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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Estudo da Parashá Lech Lechá - Seja amigo do Eterno.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 03 – Lech Lechá (Saia por ti)

Bereshit/Gênesis 12:1-17:27

Haftará (separação) Is 40:27-41:16 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Atos 7:1-8; Rm 3:19-5:6


Seja amigo do Eterno.


Entre tantas pessoas mencionadas pelas Escrituras, poucas brilham com tanta força quanto Avraham, nosso pai na firme confiança (emunáh, ). Sua trajetória não é apenas a história de um homem que ouviu a voz do Eterno e partiu rumo ao desconhecido; é o relato do nascimento de uma amizade, a mais sublime que um ser humano pode ter, a amizade com o próprio Criador. Na parashá Lech Lechá, Avraham é chamado a deixar tudo e seguir um caminho novo. Séculos depois, no contexto da haftará correspondente, o profeta Yeshayahu recorda esse mesmo homem com palavras comoventes: “Mas tu, Yisrael, meu servo, Yaakov, a quem escolhi, descendência de Avraham, meu amigo.” (Yeshayahu 41:8)

Por que o Eterno chama Avraham de “meu amigo”? Que tipo de relação é essa, e o que ela nos ensina sobre como o Eterno se relaciona com aqueles que O seguem de todo o coração? Mais ainda, será que é possível que nós também sejamos chamados “amigos do Eterno”?

Este estudo busca responder a essas perguntas, mostrando que a amizade com o Eterno não é um privilégio distante, mas o resultado de uma vida de confiança, obediência e amor à Sua vontade.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A Parashá Lech Lechá marca um novo começo na história das Escrituras, quando o Eterno chama Avram para sair de sua terra, de sua parentela e da casa de seu pai, rumo a uma terra que Ele ainda lhe mostraria. Com essa ordem — “Lech Lechá”, que significa literalmente, “Sai para ti”, o Eterno inicia uma jornada que mudaria o destino da humanidade. Ele promete a Avram que fará dele uma grande nação, o abençoará e tornará o seu nome grande, afirmando que “em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Em obediência, Avram parte de Haran com sua esposa Sarai e seu sobrinho Lot, levando consigo todos os bens e servos que havia adquirido, até chegar à terra de Kena’an. Ali, o Eterno lhe aparece e promete entregar aquela terra à sua descendência, e Avram edifica um altar para honrar o Nome do Eterno.

Logo depois, uma grande fome obriga Avram a descer ao Egito. Temendo ser morto por causa da beleza de Sarai, ele pede que ela se apresente como sua irmã. O faraó toma Sarai para seu palácio, mas o Eterno intervém, enviando pragas sobre sua casa, e o faraó a devolve a Avram, despedindo-os com riquezas e rebanhos. De volta a Kena’an, Avram e Lot se separam, pois a terra não comportava seus numerosos rebanhos. Lot escolhe habitar nas campinas férteis do Jordão, próximas a Sedom, enquanto Avram permanece nas montanhas de Hebron, onde o Eterno renova Suas promessas e garante a Avram toda a terra que ele pode ver.

Mais tarde, Lot é capturado durante uma guerra entre quatro reis do Oriente e cinco reis do vale de Sedom. Ao saber disso, Avram reúne seus servos treinados e resgata seu sobrinho, derrotando os poderosos reis. Na volta, é recebido por Malki-Tsedek, rei de Shalem, que o abençoa em nome do Eterno. Em seguida, o Eterno firma com Avram o Brit Bein HaBetarim, o “Pacto entre as Partes”, revelando-lhe que seus descendentes seriam estrangeiros em terra alheia, oprimidos por quatrocentos anos, mas que depois sairiam com grandes bens. Como sinal da aliança, o Eterno promete dar à descendência de Avram toda a terra desde o Egito até o Eufrates.

Passados dez anos, ainda sem filhos, Sarai entrega sua serva Hagar a Avram para gerar descendência. Hagar concebe e dá à luz Ishmael, mas o Eterno deixa claro que a promessa se cumprirá através de um filho que nascerá de Sarai. Aos noventa e nove anos, Avram recebe uma nova revelação: o Eterno muda seu nome para Avraham, “pai de uma multidão de nações”, e o de Sarai para Sara, “princesa”. Ele promete que um filho, Yitschac, nasceria do ventre de Sara, e com ele o pacto seria confirmado. Como sinal eterno dessa aliança, HaShem ordena a Avraham a brit milah (circuncisão) de todos os homens de sua casa. Avraham obedece de imediato, selando assim a aliança que marcaria o início da nação que levaria o Nome do Eterno diante de todas as nações.

A Parashá Lech Lechá, portanto, é o início da história do povo de Yisrael e o fundamento de todas as promessas do Eterno. Ela nos ensina sobre a confiança firme e a obediência de Avraham, que, ao ouvir a voz do Eterno e agir segundo Suas instruções, tornou-se o exemplo de quem caminha pela fidelidade e transforma-se em canal de bênção para toda a humanidade.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A parashá Lech Lechá marca um novo começo na história da humanidade. O Eterno chama Avram com as palavras:

Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que Eu te mostrarei.” Bereshit 12:1

Neste chamado, o Eterno estabelece com Avram um vínculo de pacto ou aliança (brit) e uma promessa. Esse pacto não é apenas territorial ou genealógico, é espiritual no sentido da relação e da obediência. O Eterno promete:

Farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.” Bereshit 12:2

Avram responde com ação. Ele parte, constrói altares, invoca o Nome do Eterno e manifesta com sua vida o propósito divino. Essa confiança firme e ativa é a semente de uma amizade profunda. É isso que o profeta Yeshayahu evoca séculos depois, quando Avraham é lembrado não apenas como o patriarca de uma nação, mas como ohavi, “meu amigo”, ou seja, o amigo do Eterno, aquele que amou o Eterno e O fez amado no mundo.

