parábola registrada na Bessorah (evangelho) de Lucas 15:11-32, tem um significado profundo que vai além de um simples relato sobre arrependimento individual. Yeshua frequentemente ensinava por parábolas para ilustrar verdades já reveladas no TaNaK, e essa história ecoa diretamente as profecias sobre a restauração de Yisrael. Para compreendê-la corretamente, precisamos analisá-la à luz do TaNaK e das profecias sobre a Casa de Yisrael e a Casa de Yehudah.

O Contexto Original e o Retorno ao Eterno

Essa parábola conta a história de um jovem que pede a seu pai sua parte da herança, pois queria sair pelo mundo, deseja sair da presença do pai. Ele queria buscar e viver experiências na vida, mas isso longe do pai. Demonstrando assim sua rebeldia. De onde Yeshua estava tirando isso? Será que ele tirou ensino de algum lugar? Com certeza!! Nada que Yeshua ensinava era aleatório, seu ensino vinha da Torah e dos profetas. 

O conceito de um "filho rebelde" já aparece em Devarim 21:18-21: Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece a seu pai nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam, o pai e a mãe o levarão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade, e dirão aos líderes: "Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive bêbado". Então todos os homens da cidade o apedrejarão até à morte. Eliminem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.

O filho teimoso que desonra seus pais deveria ser levado à comunidade para julgamento. No entanto, a parábola de Yeshua enfatiza os conceitos de arrependimento e a misericórdia do Eterno, em sintonia com Yechezkel 18:21-23, onde o Eterno afirma que deseja que o ímpio se arrependa e viva.

Como disse acima, na parábola, o filho mais novo pede sua herança antecipadamente e a desperdiça em uma terra distante. Yeshua traz nessa parábola o que aconteceu com a casa de Yisrael, representando aqueles que se afastam do Eterno, deixando Seus mandamentos para seguir os caminhos das nações. Sua situação de miséria e fome reflete Tehilim 119:67 – Antes de ser afligido, eu me extraviava, mas agora guardo a tua palavra.

Aquele filho rebelde da parábola em certo ponto se arrepende, e decide voltar para casa de seu pai, mesmo que seja como um empregado da casa. Quando decide retornar, ele não pede privilégios, mas apenas deseja ser tratado como um servo. No entanto, o pai corre para recebê-lo, veste-o com roupas novas e faz uma celebração. Esse gesto simboliza o amor do Eterno por aqueles que se arrependem, como descrito em Hoshea 14:1-2 e Tehilim 103:13 – Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Eterno se compadece dos que o temem. O mesmo ocorre com os remanescentes espalhados pelas nações, que ao perceberem o erro e se arrependem realmente, encontram no Eterno um pai que os aguarda retornar.

Já o filho mais velho, que sempre esteve com o pai e serviu fielmente, reage com ressentimento ao ver seu irmão ser recebido com festa. Ele representa aqueles que permanecem nos caminhos do Eterno, mas não compreendem Sua misericórdia para com os arrependidos. Isso se assemelha à atitude de Yonah, que ficou descontente com a compaixão do Eterno sobre Nínive (Yonah 4:1-2).

A Ligação com as Duas Casas de Yisrael

Como já mencionei, a parábola tem um significado profético relacionado às duas casas de Yisrael e Yehudah. No TaNaK, vemos que após a morte de Shlomoh, o reino foi dividido:

  • O Reino do Norte, chamado Casa de Yisrael ou Efraim, afastou-se dos caminhos do Eterno, praticou idolatria e foi espalhado entre as nações (Melechim Bet 17:6-23).

  • O Reino do Sul, chamado Casa de Yehudah, manteve a Torah e o Templo, mas também enfrentou períodos de rebeldia e exílio.

Na parábola:

  • O filho mais novo (pródigo) representa a Casa de Yisrael, que abandonou os mandamentos do Eterno, foi exilada e se misturou com os gentios. Seu afastamento e degradação entre os estrangeiros simbolizam o cumprimento de Hoshea 1:9 – "Vocês não são meu povo".

  • O filho mais velho representa Yehudah, que permaneceu mais fiel à Torah, mas teve dificuldade em aceitar o retorno daqueles que estavam afastados. Isso reflete a resistência dos líderes de Yehudah na época de Yeshua em aceitar os arrependidos de Yisrael.

A alegria do pai ao receber o filho perdido cumpre as promessas do Eterno de restaurar Seu povo disperso. Como está escrito em Yechezkel 37:15-23, o Eterno promete reunir Yisrael e Yehudah novamente como um só povo, colocando sobre eles um único líder e trazendo-os de volta à aliança.

A Mensagem Final: O Chamado ao Arrependimento

Assim, vimos que a parábola do filho pródigo não é, como muitos entendem, apenas uma história de perdão individual, mas uma midrash profetica sobre a restauração das tribos perdidas de Yisrael. O Eterno deseja que todos retornem a Ele, pois como disse em Yechezkel 18:31-32 – Lançai de vós todas as vossas transgressões... fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois por que morreríeis, ó Casa de Yisrael?

O ensino de Yeshua estava em harmonia com a visão das Escrituras, pois ele mesmo declarou: "Eu fui enviado apenas às ovelhas perdidas da Casa de Yisrael" (MattiYahu 15:24). Assim, essa parábola não é apenas sobre um filho rebelde, mas sobre todo Yisrael sendo chamada de volta ao Eterno e à sua aliança.

Que o Eterno lhe abençoe!

Rav Marcelo Peregrino Silva (Moshê Ben Yosef)

quarta-feira, 19 de março de 2025

Estudo da Parashá Vayakhel - Nem toda oferta é aceita

 

Estudos da Torá

Parashá nº 22Vayakhel (Ele reuniu)

Shemot/Êxodo 35:1-38:20

Haftará (separação) 1Rs 7:40-50 e

B’rit Hadashah (nova aliança) 2Co 9:1-15; Hb 9:1-14.


Tema: Nem toda oferta é aceita


Imagine que você está construindo algo muito especial – um lar para alguém que ama profundamente. Você convida várias pessoas para ajudar, mas percebe que alguns não estão realmente comprometidos. Alguns trazem materiais de qualquer jeito, sem preocupação com a qualidade. Outros até contribuem, mas, ao mesmo tempo, minam a obra, falando mal do projeto ou duvidando de sua importância. O que você faria? Aceitaria qualquer ajuda ou escolheria apenas aqueles que realmente compartilham da sua visão e valores?

Essa é exatamente a situação que encontramos na Parashá Vayakhel. Antes do pecado do bezerro de ouro, o Eterno pediu ofertas para a construção do Mishkan a todos no meio de Yisrael. Mas depois do pecado, Ele restringiu esse chamado apenas aos filhos de Yisrael, excluindo aqueles cuja lealdade não estava confirmada. Mas por quê? O que isso nos ensina sobre servir ao Eterno?

Hoje, vamos mergulhar nesse tema e descobrir verdades profundas sobre compromisso, purificação e restauração messiânica. Afinal, será que o Eterno aceita qualquer serviço? Será que estar entre o povo de Yisrael significa, automaticamente, estar qualificado para participar da Sua obra?

Se essas perguntas despertam sua curiosidade, continue até o fim, porque há algo muito importante para aprender!


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Vayakhel nos apresenta Moshé reunindo o povo de Yisrael para transmitir as instruções do Eterno sobre a construção do Mishkan (Tabernáculo). Logo no início, Moshê relembra a importância do Shabat, destacando que nem mesmo a obra sagrada do Mishkan deveria ultrapassar o mandamento de descansar no sétimo dia. Isso ensina que, por mais grandioso que seja um projeto, nada deve se sobrepor à ordem do Eterno.

O povo de Yisrael trouxe ofertas voluntárias para a construção do Mishkan, desde ouro, prata e tecidos até habilidades e talentos artísticos. O texto enfatiza que os corações das pessoas foram movidos pela vontade de contribuir. Esse detalhe destaca a importância da generosidade e da participação ativa na obra do Eterno.

Dois artesãos foram escolhidos para supervisionar a obra: Betsalel, da tribo de Yehudá, e Oholiav, da tribo de Dan. O Eterno lhes concedeu sabedoria e habilidade para conduzir os trabalhos. Isso nos ensina que os talentos vêm do Eterno e devem ser usados para propósitos elevados.

Um momento surpreendente ocorre quando Moshé precisa dizer ao povo para parar de trazer doações, pois já havia material suficiente para a obra. Esse episódio ressalta a abundância que surge quando as pessoas contribuem de coração.

A Parashá descreve a confecção do Mishkan e de seus utensílios, incluindo a Aron HaBrit (Arca da Aliança), o Menorá (candelabro de ouro), o Mizbeach (altar) e as cortinas detalhadas do Tabernáculo. Cada elemento tem um simbolismo profundo, apontando para a santidade e a presença do Eterno no meio do povo. A Parashá Vayakhel nos ensina que a verdadeira construção não é apenas física, mas espiritual, baseada na obediência e no desejo sincero de viver segundo os mandamentos do Eterno.

ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

וַיַּקְהֵ֣ל מֹשֶׁ֗ה אֶֽת־כָּל־עֲדַ֛ת בְּנֵ֥י יִשְׂרָאֵ֖ל וַיֹּ֣אמֶר אֲלֵהֶ֑ם ֚אֵלֶּה הַדְּבָרִ֔ים אֲשֶׁר־צִוָּ֥ה יְהוָ֖ה לַעֲשֹׂ֥ת אֹתָֽם

vayakhel mosheh et-kal-adat bney yisrael vayomer alehem eleh hadevarym asher-tsivah HaShem laasot otam.

Mosheh reuniu toda a comunidade dos filhos de Yisrael e lhes disse: Isto é o que o Eterno ordenou fazer. Ex 35:1


Ao estudarmos essa parashá, nós podemos perceber que há uma mudança de linguagem do Eterno em relação aos pedidos de doação para o Mishkan antes e depois do pecado do bezerro de ouro, isso é algo profundo e muito significativo. Se você for uma pessoa observadora percebeu que eu sublinhei os termos “filhos de Yisrael”, isso está intimamente ligado com nosso assunto. Apesar de algumas traduções apresentarem outros termos neste trecho, o hebraico, como pode ser visto, traz exatamente o que marquei. Vejamos então a diferença entre os dois momentos:

- Antes do pecado, em Shemot 25:2, o Eterno ordena: Fala aos filhos de Yisrael que me tragam uma oferta; de todo homem cujo coração o mover voluntariamente, tomareis a minha oferta.

Aqui, o convite é universal dentro do acampamento, aceitando a doação de qualquer pessoa motivada de coração.

- Depois do pecado, em Shemot 35:1 e 4-5, a instrução muda: Mosheh reuniu toda a comunidade dos filhos de Yisrael e lhes disse: Isto é o que o Eterno ordenou fazer. Isto é o que o Eterno ordenou: Tomai do que tendes uma oferta para o Eterno; cada um de coração generoso a trará: ouro, prata e bronze...

Agora, o chamado é dirigido especificamente aos filhos de Yisrael, sem mencionar aqueles que estavam no meio do povo, como a erev rav (multidão mista que saiu do Egito com Yisrael). Mas como podemos entender isso, e de onde se tira tal conclusão? Como sempre, observando o texto em um nível mais profundo que o meramente superficial ou literal. Observando os textos em hebraico e os contextos culturais judaicos.

A mudança na ordem divina sobre quem poderia contribuir para a construção do Mishkan (Tabernáculo) após o pecado do bezerro de ouro revela princípios profundos sobre o relacionamento do Eterno com Seu povo. Como vimos acima, antes do pecado, a doação voluntária era aberta a todos os que saíram do Egito, incluindo o “erev rav”, os representantes de 70 nações que saíram com os hebreus; depois do pecado, apenas os filhos de Yisrael foram chamados a participar da doação. Essa mudança não foi apenas um detalhe administrativo, mas uma lição espiritual e profética de grande impacto. Para compreendermos essa transição, exploraremos três aspectos essenciais: a necessidade de um compromisso genuíno; o princípio da purificação após o erro e a conexão entre essa seleção e a restauração através do messias.

Antes de continuar nosso estudo vamos observar o que Bruno Summa, em um de seus comentários dessa parashá no livro Sha’arei Torah – Portões da Torah – Shemot 5, diz sobre este fato intrigante nessa porção.

Ele diz que o nome dessa parashá é divido à maneira única como Moshê se dirige à congregação de Yisrael utilizando o termo “Vayakhel” - וַיַּקְהֵ֣ל - “e convocou”, fazendo uma abordagem que ainda não se tinha visto e que também não se voltaria a ver em toda a Torah. Segundo o autor, todas as vezes que Moshê se dirigia aos “filhos de Yisrael”, a Torah utiliza expressões dos verbos “le’emor – dizer e “ledaber” – falar. Então como normalmente se faz ao estudar a Torah, quando se vê alga que chame a atenção, busca-se mais sobre aquilo. Assim, o autor se pergunta, por que justamente no início dessa parashá, aquela que por vias de fato fala sobre a construção do Mishkan, o símbolo do perdão pelo pecado do bezerro de ouro, Moshê aborda Yisrael através de “Vayakhel”, uma convocação de todo o povo? E no livro o autor faz toda um comentário e apresenta um comentário de Rashi sobre o fato de verdadeiramente não ter sido Moshê quem convocou o povo. No entanto, mais à frente nesse comentário, o autor vai começar a falar sobre a mencionada alteração da ordem do Eterno para os doadores. Ele começa afirmando que a Torah se dá ao trabalho de repetir os detalhes sobre o Mishkan. E que para muitos, as duas últimas parashot são desnecessárias e aparentemente não possuem nada de novo que não havia ainda sido dito. Porém, há um minúsculo detalhe logo no primeiro versículo que serve para mudar completamente a forma como a repetição sobre a construção do Mishkan deve ser compreendida.