Interessante é que vemos na Torá que isso já ocorria com Adam, antes da queda, quando lemos:

Eles ouviram a voz do Eterno, Elohim, andando no jardim no momento da brisa da tarde, por isso o homem e sua mulher se esconderam da presença do Eterno, Elohim, entre as árvores do jardim.” Bereshit (Gn) 3:8

O Eterno tinha Adam como a um amigo, indo ter com ele à tarde, havia uma ligação muito maior do que uma mera amizade como a conhecemos. Essa expressão nos convida a refletir, o que significa ser amigo do Eterno. As Escrituras, os profetas, os ensinos de Yeshua e as palavras dos sábios convergem em uma só resposta, amizade com o Eterno é comunhão baseada em obediência, confiança e missão. A partir dessa ideia, convido você a continuar lendo esse estudo, onde desenvolveremos o tema em três partes relacionadas a seguir:

  1. Avraham, o amigo do Eterno pela obediência.

  2. O vínculo da amizade nas palavras dos profetas e dos sábios.

  3. Yeshua e os shaliachim, o chamado a ser amigo do Eterno.

1. Avraham — o amigo do Eterno pela obediência

A amizade de Avraham com o Eterno nasce da intimidade do pacto e da obediência incondicional. O primeiro mandamento recebido por nosso pai Avraham — “Sai da tua terra” — exigiu confiança total. Nosso patriarca não discute, não negocia, ele parte. Essa prontidão é o primeiro gesto de amizade, partindo do homem, pois o amigo verdadeiro confia na voz daquele a quem ama.

Em Bereshit 18:17–19, o Eterno declara:

Ocultarei Eu a Avraham o que estou para fazer? [...] Porque Eu o conheço, para que ordene a seus filhos e à sua casa depois dele, a fim de guardarem o caminho do Eterno, fazendo justiça e juízo.”

“Conhecer” do hebraido “yedá” – ידע, aqui significa intimidade, o tipo de conhecimento que nasce da convivência e da confiança. Avraham vive de modo que o Eterno o pode “conhecer”, partilhar com ele Seus planos, confiar-lhe Seu propósito.

A Akedá, o sacrifício de Yitschac em Bereshit 22, é a prova máxima dessa amizade. Avraham se dispõe a oferecer o filho da promessa, e o Eterno responde:

Agora sei que tu és temente a Mim.” Bereshit 22:12.

Os sábios no Talmud no tratado Sanhedrin 89b, dizem que foi nesse momento que Avraham tornou-se “amado” (ahuv) pelo Eterno. A obediência, portanto, não é submissão cega, mas expressão de confiança e amor. É o elo que transforma a aliança em amizade.


2. O vínculo da amizade nas palavras dos profetas e dos sábios

O profeta Yeshayahu diz o seguinte:

Mas você, Yisrael, meu servo, Yaakov, a quem escolhi, descendente de Avraham, meu amigo.” Yeshayahu 41:8.

Ele retoma essa relação única e a estende a toda a descendência de Avraham. Yisrael é lembrado como “descendência de Avraham, meu amigo”, para reforçar que o pacto do Eterno com Seu povo está enraizado em amor e fidelidade, não apenas em mandamentos. A palavra “amigo” aplicada a Avraham, aqui neste texto, não é mero afeto sentimental, é reconhecimento de uma relação de aliança, confiança e responsabilidade.

Há menções riquíssimas sobre Avraham ser chamado “amigo do Eterno” - אברהם אהובי — Avraham Ohavi, em diversas fontes antigas da tradição judaica, como nos Midrashim, Talmud e nos comentários clássicos ao Chumash. Todas elas convergem no mesmo ponto central que também aparece em Yeshayahu 41:8, ou seja, que Avraham recebeu esse título por causa da obediência incondicional, da confiança firme e do zelo em divulgar o Nome do Eterno entre as pessoas com quem tinha contato. Por exemplo no Bereshit Rabbah 44:1, lemos:

O Eterno chamou Avraham de ‘meu amigo’ porque ele amou o Nome do Eterno e o proclamou no mundo inteiro.”

Observe que o sábio mostra que a amizade aqui não é passiva, é ativa, voluntária e até missionária. Avraham é amigo porque leva o Eterno ao conhecimento dos outros. Rashi comenta Yeshayahu 41:8 dizendo:

Aquele que Me amou e Me fez amado sobre a terra.”

Já o Midrash Tanchuma (Lech Lechá 6) acrescenta:

Tu Me amaste mais do que teu pai, tua terra e tua parentela; por isso, Eu te chamarei meu amigo.”

Assim, os sábios ensinam que ser amigo do Eterno é amar-Lhe mais do que tudo e colocá-Lo acima de todos os laços humanos e interesses pessoais. A amizade é a expressão suprema do amor obediente e da entrega total. O Eterno não escolhe Avraham por acaso, escolhe-o para um propósito redentor e para ser canal de bênção, e essa escolha funda uma intimidade que é expressa pelo termo “amigo”.

O próprio profeta Yeshayahu amplia esse entendimento. No capítulo 49:6 fala do servo do Eterno que será “luz para as nações”, retomando a promessa feita a Avraham, que diz: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”, Bereshit 12:3. A amizade de Avraham gera uma vocação, a de ser canal de bênção universal.


3. Yeshua e os shaliachim — o chamado a ser amigo do Eterno

Na Brit Hadashá, Yeshua retoma o mesmo princípio de Yeshayahu 41:8 e o aplica aos seus discípulos. Ele declara:

Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos ordeno.” Yochanan 15:14

Se Yeshua como mashiach, define a amizade com ele nos mesmos termos que o profeta estabelece para o Eterno, é porque a obediência é o princípio a ser seguido. Assim como Avraham foi chamado amigo do Eterno por obedecer, Yeshua chama de amigos aqueles que obedecem às instruções do Pai que ele ensina. A amizade, aqui, é comunhão ativa, é participar da vontade divina. Ele não está se colocando no lugar ou como D’us. Yeshua ainda acrescenta:

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer.” Yochanan 15:15

A relação é de intimidade e partilha, como entre o Eterno e Avraham em Bereshit 18:17. O Mashiach como representante e autoridade designada pelo Eterno traz essa aplicação da amizade. O amigo é aquele a quem o Eterno revela Seus caminhos, e que responde com fidelidade.

O shaliach Yaakov em sua epístola, 2:21–23, faz o paralelo de modo explícito:

Não foi Abraão, nosso antepassado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? Você pode ver que tanto a fé como as suas obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus. Tiago 2:21-23

Yaakov, o irmão de nosso messias Yeshua, mostra que a amizade com o Eterno é viva, manifesta-se em obras de justiça e obediência, e não apenas em palavras. Assim, a amizade que começou em Avraham encontra continuidade nos discípulos de Yeshua, homens e mulheres que caminham na mesma confiança, obedecem à voz do Eterno e buscam manifestar o Seu Nome entre as nações. Cabe a cada um de nós que seguimos os ensinos de Yeshua e guardamos os mandamentos do Eterno, vivermos de modo a ansiarmos por ser amigos do Eterno, assim como Avraham.

Concluindo, vimos que Avraham foi chamado “amigo do Eterno” porque viveu em obediência, confiança e amor. Ele se tornou modelo para todo aquele que deseja caminhar com o Eterno. Ser amigo do Eterno não é título, é modo de vida, significa ouvir Sua voz, guardar Suas instruções e revelar Seu Nome ao mundo por meio das nossas ações. Os profetas e os sábios compreenderam isso, e Yeshua reafirmou a mesma verdade mostrando que a amizade com o Eterno é fidelidade à Sua vontade e participação no Seu propósito redentor.

Que, como Avraham, possamos deixar nossa “terra”, nossos apegos e seguranças, e andar com o Eterno com a mesma confiança firme. Que possamos ser chamados também “amigos do Eterno”, porque O amamos, obedecemos e fazemos com que o Seu Nome seja amado sobre toda a terra. Que sejamos amigos do Eterno.

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Moshê Ben Yosef


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Estudo da Parashá Noach - As águas subiram, um apontamento para a teshuvah.

 



Estudos da Torá

Parashá nº 02 – Noach (Noach)

Bereshit/Gênesis 6:9-11:32

Haftará (separação) Is 54:1-55:5 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 24:36-44; Atos 2:1-16


As águas subiram, um apontamento para a teshuvah.


Entre as muitas narrativas na Torá, que moldam nossa compreensão da vontade do Eterno, narrativas estas que também são proféticas, o relato do dilúvio em Bereshit revela muito mais do que um evento histórico. Ele é uma mensagem eterna sobre a purificação, o arrependimento e a restauração das casas de Yisrael e Yehudah, e de todos que se unem a eles, diante da corrupção. Quando lemos que “as águas prevaleceram e cresceram grandemente sobre a terra, e a tevah (arca) foi elevada acima da terra” (Bereshit 7:18–19), percebemos um profundo mistério, pois nas Escrituras, as águas são um apontamento para a Torá, a purificação. Elas se elevaram acima dos montes, que são apontamentos para pessoas elevadas, dependendo do contexto isso pode indicar pessoas com alto grau de justiça ou obediência, mas em outros contextos indica altivez e arrogâncias humanas. As águas que se elevaram sustentando a arca, representa então o caminho da teshuvah e da obediência. Vêm comigo, vamos aprofundar um pouco mais, fique até o final deste estudo.


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

A parashá Noach revela um tempo em que a maldade e a violência haviam se multiplicado sobre toda a terra. O Eterno viu que toda inclinação do coração humano se corrompera, e decidiu apagar de sobre a face da terra todo ser vivente. No entanto, Noach achou graça diante do Eterno, pois era um homem justo e íntegro em suas gerações, e andava em obediência com o Eterno.

HaShem ordenou a Noach que construísse uma tevah, uma grande arca, de madeira de gofer, com compartimentos e betume por dentro e por fora, para preservar a vida dele, de sua esposa, de seus filhos Shem, Cham e Yefet, e das criaturas que seriam trazidas a ele para serem salvas do dilúvio que destruiria toda a carne. Noach obedeceu exatamente conforme o Eterno ordenara.