Segundo o autor, o capítulo 35 repete a doação que HaShem já havia ordenado anteriormente para a construção do Mishkan, mas se compararmos ambos os momentos, aquele que ocorreu antes do pecado do bezerro de ouro com aquele que ocorreu após o pecado, veremos que há um detalhe que diferencia ambas as situações profundamente. O autor mostra os versos que já citamos acima, e explica que enquanto no capítulo 25, quando o Eterno fala sobre a doação que o povo deveria levar para a construção do Mishkan, Ele diz que a doação deveria ser feita por “kol ish” – todo homem, no entanto, no capítulo 35, após o pecado do bezerro de ouro, o Eterno diz que a doação deveria ser feita pelos “bnei Yisrael” – filhos de Yisrael. Isso é, antes do pecado, HaShem estava aceitando a doação de todo homem, Yisrael e erev rav, porém após o pecado, HaShem apenas aceitaria doações de Yisrael e não mais de estrangeiros. Estes foram os que levaram Yisrael a transgredir e cometer idolatria, por isso, agora o Eterno mudou sua forma de agir e estabelece uma divisão profunda por trás do mandamento da Tzedakah. A idolatria associada às nações do mundo, mesmo aquela entre aqueles que servem a HaShem por outros meios que não seja pela Torah, impurifica a alma humana e o torna como um membro do erev rav. E, o autor continua, como membro desse grupo, sua doação se distingue da doação que HaShem demandou a Yisrael, uma distinção vista na forma como HaShem retribui quem faz a doação. Ou seja, a Torah está dizendo que a Tzedakah é um ótimo mandamento para que um homem saiba em que lado ele está, se ele é Yisrael ou se ele é erev rav. Com tudo isso, percebemos que o Eterno olha para a kavanah, a intenção do coração do homem. Ele vê quem realmente deseja servi-lo e quem está ligado à idolatria. E se HaShem sabe quem são os fiéis, Ele os chama a um compromisso, vejamos então como se dá o chamado.

1. O Chamado para um Compromisso Genuíno

No primeiro chamado para as ofertas, em Shemot 25:2, o Eterno diz: Fala aos filhos de Yisrael que me tragam uma oferta; de todo homem cujo coração o mover voluntariamente, tomareis a minha oferta.

Esse convite aberto refletia a fase inicial da jornada de Yisrael, onde ainda havia uma inclusão ampla de todos que estavam no meio do povo, incluindo a erev rav (multidão mista) que saiu do Egito junto com eles. O Eterno queria que todos tivessem a chance de se aproximar e participar da construção do lugar de Sua presença.

Porém, o pecado do bezerro de ouro demonstrou que nem todos no meio do povo estavam verdadeiramente comprometidos com Ele. Muitos ainda carregavam influências da idolatria egípcia, e isso ficou claro quando o povo, pressionado pela erev rav, construiu o ídolo. Você pode se perguntar: Mas o Eterno não sabia que o erev rav faria o povo transgredir? Sim, sabia. Porém, era preciso mostrar na pratica que aqueles que não tem um coração voltado ao Eterno, não permanece no meio do seu povo, por mais que desejem.

Após esse episódio, a ordem muda em Shemot 35, onde Moshê se dirige apenas aos filhos de Yisrael, excluindo aqueles cuja lealdade ao Eterno era questionável. Isso nos ensina que o serviço ao Eterno não pode ser feito por aqueles que ainda não decidiram abandonar a idolatria e a rebeldia. E também comprova que nem todos que dizem querer servir ao Eterno, realmente vá servir.

Esse princípio é ecoado pelos profetas, como em Yirmiyahu/Jeremias 7:9-10, onde o Eterno repreende os que tentam servi-lo sem um coração puro: Roubareis, matareis, e adulterareis, e jurareis falsamente, queimareis incenso a Baal, e andareis após outros deuses que não conhecestes, e então vireis e vos apresentareis diante de Mim, nesta casa que se chama pelo Meu nome, e direis: Estamos salvos! – apenas para continuardes a cometer todas essas abominações?