Quando o tempo chegou, o Eterno fechou a tevah, e as águas do dilúvio cobriram toda a terra por quarenta dias e quarenta noites. Toda a vida fora da tevah pereceu, mas Noach e os que estavam com ele foram preservados. As águas prevaleceram por cento e cinquenta dias, até que o Eterno se lembrou de Noach e fez soprar um vento sobre a terra, e as águas começaram a baixar. A tevah repousou sobre as montanhas de Ararat, e após meses de espera, Noach soltou um corvo e, depois, uma pomba, até que a terra estivesse seca novamente.

Ao sair da tevah, Noach edificou um altar e ofereceu ao Eterno holocaustos de animais puros. O Eterno sentiu o aroma agradável e declarou que nunca mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, estabelecendo então, uma aliança: nunca mais as águas destruiriam toda a carne. Como sinal dessa aliança, o Eterno colocou o arco nas nuvens, o keshet, como lembrança eterna entre Ele e toda a criação.

Depois do dilúvio, Noach tornou-se lavrador e plantou uma vinha. Ao embriagar-se com o vinho, ficou nu em sua tenda; Cham viu a nudez de seu pai e contou a seus irmãos, mas Shem e Yefet o cobriram respeitosamente. Noach, ao despertar e saber o que Cham fizera, declarou bênção sobre Shem e Yefet e maldição sobre Canaã, filho de Cham.

A parashá também apresenta a genealogia dos filhos de Noach e a multiplicação dos povos sobre a terra. Por fim, narra a construção da torre em Bavel, quando toda a humanidade falava uma só língua e procurava fazer um nome para si mesma. O Eterno confundiu as línguas dos homens e os espalhou sobre toda a terra, frustrando seus planos de se exaltarem.

Assim, a parashá Noach mostra mais uma vez, a justiça e a misericórdia do Eterno: Ele pune a corrupção, mas preserva a vida e renova Sua aliança com a criação, ensinando que a obediência e a humildade diante do Eterno são o caminho da vida.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

A água transbordou sobre a terra e tornou-se profunda, até a arca começar a flutuar sobre a superfície da água. A água sobrepujou a terra com poder; a totalidade das montanhas altas debaixo do céu foi coberta; a água cobriu as montanhas em mais de 7 metros. Bereshit 7:18-20.

A parashá Noach nos mostra o juízo do Eterno sobre uma geração que havia se corrompido e afastado completamente de Suas instruções. Através dos midrashim, os sábios revelam como eram ímpios aqueles homens, que por sua vez, corromperam os animais. Assim, o Eterno, em Sua justiça, envia as águas do dilúvio para purificar a terra, mas preserva Noach, homem íntegro, dentro da tevah, a arca da restauração. Quando a Torá nos diz que as águas cobriram até os mais altos montes, somos convidados a buscar o entendimento escondido por trás das meras letras, ou do conceito literal. Quando passamos a olhas mais a fundo, descobrimos que o conhecimento e a instrução do Eterno sempre se elevarão acima de toda sabedoria humana. Assim como as águas lavaram a corrupção daquele tempo, também a Torá tem o poder de purificar o coração do homem e de restaurar o que foi corrompido.


1. As águas que sobem: a Torá que purifica e domina

Como sempre procuramos mostrar, as Escrituras Sagradas ou seja, o TaNaK, sempre vai revelando, desde a Torá, passando pelos profetas, pelos escritos até a Brit Hadashá, os planos do Eterno para a restauração das Casas de Yisrael e Yehudah. Nesse contexto que estamos estudando, sobre os apontamentos proféticos da elevação das águas e da tevah sobre as montanhas mais altas, serem a Torá elevando e purificando os que fazem teshuvah acima da corrupção dos sistemas religiosos, não é diferente. Vemos os profetas frequentemente comparando o conhecimento do Eterno às águas que cobrem a terra, as montanhas. Yeshayahu declarou:


Porque a terra se encherá do conhecimento do Eterno, como as águas cobrem o mar Yeshayahu 11:9.


Quando as águas do dilúvio se elevaram acima das montanhas, enchendo toda a terra, isso apontava para o tempo em que o conhecimento do Eterno venceria toda soberba, toda estrutura humana que se ergue contra a Sua vontade, a Torá. Assim como a chuva desce e não volta sem cumprir o seu propósito, como vemos nas palavras de Yeshayahu, a Torá, comparada à água viva, desce para lavar e transformar, veja:


Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei. Yeshayahu 55:10,11


2. Os montes: a altivez do homem e a humilhação diante do Eterno

Os “montes” frequentemente representam autoridades, reinos e pessoas elevadas aos seus próprios olhos. O profeta Yirmeyahu escreveu:


Todo vale será exaltado, e todo monte e outeiro serão abatidos Yirmeyahu 4:23–24.


No dilúvio, até os montes mais altos foram cobertos, mostrando que diante do Eterno não há grandeza humana que possa permanecer quando Ele traz juízo. Da mesma forma, o homem altivo precisa ser submerso nas águas da Torá, permitindo que sua altivez seja purificada pela obediência. Na Brit Hadashá, Yeshua ensinou:


Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado Mattityahu 23:12.


As águas que cobriram os montes revelam que a verdadeira elevação não vem da grandeza humana, mas da submissão ao Eterno, em obediência à sua Torá.


3. A Arca: lugar de restauração e teshuvah

A arca não apenas preservou Noach e sua família, ela simboliza o processo de teshuvah. Entrar na tevah era afastar-se da corrupção e confiar no propósito do Eterno. Assim também, aquele que se refugia na obediência à Torá encontra abrigo em meio às águas do juízo. O profeta Yechezkel falou da restauração que viria quando o Eterno “aspergisse água pura sobre o povo” e lhes desse “um coração novo” em Yechezkel 36:25–26.


Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.


Essa promessa se cumpre sempre que o homem se volta para o Eterno com sincera e obediência. A Brit Hadasháh ecoa esse mesmo princípio: Yeshua falou de “nascer da água e do espírito de obediência”, ou seja, de ser purificado por uma nova conduta, firmada nas instruções do Eterno, como vemos em Yochanan 3:5.

A tevah é, portanto, o abrigo do arrependido, sustentado pelas águas da Torá que o elevam acima da corrupção e purificam as impurezas desse mundo.

Concluindo nosso estudo, podemos entender que a elevação da arca sobre as águas nos ensina que a restauração vem quando permitimos que a Torá cubra todas as áreas da nossa vida. Os montes, símbolos de orgulho, poder e autossuficiência no contexto da corrupção, são submersos para trazer purificação, e para que apenas o que é puro e verdadeiro permaneça. Assim como Noach encontrou graça porque andava com o Eterno, também nós somos chamados a andar em obediência, deixando que Suas águas nos purifiquem e nos elevem em teshuvah. Quando a Torá prevalece sobre nós, não somos destruídos pelas águas, mas sustentados por elas, e então, como a arca que repousou em terra firme, depois de algum tempo, também repousaremos na aliança do Eterno, e seremos a cada dia, renovados e restaurados vivendo em retidão diante Dele, até chegar o momento da plenitude futura, quando todas as profecias se cumprirem plenamente.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!

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Moshê Ben Yosef


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Construindo Laços que Agradam ao Criador — Um manual prático para casais, famílias e comunidades.

 


Construindo Laços que Agradam ao Criador — Um manual prático para casais, famílias e comunidades.

Em um tempo em que os relacionamentos parecem frágeis e superficiais, o livro “Construindo Laços que Agradam ao Criador”, de Moshê Ben Yosef, surge como um farol de sabedoria e esperança.

Inspirado nos princípios eternos da Torá, o autor nos convida a redescobrir o propósito original dos vínculos humanos, com o Eterno, com a família e com o próximo.

Mais do que um guia teórico, esta obra é um manual de vida.

Ela mostra, de forma simples e profunda, como aplicar as instruções divinas em todas as áreas do relacionamento humano, desde o namoro e o casamento até as amizades, o convívio familiar e as relações sociais.

Cada capítulo traz ensinamentos práticos e inspiradores:
✨ Como desenvolver uma comunicação respeitosa e verdadeira;
✨ Como compartilhar responsabilidades e construir parcerias equilibradas;
✨ Como cultivar intimidade e afeto de forma pura e saudável;
✨ E como viver os valores da tsedakah — a justiça e generosidade que refletem o caráter do Criador.

O autor também dedica um capítulo especial aos jovens, apresentando os “Dez Mandamentos do Namoro” — princípios sábios para quem deseja viver relacionamentos guiados pelo Eterno, livres de superficialidade e baseados em respeito, fidelidade e propósito.

Ao longo das páginas, somos conduzidos a uma jornada de autoconhecimento e restauração, aprendendo que amar verdadeiramente é um ato de obediência, de entrega e de fé.

Os exemplos das Escrituras ganham vida em aplicações práticas para o mundo moderno, mostrando que é possível construir laços sólidos mesmo em tempos de inconstância.

🌿 “Construindo Laços que Agradam ao Criador” é mais que um livro — é um convite à transformação.

É um chamado para restaurar o amor, o respeito e a harmonia em nossos relacionamentos, começando dentro de nós mesmos.

💫 Não é apenas sobre amar — é sobre amar do jeito certo.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Estudo da Parashá Bereshit - Não houve morte de animal no Éden: O engano sobre as túnicas de pele.

 


Estudos da Torá

Parashá nº 01 – Bereshit (Em um Princípio)

Bereshit/Gênesis 1:1-6:8

Haftará (separação) Is 42:5-43:10 e

B’rit Hadashah (Aliança Renovada) Mt 1:1-17; 2Pe 3:3-14


Não houve morte de animal no Éden: O engano sobre as túnicas de pele.


Sejam bem vindos a mais um ciclo de estudos da Torá, que é dividida em 54 porções anuais, chamadas parashiot no plural, já que seu singular é parashá. Cada parashá tem um nome que a caracteriza e nos revela importantes ensinos do Eterno para seu povo. Essa parashá, a primeira do ciclo que recomeçou essa semana, chama-se Bereshit, que literalmente podemos traduzir como “Em um princípio”. E tendo em vista este significado gostaria de trazer à tona uma instrução que a Torá traz e que é muito mal interpretado nos meios religiosos que usam a bíblia como livro base. Desejo trazer o princípio da existência do ser humano, e nisso mostrar o estado anterior, perfeito e luminoso, mas também esclarecer que depois da queda o Eterno agiu com bondade e deu-lhes pele para cobrir seu corpo, e não uma roupa feita de couro de animal. Isso mesmo caro leitor, mostrarei que não foi morto um cordeiro para que eles tivessem roupas para vestir. Vem comigo até o final desse estudo, e poderá entender um pouco mais a respeito desse assunto, e ainda acrescentará se assistir a live de comentário desse estudo no meu canal no YouTube (https://youtube.com/SouPeregrinonaTerra)


RESUMO DA PARASHÁ DA SEMANA

O Eterno, pela Sua palavra, trouxe à existência todas as coisas. Em seis dias Ele organizou o caos: separou luz e trevas, águas e firmamento, terra e mares, e fez brotar toda planta e fruto. Criou os luminares nos céus, as criaturas do mar, as aves e os animais da terra. No sexto dia, formou o homem à Sua imagem (b’tzelem Elohim) e lhe concedeu domínio sobre toda a criação, instruindo-o a frutificar, multiplicar-se e guardar a terra. No sétimo dia, o Eterno cessou Sua obra e abençoou o Shabat (descanso), separando-o como sinal entre Ele e os filhos dos homens, um tempo de descanso e lembrança da criação.