O Eterno exige um compromisso genuíno, não apenas palavras ou rituais vazios. Ele chama os de coração íntegro para firmarem um verdadeiro compromisso de seguir suas palavras por amor e dedicação.


2. O Princípio da Purificação Após o Erro.

O pecado do bezerro de ouro exigiu uma purificação no meio do povo. Moshê deixa claro que a separação entre os que estavam verdadeiramente ao lado do Eterno e os que permaneceram rebeldes era necessária. Em Shemot 32:26, ele faz um chamado decisivo:

Quem é por HaShem, venha até mim!

Essa mesma separação pode ser vista nos ensinamentos de Yeshua. Em Matityahu (Mateus) 7:21-23, ele alerta que não basta dizer "Senhor, Senhor", mas é preciso fazer a vontade do Pai: Nem todo aquele que Me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em Teu nome, e em Teu nome não expulsamos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres?' Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci. Afastai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade!

Fazer a vontade do pai é cumprir Torah, obedecer aos seus mandamentos, viver segundo o caminho que ele preparou. A purificação após o erro não é apenas um conceito do TaNaK, mas uma verdade espiritual contínua. O Eterno sempre dá a oportunidade de retificação, mas exige ação concreta e mudança de coração.

O mesmo princípio é reforçado em Ma’assei HaShlichim (Atos dos Emissários) 3:19, onde Kefa exorta o povo: Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham tempos de refrigério da presença do Eterno.

Ou seja, não basta estar entre o povo – é preciso estar purificado e comprometido para realmente fazer parte da obra do Eterno. As doações para a obra, ou seja, seu tempo, dedicação, e vida, precisam ser de alguém que verdadeiramente esteja purificado, fazendo teshuvah. Isso é o apontamento para o futuro, quando o messias retornará e implantará o Reino do Eterno restaurando todas as coisas para o Eterno, e os purificados farão parte dele.


3. O Mishkan e a Restauração Messiânica

O Mishkan não era apenas um local físico, mas um símbolo da presença do Eterno entre o Seu povo, já estudamos sobre isso. Em Shemot 25:8, Ele declara: E Me farão um santuário, e habitarei no meio deles.

Isso aponta proféticamente para a restauração messiânica, onde o propósito final do Eterno é habitar novamente entre o Seu povo, ou seja, dentro de cada indivíduo.

A exclusividade da doação para a construção do Mishkan após o pecado do bezerro de ouro tem um paralelo direto com a forma como o Reino do Eterno será estabelecido nos tempos do Mashiach. Em Yechezkel (Ezequiel) 44:9, o profeta fala sobre a entrada no Santuário futuro: Assim diz HaShem: Nenhum estrangeiro, incircunciso de coração e incircunciso de carne, entrará no Meu santuário, de todos os estrangeiros que estão no meio dos filhos de Yisrael.

Isso significa que a restauração final não será para aqueles que desejarem estar presentes, mas sem terem tido compromisso com HaShem, mas para aqueles que realmente têm um coração circuncidado, ou seja, um compromisso verdadeiro com o Eterno.

Shaul (Paulo), em Romanos 2:29, reforça esse conceito ao dizer: O verdadeiro judeu é aquele que o é no interior, e a verdadeira circuncisão é a do coração, no espírito, e não na letra; o louvor desse não vem dos homens, mas do Eterno.

Assim como no Mishkan, onde apenas os filhos de Yisrael os fiéis puderam participar da construção, no Reino do Mashiach é a mesma coisa, apenas os que realmente servem ao Eterno, cumprindo sua Torah, em verdade e retidão, terão parte na restauração final.

Concluindo nosso estudo, a mudança na ordem divina para as doações da construção do Mishkan nos ensina uma verdade poderosa: o Eterno oferece oportunidades a todos, mas após a manifestação da idolatria e da rebeldia, apenas aqueles que realmente desejam segui-lo permanecem.

O compromisso com o Eterno precisa ser verdadeiro e ativo – palavras vazias não bastam.

A purificação após o erro é essencial – não podemos misturar santidade com impureza.

O Mishkan era um reflexo da presença do Eterno, e assim será no Reino Messiânico – somente aqueles que têm um coração circuncidado farão parte dele.

Assim como Moshê fez o chamado: Quem é por HaShem, venha até mim!, hoje cada pessoa precisa escolher se realmente quer estar na obra do Eterno ou apenas entre o povo de forma superficial. A prática é mais importante que a aparência.

Que possamos sempre buscar essa verdadeira conexão com o Eterno, com um coração puro e uma vida de obediência!


Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Marcelo Santos da Silva (Marcelo Peregrino Silva – Moshê Ben Yosef)