O Eterno formou Adam do pó da terra e soprou nele o fôlego da vida. Plantou um jardim no Éden e o colocou ali para cultivar e guardar o que lhe foi confiado. Vendo que o homem estava só, o Eterno formou Chaváh, auxiliadora e companheira, e os uniu como um só ser.

A serpente levou Chaváh a duvidar da palavra do Eterno. Ela comeu do fruto e deu também a Adam. Com isso, a harmonia se rompeu. A vergonha, o medo e a separação entraram na criação. O Eterno julgou a serpente, a mulher e o homem, e da terra brotariam espinhos e a dureza da terra levaria o homem ao suor, ao cansaço e a fadiga. Mesmo após o erro, o Eterno os revestiu de vestes de pele e os enviou do jardim, para que aprendessem a andar em obediência fora dele, aqui começa a teshuvah na prática.

Hevel ofereceu ao Eterno das primícias de seu rebanho, e Caim do fruto da terra. O Eterno atentou para Hevel, porque sua oferta veio com coração puro e obediente, mas rejeitou Caim, que não possuía um coração obediente como de seu irmão e por isso se encheu de ciúme e o matou. Mesmo assim, o Eterno marcou Caim para que ninguém o matasse, mais uma vez, misericórdia em meio ao juízo.

A Torá então nos mostra as descendências: Set (Shet) substitui Hevel e dele nasce uma linhagem de homens que começam a invocar o Nome do Eterno. Com o tempo, porém, a corrupção se espalha, e muitos homens se inclinam ao erro, levando o Eterno a constatar que “toda a inclinação do coração do homem era má continuamente”. Contudo, Noach achou graça aos olhos do Eterno, pois era um homem justo e bom em sua geração, separado da violência e da corrupção que enchiam a terra.


ESTUDO DO TEXTO DA PARASHÁ

No meio dessa porção da Torá, encontramos o primeiro drama do ser humano. O Eterno o havia feito correto e perfeito, cheio de luz que vinha do caráter de HaShem, dando-lhe algo diferente dos demais seres criados nesta terra, o poder de escolha. E com isso, deu ao homem uma instrução que logo foi rejeitada em prol de um desejo gerado pela inclinação para o mal, a serpente. Com isso, o homem antes cheio de luz, agora percebendo sua queda notou que estava nu, a luz não estava mais ali. A palavra do Eterno se cumpre e o homem morre após seu pecado. Depois de três dias o Eterno os refaz demonstrando misericórdia e oportunidade para o homem retornar a Ele. Algo interessante, pois Yeshua sendo justo acaba morto, mas ao terceiro dia o Eterno também o ressuscita. Lembre-se que os relatos da Torá são como profecias que apontam para o futuro, por isso, não estão exatamente em ordem cronológica. Este ato de criar túnicas ou roupas de pele relatado no texto, está ligado com a formação do ser humano após a queda. Veja o texto:

E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu. Gn 3:21

Apesar de tudo que aconteceu e da trágica consequência de seu pecado, ou seja, a morte, o Eterno aplica uma de suas mais marcantes características divinas, o amor. E podemos ver isso aqui, no início da Torá e também no fim dela, na porção que estudamos na semana passada, em Devarim 34:6. Isso é dito por um dos comentaristas da Torá, observe:

A Torá tem no seu princípio um ato de amor: “E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu.” E no fim, um outro: “E sepultou-o (o Eterno a Moshê) no vale, na terra de Moav” (Devarim 34:6) “A beneficência é uma das coisas sobre a qual se sustenta a humanidade.” (Midrash Ialcut 23)...(Comentário de Rodapé da Torah da Editora Sefer, pág 9)

No Chumash Plaut, a Torá da UJR, também há um comentário de rodapé sobre esse contexto, observe abaixo:

Ibn Ezra relata as diversas tentativas de explicar como a pele do animal passou a ser utilizada no jardim do Éden e conclui que não precisamos investigar cada ação do Todo Poderoso. Ele também sugere que “roupas para pele” é uma interpretação possível. O Targum Yonatan especula que era a pele trocada pela serpente. (Comentário de Rodapé página 26).

Na mesma Torá, há outro comentário sobre o assunto e diz o seguinte:

Dois sábios talmúdicos, Rav e Samuel, discutiram sobre o versículo que diz que D’us fez “roupas de peles para Adam e sua mulher”. Rav explicou que D’us os vestiu com algo “derivado de pele”(lã), enquanto Samuel o leu como “roupas para o bem da pele”. Ambos então concordaram que a pele de animais não foi o material do qual D’us fez as roupas. (Talmud Tratado Sotá 14a).

Há ainda muitas palavras ditas pelos sábios em midrashim comentando sobre a pele que o Eterno dá ao homem e à mulher. Estes comentários rabínicos advém da Torá Oral, são variações e falas diferentes, pois ela não pode ser escrita, então se utiliza de técnicas antigas com palavras chaves e histórias para guardar a verdade, que não posso aqui escrever e nem falar em live tais detalhes. Porém, apesar de tanto conhecimento que os judeus possuem e já transmitiram, conforme mostrei acima, ainda assim, o sistema cristão em todas as suas vertentes, despreza tudo e afirma que o Eterno teria matado um animal para fazer as roupas para o casal. Isso, segundo eles, gerou o primeiro sacrifício de animal para cobertura de pecado. Infelizmente, essa informação não poderia estar mais enganada. Vejamos então nos tópicos seguintes o contexto correto de todo esse ensino da Torá.


1. O Homem Criado em Luz e Pureza

No primeiro dia o Eterno cria a luz. Ela já fazia parte de si, pois está implícita em seu caráter. A Torá, em Bereshit 1:26-27, deixa claro que o homem foi criado b’tzelem Elohim, “à imagem de Elohim”. Essa expressão não fala simplesmente da forma física, pois o Eterno não tem forma, mas fala também do caráter e da essência moral, isto é, justiça, misericórdia e pureza. Percebemos aqui a demonstração que, enquanto andavam na obediência, o homem recém criado refletia a or – אור (luz) do Criador, a Torá. Por isso, antes da transgressão, não havia vergonha na nudez (Bereshit 2:25), pois a luz que havia neles não os permitia notar isso, e era do seu interior para o exterior que vinha esse revestimento de luz.

Quando o homem desobedeceu, a luz (or com alef – אור) foi perdida, e o Eterno providenciou e cobriu seu corpo, estando agora, ele “vestido de pele” (or com ayin – עור). Literalmente no texto em hebraico é assim que está escrito o termo pele. A diferença da letra na palavra é profunda, pois simboliza a transição da glória para a materialidade, da pureza para a condição de impureza e mortalidade. Antes um ser puro e próximo do Eterno, agora fraco e tendo que se esforçar muito para voltar a estar próximo do seu Criador. Aqui começa a Teshuvah para o homem.

Rav Shaul HaShaliach, conhecido como apóstolo Paulo, era um proeminente conhecedor da Torá e de seus segredos, tanto que também falou sobre esse assunto nesse contexto, observe:

Pois da mesma forma como em Adam todos morrem, no Mashiach todos serão vivificados. 1 Coríntios 15:22

Quando você semeia, não semeia o corpo que virá a ser, mas apenas uma simples semente, como de trigo ou de alguma outra coisa. Mas D’us lhe dá um corpo, como determinou, e a cada espécie de semente dá seu corpo apropriado. 1 Coríntios 15:37,38

Assim está escrito: “O primeiro homem, Adam, tornou-se um ser vivente”; o último Adam, espírito vivificante. 1 Coríntios 15:45

Quando lemos todo o contexto dessa carta de Paulo, entendemos o assunto da ressurreição e sobre como será os corpos dos justos no futuro. O primeiro homem é Adam, literalmente, aquele que foi criado em luz e santidade, mas caiu, o segundo Adam, é uma referência ao Mashiach Yeshua, criado em corpo mortal e com propensão ao erro, mas que fez o caminho oposto do primeiro, obedecendo em tudo, se tornando o exemplo de justiça. Por isso é tido, por Paulo nesta carta, como espírito vivificante, ou seja, ruach, mover ou poder que dá vida. Depois de observarmos com clareza a verdade, vamos para o que o engano diz.


2. O Engano: a ideia da morte de um animal

A doutrina que ensina que o Eterno matou um animal como sacrifício para vestir o homem não se encontra em lugar algum da Torá. Essa ideia foi introduzida muito tempo depois, especialmente por interpretações externas à tradição judaica, que buscavam vincular o texto a um dogma criado a partir de uma má interpretação do sistema de sacrifícios para cobertura de pecados pela culpa. Observe o erro em um comentário de rodapé da Bíblia Vida Nova diz sobre o verso que estamos estudando em Gn 3:21:

A tentativa feita pelo homem de cobrir-se com folhas, era tão inadequada como o desejo de desculpar-se pelo pecado. A provisão de D’us, fazendo-lhes vestimentas de peles, é o primeiro vestígio da exigência divina de uma vítima sacrificial que ofereça uma cobertura (propiciação: heb caphar) capaz de promover a reconciliação. (Bíblia Vida Nova, página 9).

Vou lhe apresentar um outro comentário que carrega o mesmo erro doutrinário, observe:

D’us, porém, lhes fez “túnicas de peles”, e assim ensinou, por uma figura, a necessidade da morte de uma vítima inocente para que o pecador pudesse ficar coberto e justificado perante D’us. “Sem derramamento de sangue não há remissão de pecados.” e em folhas de figueira não há sangue derramado. (A Bíblia Explicada, S.E McNair, Editora CPAD 1997, pág 20.).

Como disse, esta linha de raciocínio interpretativa vai contra o ensino da Torá a respeito de kapará, por sacrifícios. O objetivo do sacrifício é mostrar a quem foi ofendido, no caso o Eterno, que se está arrependido e quer fazer teshuvah. Como pode alguém pensar que o ofendido, faria ele mesmo o sacrifício para mostrar a si mesmo, que o ofensor (Adam) está arrependido? E notem que é daqui, que os teólogos tiram a bobagem de que JC sendo Deus, vem para fazer expiação dele mesmo, para aplacar a ofensa que o homem fez contra Ele, para que Deus possa ver que o homem se arrependeu. E chamam erroneamente isso de graça salvadora.

O texto é claro ao dizer que o Eterno fez “roupas de pele”, mas isso não é por acaso, e não está falando de uma roupa, como uma camisa ou uma túnica em si. A palavra no original fala de cobertura - כָּתְנוֹת – katenot, seu significado literalmente, cobrir como faria uma camisa, casaco, veste ou manto. Mas observe que sua raiz é katheph indicando que significa vestir a partir do ombro como extremidade superior, ou seja, desde cima. Indica também suporte apoio, isto significa que a cobertura era para cobrir e apoiar ou dar suporte ao homem, e isto em si, nos mostra a pele e não uma mera roupa. Além disso, a própria palavra pele, que está ligada a este termo que acabamos de ver confirma isso. Observe que pele é עור – or – significando também esconder, couro e pele. Esse termo é usado literalmente para pele humana, e em Ex 34:29, foi usada para descrever a pele do rosto de Moshê que brilhava, ou seja, estava irradiando luz divina, como Adam antes da queda. Com isso, podemos entender ser claro que o que o texto quer dizer é que o Eterno cobriu o homem com peles, pois antes era luz. A pele de carne cobriu o homem, até que volte no tempo certo, se fizer teshuvah, a ter corpo de luz novamente. Veja o que diz o verbo pela boca do profeta Yeshayahu:

É grande o meu prazer no Eterno! Regozija-se a minha alma em meu D’us! Pois ele me vestiu com as vestes da salvação e sobre mim pôs o manto da justiça, qual noivo que adorna a cabeça como um sacerdote, qual noiva que se enfeita com joias. Isaías 61:10

Portanto, sem informações claras como estas, os teólogos sugerirem que o Eterno matou um animal, naquele momento seria contradizer própria instrução de HaShem. Eles não levam em consideração também que a instituição de sacrifícios já vinha da Torá oral, pois Hevel oferece, tempos depois, oferta ao Eterno, dos animais que criava. Essa instrução não veio da confecção de uma roupa.

O que aconteceu, então?

O Eterno não matou, mas revestiu, criou uma nova cobertura para o homem, adequada ao seu novo estado. O homem deixou de ser envolto em luz e passou a ser envolto em matéria, carne, pele, limitação e mortalidade. Esse é o verdadeiro sentido de “kotnot ‘or” — vestimentas de pele, isto é, o corpo perecível que cobre o ser verdadeiro, agora sujeito à dor, ao tempo e à morte.

A ideia de “cobrir” é um tema recorrente nas Escrituras, isto é, no TaNaK, observe alguns paralelos:

- Tehilim 32:1 - Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, cujo pecado é coberto.

- Mishlei 10:12 - O amor cobre todas as transgressões.

Não há sangue, nem morte de animal aqui, mas transformação de condição, de vergonha para retidão, ou seja, vida de justiça através da obediência. No caso de Adam e Chaváh, a palavra se cumpriu, eles morreram literalmente como já disse, e se sangue é vida, a deles se foi, se esvaiu na morte, houve então remissão, e o Eterno os trouxe de volta a vida, agora diferente do que eram antes, para viverem de forma diferente, com a promessa de que um seria capaz de retornar perfeitamente ao Eterno e levar consigo, outros que viverem como ele, isto é, o messias e seus seguidores.

Nos escritos nazarenos vemos Yeshua também ensinando esse mesmo princípio, de maneira coerente com o TaNaK. Quando ele ensina a parábola do filho pródigo em Lc 15, conta que o pai, na parábola diz: Trazei depressa a melhor veste e veste-o. O pai não exige sacrifício, apenas cobre a vergonha do filho com amor. Também Rav Shaul escreve: … e se revistam da nova natureza, criada para a piedade, que expressa em si mesma a justiça e a santidade procedentes da verdade. Ef 4:24. Vemos aqui, o mesmo conceito, pois revestir é ser restaurado ao caráter do Eterno, não ser coberto por morte. Dessa forma, o que os escritos ensinam é retorno à luz, não dependência de sangue físico. A morte de um animal não é o fim, o retorno à obediência sempre foi o caminho para a volta da luz.


3. O Ato de Amor e Misericórdia

Mesmo após a desobediência, o Eterno não deixou o homem morto, mas lhe restaurou a vida e o revestiu com pele, permitindo esforçar-se para viver o que não conseguiu em glória, e o enviou para continuar seu caminho, com a possibilidade de retorno (teshuvá). Foi um gesto de chesed, benevolência pura, de amor.

E como vimos anteriormente, a Torá começa e termina com atos de chesed:

  • No início: “E fez o Eterno Elohim para Adam e sua mulher, túnicas de pele e os vestiu.” (Bereshit 3:21)

  • No fim: “E o Eterno o sepultou no vale.” (Devarim 34:6)

O mesmo Eterno que cobre a nudez de Adam é o que cobre o corpo de Moshê, com misericórdia apesar de não lhe ter permitido entrar na terra. Do princípio ao fim, a Torá é revestimento de misericórdia.

Que o Eterno os abençoe e até o próximo estudo!


Moshê Ben Yosef